O Atlas do uso de agrotóxicos no Brasil: uma obra fundamental para entendermos o quanto estamos sendo envenenados

agrotoxicos

A obra “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia” de autoria da professora Larissa Mies Bombardi do Laboratório de Geografia Agrária da Universidade de São Paulo (USP) foi lançado em 2017, mas permanece injustamente desconhecida da maioria dos brasileiros.

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Felizmente agora todos os interessados em entender o que eu chamo de geopolítica do veneno poderão baixar gratuitamente a versão eletrônica do atlas produzido pela professora Larissa Bombardi. Segundo o que está posto no blog que a pesquisadora mantém na internet, a disponibilização da versão e-book visa permitir que as informações contidas no atlas “possam circular e possam ser um importante instrumento de conscientização e, também, de suporte para políticas públicas que envolvam a proteção da população exposta aos agrotóxicos.”

Como alguém que vem estudando as formas e a intensidade do uso de agrotóxicos no Brasil há mais de uma década, considero que esta obra nos entrega informações preciosas sobre a disseminação territorial destas substâncias, e dos impactos já identificados sobre a saúde dos trabalhadores que as manuseiam cotidianamente.

Para baixar a obra da professora Larissa Bombardi, basta clicar [Aqui!]

Ameaçar os direitos e territórios dos povos indígenas é outro imenso tiro no pé do Brasil

povos indigenas

Uma das fixações do presidente eleito são as reservas indígenas e ele insiste em dizer que índios não terão mais um centímetro de terra [1]. Afora o completo desrespeito à auto determinação dos povos indígenas e o papel fundamental cumprido pelas reservas indígenas na manutenção de diferentes biomas brasileiros, o que estará em jogo caso as ameaças contra os povos indígenas se confirmem é o fato de que isto implicará em mais uma razão para que o Brasil seja isolado internacionalmente.

É que embora seja pouco comentado no Brasil, outros países possuem legislações bastante estritas para garantir a proteção de povos que habitam seus territórios sob diferentes culturas e tradições. Além disso, a questão dos índios brasileiros é vista com extrema cautela dentro do que se convenciona chamar de “países desenvolvidos” e, principalmente, dentro de organizações multilaterais.

Assim, que ninguém estranhe se outras repercussões negativas como as já expressas pela China e pelo Egito em relação à determinadas declarações se repita no caso dos povos indígenas. É que se já uma impressionante má vontade para o presidente eleito antes mesmo dele assumir nos principais veículos da mídia internacional, imaginemos o que acontecerá se o ataque aos povos indígenas e a integridade territorial de suas aldeias se confirmar.

Mas como bom senso e moderação não são o forte do presidente eleito, o mais provável é que mais esse tiro no pé seja dado e com consequências desastrosas para a imagem externa do Brasil e, principalmente, para a sua capacidade de vender suas commodities agrícolas e minerais em países em que a opinião pública se movimentará de forma majoritária contra o ataque aos povos indígenas pelo Estado brasileiro.


[1] https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/11/no-que-depender-de-mim-nao-tem-mais-demarcacao-de-terra-indigena-diz-bolsonaro-a-tv.shtml

A perplexidade dos portugueses frente ao quadro eleitoral no Brasil

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Estando em Lisboa tenho conversado com muitos portugueses que se mostram totalmente perplexos com o quadro eleitoral existente no Brasil.  Ainda se ressentindo da longa ditadura de António de Oliveira Salazar, portugueses de diferentes idades não conseguem entender como os brasileiros parecem estar dispostos a recolocar os militares no poder, e ainda por cima via uma eleição.

Para quem não conhece a história de Portugal,  Salazar dirigiu os destinos de Portugal como presidente do Ministério de forma ditatorial entre 1932 e 1933 e, como Presidente do Conselho de Ministros entre 1933 e 1968. Os autoritarismos e nacionalismos que surgiam na Europa foram uma fonte de inspiração para Salazar em duas frentes complementares: a da propaganda e a da repressão [1].

Um segurança de um prédio público com o qual me encontro todas as semanas, ontem me lembrou que durante a ditadura de Salazar ele tinha que ficar enfileirado para cantar o hino até se o mesmo tocasse quando ele estivesse fazendo suas necessidades no banheiro.  Diante dessa memória de sua infância, o segurança me perguntou com um ar incrédulo como os brasileiros podem estar querendo recolocar militares para governar o país após terem sofrido mais de duas décadas com um regime ditatorial. Aliás, ele perguntou ainda se os brasileiros tinham enlouquecido e não tive como oferecer uma resposta negativa. Porque visto daqui, o comportamento de pessoas que eu julgava sensatas e cordiais, não tive como responder de forma contrária.

Em outro encontro, enquanto eu tentava comprar um par de tênis novo, o vendedor resolveu puxar conversa também sobre os temas das eleições brasileiras para mostrar suas extrema preocupação com os moradores das favelas brasileiras. Ele me perguntou se os brasileiros não estavam sabendo que estão apoiando um candidato que disse que ofereceria uma solução final na Favela da Rocinha que seria dar um tempo para os traficantes saírem e depois disso usar helicópteros para metralhar a região. Meio estupefato ele acrescentou que será que “esse gajo (Bolsonaro) não sabe que a maioria das pessoas que moram nas favelas são trabalhadores  honestos”? Mais uma vez, não tive como oferecer nenhuma resposta que acalmasse o vendedor.

Mas quem pensa que são só os trabalhadores mais humildes que vêem a situação eleitoral com horror, também conversei com pesquisadores portugueses que estão de queixo caído com a postura das elites brasileiras que estão ajudando a colocar um neofascista no poder.  Aí a pergunta vai no sentido de qual seria o plano das elites brasileiras ao ajudar a estabelecer um governo cuja plataforma regressará o Brasil quase ao final do Século XIX. A minha resposta neste caso é possível: digo que as elites brasileiras estão dispostas a qualquer coisa para impedir que o nosso país tenha um mínimo de justiça, e que aposta tudo para manter a abjeta concentração de renda que torna o Brasil um dos países mais desiguais do planeta.

Então qual é o moral da história? É que enquanto os portugueses fizeram o seu ajuste de contas com a ditadura salarista para construir uma democracia relativamente sólida que permite a socialistas e comunistas a formarem um governo de coalizão que longe de causar abalos políticos, acabou melhorando a condição da economia portuguesa, o Brasil foi o único dos países sul americanos que deixou os militares golpistas impunes. E como já disse ““Quando você não acerta suas contas com a história, a história te assombra” [2].

Por isso, até porque a profunda crise política em que o Brasil está engolfado não se resolverá independente de quem seja o vencedor do segundo  turno, é melhor que todos os que se dizem democratas comecem a se preparar para os embates que virão. Do contrário, o assombro será maior do que já está sendo.


[1https://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B3nio_de_Oliveira_Salazar

[2https://apublica.org/2018/10/quando-voce-nao-acerta-suas-contas-com-a-historia-a-historia-te-assombra/

O uso de “camisas negras” não é a única semelhança entre Mussolini e Bolsonaro

A Milícia Voluntária para a Segurança Nacional foi um grupo paramilitar da Itália fascista que mais tarde passou a ser uma organização militar. Devido a cor de seu uniforme, seus membros ficaram conhecidos como camisas negras (em italiano: camicie nere). Os camisas negras foram organizadas por Benito Mussolini como uma violenta ferramenta militar do seu movimento político.  Os fundadores foram intelectuais nacionalistas, ex-oficiais militares, membros especiais dos Arditi (Arditi foi o nome adotado pela tropa de assalto de elite do exército italiano na Primeira Guerra Mundial).  O nome deriva do verbo italiano Ardire (“ousar”) e traduzindo como “os mais ousados”, e jovens latifundiários que se opunham aos sindicatos de trabalhadores e camponeses do meio rural. 

Os métodos dos camisas negras se tornaram cada vez mais violentos a medida que o poder de Mussolini aumentava, e usaram da violência, intimidação e assassinatos contra opositores políticos e sociais.  Além disso, entre seus componentes, que formavam um grupo muito heterogêneo, incluíam-se criminosos e oportunistas em busca da fortuna fácil.  O trágico fin de Mussolini que foi enforcado ao final da Segunda Guerra Mundial fez com os que os camisas negras também sofressem uma dura perseguição pelos vencedores do conflito, processo que os fez entrar no armário por muitas décadas, tendo reaparecido com muita força nos últimos anos.

Pois bem, se nos movermos para o Brasil dos dias de hoje, estamos vendo não apenas apoiadores de Jair Bolsonaro usando camisas de cor preta mostrando sua face, mas também os mesmos métodos de uso da violência, intimidação e assassinatos contra quem ousa discordar nas ruas da mensagem que circula nos grupos fechados do Whatsapp e do Facebook. E, sim, a defesa da militarização da escola pública como foi feito na Itália fascista (ver imagem abaixo de crianças italianas sendo treinadas no uso de armas!).

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Esses métodos emprestados do fascismo de Mussolini é que levaram o roqueiro inglês a colocar Jair Bolsonaro no crescente grupo de líderes com tinturas fascistas que estão tomando de assalto vários países do mundo, a começar pelos Estados Unidos da América.

Quanto mais cedo os ativistas que Jair Bolsonaro disse querer “erradicar do Brasil” acordarem para essa linha de continuidade entre camisas negras de ontem e de hoje, melhor. Não é mais possível continuar a ação política como se não houvesse uma força política organizada que está usando métodos de violência para se impor. É fundamental que se adotem mecanismos de auto proteção individual e coletiva, principalmente por partidos políticos (por exemplo, o PSOL) e movimentos sociais que se tornarão alvos inevitáveis caso o Bolsonarismo não seja derrotado nas urnas. Como ocorreu na Itália, os casos de violência atuais são apenas a primeira onda de um imenso vagalhão que deverá ocorrer no Brasil para que os ideais dos camisas negras tupiniquins sejam alcançados.

A hora para os militantes que defendem os interesses da classe trabalhadora no Brasil é muito grave, e quanto mais cedo eles entenderem isso melhor.

Esqueçam Trump, Bolsonaro está mais para Duterte

De tempos em tempos leio um apoiador de Jair Bolsonaro comparando-o ao presidente estadunidense Donald Trump. Na verdade,  Bolsonaro tem um presidente que defende e pratica muitos dos seus desejos mais extremos, mas ele é Rodrigo Duterte, que controla as Filipinas com a mão no gatilho.

Advogado e político profissional, Rodrigo Duterte foi prefeito de Davao, uma cidade localizada na ilha de Mindanau, por sete mandatos de três anos, o que o faz estar entre os prefeitos com mais tempo de mandato em seu país. Ele também foi vice-prefeito e deputado por um distrito localizado na cidade.

Duterte ficou conhecido como “o justiceiro” durante os 22 anos em que governou Davao por fazer “justiça pelas próprias mãos” e defender a criação de esquadrões da morte.  Duterte é acusado por organizações de Direitos Humanos de ter ordenado execuções extrajudiciais de mais de mil prisioneiros durante o seu governo.  

No entanto,  Rodrigo Duterte foi eleito presidente do país em 2016 depois de ter protagonizado uma campanha eleitoral centrada na guerra contra as drogas.

Como candidato presidencial, Duterte chamou “filho da puta” ao Papa Francisco por ter provocado engarrafamentos no trânsito durante uma visita às Filipinas, onde 80% da população é católica [1].

Além disso, nos primeiros 78 dias de mandato como presidente, 3500 alegados traficantes de droga foram mortos. Isso valeu críticas da ONU e do Presidente Barack Obama,  a quem também chamou de “filho da puta”.

Em outro momento de sinceridade extrema, Duterte, comparou-se ao ditador Adolf Hitler e afirmou que quer matar os três milhões de toxicodependentes que diz existirem no país. “Hitler massacrou três milhões de judeus. Agora, há aqui três milhões de viciados. Gostaria de matá-los a todos”.

Recentemente, Duterte confessou em uma entrevista que o seu único pecado é  ter ordenado as execuções extra-judiciais que ordenou contra supostos traficantes durante sua guerra contra as drogas nas Filipinas [2]. 

Por essas e outras, esqueçam da comparação com Trump, o perfil de Bolsonaro está mais para Duterte.


[1] https://www.rappler.com/nation/politics/elections/2016/114481-rodrigo-duterte-curses-pope-francis

[2] https://www.theguardian.com/world/2018/sep/28/duterte-confesses-my-only-sin-is-the-extrajudicial-killings

Democracia, que democracia? O TSE e a cassação de 3 milhões de títulos

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A eleição presidencial de 2014 foi resolvida em favor de Dilma Rousseff por cerca de 3 milhões de votos. Agora em 2018 em um ambiente politicamente acirrado, o fazem os ministros do Tribunal Superior Eleitoral? Cancelam mais de 3 milhões de títulos sob a desculpa de que os eleitores afetados não realizaram o seu registro biométrico. Um detalhe a mais é que a maioria desses títulos cancelados está na região Nordeste, onde se espera que os candidatos de esquerda tenha votações expressivas.

Coincidência? Num país onde claramente nada é feito de forma arbitrária quando se trata de assegurar os interesses das classes dominantes, não há espaço para coincidências.  O que estamos presenciando é um ato discricionário que, em nome de uma suposta evolução tecnológica, está cassando o direito de milhões de eleitores de se posicionarem eleitoralmente. 

É que todo mundo se sabe que se a maioria desses títulos estivesse em São Paulo ou em estados da região Sul, o tratamento dado seria muito diferente.  É que, caso os ministros do TSE tenham esquecido,  o artigo 15 da Constituição de 1988 diz no inciso III que a suspensão dos direitos políticos de um cidadão só pode ocorrer em caso de “condenação criminal transitada em julgado, enquanto durarem seus efeitos”.

Depois não me venham cobrar concordância com determinados resultados eleitorais em nome do respeito à democracia. É que está evidente que durante esse processo eleitoral, a primeira vítima é justamente o direito do povo se posicionar democraticamente. 

O Brasil de volta no Mapa da Fome

Em vídeo, Agostinho Vieira fala das razões de o país – um dos maiores produtores de alimentos no mundo – ter 10 milhões de famintos

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Depois de ter passado 24 anos fazendo parte do Mapa da Fome, o Brasil saiu do ranking da ONU, em 2014. Agora, uma série de medidas equivocadas do Governo ameaçam voltar a incluir o país nessa lista vergonhosa. São mais de 10 milhões de brasileiros famintos. Produção e edição Maria Paula Barsotti.

 

FONTE: https://projetocolabora.com.br/videos/brasil-no-mapa-da-fome/?utm_source=Colabora&utm_campaign=97304b6467-EMAIL_CAMPAIGN_2018_09_20_12_09&utm_medium=email&utm_term=0_7b4d6ea50c-97304b6467-417974833