Números da pandemia no Brasil no dia em que Bolsonaro informou estar infectado

bolsonaro mascara

No dia em que o presidente Jair Bolsonaro veio a público dizer que foi infectado pelo coronavírus os números do Brasil na pandemia são o seguinte: total de infectados 1.668.589; infectados nas últimas 24 horas +42.518; total de mortos: 66.741, e mortos nas últimas 24 horas: +1,185 (ver figura abaixo).

coronavírus meter

Enquanto isso, o Brasil continua sem ministério da Saúde, e como  ministério chefiado interinamente por um general sem nenhum treinamento na área da Saúde.

Assim, me desculpem os apoiadores do presidente se eu não derramar uma lágrima por ele nesta noite. É que existem muitos outros brasileiros que são mais merecedores da minha solidariedade.

The Global E-waste Monitor 2020: Brasil é um dos líderes mundiais em geração de lixo eletrônico

global waste

O Brasil foi o quinto país que mais produziu lixo eletrônico em 2019. Segundo o relatório The Global E-waste Monitor 2020 , os brasileiros ficaram atrás apenas da China, EUA, Índia e Japão. Ao todo, foram geradas 2.143 toneladas no ano passado.

De acordo com o documento, o tema ainda é crítico na América Latina. Além do México, Costa Rica, Colômbia e Peru – que lideram a gestão sustentável de lixo eletrônico e que, em 2020, estão trabalhando para melhorar os sistemas já estabelecidos -, apenas Brasil e Chile estão estruturando as bases para a implementação de um quadro regulamentar formal para a logística dos resíduos.

Apesar de constar no relatório de que o Brasil não possui legislação específica sobre o assunto, em outubro de 2019, foi assinado o Acordo Setorial para a Logística Reversa de Produtos Eletroeletrônicos. O documento é um complemento à Política Nacional de Resíduos Sólidos – PNRS (Lei 12.305/2010), e define metas para as fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes na questão de quantidade de PEVs instalados, número de cidades abrangidas e percentual de aparelhos eletroeletrônicos a serem coletados e destinados corretamente, como celulares, computadores, impressoras, ferramentas elétricas, chuveiros, eletroportáteis sem utilidade para o consumidor.

A Green Eletron, maior gestora brasileira sem fins lucrativos para a logística reversa de eletroeletrônicos e pilhas de uso doméstico que não têm mais utilidade, participou ativamente da construção do acordo e atua para mudar esse cenário no País. Desde o início das operações, em 2017, a Green Eletron instalou 228 Pontos de Entrega Voluntária, ou PEVs, em 75 cidades do Estado de São Paulo (confira aqui) e um no Distrito Federal, coletando mais de 445 toneladas de produtos eletroeletrônicos. Em 2019, a quantidade coletada triplicou em comparação ao ano anterior, com a ajuda de parcerias, campanhas e dos consumidores.

Já no programa Green Recicla Pilhas, existente desde 2010 e com mais de dois mil pontos espalhados pelo Brasil, mais de 1.680 toneladas tiveram sua destinação correta. Veja todos os coletores exclusivos de pilhas.

unnamed (12)

ONG acusa envolvimento do grupo francês Casino em desmatamento no Brasil e na Colômbia

Segundo relatório da ONG Envol vert, a empresa, que promove a imagem de um distribuidor responsável, não controla suficientemente a origem da carne que comercializa.

barbara veigaA pecuária é a principal causa de desmatamento no Brasil. BARBARA VEIGA

Por Martine Valo para o jornal Le Monde

As imagens da Amazônia em chamas, em agosto de 2019, comoveram o mundo inteiro. A história deste ecossistema único sacrificado em benefício dos interesses fundiários pode ocorrer no outro lado do Atlântico, mas está conectada a um grupo varejista francês, o Casino, de acordo com o relatório Envol vert, que será publicado na terça-feira, 30 de junho . Esta associação francesa foi apoiar organizações na América do Sul, incluindo jornalistas e pesquisadores do coletivo Reporter Brasil, que investigaram no local por um ano.

Madeira, soja, cacau e óleo de palma são as principais causas de desmatamento desenfreado no planeta. No Brasil, campeão mundial, é a carne bovina, criada principalmente por sua carne, que é a principal responsável por ela. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) considera que a Amazônia perdeu 10.123 km2 em 2019, 44% a mais que em 2018, e a devastação acelera em 2020. A destruição das savanas do Cerrado também está avançando.

Nesses dois lugares altos da biodiversidade planetária, os incêndios florestais, cuja temporada começa hoje, aumentaram 71% em 2019 em comparação com o ano anterior. Uma vez exploradas as madeiras valiosas, os rebanhos ganham novas pastagens, que ocupam de maneira particularmente extensa: 1,31 cabeça por hectare (ha) em média no Brasil, 0,6 na Colômbia. Sua expansão é espetacular na Colômbia, desde a assinatura da paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) em 2016 , e no Brasil, segundo maior exportador do mundo, que teve 158 milhões de animais em 1994, 214 milhões de hoje.

43% do mercado colombiano

“Este sistema agrícola é de fato um legado de colonização: é uma questão de ocupar o máximo de espaço possível para afirmar que essa parcela da Amazônia é sua”, analisa Boris Patentreger, membro da Envol vert , que coordenou a investigação no local. É uma forma de especulação de terras, pois pode ser vendida a um bom preço. “ E a distribuição em massa seria parcialmente responsável por sua relutância em melhorar a rastreabilidade de seu suprimento, principalmente na Colômbia”, afirmou o relatório.

No entanto, o cassino está bem presente nos dois países, onde o consumo nacional de carne bovina é importante. O grupo ocupa 15% do mercado no Brasil, com sua subsidiária Grupo Pão Açúcar (GPA) e suas marcas Assai e Extra; 43% na Colômbia, com Exito. Ele gera 47% de sua receita total lá. Na França, a empresa, de propriedade da Rallye, possui uma série de marcas como Monoprix, Franprix, Leader Price, Spar, mas também Naturalia, e destaca a imagem de um distribuidor responsável. A Envol vert e seus parceiros culpam ainda mais o distribuidor por suas deficiências no controle da origem do gado.

Referindo-se à lei de 2017 sobre o dever de vigilância das grandes empresas francesas em relação a seus fornecedores, as ONGs acreditam que o grupo não deve delegar essa responsabilidade nos matadouros que os entregam. Entre os últimos, alguns assinaram compromissos para combater o desmatamento com o governo ou com ONGs como o Greenpeace, mas eles não têm necessariamente os meios para alcançar suas ambições. Como resultado, algumas lojas comercializam carne de fazendas que acabam engordando animais de outras fazendas, que continuam a operar ilegalmente e queimar lotes na Amazônia, segundo o relatório. Essas atividades comerciais corresponderiam a 56.000 hectares destruídos em 2019 nos dois países, segundo estimativas dos autores.

O Casino respondeu à associação, assegurando que ela  combate ativamente o desmatamento associado à criação de gado no Brasil e na Colômbia.  E garante que sua subsidiária GPA envolva uma base experimental no projeto piloto de uma ferramenta de rastreabilidade chamada Visipec. “Estamos fortalecendo nossas políticas para controlar todas as nossas cadeias de suprimentos complexas no Brasil e continuaremos”, assegura Le Monde Matthieu Riché, diretor de CSR do grupo Casino. No contexto geopolítico local, as empresas devem ser ainda mais vigilantes. “

“Clareamento de vacas”

Insuficiente, responderam os pesquisadores que testaram 131 produtos vendidos em dez lojas estabelecidas em sete cidades do Brasil, em especial Belém e Manaus. Eles procuraram subir a cadeia a montante de dois importantes matadouros da empresa JBS, localizada no Mato Grosso, tomando o cuidado de não se limitar a entregas diretas de gado. Eles multiplicaram suas pesquisas dos números de produtos congelados, interrogaram bancos de dados sobre transporte de animais, referências cadastrais, listas negras do governo brasileiro nas quais aparecem os operadores condenados por trabalho forçado e vítimas de ‘meio Ambiente. Finalmente, eles consultaram os alertas de desmatamento dos sistemas de vigilância por satélite das ONGs.

O relatório detalha o caso de quatro grandes fazendas localizadas na Amazônia ou no Cerrado. Uma delas, a fazenda Ellus, no Mato Grosso, totalizou mais de 2.400 ha queimados em 2019 – como mostra imagens da NASA – incluindo 1.962 ha em áreas de preservação permanente não exploráveis, de acordo com a lei. Outro exemplo é o de uma fazenda condenada em várias ocasiões a pesadas multas e atingida por um embargo por ter desmatado mais de 1.100 ha. Este último contorna o problema da “lavagem de vacas”, ou seja, transferindo os rebanhos para uma de suas propriedades alugadas para outro agricultor.

Por fim, há a questão da fazenda JR, de 168 ha no Estado do Pará, ainda na Amazônia, dos quais 14 ha invadem o território indígena Apyterewa. O Casino compromete-se a analisar esses quatro casos.

fecho

Este artigo foi originalmente publicado em francês pelo jornal Le Monde [Aqui!].

Brasil é o país com maior crescimento em preocupações com segurança no mundo, mostra estudo da Unisys

Apurado em 15 países durante a pandemia, Unisys Security Index 2020 indica que a preocupação dos brasileiros com segurança cresceu sete pontos desde 2019

São Paulo, 24 de junho de 2020 – A Unisys anunciou hoje os resultados do Unisys Security Index™ 2020, revelando que o Brasil é o país com o maior crescimento em preocupações relacionadas a assuntos de segurança no mundo.

Estudo mais antigo de preocupações com segurança do consumidor conduzido globalmente, o Unisys Security Index mede as percepções do consumidor em quatro categorias: segurança pessoal, financeira, nacional e na Internet. O Brasil alcançou 197 pontos em um máximo de 300, um crescimento de sete pontos em relação a 2019 – o maior aumento dos 15 países avaliados e a maior pontuação do país desde 2013. Já o índice médio global do USI 2020 é de 175 pontos pelo segundo ano consecutivo, o nível mais alto em 14 anos.

Embora as preocupações com a segurança do Brasil tenham aumentado em todas as áreas, o país tem a pontuação mais baixa entre os países em desenvolvimento avaliados, incluindo os da América Latina: México (212), Colômbia (217) e Chile (218). Em geral, a atenção à segurança digital dos mercados emergentes cresce – Filipinas (238) e Índia (223) lideram o ranking -, enquanto a dos mercados desenvolvidos está diminuindo. Neste ano, o índice brasileiro é mais alto que o de Estados Unidos (159), Austrália (157), França (156), Bélgica (144), Reino Unido (144), Nova Zelândia (136) e, os dos últimos, Alemanha (122) e Holanda (100).

O aumento das preocupações com segurança digital no Brasil ocorreu juntamente com a deflagração da pandemia da COVID-19. Com entrevistas realizadas entre​ 16 de março e 5 de abril de 2020, o USI 2020 identificou as consequentes incertezas econômicas e agitação social decorrentes da crise.

O índice de segurança financeira, por exemplo, cresceu 12 pontos, atingindo 203 neste ano, a maior apreensão dos brasileiros já identificada. Em segundo lugar, vem a segurança pessoal, com 202 pontos, dois a mais que no ano passado. Já a segurança da internet cresceu 6 pontos, chegou a 200 e ficou em terceiro entre as maiores preocupações dos brasileiros. Por último, mas com crescimento significativo de 9 pontos em relação a 2019, ficou a segurança nacional, com 185 pontos, impulsionada pela preocupação com desastres e epidemias.

Entre os componentes específicos de cada dimensão, destacam-se a fraude bancária e o roubo de identidade, assuntos extremamente ou muito preocupantes para 80% e 78% dos brasileiros, respectivamente. Invasões cibernéticas ou vírus compõem a terceira maior preocupação no Brasil, com 73%, seguido de desastres naturais, com 72%. Essa última área, que consiste na ocorrência de inundação, furacão, incêndio florestal ou epidemia, registrou um crescimento de 10% na preocupação em relação ao ano passado. Ao passo que a atenção com segurança nacional, que se refere à proteção à guerras e ao terrorismo, diminuiu 4% em relação à 2019, sendo muito importante para metade dos brasileiros (51%).

Especificamente no âmbito da COVID-19, a infraestrutura de saúde do Brasil e a estabilidade econômica são as principais preocupações durante uma crise de saúde global, respectivamente para 85% e 84% dos entrevistados. Em terceiro, ficou a saúde física da família, considerada extremamente ou muito preocupante para 83% dos brasileiros durante a pandemia.

O Unisys Security Index de 2020 mostra que a sensação de insegurança está aumentando no Brasil dentro das quatro áreas de análise da pesquisa. o Brasil registrou o maior aumento de preocupação ano a ano do que qualquer outro país e percebemos que muitos ainda têm uma falsa sensação de segurança de dados enquanto trabalham em casa”, salienta Mauricio Cataneo, presidente da Unisys Brasil e Chief Financial Officer para América Latina. “Notadamente, fraudes bancárias, roubo de dados pessoais e invasões cibernéticas são as grandes preocupações nacionais, fazendo da proteção de informações um assunto que deve ser priorizado por governos, empresas e consumidores brasileiros. Em meio a desafios econômicos impostos pela crise da pandemia, os brasileiros estão cada vez mais preocupados com sua capacidade de atender obrigações financeiras e preocupados com fraudes”, conclui.

Clique Aqui! para conferir o infográfico com os destaques do Brasil no USI 2020

Sobre o Unisys Security Index™

Iniciativa da Unisys Corporation (NYSE: UIS), o Unisys Security Index™ é o mais antigo monitoramento global de segurança digital. Realizado desde 2007, o levantamento oferece uma análise estatisticamente robusta sobre a percepção de segurança dos consumidores.

Projetado numa escala que vai de zero a 300 (sendo o zero mais seguro e 300, menos), o índice é calculado a partir de uma metodologia que afere atitudes de pessoas ao longo de um dado período de tempo em relação a oito temas de segurança, divididos em quatro categorias: Segurança Nacional, também relacionado a desastres ou epidemias; Segurança Financeira, que aborda temas como fraude bancária e obrigações fiscais; Segurança da Internet, que inclui vírus/ ataques de hackers e transações online; e, por fim, Segurança Pessoal, com tópicos como roubo de identidade e informações pessoais.

O Índice de Segurança é calculado com base na média das preocupações de consumidores com a segurança nessas quatro grandes dimensões em uma escala de um a quatro, em que um é não preocupado e quatro é extremamente preocupado. Das respostas, é aferida uma pontuação média entre extremamente preocupado (300 pontos), muito preocupado (200 pontos), um pouco preocupado (100 pontos) e nada preocupado (0 ponto).

O Unisys Security Index de 2020 foi baseado em pesquisas nacionais de amostras representativas de um total de 15.699 residentes adultos de 18 a 64 anos de idade em 15 países. Foram aplicadas entrevistas online junto a grupos amostrais representativos com o mínimo de 1.000 indivíduos dos seguintes países: Austrália, Bélgica, Brasil, Chile, Colômbia, França, Alemanha, Índia, México, Holanda, Nova Zelândia, Filipinas, Singapura, Reino Unido e Estados Unidos.

Durante a pesquisa, realizada entre 16 de março e 5 de abril de 2020, a pandemia de COVID-19 era predominante em todos os países analisados.

A amostra do estudo é ponderada com relação a características demográficas nacionais de adultos, como gênero, idade e região. Os índices de segurança globais são médias não ponderadas dos índices de segurança dos 15 países.

A margem de erro é de 3,1% para mais ou para menos nos resultados por país, e de 0,8% nos resultados globais. O nível de confiança da pesquisa é de 95%.

TV alemã ZDE mostra a pandemia da COVID-19 no Brasil como ela realmente é

covid alemanha

Um dos aspectos inquietantes que sempre rondam a minha mente é de como os brasileiros, mesmo após passadas as marcas de 1 milhão de infectados e de pelo menos 50 mil mortos pela COVID-19, ainda se arriscam às ruas como se nada de especial estivesse acontecendo. Aos olhos do resto do mundo, essa situação causa profunda estranheza, pois a letalidade da pandemia já é algo mais do que estabelecido.

Como tenho assistido a muitos programas de TVs estrangeiras, me arrisco a dizer que parte do problema está na forma pela qual a pandemia da COVID-19 está sendo apresentada aos brasileiros pela mídia corporativa, especialmente pelas redes de TV. É que, apesar de buscarem mostrar um suposto compromisso jornalístico de apresentar a verdade à população, a cobertura que está sendo feita omite as cenas mais explícitas da letalidade da pandemia, especialmente entre os mais pobres. A cobertura aqui, como em tantos outros casos, tem sido superficial e fragmentada, sendo um dos elementos indutores de uma espécie de letargia que torna as infecções e mortes causadas pela coronavírus, algo que é distante do cotidiano das pessoas; uma espécie de filme que só passa na TV do vizinho.

Vejamos por exemplo, uma matéria que foi ar neste domingo na Alemanha via o canal de TV ZDE, um canal de televisão público e um dos maiores da Europa, que faz uma síntese bastante efetiva de todos os ângulos que a pandemia da COVID-19 assumiu no Brasil, e isto tudo em menos de 2 minutos. E o interessante é que nem se precisa entender alemão para seguir o fio da meada da reportagem que mostra cenas que a mídia brasileira vem omitindo da maioria da população.

Entre outras coisas, o que fica apontado na matéria é que no Brasil, os números da COVID-19 continuam a subir, sendo que o nosso país tem o segundo maior número de casos e a terceira maior mortalidade no mundo.  E as causas da expansão da pandemia são relacionados à falta de testagem, inexistência de infraestrutura hospitalar, e a ação do presidente Jair Bolsonaro que é mostrado naquela infame cena em que ele chegou à cavalo em uma manifestação em que seus apoiadores pediam o fechamento do congresso nacional e do Supremo Tribunal Federal há umas semanas atrás.

Mas o que deve impressionar a audiência alemã são as condições caóticas em que corpos estão sendo retirados em comunidades pobres e a multiplicação de valas coletivas em diferentes partes do território brasileiro.  Essas cenas certamente estão chocando uma audiência que atravessou e perdeu duas grandes guerras mundiais, pois os alemães sabem que só em condições de degradação extrema do funcionamento do Estado é que as Nações devem lançar mão de valas coletivas.

Mas volto a dizer, parte da distância que se está criando entre a maioria da população e os resultados da pandemia da COVID-19 é fruto exatamente da falta de informação sobre o que, de fato, está acontecendo. E não me parece que a culpa por isso seja só do governo Bolsonaro que, como a reportagem da ZDE mostra, tem se esforçado para minimizar a gravidade da pandemia.

1 milhão de infectados e e os erros do Brasil no combate à COVID-19

Um milhão de infectados e os erros do Brasil no combate à COVID-19

Cidade do Rio de Janeiro flexibiliza medidas de isolamento socialFotomontagem de Beatriz Abdalla/Jornal da USP sobre fotos de Palácio do Planalto

O novo coronavírus desembarcou em terras nacionais em um momento de fragilidade política, econômica e social que contribui para piorar um cenário que já seria naturalmente complicado

Por Luiz Roberto Serrano para o Jornal da USP*

A pandemia da COVID-19 chegou ao Brasil num péssimo momento. Qualquer um seria ruim, evidentemente, mas ela desembarcou aqui num momento de confusão e desagregação política, fragilidade econômica e carências sociais historicamente acumuladas. O potencial infeccioso e mortal dessa doença desconhecida exigia que o país a enfrentasse sob o comando de uma liderança firme, clara, decidida, que orientasse, e até mesmo guiasse, a sociedade na travessia do deserto que se vislumbrava à frente.

O primeiro sinal já foi desanimador. Ainda no início de fevereiro, o governo brasileiro hesitou em enviar aviões para resgatar brasileiros em Wuhan, na China, origem da pandemia, alegando que seria uma operação muito cara. Felizmente, enviou. O sofrimento pelo qual passaram, antes de nós, a China, a Itália, Espanha e os Estados Unidos – só para citar alguns países – apontaram caminhos a serem seguidos no combate à covid-19, especialmente em relação ao isolamento social, mas não foram observados e absorvidos, a não ser isoladamente pelo Ministério da Saúde, e a oportunidade de nos precavermos por antecipação foi jogada pela janela.

O fato é que tudo degringolou, com o presidente da República desdenhando da gravidade da pandemia, desautorizando as orientações emanadas do seu próprio Ministério da Saúde, entrando em guerra com os governadores que tentaram conter o avanço da doença, e o Ministério da Economia, de tendência liberal, resistindo e demorando para colocar recursos à disposição de empresas e trabalhadores e da população em geral para preservar, pelo menos, os sinais vitais da economia. Resultado: já alcançamos a marca de um milhão de brasileiros infectados, ultrapassamos os 49 mil mortos e o Produto Interno Bruto desliza perigosamente para uma queda que aponta para 10% em 2020.

O presidente Jair Bolsonaro insistiu desde o princípio que a pandemia não passava de uma “gripezinha”, que a morte é um fato inevitável da vida, participou de manifestações políticas sem máscaras e distanciamentos recomendados para todos os brasileiros e concentra todas as suas energias apenas na permanente disputa política que envolve o seu governo, o congresso, o sistema judiciário e a sociedade. Sua postura mina e combate a orientação de médicos e cientistas e governadores de que o isolamento é a melhor arma no momento para combater o alastramento do vírus e estimula parcela considerável dos brasileiros a não cumpri-lo e a se arriscarem nas ruas e nos locais de trabalho e públicos, especialmente o transporte coletivo.

Cidade do Rio de Janeiro flexibiliza medidas de isolamento socialJair Bolsonaro, durante manifestação recente em Brasília – Foto: Reprodução/Twitter

É compreensível que a parcela da população cuja renda depende de atividades diárias, especialmente os trabalhadores informais e as empresas produtivas e de serviço, que só dependem da presença física de sua clientela para operar, se sintam prejudicadas pela política de isolamento e estejam angustiadas para gerar caixa. Até mesmo as grandes empresas, com maior lastro financeiro, sofrem ao operar abaixo de sua capacidade de produção e comercialização, mesmo, entre estas, as que têm canais de venda digitais. É de se esperar que almejem que tudo volte ao normal rapidamente. A questão é que esse rapidamente, esse retorno precoce, pode gerar um aumento na taxa de contaminação na população cujas consequências ainda são imprevisíveis.

Esse sufoco seria menor, em parte evitável, se o governo, principalmente o Ministério da Economia, irrigasse a economia com recursos que azeitassem o seu funcionamento em patamares pelo menos de sobrevivência. Este deveria ser o papel de um Estado que compreendesse e aceitasse sua função de estimulador da atividade econômica em momentos de grave crise. Não é o caso do Ministério da Economia dirigido por Paulo Guedes, de orientação liberal e preocupado, acima de tudo, com o desequilíbrio fiscal sensível que herdou de governos anteriores. Claro, o governo ofereceu recursos às empresas e à população, mas insuficientes, boa parte dos quais ficou empoçado nos bancos, eternamente preocupados com a inadimplência, e chegaram à ponta, a quem deveria recebê-los, lentamente, quando chegaram. Numa crise como a atual, um governo deveria fazer um balanço entre o que é mais importante e urgente para a sociedade e o que é administrável com políticas de longo prazo. O equilíbrio fiscal ou o combate à COVID-19?

Cidade do Rio de Janeiro flexibiliza medidas de isolamento socialO auxílio emergencial foi criado para socorrer trabalhadores informais durante a pandemia. Foto: Leonardo Sá/Agência Senado

Como efeitos colaterais graves, é preciso registrar o desmonte do Ministério da Saúde, órgão gestor e gerador de imprescindíveis políticas públicas, especialmente do SUS, que é o sustentáculo do atual combate à pandemia, de norte a sul do Brasil. Qual a perspectiva de reconstrução desse órgão vital para a saúde pública no Brasil quando os especialistas da área foram afastados e não há sinais de que profissionais do ramo voltem a ter espaço em seus quadros, especialmente os diretivos?

At last but not at least, o que será da educação e da ciência no Brasil? Não foi a COVID-19 que instalou uma séria crise na educação brasileira, ela vem de antes, graças à desimportância que o atual governo dá ao tema, vital para o futuro do país. Os recentes titulares do Ministério da Educação não tinham qualquer intimidade com o tema e se guiavam por dogmas ideológicos retrógrados. Não há perspectiva de melhora.

Nestes tempos de COVID-19, o isolamento aconselhava pesados investimentos num sistema de aulas à distância nos ensinos fundamental e médio, cujo alunato, em sua maioria, é carente de recursos tecnológicos eficientes para acompanhá-lo. Não foi feito com a necessária abrangência, até porque é uma tarefa de grande porte num país com as dimensões do Brasil. Haverá sérias lacunas a preencher quando as aulas forem retomadas.

O esforço e a eficiência das Universidades, especialmente as públicas, na promoção de pesquisas sobre medicamentos, terapias, equipamentos para o combate à COVID-19, deu-lhes uma notoriedade ímpar diante da sociedade brasileira, evidenciando sua importância para a ciência brasileira e o desenvolvimento do país. Parte significativa delas, entre elas a USP, mobilizou seus recursos para o ensino à distância para que a formação dos quadros que dirigirão o país no futuro prosseguisse com o mínimo de prejuízo no momento. Mas dos Ministérios da Educação e da Ciência e Tecnologia não emanou qualquer orientação.

A retomada da vida normal na sociedade brasileira no período pós-pandemia, que não se sabe, ainda, quando e como se dará, é profundamente desafiador, exigirá um grande esforço de reconstrução e renovação em todas as áreas da vida da sociedade. Aprendemos com os acertos e erros cometidos neste período tão perturbador? Sairemos melhor do outro lado?

A resposta está nas mãos de todos os brasileiros.

*Luiz Roberto Serrano é Superintendente de Comunicação Social da USP

fecho

Este artigo foi originalmente publicado pelo Jornal da USP [Aqui!].

Pesquisa mostra aumento da rejeição a ideias golpistas no Brasil

democracia1

Por Ricardo Mendonça*

Em meio à pandemia, crise econômica e insinuações de uma guinada autoritária, a condescendência dos brasileiros à ideia de um golpe militar caiu. Com tendência de queda também estão as imagens de duas instituições vistas como alicerces do bolsonarismo: as Forças Armadas e as igrejas.

As informações aparecem na terceira rodada anual de uma pesquisa sobre o tema feita pelo Instituto da Democracia, grupo que reúne pesquisadores de onze instituições no Brasil e no exterior.

wp-1592261532447.jpg

O indicador mais eloquente é o que associa a defesa de um golpe ao temor em relação à criminalidade – um dos temas centrais na eleição de 2018. Naquele ano, 55,3% dos pesquisados entendiam que um golpe militar “seria justificável” numa situação de muito crime. Um ano depois, o indicador já havia recuado para 40,3%. Agora, baixou para 25,3%, menos da metade da taxa de 2018. De cada dez brasileiros, sete dizem “não” a essa hipótese.

A pesquisa foi feita entre 30 de maio e 5 de junho, uma semana após o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno, dizer que a eventual apreensão do celular de Bolsonaro autorizada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) poderia ter “consequências imprevisíveis”. O próprio presidente disse que jamais entregaria seu aparelho, o que configuraria desrespeito à ordem judicial. Na semana passada, foi a vez do também militar Luiz Eduardo Ramos, secretário de Governo, declarar ser “ultrajante e ofensivo” dizer que as Forças Armadas vão dar um golpe, mas ressaltou que o “outro lado” não pode “esticar a corda”.

Tendência parecida ocorre na simulação feita com a ideia de golpe associado a um quadro de corrupção generalizada – outro tema-chave das eleições de 2018, muito impactadas pela Lava-Jato.

Na época, pouco menos da metade da população pesquisada (47,8%) concordava que um golpe “seria justificável” numa situação de muita corrupção. Hoje, esse entendimento é compartilhado por 29,2%. Para um grupo duas vezes maior, 65,2%, corrupção não é justificativa para golpe militar.

Ainda mais altas são as taxas de rejeição à ideia de ruptura associada ao alto índice de desemprego (79,2% repelem) ou fechamento do Congresso ante uma situação de muita dificuldade (78% contra).

Com o debate sobre ruptura em voga por iniciativa de apoiadores do presidente, quem começa a pagar mais caro são as Forças Armadas.

O levantamento identificou sinais de corrosão na imagem da instituição. Erguido aos poucos desde o fim da ditadura (1964-1985), o sentimento de confiança aos militares caiu sete pontos desde 2018, de 33,9% para 27%. Mais preponderante agora é a taxa que reflete certa desconfiança em relação aos militares. Os que dizem confiar “mais ou menos” na instituição são a nova maioria, 33,8%.

Também não é bem vista a forte presença de militares em cargos de primeiro e segundo escalão, algo promovido por Bolsonaro desde a posse. Para 58,9% isso não ajuda a democracia. É quase o dobro dos 30,1% que não veem problema.

Constantemente presentes nas listas de campeãs em imagem positiva, as igrejas também começam a apresentar sinais de desgaste. A confiança incondicional (taxa dos que dizem confiar muito) recuou de 35,2% para 29,7% desde 2018.

“O eleitorado começa a se afastar dos temas mais clássicos do bolsonarismo”, diz o cientista político Leonardo Avritzer, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e um dos coordenadores do estudo. “O brasileiro tinha muita confiança nas Forças Armadas e nas igrejas. Já não tem mais tanto assim. A confiança não desabou, mas há sinais de deslocamento.”

Avritzer destaca, na contramão, indícios de alguma recuperação nas imagens de instituições tradicionalmente achincalhadas pelo eleitorado. A taxa dos que dizem não confiar no Congresso caiu de 56,3% para 37,2% em dois anos. “Até os partidos, que sempre são os últimos colocados, esboçam melhoria.” Nesse caso, o contingente dos que não confiam recuou de 76,9% para 66,9% no mesmo período. Os que dizem confiar “um pouco” subiram de 12,3% para 20,5%.

O pesquisador suspeita que parte disso pode ser atribuído à covid-19: “As pessoas enxergam na epidemia mais necessidade de apoio às instituições”. A percepção sobre o Judiciário confirma. Entre 2018 e 2019, a taxa dos que diziam não confiar no Judiciário havia subido de 33,9% para 38,2%. Agora, com pandemia e em meio a ataques de bolsonaristas ao STF, recuou para 21%. O grupo dos que confiam muito no Judiciário subiu de 8,3% para 13,6%. E os que confiam “mais ou menos”, de 28% para 39,4%.

A elevação do prestígio dessas instituições e a ampliação da repulsa à ideia de golpe, porém, não são acompanhadas por aumento da satisfação com a democracia. No ano passado, 32,9% diziam estar satisfeitos ou muito satisfeitos com o regime. Hoje são 25,1%.

Para Avritzer, isso ocorre porque grande parte da população associa a ideia de democracia ao funcionamento do governo: “Se a gestão ou a economia vai mal, a satisfação com a democracia cai. É uma ideia pouco sofisticada do conceito. Não pensam democracia como um valor”. O aumento da insatisfação com a democracia, de qualquer forma, não parece ter relação com tentações golpistas.

O Instituto da Democracia é formado por grupos de pesquisas de quatro instituições principais: UFMG, Iesp/Uerj, Unicamp e UnB. Participam outras cinco instituições nacionais (USP, UFPR, UFPE, Unama e IPEA) e duas estrangeiras (CES/UC e UBA). O estudo foi financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa de MG. Foram ouvidas 1.000 pessoas por telefone. A margem de erro é de 3,1 pontos.

*Publicado originalmente no site Valor Econômico (acesse aqui a publicação original)

Vergonha internacional para Jair Bolsonaro e para o Brasil

“Brasil acima de tudo”? Dezoito meses após a posse do presidente Bolsonaro, seu lema é o oposto. Uma vez que a imagem positiva é destruída, muitos amantes do país ficam perturbados.

Brasil Jair Bolsonaro comendo cachorro-quente (Reuters / A. Machado)Bom apetite: Jair Bolsonaro puxa sua máscara para comer um cachorro-quente

Quando ela se encontra com seus amigos alemães, ela agora abaixa a cabeça. “Em certos círculos, sinto vergonha quando digo que sou do Brasil”, diz Bianca Donatangelo. “Nunca foi assim antes.”

Alemanha Brasil Bianca DonatangeloBianca Donatangelo: “Uma tristeza indescritível”

A brasileira é editora-chefe da “Tópicos”, revista  da Sociedade Alemã-Brasileira (DBG). Como muitos outros compatriotas, o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, a leva ao desespero.

“Está destruindo nosso país, é incrivelmente triste”, diz ela em entrevista à Deutsche Welle. E ela tem certeza: “O Brasil não se livrará dessa má reputação tão cedo, mesmo que um novo governo chegue”.

De anfitrião da Copa do Mundo a forasteiro

O acidente no Brasil é de tirar o fôlego. Há dez anos, o país estava prestes a ultrapassar a França como a quinta maior economia do mundo. Agora caiu para o décimo segundo lugar. Atualmente, a renda per capita no Brasil é um terço menor que a dos chineses.

“O Brasil estragou tudo?” (O Brasil estragou tudo?). Já em setembro de 2013, o “economista” britânico abordou a crise no maior país da América Latina. Nesse ponto, a queda do país ainda não era previsível em sua verdadeira extensão.

Pelo contrário: o Brasil se apresentou como sede da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016. E também estava se tornando cada vez mais autoconfiante.

Por causa dos governos dos presidentes Fernando Henrique Cardoso (1995-2003), Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2011) e sua sucessora Dilma Rousseff (2011-2016), o Brasil ganhou reputação internacional. 

capa

Profético: A capa da revista “Economist” de 28 de setembro de 2013. “O gigante verde está despertando”

 

O país participou de missões internacionais da ONU no Haiti, no Congo e nas Colinas de Golã. E foi o líder diplomático no grupo de economias emergentes, os chamados países do BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).

Internacionalmente, foi dada muita atenção ao êxito da luta contra a pobreza com vários programas sociais, que ajudaram cerca de 30 milhões de brasileiros a avançar para a classe média. O correspondente do Brasil, Alexander Busch, resumiu o humor eufórico no título de seu livro, publicado em 2009: “Economic Power Brazil. The Giant Green Awakens”.

O lado sombrio  do Brasil

A euforia agora evaporou. “A imagem positiva se foi”, diz Friedrich Prot von Kunow, presidente da Sociedade Alemã-Brasileira, que foi embaixador no Brasil entre 2004 e 2009.

O diplomata atualmente não vê “nenhum progresso social, mas um desastre econômico”. Sua conclusão: “Do ponto de vista alemão, uma personalidade como Bolsonaro é inconcebível. Também é muito difícil para mim pessoalmente”.

Para a brasileira Bianca Donatangelo, o lado sombrio de sua terra natal é revelado pelo governo Bolsonaro. “No Brasil, quatro mulheres são assassinadas todos os dias, e a discriminação contra negros e indígenas está profundamente enraizada na sociedade”, explica ela. “Mas esses tópicos geralmente são suprimidos”.

gripezinhaApenas uma “gripezinha” para o Presidente do Brasil: valas comuns estão sendo escavadas para os mortos do COVID-19 em São Paulo

Isolamento internacional

Bolsonaro continua a impulsionar o isolamento internacional do Brasil. Como seu modelo político, o presidente dos EUA, Trump, ele ameaça deixar o acordo climático de Paris, deixar a Organização Mundial da Saúde e transferir a embaixada do Brasil em Israel para Jerusalém.

“Bolsonaro é ainda mais radical que Trump na crise do coronavírus”, disse o especialista brasileiro Oliver Stuenkel, professor de relações internacionais da Universidade Getúlio Vargas (FGV), em São Paulo. “A assinatura do acordo de livre comércio entre o mercado sul-americano Mercosul e a UE está se tornando cada vez mais improvável”, twittou recentemente.

trump bozo

Trump e Bolsonaro parecem ter mais em comum do que apenas um sorriso envolvente

A Alemanha e a Noruega também estão se mantendo à distância . Devido ao aumento dramático do desmatamento na Amazônia brasileira, eles congelaram temporariamente o dinheiro para a proteção florestal em agosto de 2019. O Ministério do Desenvolvimento Alemão (BMZ) está procurando novos parceiros de cooperação no país e está ficando sem projetos existentes.

“Não mostre o ombro frio”

A indústria alemã no Brasil, que Bolsonaro apoiou por sua agenda econômica liberal, agora está sofrendo com a perda de imagem do país. “Não há dúvida de que o Brasil e a América Latina se tornaram significativamente menos atraentes”, disse Philipp Schiemer, chefe da Mercedes-Benz do Brasil, em entrevista ao jornal de negócios alemão “Handelsblatt”.

No entanto, Schiemer não vê tudo de maneira negativa: “O governo tornou as leis trabalhistas mais flexíveis para que demissões em massa ainda não ocorram como nos Estados Unidos”, diz ele. “E ela rápida e eficientemente organizou ajuda financeira de emergência para os pobres”.

Mesmo que a brasileira Bianca Donatangelo não encontre nada de positivo no governo de Bolsonaro: ela está convencida de que seria errado mostrar ao Brasil o ombro frio no momento. “Por causa da crise, você não pode simplesmente jogar toda a história e cultura do país no lixo”, diz ela. “Bolsonaro não é o Brasil.”

__________________________

Este artigo foi publicado originalmente em alemão pela Deutsche Welle [Aqui!].

Lançamento da revista eletrônica “Correlação de Forças” tem número especial sobre a COVID-19

A revista eletrônica “Correlação de Forças“, da qual tenho a honra de participar do seu Conselho Editorial acaba de lançar seu primeiro número com uma série de artigos apresentando diferentes perspectivas e aspectos relacionados à pandemia da COVID-19. É importante notar que a “Correlação de Forças”  se apresenta como um veículo de reflexão voltado para “promover o debate entre os diversos setores da esquerda brasileira e portuguesa.

correlação de forças

A edição de estréia está dividida em 3 seções: 1) Para uma reflexão crítica do novo coronavírus: implicações presentes e futuras, 2) Entre o capitalismo e o mundo a haver, e 3) Perspectivas globais.

Entre os autores dos artigos se encontram intelectuais, pesquisadores, parlamentares e lideranças políticas de partidos de esquerda de Portugal e do Brasil, representando um amplo arco de reflexões sobre o destino do Capitalismo e da classe trabalhadora a partir da eclosão da pandemia da COVID-19. 

Além das óbvias implicações para a ação política em um mundo que já estava passando por uma imensa crise sistêmica advinda dos limites alcançados pela produção capitalista, os artigos desta primeira edição marcam que é possível fazer uma aproximação entre diferentes formas de entender a crise, bem como de propor saídas para a mesma a partir de formas rigorosas de análise para que se possa entender a magnitude dos impactos que virão após a passagem da primeira onda da pandemia da COVID-19.

Finalmente, também me parece crucial que a “Correlação de Forças” se posiciona como um veículo que permita um diálogo entre brasileiros e portugueses, na medida que esse um vácuo histórico na necessária troca de experiências entre dois países que continuam cada vez mais ligados, a despeito da distância geográfica.

Brasil, o pária

bolso fogoAs políticas anti-ambiente e a gestão desastrosa da pandemia da COVID-19 pelo govenro Bolsonaro jogaram o Brasil em pária global

A palavra “pária” significa basicamente a designação de uma pessoa mantida à margem da sociedade ou excluída do convívio social. Mas países também ser colocados na condição de párias, dependendo da condição em que se encontra a sua governabilidade, o respeito a direitos básicos (mais para mínimos) que sejam acordados em fóruns multilaterais onde as regras de convívio são estabelecidas entre os Estados-Nação.

Desde 2016 venho afirmando neste espaço que o Brasil estava se encaminhando, e os brasileiros juntos com o país, em uma condição de pária global. As diversas regressões em termos de direitos trabalhistas e sociais somados a uma forma ultrapassada de apropriação de recursos naturais, especialmente na Amazônia, acabaram por erodir a imagem bem polida que foi construída durante os anos em que ex-presidente Lula esteve no poder.

Essa erosão de imagem teve grande impulso após a chegada do presidente Jair Bolsonaro ao poder visto o seu desdém notório por políticas de direitos, igualdade de gênero, de proteção de povos indígenas, e ainda da proteção das florestas tropicais existentes ainda em grande quantidade no Brasil.  As grandes queimadas que ocorreram na Amazônia em 2019 deram ainda um grande impulso para que movimentos de boicote aos produtos agrícolas brasileiros começassem a ocorrer a partir da Europa, sendo o iniciado por Johannes Cullberg da rede Paradiset apenas o primeiro de uma série que agora se amplia na Alemanha.

boicote bolsonaro 2

Abaixo-assinado válido em toda a União Europeia visa pressionar principais cadeias de supermercados da Alemanha a suspender a compra de produtos agrícolas brasileiros

Nesse contexto, a divulgação da política “passa boiada” na hoje famigerada reunião ministerial de 22 abril agravou ainda mais a percepção internacional de que o Brasil se tornou um pária, um país de quem é preciso tomar distância. É que, apesar do resto do mundo ser capitalista e viver da extração das riquezas contidas em ecossistemas naturais, também existe um acordo de que o planeta vive um dramático processo de mudanças climáticas que demanda a proteção das florestas que agem como mega reservatórios de carbono.

As constantes ameaças públicas de um novo golpe militar para dar suporte a um presidente cada vez mais isolado e com rápida sangria em sua popularidade, que ontem motivou uma matéria no “The New York Times“, também contribuíram para que o Brasil passasse a ser visto com uma espécie de leproso, do qual até os governantes de direita, como o presidente Donald Trump, tentam se desvincular por simplesmente pegar mal aparecer associado a Jair Bolsonaro, em qualquer capacidade que seja.

Mas nada do que foi feito para desacreditar a imagem do Brasil em termos ambientais e de direitos de sua população trabalhadora chega perto do descrédito que foi gerado pela forma desastrosa da pandemia da COVID-19.  É que apesar de vivermos em uma espécie de labirinto, onde a poderosa indústria de fake news que dá suporte às políticas ultraneoliberais da dupla Bolsonaro/Guedes nos mantém em um estado de suspensão da verdade, o resto do mundo pode ver sem filtros o que está ocorrendo dentro do Brasil. E o que se vê é a ação proposital para deixar que passemos por um processo de contaminação generalizada para aplicar o que se chama de “efeito de manada”, em nome do funcionamento de uma economia que já vinha cambaleando, mesmo antes da erupção da pandemia.

A evidência inegável de que o Brasil  e, por consequência, os brasileiros que vivem no seu interior, foram transformados em párias globais aparece na forma do banimento de viagens internacionais, primeiro pelos EUA e agora pela União Europeia. É que a UE acaba de anunciar que impedirá a entrada de brasileiros nos 27 países que compõe a sua comunidade após 1 de julho, momento em que reabrirá suas fronteiras ao resto do mundo,  até que se verifique que a pandemia da COVID-19 foi efetivamente controlada dentro do Brasil. Como isso parece improvável no curto prazo, o resultado prático é que não haverá viagens para a Europa e, lembremos, tampouco, para os EUA.

Antes que alguém desdenhe o banimento de viagens porque a maioria dos viajantes pertencem às classes mais ricas dos brasileiros, há que se lembrar que também estarão interrompidas todas as viagens profissionais, com inevitáveis impactos sobre intercâmbio comercial e científico. 

A realidade é dura: o Brasil foi transformado em um pária e o custos disso vão ficar especialmente evidentes quando forem implementadas diferentes formas de boicote à produção agrícola brasileira. As chamas que começarão em breve a arder em toda a Amazônia vão certamente tornar isso inevitável. A ver!