Perspectivas sombrias para o Brasil

Quatro pesquisas de institutos renomados indicam crescimento lento da economia e perda de importância como destino de investimentos. Sem aumento da produtividade, desemprego não deve diminuir nos próximos anos.

desempregoBrasil ameaça ter mesmo destino de Espanha e Grécia quanto ao alto desemprego

Por Alexander Busch para a Deutsche Welle

A reunião anual do Fórum Econômico Mundial em Davos é sempre uma boa ocasião para um registro do momento econômico e para um prognóstico: como a economia global continuará a crescer, quais são os maiores problemas? Pois pontualmente para o encontro nos Alpes suíços, inúmeras organizações e empresas fornecem suas previsões para o desenvolvimento da economia global. 

Essas previsões podem, claro, estar erradas. Por exemplo, é surpreendente que o Fundo Monetário Internacional (FMI) preveja que a economia global cresça 3,3% este ano. Por outro lado, o Banco Mundial – a entidade “irmã” do FMI em Washington e responsável pelo financiamento de projetos de desenvolvimento – espera apenas 2,5%.

As análises da perspectiva brasileira levam a uma constatação chocante: as perspectivas para a maior economia da América Latina são sombrias. As únicas boas notícias vêm do FMI, que aumentou levemente a projeção de crescimento do Brasil para este e próximo ano: de 2% para 2,2% neste ano e para 2,3% em 2021.

Isso faz do Brasil um dos poucos países cuja perspectiva melhorou nos últimos meses. As previsões para a Índia, México ou África do Sul, por exemplo, foram revisadas significativamente para baixo.

Mas a melhora não é realmente um motivo de alegria para o país. Com 2,2% este ano, o Brasil deverá crescer muito mais lentamente do que a economia global como um todo (3,3%). 

Em comparação com os mercados emergentes, ou seja, com as outras economias em ascensão, a situação do Brasil é ainda pior: o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro será provavelmente apenas metade daquele registrado por esse grupo de países, que precisam de um crescimento particularmente alto para reduzir a pobreza em seus territórios.

A economista-chefe do FMI, Gita Gopinath, disse que, por um lado, a reforma previdenciária e as baixas taxas de juros no Brasil melhoraram as perspectivas de crescimento. Mas isso está longe de ser o suficiente para permitir que o país cresça de forma duradoura. Segundo Gopinath, novas reformas no setor público são urgentemente necessárias.

A pesquisa realizada pela empresa de consultoria Pricewaterhouse Coopers (PwC) entre 1.581 líderes empresariais em todo o mundo também foi decepcionante: quando indagados sobre qual país desempenharia um papel importante nos negócios globais, o Brasil passou de 6º no ano passado para 9º lugar em 2020. 

Durante anos, o Brasil esteve no topo da lista, ao lado da China, dos EUA e da Alemanha, como um dos locais de investimento mais importantes do mundo. Agora, polos e mercados como Japão, Austrália ou França deixaram o Brasil para trás.

Os prognósticos são ainda mais pessimistas quando se analisam isoladamente as previsões dos líderes empresariais brasileiros na pesquisa: 78% dos CEOs disseram esperar que o faturamento aumente este ano. Mas a maioria dos chefes de empresas deseja alcançar esse aumento de receita através do crescimento orgânico. 

Em linguagem simples, isso significa que as empresas não estão planejando nenhum investimento para expandir suas capacidades este ano. Elas ainda se encontram subutilizadas após seis anos de recessão e estagnação.

As consequências sociais dessa baixa disposição para o investimento ficam evidentes na pesquisa da Organização Internacional do Trabalho (OIT), mostrando que o desemprego pouco diminuirá no Brasil nos próximos cinco anos. Em vez de 12% de taxa de desemprego, 11,4% dos brasileiros em idade ativa ​​ainda estarão sem trabalho em 2025. 

Ou seja, em vez dos 12,8 milhões de desempregados de 2019, haverá “apenas” 12,6 milhões de pessoas à procura de trabalho daqui a cinco anos. A OIT diz sucintamente: “Não vemos razão para supor que o desemprego caia abaixo do nível de 2014 nos próximos anos.”

No início da recessão, a taxa de desemprego de 6,7% no Brasil era pouco menos da metade do que vem sendo há três anos. No país, essa taxa é atualmente cerca de três vezes maior que a média global. O Brasil ameaça ter o mesmo destino da Espanha ou da Grécia, onde o desemprego ainda é extremamente alto, mesmo uma década depois da crise financeira global.

Para esclarecer o quadro sombrio: é impressionante que tanto o FMI quanto o Banco Mundial como a OIT vejam a quase paralisada produtividade da economia brasileira como o principal obstáculo para a criação de mais empregos e rápido crescimento: além da formação profissional, são as condições básicas da economia que precisam ser urgentemente melhoradas.

A implantação do 5G e da inteligência artificial, como também a digitalização do setor público e da economia devem agora ser promovidos o mais rápido possível.

Há mais de 25 anos, o jornalista Alexander Busch é correspondente de América do Sul do grupo editorial Handelsblatt (que publica o semanário Wirtschaftswoche e o diário Handelsblatt) e do jornal Neue Zürcher Zeitung. Nascido em 1963, cresceu na Venezuela e estudou economia e política em Colônia e em Buenos Aires. Busch vive e trabalha em São Paulo e Salvador. É autor de vários livros sobre o Brasil.

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Este artigo foi originalmente publicado pela Deutsche Welle [Aqui!].

Repressão a ativistas marca escalada autoritária no Brasil

No Dia dos Direitos Humanos, ONGs, artistas, cientistas e jornalistas assinam petição em defesa da democracia no país

cop 25Brasil ganha prêmio ‘Fóssil do Dia’ na COP 25 por ‘culpar a sociedade civil pelas queimadas na Amazônia’

Em 26 de novembro, menos de uma semana antes do início da COP25, uma ação policial sem precedentes na cidade de Santarém, na Amazônia brasileira, prendeu quatro bombeiros voluntários e invadiu o escritório de uma das ONGs mais respeitadas do Brasil, sob falsas acusações. Cinco dias depois, outra ação policial causou a morte de nove jovens em um bairro pobre de São Paulo. Hoje, no Dia dos Direitos Humanos, 124 organizações da sociedade civil e mais de 500 ativistas, artistas, cientistas, promotores públicos e jornalistas lançam um alerta na COP25: a democracia no Brasil está em risco e uma escalada autoritária está em andamento.

“Pela primeira vez, em mais de três décadas, vemos demonstrações de retrocesso em algumas liberdades fundamentais duramente conquistadas”, diz a carta que será lançada às 17h15 (horário local) no Centro de Ação Climática do Brasil (Zona Azul) , pavilhão 8). Entre seus signatários estão sete ex-ministros, como Marina Silva e Izabella Teixeira (Meio Ambiente), artistas como o cineasta Fernando Meirelles (Os Dois Papas, Cegos), e cientistas como o climatologista Carlos Nobre e o biólogo Braulio Dias (ex-secretário executivo da Convenção de Biodiversidade da ONU).

“Integrantes do Governo Federal declaram sua simpatia a instrumentos que restringiram a liberdade e direitos políticos e civis no período ditatorial; o governo envia ao Parlamento um projeto de lei que evita a punição de forças policiais que venham a matar manifestantes; ativistas ambientais são presos e têm suas casas invadidas e organizações da sociedade civil têm seus escritórios vasculhados por policiais com base em acusações e mandatos judiciais desprovidos de fundamentos fáticos”, continua a carta. “Passa da hora de toda a sociedade brasileira dizer claramente: não toleraremos afrontas a nossos princípios democráticos.”

O próprio local do evento de hoje fala muito sobre a relação entre governo e participação pública durante o governo Jair Bolsonaro: o Centro de Ação Climática do Brasil na COP25 foi organizado pela sociedade civil, uma vez que não apenas o Brasil não possui um espaço nacional na COP – pela primeira vez em uma década – mas também tentou manter distante a sociedade civil, negando o credenciamento a ambientalistas, povos indígenas, academia e (à maioria) das empresas.

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Esta nota foi produzida pela Assessoria do WWF-Brasil.

Jair Bolsonaro e sua recente visita à China: pragmatismo acima de tudo e de todos

bolso xi(Divulgação/Palácio do Planalto)

A recente passagem do presidente Jair Bolsonaro pela República Popular da China pode ter desagradado a parte mais dura do seu eleitorado, mas é um reconhecimento de que ele pode ser tudo, menos o político incapaz de concessões pragmáticas que parte da oposição parece acreditar que ela seja.

Ao convidar a China para participar do mega leilão de reservas do petróleo e para ampliar a compra de commodities  agrícolas brasileiras apenas reconhece o óbvio, pois há mais de uma década é o mercado chinês que mantém a balança comercial brasileira na condição de superávit.  O apetite chinês por minérios e produtos agrícolas como a soja fazem com que dos 27 estados brasileiros, 24 tenham a China como seu principal parceiro comercial. E, sim, muito em função da venda de produtos primários.

Assim, toda aquela conversa de que haveria um afastamento econômico da China em função da orientação dita comunista da sua economia não teria mesmo como sobreviver às necessidades brasileiras de vender as suas commodities. E agora foi substituída por um chamamento no sentido da ampliação da forte interação econômica existente. É que além de um rompimento com a China nos privar de moeda forte, os principais apoiadores da eleição de Jair Bolsonaro não o elegeram para inviabilizar o agronegócio exportador.

chilenes

O problema nessa relação com a China é que os dirigentes chineses parecem ter estabelecido uma dualidade que tem tudo para aumentar as pressões ambientais no território brasileiro.  Falo aqui da disposição de misturar o que os chineses chamam de estruturas “verdes” e “cinzas” para o seu processo de crescimento econômico. Pelo que eu presenciei recentemente durante a minha participação em eventos científicos em Shenzhen, os chineses já reconheceram que ao lado estabelecimento de infraestruturas “cinzas” como pontes, estradas, hidrelétricas e ferrovias, há a necessidade de se ampliar as “verdes” que incluem o aumento de áreas florestadas e a proteção de seus mananciais.

A questão que decorre disso é que a combinação cinza+verde é algo que se dará preferencialmente para dentro com a imposição de um modelo puramente cinza para parceiros comerciais que fornecem os produtos necessários para ampliar o controle chinês sobre a economia mundial.  E nesse caso o custo socioambiental ficará por conta daquelas áreas que se coloquem como periferia preferencial do modelo “cinza+verde” da China.

Como já está mais do que claro o desprezo do governo Bolsonaro pelas estruturas verdes, a ampliação da parceria com a China poderá não apenas ampliar o desmatamento na Amazônia e o uso dos agrotóxicos banidos que chegam aqui após serem produzidos em plantas chinesas, mas como também uma presença ainda maior das petroleiras chinesas na exploração da costa brasileira. Tudo essas possibilidades de ampliação da participação chinesa na economia brasileira deveriam então soar alarmes estridentes por aqui.

Interessante notar que todo esse cenário poderá ser alterado se ocorrer um acordo a partir das rodadas de negociação que os EUA e a China estão desenvolvendo neste momento.  É que se o desfecho for positivo, o agronegócio brasileiro será diretamente afetado já que os EUA são concorrentes diretos no comércio de soja e carne. Essa situação é, no mínimo, muito curiosa. É que o governo de Donald Trump, a quem o presidente Bolsonaro já teceu juras públicas de amor, poderá ser o coveiro da parceria pragmática que se busca com os chineses.

 

 

 

Mudanças climáticas e o risco do Brasil ser tratado como piada

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Como venho escrevendo nos últimos dias, acabo de retornar de uma participação no International Symposium on Green Development and Integrated Risk Governance” que ocorreu na cidade de Shenzhen na China. Esse encontro deve ser um dos muitos que estão ocorrendo ao longo de 2019 para tratar da adoção de ações para enfrentar os inevitáveis impactos das mudanças climáticas em curso no nosso planeta.

Pois bem, ao longo de qualquer encontro dessa natureza é possível ver como está se dando a preparação (ou a ausência dela) em um nível ainda abstrato, o qual fica na interface existente cientistas e agentes de governo. Nesse sentido, ficou evidente que a posição oficial da China, explicitada não apenas por seus cientistas mas também por representantes de diferentes níveis do poder estatal que estavam presentes no evento, é de que as mudanças climáticas oferecem riscos, mas também oportunidades, para o desenvolvimento futuro da economia global.  Essa posição reflete a forma pragmática com que os dirigentes do Partido Comunista Chinês (PCC) pensam a participação presente e futura da China como potência econômica, mas também as inevitáveis pressões que surgem em uma população que beira a 1,5 bilhão de pessoas.

20191013_104928.jpgSlide mostrando mudanças ocorridas nos últimos 50 anos no clima da China

Não obstante, os chineses tratam com seriedade não apenas a existência das mudanças climáticas, mas também a realidade objetiva de que partes do seu território, especialmente as regiões costeiras, deverão receber os impactos de eventos climáticos cada vez mais intensos e devastadores. Em outras palavras, mudanças climáticas para os chineses não são parte de nenhuma teoria conspiratória, mas um fato da realidade para o qual eles estão tentando se preparar a partir daquilo que eles gostam de propalar como sendo o “socialismo com características chinesas”.

Essa imersão ligeira na forma com que percebi a postura chinesa frente ao fenômeno das mudanças climáticas teve outra utilidade para mim. É que naquelas inevitáveis rodinhas de conversa que surgem em toda reunião científica, tive a oportunidade de oferecer aos meus colegas interlocutores a visão oficial dos atuais dirigentes brasileiros em relação às mudanças climáticas, incluindo a famosa assertiva do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, no sentido de que as mudanças climáticas não passam de um complô marxista. Nessa hora, o que recebi de volta foram risadas que rapidamente eram substituídas por expressões que misturavam incredulidade e sarcasmo. Em outras palavras, estamos sendo transformados em motivo de piada de salão.  E o motivo para isto é simples: não há como levar à sério quem ostenta tamanha postura anti-científica em um momento em que se discuta não mais se passamos por um ajuste climático, mas sim o tamanho dele.

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Se alguém achar que a postura delirante do ministro das Relações Exteriores não traz consequências significativas, sugiro pensar de novo. É que a ´partir das discussões e conversas em que participei em Shenzhen, me parece claro que os principais governos do mundo, a começar pelo da China, não estão dispostos a tolerar posturas delirantes que coloquem em risco a sua própria capacidade de continuar operando de forma viável.  Se eu estiver certo, e não tenho motivos para achar o contrário, o isolamento diplomático e político do Brasil vai ser aprofundado caso a postura atual de ignorar a realidade das mudanças climáticas não seja revertida.  E aqui não há qualquer motivo para rir, pois a coisa definitivamente não é uma piada.

O discurso delirante de Jair Bolsonaro na ONU aumentará isolamento do Brasil

bolsonaro-onuO discurso fortemente ideológico de Jair Bolsonaro na assembleia geral da ONU deverá aprofundar o isolamento do Brasil

Acabei de assistir à relativamente longa (pelos padrões praticados até aqui em eventos multilaterais) e dolorosa fala do presidente Jair Bolsonaro na Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU). O doloroso fica por conta da tarefa árdua de ouvir o amontoado de clichês que alguém colocou no papel para ser lido por um presidente que objetivamente não possui a menor noção dos problemas que seu ainda breve governo já criou para o Brasil. E que agora certamente aumentarão como fruto de um discurso puramente ideológico cuja essência é negar fatos concretos.

Das questões mais notáveis da fala de Jair Bolsonaro estão os ataques à mídia, à Cuba e À Venezuela, ao cacique Raoni Metuktire, ao globalismo, às ditas ingerências na soberania do Brasil, e desaguando em uma citação bíblica, a de João 8:32 (E conhecerão a verdade, e a verdade os libertará”).

Não faltou ainda os ataques a uma suposta ideologização da sociedade brasileira, que estaria perpassando todos os segmentos imagináveis, começando, obviamente, pela mídia que estaria mostrando, por exemplo, uma devastação inexistente na Amazônia brasileira. Nesse quesito, Jair Bolsonaro apresentou números muito peculiares, tanto na área do território nacional usada para agricultura (que seriam meros 8%) e para a conservação ambiental (estrondosos 60%).  Bolsonaro não deixou citar as comparações com o que estaria sendo usado para agricultura em países como Alemanha e França, os quais, segundo ele, usariam quase 6 vezes mais do seu território para produzir alimentos.

Um momento esquisito do discurso foi a deferência especial à Israel que teria enviado suas tropas para participar de ações de resgates no Brasil (o que se reduziu a 4 dias em Brumadinho e 4 dias em Rondônia). O problema é que essa deferência toda antecedeu uma sinalização de que o Brasil pretende aprofundar suas parcerias com os países árabes, os quais têm visto a aproximação com Israel com grande reserva, o que já resultou em grandes perdas econômicas.

Na mesma direção, o presidente Bolsonaro misturou ataques aos países europeus com uma saudação ao acordo de livre comércio com a União Europeia.  Esse acordo, como sabemos, subiu no telhado após o início das queimadas devastadoras que ocorreram na Amazônia como fruto do avanço da franja de desmatamento.

Interessante notar que o secretário de estado dos EUA,  Mike Pompeo, chegou no minuto final do discurso de Jair Bolsonaro, o que demonstra de forma cabal o isolamento diplomático em que o Brasil está posto neste momento. 

Este isolamento certamente será agravado pelo ataque direto que foi feito ao cacique Raoni e a apresentação de uma suposta liderança indígena,  a youtuber Ysani Kalapalo, para tentar legitimar suas visões de exploração de riquezas dentro das áreas indígenas.

A forma com que o discurso foi recebido foi evidenciado pelo silêncio que se seguiu a ele.  O fato é que os problemas políticos e econômicos que o Brasil vive neste momento têm tudo para piorar depois desse discurso lamentável.

Um adendo necessário é a extrema semelhança do discurso de Jair Bolsonaro com o seu parceiro preferencial, Donald Trump. Determinados trechos do discurso de Donald Trump que se seguiu imediatamente ao de Bolsonaro saíram da mesma cartilha que repete a cantilena do anti globalismo. Como dificilmente, o Departamento de Estado dos EUA daria ouvidos a Jair Bolsonaro para preparar o discurso de Trump, o mais provável é que o contrário tenha ocorrido. 

 

Suécia mostra novidades em ciência, tecnologia e aeronáutica nas Semanas de Inovação 2019

Programação em diversas cidades brasileiras inclui desde palestra sobre biotecnologia para agroindústria a seminários sobre Cidades Inteligentes  e discussões sobre inteligência artificial no mercado financeiro; além de parceria com o Festival Tekla, iniciativa criada pela cantora pop sueca Robyn para discutir o acesso de meninas às áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática

feira suéciaEstudantes em escola sueca (Crédito: Lena Granefelt)

São Paulo, setembro de 2019 – O Team Sweden Brazil promove, entre os dias 16 e 27 de setembro, as Semanas de Inovação Suécia-Brasil 2019, uma série de eventos como workshops, bate papos, paineis e encontros baseados na parceria estratégica entre os dois países nas áreas de ciência, tecnologia e inovação (CTI). Em sua oitava edição, as Semanas de Inovação combinarão atividades em cidades como Brasília, Fortaleza, Joinville, Manaus, Porto Alegre, Rio e Janeiro e São Paulo.

“O objetivo das Semanas de Inovação Suécia-Brasil é fortalecer a Suécia como um parceiro de inovação de longo prazo para o Brasil, promovendo ambientes de inovação, estabelecendo colaborações entre os dois países e criando um ponto de encontro para atores suecos e brasileiros nas áreas de CTI”, explica Johanna Brismar Skoog, nova Embaixadora da Suécia no Brasil. “Elas também são importantes para celebrar parcerias existentes e descobrir oportunidades de cooperação bilaterais e multilaterais. O acordo União Europeia-Mercosul, por exemplo, tem tudo para proporcionar um aumento do comércio e de investimentos e também para assegurar a implementação do Acordo de Paris”, completa.

Para marcar a abertura das Semanas de Inovação, no dia 16 de setembro, a cidade de Manaus (AM) receberá um evento especial com a participação do Vice-Ministro Sueco da Inovação, Emil Högberg, da nova Embaixadora da Suécia no Brasil, Johanna Brismar Skoog, e do Governador do Amazonas, Wilson Lima. Na ocasião, o Auditório da FIEAM sediará o painel “Hélice Tríplice Suécia-Amazonas” que discutirá como a Suécia e o Estado do Amazonas têm aplicado o modelo de cooperação entre universidade-indústria-governo na sua busca por inovação, empreendedorismo e desenvolvimento sustentável. O evento contará com a participação de representantes de instituições brasileiras como SENAI – Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial, INPA – Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, UFAM – Universidade Federal do Amazonas e UEA – Universidade do Estado do Amazonas, e suecas como Universidade de Linköping, RISE – Institutos de Pesquisa da Suécia, Agência Sueca de Proteção Ambiental, Electrolux e Ericsson.

Meninas na ciência

Um dos destaques da agenda de 2019 é o Workshop e Diálogo Tekla, nos dias 17 e 18 de setembro, em Brasília. Promovidos com apoio do Instituto Sueco e do Instituto Real de Tecnologia de Estocolmo, eles fazem parte do Festival Tekla, iniciativa da cantora pop sueca Robyn que tem como missão inspirar o interesse em tecnologia entre meninas do ensino fundamental e médio, e discutir como reduzir a sub-representação feminina nas áreas de STEM (sigla em inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática).

Com o objetivo de oferecer um ambiente no qual jovens garotas (13 a 15 anos) de 7 escolas do Distrito Federal possam testar e criar tecnologias junto com outros modelos de mulheres, o workshop e o bate papo contarão com a participação de Heidi Harman, fundadora da mais antiga rede de tecnologia feminina na Suécia, o GeekGirl Meetup, uma rede para mulheres em STEM, código, design e startups, que agora possui braços em 17 países.

O evento terá ainda a participação de Juliana Estradioto, Prêmio Jovem Cientista 2018 e primeira brasileira a ganhar primeiro lugar na categoria de Ciências dos Materiais na Intel ISEF (Intel International Science and Engineering Fair), maior feira de ciências pré-universitária do mundo. Conhecida também por ter sido premiada com a possibilidade de dar seu sobrenome a um asteroide, Juliana é fundadora do Meninas Cientistas, iniciativa que visa incentivar a pesquisa e a ciência entre jovens do ensino médio, principalmente entre meninas, por meio da divulgação de histórias inspiradoras.

Biotecnologia para uso agroindustrial

Brasília abriga ainda o painel Biotecnologia Industrial Aplicada a Resíduos Agroindustriais. Com a participação de Michael Salter (RISE) e do professor Fredrik Ingemarson, o evento pretende discutir como a utilização de biotecnologia industrial pode agregar valor e facilitar o manejo de resíduo agroindustrial.

Smart Cities em Porto Alegre e Rio de Janeiro

A discussão em torno das Cidades Inteligentes também permeia a programação das Semanas de Inovação Suécia-Brasil 2019.

Na capital federal, no dia 18, o Parque Tecnológico de Brasilia (BIOTIC) recebe o seminário Smart City Brasília: Conecta Mundi. O evento reunirá três agências suecas – Inovação, Proteção Ambiental, Crescimento Econômico e Regional -, o Instituto Real de Tecnologia de Estocolmo, as Associações U&WE e C/O City, além de representantes do Governo do Distrito Federal, Senai, FAPDF e Embrapii, para apresentar parcerias e bons exemplos de Cidades Inteligentes com foco em desenvolvimento sustentável, resíduos sólidos e mobilidade.

O evento marca ainda a abertura oficial da exposição The Smart City – Meeting the Urban Challenge, uma mostra curada e organizada pelo Instituto Sueco sobre Cidades Inteligentes na Suécia, que ficará em cartaz no espaço até o dia 26 de setembro.

No Rio de Janeiro, no dia 20, a discussão sobre Cidades Inteligentes ganha a forma de um seminário na Casa Firjan sobre Responsabilidade Social Corporativa e como a Indústria 4.0 pode influenciar um novo modelo social: a Sociedade 5.0, com confiança na inovação, automação e inteligência artificial. Entre os participantes, representantes da Tillvaxtverket – a Agência Sueca para Crescimento Regional e Econômico, e Vinnova – Agência de Inovação do país escandinavo.

Já em Porto Alegre, no dia 26, Marc Weiss responsável pela criação da Zona de Inovação Sustentável de Porto Alegre (ZIS Poa) comandará o painel Smart City Porto Alegre: política de resíduos sólidos, reunindo especialistas brasileiros e suecos em uma conversa sobre inovação no manejo de resíduos sólidos e o conceito de economia circular.

Empresas brasileiras na Suécia e mercado financeiro com inteligência artificial

São Paulo recebe, no dia 24, a sessão de lançamento da Iniciativa Corporate Venture Brasil-Suécia, realizada pelo CISB (Centro de Pesquisa e Inovação Sueco-Brasileiro) em parceria com o Ignite Sweden e Anprotec (Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores), e apoiada pela Vinnova. Evento tem como principal objetivo fazer a conexão de startups com grandes corporações no Brasil e na Suécia em busca de soluções inovadoras para os desafios tecnológicos da indústria. A sessão de lançamento apresentará a iniciativa e as parcerias CISB-Ignite e CISB-Anprotec, além de preparar grandes empresas brasileiras participantes do programa para sessões de matchmaking com startups suecas em outubro, em Estocolmo, na Suécia. Durante a atividade, algumas startups brasileiras também terão a oportunidade de apresentar seus inovadores modelos de negócios.

Um painel sobre Inteligência Artificial no Mercado Financeiro também será promovido sede da Swedcham – Câmara de Comércio Sueco-Brasileira, na capital paulista, no dia 17. Com a presença do especialista em Inteligência Artificial Sergio Quiroga e do Diretor para Inovação da Ericsson, Edvaldo Santos, o evento discutirá como a I.A. pode ser aplicada no mercado financeiro e prever a direção e movimentos dos mercados de ações a partir da análise de informações compartilhadas na imprensa e na internet.

Caças Gripen + FAB

A colaboração entre a empresa sueca SAAB e a Força Aérea Brasileira, responsável pelos novos caças brasileiros Gripen E, também estará presente na programação das Semanas de Inovação. No dia 23, em São Paulo, será realizado o segundo workshop do Swedish Professor Chair Program no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), uma iniciativa do CISB e da Saab para trazer grandes pesquisadores ao Brasil, e criar e fortalecer parcerias de longo prazo com a Suécia em tópicos relevantes de pesquisa.

Já em Joinville, o SC2C.Aero organizará este ano o seu 2° Workshop Anual, com o objetivo de integrar companhias, agências de fomento e instituições de pesquisa, desenvolvimento e inovação a fim de aperfeiçoar o ecossistema aeroespacial em Santa Catarina. Evento no dia 24 de setembro será realizado no Ágora Tech Park, uma parceria da UFSC juntamente com a iniciativa privada e o poder público.

Sobre a Sweden-Brazil Innovation Weeks

As Semanas de Inovação Suécia-Brasil são uma atividade anual coordenada pela Embaixada da Suécia em Brasília, com o objetivo de fortalecer a Suécia como um parceiro de inovação de longo prazo para o Brasil, promover ambientes de inovação suecos, estabelecer uma colaboração com parceiros brasileiros e criar um ponto de encontro para atores suecos e brasileiros nas áreas de CTI. Além de fornecer uma visão geral das atividades suecas de CTI no Brasil, elas são uma plataforma de promoção comercial e uma possibilidade de explorar, descobrir e analisar novas oportunidades de negócios e de cooperação entre a Suécia e o Brasil.

As Semanas de Inovação Suécia-Brasil são organizadas pelo Team Sweden Brazil: Embaixada da Suécia, Conselho Sueco de Investimento e Negócios (Business Sweden), Câmara de Comércio Sueco-Brasileira (Swedcham) e os Consulados Gerais e Honorários da Suécia.

Confira a programação completa em: inovacaosueciabrasil.com.br/programa

A queda de John Bolton deve ampliar isolamento internacional do Brasil

bolton bolsoO presidente Jair Bolsonaro e  John Bolton em novembro de 2018, durante a visita do então assessor de Segurança Nacional de Trump ao Brasil. REPRODUÇÃO/JAIR BOLSONARO

Vista de longe a queda de John Bolton, assessor de segurança nacional do presidente Donald Trump, poderia ser considerada como algo que não afeta o já precário balanço diplomático em que o Brasil se encontra neste momento.  Mas não ver a direta relação entre a remoção de Bolton e a ampliação do isolamento em que o Brasil foi posto pelas posições extremadas do presidente Jair Bolsonaro e a maioria dos seus ministros seria um erro primário.

O fato é que sendo um extremista em posições ideológicas pró-EUA, John Bolton oferecia ao governo Bolsonaro uma espécie de chancela a todo tipo de postura que afastasse a diplomacia brasileira de seu histórica postura pragmática de não interferência em assuntos alheios.  Um exemplo disso foi a quase intervenção militar na Venezuela onde o ministro das relações exteriores, Ernesto Araújo,  se colocou de forma entusiástica a favor de uma invasão do país vizinho em um clara coordenação com o que pregava o agora demitido assessor de segurança nacional de Trump.

Ao perder a ligação direta com os círculos mais duros do núcleo decisório de poder dentro dos EUA, o mais provável é que o Brasil, por causa das posturas do presidente Bolsonaro e sua entourage, passa cada vez mais a um isolamento também em relação ao governo Trump.  A razão para isto é simples: Donald Trump está envolvido em uma batalha de vida ou morte por sua sobrevivência política em face da posição cada vez mais delicada da economia estadunidense, e não terá muito tempo para se distrair com presidentes com posturas extremadas, pois o que lhe dará frutos dentro de casa será justamente demonstrações de que pode os EUA podem exercer eficientemente sua influência política, econômica e militar sobre o resto do mundo.

Mas o fato objetivo é que sem John Bolton, o governo Bolsonaro tenha maiores dificuldades para exercer a influência brasileira até na América do Sul. Se à queda de Bolton se somar uma eventual, e cada vez mais provável, derrota eleitoral de Maurício Macri nas eleições presidenciais argentinas, aí a coisa tenderá a desandar de vez.