Depois de 20 anos da proibição na Europa, MPT quer banir o agrotóxico cancerígeno Atrazina no Brasil

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Com um lapso de duas décadas, o Ministério Público do Trabalho (MPT) entrou com uma ação para finalmente proibir o agrotóxico Atrazina no Brasil, que em 2021 representou sozinho 5% do total de agrotóxicos consumidos em nosso país.  A atrazina é agente químico especialmente pernicioso por ter uma grande mobilidade nos solos, o que faz que haja uma rápida migração para sistemas aquáticos, incluindo os rios de onde se tira a água de abastecimento das cidades brasileiras.

Banido na União Europeia desde 2003 por ter sido associado a uma série de doenças graves, incluindo diversos tipos de câncer, a Atrazina é um herbicida de amplo uso nas grandes áreas de monocultura que se espalham pelo território brasileiro, especialmente as de soja. Segundo, a  professora aposentada Sonia Hess, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a Atrazina é apenas um dos diversos agrotóxicos banidos na Europa que continuam sendo legalmente vendidos no Brasil que são conhecidos por causar diversos tipos de câncer.

Em um webinário realizado ontem pelo Grupo de Trabalho sobre Agrotóxicos da  Rede de Pesquisadores em Geografia (Socio)Ambiental/RP-G(S)A , o professor Wanderlei Pignati (UFMT), os agrotóxicos são parte essencial do motor que move o agronegócio brasileiro (ver vídeo abaixo).

Outro aspecto importante da conexão entre agronegócio e agrotóxicos é o fato de que são empresas da China (principal importador da soja brasileira) que, segundo a Forbes, responderam por 80% do fornecimento da Atrazina vendida no Brasil em 2022, sendo a empresa sino-chinesa Syngenta a principal delas. Essa conexão demonstra que a conexão entre produção e venda de commodities agrícolas tem como consequência o estabelecimento de um modelo agrícola especialmente pernicioso para o meio ambiente e especialmente para a saúde dos brasileiros (ver figura abaixo).

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Desta forma, a eventual proibição da Atrazina deverá ser apenas a primeira de muitas, visto que neste momento o agronegócio está utilizando diversos agrotóxicos altamente perigosos que já foram banidos não apenas na Europa, mas também na China que é hoje o principal produtor de agrotóxicos no mundo. Há ainda que se lembrar que neste exato momento está em tramitação no Senado Federal o chamado “Pacote do Veneno” que promete afrouxar ainda mais a legislação relacionada à importação, produção e exportação de agrotóxicos altamente perigosos, incluindo aqueles que são conhecidos como causadores ou indutores de câncer.

Lamentavelmente o governo Lula até agora vem mantendo a toada adotada pelo governo Bolsonaro e prossegue, contrariando as promessas feitas na campanha eleitoral de 2022, liberando agrotóxicos altamente perigosos em um ritmo acelerado.

Cerrado pede socorro. Fontes que servem comunidades têm resíduos de até nove agrotóxicos

Dado é de uma pesquisa envolvendo a Fiocruz, Comissão Pastoral da Terra (CPT) e Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, entre outras entidades, em localidades no Tocantins, Goiás, Maranhão, Piauí, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Bahia

nascente-contaminadaCada vez mais espremido pelo agronegócio, o Cerrado tem nascentes e cursos d’água totalmente contaminados

Por Cida de Oliveira, da RBA

São Paulo – Considerado o berço das águas no Brasil, o Cerrado está contaminado pelos agrotóxicos presentes em nascentes, rios, lagoas, açudes, represas, cacimbas e até em poços residenciais. Na região onde nascem os rios importantes como o Paraguai, Paraná, São Francisco, Parnaíba,Tocantins, Araguaia, Tapajós e Xingu, entre outros, as comunidades estão bebendo águas poluídas por diversos ingredientes ativos altamente tóxicos despejados sobre os latifúndios de commodities.

A gravidade da situação é tamanha que, dependendo da localidade, é possível encontrar na água de abatecimento um mix de até nove ingredientes ativos. Não bastasse a variedade, amostras demonstram também que se tratam de substâncias altamente tóxicas, em altíssimas concentrações.

Estas são algumas das conclusões de uma série de testes de qualidade da água coletada em sete diferentes regiões do bioma Cerrado. Ou seja, em localidades nos estados do Tocantins, Goiás, Maranhão, Piauí, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Bahia, em zonas de transição ecológica com a Amazônia e o Pantanal. O trabalho conjunto envolvendo a Fiocruz, Comissão Pastoral da Terra (CPT) e Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, entre outras entidades, culminou com o relatório Vivendo em territórios contaminados: Um dossiê sobre agrotóxicos nas águas do Cerrado, lançado esta semana.

Fruto de uma “pesquisa-ação” implementada entre 2021 e 2022, análises toxicológicas e ambientais, o relatório mostra dados no mínimo preocupantes. Na comunidade quilombola Cocalinho, em Parnarama, Maranhão, uma única amostra continha resíduos de Atrazina, Ciproconazol, Difenoconazol, Epoxiconazol, Glifosato, Metolacloro, Picoxistrobina, Piraclostrobina e Trifloxistrobina. Ou seja, nove dos 13 ingredientes ativos encontrados no conjunto das amostras. Entre eles, a Atrazina, Ciproconazol, Epoxiconazol e o Picoxistrobina estão banidos na União Europeia por desencadearem diversos tipos de câncer, malformações fetais e diversas alterações no organismo.

A gente precisa do Cerrado vivo, diz vítima dos agrotóxicos

Na comunidade vivem 170 famílias, cujos antepassados chegaram à região entre o final do século 18 e começo do século 19. Antes de se fixarem ali, percorreram diversos pontos em busca de cursos d’água que ainda estivessem fora dos domínios dos coroneis da época. A cultura praticada ali em pequenas roças é variada: milho, arroz, mandioca, cana-de-açúcar, feijão, maxixe, quiabo, abóbora, melancia, melão, fava, chuchu, pimenta-malagueta, cebolinha, coentro, alface, couve, inhame e batata doce.

Entre elas está a da agricultora Raimunda Nepomuceno. Nesta quinta-feira (1º), em debate na Câmara, ela relatou a grave situação de quem convive com a pulverização de venenos. “Quando falamos dos venenos, falamos de algo muito perigoso que está destruindo as nossas vidas, a natureza. As pessoas sofrem muito, com câncer, doenças de pele. Tomar água com agrotóxicos todo dia, se alimentar de alimento contaminado. É muito difícil pra nossa gente. A gente precisa de ajuda para sobreviver. Com agrotóxicos não temos território, não temos água. A gente precisa do nosso Cerrado vivo. E para isso precisamos proteger”, disse Raimunda, em um apelo.

Um dos cursos de água poluída por agrotóxicos que servem a comunidade Cocalinho. Foto: CPT

O racismo ambiental a que estão as comunidades de Cocalinho e outras inseridas na pesquisa foi alvo de da petição da Campanha Nacional do Cerrado ao Tribunal Permanente dos Povos, em novembro de 2019. No ano passado, o Estado brasileiro foi condenado pelo ecocídio do Cerrado e o genocídio de 15 povos tradicionais e originários do bioma. Foram condenados também governos estaduais, organizações multilaterais e governos internacionais, empresas brasileiras e multinacionais. Inclusive fundos de investimento envolvidos na destruição ambiental e das condições de vida das comudades.

Outros agrotóxicos encontrados nas amostras de água

  • Glifosato– detectado em todos as amostras. A substância foi proibida pela Autoridade Europeia para Segurança dos Alimentos (EFSA) devido à ausência de evidências suficientes para estabelecer limites de segurança para exposição crônica, mas segue autorizada no Brasil.
  • Metolacloro– além de ser proibido na União Europeia, é suspeito de ser desregulador endócrino e sua exposição está associada ao aumento da incidência de tumores, em particular hepáticos. Além disso é considerado perigoso para o meio ambiente.
  • Fipronil – tem como alvos primários o sistema nervoso, a tireoide e o fígado. Foi classificado pela USEPA como um possível carcinógeno humano, devido à ocorrência de tumores na tireoide. Esse ingrediente ativo também está associado a milhares de casos de intoxicação, inclusive graves.
  • Atrazina– o terceiro agrotóxico mais detectado nas análises, presente em todos os estados em ao menos um ciclo de coleta de amostras, exceto no Mato Grosso. No Maranhão, os níveis de atrazina detectados na comunidade de Cocalinho foram mais de 2 vezes superiores ao valor máximo permitido segundo as normativas brasileiras. Dos oito agrotóxicos identificados e quantificados, quatro estão entre os 10 mais comercializados no Brasil em 2021. O glifosato está na primeira posição. O segundo é o 2,4-D, seguido pela atrazina e o metolacloro, na décima posição.

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Este texto foi originalmente publicado pela Rede Brasil Atual [Aqui!].

Observatório dos Agrotóxicos: em novo ato governo Bolsonaro libera mais 50 agrotóxicos e chega a 1.784 em 44 meses

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Em uma demonstração de quando se trata de liberar venenos agrícolas, o governo Bolsonaro pratica a máxima de que “o céu é o limite”. É que com a publicação nesta 3.a feira do Ato No. 38 de 12 de agosto de 2022 foram liberados mais 50 agrotóxicos, chegando ao impressionante total de 1.784 agrotóxicos colocados no mercado brasileiro de venenos agrícolas em apenas 44 meses (uma média de 40,4 agrotóxicos por mês).

Em um rápido exame da lista de agrotóxicos liberados pelo Ato No. 38 identifiquei velhos conhecidos como causadores de doenças graves como o herbicida Atrazina e exterminadores de abelhas como os inseticidas Fipronil e Imidacloprido.

protesto abelhas

Como sempre ocorre na publicação destes atos de liberação, o Observatório dos Agrotóxicos do Blog do Pedlowski irá compilar os produtos liberados e suas principais características, bem o país de origem dos produtos.  De cara noto que o predomínio de empresas chinesas e europeias (principalmente alemãs) continua sendo evidente. Entretanto, em alguns casos, empresas brasileiras como a Nortox já aparecem como fabricantes de produtos técnicos, o que apesar de não ser inédito parece ser um desdobramento a mais da aprovação do Pacote do Veneno pela Câmara de Deputados.

Nos próximos dias o Observatório dos Agrotóxicos irá divulgar as planilhas completas para divulgar os 50 agrotóxicos liberados pelo Ato No. 38 e uma outra com os 1.784 venenos agrícolas liberados pelo governo Bolsonaro.

Entretanto, uma coisa é certa: vem mais veneno na mesa dos brasileiros e o risco sobre as abelhas vai aumentar ainda mais. 

Observatório dos Agrotóxicos: apesar das evidências científicas, governo Bolsonaro libera mais 46 agrotóxicos, totalizando 1734 liberações

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Com a publicação do Ato No. 31 de 28 de junho no Diário Oficial da União desta 6a. feira, o governo Bolsonaro liberou mais 46 agrotóxicos. Agora o total liberado desde 01 janeiro de 2019 é 1.734 agrotóxicos, sendo que uma parcela significativa desses venenos agrícolas é proibida na União Europeia, EUA e China.

Como sempre ocorre, o Observatório dos Agrotóxicos do Blog do Pedlowski irá publicizar a lista completa dessa nova rodade de liberação de agrotóxicos nos próximos dias. Mas já foi possível identificar a presença de “velhas novidades” como é o caso da Atrazina, um herbicida que está banido na União Europeia desde 2004 por ter sido relacionada ao desenvolvimento de doenças graves como o câncer. Mas também há liberação do Fipronil, conhecido por ser devastador para as populações de abelhas.

agrotóxicos

O que se pode notar é que em nome do lucro das grandes fabricantes de venenos agrícolas e do latifúndio agro-exportador, o governo Bolsonaro continua avançando com a liberação de substâncias altamente prejudiciais ao meio ambiente e à saúde humana.

Proibida na União Europeia desde 2004, atrazina em falta deixa em pânico o latifúndio agro-exportador, mas é uma boa notícia para o meio ambiente e a saúde dos brasileiros

AtrazineCHBlogA atrazina é conhecida por ter alta capacidade de contaminar ambientes aquáticos, inclusive aqueles usados para captação de água para consumo humano

Apesar da tsunami de aprovações de agrotóxicos pelo governo Bolsonaro, o setor agro-exportador está vivendo momentos de forte ansiedade por causa do suprimento escasso de fertilizantes e agrotóxicos pelos fornecedores globais.  Essa situação é causada principalmente pelos gargalos logísticos formados pela persistência mundial da pandemia da COVID-19, a começar pela China que está experimentando para fazer chegar seus produtos a outros mercados.

Um caso que mostra o aperto vivido pelo latifúndio agro-exportador é o caso do herbicida Atrazina que motivou hoje manifestações públicas da Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho) e a Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil). É que segundo essas entidades do agronegócio, a falta de atrazina deverá prejudicar a produção dessas duas commodities.

Para quem não sabe a Atrazina foi inicialmente banida na Alemanha em 1991 e na União Europeia como um todo em 2004.  As razões para o banimento da Atrazina são as mais amplas possíveis, já que esse composto causa não apenas alterações ambientais na fauna e na flora, contaminação de sistemas aquáticos, e ainda um amplo conjunto de enfermidades graves que inclui diversos tipos de câncer (por exemplo: ovário, próstata, útero e mamas), alterações no sistema endócrino, afetando ainda fígado e rins, hormônios e o aparelho cardiovascular.

Mas apesar de todos os problemas que são amplamente conhecidos, o latifúndio agro-exportador continua usando a atrazina como se fosse água benta.  Ciente dessa avidez pelo consumo de atrazina, o governo Bolsonaro aprovou nos últimos 3 anos, 30 novos agrotóxicos contendo atrazina. O mais incrível é que nessas liberações a atrazina foi classificada com sendo de Categoria 5 que é aquela que inclui substâncias consideradas como improváveis de causarem dano à saúde humana!

Esses fatos revelam a falta de preocupação dentro do governo Bolsonaro, especialmente no Ministério de Agricultura comandado pela deputada federal Tereza Cristina (DEM/MS), com a saúde dos brasileiros.

Essa falta de atrazina no mercado e os consequentes reclamos das entidades representativas do latifúndio agro-exportador podem ser considerados um fato positivo em meio a tanta desgraça, pois se está faltando esse potente veneno agrícola, menos danos teremos no meio ambiente e na saúde dos brasileiros.

Observatório dos Agrotóxicos: com mais 51 liberações, governo Bolsonaro já despejou 1.316 agrotóxicos no mercado brasileiro

agrotoxicos na mesaUm agricultor pulverizando pesticidas usando um pulverizador de mochila.  Lucas Lacaz Ruiz / Fotoarena / Folhapress

Como venho notando, a persistente crise sanitária que se mistura a uma crescente deterioração do ambiente político brasileiro não está impedindo que o governo Bolsonaro continue com sua tsunami de liberações de agrotóxicos, muito deles banidos em outras partes do mundo.  Com o Ato No. 32 de 16 de julho, o governo Bolsonaro liberou mais 51 agrotóxicos (sendo 35 deles agroquímicos e 16 agrotóxicos de base biológica).

Entre os agrotóxicos liberados, e que são proibidos na União Europeia, estão velhos conhecidos como a Atrazina (disruptor endócrino),  o Metomil (considerado agudamente tóxico pela agência regulatória europeia) e o Tiram (também um disruptor endócrino).  No caso da Atrazina, a nova classificação toxicológica adotada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) coloca essa substância altamente perigosa para a saúde humana como sendo de Categoria 5 (Improvável de causar dano agudo).

Anvisa faz revisão toxicológica de mais de 1.900 agroquímicos

Com a “nova” classificação toxicológica da Anvisa, a maioria dos agrotóxicos altamente perigosos vendidos no Brasil passaram a ser de Categoria 5

Outro aspecto que se repete no Ato No. 32 de 16 de julho é que ele traz a aprovação de mais produtos contendo princípios ativos que já estão amplamente presentes no mercado brasileiro. Parte desses produtos já atingiu a condição de pós-patente, o que implica na sua fabricação fora dos países onde foram originalmente desenvolvidos, principalmente na China cujas empresas se especializaram na produção deste tipo de agrotóxico. Com isso, a China é a origem de 20 dos 35 agrotóxicos de base química, o que reforça a dependência do Brasil em relação ao seu principal parceiro comercial no fornecimento de venenos agrícolas.

Disruptor endócrino

A ingestão de alimentos contaminados por resíduos de agrotóxicos tem causado várias doenças nos brasileiros, a começar pela interrupção do sistema endócrino

Todos esses aspectos da tsunami de agrotóxicos aprovados pelo governo Bolsonaro desmentem as falas iniciais da ministra da Agricultura Tereza Cristina (DEM/MS) no sentido de que essas aprovações permitiriam o uso de agrotóxicos menos nocivos à saúde e ao meio ambiente.  O jeito encontrado para mascarar para os inevitáveis danos acarretados pelo uso de substâncias altamente perigosos foi, como em outros casos no governo Bolsonaro, foi mudar o sistema de classificação toxicológica. Tampouco a promessa de barateamento está sendo cumprida, pois a aquisição de agrotóxicos continua sendo uma das principais fontes de custos dos agricultores brasileiros, principalmente dos que participam do comércio global de commodities. 

Em outras palavras, na economia global dos agrotóxicos, o Brasil está na ponta daqueles que só perdem, apesar do avanço do vício crônico da agricultura de exportação em substâncias que outros países já baniram por causa das consequências desastrosas que acarretam.

Para quem desejar baixar o arquivo contendo a lista de agróxicos liberados pelo Ato No. 32, basta clicar [Aqui!]. Já para baixar a base contendo os 1.316 liberados entre janeiro de 2019 e julho de 2019, basta clicar [Aqui!].

As estratégias de guerra da Syngenta para calar cientistas que investigavam os riscos causados por seus agrotóxicos

Entrevistamos dois cientistas que avisaram a multinacional sobre os perigos dos pesticidas Atrazina e Paraquate, líderes de venda

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Por Pedro Grigori, Agência Pública/Repórter Brasil

Quando um Tribunal dos Estados Unidos tornou públicos arquivos usados em processos da Syngenta, líder do mercado mundial de agrotóxicos, o público teve um vislumbre de até onde a multinacional vai para manter seus valiosos (e perigosos) produtos no mercado. E o que ela se presta a fazer: atacar a ciência e os cientistas.

“Aqueles que têm o privilégio de saber têm o dever de agir”, disse  parafraseando Albert Einstein o biólogo e professor da Universidade da Califórnia Tyrone Hayes, que foi alvo de uma campanha de perseguição da empresa, em entrevista à reportagem. 

“O problema é que a empresa era dirigida por comerciantes interessados ​​apenas no lucro. Se eles tivessem ouvido toxicologistas, não estariam nesta posição muito difícil tentando defender os erros cometidos no passado”, diz o cientista britânico Jon Heylings.

Agência Pública e Repórter Brasil tiveram acesso e-mails, documentos internos, anotações e atas de reuniões apresentadas no processo e conversaram  com Heylings e outro cientista  que protagonizaram disputas durante décadas com a empresa suíça, e explicam como a gigante dos pesticidas ignorou evidências científicas para continuar lucrando. 

Alertando sobre a Atrazina

Por mais de uma década, Tyrone Hayes, dizia estar sendo perseguido pela Syngenta, alegando que a multinacional ouvia suas ligações, monitorava suas palestras e trabalhava para desmoralizá-lo. Ninguém  acreditava nele.

 A história teve início em 1997. A Novartis Agribusiness, uma das empresas que mais tarde formariam a Syngenta, contratou o biólogo para fazer experimentos com o herbicida Atrazina. O produto é o principal agrotóxico utilizado nas plantações de milho dos Estados Unidos. É também o quinto agrotóxico mais vendido no Brasil, com 23,4 mil toneladas comercializadas em 2019, segundo o Ibama. 

O objetivo da pesquisa de Hayes era identificar os efeitos da Atrazina em anfíbios, área de expertise do cientista, que na época tinha 31 anos e mais de 20 artigos publicados sobre endocrinologia de anfíbios. Hayes descobriu que a Atrazina poderia retardar o desenvolvimento sexual de sapos. O resultado desagradou a Novartis, que o proibiu de publicar o estudo.

Com isso, Hayes decidiu deixar a empresa em novembro de 2000. Ele conseguiu um novo financiamento, concluiu o trabalho e publicou estudo revelando que a Atrazina cria sapos hermafroditas.

Em entrevista à reportagem, Hayes conta que desde os primeiros testes no laboratório era possível ver como a Atrazina atingia os espermatozoides dos sapos africanos com garra, anfíbio usado nos experimentos. “Mostrei os resultados para a EPA [Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos] porque achei que eles estariam interessados, já que é o produto número um em vendas. Mas eles disseram que não era um ‘efeito adverso’ que os forçaria a reavaliar aquele produto químico”, diz. 

Então Hayes decidiu ir mais fundo, agora trabalhando com outros cientistas para identificar o efeito do agrotóxico em humanos. Ao comparar a urina de homens de Columbia, nos Estados Unidos, que tiveram contato com Atrazina, o novo estudo  identificou baixa contagem de espermatozóides em um nível que traria dificuldades para a reprodução. “O nível de Atrazina na urina desses homens era a mesma que usávamos para castrar quimicamente os sapos do nosso experimento”, explica.

Em uma nova fase da pesquisa, mediram o nível do pesticida na urina de homens que trabalhavam em plantações na Califórnia aplicando atrazina . Os resíduos detectados foram 24 mil vezes maiores do que o dos homens de Columbia. “Um trabalhador desses poderia fazer xixi em um balde e diluir 24 mil vezes, e mesmo assim a Atrazina na sua urina poderia ser usada para castrar quimicamente girinos”, diz o cientista. 

Esse trabalho é o motivo da perseguição da Syngenta, segundo o biólogo. Na época, ele se sentiu distante de outros cientistas e sentia que a empresa tentava isolá-lo. Em 2010, a multinacional entrou com uma queixa de ética contra Tyrone Hayes  na Universidade da Califórnia, Berkeley. O motivo era a criação de um site contrário a Atrazina e e-mails de reclamações que o cientista enviou à empresa. A queixa de ética foi considerada sem mérito. 

A situação só mudou em 2013, quando uma reportagem do site Environmental Health News em parceria com a organização 100 Reporters revelou documentos internos detalhando uma campanha cara e agressiva contra cientistas, que incluía até a contratação de detetives e profissionais para traçar o perfil psicológico dos perseguidos. E o principal alvo era Tyrone Hayes.

Memorandos provavam que o departamento de comunicação da Syngenta havia criado um grupo de trabalho na empresa para falar sobre o cientista. O objetivo do grupo era “evitar que os dados de TH (Tyrone Hayes) fossem citados, mostrando que ele não era confiável”, segundo anotações do Departamento de Comunicação. No mesmo documento, a ex-chefe de comunicações da Syngenta,  Sherry Duvall Ford, listou estratégias contra o cientista, entre elas a “publicação de críticas de terceiros sobre sua ciência”, “refutações sistemáticas de todas as aparições do TH”, “tornar públicos e-mails” e até mesmo “investigar a esposa”. 

Ele relembra que a empresa sempre negou persegui-lo. “Mas veja os documentos, o primeiro objetivo do programa de ciência era ‘desacreditar Hayes”, reconta. 

Os documentos também mostram que a empresa encomendou um perfil psicológico do cientista, onde o classificaram como “esquizo-paranóico e narcisista”. 

Outro arquivo mostra que a Syngenta estudou comprar o termo “Tyrone Hayes” em sites de busca na internet, levando quem pesquisasse o nome do cientista a encontrar primeiro conteúdos  produzidos pela corporação.

Os documentos vieram a público durante um processo judicial que buscava forçar a Syngenta a pagar por filtros para limpar a Atrazina da água potável em seis estados norte-americanos. A ação coletiva foi encerrada em 2012, e apesar de não admitir a culpa pela contaminação, a Syngenta concordou em pagar US$ 105 milhões para custos de filtragem de mais de mil sistemas de água. 

E Tyrone Hayes  não era o único alvo. Em seu depoimento ao Tribunal do Condado de Madison em Illinois, Sherry Duvall Ford, ex-chefe de comunicações da Syngenta, leu um memorando enviado por e-mail no qual contava que a empresa contratou uma agência de detetives para investigar  membros de um Painel Consultivo Científico da EPA, que na época reavaliavam a Atrazina. 

Os documentos do tribunal revelaram ainda um banco de dados com 130 pessoas e organizações que a empresa pretendia pagar para apoiar a Atrazina. Segundo o documento, as pessoas da lista eram treinadas para defender o agrotóxico, e os pagamentos pelos serviços não seriam divulgados publicamente.

Duas décadas depois da publicação da primeira pesquisa sobre a Atrazina, Tyrone Hayes continua trabalhando em salas de aula, em laboratórios e dando palestras. Em abril, recebeu uma das maiores honrarias da carreira: foi eleito para a Academia de Artes e Ciências dos Estados Unidos, que homenageia artistas e cientistas que ajudaram a resolver os desafios mais urgentes do país. 

A Syngenta também recebeu recentemente uma das maiores honrarias da sua trajetória, quando passou a liderar o mercado mundial de agrotóxicos. De acordo com a FAO/ONU, o mercado mundial de agrotóxicos movimenta US$ 34,4 bilhões por ano, e a Syngenta é dona de um quarto dessa fatia. Desde 2017, quando a empresa foi comprada pela ChemChina por US$ 43 bilhões, o aglomerado estatal chinês tornou-se responsável por 24,3% do mercado mundial. Junto das empresas alemãs Bayer e Basf, e da estadunidense Corteva Agriscience, o chamado “Big 4” responde por 65,8% do mercado mundial. 

Cientista alertou sobre composição do Paraquate

O caso de Tyrone Hayes não foi o único em que a Syngenta teve problemas com um cientista que ela mesma contratou. Um pesquisador britânico veio a público este ano para denunciar uma irregularidade no principal produto da empresa, o Paraquate. 

O cientista britânico Jon Heylings trabalhou 22 anos na Syngenta e hoje é professor de toxicologia na Universidade de Keele, no Reino Unido. Na Syngenta, ele atuava no desenvolvimento de formulações mais seguras para o Paraquate, e está há mais de três décadas alertando a empresa sobre a ineficácia das medidas de segurança no produto. 

Jon chegou a criar para a Syngenta uma formulação mais segura para o Paraquate, que custava mais, e acabou removida do mercado logo após o lançamento no começo dos anos 2000.

Em entrevista à Agência Pública e a Repórter Brasil, Heylings garante que está apenas cumprindo o seu dever como cientista. “Fui trazido para a empresa em 1986  para liderar um projeto sobre formulações mais seguras. Foi por uma boa investigação científica onde  descobri que o emético adicionado aos produtos de paraquate tinham um nível ineficaz”, diz o cientista.

Vendido pela Syngenta pelo nome comercial de Gramoxone, o Paraquate é usado em diversas plantações, como algodão, cana-de-açúcar, milho, café e banana, desde a década de 1960. No Brasil, é o sétimo ingrediente ativo mais vendido, com mais de 16,3 mil toneladas comercializadas apenas em 2019, segundo o Ibama. 

Cerca de 10 anos depois da criação, o produto teve que passar por uma mudança na formulação devido à toxicidade aguda: um gole era suficiente para matar uma pessoa. 

A empresa então adicionou ao herbicida um emético, substância que causa vômito, para diminuir o risco de envenenamento. Com a promessa de maior segurança, o produto foi mantido no mercado. 

Acontece que, segundo Heylings, a concentração de emético recomendada por um estudo pago pela Syngenta em 1976 estava “provavelmente bem abaixo de uma dose efetiva no homem”. Ele sugeriu um aumento na concentração de emético para “reduzir o número de fatalidades atribuídas ao envenenamento por paraquate”. 

Jon informou a Syngenta que o estudo que definiu a concentração do químico teria sido manipulado e pressionou a empresa por uma revisão independente, o que nunca foi autorizado. Em 1991, quando a Syngenta estudava um novo nível de emético, Heylings insistiu mais uma vez. “Considero bem vinda a proposta de uma análise independente da situação para confirmar minhas descobertas”, diz o cientista em um e-mail enviado em 9 de abril de 1991. 

Os e-mails de Jon Heylings, assim como diversos outros documentos internos da Syngenta, foram publicados há dois meses pelos sites Unearthed e da PublicEye na série “Paraquate Papers”. Eles provaram que a empresa recebeu memorando internos com alertas do cientista desde os anos 1990, mas decidiu ignorá-los. 

Um documento interno da Syngenta  determinou que “nenhuma das formulações alternativas atualmente disponíveis oferecem uma solução economicamente aceitável para o problema do suicídio”. 

Em 2018, quando já trabalhava na Universidade de Keele,  Jon descobriu que a Syngenta cancelou o registro do Inteon, versão com mais emético do Paraquate, criado por ele nos anos 1990. “Eles nem me avisaram”, diz. 

Após isso, Jon fez diversas pesquisas sobre o Paraquate e descobriu que a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO/ONU) seguia a mesma concentração emética determinada pela Syngenta para o Paraquate na década de 1970. Jon denunciou o erro a EPA e a FAO/ONU, mas não teve retorno.

Em março de 2020, uma equipe de advogados dos Estados Unidos entrou em contato com o cientista após ler os memorandos sobre o emético de 1991. O grupo estava levando a Syngenta aos tribunais em nome de agricultores que desenvolveram a doença de Parkinson após usar o Paraquate nas plantações. 

Stephen Tillery, principal advogado do processo, disse à Unearthed e a Public Eye que a “questão emética” era parte de seu caso porque demonstrava “até onde esta empresa irá para manter o Paraquate no mercado”. 

“O Paraquate estava prestes a ser banido na década de 1970 por causa do número de pessoas que morreram de forma agonizante por ingeri-lo. Ao alegar que o emético tornaria o uso do Paraquate mais seguro, eles conseguiram mantê-lo no mercado.”, disse o advogado ao site. 

Agora, a denúncia de Jon fará parte do processo, que será julgado no próximo mês. De acordo com a Syngenta, “o argumento de Heylings de que aumentar o nível de emético melhora a segurança do produto é excessivamente simplista; a realidade é complexa e a opinião médica e científica moderna não apóia o ponto de vista de Heylings”. Confira a íntegra da nota da multinacional ao site Unearthed. 

Jon Heylings afirma que a Syngenta segue desconsiderando suas denúncias. “Eles não têm interesse em tentar entender ou lidar com a questão emética porque sabem que estou certo”, conta o cientista. 

O paraquate acabou sendo banido no Brasil no ano passado, apesar do forte lobby da Syngenta, que liderou uma força-tarefa que tentava reverter a proibição. 

Até o banimento, o Gramoxone era vendido com a mesma concentração de emético que a Syngenta estipulou nos anos 70. 

E ela não evita que as pessoas se matem com o Paraquate.

No Brasil, pelo menos 138 pessoas morreram envenenadas por Paraquate na última década, de acordo com dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) do Ministério da Saúde. Número que pode ser muito maior, devido a subnotificação dos casos. 

Procurada pela Agência Pública e Repórter Brasil, a Syngenta Brasil não quis comentar os documentos divulgados e nem o processo de banimento do Paraquate do país.

fecho

Esta reportagem foi inicialmente publicada pela Agência Pública [Aqui!].

Observatório dos Agrotóxicos: com mais 33 produtos técnicos liberados, governo Bolsonaro atinge liberação de recorde de agrotóxicos em 28 meses

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Um dos mais aspectos mais marcantes dos quase 28 meses de governo do presidente Jair Bolsonaro é a persistente onda de liberações de agrotóxicos que estão inundando o mercado brasileiro com produtos banidos nos países que os criaram, começando pela União Europeia, por causarem danos consideráveis sobre a saúde humana e o meio ambiente.  As liberações mais recentes ocorreram com a publicação do ATO Nº 20,  de 8 de ABRIL de 2021 que aprovou a comercialização de mais 33 agrotóxicos do tipo produto técnico. Com essa rodada, o governo Bolsonaro alcançou incríveis 1.172 liberações em 845 dias de governo, o que dá uma média de 1,39 agrotóxicos liberados por dia. Além disso, graças a essa volúpia de aprovações, o Brasil hoje conta com 3.231 produtos disponíveis no mercado, o que implica no fato de que o governo Bolsonaro é responsável por 36% de todos os agrotóxicos passíveis de serem comprados legalmente no Brasil.

Como em outras publicações, o ATO Nº 20,  de 8 de ABRIL de 2021 beneficia fortemente empresas sediadas na China que são responsáveis pela produção de 76%  dos agrotóxicos liberados, incluindo o fato de que uma empresa  localizada em Israel, e que fornecerá um dos agrotóxicos liberados, também agora é controlada por uma estatal chinesa (ver gráfico abaixo).

Ato no, 20 países sede

Outro aspecto recorrente da “tsunami de agrotóxicos” do governo Bolsonaro é a recorrente aprovação de produtos que contém substâncias banidas por terem sido flagradas causando graves danos à saúde humana e aos ecossistemas ambientais. No caso do ATO Nº 20,  de 8 de ABRIL de 2021, 30% dos agrotóxicos estão proibidos na União Europeia.

Tabela substâncias liberadas

Dentre as substâncias liberadas há que se enfatizar pelo menos duas, a Atrazina e o Fipronil, cujos impactos sobre a saúde humana (a Atrazina) e sobre espécies benignas como as abelhas (o Fipronil) estão solidamente documentadas não pela comunidade científica, mas também por órgãos governamentais como é o caso da União Europeia. No caso do Fipronil, que teve sua introdução no Brasil feita pelo governo Bolsonaro, o total de produtos liberados contendo esse princípio ativo chega a 25, o que deverá ter fortes impactos sobre as populações das abelhas em território nacional. No caso da Atrazina, o total de produtos liberados pelo governo Bolsonaro é de 22, apesar de todas as evidências que existem sobre o impacto que essa substância causa vários impactos negativos saúde humana (e.g., a exposição materna à atrazina na água potável foi associada a baixo peso fetal e defeitos cardíacos, urinários, além de retardar o desenvolvimento de fetos e causar a redução na sobrevida dos mesmos. Essa substância também têm sido associada à ocorrência de câncer de mama e de próstata, além de ser considerada um disruptor endócrino). 

O mais problemático disso tudo é que a sinergia dessa verdadeira multidão de agrotóxicos altamente perigosos e seus potenciais impactos sobre a saúde ecossistemas naturais, corpos hídricos e os alimentos que chegam às mesas dos brasileiros está sendo fortemente negligenciada pela mesma agência, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) que continua adotando táticas protelatórias no processo de liberação de vacinas contra a COVID-19, como é o caso da vacina russa Sputnik V.  Pelo jeito, todo o cuidado alardeado pela Anvisa não cobre a aprovação tsunâmica de agrotóxicos, deixando clara qual é a opção que orienta as ações do governo Bolsonaro.

Quem quiser baixar a planilha contendo os 33 agrotóxicos técnicos, basta clicar [Aqui ]. Para os interessados, em baixar a planilha contendo os 1.172 agrotóxicos liberados desde 01 de janeiro de 2019, basta clicar [Aqui!].

Observatório dos Agrotóxicos: aproveitando o caos causado pela pandemia, governo Bolsonaro acelera a aprovação de agrotóxicos

Com mais 39 liberações, governo Bolsonaro alcança 1.139 agrotóxicos liberados desde janeiro de 2019

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Em meio ao avanço catastrófico da COVID-19 e toda a agitação política em torno dos supostos malfeitos cometidos pelo presidente Jair Bolsonaro na condução da resposta governamental à pandemia, os braços executivos do governo federal continuam operando com a agilidade conhecida, especialmente em se tratando da liberação de agrotóxicos. Assim é que , em meio à situação caótica imperando no Brasil neste momento, o Ministério da Agricultura fez publicar no Diário Oficial da União do dia de ontem (13/04), o Ato No. 19 de 07 de abril de 2021 por meio do qual foram liberados mais 39 produtos no mercado brasileiro, totalizando 1.139 liberações desde janeiro de 2019.

Esse ritmo de aprovações não possui nenhum paralelo no que foi praticamente anteriormente, pois essas 1.072 liberações feitas em apenas 26 meses representam 35% de todos os produtos disponíveis no mercado (i.e., 3.197), evidenciando um ritmo para lá de frenético na hora de liberar agroquímicos proibidos em outras partes do mundo por causa dos graves danos que causam à saúde humana e ao meio ambiente.

A propensão de aprovar produtos banidos em outras partes do mundo fica evidente quando se verifica que 28% dos produtos liberados  pelo Ato No. 19 de 07 de abril de 2021 estão proibidos na União Europa. Dentre eles se destacam os conhecidos Fipronil, Acefato, Ametrina e Atrazina. Em conjunto, esses grupos já foram confirmados como causadores de diferentes tipos de câncer e também capazes de alterar substancialmente o sistema glandular humano.

Who's killing the bees? New study implicates virtually every facet of  modern farming - ExtremeTech

Além disso, o Fipronil que é conhecido por causar o extermínio de espécies não-alvo e que são essenciais para a agricultura por serem polinizadores (como é o caso das abelhas) teve mais três versões aprovadas, sendo que agora passamos a ter 24 variações do Fipronil liberadas para comercialização direta ou para emprego na formulação de outros produtos. Em outras palavras, o governo Bolsonaro prepara, apenas com as liberações de Fipronil, uma verdadeira hecatombe para as populações de abelhas no Brasil.

Civil Society Calls on the EU to Prohibit Exports of Banned Pesticides -  Slow Food International

E o mais peculiar é que o grosso dos agrotóxicos estão sendo liberados para uso nas grandes monoculturas destinadas a produzir grãos e outras commodities para exportação, como é o caso da soja, do milho, do algodão e da cana-de-açúcar, reforçando o caráter do Brasil de ser um grande latifúndio operando para servir os interesses das grandes cadeias que controlam o mercado global de commodities.

Quem desejar acessar a base de dados relativa ao Ato No. 19 de 07 de Abril de 2021, basta clicar [Aqui!]. Para os que desejarem baixar a base contendo os 1.139 liberados desde o início do governo Bolsonaro, basta clicar [Aqui!].

Rios brasileiros estão envenenados por agrotóxicos: estudo detecta 32 tipos de agrotóxicos no Rio Dourados (MS) 

Pesquisa monitora resíduos de agrotóxicos nas águas superficiais dos rios de MS

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Levantamento realizado pelo Laboratório de Análises Ambientais da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa Agropecuária Oeste), detectou 32 tipos diferentes de agrotóxicos ou produtos de degradação no Rio Dourados, durante o período de 10 de dezembro de 2019 a 11 de dezembro de 2020. O estudo visa monitorar a qualidade da água das bacias hidrográficas em vários rios do Estado e da água potável de alguns municípios.

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O principal objetivo do estudo é monitorar resíduos de 46 tipos de agrotóxicos e e produtos de degradação em amostras de água do Rio Dourados. A partir dos resultados obtidos será realizado um diagnóstico do nível de exposição do Rio Dourados aos agrotóxicos utilizados nos sistemas de produção da região, fornecendo assim dados técnico-científicos para aprimoramento de políticas públicas ambientais. Além de contribuir no processo de avaliação do risco ambiental de agrotóxicos pelas autoridades regulatórias.

Entre os 32 compostos detectados no Rio Dourados, a classificação com base no seu tipo foi de 15 herbicidas, oito inseticidas, três fungicidas e seis produtos de degradação.

Conforme o estudo, as concentrações de agrotóxicos e produtos de degradação constatadas nas amostras de água do Rio Dourados e previstas na legislação como a  Atrazina, Alacloro e Simazina, não ultrapassaram os valores máximos permitidos pela legislação brasileira. 

Contudo, na maior parte dos agrotóxicos encontrados na pesquisa, os valores Máximo Permitidos (VMP), não são autorizados pela lei brasileira no que se refere à qualidade das águas superficiais. Especialistas que realizaram o estudo alertam para a urgente necessidade de inclusão dos VMP desses agrotóxicos na legislação brasileira.

A pesquisa foi realizada pelo Laboratório de Análises Ambientais da EMBRAPA Agropecuária Oeste, inaugurado por meio de parceria estabelecida por diversas Instituições, entre elas o MPMS por meio da 11ª Promotoria de Justiça do Meio Ambiente. O laboratório monitora a qualidade da água das bacias hidrográficas em diferentes rios do Estado, além da água potável de alguns municípios.

O Ministério Público custeou a construção das cinco primeiras fases da Primeira Etapa do laboratório, enquanto a Embrapa executa o projeto de Monitoramento dos Resíduos de Agrotóxicos em Águas Superficiais do nosso Estado.

Para conferir o estudo completo acesse o link: https://www.embrapa.br/agropecuaria-oeste/.

fecho

Este texto foi inicialmente publicado pelo site jornalístico “CapitalNews” [Aqui!].