Novos satélites e novas técnicas de detecção irão dificultar tentativas de “liberar geral” na Amazônia brasileira

bolsonaro fogo

Um dos fatos tidos como mais importantes para os esforços para controlar o avanço das temperaturas, o controle das taxas de desmatamento nas florestas tropicais, vem recebendo instrumentos cada vez mais poderosos para que se possa avaliar a situação. Um exemplo disso são as novas gerações de satélites com níveis de resolução cada vez melhores que permitem a avaliação do impacto de atividades que, até recentemente, não eram corretamente detectadas.

É por isso que as declarações recentes do futuro ministro do Meio Ambiente do governo Bolsonaro, o advogado Ricardo Salles, de que nem todo o desmatamento novo é desnecessariamente ilegal podem ser facilmente verificadas de modo a serem suportadas ou negadas.  Não adianta, assim, tentar tampar o sol com a peneira porque os instrumentos para a verificação científica de determinadas declarações não só já existem, como estão evoluindo rapidamente.

De toda forma, é preciso ressalvar que os dados recentemente compilados pelo jornalista Maurício Tuffani (do site Direto da Ciência) sobre a evolução temporal do desmatamento na Amazônia brasileira são apenas parciais em termos da degradação dos biomas ali existentes (ver tabela abaixo mostrando que 19,9%  da floresta já foi removida na Amazônia), na medida em que medem apenas o percentual perdido com corte raso [1].

desmatamento

Esse alerta é importante porque existem outras formas agudas de degradação, as quais podem servir como motores de desmatamento, incluindo a extração de madeira e as diferentes formas de garimpo (como os de ouro e diamante).  Além disso, algumas dessas formas de degradação estão induzindo a ocorrência de incêndios florestais, os quais servem para aumentar ainda mais o tamanho das áreas cuja vegetação perde a capacidade de oferecer serviços ambientais e de autossustentação [2[. 

Em outras palavras, o que já parece ruim quando se apresentam os dados de corte raso das florestas é ainda pior quando se considera que os processos de degradação florestal podem causar danos também severos, além de facilitar a ocorrência futura de novos eventos de remoção total da vegetação.

A boa notícia (se é que se pode chamar assim) é que as ferramentas para a detecção dos processos de degradação estão ficando cada vez mais robustos, e os dados estão sendo gerados com confiabilidade cada vez mais maior para toda a bacia Amazônica, como bem demonstrou o estudo recentemente liberado sobre o alcance da mineração ilegal de ouro  que mostrou a existência de uma verdadeira epidemia de garimpos clandestinos naquela região [3].

Alguém mais cético poderá se perguntar de que adianta termos esse aumento na capacidade na detecção dos diferentes processos de remoção e degradação das florestas amazônicas tendo um ministro como Ricardo Salles comandando o meio ambiente e um presidente eleito que faz questão de manter ignorante sobre o debate internacional em curso sobre o que fazer para conter as mudanças climáticas. A resposta aqui é simples: de nada adiantará os governantes brasileiros serem negacionistas, pois há hoje uma forte pressão para que não haja um retorno a um passado recente onde havia um aceite tático da aplicação de um paradigma que tratava as florestas amazônicas como uma mera fronteira de recursos inexplorados.

Assim, se o Brasil resolver se abster de suas responsabilidades de conservar as florestas da Amazônia é quase certo que decorrerão disso muitas consequências de cunho econômico, não sendo difícil prever a criação de barreiras aos produtos brasileiros saídos de áreas recentemente desmatadas. Aí veremos como se comportarão os que hoje se omitem frente ao avanço das propostas de “liberar geral” na Amazônia brasileira.


[1] http://www.diretodaciencia.com/2018/11/24/desmatamento-na-amazonia-cresce-138-floresta-ja-perdeu-199/

[2] Ver artigo por Matricardi et al (2013), Assessment of forest disturbances by selective logging and forest fires in the Brazilian Amazon using Landsat data , publicado pela revista International Journal of Remote Sensing, que pode ser acessado no link https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/01431161.2012.717182

[3] https://www.dw.com/pt-br/estudo-denuncia-epidemia-de-garimpos-na-amaz%C3%B4nia-brasileira/a-46664874

 

Estudo denuncia epidemia de garimpos na Amazônia brasileira

Levantamento em seis países amazônicos identifica mais de 2.500 locais de mineração não regulamentada, 453 deles no Brasil. Mercúrio usado no garimpo do ouro contamina fauna e populações locais.

    
Garimpo ilegal na terra indígena KayapóBrasil é o país amazônico com mais área indígenas afetadas pelo garimpo ilegal

 

Apesar de décadas de combate à mineração não regulamentada, a Amazônia ainda abriga mais de 2.500 garimpos ilegais, e quase um quinto deles está localizado no Brasil, aponta um mapa divulgado nesta segunda-feira (10/12) pela Rede Amazônica de Informação Socioambiental (Raisg).

“A incidência de mineração ilegal na Amazônia, especialmente nos territórios indígenas e em áreas naturais protegidas, cresceu exponencialmente em anos recentes, com o aumento do preço do ouro”, afirma o secretário executivo da Raisg, Beto Ricardo.

O mapa foi produzido por uma rede de organizações ambientais e não governamentais de seis países amazônicos: Brasil, Bolívia, Colômbia, Peru, Equador e Venezuela. No Brasil, participaram do estudo o Imazon e o Instituto Socioambiental (ISA). Foram compiladas imagens de satélites e notícias publicadas pela imprensa local até 2017, entre outros dados.

O levantamento identificou 2.312 pontos e 245 áreas – cuja extensão é determinada por meio de sensoriamento remoto – de extração ou garimpo de ouro e outros minerais.

“A busca por minerais de valor parece ser uma epidemia, já que ocorre por toda a Floresta Amazônica. Apesar de a mineração sempre ter sido uma atividade regional, sua proliferação atual não é comparável a nenhum outro período da história da região”, diz o estudo.

A Venezuela é o país onde a situação é mais grave, com 1.899 garimpos ilegais. O Brasil é o segundo do ranking, com 453, sendo 321 pontos, e 132 áreas.

“Há uma epidemia de garimpos no Brasil. Estamos falando do impacto sobre a biodiversidade e as florestas, estamos falando sobre o uso de mercúrio, estamos falando do roubo de riquezas dos povos indígenas e do Brasil”, comentou Nico D’Avila, diretor de campanhas do Greenpeace Brasil, ao jornal britânico The Guardian.

Um total de 37 dos garimpos ilegais identificados no estudo está em áreas indígenas protegidas, 18 deles no Brasil. Além disso, 55 áreas naturais protegidas espalhadas pelos seis países amazônicos abrigam pontos de garimpo. Trinta rios são afetados pela mineração ou servem de rota para a entrada de maquinário e insumos para a prática.

Obter ouro é o principal objetivo da mineração ilegal na Amazônia, e a grande quantidade de mercúrio usada para purificar o mineral está contaminando a região.

“As marcas no solo e as águas turvas dos rios são os impactos óbvios da mineração ilegal, mas há um mal invisível que contamina a fauna amazônica e os habitantes da região”, afirma o estudo. “O mercúrio está afetando populações locais e indígenas que vivem perto ou trabalham em áreas de mineração de ouro, assim como aqueles que consomem peixe amazônico como parte de sua dieta.”

No Brasil, a região do rio Tapajós é uma das mais afetadas, assim como o território yanomami, que se estende até a Venezuela. Num estudo realizado com a comunidade yanomami de Aracaçá, na região de Waikás, 92% das amostras de cabelo coletadas continham altos níveis de contaminação, cita a Raisg.

A entidade aponta que o ritmo de expansão da mineração varia de região para região e que locais hoje considerados pontos de garimpo em breve podem se transformar em áreas mais amplas de exploração.

Além disso, é possível que a metodologia usada não tenha captado mineração de pequena escala que afeta as partes mais remotas da Amazônia. A Raig pretende continuar desenvolvendo e atualizando o mapa divulgado nesta segunda-feira.

LPF/ots

FONTE: https://www.dw.com/pt-br/estudo-denuncia-epidemia-de-garimpos-na-amazônia-brasileira/a-46664874

Povos indígenas estão sob ataque porque protegem as florestas e a biodiversidade amazônica

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Já está mais do que claro que os povos indígenas terão vida difícil (que dizer, ainda mais difícil) no governo de Jair Bolsonaro. Afora as declarações contrárias à auto determinação e a soberania territorial dos povos originários, há agora a transformação da Fundação Nacional do Índio (Funai) numa espécie de entidade defunto para o qual não há sequer destino garantido.

Mas qual é o grande problema por detrás da evidente propensão a atacar os direitos dos povos indígenas, em especial os localizados na bacia Amazônica? A explicação mais comum é de que há terra demais para pouco índio, como se não houvesse já terra demais para pouco agricultor, fruto de quase 6 décadas de expansão da fronteira do desmatamento.

A verdade é que a tentação de atacar os povos indígenas se dá por razões essencialmente econômicas, na medida em que as reservas indígenas possuem vastas riquezas florestais e minerais para os quais não faltam interessados, dentro e fora do Brasil. E aí que talvez more um detalhe ainda mais essencial para debates estratégicos acerca não apenas da Amazônia, mas do próprio planeta.

É que as reservas indígenas estão se transformando em ilhas de biodiversidade em meio a uma colcha de retalhos formada por pequenas ilhas de vegetação em meio a vazios gigantescos que representam as áreas desmatadas, supostamente para a prática da pecuária e da agricultura de exportação.  Esse fato fica evidente quando verificamos imagens de satélite onde as reservas indígenas são demarcadas como mostrado na apresentação abaixo.

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Qualquer um que já tenha estudado minimamente o avanço da fronteira agrícola na Amazônia sabe que não seria necessário cortar mais uma árvore sequer para que haja espaço suficiente para a prática agrícola e da pecuária. Na verdade, a área abandonada e improdutiva seria mais do que suficiente para que se elevasse a produção naquela parte do Brasil.

Mas o fato é que o avanço do arco de desmatamento na Amazônia obedece a outros interesses, começando pela especulação de terras e pela aplicação de formas insustentáveis de apropriação de suas vastas riquezas. 

Porém, é interessante notar que o processo em curso na Amazônia brasileira se estende a outras regiões cobertas por florestas tropicais onde o avanço da fronteira também implica em desmatamento e ataques diretos aos povos indígenas e outros grupos que historicamente habitam essas regiões.   Esse fato é mostrado em um artigo científico que acaba de ser publicado pelo “Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America” sob o título “Resource extraction and infrastructure threaten forest cover and community rights” [1]. Nesse artigo, uma atenção especial é dada aos casos da Amazônia, América Central e da Indonésia, e os problemas mostrados são basicamente os mesmos. 

Mas destaco a figura abaixo onde  Anthony Bebbington e seus colaboradores deixam explicito não apenas o papel de contenção das áreas protegidas (as reservas indígenas inclusas) sobre o avanço do desmatamento, bem como os vastos interesses de mineração que estão em jogo, e que explicam a ojeriza demonstrada contra os povos indígenas pelo futuro presidente.

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Fonte: Bebbington et al. PNAS

Como Bebbington e colaboradores alertam, o futuro das florestas tropicais dependerá da capacidade de se organizar os povos que nelas vivem para que garantam seus direitos no controle do território e da forma de uso das riquezas ali existentes. Sem essa proteção aos povos das florestas, o mais provável é que haja não apenas uma maior dilapidação das florestas tropicais e da sua biodiversidade, mas também de um ataque ainda maior aos povos que as protegem.

E no caso do Brasil, por mais paradoxal que possa parecer, de que sindicatos e movimentos sociais do sul e do sudeste se organizem para realizar uma poderosa campanha de defesa das florestas amazônicas e dos povos indígenas que as defendem.


[1] http://www.pnas.org/content/early/2018/11/26/1812505115

O descontrole deliberado do desmatamento na Amazônia

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Terra Indígena Cachoeira Seca do Iriri (PA), campeão do desmatamento na Amazônia | Lilo Clareto / ISA

Do Instituto Socioambiental

Quem se preocupa com o meio ambiente não anda otimista. A notícia do final da semana passada, no entanto, não poderia ser pior: a estimativa preliminar do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) sobre o desmatamento na Amazônia, entre agosto de 2017 e julho de 2018, foi de 7.900 km2, um aumento de quase 14% em relação a 2016-2017, quando foram registrados 6.947 km2. É o maior índice apurado pelo Projeto de Monitoramento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite (Prodes) nos últimos dez anos, o equivalente ao território do Distrito Federal devastado.

Outro sistema operado pelo Inpe, o de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter), que não tem a precisão do Prodes para calcular as taxas anuais de desmatamento, mas permite detectar sua ocorrência mais rapidamente, indicou taxas explosivas de crescimento da destruição da floresta entre agosto e outubro, período não coberto pelo último índice do Prodes e que coincide com a campanha eleitoral. Trata-se de um indício de que a tendência de crescimento do desmatamento deve continuar.

O Pará continua liderando a pressão pela devastação: além de seguir como campeão dos desmates (34% do total da Amazônia), teve um crescimento em sua taxa de 18%. Os novos desmatamentos no Pará se concentram, sobretudo, ao longo dos eixos das BRs 230 (Transamazônica) e 163 (Cuiabá-Santarém), regiões onde também estão grandes projetos de infraestrutura e de mineração, como a hidrelétrica de Belo Monte, a mina de ouro da Belo Sun e a ferrovia Ferrogrão.

O descontrole sobre essas áreas está transformando o antigo “Arco do Desmatamento” num círculo de fogo e devastação que promete separar, definitivamente, as matas remanescentes da Bacia do Xingu, entre o norte do Mato Grosso e o sudoeste do Pará, do resto da floresta amazônica. E é essa a região que os cientistas afirmam ser mais suscetível à “savanização”, ou seja, a transformação da floresta num tipo de Cerrado, com perda de umidade e aumento do potencial de queimadas nas respectivas formações vegetais.

Segundo os dados do Inpe, as terras indígenas (TIs) e as unidades de conservação (UCs) continuam sendo as principais barreiras de proteção à floresta. O desmatamento em seu interior segue pequeno em termos absolutos – 6% do total da Amazônia – e concentrado em regiões críticas. Mas também nelas a aceleração das derrubadas é alarmante: 124% nas TIs e de 48% nas UCs federais, entre 2016-2017 e 2017-2018.

Das dez TI mais desmatadas, cinco estão próximas dos trechos paraenses das duas rodovias, na Bacia do Xingu. No caso das UCs, seis das mais devastadas estão na mesma região.

TI Cachoeira Seca do Iriri (PA), às margens da Transamazônica, segue como a campeã do desflorestamento, com cerca de 5,5 mil campos de futebol destruídos em 2017-2018, um acréscimo de 233% em relação ao período anterior. Somente em outubro, mês não registrado pela taxa última taxa do Prodes, foram desmatados o equivalente a 1,8 mil campos de futebol, mais do que todo o ano de 2017. A área já concluiu o processo de demarcação, mas segue como alvo da especulação e invasão de políticos e grileiros locais.

Outra TI localizada na Bacia do Xingu no Pará, a Apyterewa, também está entre as mais devastadas, com 1,9 mil hectares desmatados em 2017-2018, um aumento de 251% em relação a 2016-2017. A área também já foi totalmente reconhecida e sofre com as idas e vindas do processo de retirada de não indígenas, influenciado também por políticos locais.

Fatores conjunturais, como a taxa de câmbio favorável às exportações do agronegócio e um período de seca maior mais prolongado, além de falhas na fiscalização, podem ter estimulado os desmatadores no último ano. Porém, considerando-se a tendência de alta das taxas desde 2012, a despeito de suas flutuações, elementos político-institucionais ajudam a explicar o problema, como a fragilização do Código Florestal em 2012, a legalização da grilagem por meio do Programa Terra Legal, a execução descuidada de grandes obras e, mais recentes, sinalizações negativas para o meio ambiente produzidas no processo eleitoral, inclusive pelo presidente eleito Jair Bolsonaro.

FONTE: https://www.socioambiental.org/pt-br/blog/blog-do-isa/o-descontrole-deliberado-do-desmatamento-na-amazonia

Sob a liderança de Bolsonaro, Brasil “renega” organizar conferência climática da ONU

E ruma para se tornar pária ambiental mundial.

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O fato era mais do que previsível, mas mesmo assim não deixa de demonstrar os riscos que o Brasil está correndo de se tornar um pária ambiental no planeta. Falo aqui do abandono do pleito de organizar a 25a. Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas (a COP 25) que deverá ocorrer em 2019, agora em lugar ignorado.

É que com o presidente eleito e seu ministro das relações exteriores se alinhando ao presidente estadunidense Donald Trump na negação das mudanças climáticas iria ser mesmo estranho vê-los participando dos trabalhos da C0P25 e, ainda por cima, em solo brasileiro.

Apesar da coerência, essa decisão terá econômicos e políticos para o Brasil mesmo antes de Jair Bolsonaro assumir o poder. O jornal “The Guardian” foi rápido no gatilho e já publicou um artigo na madrugada desta 4a. feira (28/11) sob o título ” Brasil renega em hospedar as negociações climáticas da ONU sob a presidência de Bolsonaro” [1]. A matéria assinada por Jonathan Watts acrescenta, entre outras coisas, que  “a reversão vem dois meses depois que o país concordou em sediar a conferência COP25 em 2019 – e um mês depois que o cético climático de extrema direita ganhou a eleição presidencial brasileira“. 

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O problema para a já combalida brasileira é que esse abandono da COP25 sinalizará para muitos de nossos parceiros comerciais preocupados com as mudanças climáticas que vem mais desmatamento e outras formas de degradação ambiental sob a batuta de Jair Bolsonaro. E, isto, queiram, ou não, Bolsonaro ou seu ministro de Relações Exteriores que optaram por seguir o rumo negacionista do governo Trump, deverá impactar decisões em curso sobre novos investimentos proodutivos no Brasil. É que ao contrário dos EUA, o Brasil não tem nem musculatura econômica nem militar para impor as teses negacionistas sobre as mudanças climáticas.

Aliás, importante nesse caso é ler a nota emitida pelo “Observatório do Clima” que é uma das organizações mais influente nos debates sobre as mudanças climáticas no Brasil [2] . A nota vai na mesma linha de constatar que a opção ideológica de negar as evidências científicas acerca do processo em curso de mudanças climáticas que, no caso do Brasil, deverá atingir a base produtiva agrícola e as populações mais social e economicamente frágeis.

Como bem afirma a nota do “Observatório do Clima”,  o futuro governo federal ao “ignorar a agenda climática, o governo federal também deixa de proteger a população, atingida por um número crescente de eventos climáticos extremos. Estes, infelizmente, não deixam de ocorrer só porque alguns duvidam de suas causas.

Ao latifúndio agro-exportador que tanto depende do comércio exterior, eu sugiro “já ir se acostumando” com a falta de mercados para seus produtos por causa das decisões tresloucados de quem o setor ajudou a colocar no poder.  A ver!


[1] https://www.theguardian.com/world/2018/nov/28/brazil-reneges-on-hosting-un-climate-talks-under-bolsonaro-presidency

[2] http://www.observatoriodoclima.eco.br/nota-oc-sobre-desistencia-brasil-de-sediar-cop25-da-conferencia-clima-da-onu/

 

 

Amazônia: sob as altas taxas de desmatamento se esconde um saque dos recursos das florestas

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O site “Direto da Ciência” publicou no sábado um artigo mostrando que a taxa anual de desmatamento na Amazônia no período de agosto de 2017 a julho de 2018 foi de 7.900 km2, o que também significa um aumento de 13,8% em comparação com o ciclo anterior, (ver figura abaixo) [1]. 

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Quando colocada em apenas em números, a perda da floresta amazônica provavelmente não se apresenta com a devida clareza para quem os lê.  Mas quando se vê, por exemplo, imagens como as mostradas no vídeo abaixo, o impacto (independente da narração) certamente fica mais evidente em termos dos recursos naturais envolvidos.

O que precisa ser dito é que o mostrado no vídeo é apenas uma fração mínima dos recursos madeireiros que estão sendo extraídos na Amazônia brasileiros neste momento, sem que haja o devido controle por parte dos órgãos ambientais e de fiscalização.

Para piorar o que já anda ruim, a velocidade deste processo deverá aumentar ainda mais no governo de Jair Bolsonaro, na medida em que já está mais do que dito que órgãos ambientais como o IBAMA e o ICMBio terão suas funções e atividades ainda mais limitadas. Isto se não forem completamente extintos.

Importa notar que o processo de extração e transporte de grandes quantidades da madeira na Amazônia não é barato e requer uma grande estrutura de suporte. De tal forma, que os envolvidos na mobilização desta máquina de extração não são exatamente pequenos madeireiros que operam a partir de algum grotão amazônico.


[1] http://www.diretodaciencia.com/2018/11/24/desmatamento-na-amazonia-cresce-138-floresta-ja-perdeu-199/

Brasil registra o pior nível de desmatamento anual em uma década

Quase 8.000 km² de florestas foram perdidos até julho de 2018 em meio a alarme O novo presidente, Jair Bolsonaro, piorará a situação

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Ambientalistas alertam que o desmatamento provavelmente se tornará mais agudo quando Jair Bolsonaro se tornar presidente em 1º de janeiro. Foto: Bruno Kelly / Reuters

Por Dom Phillips [1]

O Brasil divulgou seus piores números anuais de desmatamento em uma década, em meio a temores de que a situação possa piorar quando o presidente Jair Bolsonaro, assumidamente antiambientalista, assumir o poder. 

Entre agosto de 2017 e julho de 2018, 7.900 km² foram desmatados, de acordo com dados preliminares do Ministério do Meio Ambiente baseados no monitoramento por satélite – um aumento de 13,7% em relação ao ano anterior e a maior área desmatada desde 2008. A área é equivalente a 987.000. campos de futebol. A notícia foi recebida com consternação por ambientalistas que alertaram que o desmatamento provavelmente se tornaria mais agudo quando Bolsonaro se tornar presidente em 1º de janeiro. “

É muita floresta destruída”, disse Marcio Astrini, coordenador de políticas públicas do Greenpeace Brasil. “A situação é muito preocupante … o que é ruim vai piorar.”

O Ministério do Meio Ambiente informou que o aumento veio apesar do aumento do orçamento e das operações realizadas pela agência ambiental Ibama.

“Precisamos aumentar a mobilização em todos os níveis de governo, da sociedade e do setor produtivo para combater atividades ambientais ilícitas”, disse o ministro do Meio Ambiente, Edson Duarte, em um comunicado.

Mas o governo parece estar indo na outra direção.

Depois de cair por vários anos, o desmatamento começou a subir novamente em 2013, um ano depois que a presidente esquerdista Dilma Rousseff aprovou um novo código florestal que anistia os desmatamentos em pequenas propriedades. O desmatamento aumentou em quatro dos seis anos desde então, inclusive em 2016, ano em que Rousseff foi cassada e substituída por seu ex-vice-presidente Michel Temer.

Temer fez novas concessões a poderosos interesses do agronegócio em troca do apoio de seus representantes do Congresso – incluindo a aprovação de uma medida que legalizou terras que haviam sido ocupadas na Amazônia, um condutor comum de desmatamento. No ano passado, Temer recuou em medidas para reduzir a proteção de uma floresta nacional chamada Jamanxim e uma área protegida chamada Renca, após protestos de ambientalistas, a supermodelo Gisele Bündchen e até a cantora Alicia Keys no festival de música Rock in Rio. 

Movimentos como esses sinalizaram que o congresso brasileiro não estava mais preocupado com o desmatamento, disse Astrini, incentivando o desmatamento.

“Sentimos em nosso trabalho de campo que essas gangues de desmatamento estão muito confiantes de que obterão anistia ou que estão cobertas”, disse ele.

À medida que mais e mais da Amazônia é cortada, a maior floresta do mundo está se aproximando do “ponto de inflexão” – após o que os especialistas temem que ela possa desaparecer.

“Chegará um momento em que o acúmulo desse desmatamento causará um efeito no qual a floresta deixará de ser uma floresta”, disse Astrini. “Os cientistas calculam que isso é entre 20 a 30%. Estamos muito perto dos 20%.

” O Observatório do Clima – uma rede de mudanças climáticas sem fins lucrativos – calculou que, em 2017, 46% das emissões de gases de efeito estufa no Brasil foram devidas ao desmatamento.

Também espera que o desmatamento se agrave quando o novo governo de Jair Bolsonaro começar. Ele freqüentemente atacou o que ele chama de “indústria de multas” de agências como o Ibama, e quer permitir a mineração em reservas indígenas protegidas – algumas das florestas menos destruídas da Amazônia – e até mesmo considerado fazer do ministério do meio ambiente parte do ministério da agricultura.

Bolsonaro desfrutou do apoio do agronegócio e seu ministro da agricultura será liderado por Tereza Cristina, chefe do lobby do Congresso.

Seu ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, argumentou que o aquecimento global é uma trama marxista. Na sexta-feira, seu vice-presidente eleito, general Hamilton Mourão, embora tenha admitido a existência do aquecimento global, disse ao jornal Folha de S.Paulo: “O ambientalismo é usado como instrumento de dominação das grandes economias”.

Bolsonaro apenas recuou sobre os planos de retirar o Brasil do acordo climático de Paris porque os produtores agrícolas argumentaram que a medida arriscou boicotes dos consumidores europeus, informou a mídia local.

“Se o problema está na política e nos políticos e seu poder de decisão, eles precisam ser pressionados”, disse Astrini.


Este artigo foi originalmente escrito em inglês pelo jornal “The Guardian”‘ [1]

O sombrio futuro da Amazônia

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A abordagem ambiental do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, pode ser resumida em uma palavra: exploração. Isso será devastador não apenas para o Brasil – onde dezenas de milhões de cidadãos dependem da Amazônia para alimentação, transporte e meios de subsistência – mas também para o resto do mundo.  

*Por Paulo Artaxo [1]

SÃO PAULO – No mês passado, um Brasil profundamente dividido votou para eleger seu próximo presidente. Diante de uma escolha entre Fernando Haddad, do esquerdista Partido dos Trabalhadores, e o extremista de direita Jair Bolsonaro, os brasileiros escolheram o extremista – um resultado que terá consequências de longo alcance para o meio ambiente, entre outras coisas. 

Com o sólido apoio dos 5% de brasileiros e proprietários de terras rurais mais ricos, Bolsonaro garantiu um apoio popular mais amplo, jogando com os preconceitos e medos das pessoas. Na sua campanha, ele dirigiu-se aos grupos vulneráveis e prometeu reduzir ou eliminar as proteções para minorias, mulheres e pobres. Enquanto isso, ele pretende aliviar as leis de armas restritivas do Brasil, alegando que ao permitir que os cidadãos andem armados, o crime diminuirá.

Quanto ao ambiente, os planos de Bolsonaro podem ser resumidos numa palavra: exploração. Para começar, ele quer reduzir ou eliminar as proteções ambientais na Amazônia, a maior floresta tropical do mundo. E pretende reduzir substancialmente a proteção das terras indígenas que pertencem aos descendentes dos habitantes originais da Amazônia. Irá diminuir as restrições ambientais sobre o uso de pesticidas e sobre o licenciamento para o desenvolvimento de infraestruturas.

“Onde há terra indígena”, disse Bolsonaro em tempos, “há riqueza debaixo dela”Com isso em mente, ele declarou que não serão demarcadas mais reservas indígenas e que as reservas existentes serão abertas para extração.

A agenda de Bolsonaro acelerará dramaticamente a degradação ambiental. A Imazon, uma ONG brasileira, denunciou 444 km2 (171 milhas quadradas) de descampado no passado mês de setembro, um aumento de 84% comparado com setembro de 2017. Os 12 meses totalizam 4859 km2, o maior nível desde julho de 2008. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil, INPE, também anuncia um crescimento na desflorestação –cercade 50% por ano em setembro.

No cenário atual, muitos dos agricultores ou madeireiros que exploram a Amazônia fazem-no ilegalmente, arriscando multas ou sanções. A expetativa de que o novo governo não irá impor leis que proíbam tais atividades, já está, provavelmente, a encorajá-los a intensificar as suas atividades. A partir do momento em que essas leis forem enfraquecidas ou abolidas, pode-se esperar que a desflorestação acelere consideravelmente. A aparente inclinação do governo para impulsionar atividades como a extração de ouro na Amazônia só piorará as coisas.

Há poucas razões para acreditar que Bolsonaro não conseguirá cumprir a sua agenda ambiental destrutiva. Afinal de contas, representantes de extrema-direita, aliados a poderosos lobbies empresariais, dominam o novo congresso do Brasil.

Para tornar ainda mais fácil a destruição do ambiente, Bolsonaro comprometeu-se a fundir os ministérios do ambiente e da agricultura, embora já tenha recuado nessa questão. Ele agora está à procura de um ministro do ambiente que seja aliado dos ruralistas, ou grandes latifundiários, e nomeou um ministro da agricultura que quer levantar as restrições impostas no uso de produtos químicos perigosos na agricultura.

Bolsonaro também prometeu, durante a campanha eleitoral, retirar o Brasil do Acordo climático de Paris de 2015. Embora se tenha afastado dessa promessa, ele acaba de nomear um diplomata anticiência, que nega as alterações climáticas, como ministro dos Negócios Estrangeiros. Isso apresentará algumas dificuldades na candidatura do Brasil para acolher a Conferência das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas (COP25), no próximo ano.

Além de aumentar a vulnerabilidade dos recursos naturais do Brasil à exploração comercial, os cortes inevitáveis no orçamento ambiental sob a liderança de Bolsonaro prejudicam a capacidade do país de responder a desastres como os incêndios florestais. O Brasil já conta com um aumento desse tipo de incêndios –e com a destruição relacionada com os incêndios –devido à expansão da agricultura, a uma fiscalização e a uma vigilância mais frágeis e ao desmantelamento das corporações de bombeiros. Os planos de Bolsonaro irão agravar o problema.

E esse não é o único problema que a agenda de Bolsonaro irá agravar. A desigualdade sócio-econômica aumentará. À medida que o governo dá mais poder sobre a floresta tropical aos grandes empresários, os cidadãos comuns – incluindo pequenos agricultores e moradores urbanos pobres – estão destinados a sofrer.

Mas os ecossistemas do Brasil são importantes para mais do que apenas aquele país – é o guardião da maior floresta tropical do planeta, um repositório de serviços ecológicos para o mundo inteiro, onde a maior parte da biodiversidade da Terra está concentrada. A Amazônia abriga mais espécies de plantas e animais do que qualquer outro ecossistema terrestre do planeta, e as suas chuvas e os seus rios alimentam grande parte da América do Sul. Além disso, as suas centenas de milhares de milhões de árvores armazenam grandes quantidades de carbono.

Nos últimos 100 anos, o Brasil reduziu a Mata Atlântica em mais de 90%, e desbastou 50% do Cerrado e quase 20% da Amazônia. Numa altura em que o Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas está a alertar para o facto de que precisamos de fazer progressos urgentes na redução das emissões de gases de efeito estufa, os planos de Bolsonaro alcançarão exatamente o oposto. Infelizmente para o Brasil, e para o resto do mundo, não há razão para acreditar que ele não possa ou não queira implementá-los.


*Paulo Artaxo é professor de Física Ambiental e chefe do Departamento de Física Aplicada da Universidade de São Paulo. Ele é um especialista nos efeitos climáticos dos aerossóis, particularmente na Amazônia.

Este artigo foi originalmente publicado pelo Projeto Syndicate [1 ]

Risco de savanização da Amazônia exige medidas adaptativas, indica estudo

Segundo pesquisa que contou com a participação da Unicamp, ações nesse sentido seriam benéficas mesmo na hipótese de o fenômeno não se concretizar

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Por Manuel Alves Filho, Fotos: Antoninho Perri/Divulgação, Edição de Imagens:  Luis Paulo Silva

Pesquisas desenvolvidas no Brasil e no exterior apontam para a possibilidade de mudanças climáticas extremas submeterem a Floresta Amazônica a um processo de savanização [forest dieback, em inglês]. Nesse cenário, o ecossistema como é conhecido atualmente daria lugar a campos ralos e árvores esparsas, paisagem semelhante à encontrada nas savanas africanas ou no Cerrado brasileiro. Tal hipótese, formulada há 20 anos e que indica para a perda da maior floresta tropical do mundo, deveria estar deixando os governos dos nove países amazônicos “de cabelo em pé”. Ocorre, porém, que os cientistas ainda têm várias incertezas acerca dessa projeção. Diante dessas dúvidas, o que é mais indicado fazer: aguardar, adotar medidas mitigadoras ou estabelecer ações de adaptação da população da região (30 milhões de pessoas) que seriam benéficas ambiental e socialmente, mesmo que a previsão não venha a se concretizar? A resposta a estas questões estão num artigo que acaba de ser publicado pelo PNAS, periódico científico editado pela Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos [1] .

O primeiro autor do trabalho é ecólogo David Montenegro Lapola, pesquisador do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri) da Unicamp. Além dele, outros 11 cientistas brasileiros e estrangeiros assinam o artigo, que faz uma revisão sobre os estudos publicados em torno da hipótese de savanização da Floresta Amazônica. “Como existem muitas incertezas acerca dessa possibilidade, nós procuramos responder a uma pergunta objetiva: o que fazer frente a esse risco? Analisamos três alternativas e estimamos os custos socioeconômicos relacionados a cada uma delas”, explica Lapola.

Foto: Perri
O ecólogo David Lapola, primeiro autor do artigo publicado pelo periódico PNAS: “A Amazônia é o maior tesouro biológico do mundo e nós estamos correndo sério risco de perdê-la antes que tenhamos aprendido a usar esse tesouro de maneira sustentável a nosso favor”

De acordo com o pesquisador, a alternativa mais exequível é a adoção de ações adaptativas que possam trazer benefícios ambientais e sociais à região amazônica, mesmo que não ocorra o processo de savanização da floresta. “Nós apontamos 20 medidas que seriam importantes nesse sentido, a um custo estimado de US$ 122 bilhões. Entre elas estão o uso de cultivares mais resistentes à situação de seca, o incentivo à produção doméstica de energia por meio do uso de painéis solares e a ampliação da arborização nas áreas urbanas. Também indicamos a necessidade da eliminação do esgoto a céu aberto, como forma de reduzir a proliferação de doenças, e a criação do Comitê da Bacia Hidrográfica do Amazonas, que teria a atribuição de gerenciar os recursos hídricos da região”, elenca Lapola.

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Todas essas providências, pontua o pesquisador do Cepagri-Unicamp, trariam ganhos imediatos e continuariam a ser importantes no caso de o processo de savanização da Amazônia se confirmar. Uma opção à estratégia de adaptação, conforme o ecólogo, seria a adoção de medidas mitigadoras. Dentre elas está a reversão da mudança climática global em curso no planeta – causa da possível savanização da Amazônia -, que seria um processo muito mais complexo e exigiria um esforço global, e não somente dos nove países amazônicos. “Pelas nossas projeções, o custo de um projeto dessa envergadura seria da ordem de US$ 64,2 bilhões. Isso implicaria acabar com o desmatamento e recuperar os 17% ou 18% da floresta que já foram degradados”, afirma.

Ocorre, continua o cientista, que isso não seria suficiente para assegurar a resiliência da floresta frente às mudanças do clima. “Não basta parar de desmatar e recuperar o que já foi degradado. Se os demais países, principalmente as grandes potências mundiais, continuarem emitindo gases de efeito estufa nos patamares atuais, a floresta continuará exposta ao risco de colapso”, pondera. A pior das alternativas, conforme o estudo publicado pela PNAS, seria não fazer nada e esperar para ver o que acontece. Nesse caso, 30 anos depois de configurada a savanização, os prejuízos alcançariam a cifra de US$ 957 bilhões a US$ 3,5 trilhões.

Permanecer impassível diante de tais projeções, reforça Lapola, seria a pior das decisões. “Vale lembrar que esses cenários foram delineados com base em episódios de secas ocorridos na Amazônia ao longo dos últimos anos, situação que se tornará frequente em caso de savanização. Ou seja, nossas análises estão sustentadas por evidências fartamente documentadas, como as secas de 2005, 2010 e 2016”, diz. Lapola observa, ainda, que o fato de o artigo sobre o estudo ter sido publicado neste momento de transição política no Brasil não foi proposital.

Foto: Perri
Boa parte dos dados que sustentaram o estudo foi produzida pelo AmazonFace, programa que investiga os impactos das mudanças climáticas no futuro da Floresta Amazônica

Ele considera, entretanto, que o resultado do trabalho fornece dados importantes para que a sociedade e o futuro governo em âmbito federal reflitam sobre as questões ambientais, que trazem impactos tanto sociais quanto econômicos para o país. “O Brasil precisa decidir que caminho quer adotar em relação a esse problema. A Amazônia é o maior tesouro biológico do mundo e nós estamos correndo sério risco de perdê-la – por causa das mudanças do clima ou pelo corte raso – antes que tenhamos aprendido a usar esse tesouro de maneira sustentável a nosso favor. O estudo fornece bases sólidas para ajudar a orientar a tomada de decisão”, analisa Lapola.

Boa parte dos dados que subsidiaram o estudo foi produzida pelo AmazonFace, programa financiado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) e Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). O pesquisador do Cepagri-Unicamp é o presidente do Comitê Científico do programa, que investiga os impactos das mudanças climáticas no futuro da Floresta Amazônica.

Entre as missões dos cientistas está predizer se, a despeito da tendência do aumento da concentração de dióxido de carbono (CO²) na atmosfera e do possível agravamento das mudanças climáticas, a floresta será capaz de se mostrar ou não resiliente, ou seja, de resistir a essas situações adversas, mantendo-se produtiva e sem perda significativa de biomassa e biodiversidade.

FONTE: https://www.unicamp.br/unicamp/ju/noticias/2018/11/21/risco-de-savanizacao-da-amazonia-exige-medidas-adaptativas-indica-estudo?fbclid=IwAR1Z9VFRW7cZL_y4q3JJU2bt1neZnBhCXF_fbcdRxCEf7lAM4bNtqHC2szw


[1] http://www.pnas.org/content/early/2018/10/31/1721770115?versioned=true

Incêndios na Califórnia como vitrinas das mudanças climáticas

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O estado da Califórnia está sendo devorado neste momento por pelo menos três grandes incêndios, e pelo menos 22 milhões de pessoas estão sob alerta apenas na região sul do estado, que compreende a cidade de Los Angeles e sua região metropolitana.

O que está acontecendo é atribuído a uma combinação de uma seca prolongada que acelera os efeitos de ressecamento do material caído dentro de suas florestas e a intrusão de áreas urbanas para o interior de regiões onde elas são mais abundantes.

Um aspecto menos divulgado é que a atuação de fenômenos climáticos regionais tem servido como uma espécie de alimentador dos incêndios, na medida em que prevalecem ventos de até 80 km que funcionam como grandes ventiladores que terminam aumentando a capacidade de propagação e a intensidade das chamas [1]. 

Colocados juntos todos esses fatores demonstram a força das modificações que estão ocorrendo no clima da Terra, condição para a qual a maioria dos países ainda não está nem próxima do nível de preparação que a situação já está demandando para que se evitem grandes catástrofes como a que está ocorrendo na Califórnia, com pesadas perdas materiais e humanas.

Mas se a Califórnia parece distante demais para que se tenha a noção do tamanho da encrenca, imaginemos então o que acontecerá no comportamento climático do centro sul do Brasil se o ritmo de perda das florestas na Amazônia continuar no viés de alto com propensão a aumentar. É que a comunidade científica brasileira já produziu conhecimento suficiente para que saibamos que poderemos enfrentar um processo de ressecamento que colocará em risco o fornecimento de água nas principais regiões metropolitanas brasileiras [2]. O problema é que até agora predomina a postura de ignorar o óbvio.

Para piorar ainda teremos um governo comandando por pessoas que não apenas ignoram as evidências científicas, mas como também estão dispostas a adotar uma postura negacionista do que já está estabelecido de forma robusta pela ciência do clima. O resultado para o Brasil poderá ser, no mínimo, desastroso. Aliás, para quem se interessa pelo tema do negacionismo que ampara as refutações pseudo científicas sobre as mudanças climáticas em curso na Terra, sugiro a leitura do artigo intitulado “Learning from mistakes in climate research” de Benestad et colaboradores [3].

 


[1] https://www.theguardian.com/us-news/2018/nov/12/california-fires-latest-what-is-happening-climate-change-trump-response-explained

[2] https://jornal.usp.br/atualidades/cientistas-alertam-que-o-planeta-ainda-esta-longe-de-resolver-o-problema-do-aquecimento-global/

[3] https://link.springer.com/article/10.1007/s00704-015-1597-5