Paulo Sérgio Almeida Nascimento, um dos líderes da Associação dos Caboclos, indígenas e Quilombolas da Amazônia (CAINQUIAMA), foi assassinado no dia de ontem (12/03), mesmo após ter pedido proteção por sua vida ao governo do Pará. Paulo Nascimento vinha denunciando desde 2017 as possíveis ilegalidades que cercavam as atividades da mineradora norueguesa Norsk Hydro no Pará [1]
Ainda que seja um caso único no extermínio de lideranças que entram em embate com os interesses de grandes empresas e latifundiários na Amazônia, o assassinato de Paulo Nascimento ganha uma distinção macabra pelo fato de que o governo do Pará ter sido formalmente avisado das diversas de morte que ele sofria por suas denúncias, sem que nada tenha sido feito para evitar a sua morte, especialmente porque os eventuais assassinos possam ser policiais militares (ver ofício abaixo datado de 19 de janeiro de 2018).
Ainda que não possam parecer conectadas, as situações ligando mineradoras à incidentes ambientais e assassinatos de lideranças comunitárias estão ganhando proporções de epidemia no Brasil. E, friso, justamente num momento em que o governo “de facto” de Michel Temer está trabalhando de forma diligente para acabar com o licenciamento ambiental no Brasil, visando principalmente a agilizar as atividades de grandes mineradoras internacionais.
Agora, no caso específico do assassinato de Paulo Nascimento, gostaria de ver o que tem a declarar o governo da Noruega sobre o caso envolvendo uma empresa onde detém grande parte do capital acionário. É que do governo brasileiro, especialmente do governador do Pará, sabe-se que nada de bom pode ser esperado. Mas uma coisa é certa, com a morte de Paulo Nascimento há mais do que alumínio no vermelho da bauxita da Norsk Hydro.
A foto da matéria ilustra duas páginas do jornal impresso. Foto: Adrian Johansen
Maria Salustiana (69) é uma das vizinhas mais próximas dos depósitos de lama vermelha da Hydro no Brasil. Agora tudo que ela quer é pode se mudar com a família.
– Ele tosse sangue. Agora ele está melhor. Ou pelo menos é isso que ele diz, mas acho que ele fala isso para não me preocupar.
Maria Salustiana (69) olha preocupada para o filho adotivo Thiago Carua Lhorizigés (12). Ela mesmo tem fortes dores de barriga, mas não tem dinheiro para pagar os medicamentos que foram prescritos.
Nas últimas três semanas a água do poço da família se tornou um perigo para a saúde.
A poluição da água para consumo de um número indeterminado de pessoas foi percebida logo após uma forte chuva de mais de 200 milímetros na madrugada do dia 17 de fevereiro, que levou a enchentes e grande destruição.
A contaminação da água potável se tornou um caso quente no Brasil — e uma crise para a Norsk Hydro, que opera a gigante refinaria Alunorte na região.
Pesquisadores do Instituto Evandro Chagas (IEC) concluíram há duas semanas atrás que a contaminação foi causada por vazamento da produção da Hydro na região.
– Isso é extremamente perigoso para tudo que é vivo. O que é pior é que isso impacta comunidades que vivem tradicionalmente da pesca e do que a floresta lhes proporciona de renda. Eles usam a água como fonte de água potável e para recreação, afirmou o pesquisador Marcelo Lima do IEC para o DN quando o relatório — que confirmou entre outras coisas pH alto e altos índices de minerais na água — foi publicado.
A Hydro vem negando que o vazamento vem deles.
– Eles dizem que nada aconteceu, mas não acreditamos nisso, diz Salustiana.
A matéria também é manchete na versão online do Jornal.
Pocinho proibido
Ela mora no fim de uma estrada de terra junto com sua filha única Marinete Carina Cardoso Bastos (24), o neto Emanuel (1 mês) e o filho adotivo Thiago. Nas quatro casas vizinhas moram seus filhos e filhas com suas respectivas famílias.Na propriedade há um pequeno poço d’água, onde as crianças costumavam brincar. Agora o poço é zona proibida, depois que membros da família sofreram queimaduras na pele depois de ter contato com a água.
A propriedade faz limite com a área da Hydro, de acordo com a família, e fica a um quilômetro de uma das barragem de rejeitos da Hydro.
– Como vocês podem ter certeza que é a Hydro que tem culpa pela contaminação?
– Nós não temos provas. Mas a água ficou ruim no mesmo dia da chuva forte, e moramos a poucas centenas de metros da barragem. Além disso já passamos por essa situação de vazamento antes, diz Salustiana.
Em 2009, a comunidade local sofreu um vazamento altamente tóxico da barragem de rejeitos. À época, a Hydro era acionista minoritária da empresa proprietária da barragem. Desde 2011, eles se tornaram acionistas principais e responsáveis pela refinaria de alumina Alunorte, a maior do mundo no gênero.
O diretor da Hydro Svein Richard Brandtzæg largou tudo e foi para o Brasil para gerenciar a crise pessoalmente, e a primeira coisa que fez foi visitar os vizinhos, grupos indígenas e população local que vivem no entorno da gigante fábrica da Hydro.
– Esta é a situação mais grave que já vivi em meu tempo como diretor da Hydro, disse ele recentemente ao DN esta semana.
Brandtzæg reafirmou as declarações anteriores da Hydro no sentido de que não é a fábrica deles que é o problema.
– As informações que recebi dos médicos é que não é a fábrica que é o problema. Eles informam que a água de beber e o esgoto estão lado a lado, e foram misturados depois da chuva forte. Ademais, há um grande depósito de lixo nas proximidades onde não há qualquer segurança e que é uma ameaça à agua potável, diz ele.
A Hydro substituiu o seu chefe regional, criou uma força tarefa de gerenciamento de crise e contratou a empresa de auditoria ambiental brasileira SGW Services para fazer uma avaliação independente. Os consultores baseados em São Paulo terão seu primeiro relatório pronto no início de abril. A análise da barragem de lama vermelha deve ficar pronta no fim de abril.
Depois da contaminação ocorrida em fevereiro, tudo que Salustiana quer agora é se mudar com sua família, e afirma que a Hydro ou as autoridades devem assumir a responsabilidade:
– Não quero nenhuma fortuna, mas acho que minha família precisa se mudar daqui. O risco para saúde se tornou muito grande. Além disso, não consigo mais vender a casa, diz Salustiana, que acha que a empresa ou as autoridades deveriam pagar pela casa que a família hoje vive para que eles possam se mudar para outro lugar.
Nas últimas semanas, a família vem se sustentando com galões de água entregues por organizações de ajuda humanitária e órgãos ambientais. 40 litros de água são entregues a cada 15 dias, de acordo com a família, o que é muito pouco para manter a casa.
A Hydro também vem apoiando o fornecimento de água, e o diretor Svein Richard Brandtzæg visitou pessoalmente as famílias impactadas pela contaminação, durante sua passagem rápida por Barcarena durante o fim de semana.
– Foi importante para mim ver com meus próprios olhos, disse ele ao DN depois da visita.
Na quarta feira à tarde o diretor já viajava de volta à Noruega, depois do que a Hydro descreveu como “boas reuniões” na capital Brasília.
Fator-Brasil
As ações da Hydro caíram violentamente na Bolsa desde que a empresa anunciou os problemas no Brasil.
Os problemas se propagam
Os problemas da Hydro no Brasil se propagam e a empresa reduz agora a atividade na mina de Paragominas, a 240 km da Alunorte.
A Hydro ainda não conseguiu encontrar uma solução para a crise na Alunorte, a gigante refinaria de alumina brasileira. O diretor Svein Richard Brandtzæg e a Hydro trabalham agora intensamente para descobrir o que é necessário para que a empresa não mais precise operar a refinaria a meia carga, e para reabrir uma importante barragem de lama vermelha.
De acordo com o diretor de informações da Hydro, Øyvind Breivik, os depósitos de alumina da Alunorte estão quase cheios, e a empresa precisa agora freiar toda a cadeia de fornecimento.
– Vinhamos operando a plena carga em Paragominas até agora, mas os depósitos de bauxita da Alunorte estão quase cheios, então decidimos fazer uma parada de manutenção parcial em Paragominas, de forma que a quantidade de bauxita enriquecida também se reduz para 50% por um período adiante, disse Breivik. Ele destaca que a extração de bauxita em si continua normalmente.
A Hydro extrai bauxita da mina de Paragominas, que é beneficiada antes de ser enviada por um mineroduto de 244 km até a Alunorte, para o refino da bauxita para alumina, o ingrediente principal do alumínio.
A Hydro produziu 6,4 milhões de toneladas na planta da Alunorte o ano passado, a um valor de NOK 18,5 bilhões (R$ 7,6 bilhões). A fábrica é a maior do mundo, e exporta a maior parte da produção para fábricas da Hydro em outras partes do mundo.
Analistas de mercado receiam que a Hydro venha a ficar sem alumina, e tenha que comprar no mercado internacional de seus concorrentes. O analista Eivind Sars Veddeng enxerga dois cenários para a Hydro:
– Eles perdem aquilo que eles deveriam vender no mercado. Se a produção é reduzida a 50%, a Hydro perde 3,2 milhões de toneladas de alumina por ano. Grosso modo, pode-se dizer que a Hydro tem uma margem de 100–110 dólares por tonelada. Isso significa que se você produz a 50% durante um ano, você perde cerca de NOK 3 bilhões (R$ 1,2 bilhão), diz Veddeng.
Ele duvida no entanto que a Hydro venha a ter a mesma margem com a produção reduzida pela metade, ou seja, as perdas devem ser ainda maiores.
Se por um lado a Hydro tem, com a Alunorte a plena carga, alumina em excesso, com a produção reduzida a 50% falta alumina à empresa. Isso faz com que a empresa venha a perder mais quando o preço subir — o que provavelmente vai acontecer por causa dos problemas da Alunorte e de um mercado global já apertado. Ele estima uma perda de mais meio bilhão de NOK (R$ 206 milhões) se o preço da alumina vier a subir 10%.
O analisa Truls Engene do SEB estima para a Hydro uma perda de NOK 400 milhões (R$ 154 milhões) em março. Se o problema persistir, isso custará à Hydro NOK 300–400 milhões por mês (R$ 124–154 milhões) em resultados perdidos.
Engene acredita, no entanto, que a crise não deve durar muito tempo.
-Não devemos subestimar o fator político na situação atual. Mas não se pode esquecer que a Alunorte é uma importante fonte de empregos na região do Pará, então não é do interesse dos políticos que a Hydro corte sua produção por muito tempo e venha a chegar a uma situação em que sejam obrigados a cortar pessoal,
A Norsk Hydro pode não ter provocado a contaminação das águas em torno da sua fábrica de alumina em Barcarena, no Pará, mas é ré nesse processo. Logo, o melhor que pode fazer na situação em que se encontra é esclarecer os fatos. O principal deles se originou do laudo do Instituto Evandro Chagas.
O documento afirma que houve contaminação por rejeitos da lavagem de bauxita, que a lama vermelha pode ter saído para as drenagens exteriores por uma tubulação clandestina, que uma das bacias de decantação do material descartado na produção de alumina operava sem licença ambiental e que a empresa não tinha um plano de emergência para o caso de acidente na fábrica, a maior produtora de alumina do mundo.
A multinacional norueguesa anunciou a contratação de uma auditagem independente para avaliar o acidente, mas o resultado desse trabalho só estará disponível em um mês. Até lá, a operação da bacia não licenciada continuará suspensa e a produção da fábrica, de 6,3 milhões de toneladas (o equivalente a 7% da produção mundial de bauxita), permanecerá restrita à metade.
O feito econômico, financeiro e de imagem dessa punição, pedida pelo Ministério Público e concedida pela justiça do Pará, já é evidente. Compradores internacionais irão buscar outros fornecedores, reduzindo o faturamento da Alunorte e a sujeitando a eventual prejuízo no atual exercício, que mal começa.
Haverá desdobramentos para frente e para trás. A produção do minério de bauxita terá que ser reduzida, assim como a de metal de alumínio, produzido pela Albrás, a indústria vizinha, a 8ª maior do mundo no seu segmento. Haverá perdas nas exportações, com menor receita em dólares.
Não há como poupar a Norsk. O maior vendedor de frangos no mundo, o grupo brasileiro BRF, está desde ontem proibido de exportar por suspeita de corrupção e fraude no controle de qualidade do seu produto. A tolerância a esse tipo de prática acabou, ao menos por enquanto, às vésperas de uma eleição geral no país. Quem errou tem que ser punido e condenado a pagar por seu procedimento incorreto.
Mas não os 8,5 mil empregados das três empresas que a Norsk possui no Pará, muito maiores do que as outras três que são também suas no Brasil, incluindo uma das maiores jazidas de bauxita do mundo. A mesma justiça que deferiu as sanções requeridas pelo MP já foi acionada para garantir os empregos existentes, quaisquer que venham a ser os desdobramentos do contencioso entre a empresa e os órgãos governamentais que a autuaram, a começar pelo Ibama, controlado pelo ministro do meio ambiente, Zequinha Sarney, filho do ex-presidente da república.
Os desdobramentos do alarme dado no dia 17 do mês passado, quando a contaminação dos igarapés próximos aos depósitos da argila contaminada por produtos químicos se tornou visível, poderiam ter sido estancados se a Norsk Hydro tivesse reconhecido as falhas que o laudo do “Evandro Chagas” lhe atribuiu, ou tivesse contestado e contraditado tecnicamente a perícia do instituto, de competência científica reconhecida internacionalmente.
O imediato deslocamento dos principais diretores da empresa na sua sede, em Oslo, até Barcarena, enquanto começava a movimentação de baixa nas suas ações na bolsa de valores, indica a gravidade do problema. A substituição do responsável local pela área ambiental, que admitiu o vazamento de rejeito pela tubulação clandestina, por um executivo da área financeira, não ajudou a melhorar a muito manchada imagem da Norsk, antes associada ao desenvolvimento sustentável. Menos ainda a atuação da sua cúpula nos bastidores em Brasília.
Sintomática foi a iniciativa do governo norueguês, o principal controlador individual da empresa, com 34% das suas ações, de manter distância dos acontecimentos. A Norsk está perdendo tempo e dinheiro – e credibilidade.
A imagem que ilustra este artigo mostra a bacia de rejeitos DRS2 da Hydro Alunorte, em Barcarena (Foto: Pedrosa Neto/Amazônia Real)
*Lúcio Flávio Pintoé jornalista desde 1966. Sociólogo formado pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo, em 1973. Editor do Jornal Pessoal, publicação alternativa que circula em Belém (PA) desde 1987. Autor de mais de 20 livros sobre a Amazônia, entre eles, Guerra Amazônica, Jornalismo na linha de tiro e Contra o Poder. Por seu trabalho em defesa da verdade e contra as injustiças sociais, recebeu em Roma, em 1997, o prêmio Colombe d’oro per La Pace. Em 2005 recebeu o prêmio anual do Comittee for Jornalists Protection (CPJ), em Nova York, pela defesa da Amazônia e dos direitos humanos. Lúcio Flávio é o único jornalista brasileiro eleito entre os 100 heróis da liberdade de imprensa, pela organização internacional Repórteres Sem Fronteiras em 2014.
A reportagem abaixo assinada pela jornalista Pryscila Soares para o Diário do Pará mostra as primeiras evidências sobre a contaminação das águas dos rios e igarapés que recebem despejos da Norsk Hydro no município de Barcarena no Pará.
De forma não surpreendente as análises feitas pelo Instituto Evandro Chagas (IEC) mostram um forte elevação da concentração de alumínio nas águas, mas também do chumbo. Ambos são metais pesados, que são metais individuais e compostos metálicos, que podem impactar a fortemente saúde humana, de forma direta e indireta.
O mais absurdo na contaminação causada pelas operações da Norsk Hydro é que a própria empresa reconhece em seu site oficial que o alumínio causa danos à saúde humana [1], mas, mesmo assim, continuou operando um duto clandestino que despejou sabe-se lá quanto de rejeitos contaminados nos rios e igarapés de Barcarena. Em suma, um belo exemplo do “para inglês ver”. Ou mehor, do “para norueguês ver”.
Há 35 vezes mais alumínio na água de Barcarena que o permitido
Vazamento na barragem teria contaminado rios e igarapés da região. (Foto: Divulgação)
Após a análise de amostras de água coletadas na comunidade Vila Nova, no município de Barcarena, o Instituto Evandro Chagas (IEC) constatou que, naquela área, o nível de alumínio chegou a uma quantidade 35 vezes maior do que a considerada normal, permitida pela legislação ambiental. A quantidade aceitável é de 0,1 mg/l. A água na localidade, próxima da barragem da empresa Hydro Alunorte, apresenta 3,6 mg/l.
A equipe do instituto continua coletando amostras de água no Rio Murucupi e de outras áreas , de onde surgiram novas denúncias de contaminação por rejeitos químicos da Hydro Alunorte, além de coletar os resíduos dentro da própria empresa. A equipe coordenada pelo doutor em Química e pesquisador em Saúde Pública da Seção de Meio Ambiente do IEC, Marcelo de Oliveira Lima, esteve na última quarta-feira (28) no município, auxiliando os trabalhos realizados pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e também da perícia ambiental do Estado.
Mais uma nota técnica deve ser emitida pelo instituto na próxima semana, com novos resultados sobre os impactos da contaminação por rejeitos químicos, oriundos do processamento de bauxita pela empresa Hydro. Segundo Lima, a origem do chumbo é uma das questões que estão sendo analisadas nas novas amostragens. Ele diz que, mesmo em pequenas quantidades, o chumbo pode causar danos à saúde humana. “ Existem suspeitas e os testes vão tentar mostrar qual seria a origem. Mas só poderemos afirmar realmente quando tivermos os primeiros resultados”, pontua o pesquisador.
Ele explica que as imagens de helicóptero mostraram que houve transbordamento nas duas bacias que recebem os rejeitos químicos da empresa, a DRS1 e DRS2, no último dia 17 de fevereiro, quando surgiram as primeiras denúncias de transbordamentos, que afetaram as localidades ao redor do Rio Murucupi.
Porém, o estudioso afirma que serão investigadas novas denúncias. “Compreendemos que o problema é maior do que apontamos no momento de crise. A gente descobriu que pela tubulação clandestina passam quatro tubulações. Efluentes não tratados da DRS1 e DRS2 passam ali”, disse o pesquisador.
DESPOLUIÇÃO
De acordo com o pesquisador, existe a possibilidade de descontaminar o solo e os igarapés afetados pelos rejeitos químicos do processamento da bauxita. Mas, segundo ele, é um processo demorado que requer execuções de diversas ações da empresa, juntamente com a comunidade local e poder público. Uma das ações é afastamento da população do uso da água local.
Ele afirma que, convivendo com tudo isso, a população da cidade precisa de um acompanhamento toxicológico de longo prazo e acompanhamento médico frequente. “Se o funcionário que está lá dentro está em risco, a população toda ao redor também está”, complementa.
Fiscalização localizou encanamento para despejo ilegal. (Foto: divulgação)
OUTRA PERÍCIA
O Centro de Perícias Científicas Renato Chaves também informou que uma equipe de peritos criminais do setor de Engenharia Legal do Centro de Perícias Científicas Renato Chaves se deslocou até a empresa Hydro para realização da perícia de constatação de transbordo da bacia. Durante a perícia, eles analisaram todo o sistema e depósito de resíduos da empresa e a parte florestal, englobando as perícias de danos ambiental e civil que é a estrutura do depósito. No dia 03 de março, a equipe retornará junto com o Instituto Evandro Chagas. Durante estas visitas à empresa, os peritos estão coletando evidências e solicitando documentos específicos para os responsáveis, que serão analisados e anexados aos laudos. No momento, não há previsão para a conclusão do laudo.
Marcelo Lima diz que outras perícias estão sendo feitas para determinar níveis de contaminação. (Foto: divulgação)
SITE DA MINERADORA DIZ QUE EXCESSO DE ALUMÍNIO NO ORGANISMO “TEM EFEITOS TÓXICOS”
O problema da contaminação por alumínio é tão sério que a própria Hydro Alunorte, no seu site, informa que há riscos para a saúde. Na publicação, disponível no link: https://www.hydro.com/pt-BR/a-hydro-no-brasil/sobre-o-aluminio/aluminio-e-saude/, a empresa informa que a maior parte do alumínio que ingerimos por alimentos, bebidas e medicamentos passa pelo sistema digestivo sem ser absorvido. “Ao parecer, não há claras evidências de uma correlação entre a quantidade de alumínio ingerida e a quantidade absorvida em pessoas ‘normais’”, diz. “No entanto, essas evidências não levam em consideração casos em que os limites tenham sido ultrapassados. Na verdade, há estudos que parecem indicar que ingestão e absorção de alumínio em alto grau têm efeitos tóxicos.”
O texto diz ainda que, ao ser absorvido, o alumínio é levado pelo sangue até os rins, onde é rapidamente eliminado. “Pacientes com insuficiência renal, porém, não conseguem eliminar o alumínio, que pode se acumular e causar efeitos tóxicos. Por isso, é importante que as pessoas que sofrem de insuficiência renal usem somente água livre de alumínio, ao fazer diálise”. A matéria mostra que a presença de altos níveis de alumínio no organismo demonstra causar efeitos neurotóxicos, afetar os ossos e, possivelmente, desregular o sistema reprodutor. “Quando o alumínio consumido excede a capacidade do organismo de eliminá-lo, o alumínio fica depositado em nosso corpo e pode causar problemas”, reitera.
Todos conhecem a expressão “para inglês ver” que é usada no Brasil e em Portugal para leis ou regras consideradas demagógicas e que não são cumpridas na prática. Normalmente no Brasil ela sempre vem à mente quando ouvimos alguém falando algo que parece essencialmente correto de ser feito, mas sabemos que não tem a menor chance de vir a ser concretizada, dado o histórico de quem esta fazendo anúncio. Agora, após o incidente ambiental causado pela multinacional norueguesa Norsk Hydro, também teremos a variante “para norueguês ver”. É que diante da emersão de fortes evidências de que a empresa que tem o governo norueguês como detentor de 34% de suas ações foi pega literalmente operando um duto que despejava lixo tóxico clandestinamente nos rios da região de Barcarena [1], eis que o ministro de Comércio, Indústria e Pesca da Noruega, Magnus Thue, solta uma declaração oficial (ver abaixo) onde literalmente tira o corpo norueguês fora do problema. Por que falo isso? É que para que não se lembra, a Noruega cortou pela metade suas contribuições para o “Fundo para a Amazônia” durante uma visita oficial do presidente “de facto” Michel Temer em junho de 2017, como retaliação contra o avanço do desmatamento na bacia amazônica [2]. Pelo jeito a indignação é “para norueguês ver”, na medida que a mesma Norsk Hydro que foi pega com a boca na botija jogando lixo tóxico de forma clandestina em Barcarena, também tem uma pequena parcela de ações da Mineração Rio do Norte, empresa que está sendo acusada de impactar comunidades quilombolas na região de Oriximiná no noroeste do Pará [3]. Além disso, também por meio da Hydro, o governo norueguês é acionista majoritário de duas grandes mineradoras, a Albrás, que produz alumínio a partir da alumina (óxido de alumínio), e a Alunorte, que realiza o processo de obtenção da alumina a partir da bauxita – ambas compradas da Vale[4]. Eu fico só imaginando como ficariam os cidadãos noruegueses, sempre tão ciosos com a proteção de suas florestas e recursos hídricos, se soubessem o que a Hydro (ou seria hidra?) anda aprontando na Amazônia sob as benções da coroa norueguesa.
O incidente ambiental ocorrido no último dia 18 de Fevereiro causado pela mineradora norueguesa Norsk Hydro [1] em Barcarena (PA) que resultou na liberação de lançamento de efluentes não tratados do processamento industrial da bauxita acaba de ganhar um ingrediente de escândalo [2].
É que depois de negar que um incidente ambiental havia ocorrido, a Norsk Hydro acaba de ser confirmar que vinha utilizando uma tubulação clandestina para jogar material tóxico em um conjunto de nascentes do rio Muripi que atravessa o município. Isso é o que informa a rede BBC em uma longa reportagem [3] (ver imagem abaixo).
O curioso é que a Norsk Hydro tem como acionista majoritário e controlador o governo da Noruega, o que revela um duplo padrão utilizado pelo país nórdico no manejo de contaminantes no ambiente. É que dificilmente a Norsk Hydro utilizaria esse procedimento na Noruega, já que lá a legislação ambiental é bastante restritiva. Aliás, basta visitar a página oficial da empresa na internet para ver que, pelo menos na Noruega, a cartilha seguida (ao menos em discurso) de padrões estritos de governança corporativa.
Pelo jeito, o que é bom para os noruegueses não é necessariamente repassado para as operações de suas empresas nos países da periferia capitalista, como é o que caso do Brasil. Assim, enquanto na Noruega todos os cuidados são tomados para evitar que as atividades industriais comprometem os ecossistemas naturais e a população norueguesa, por aqui o que vale mesmo é a lei da fronteira, onde quem pode mais fica com toda a riqueza, deixando nos locais explorados apenas um rastro de destruição ambiental e pobreza.
Mas o péssimo exemplo dado pelo estado brasileiro que até hoje não tomou medidas efetivas para punir financeiramente a Mineradora Samarco (Vale+ BHP Billinton) pelo mega acidente ambiental ocorrido em Mariana (MG) está, como previsto, incentivando a que outras mineradoras ajam de forma displicente no cuidado com o ambiente e com as populações que vivem nas proximidades de suas operações.
De toda forma, mais esse incidente ambiental envolvendo uma mineradora deve servir de alerta para que as operações do setor sejam acompanhadas com “olhos de lince”. É que ficou mais uma vez óbvio que não há nenhuma disposição para adotar padrões mínimos de segurança e “compliance“.