Enquanto Brasil afronta, EUA vendem soja para a China

As últimas semanas têm sido caracterizadas por uma série de ataques de membros da família Bolsonaro contra a China, percebida como um dos componentes de uma pretensa ameaça comunista ao Brasil [1]. Isto em que pese a China ser atualmente o primeiro parceiro comercial do Brasil, sendo inclusive o principal mercado para a soja, principal commodity da agricultura brasileira.

Pois bem, eis que hoje (13/12), o jornal China Daily publicou uma matéria informando que a China irá realizar uma grande aquisição de soja, só que dos EUA [2].  Esta compra será segundo o China Daily, uma espécie de porta voz extra oficial do governo chinês, uma demonstração de boa vontade da China para com os EUA no processo de retomada de negociações para resolver as pendências comerciais existentes entre os dois países.

china daily

Como se pode verificar de apenas esta única aquisição que beira o valor de US$ 180 milhões, o governo Trump pode até arreganhar os dentes para a China, mas não tem como desprezar o potencial de consumo do mercado chinês. E aí o que conta é a necessidade de vender produtos, e a ideologia que se dane.

A coisa é que a geopolítica da trocas capitalistas não tem mais (se algum dia já teve) espaço para amadores. E seria bom que o governo Bolsonaro entendesse isso logo na relação com a China. Do contrário, quem vai acabar sendo isolado do mercado chinês de soja será o Brasil. Aí eu gostaria de ver o que diriam os latifundiários que ajudaram a eleger Jair Bolsonaro.


[1] https://www.brasil247.com/pt/247/poder/376943/Chanceler-informal-Eduardo-Bolsonaro-amea%C3%A7a-rela%C3%A7%C3%A3o-Brasil-China.htm

[2] http://www.chinadaily.com.cn/a/201812/13/WS5c127dbaa310eff303290e56.html

Cantar o hino à la francesa: um possível caminho para os anos que se abrem no Brasil

gilet jaunes

Arco do Triunfo ocupado e pichado com a frase “Os coletes amarelos triunfarão”. De quebra, um lembrete para Emmanuel Macron do filósofo Michel de Montaigne (1533-1592): “Mesmo no mais alto trono do mundo, ainda estamos sentados sobre o nosso rabo”. 

Diga o que se dizer dos franceses, mas eles têm uma clara tradição de ligar patriotismo às lutas pelos seus direitos, em vez de tornar patriotismo em uma razão para aceitar comodamente a subtração daquilo que foi duramente conquistado.

Uma demonstração disso está no vídeo abaixo quando os chamados “gilets jaunes” ou “coletes amarelos” se preparavam para mais uma rodada de enfrentamentos nas proximidades do “Arco do Triunfo” com as forças policiais que tentam reprimir com violência os protestos contra os aumentos  abusivos nos combustíveis que foi determinado pelo governo de Emmanuel Macron.

Para quem não conhece o refrão do início francês que o “gilets jaunes” entoavam quando o “pau quebrou”, o mesmo diz “Às armas, cidadãos”. Pelo jeito, na França, os trabalhadores levam o seu hino à sério.

E o que isto nos diz? Que talvez seja a hora de se levar o hino nacional brasileiro à sério, especialmente e especificamente no que deveria representar para os direitos dos trabalhadores.

 

As regiões costeiras brasileiras estão sob ameaças múltiplas e sem gerenciamento

E a coisa pode piorar ainda mais com Jair Bolsonaro e seu chanceler cético!

moscatelli

Por uma das muitas obrigações que acompanham a vida de docente (que é o de autor como revisor de artigos em revistas reguladas pelo sistema de revisão por pares) acabei de ler um artigo sobre a necessidade de novos modelos de gestão integrada de regiões costeiras em face das mudanças climáticas globais.

A partir dessa leitura me pus a refletir sobre a condição frágil em que se encontra o Brasil, que possui em torno de 7.500 km de litoral, no processo de planejamento para enfrentar não apenas a ameaça global das mudanças climáticas globais, mas também as que ocorrem no plano local onde a inexistência de planos estaduais de gerenciamento costeiro para a maioria dos 17 estados que possuem áreas costeiras.  E isso mesmo levando em conta que pelo menos 23% da população brasileira vive em cidades costeiras, e uma porção ainda maior em regiões próximas ao mar como é o caso da cidade de São Paulo e sua região metropolitana.

No plano local, o que temos é o completo descontrole em termos de fontes de poluição pontuais e não pontuais e da ocupação de áreas pela especulação imobiliária que deveriam estar sendo resguardadas para a proteção da faixa mais próxima do oceano. A cidade do Rio de Janeiro e seu entorno são belos exemplos de como fragmentos de vegetação importantes como as de restinga e manguezais têm sido eliminados de forma imprevidente.

No plano regional temos ainda a ocorrência de danos graves em várias hidrográficas importantes como as do Paraíba do Sul e do Doce, onde seguidos incidentes industriais destruíram os ecossistemas existentes ao longo das calhas principais e também na região deltaica desses rios. 

Mas talvez seja na preparação para as mudanças globais que a carência de qualquer nível sério de preparação talvez venha a nos custar muito, tanto em termos econômicos como de vidas humanas.  Por exemplo, enquanto a União Europeia possui planos avançados de como se preparar para as inevitáveis mudanças que ocorrerão em função das alterações, o Brasil passou os últimos anos sem que fossem feitos os progressos necessários para nos preparar para situações climáticas que serão muito diferentes das que experimentamos hoje.

Para piorar o que já é ruim, temos agora uma grave indefinição em relação a quem será o futuro ministro do Meio Ambiente, ou sequer se haverá um Ministério do Meio Ambiente, do governo Bolsonaro.  A essa indefinição é acrescentada uma visão ideológica de que a proteção ambiental é ruim para os negócios, nos mesmos moldes de que vigiam no início do Século 19. Para piorar, ainda há o ceticismo climático que se torna evidente toda vez que o presidente eleito e seu futuro ministro das relações exteriores abrem a boca.

O problema é que se o cenário que se abre a partir de Jair Bolsonaro já traz preocupações óbvias sobre a condição e a integridade dos biomas florestais, o mesmo não pode ser detido sobre o gerenciamento das nossas regiões costeiras.  Ironicamente será nas cidades costeiras que os problemas dessa negação da proteção ambiental se manifestarão na forma de aparentes catástrofes , de naturais não terão nada.

Felizmente não nos faltam bons pesquisadores com conhecimento suficiente sobre o que precisa ser feito para se minimizar as mudanças que estão vindo.  Agora, se não houver mobilização dentro e fora das universidades e institutos de pesquisa, todo esse conhecimento será sufocado por falta de verbas e perseguições políticas. 

Então,  aproveitando e ajustando o que está no hino francês…. às ruas, cidadãos!

Brasil tem dois chanceleres, que somados não dão um

Mas que juntos causam estragos mesmo antes do governo Bolsonaro ter começado!

O giro do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL/SP) está servindo para que ele se posicione como um chanceler de fato (ainda que o nome indicado pelo pai para o posto seja o embaixador, cético quanto às mudanças climáticas, Ernesto Fraga).

Em seu giro por Washigton D.C., Eduardo Bolsonaro já confirmou a mudança da embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém, alinhou o Brasil às políticas anti Irã, e ainda se prestou a ser uma espécie de menino propaganda da campanha de reeleição de Donald Trump em 2020 (ver imagem abaixo).

eduardo bolsonaro

Em minha experiência de vida no território estadunidense que incluiu contratos como consultor do Painel de Inspeção do Banco Mundial, eu aprendi algo sobre os estadunidenses que deveria ser simples. Os dirigentes daquele país não possuem muito respeito em quem não lhes mete muito medo.  Aliás, quanto mais subalternizado e deslumbrado for o visitante, menos respeito eles terão por ele. 

E o pior é que com essa tendência à tagarelice incontrolável, o deputado federal Eduardo Bolsonaro está prestando um grande desserviço aos interesses econômicos nacionais que têm nos países árabes um dos nossos principais mercados. E o pior é que em diversas commodities (como a soja e o milho), o Brasil e os EUA competem pelos mesmos mercados. Em outras palavras, toda essa submissão aos interesses dos EUA só trarão prejuízos econômicos e políticos ao Brasil.

Por fim, há que se lembrar que a posição pragmática do Brasil nas relações internacionais tem nos poupado, por exemplo, de sofrermos ataques terroristas como os que ocorrerão na França, na Inglaterra, e nos próprios EUA.  Mas agora, com esses dois chanceleres que somados não dão um,  podemos estar entrando numa nova era, só que de ataques terroristas protagonizados por militantes islâmicos que verão na transferência de nossa embaixada para Jerusalém um motivo justo para que o Brasil se torne um alvo de suas ações.

 

O Atlas do uso de agrotóxicos no Brasil: uma obra fundamental para entendermos o quanto estamos sendo envenenados

agrotoxicos

A obra “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia” de autoria da professora Larissa Mies Bombardi do Laboratório de Geografia Agrária da Universidade de São Paulo (USP) foi lançado em 2017, mas permanece injustamente desconhecida da maioria dos brasileiros.

atlas bombardi

Felizmente agora todos os interessados em entender o que eu chamo de geopolítica do veneno poderão baixar gratuitamente a versão eletrônica do atlas produzido pela professora Larissa Bombardi. Segundo o que está posto no blog que a pesquisadora mantém na internet, a disponibilização da versão e-book visa permitir que as informações contidas no atlas “possam circular e possam ser um importante instrumento de conscientização e, também, de suporte para políticas públicas que envolvam a proteção da população exposta aos agrotóxicos.”

Como alguém que vem estudando as formas e a intensidade do uso de agrotóxicos no Brasil há mais de uma década, considero que esta obra nos entrega informações preciosas sobre a disseminação territorial destas substâncias, e dos impactos já identificados sobre a saúde dos trabalhadores que as manuseiam cotidianamente.

Para baixar a obra da professora Larissa Bombardi, basta clicar [Aqui!]

Ameaçar os direitos e territórios dos povos indígenas é outro imenso tiro no pé do Brasil

povos indigenas

Uma das fixações do presidente eleito são as reservas indígenas e ele insiste em dizer que índios não terão mais um centímetro de terra [1]. Afora o completo desrespeito à auto determinação dos povos indígenas e o papel fundamental cumprido pelas reservas indígenas na manutenção de diferentes biomas brasileiros, o que estará em jogo caso as ameaças contra os povos indígenas se confirmem é o fato de que isto implicará em mais uma razão para que o Brasil seja isolado internacionalmente.

É que embora seja pouco comentado no Brasil, outros países possuem legislações bastante estritas para garantir a proteção de povos que habitam seus territórios sob diferentes culturas e tradições. Além disso, a questão dos índios brasileiros é vista com extrema cautela dentro do que se convenciona chamar de “países desenvolvidos” e, principalmente, dentro de organizações multilaterais.

Assim, que ninguém estranhe se outras repercussões negativas como as já expressas pela China e pelo Egito em relação à determinadas declarações se repita no caso dos povos indígenas. É que se já uma impressionante má vontade para o presidente eleito antes mesmo dele assumir nos principais veículos da mídia internacional, imaginemos o que acontecerá se o ataque aos povos indígenas e a integridade territorial de suas aldeias se confirmar.

Mas como bom senso e moderação não são o forte do presidente eleito, o mais provável é que mais esse tiro no pé seja dado e com consequências desastrosas para a imagem externa do Brasil e, principalmente, para a sua capacidade de vender suas commodities agrícolas e minerais em países em que a opinião pública se movimentará de forma majoritária contra o ataque aos povos indígenas pelo Estado brasileiro.


[1] https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/11/no-que-depender-de-mim-nao-tem-mais-demarcacao-de-terra-indigena-diz-bolsonaro-a-tv.shtml

A perplexidade dos portugueses frente ao quadro eleitoral no Brasil

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Estando em Lisboa tenho conversado com muitos portugueses que se mostram totalmente perplexos com o quadro eleitoral existente no Brasil.  Ainda se ressentindo da longa ditadura de António de Oliveira Salazar, portugueses de diferentes idades não conseguem entender como os brasileiros parecem estar dispostos a recolocar os militares no poder, e ainda por cima via uma eleição.

Para quem não conhece a história de Portugal,  Salazar dirigiu os destinos de Portugal como presidente do Ministério de forma ditatorial entre 1932 e 1933 e, como Presidente do Conselho de Ministros entre 1933 e 1968. Os autoritarismos e nacionalismos que surgiam na Europa foram uma fonte de inspiração para Salazar em duas frentes complementares: a da propaganda e a da repressão [1].

Um segurança de um prédio público com o qual me encontro todas as semanas, ontem me lembrou que durante a ditadura de Salazar ele tinha que ficar enfileirado para cantar o hino até se o mesmo tocasse quando ele estivesse fazendo suas necessidades no banheiro.  Diante dessa memória de sua infância, o segurança me perguntou com um ar incrédulo como os brasileiros podem estar querendo recolocar militares para governar o país após terem sofrido mais de duas décadas com um regime ditatorial. Aliás, ele perguntou ainda se os brasileiros tinham enlouquecido e não tive como oferecer uma resposta negativa. Porque visto daqui, o comportamento de pessoas que eu julgava sensatas e cordiais, não tive como responder de forma contrária.

Em outro encontro, enquanto eu tentava comprar um par de tênis novo, o vendedor resolveu puxar conversa também sobre os temas das eleições brasileiras para mostrar suas extrema preocupação com os moradores das favelas brasileiras. Ele me perguntou se os brasileiros não estavam sabendo que estão apoiando um candidato que disse que ofereceria uma solução final na Favela da Rocinha que seria dar um tempo para os traficantes saírem e depois disso usar helicópteros para metralhar a região. Meio estupefato ele acrescentou que será que “esse gajo (Bolsonaro) não sabe que a maioria das pessoas que moram nas favelas são trabalhadores  honestos”? Mais uma vez, não tive como oferecer nenhuma resposta que acalmasse o vendedor.

Mas quem pensa que são só os trabalhadores mais humildes que vêem a situação eleitoral com horror, também conversei com pesquisadores portugueses que estão de queixo caído com a postura das elites brasileiras que estão ajudando a colocar um neofascista no poder.  Aí a pergunta vai no sentido de qual seria o plano das elites brasileiras ao ajudar a estabelecer um governo cuja plataforma regressará o Brasil quase ao final do Século XIX. A minha resposta neste caso é possível: digo que as elites brasileiras estão dispostas a qualquer coisa para impedir que o nosso país tenha um mínimo de justiça, e que aposta tudo para manter a abjeta concentração de renda que torna o Brasil um dos países mais desiguais do planeta.

Então qual é o moral da história? É que enquanto os portugueses fizeram o seu ajuste de contas com a ditadura salarista para construir uma democracia relativamente sólida que permite a socialistas e comunistas a formarem um governo de coalizão que longe de causar abalos políticos, acabou melhorando a condição da economia portuguesa, o Brasil foi o único dos países sul americanos que deixou os militares golpistas impunes. E como já disse ““Quando você não acerta suas contas com a história, a história te assombra” [2].

Por isso, até porque a profunda crise política em que o Brasil está engolfado não se resolverá independente de quem seja o vencedor do segundo  turno, é melhor que todos os que se dizem democratas comecem a se preparar para os embates que virão. Do contrário, o assombro será maior do que já está sendo.


[1https://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B3nio_de_Oliveira_Salazar

[2https://apublica.org/2018/10/quando-voce-nao-acerta-suas-contas-com-a-historia-a-historia-te-assombra/

O uso de “camisas negras” não é a única semelhança entre Mussolini e Bolsonaro

A Milícia Voluntária para a Segurança Nacional foi um grupo paramilitar da Itália fascista que mais tarde passou a ser uma organização militar. Devido a cor de seu uniforme, seus membros ficaram conhecidos como camisas negras (em italiano: camicie nere). Os camisas negras foram organizadas por Benito Mussolini como uma violenta ferramenta militar do seu movimento político.  Os fundadores foram intelectuais nacionalistas, ex-oficiais militares, membros especiais dos Arditi (Arditi foi o nome adotado pela tropa de assalto de elite do exército italiano na Primeira Guerra Mundial).  O nome deriva do verbo italiano Ardire (“ousar”) e traduzindo como “os mais ousados”, e jovens latifundiários que se opunham aos sindicatos de trabalhadores e camponeses do meio rural. 

Os métodos dos camisas negras se tornaram cada vez mais violentos a medida que o poder de Mussolini aumentava, e usaram da violência, intimidação e assassinatos contra opositores políticos e sociais.  Além disso, entre seus componentes, que formavam um grupo muito heterogêneo, incluíam-se criminosos e oportunistas em busca da fortuna fácil.  O trágico fin de Mussolini que foi enforcado ao final da Segunda Guerra Mundial fez com os que os camisas negras também sofressem uma dura perseguição pelos vencedores do conflito, processo que os fez entrar no armário por muitas décadas, tendo reaparecido com muita força nos últimos anos.

Pois bem, se nos movermos para o Brasil dos dias de hoje, estamos vendo não apenas apoiadores de Jair Bolsonaro usando camisas de cor preta mostrando sua face, mas também os mesmos métodos de uso da violência, intimidação e assassinatos contra quem ousa discordar nas ruas da mensagem que circula nos grupos fechados do Whatsapp e do Facebook. E, sim, a defesa da militarização da escola pública como foi feito na Itália fascista (ver imagem abaixo de crianças italianas sendo treinadas no uso de armas!).

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Esses métodos emprestados do fascismo de Mussolini é que levaram o roqueiro inglês a colocar Jair Bolsonaro no crescente grupo de líderes com tinturas fascistas que estão tomando de assalto vários países do mundo, a começar pelos Estados Unidos da América.

Quanto mais cedo os ativistas que Jair Bolsonaro disse querer “erradicar do Brasil” acordarem para essa linha de continuidade entre camisas negras de ontem e de hoje, melhor. Não é mais possível continuar a ação política como se não houvesse uma força política organizada que está usando métodos de violência para se impor. É fundamental que se adotem mecanismos de auto proteção individual e coletiva, principalmente por partidos políticos (por exemplo, o PSOL) e movimentos sociais que se tornarão alvos inevitáveis caso o Bolsonarismo não seja derrotado nas urnas. Como ocorreu na Itália, os casos de violência atuais são apenas a primeira onda de um imenso vagalhão que deverá ocorrer no Brasil para que os ideais dos camisas negras tupiniquins sejam alcançados.

A hora para os militantes que defendem os interesses da classe trabalhadora no Brasil é muito grave, e quanto mais cedo eles entenderem isso melhor.

Esqueçam Trump, Bolsonaro está mais para Duterte

De tempos em tempos leio um apoiador de Jair Bolsonaro comparando-o ao presidente estadunidense Donald Trump. Na verdade,  Bolsonaro tem um presidente que defende e pratica muitos dos seus desejos mais extremos, mas ele é Rodrigo Duterte, que controla as Filipinas com a mão no gatilho.

Advogado e político profissional, Rodrigo Duterte foi prefeito de Davao, uma cidade localizada na ilha de Mindanau, por sete mandatos de três anos, o que o faz estar entre os prefeitos com mais tempo de mandato em seu país. Ele também foi vice-prefeito e deputado por um distrito localizado na cidade.

Duterte ficou conhecido como “o justiceiro” durante os 22 anos em que governou Davao por fazer “justiça pelas próprias mãos” e defender a criação de esquadrões da morte.  Duterte é acusado por organizações de Direitos Humanos de ter ordenado execuções extrajudiciais de mais de mil prisioneiros durante o seu governo.  

No entanto,  Rodrigo Duterte foi eleito presidente do país em 2016 depois de ter protagonizado uma campanha eleitoral centrada na guerra contra as drogas.

Como candidato presidencial, Duterte chamou “filho da puta” ao Papa Francisco por ter provocado engarrafamentos no trânsito durante uma visita às Filipinas, onde 80% da população é católica [1].

Além disso, nos primeiros 78 dias de mandato como presidente, 3500 alegados traficantes de droga foram mortos. Isso valeu críticas da ONU e do Presidente Barack Obama,  a quem também chamou de “filho da puta”.

Em outro momento de sinceridade extrema, Duterte, comparou-se ao ditador Adolf Hitler e afirmou que quer matar os três milhões de toxicodependentes que diz existirem no país. “Hitler massacrou três milhões de judeus. Agora, há aqui três milhões de viciados. Gostaria de matá-los a todos”.

Recentemente, Duterte confessou em uma entrevista que o seu único pecado é  ter ordenado as execuções extra-judiciais que ordenou contra supostos traficantes durante sua guerra contra as drogas nas Filipinas [2]. 

Por essas e outras, esqueçam da comparação com Trump, o perfil de Bolsonaro está mais para Duterte.


[1] https://www.rappler.com/nation/politics/elections/2016/114481-rodrigo-duterte-curses-pope-francis

[2] https://www.theguardian.com/world/2018/sep/28/duterte-confesses-my-only-sin-is-the-extrajudicial-killings

Democracia, que democracia? O TSE e a cassação de 3 milhões de títulos

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A eleição presidencial de 2014 foi resolvida em favor de Dilma Rousseff por cerca de 3 milhões de votos. Agora em 2018 em um ambiente politicamente acirrado, o fazem os ministros do Tribunal Superior Eleitoral? Cancelam mais de 3 milhões de títulos sob a desculpa de que os eleitores afetados não realizaram o seu registro biométrico. Um detalhe a mais é que a maioria desses títulos cancelados está na região Nordeste, onde se espera que os candidatos de esquerda tenha votações expressivas.

Coincidência? Num país onde claramente nada é feito de forma arbitrária quando se trata de assegurar os interesses das classes dominantes, não há espaço para coincidências.  O que estamos presenciando é um ato discricionário que, em nome de uma suposta evolução tecnológica, está cassando o direito de milhões de eleitores de se posicionarem eleitoralmente. 

É que todo mundo se sabe que se a maioria desses títulos estivesse em São Paulo ou em estados da região Sul, o tratamento dado seria muito diferente.  É que, caso os ministros do TSE tenham esquecido,  o artigo 15 da Constituição de 1988 diz no inciso III que a suspensão dos direitos políticos de um cidadão só pode ocorrer em caso de “condenação criminal transitada em julgado, enquanto durarem seus efeitos”.

Depois não me venham cobrar concordância com determinados resultados eleitorais em nome do respeito à democracia. É que está evidente que durante esse processo eleitoral, a primeira vítima é justamente o direito do povo se posicionar democraticamente.