Segredos financeiros da destruição florestal: como o capital opaco alimenta o desmatamento no Brasil

Relatório internacional revela conexão direta entre fluxos financeiros ilícitos, paraísos fiscais e devastação ambiental na Amazônia

Um novo relatório divulgado pela organização internacional Financial Transparency Coalition (FTC), intitulado Financial Secrets of the Forests: How secrecy fuels deforestation in Brazil and Cameroon, lança luz sobre um dos aspectos menos debatidos — mas centrais — da crise ambiental contemporânea: a relação entre o desmatamento ilegal e os mecanismos globais de ocultação financeira. O estudo mostra que a destruição das florestas tropicais não ocorre apenas por motosserras, correntões e queimadas, mas também por meio de complexas estruturas empresariais opacas, evasão fiscal, lavagem de dinheiro e uso de paraísos fiscais.

O relatório analisa particularmente os casos do Brasil e dos Camarões, demonstrando que a devastação florestal está profundamente integrada aos circuitos internacionais de acumulação de capital. Segundo os autores, Alfonso Daniels, Matti Kohonen e Brián Covaro, a falta de transparência financeira permite que empresas e indivíduos envolvidos em crimes ambientais ocultem os verdadeiros beneficiários de suas operações, movimentem recursos ilegalmente e escapem da responsabilização jurídica.

No caso brasileiro, o estudo destaca que o desmatamento ilegal na Amazônia não é um fenômeno isolado ou espontâneo, mas parte de um sistema econômico estruturado em torno da especulação fundiária, da expansão agropecuária, da mineração e da extração ilegal de madeira. Esse sistema depende fortemente da circulação de fluxos financeiros ilícitos e de mecanismos de ocultação patrimonial para operar em larga escala.

Entre as principais descobertas do relatório está a estimativa de que bilhões de dólares associados à destruição florestal deixam os países produtores por meio de práticas financeiras ilícitas, incluindo manipulação de preços comerciais, evasão tributária e lavagem de dinheiro. O documento afirma que o Brasil perde cerca de US$ 1,28 bilhão em receitas públicas relacionadas ao desmatamento ilícito, enquanto os Camarões perderiam aproximadamente US$ 289 milhões. Esses recursos poderiam ser utilizados em políticas públicas de proteção ambiental, saúde, educação e adaptação climática.

Os autores também enfatizam que a ausência de transparência sobre os chamados “beneficiários finais” — isto é, as pessoas físicas que efetivamente controlam empresas e ativos — cria um ambiente favorável à impunidade. Empresas registradas em paraísos fiscais ou estruturadas por meio de cadeias societárias complexas conseguem esconder os responsáveis diretos por crimes ambientais, dificultando investigações e punições.

Outro aspecto central do relatório é a crítica ao papel desempenhado pelo sistema financeiro internacional. Bancos, fundos de investimento e grandes corporações aparecem como agentes que, direta ou indiretamente, financiam atividades associadas à destruição florestal. Em vez de constituir apenas um problema ambiental localizado, o desmatamento amazônico é apresentado como parte de uma engrenagem global de acumulação financeira.

A pesquisa também alerta para os limites das atuais políticas voluntárias de sustentabilidade corporativa. Segundo o documento, compromissos empresariais de “desmatamento zero” frequentemente convivem com estruturas financeiras que continuam facilitando a expansão de atividades predatórias. Em outras palavras, existe um profundo descompasso entre os discursos verdes corporativos e os mecanismos concretos de financiamento que sustentam o avanço da destruição ambiental.

Entre as recomendações apresentadas pelo relatório estão:

  • criação de registros públicos e transparentes de beneficiários finais de empresas;
  • fortalecimento das políticas de combate à lavagem de dinheiro vinculada a crimes ambientais;
  • integração entre autoridades ambientais, fiscais e financeiras;
  • ampliação da cooperação internacional para rastrear fluxos financeiros ilícitos;
  • responsabilização de instituições financeiras que financiem atividades associadas ao desmatamento.

O relatório também sugere que o combate ao desmatamento exige ir além da fiscalização ambiental tradicional. Sem enfrentar a arquitetura financeira que sustenta a devastação, medidas de comando e controle tendem a ter efeitos limitados. A floresta, nesse sentido, tornou-se não apenas uma fronteira ecológica em disputa, mas também uma peça estratégica da financeirização global.

A principal contribuição do estudo talvez seja justamente explicitar que a crise ambiental amazônica não pode ser compreendida apenas como resultado de “falhas de governança” locais ou de ações individuais de grileiros e madeireiros ilegais. O que está em jogo é um modelo internacional de acumulação que converte florestas, territórios e recursos naturais em ativos financeiros, frequentemente protegidos por estruturas de sigilo corporativo e complacência regulatória.

Em um momento em que governos e grandes empresas multiplicam promessas climáticas e discursos sobre economia verde, o relatório da FTC funciona como um alerta contundente: enquanto os mecanismos financeiros que lucram com a destruição permanecerem intocados, a devastação das florestas tropicais continuará sendo altamente rentável.

A China muda de rumo — e o Brasil insiste no atraso

Enquanto Pequim investe em soberania alimentar, biotecnologia e proteínas alternativas, o Brasil aprofunda sua dependência da exportação de commodities agrícolas

Durante décadas, a relação econômica entre Brasil e China foi apresentada como uma parceria estratégica quase perfeita. O Brasil exportaria commodities agrícolas e minerais; a China compraria em volumes crescentes para alimentar sua industrialização, urbanização e ascensão de sua classe média. A soja tornou-se o símbolo máximo desse pacto silencioso. Mas um artigo escrito pelo professor da USP, Ricardo Abramovay, publicado pelo Valor Econômico, chama atenção para uma mudança estrutural que pode redefinir profundamente essa relação: Pequim está buscando reduzir sua dependência externa de proteínas vegetais — especialmente aquelas produzidas nas Américas.

O alerta é sério porque toca justamente no coração do modelo agroexportador brasileiro. Desde os anos 2000, boa parte da expansão da fronteira agrícola brasileira foi impulsionada pela demanda chinesa por soja destinada à alimentação animal, sobretudo de suínos e aves. O crescimento do agronegócio brasileiro passou então a depender não apenas da produtividade agrícola, mas também da continuidade quase infinita do apetite chinês por ração animal.

Agora, porém, a lógica começa a mudar.  A China vem investindo pesadamente em novas tecnologias alimentares, biotecnologia, fermentação de precisão, proteínas alternativas e substituição parcial de insumos importados. O objetivo é estratégico: ampliar sua segurança alimentar e reduzir vulnerabilidades externas num cenário internacional marcado por guerras comerciais, instabilidade geopolítica e crise climática. Essa transição não significa que Pequim deixará de importar soja amanhã. Mas significa algo talvez mais importante: o atual padrão de crescimento das exportações brasileiras pode ter chegado ao seu teto histórico.

O grande problema é que o Brasil parece continuar apostando exatamente no modelo que a China tenta superar. Enquanto Pequim direciona recursos para inovação científica, agregação tecnológica e sistemas alimentares mais sofisticados, o Brasil segue aprofundando sua especialização em commodities primárias de baixo valor agregado. A consequência é um risco crescente de descompasso estrutural entre os dois países.

Ricardo Abramavoy sugere em seu artigo que a grande ameaça para o Brasil não é simplesmente econômica, mas civilizatória. O país continua expandindo áreas agrícolas, pressionando biomas estratégicos como Cerrado e Amazônia, enquanto o mercado internacional começa lentamente a questionar os custos ambientais desse modelo. Ao mesmo tempo, os setores mais dinâmicos da economia global caminham para produtos intensivos em conhecimento, inovação biológica e sustentabilidade.

Há uma ironia importante nesse processo. O Brasil possui algumas das maiores capacidades científicas do mundo tropical: biodiversidade incomparável, centros avançados de pesquisa agropecuária, universidades públicas relevantes e condições excepcionais para liderar uma nova economia da bioinovação. No entanto, insiste em ocupar um papel subordinado na divisão internacional do trabalho, exportando matéria-prima e importando tecnologia.

A mudança chinesa deveria funcionar como um sinal de alerta estratégico. Se o principal comprador global de proteínas vegetais começa a buscar autonomia tecnológica e alimentar, países altamente dependentes desse mercado precisam rever urgentemente suas estratégias de desenvolvimento.

A questão central não é apenas “quanto soja o Brasil conseguirá vender no futuro”, mas qual será o lugar do país numa economia global cada vez mais baseada em ciência, inovação e sustentabilidade.

El Niño: a engrenagem invisível que reorganiza o clima e pressiona sociedades

Do aquecimento do Pacífico às secas amazônicas e enchentes no Sul do Brasil, o risco de um Super El Niño revela como a variabilidade climática pode amplificar crises ambientais, econômicas e históricas

Há fenômenos naturais que funcionam como engrenagens discretas do sistema terrestre. Eles operam longe do cotidiano das cidades, mas quando entram em ação reconfiguram economias, paisagens e até trajetórias históricas. O El Niño é um desses mecanismos profundos , sendo um fenômeno que nasce nas águas tropicais do Oceano Pacífico e reverbera em escala planetária, com efeitos particularmente sensíveis na América do Sul.

Em anos considerados “normais”, os ventos alísios empurram águas quentes em direção ao Pacífico oeste, acumulando calor próximo ao Sudeste Asiático e permitindo que águas frias, ricas em nutrientes, subam à superfície na costa oeste sul-americana. Esse mecanismo sustenta uma das regiões pesqueiras mais produtivas do mundo e ajuda a manter relativa estabilidade climática nos trópicos. O El Niño começa quando essa engrenagem enfraquece: os ventos perdem força, o calor oceânico se desloca para leste e a atmosfera reage reorganizando suas grandes correntes. O resultado é uma redistribuição global de calor e um efeito dominó climático.

É por isso que o El Niño não é apenas um “evento regional”. Ele é um reorganizador do clima planetário. Em escala global, costuma empurrar as temperaturas médias para cima e amplificar extremos: secas mais severas, chuvas mais intensas, ondas de calor mais persistentes. Em outras palavras, ele age como um multiplicador das tensões já presentes no sistema climático.

Na América do Sul, essa reorganização ganha contornos dramáticos. Ao atingir a costa do Peru e do Equador, o aquecimento das águas interrompe a ressurgência fria que sustenta a pesca. Ao mesmo tempo, regiões desérticas passam a receber chuvas torrenciais, desencadeando enchentes e deslizamentos. Enquanto isso, a Amazônia tende a experimentar o oposto: secas prolongadas, rios com níveis críticos e incêndios florestais mais frequentes. O continente vive, portanto, uma espécie de divisão climática: excesso de água em algumas regiões, escassez dramática em outras.

Esse contraste torna-se ainda mais evidente quando olhamos para o Brasil. O país costuma experimentar o El Niño como um fenômeno de extremos simultâneos. O Sul enfrenta chuvas persistentes e enchentes recorrentes; o Sudeste oscila entre ondas de calor e tempestades intensas; a Amazônia sofre com secas que elevam o risco de queimadas e pressionam a geração hidrelétrica. Em anos de El Niño muito forte, os chamados “Super El Niño” , esses padrões tendem a se intensificar, produzindo impactos que se espalham da agricultura ao sistema energético. O risco deixa de ser apenas meteorológico e passa a ser socioeconômico, com efeitos mais dramáticos atingindo as camadas mais pobres da população.

Além disso,  um Super El Niño em um planeta já aquecido pelo aquecimento global cria uma combinação particularmente preocupante. O fenômeno natural não ocorre em um mundo estático: ele se soma a oceanos mais quentes, florestas mais vulneráveis e cidades mais expostas. Assim, secas podem tornar-se mais profundas, enchentes mais destrutivas e ondas de calor mais prolongadas. O que antes era variabilidade climática passa a interagir com uma tendência de fundo, ampliando seus efeitos.

Mas o El Niño não é apenas uma questão contemporânea. Evidências arqueológicas sugerem que ele acompanha a história humana há milênios. Civilizações costeiras andinas dependiam de pesca abundante e de sistemas agrícolas delicados. Quando eventos extremos interrompiam a produtividade marinha ou desencadeavam chuvas devastadoras em regiões áridas, as consequências eram profundas: colapsos produtivos, migrações e instabilidade social. Há indícios de que episódios intensos do fenômeno contribuíram para crises em sociedades pré-colombianas.

No caso do mundo andino, especialmente nas regiões dos Andes, a variabilidade climática pode ter sido um fator silencioso na fragilização do Império Inca. Terraços agrícolas dependiam de equilíbrio hídrico delicado; chuvas extremas podiam destruir encostas cultivadas, enquanto secas comprometiam colheitas. Quando os europeus chegaram, encontraram uma sociedade já pressionada por tensões internas e possivelmente por oscilações climáticas recentes. O clima não explica sozinho a queda de grandes civilizações, mas frequentemente aparece como um fator agravante em momentos de crise.

Talvez seja essa a lição mais incômoda do El Niño: ele lembra que a história humana sempre esteve entrelaçada com a variabilidade climática. A diferença é que hoje a escala da exposição é muito maior. Populações urbanas densas, cadeias globais de alimentos e sistemas energéticos interdependentes tornam a sociedade contemporânea mais sensível a choques climáticos amplificados.

Observar o Pacífico tropical, portanto, é observar um dos termômetros mais importantes do futuro próximo. Quando suas águas aquecem além do habitual, não se trata apenas de uma anomalia oceânica, mas é um sinal de que o planeta inteiro pode estar prestes a sentir os efeitos dessa engrenagem invisível.

A “generosidade” do financiamento climático britânico no Brasil e suas mazelas

O financiamento climático concedido pela Grã-Bretanha ao Brasil é ambicioso, mas apresenta impactos menos claros para as comunidades, florestas e emissões

Sir Keir Starmer, primeiro-ministro britânico, e Luiz Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil. Imagem: Ricardo Stuckert/ Palácio do Planalto/Creative Commons 2.0. 

Por Monica Piccinini para “The Ecologist”
Existe uma versão familiar de ação climática que, por definição, transmite uma sensação reconfortante. Governos destinam verbas públicas, parcerias internacionais são firmadas e metas ambiciosas são estabelecidas.   O programa climático internacional do Reino Unido – UK Partnering for Accelerated Climate Transitions, ou UK PACT – encaixa-se perfeitamente nessa narrativa, posicionando-se como parte de uma resposta global coordenada a uma crise crescente.

Leia o relatório de Monica Piccinini: Um acerto de contas na Amazônia ( PDF )

O UK PACT financia projetos em países como o Brasil com o objetivo de reduzir as emissões, proteger os ecossistemas e desbloquear investimentos “verdes”. 

Implementação

À primeira vista, parece exatamente como se esperaria. Mas, como acontece com muitos sistemas complexos e de grande porte, a realidade se torna mais complicada quanto mais se observa. Portanto, a questão não é se o trabalho está sendo feito, mas se esse trabalho leva a mudanças significativas na prática.

É fácil presumir que o financiamento climático flui diretamente para onde é mais necessário: florestas, comunidades ou infraestrutura crítica. Na realidade, o caminho raramente é tão simples.

Os fundos são transferidos dos contribuintes para os programas governamentais e, em seguida, para os parceiros de implementação, geralmente consultorias, centros de pesquisa e ONGs internacionais. 

Organizações como a Climate Policy Initiative ( CPI) , o Instituto Talanoa , a Climate Bonds Initiative , a Imaflora , a Conexus , o The Climate Group , o AYA Institute , a The Nature Conservancy ( TNC ) Brasil e outras participam desse movimento. 

Para que o financiamento verde sirva ao bem-estar coletivo em vez dos interesses de uma minoria privilegiada, precisamos de regulamentações públicas rigorosas e proativas. 

O trabalho deles geralmente se concentra em assistência técnica, elaboração de políticas e estruturas financeiras, embora alguns também possam apoiar ou colaborar na implementação no terreno.

Mais ricos

Mas o papel dessas organizações levanta uma questão mais ampla: quanto do financiamento climático é, em última análise, gasto em ações que viabilizam a implementação , e quanto realmente as concretiza? Não se trata de má conduta, mas sim de estrutura. 

Quanto mais camadas o dinheiro atravessa, mais difícil se torna traçar uma linha clara entre o financiamento e os resultados, sejam eles emissões, proteção de terras ou benefícios tangíveis para as comunidades. 

Segundo o CPI, os primeiros dados indicam que o financiamento climático global ultrapassou os 2 biliões de dólares em 2024, tendo atingido os 1,9 biliões de dólares em 2023.

Maud Borie, professora sênior, e a professora Sarah Bracking, ambas do King’s College London, escreveram um artigo importante para o The Conversation , intitulado “Por que o financiamento ‘verde’ não é tão sustentável quanto parece”.

O texto afirma: “ Cada vez mais evidências  sugerem uma discrepância entre as possibilidades propostas e os resultados reais das finanças verdes. Muitos produtos de finanças verdes parecem servir mais aos mercados financeiros e aos investidores mais ricos do que à natureza ou às comunidades vulneráveis.”

Multilateral

“Ainda mais preocupantes são as consequências não intencionais. Longe de promover a igualdade de oportunidades, o financiamento verde pode exacerbar a desigualdade.”

“Se o financiamento verde pretende servir o bem-estar coletivo em vez dos interesses de uma minoria privilegiada, precisamos de regulamentações públicas rigorosas e proativas, bem como de debates públicos mais aprofundados sobre o que o financiamento verde deve levar em consideração.”

O Fundo Internacional de Financiamento Climático do Reino Unido ( ICF) , na sigla em inglês) não é um fundo único, mas um sistema intergovernamental compartilhado entre o Ministério das Relações Exteriores, da Commonwealth e do Desenvolvimento (FCDO), o Departamento de Segurança Energética e Net Zero (DESNZ), o Departamento de Meio Ambiente, Alimentação e Assuntos Rurais (Defra) e o Departamento de Ciência, Inovação e Tecnologia (DSIT). 

Em conjunto, esses departamentos supervisionam um amplo portfólio de gastos climáticos que abrange florestas, transição energética, adaptação e desenvolvimento sustentável.

Uma parcela significativa desse financiamento não é destinada diretamente a projetos. Em vez disso, é canalizada por meio de instituições multilaterais , como o Banco Mundial, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e agências das Nações Unidas. 

Tangível

No Brasil, o financiamento climático britânico totaliza mais de 510 milhões de libras esterlinas comprometidas desde 2016, tornando o país um dos principais beneficiários do ICF . 

Os recursos são distribuídos por uma ampla gama de iniciativas : combate ao desmatamento, restauração de ecossistemas, promoção da agricultura sustentável, fortalecimento da política de bioeconomia do Brasil e expansão do financiamento verde e dos sistemas de energia limpa. O resultado é menos uma estratégia unificada do que um conjunto de esforços paralelos. 

O UK PACT é gerido pelo FCDO e pelo DESNZ, e centra-se sobretudo na assistência técnica, trabalhando a montante, moldando políticas e sistemas financeiros, em vez de executar projetos diretamente.

No Brasil, o UK PACT e o Green Finance Institute ( GFI ) desempenham papéis complementares na fase inicial do processo, com o UK PACT financiando assistência técnica e apoio político por meio de intermediários, e o GFI focando no desenvolvimento de estruturas de financiamento verde e em fluxos de investimento. 

Esse alinhamento ajuda a mobilizar capital, mas também significa que grande parte do esforço se concentra em sistemas de apoio, em vez de execução direta, o que torna mais difícil rastrear a ligação entre o financiamento e os resultados tangíveis no terreno. 

Alvos

Entre os financiadores da GFI estão a Fundação Gordon e Betty Moore , o Governo de Sua Majestade , a Cidade de Londres , a Fundação Esmée Faribairn , aFundação Laudes , a Fundação MCS , a Fundação Quadrature para o Clima , a Fundação LTPP , Amalgamated Banka Climate Change Collaboration . 

Um dos aspectos menos visíveis, mas mais influentes do financiamento climático, reside na forma como ele é definido .

Organizações especializadas, como a Climate Policy Initiative e a Climate Bonds Initiative, ajudam a determinar o que se qualifica como investimento verde , enquanto grupos consultivos como a Talanoa auxiliam na tradução dessas definições em políticas e sistemas financeiros, moldando a forma como o progresso é medido.

Esse processo nem sempre é neutro. Quando as definições se expandem, mais atividades podem ser rotuladas como financiamento climático, incluindo investimentos que poderiam ter ocorrido de qualquer forma. Nesses casos, o progresso relatado pode refletir uma mera adequação ao contexto, em vez de uma transformação genuína. 

Isso pode criar uma lacuna sutil. Os fluxos financeiros aumentam, as metas são atingidas no papel, mas a conexão com os resultados ambientais no mundo real torna-se mais difícil de determinar. 

Desmatamento

Ao chegarem ao Brasil, esses modelos se deparam com uma realidade muito mais complexa, moldada pela política, pelas pressões econômicas e por estruturas de poder consolidadas. 

No centro está o BNDES , o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que desempenha um papel fundamental na condução dos investimentos. Possui fortes laços com grandes indústrias e projetos de infraestrutura, além de significativa influência sobre a trajetória econômica do país. 

O financiamento climático que entra nesse sistema não o transforma necessariamente. Na maioria das vezes, ele se adapta a ele. Isso pode gerar riscos: o financiamento destinado a impulsionar mudanças pode acabar reforçando as estruturas existentes, inclusive aquelas ligadas à destruição ambiental. 

Na floresta amazônica, projetos apoiados pelo Reino Unido frequentemente se concentram no uso sustentável da terra, em sistemas de certificação e no monitoramento ambiental. Essas são ferramentas bem estabelecidas, mas apresentam limitações. Organizações como a Imaflora e o IPAM contribuem com conhecimento especializado nessas áreas.

A “exploração florestal sustentável” ainda envolve o corte de árvores e os sistemas de certificação podem variar no rigor com que são aplicados. Além disso, a proteção de uma área pode transferir a pressão do desmatamento para outros locais.

Pressupostos

Uma parcela significativa do financiamento também é destinada ao monitoramento. O Brasil já possui sistemas de satélite sofisticados que rastreiam o desmatamento em tempo real. A questão não é simplesmente saber onde ele está acontecendo, mas sim agir de forma consistente e eficaz com base nessas informações.

Mais dados podem ajudar, mas por si só não impedem o desmatamento e a degradação. 

Os mercados de carbono são outra peça fundamental desse quebra-cabeça. Em teoria, eles oferecem uma maneira de reduzir as emissões, atribuindo valor às reduções de carbono. Na prática, alguns sistemas permitem que as empresas compensem as emissões enquanto compram créditos em outros lugares. 

Isso tem gerado um debate contínuo sobre se leva a reduções reais ou apenas as adia.

Investigações sobre créditos de carbono provenientes de florestas levantaram sérias preocupações quanto à sua credibilidade . Alguns projetos não conseguem gerar reduções reais de emissões. Outros se baseiam em premissas difíceis de verificar. 

Pressão

O resultado é um sistema que, por vezes, consegue equilibrar as emissões no papel sem as reduzir de forma clara. É uma ideia interessante, mas complexa.

Há um interesse crescente na descarbonização das indústrias pesadas do Brasil , particularmente as de aço e cimento, utilizando tecnologias como hidrogênio e captura e armazenamento de carbono.

A ideia é convincente: combustíveis mais limpos, captura de emissões, continuidade da produção industrial. Mas a lacuna entre o conceito e a realidade continua significativa.

Tecnologias de captura e armazenamento de hidrogênio e carbono já existem e estão sendo testadas em projetos-piloto e em estágios iniciais de comercialização. No entanto, conforme destacado no relatório da Climate Bonds Initiative sobre a descarbonização da indústria de cimento e aço, elas ainda não foram implementadas na escala necessária para reduzir significativamente as emissões em toda a indústria pesada.

O hidrogênio é frequentemente apresentado como um substituto mais limpo para o carvão na produção de aço, principalmente quando produzido a partir de energia renovável. O problema é que esse tipo de hidrogênio ainda é caro e não está amplamente disponível, especialmente em países onde os sistemas energéticos já estão sob pressão. 

Emissões

No Brasil, ampliar essa iniciativa exigiria uma infraestrutura nova e massiva e investimentos de longo prazo que ainda não existem. Por ora, trata-se mais de uma ambição de longo prazo do que de algo que proporcione reduções de emissões imediatas. 

A captura e o armazenamento de carbono enfrentam desafios semelhantes . São processos dispendiosos, que consomem muita energia e ainda não são utilizados na produção de aço em escala comercial. 

Também existem dúvidas sobre o destino de todo esse carbono capturado e sobre a segurança de seu armazenamento a longo prazo. O mesmo relatório deixa claro que esses sistemas ainda estão longe de serem soluções confiáveis ​​e em larga escala.

Isso cria uma lacuna entre a ambição e a realidade. 

Tecnologias como o hidrogênio e a captura e armazenamento de carbono estão sendo usadas para contar uma história tranquilizadora em vez de gerar mudanças imediatas. Quando são contabilizadas como parte do progresso climático atual, podem dar a impressão de que as emissões estão sendo combatidas de forma mais direta do que realmente estão na prática.  

Fluxos

Em todas essas áreas, um padrão se torna claro: os resultados são moldados não apenas pelas intenções, mas também pelos incentivos. 

As organizações recebem financiamento para desenvolver soluções, espera-se que os governos demonstrem progresso e as instituições financeiras se beneficiam quando mais investimentos são classificados como verdes.

Nesse ambiente, a própria atividade pode se tornar o foco. O progresso costuma ser mais fácil de demonstrar por meio de estruturas, métricas e relatórios do que por meio de mudanças ambientais mensuráveis.

Há poucos incentivos para admitir que algo não está funcionando, e menos ainda para simplificar sistemas que dependem de complexidade. 

Enquanto isso, as pessoas mais afetadas, as comunidades locais, muitas vezes permanecem à margem do fluxo de recursos. O sistema fala em nome delas, mas raramente coloca os recursos diretamente em suas mãos.

Reembalar

Nada disso significa que programas como o UK PACT sejam desnecessários, mas destaca a dificuldade de garantir que o financiamento se traduza em resultados tangíveis.

A questão central não é se o dinheiro está sendo gasto, mas como o impacto é definido e se essas definições refletem o que está acontecendo na prática.

Quando o sucesso é medido por meio de fluxos financeiros e alinhamento de políticas, a ligação com a realidade vivida pode começar a enfraquecer, e é aí que a confiança começa a se deteriorar. 

Em um artigo publicado na revista Geography Compass , os autores argumentam que o financiamento climático muitas vezes parece mais transformador do que realmente é. Embora os fundos sejam apresentados como ferramentas para reduzir as emissões e apoiar comunidades vulneráveis, eles operam, em grande parte, dentro dos sistemas políticos e econômicos existentes, em vez de os remodelar. 

Em alguns casos, o que é considerado investimento verde pode simplesmente reformular atividades já existentes, criando a impressão de progresso sem gerar mudanças ambientais significativas.

Poder

Mais criticamente, o artigo destaca como esses fluxos podem aprofundar os desequilíbrios de poder existentes. Em vez de redistribuir recursos, o financiamento climático pode concentrá-los, levantando questões sobre quem se beneficia e quem fica de fora. 

Em última análise, isso questiona a ideia de financiamento climático como uma solução neutra, apontando, em vez disso, para um sistema que pode reproduzir com a mesma facilidade as desigualdades que pretende resolver.

Lauren Gifford, autora principal do artigo  destacou a opacidade e a influência dos sistemas financeiros. 

Ela disse : “As finanças são complexas e muitas vezes confusas, podendo ser uma caixa-preta para muitos de nós, obscurecendo como o capital é criado, negociado e acumulado. Precisamos de mais cientistas que reflitam sobre as interseções entre dinheiro, finanças, tecnologia e mudanças climáticas. Esses campos exercem grande influência na forma como as mudanças climáticas são abordadas.”

A questão não é descartar os programas de financiamento climático, mas analisá-los de forma mais crítica.

Complexidade

Maior transparência, vínculos mais claros entre financiamento e resultados, e apoio mais direto à atuação na linha de frente são frequentemente mencionados como caminhos a seguir. Igualmente importante é a disposição para questionar a própria definição de sucesso.

As florestas continuam sob pressão, as comunidades seguem enfrentando riscos, as emissões ainda estão aumentando e, no entanto, no papel, o progresso continua.

No fim das contas, a história do financiamento britânico para o clima no Brasil não é uma história de fracasso ou sucesso absoluto. É uma história sobre complexidade e sobre a necessidade de analisar de perto sistemas que, à primeira vista, parecem estar funcionando. 

Assim, a pergunta permanece: estamos mudando o curso das mudanças climáticas ou apenas nos tornando melhores em descrever nossos esforços para fazê-lo?

Este autor

Monica Piccinini é uma jornalista brasileira-britânica e membro do Sindicato Nacional dos Jornalistas. Ela contribui regularmente para  o The Ecologist e publica no Substack, Medium e em sua própria plataforma,  YourVoiz.org 


Fonte: The Ecologist

A guerra silenciosa do Brasil contra as mulheres

No Brasil, quatro mulheres são mortas por feminicídio todos os dias. Por trás das estatísticas está uma crise mais profunda, onde a violência de gênero colide com racismo, legados coloniais e desigualdade territorial, deixando mulheres negras, indígenas e rurais em maior risco

Por Monica Piccinini para “YourVoiz”

Quando a jornalista brasileira Vanessa Ricarte foi assassinada por seu ex-noivo, o caso dominou brevemente a atenção nacional. Ricarte tinha 42 anos e, segundo investigadores policiais, já havia sofrido abusos e períodos de cativeiro antes do assassinato. Amigos depois descreveram um relacionamento que se tornou cada vez mais controlador. O assassinato, por mais devastador que tenha sido, não surgiu do nada.

Como muitos casos de feminicídio no Brasil, a violência não começou com o assassinato, ela cresceu lentamente, por meio de intimidação, controle e abusos crescentes, muito antes de se tornar fatal.

Em todo o país, esse padrão se repete com uma frequência inquietante.

Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 1.568 mulheres foram mortas em feminicídios no Brasil em 2025. Isso significa que quatro mulheres morrem todos os dias. Esse número representa um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior, e é o maior registrado desde que o feminicídio foi formalmente reconhecido como crime na lei brasileira em 2015.

Desde que a lei entrou em vigor, pelo menos 13.703 mulheres foram mortas simplesmente por serem mulheres. Nos últimos cinco anos, o número de casos aumentou cerca de 14,5%. Entre 2021 e 2024, 97,3% dos casos de feminicídio foram cometidos exclusivamente por homens.

Só os números não explicam o que está acontecendo. Em muitos casos, a violência cresce lentamente: intimidação, insultos, coerção, isolamento e ameaças.

O que começa como controle psicológico pode escalar para agressão física. Quando as autoridades tomam conhecimento da situação, o perigo geralmente já é grave.

Jesem Orellana, epidemiologista e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), apontou uma lacuna crítica entre legislação e prevenção. Ele disse:

O Brasil possui um arcabouço legal robusto para proteger as mulheres, incluindo penalidades severas para feminicídio. No entanto, milhares de mulheres foram mortas nos últimos anos. Apesar das leis rigorosas, fizemos pouco progresso na prevenção eficaz, especialmente na saúde pública.

Fazemos pouco na atenção primária e temos dificuldade em reconhecer e denunciar diferentes formas de violência contra as mulheres. Isso leva à falta de intervenção precoce ou oportuna para prevenir o feminicídio.

Fora do Brasil, a violência no país é frequentemente associada ao tráfico de drogas ou ao crime organizado. O feminicídio conta uma história diferente. A maioria dos assassinatos acontece dentro de relacionamentos íntimos.

Dados analisados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que quase 60% das vítimas são mortas por um parceiro atual, enquanto cerca de 21% são assassinadas por ex-parceiros. Em outras palavras, a pessoa responsável geralmente é alguém em quem a vítima confiou, um parceiro, um marido ou ex-parceiro.

A localização do crime reflete essa realidade.

Em 66,3% dos casos de feminicídio, o assassinato ocorre dentro da própria casa da vítima. As armas envolvidas raramente são sofisticadas. Facas e outros objetos cortantes representam quase metade de todos os casos, enquanto armas de fogo são usadas em cerca de um quarto de água.

A pesquisa de Orellana destacou como sinais de alerta muitas vezes são visíveis muito antes do crime. Ele disse:

A maioria dos feminicídios, especialmente aqueles ligados à violência doméstica, são precedidos por problemas de relacionamento ou financeiros. Ciúmes e senso de pertença às mulheres são comuns e devem ser tratados como questões de saúde mental. A dependência financeira também desempenha um papel importante, muitas mulheres são impedidas de trabalhar, o que aumenta sua vulnerabilidade a abusos psicológicos e físicos, incluindo tentativas de feminicídio.

Ele acrescentou que a violência frequentemente se intensifica quando mulheres tentam sair:

É frequentemente nesse contexto de violência extrema que as mulheres decidem terminar o relacionamento, e o ciclo de ameaças e agressão se intensifica. Alguns obtêm medidas de proteção, mas outros ainda são mortos, mesmo sendo minoria, apesar dessas proteções.

A dimensão racial do feminicídio

As estatísticas também revelam profundas disparidades raciais.

De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, entre 2021 e 2024, 62,6% das vítimas de feminicídio eram mulheres negras, enquanto 36,8% eram brancas. A violência de gênero no país não pode ser separada de sua longa história de desigualdade racial e exclusão social.

A demógrafa Jackeline Ferreira Romio,analisada pelo veículo independente Outras Palavras, argumenta que o feminicídio deve ser examinado pela interseção de raça, gênero e classe. Ela disse:

Feminicídio é uma violência baseada no ódio.

Quando o racismo se cruza com a misoginia, a violência se intensifica, deixando mulheres que já enfrentam discriminação ou pobreza em risco muito maior de violência letal.

Observe onde os casos ocorrem e as desigualdades ficam mais claras. Mulheres que vivem em bairros urbanos periféricos, regiões rurais ou comunidades historicamente marginalizadas frequentemente enfrentam os maiores níveis de violência, tendo o menor acesso à proteção institucional.

Nesse sentido, o feminicídio não é apenas uma questão de gênero, é também um problema político e histórico moldado por legados do colonialismo e da desigualdade estrutural na sociedade brasileira.

Mulheres indígenas e violência colonial

Para as mulheres indígenas, a violência está frequentemente ligada a histórias mais longas de desapropriação colonial e disputas contemporâneas por terras.

Análises da plataforma Gênero e Número mostram que os relatos de violência física, psicológica e sexual contra mulheres indígenas mais que triplicaram entre 2014 e 2023. No mesmo período, a violência sexual, muitas vezes afetando meninas, quase quadruplicou.

Entre 2003 e 2022, as mortes violentas de mulheres indígenas aumentaram cerca de 500%.

A socióloga indígena, Pagu Rodrigues, argumenta que essa violência não pode ser explicada como parte das tradições culturais indígenas. Em vez disso, reflete séculos de violência colonial e patriarcado. Ela disse:

A violência contra as mulheres não é cultura indígena, faz parte de um processo colonial de violência, de patriarcado.

Em muitos territórios, a violência está intimamente ligada a conflitos por terras e recursos naturais. As mulheres indígenas frequentemente assumem papéis de liderança na defesa de suas comunidades e territórios, o que pode colocá-las em situações de risco elevado.

Rodrigues observa que a violência sexual às vezes é usada deliberadamente como intimidação. Ela explicou:

O estupro tem sido usado como estratégia para desmobilizar líderes indígenas.

Onde a mineração e grandes projetos de infraestrutura, a expansão do agronegócio e outras indústrias extrativistas avançam para terras indígenas, a violência de gênero pode se entrelaçar com conflitos ambientais e territoriais.

Geografia e ausência institucional

Onde uma mulher vive no Brasil pode influenciar se há proteção significativa disponível.

Municípios menores, com menos de 100.000 habitantes, registram as maiores taxas de feminicídio do país, cerca de 1,7 por 100.000 mulheres, em comparação com a média nacional de 1,4.

Embora apenas 41% das mulheres brasileiras vivam nessas cidades, elas representam cerca de metade de todos os feminicídios registrados em todo o país.

Parte da explicação está na ausência de serviços especializados. Mais de 70% desses municípios não possuem delegacias de polícia feminina, abrigos ou centros de apoio dedicados.

Orellana enfatizou que a desigualdade territorial aumenta diretamente o risco letal:

Em municípios com menor presença estatal, seja em segurança, saúde, judiciário ou serviços sociais, as chances de mulheres serem mortas são ainda maiores, porque não há apoio seguro ou oportuno.

Essas mulheres são frequentemente revitimizadas pelo Estado, que às vezes não só nega proteção, mas também as culpa, revelando outra face do machismo estrutural e do patriarcado.

Para mulheres em áreas rurais, buscar ajuda envolve viajar longas distâncias ou denunciar às autoridades que ainda são vítimas de violência doméstica como um assunto privado, e não um crime. A diferença entre a proteção legal e a realidade cotidiana pode ser grande.

As leis ficam aquém

O Brasil é frequentemente reconhecido por ter um dos marcos legais mais abrangentes da América Latina para combater a violência contra as mulheres.

No centro está a Lei Maria da Penha, promulgada em 2006, que comemora seu vigésimo aniversário este ano. A lei continua sendo o principal instrumento legal do país para combater a violência doméstica e familiar. Mas o problema não é mais criar novas leis, mas sim a capacidade de implementá-las de forma eficaz.

Orellana argumentou que a falha é sistêmica e requer ação coordenada:

O feminicídio não é um problema que possa ser enfrentado de forma eficaz por um único setor. Exige ação coordenada entre assistência social, saúde pública, judiciário e segurança pública.

Ainda não entendemos que a prevenção exige respostas integradas e intersetoriais e uma mudança cultural na forma como reconhecemos a violência contra as mulheres.

Evidências analisadas pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que, em 13,1% das mulheres mortas em casos de feminicídio já haviam obtido ordens judiciais anteriormente. O sistema de justiça já havia reconhecido o risco, mas a proteção não conseguiu evitar o assassinato.

Paula Bevilacqua, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), disse que a violência em si está em constante mudança.

Falando no Seminário Amazônico sobre Vigilância de Inteligência sobre Feminicídio, ela observou:

Sempre haverá o fato de que os dados estão desatualizados. Sempre haverá uma nova violência recriada, inventada ou reinventada.

Alguns pesquisadores acreditam que a prevenção deve começar mais cedo. A mídia pode desempenhar um papel seguindo as diretrizes de reportagem promovidas pela ONU Mulheres, evitando narrativas que justificam implicitamente a violência ou sensacionalizam as vítimas.

Os profissionais de saúde também poderiam estar melhor preparados para identificar abuso psicológico, que muitas vezes aparece muito antes da violência física. A detecção precoce pode tornar a intervenção possível.

Um sistema que normaliza a violência

Alguns estudiosos argumentam que o feminicídio persiste não apenas por causa dos perpetradores individuais, mas porque formas anteriores de violência são frequentemente toleradas.

No mesmo seminário, Danúzia Rocha, professora da Universidade Federal de Acre, descreveu o feminicídio como a fase final de um ciclo de violência que repetidamente não é controlado. Ela disse:

O feminicídio acontece porque os homens têm permissão para matar. Essa morte é legitimada.

A tolerância ao assédio, intimidação ou agressão física pode permitir que a violência escale com o tempo.

Bevilacqua citou um caso polêmico em Belo Horizonte, capital do estado de Minas Gerais, onde um desembargador liberou um homem acusado de estuprar repetidamente uma menina de 12 anos, argumentando que os atos ocorreram “por amor” e com consentimento.

Para Bevilacqua, casos como este ilustram como o sexismo e o preconceito ainda podem moldar decisões dentro do sistema de justiça. Quando as instituições deixam de responder de forma consistente, a impunidade torna-se mais provável.

A dimensão da crise

Até mesmo medir o feminicídio continua sendo um desafio.

Segundo Fiocruz, o Brasil ainda carece de um sistema nacional totalmente integrado capaz de registrar com precisão essas mortes. As informações frequentemente são espalhadas por registros policiais, sistemas de saúde e bancos de dados judiciais, o que pode resultar em subnotificação e inconsistências na classificação.

A violência em si está em constante evolução. O assédio digital e as ameaças online passam a fazer cada vez mais parte de relacionamentos abusivos, criando desafios adicionais para instituições que tentam monitorar riscos.

Em resposta, Fiocruz lançou uma rede nacional de observatórios de monitoramento e prevenção conhecida como Vigifeminicídio. Coordenada pela Fiocruz Brasília, a iniciativa visa reunir pesquisadores, autoridades públicas e organizações da sociedade civil para estratégias de monitoramento e prevenção.

Orellana, coordenador do Vigifeminicídio, explicou como novas ferramentas de monitoramento podem melhorar a prevenção:

Desenvolvemos uma estratégia rápida e de baixo custo para rastrear e caracterizar assassinatos de mulheres, permitindo coletar dados abrangentes em poucos meses, algo que as estatísticas oficiais não conseguem fazer devido à subnotificação. Essa é a principal vantagem do Vigifeminicídio: ele permite o monitoramento quase em tempo real dos padrões de violência letais.

No entanto, ele alertou que essas ferramentas ainda são subutilizadas politicamente:

Com esses dados, poderíamos agir de forma mais eficaz na prevenção. Mas, infelizmente, não nos é permitido avançar nessa direção, apesar da conscientização dentro dos ministérios federais. A violência contra as mulheres também é frequentemente ignorada nas chamadas para financiamento de pesquisas, o que reflete os poderosos efeitos do machismo estrutural no Brasil.

Além das estatísticas

No fim das contas, o feminicídio no Brasil não pode ser compreendido apenas por estatísticas. Os assassinatos refletem profundas desigualdades estruturais, moldadas pela história colonial, hierarquia racial, marginalização econômica e normas patriarcais enraizadas.

Mulheres negras, indígenas e aquelas que vivem em áreas rurais ou marginalizadas continuam sendo as mais expostas e menos protegidas. A vulnerabilidade deles não é acidental; É produzido por sistemas que distribuem segurança e justiça de forma desigual.

Enfrentar o feminicídio exige mais do que punição criminal, exige mudanças estruturais de longo prazo, desde a educação até a reforma institucional e políticas públicas mais fortes, reconhecendo a violência muito antes de se tornar fatal.

Até lá, a guerra silenciosa do país contra as mulheres continua, muitas vezes invisível, desenrolando-se atrás das portas fechadas, em lares onde os sinais de alerta antes eram pequenos o suficiente para serem ignorados.


Fonte: YourVoiz

O cercado invisível: masculinidade, poder e violência contra mulheres no Brasil

Por Ismael Machado*

Esse final de semana vi o filme iraniano Fora do Jogo (Offside, de 2006) e tive a sensação desconfortável de estar diante de algo que, para muitos brasileiros, pareceria distante demais para provocar identificação. No Irã, mulheres são (ou eram, não tenho certeza) proibidas por lei de entrar em estádios de futebol. O filme acompanha algumas delas tentando assistir a uma partida decisiva das eliminatórias para a Copa do Mundo de 2006, contra o Bahrein. Disfarçadas de homens, tentam atravessar o controle do estádio. As que são descobertas não são presas no sentido convencional; são colocadas num cercado improvisado atrás das arquibancadas. Ali ficam. Não veem o jogo. Apenas ouvem o barulho da torcida e os ecos de um espetáculo do qual estão oficialmente excluídas.

A justificativa para a proibição é reveladora. As mulheres não deveriam ser expostas aos palavrões dos homens, nem frequentar ambientes predominantemente masculinos. O argumento parece protetor, quase paternalista. O problema é que esse tipo de “proteção” sempre funciona como uma tecnologia de confinamento. A mulher é protegida afastando-se dela o mundo público. O espaço que lhe resta é o doméstico, a família, a esfera privada.

O cineasta iraniano Jafar Panahi é o mesmo de ‘Foi Apenas um Acidente’, que está entre as produções oscarizáveis esse ano. Ele construiu uma das trajetórias mais singulares do cinema contemporâneo. Formado na tradição do novo cinema iraniano que ganhou projeção internacional a partir dos anos 1990, Panahi desenvolveu uma obra profundamente marcada pela observação do cotidiano e por um olhar atento às contradições sociais de seu país. Me informa a pesquisa feita no Google e no Wikipedia que seus filmes frequentemente colocam no centro personagens marginalizados — crianças, mulheres, trabalhadores — revelando, por meio de histórias simples, a complexidade de um sistema político e cultural que regula a vida privada e o espaço público. Eu o conheci agora, vendo esses dois filmes. Há outros dele no Mubi. Vou conferir.

Ao assistir ao filme, pensei muitas vezes em como certos discursos conservadores no Brasil flertam com essa lógica de violência e exclusão social. Há quem se diga defensor da liberdade, da tradição, da família. Mas raramente se discute o que acontece quando essas palavras deixam de ser abstrações morais e se transformam em estruturas concretas de poder. O que significa, de fato, uma sociedade organizada em torno da ideia de que o lugar “natural” da mulher é determinado por valores morais fixos? O Irã (e outras sociedades similares) mostra uma versão extrema dessa pergunta. O Brasil começa a tatear respostas inquietantes.

Nos últimos anos, o país viu crescer uma combinação explosiva de fatores culturais e políticos que reorganizam a forma como parte dos homens compreende o papel das mulheres. Esse processo passa por uma radicalização política associada ao empoderamento tóxico trazido pelo bolsonarismo, pela popularização de subculturas digitais como a dos red pills e dos incels e a proliferação de influenciadoras e influenciadores que defendem modelos rígidos de submissão feminina em nome da família tradicional.

Os dados sociais mostram o custo dessa atmosfera.

Em 2025, o Brasil registrou o maior número de feminicídios de sua história: 1.470 mulheres assassinadas por razões de gênero. Isso equivale a cerca de quatro mortes por dia. O país já havia batido outro recorde trágico. Em 2024 foram registrados 87.545 estupros, o maior número da série histórica. Uma mulher estuprada a cada seis minutos. Mais de três quartos desses casos foram classificados como estupro de vulnerável. A maioria ocorreu dentro de casa.

O lugar que o discurso conservador insiste em descrever como espaço seguro — o lar — aparece repetidamente como o principal cenário da violência.

Outro dado perturbador surge quando se observa a relação entre violência e religiosidade. Pesquisas recentes mostram que 42,7% das mulheres evangélicas afirmam ter sofrido algum tipo de violência de parceiros íntimos ao longo da vida, um índice superior ao observado entre mulheres católicas (que também não é desprezível). O dado não significa que a fé produza violência. Revela algo diferente. O de que ambientes fortemente estruturados por hierarquias morais e familiares nem sempre oferecem instrumentos eficazes para romper ciclos de agressão. Geralmente é o contrário.

Há ainda um dado alarmante que ajuda a dimensionar a profundidade dessa violência estrutural. Em 2025, segundo o Repórter Brasil, 395 mulheres foram resgatadas de situações de trabalho análogo à escravidão no Brasil, o maior número já registrado desde que o país passou a coletar dados demográficos detalhados sobre os resgates, em 2003. Elas representaram 14% das 2.772 pessoas libertadas, uma proporção muito superior à média histórica, já que ao longo de mais de duas décadas as mulheres apareciam em apenas cerca de 6% dos resgates. Durante muito tempo, a exploração feminina permaneceu invisível nas estatísticas e nas fiscalizações, porque muitas dessas atividades ocorrem em setores considerados informais ou domésticos — venda ambulante, trabalho em cozinhas improvisadas, serviços de cuidado, atividades ligadas ao comércio de rua.

Quando olhamos mais de perto quem são essas mulheres, o quadro se torna ainda mais revelador, já que 87% das trabalhadoras resgatadas eram negras, o que evidencia como o trabalho escravo contemporâneo reproduz linhas históricas de desigualdade racial no Brasil. Quase metade tinha entre 30 e 49 anos, muitas delas responsáveis pelo sustento de famílias inteiras, e cerca de um terço não havia concluído o ensino fundamental, o que amplia a vulnerabilidade diante de redes de exploração. Esses números mostram que a violência econômica e social contra mulheres no país não ocorre de maneira aleatória. Ela recai com maior intensidade sobre aquelas que ocupam as posições mais precarizadas da estrutura social brasileira, ou seja, mulheres negras, pobres e com menor acesso à educação. Ao revelar esse padrão, os dados desmontam qualquer tentativa de tratar o problema como exceção ou desvio isolado. Trata-se de uma engrenagem que liga gênero, raça e desigualdade econômica em uma mesma lógica de dominação.

Esses números não surgem do nada. Eles se organizam dentro de uma cultura.

Nos últimos anos, o bolsonarismo ajudou a legitimar uma linguagem pública baseada na hostilidade às agendas feministas e à igualdade de gênero. Não se trata apenas de declarações agressivas ou de episódios de misoginia explícita. O efeito mais profundo foi a criação de um ambiente simbólico onde a masculinidade ressentida encontrou validação política. Curioso é ler num comentário de uma reportagem sobre o tema da violência, uma pessoa (ou bot, vai-se saber), afirmando ironicamente para fazermos o L, que as coisas só iriam piorar. Só não rio porque é trágico.

Pois foi nesse terreno bolsonarista que floresceram no Brasil comunidades digitais inspiradas na chamada cultura red pill. A metáfora vem do filme Matrix: tomar a pílula vermelha significaria despertar para uma suposta verdade escondida sobre as relações entre homens e mulheres. Na prática, esse discurso constrói uma narrativa paranoica na qual os homens seriam vítimas de um sistema dominado por feministas. As mulheres, nessa visão, aparecem como manipuladoras, interesseiras ou biologicamente inclinadas a explorar os homens.

Os incels — “celibatários involuntários” — representam a face mais radical desse universo. Muitos deles desenvolvem comunidades online marcadas por ressentimento profundo contra mulheres, vistas como responsáveis por sua frustração afetiva e sexual. Em vários países, ataques violentos foram cometidos por homens ligados a essa ideologia. A premiada e impactante série Adolescência (Netflix) é onde podemos ter uma noção absurdamente real de até onde isso nos leva enquanto sociedade.

Um episódio recente no Rio de Janeiro ajuda a compreender como essa cultura de violência atravessa diferentes camadas sociais. Em janeiro, uma adolescente de 17 anos foi atraída por um colega para um apartamento no bairro e acabou vítima de um estupro coletivo praticado por cinco jovens, com idades entre 17 e 19 anos. Segundo as investigações da polícia, ela havia sido convidada para um encontro, mas ao chegar ao local foi trancada em um quarto e violentada após deixar claro que não consentiria em manter relações com os outros rapazes presentes. O caso chocou o país não apenas pela brutalidade do crime, mas também pelo perfil dos envolvidos, jovens de classe média da zona sul do Rio de Janeiro, desmontando mais uma vez a ideia confortável de que a violência sexual seria um fenômeno restrito a determinados territórios ou grupos sociais.

Isso indica que estamos diante de um problema cultural mais profundo, ligado à forma como muitos de nós homens aprendem desde cedo a interpretar desejo, frustração e poder sobre o corpo feminino. Quando a recusa de uma mulher deixa de ser compreendida como limite absoluto e quando o “não” se transforma, para alguns, em desafio ou provocação. No Brasil, essa cultura encontrou eco em redes sociais onde jovens são bombardeados por conteúdos que transformam misoginia em entretenimento. Influenciadores masculinos vendem cursos sobre como “dominar” mulheres. Ao mesmo tempo, cresce o número de influenciadoras que defendem a submissão feminina como virtude moral.

A estética dessas influenciadoras costuma ser suave. São vestidos claros, cozinha organizada, voz calma. O discurso, entretanto, é duro. A mulher ideal deve obedecer ao marido, aceitar sua liderança, priorizar a família acima de qualquer projeto pessoal. Em muitos desses vídeos, o feminismo aparece como uma ameaça que teria destruído os relacionamentos e enfraquecido os homens.

Essa narrativa dialoga diretamente com setores religiosos e políticos que insistem em restaurar um modelo familiar hierárquico. O homem como autoridade. A mulher como suporte. A violência prospera com facilidade dentro desse tipo de estrutura porque ela naturaliza a desigualdade. Quando o poder é distribuído de forma assimétrica dentro da família, a linha entre autoridade e controle torna-se perigosamente tênue. Qualquer semelhança com Handmaid’s tale não é mera coincidência.

Voltamos então àquela imagem do filme iraniano. As mulheres atrás da arquibancada, separadas do jogo por uma cerca improvisada. O argumento que as mantém ali é o mesmo que atravessa diferentes sociedades com variações de intensidade, a de ‘proteger’ a mulher de um mundo que pertence a nós, os homens.

No Brasil, esse cercado raramente assume forma legal explícita. Ele aparece como cultura, como moralidade, como discurso cotidiano. Aparece quando uma mulher é aconselhada a suportar um casamento violento para preservar a família. Ou quando homens jovens aprendem online que mulheres devem ser controladas. Aparece quando líderes políticos tratam igualdade de gênero como ameaça ideológica.

Durante muito tempo, parte da sociedade tratou a violência contra mulheres como um problema feminino. Uma pauta do feminismo, das organizações de direitos humanos, das políticas públicas. Isso criou um erro de perspectiva. A violência de gênero é produzida majoritariamente por homens. Ela nasce dentro de culturas masculinas. Ignorá-la é uma forma de cumplicidade estrutural. Nós, a parcela masculina dessa sociedade, precisamos olhar para esse fenômeno de maneira mais profunda. Isso exige reconhecer como certas ideias aparentemente inofensivas, como autoridade masculina, submissão feminina, nostalgia de uma família idealizada, podem se transformar em justificativas silenciosas para desigualdades muito concretas.

Também exige questionar os ambientes onde jovens estão sendo formados hoje. Fóruns digitais, influenciadores, discursos políticos que transformam frustração em identidade masculina.

O cercado do filme iraniano é visível. Ele está ali, feito de grades e soldados.

O cercado brasileiro é mais difuso. Ele se constrói em narrativas culturais que insistem em reduzir o horizonte das mulheres. Cada vez que essas narrativas ganham força, ampliam-se as condições para que a violência continue acontecendo em silêncio.

Talvez seja justamente por isso que Fora do Jogo possa levar a reflexões mais profundas e inquietantes. O filme não mostra um país distante, de ideias exóticas. Ele revela o mecanismo de uma ideia antiga, a de que a liberdade das mulheres precisa ser administrada por nós, homens. É uma ideia que a muitos podem soar como tentadoras (é só ouvirmos o eco do barulho provocado por pastores e pela maioria de nossos parlamentares), mas que é, na verdade, um ovo de serpente sendo gestado de forma considerada ‘ideal’, pois defende a família brasileira da ‘degeneração comunista’.

Talvez a questão mais incômoda seja reconhecer que grande parte dessa estrutura é sustentada não apenas pelos que cometem violência direta, mas também quando naturalizamos discursos, ou quando influenciadores e ideologias tratam a autonomia feminina como ameaça. Se há algo que precisa mudar, começa justamente por uma revisão profunda de como a maioria dos homens se educam entre si, de como interpretam poder, desejo, frustração e autoridade. Enfrentar esse problema significa desmontar narrativas que durante muito tempo pareceram inofensivas, mas que ajudam a manter, no cotidiano, as mesmas hierarquias que tantos insistem em chamar de tradição. Mesmo que, à primeira vista, elas nos beneficiem. E é aí que está a sutil regra do jogo.


*Ismael Machado é jornalista

Do Tâmisa ao Brasil: água à venda

Rios poluídos, ecossistemas em colapso e comunidades abandonadas para arcar com as consequências: o sistema de água privatizado da Grã-Bretanha normalizou os danos ambientais no país. Agora, o mesmo modelo está sendo exportado para o Brasil, onde seus impactos podem ser ainda mais difíceis de reverter

Por Monica Piccinini para “YourVoiz”

No Reino Unido, a visão de esgoto bruto sendo despejado em rios tornou-se perturbadoramente comum. O que antes causava indignação agora é apenas ruído de fundo. A cada ano surgem novos dados , novos pedidos de desculpas das empresas de água e novas multas dos órgãos reguladores. Os rios continuam poluídos, a vida selvagem está diminuindo e as comunidades são deixadas para conviver com as consequências.

Após mais de três décadas de privatização da água, o padrão é claro. As contas das famílias continuam subindo, o investimento a longo prazo diminuiu, a dívida corporativa disparou e os danos ambientais se tornaram rotina. A regulamentação existe em grande parte no papel, intervindo apenas depois que o dano já foi causado.

Isso é importante porque o modelo falho de gestão da água no Reino Unido não está mais restrito às suas fronteiras. Agora, ele está sendo exportado para países como o Brasil . Lá, os danos podem ser mais profundos, duradouros e muito mais difíceis de combater e reverter.

Político

A crise de saneamento básico no Brasil é frequentemente atribuída à geografia ou à falta de desenvolvimento, mas isso é enganoso, já que o país é um dos mais ricos em água do planeta. O problema não é a escassez, mas sim as decisões políticas sobre quem controla a água e a quem ela deve servir.

Apesar de possuir uma das maiores reservas de água doce do mundo, mais de 100 milhões de brasileiros não têm acesso a tratamento adequado de esgoto.

Livi Gerbase, pesquisadora do Centro de Pesquisa e Responsabilidade Tributária Corporativa Internacional (CICTAR) para a América Latina e o Caribe, destaca o acesso à água e ao saneamento como uma das expressões mais evidentes da desigualdade no Brasil:

O acesso à água e ao saneamento é um dos indicadores mais fortes de desigualdade no Brasil. Cerca de 40% da população ainda não tem acesso a sistemas adequados de água e saneamento, principalmente em áreas rurais e nas regiões Norte e Nordeste, onde vivem as comunidades mais vulneráveis.

Essas falhas afetam desproporcionalmente as comunidades mais pobres, racializadas e rurais, particularmente no Norte e Nordeste do país. Isso é injustiça ambiental, não falha técnica.

Esses resultados refletem escolhas políticas sobre propriedade, financiamento e regulamentação, espelhando o caminho trilhado pelo Reino Unido no final da década de 1980, quando a água foi retirada do controle público e redefinida como um serviço comercial em vez de um recurso compartilhado.

A água como um recurso

Em 2020 , o Brasil aprovou o Novo Marco Legal do Saneamento, que promete saneamento básico e abastecimento de água quase universais até 2033.

Segundo análise da CICTAR e do Sindicato dos Trabalhadores de Água, Esgoto e Meio Ambiente do Estado da Bahia, SINDAE, esse método era conhecido: privatização, financiamento privado e proteções destinadas a tranquilizar os investidores.

No Brasil, os municípios foram incentivados a leiloar os serviços de água e esgoto por meio de concessões com duração de até 35 anos. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) desempenha um papel central, estruturando os acordos e absorvendo os riscos. Pelo menos 67 novos projetos de saneamento estão em andamento, muitos deles estruturados explicitamente para atrair capital internacional .

O modelo de financiamento espelha o acordo adotado pelo Reino Unido após 1989. A infraestrutura não é mais financiada principalmente por meio de investimento público, mas sim por meio de dívida (empréstimos). No Brasil, o principal instrumento são as debêntures incentivadas, títulos isentos de impostos vendidos a investidores, que se assemelham às estruturas com alta carga de títulos utilizadas pelas empresas de água britânicas após a privatização.

Gerbase descreve como as reformas sanitárias de 2020 no Brasil aceleraram a privatização e transferiram o risco financeiro para o setor público:

Após as reformas sanitárias de 2020, a privatização acelerou e investidores internacionais entraram no mercado. As debêntures incentivadas tornaram-se uma ferramenta fundamental, permitindo que as empresas captassem grandes somas rapidamente, enquanto o custo real era arcado pelo setor público, e não pelas empresas ou autoridades locais.

Entre 2017 e 2024, quase R$ 40 bilhões (£ 5,5 bilhões) foram captados por meio desses instrumentos no setor de saneamento do Brasil. Mais da metade desse dinheiro não foi usada para melhorar a infraestrutura, mas sim para pagar taxas de concessão para refinanciar dívidas. Isso reflete de perto a experiência do Reino Unido, onde os empréstimos têm sido usados ​​para sustentar os balanços corporativos em vez de modernizar sistemas deteriorados.

A Gerbase salienta que a utilização de obrigações incentivadas é uma escolha política que poderia ser revertida através de alterações regulamentares:

Todas as obrigações incentivadas devem ser aprovadas pelo governo, e já existem regras que definem quais projetos se qualificam para o benefício fiscal. Por meio de um decreto executivo que altere a regulamentação do incentivo, seria possível impedir que fundos públicos sejam usados ​​para subsidiar privatizações em vez de infraestrutura.

BRK e Thames Water

Uma investigação detalhada do CICTAR identifica o paralelo mais forte com o Reino Unido no caso da BRK Ambiental, a maior operadora de saneamento do Brasil, controlada pela gestora de ativos canadense Brooksfield, uma importante empresa no setor de infraestrutura privatizada da Grã-Bretanha e presença conhecida no setor de água do Reino Unido.

No Brasil, a BRK opera em mais de 100 municípios e expandiu-se rapidamente por meio de aquisições financiadas por dívida. A empresa captou mais de R$ 12 bilhões (£ 1,6 bilhão) em dívidas, gerando pagamentos de juros substanciais, enquanto as tarifas médias aumentaram mais de 70% entre 2017 e 2024, muito acima dos níveis de inflação.

Gerbase explica como os modelos de concessão financeirizados limitam o investimento real, deixando as comunidades mais pobres com alternativas inadequadas:

Essas populações não estão completamente sem soluções, mas alternativas como fossas sépticas só são acessíveis a pessoas com recursos financeiros para construí-las. Quando as empresas gastam grandes somas em taxas de concessão e dívidas, sobra muito pouco para expandir e melhorar a infraestrutura. É exatamente isso que o modelo BRK demonstra.

Para as famílias do Reino Unido atendidas pela Thames Water, essa história é bem conhecida. Contas crescentes vêm acompanhadas de dívidas cada vez maiores, enquanto o desempenho ambiental piora e as melhorias prometidas não se concretizam.

A Thames Water atende aproximadamente um quarto da população. Desde a privatização, as contas das famílias aumentaram cerca de 40% em termos reais, enquanto o investimento caiu cerca de 15%. Os vazamentos continuam generalizados e os rios são rotineiramente poluídos com esgoto não tratado.

As falhas da Thames Water não são um caso isolado. Este mês, a South East Water deixou pelo menos 30.000 residências sem água corrente por vários dias, expondo a fragilidade de um sistema moldado pela fragmentação da propriedade e da financeirização.

A South East Water é propriedade conjunta de um fundo de infraestrutura australiano, uma empresa canadense de private equity e o fundo de pensão NatWest, o que evidencia como os serviços essenciais são cada vez mais geridos por investidores distantes, sem qualquer interesse real nas localidades afetadas por falhas.

Regulamento

Apesar das falhas ambientais, a Thames Water acumulou dezenas de bilhões de libras em dívidas, grande parte das quais foi usada para financiar pagamentos aos acionistas.

Em 2023, a empresa foi multada em £122,7 milhões por violações ambientais e agora sobrevive graças a uma intervenção regulatória de emergência.

O Brasil está caminhando na mesma direção, mas com instituições regulatórias mais frágeis e desigualdades mais acentuadas.

A CICTAR registra que subsidiárias da BRK foram multadas em quase R$ 50 milhões (£ 6,9 milhões) por violações ambientais, incluindo despejo de esgoto e descumprimento de contratos. As reclamações sobre a qualidade da água, faturamento e interrupções no fornecimento são generalizadas.

Gerbase argumenta que a regulamentação no Brasil tende a intervir somente depois que o dano já ocorreu, oferecendo pouca responsabilização durante longos períodos de concessão:

A regulamentação não é muito eficaz. O que geralmente acontece é que os problemas se agravam até que as multas e sanções já não consigam alterar o comportamento da empresa. O momento mais crítico para a responsabilização surge quando uma concessão termina e o processo recomeça, pois o escrutínio público aumenta. Mas, no caso da BRK, a maioria das concessões ainda tem muitos anos de vigência.

Assim como no Reino Unido, a regulamentação é lenta e fragmentada. Contratos de longo prazo limitam a supervisão pública, enquanto líderes políticos relutam em desafiar operadores privados poderosos. Inquéritos parlamentares em estados brasileiros como o Tocantins suscitaram preocupações sobre a responsabilização, ecoando debates já conhecidos na Grã-Bretanha.

Evidências de pesquisas enfraquecem os argumentos a favor da privatização. Um estudo comparativo publicado na revista Frontiers in Water constatou que os provedores públicos de saneamento no Brasil frequentemente superam os privados em eficiência, qualidade do serviço e equidade, contestando diretamente a alegação de que a propriedade privada proporciona melhores resultados.

Falha na exportação

Esta é fundamentalmente uma questão de justiça ambiental. As Nações Unidas reconhecem o acesso à água e ao saneamento como direitos humanos, contudo, os sistemas privatizados atribuem esse acesso de acordo com a rentabilidade, e não com a necessidade social.

Tanto no Brasil quanto no Reino Unido, as mesmas comunidades pagam o preço mais alto. As áreas mais pobres enfrentam contas mais elevadas, serviços piores e maior exposição à poluição.

Municípios menores no Brasil, assim como áreas carentes no Reino Unido, são menos atraentes para investidores porque os retornos são mais lentos e os riscos maiores.

Há relatos de que a Brooksfield está se preparando para vender a BRK Ambiental, considerando-a um ativo consolidado. Se a experiência do Reino Unido servir de parâmetro, o provável legado será uma operadora altamente endividada com capacidade limitada de investimento, enquanto as comunidades permanecerão presas a contratos de longo prazo que não foram elaborados por elas.

Para os leitores do Reino Unido, a lição é clara. A crise hídrica britânica não é uma exceção, mas sim um padrão. Do Tâmisa ao Brasil, a mesma lógica financeira produz os mesmos resultados: rios poluídos , contas cada vez mais caras, menor responsabilização e desigualdade crescente.

O Reino Unido é um grande exemplo de como as coisas podem dar errado. Nossa pesquisa mostra que o Brasil está caminhando na mesma direção, mesmo que ainda não tenha entrado em colapso total, conclui Gerbase.

Justiça ambiental significa reconstruir o controle público, priorizar a recuperação ecológica e medir o sucesso em termos de rios limpos, saúde pública e dignidade, e não em retornos para investidores e estratégias de saída.

O Brasil está sendo iludido com as mesmas promessas que a Grã-Bretanha ouviu há mais de 30 anos. No Reino Unido, o resultado já é visível em rios poluídos e infraestrutura precária. Só isso já deveria nos deixar profundamente céticos quanto ao tratamento da água, em qualquer lugar, como apenas mais um recurso.


Fonte: Your Voiz

Divulgação! Livro Direitos Humanos no Brasil 2025

A 26ª edição do livro Direitos Humanos no Brasil traz 30 artigos de 49 autoras e autores que analisam uma diversidade de temas como políticas agrárias, ambientais, trabalhistas e tributárias em 2025. Os artigos incluem dados e perspectivas sobre educação, cultura, direitos das mulheres, população LGBTQIA+, imigrantes, justiça climática, povos indígenas e comunidades camponesas.

Os efeitos da crise climática e o papel fundamental dos povos e comunidades tradicionais para a preservação da biodiversidade são temas centrais. Os povos indígenas, quilombolas e camponeses são guardiões do meio ambiente. O livro nos inspira também com a obra do fotógrafo João Ripper junto a comunidades tradicionais, com imagens belas, fortes e emocionantes. 

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Jacques Wagner precificou a democracia brasileira: R$ 20 bilhões

Jaques Wagner é anunciado por Lula como novo líder do Governo no Senado  Federal | PT - Capão Do Leão

Os bons companheiros em ação no PL da Dosimetria: Jacques Wagner costura acordo, Luís Inácio finge que veta

Que certas coisas só avançam no Brasil graças, digamos, à boa vontade da bancada parlamentar do PT na Câmara Federal e no Senado já é sabido faz algum tempo. Mas agora ao senador Jacques Wagner (PT/BA), a coisa atingiu uma nova prateleira com o o PL 2.162/2023, o famigerado PL da   Dosimetria. É que graças a um gesto de Wagner, o Senado Federal acaba de aprovar e enviar para sanção do presidente Luís Inácio. Com isso, todos os que tramaram contra a democracia brasileira, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro, terão uma generosa redução de suas penas, ficando livres para tentar mais uma vez a derrubada do estado de direito no Brasil.

A explicação de Jacques Wagner é que a peça iria passar mesmo, e não haveria porque empurrar a aprovação para 2026.  Mas segundo um outro membro notório do Senado, Renan Calheiras (MDB/AL), a coisa cheira mais a mais uma negociata para aumentar a arrecadação federal a partir de um acordo para  destravar a análise de outro texto considerado prioritário para a equipe econômica,  um que trata do corte de incentivos fiscais e do aumento da tributação de bets, fintechs e juros sobre capital próprio. O valor desse corte seria da ordem de R$ 20 bilhões.

Em outras palavras, houve um acordo para precificar a democracia brasileira no irrisório montante de R$ 20 bilhões, tudo sob os auspícios do líder do PT no Senado Federal!

Como sempre ocorre nesses casos escabrosos, já estão sendo anunciados vetos do presidente Luís Inácio para “defender a democracia”. Vetos esses que serão facilmente derrubados, como já ficou evidente nos casos do PL do Veneno e do PL da Devastação.

Assim, acredita nesses vetos quem quiser, mas o estrago já está feito, e em breve, dependendo de quem for eleito em 2026, poderemos ter a reedição daquelas cenas horrorosas em Brasília ou em alguma outra capital brasileira nas quais a extrema-direita fique descontente com os resultados.

E tudo isso graças a Jacques Wagner, que fique bem claro.

Apesar da propaganda oficial, Brasil continua sendo um dos 5 países mais desiguais do mundo

Dados do IBGE mostram que abismo da desigualdade social persiste no Brasil

Temos que ouvir quase todos os dias uma cantilena que tenta nos convencer que após a chegada do PT à chefia do executivo federal, seja com Luís Inácio ou Dilma Rousseff, o Brasil repentinamente se tornou menos desigual, e que temos de seguir nessa toada sob risco de vermos a extrema-direita desfazer todos os ganhos. 

Pois bem, o problema é que a propaganda ainda pode ser checada com dados frios da realidade. E estamos tendo uma janela de oportunidade para avaliar essa discrepância óbvia com o lançamento da última edição do chamado o Relatório da Desigualdade Global divulgado que foi lançado na semana passada pelo World Inequality Lab (WIL), grupo de pesquisadores liderado pelo economista francês Thomas Piketty.

A partir dos dados coletados globalmente, o relatório revela que os 10% mais ricos do Brasil concentram 59,1% da renda nacional, e que, enquanto isso, os 50% mais pobres ficam com apenas 9,3% da renda (ver gráfico abaixo).

Com isso, o Brasil perde em desigualdade apenas para 4 países:   África do Sul, seguido por Colômbia, México e Chile!

Além disso, se olharmos para o período entre 2003 e 2024, o que se vê é que com todas as políticas sociais executadas pelos governos liderados por Lula e Dilma Rousseff, a desigualdade permaneceu praticamente inalterada com os 10% mais ricos mantendo-se com o controle de pelo menos 60% da renda, e insisto, apesar de toda a propaganda em contrário (ver figura  abaixo).

A verdade é que os padrões históricos de concentração da riqueza não serão abalados por políticas minimalistas que não realizam as transformações sistêmicas que o Brasil precisaria ter para que houvesse um mínimo de justiça social e, mais, de distribuição da riqueza. 

Assim, sem a adoção de reformas como a da terra urbana e rural, o que teremos é a manutenção de um padrão de iniquidade profunda, mesmo com todas as riquezas existentes no território brasileiro.

Quem desejar ler o relatório na íntegra, basta clicar [Aqui! ].