O calor mata mais do que mostram as estatísticas — e o Brasil precisa se preparar para o El Niño de 2026–2027

Estudo da National Public Radio (NPR) dos EUA aponta forte subnotificação das mortes associadas ao calor nos Estados Unidos, enquanto previsões indicam que um El Niño muito forte poderá expor diferentes regiões brasileiras a temperaturas extremas nos próximos meses 

Uma investigação realizada durante dois anos pela NPR, em parceria com pesquisadores da Boston University, oferece um alerta que deveria ser observado com muita atenção no Brasil. Ao desenvolver um modelo estatístico para estimar a mortalidade associada às temperaturas elevadas nos Estados Unidos, os pesquisadores concluíram que o número real de mortes relacionadas ao calor é muito superior ao registrado nas estatísticas oficiais. Entre 2018 e 2025, aproximadamente 9 mil mortes por ano teriam sido influenciadas pelo calor, cerca de cinco vezes a média registrada oficialmente no mesmo período. Em alguns anos, o total estimado ultrapassa 10 mil mortes.

A explicação para tamanha diferença está, em boa medida, na maneira como uma morte provocada ou agravada pelo calor acaba sendo registrada. Uma pessoa idosa ou portadora de doença cardiovascular, renal ou respiratória pode morrer durante uma onda de calor sem que a temperatura apareça na declaração de óbito como causa ou fator contribuinte. O resultado é uma espécie de mortalidade invisível que somente começa a aparecer quando se comparam estatisticamente os óbitos observados durante períodos de temperaturas extremas com aqueles que seriam esperados em condições normais. A investigação norte-americana encontrou diferenças impressionantes: na Flórida, por exemplo, estima aproximadamente 1.900 mortes anuais relacionadas ao calor, número cerca de 40 vezes superior aos registros oficiais.

O problema está longe de ser exclusivamente norte-americano. Na verdade, essas descobertas chegam em momento particularmente preocupante para o Brasil, justamente quando os principais centros de previsão climática indicam a consolidação de um El Niño excepcionalmente intenso. A atualização publicada em 3 de setembro pela Organização Meteorológica Mundial informa que o fenômeno já está firmemente estabelecido, deverá continuar se fortalecendo e apresenta probabilidade próxima de 100% de persistir durante o período de dezembro de 2026 a fevereiro de 2027. A OMM ressalva corretamente que a intensidade de um El Niño não determina automaticamente a magnitude dos seus impactos regionais, mas reconhece que um evento muito forte aumenta substancialmente a possibilidade de grandes alterações nos regimes de temperatura e precipitação.

Os números divulgados pela NOAA tornam o quadro ainda mais digno de atenção. Em seu diagnóstico de agosto, o Climate Prediction Center apontou probabilidade superior a 90% de ocorrência de um El Niño muito forte durante o segundo semestre de 2026 e o inverno 2026–2027 do Hemisfério Norte. Mais significativo ainda é que o órgão estimou em 69% a possibilidade de que, entre outubro e dezembro, o evento alcance intensidade superior à dos grandes El Niños registrados desde 1950. Portanto, embora seja necessário evitar o alarmismo e lembrar que previsões sazonais trabalham sempre com probabilidades, tampouco existe justificativa científica para tratar o que está acontecendo no Pacífico como um fenômeno climático corriqueiro.

E o Brasil?

As próprias instituições brasileiras já estão advertindo para esse cenário. O terceiro boletim do Painel El Niño 2026–2027, elaborado por instituições como INPE, INMET, ANA, CEMADEN e Defesa Civil, aponta a possibilidade de anomalias superiores a 2°C nas águas do Pacífico Equatorial entre a primavera e o verão. Para setembro, outubro e novembro, a previsão indica chuvas acima da média em partes da Região Sul e precipitações abaixo da média no centro-norte brasileiro. Os boletins anteriores também chamaram atenção para temperaturas superiores à média, maior ocorrência de ondas de calor e aumento do risco de incêndios florestais.

Isso significa que os impactos não serão espacialmente homogêneos. No Sul, a combinação característica do El Niño envolve aumento da precipitação, com possibilidade de episódios de chuva extrema, inundações e deslizamentos. No centro-norte do Brasil, a redução das chuvas pode ocorrer simultaneamente a temperaturas muito elevadas, aumentando o estresse hídrico, a possibilidade de secas e o risco de incêndios. Já áreas densamente urbanizadas do Sudeste e Centro-Oeste poderão enfrentar um problema particularmente perigoso: ondas de calor incidindo sobre cidades que acumulam enormes ilhas de calor e onde milhões de pessoas vivem em moradias inadequadamente ventiladas, trabalham ao ar livre ou simplesmente não possuem acesso a sistemas eficientes de refrigeração.

É justamente aqui que a investigação da NPR adquire importância para nós. Se países com sistemas relativamente estruturados de informação epidemiológica estão subestimando fortemente a mortalidade causada pelo calor, é razoável perguntar se não estamos fazendo algo semelhante no Brasil. Uma onda de calor não precisa produzir cadáveres nas ruas para representar uma emergência sanitária. Ela pode aparecer silenciosamente como aumento das internações por desidratação, insuficiência renal, problemas cardiovasculares e respiratórios, agravamento de doenças preexistentes e crescimento da mortalidade entre idosos. O calor extremo é, nesse sentido, uma expressão bastante concreta daquilo que Rob Nixon chamou de slow violence: seus efeitos são dispersos no espaço e no tempo e, exatamente por isso, tendem a permanecer politicamente invisíveis.

Preparar-se agora, e não quando os termômetros dispararem

Diante das previsões para o final de 2026 e início de 2027, a resposta governamental não deveria começar quando as primeiras ondas de calor extremo aparecerem nos aplicativos de meteorologia. Estados e municípios precisam identificar desde já populações particularmente vulneráveis, incluindo idosos que vivem sozinhos, crianças pequenas, pessoas com doenças crônicas, trabalhadores submetidos à exposição direta ao sol, população em situação de rua e moradores de habitações precárias. Hospitais e unidades básicas de saúde precisam incorporar protocolos específicos para períodos prolongados de temperaturas extremas, enquanto sistemas de vigilância epidemiológica deveriam ser capazes de relacionar rapidamente aumentos de internações e mortalidade às condições meteorológicas.

Da mesma forma, escolas, universidades, locais de trabalho e serviços públicos precisam estabelecer limites para atividades realizadas sob calor extremo. Horários de trabalho ao ar livre precisam ser revistos quando determinados níveis de temperatura e umidade forem ultrapassados, enquanto cidades necessitam ampliar áreas sombreadas, arborização, acesso gratuito à água potável e locais públicos climatizados que possam funcionar como refúgios durante ondas de calor. Sistemas elétricos e de abastecimento de água também precisam ser preparados para aumentos excepcionais da demanda justamente nos momentos em que esses serviços se tornam essenciais à sobrevivência.

Há ainda uma questão de desigualdade que não pode ser escondida atrás do termo genérico “adaptação”. Uma temperatura de 40°C não significa a mesma coisa para quem vive em uma residência arborizada e climatizada e para quem mora sob uma cobertura de fibrocimento numa periferia densamente construída. Tampouco significa a mesma coisa para quem pode trabalhar remotamente e para um entregador, trabalhador rural, gari ou operário da construção civil obrigado a permanecer durante horas sob o sol. A vulnerabilidade ao calor é produzida tanto pela atmosfera quanto pela estrutura social.

O alerta deixado pela investigação da NPR é, portanto, muito maior do que uma discussão metodológica sobre estatísticas de mortalidade. Ele mostra que podemos estar convivendo com uma causa crescente de adoecimento e morte sem sequer contabilizá-la adequadamente. E isso ocorre justamente quando a mudança climática antropogênica eleva a temperatura de fundo do planeta sobre a qual fenômenos naturais como o El Niño passam a atuar.

Se as previsões atuais se confirmarem, o Brasil poderá entrar na primavera e no verão de 2026–2027 sob influência de um dos El Niños mais intensos das últimas décadas. Ninguém pode afirmar antecipadamente quais temperaturas serão registradas em cada cidade brasileira, mas já existe informação suficiente para saber que esperar o calor chegar para começar a agir seria uma irresponsabilidade. Quando se trata de temperaturas extremas, preparação, sistemas de alerta e políticas públicas de proteção não são luxo nem alarmismo climático: são medidas elementares de saúde pública.

Estudo: Desmatamento na Amazônia pode expor 12 milhões de brasileiros a calor extremo

Sobrevoo no Pará (Foto Marizilda Cruppe/Amazônia Real/17/09/20

Por Lisandra Paraguassu, da Reuters

O desmatamento em larga escala da Amazônia, somado ao aquecimento global, pode elevar as temperaturas na região em até 11,5ºC e colocar a vida, a natureza e a economia sob risco extremo, mostrou estudo feito por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e da Universidade de São Paulo (USP).

O estudo, publicado nesta sexta-feira (1º) na revista científica Nature, usa modelos matemáticos para prever o que pode acontecer em diferentes condições climáticas, levando em consideração apenas o aquecimento global, apenas a savanização da Amazônia ou ambos.

Um cenário apenas com as mudanças climáticas previstas pelo painel de cientistas da Organização das Nações Unidas (ONU) poderia elevar essas temperaturas em 7,5ºC. Já a combinação das duas situações poderia elevar a temperatura média mais alta da região, à sombra, em 11,5ºC.

As temperaturas máximas na região, mostram as simulações, poderiam ficar acima dos 40ºC à sombra em pelo menos 7% dos dias do ano no final deste século, podendo ultrapassar os 46ºC.

Impacto na saúde humana

Um aumento de temperatura nesse patamar, mostram os pesquisadores, tem efeitos diretos na saúde humana.

“O estresse causado por exposição ao calor excessivo pode ser extremamente perigoso para humanos, incluindo o aumento do risco de condições intoleráveis para trabalhos na sombra e risco intenso de doenças causadas pelo calor”, diz o estudo.

Para além dos risco para a saúde, que diminuiriam a capacidade de trabalho e de sobrevivência de uma população que, em muitos casos, já tem dificuldades para viver, uma mudança nesse nível tem impactos diretos na capacidade econômica da região.

A própria atividade que hoje supostamente se beneficia da destruição das florestas — o desmatamento termina por abrir mais terras para a agricultura e a pecuária — seria diretamente atingida.

“O regime de chuva colapsa de tal forma que chega a reduzir em 80% o regime de chuvas no centro da Amazônia. E, no Centro-Oeste, que também é diretamente afetado, a redução das chuvas chega a 50%”, disse Paulo Nobre, pesquisador do Inpe e um dos autores do estudo. “No calor e o solo seco sem chuva, o efeito de amplificação térmica é enorme.”

Efeitos na agropecuária

A agropecuária brasileira, que hoje garante boa parte do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro e a balança comercial do país, perderia boa parte da sua efetividade, como já mostrou um outro estudo, esse feito pela think thank Planet Tracker.

Ao analisar relatórios sobre o clima na Amazônia, a Planet Tracker detectou que o desmatamento já está alterando o regime de chuvas no país, o que impacta diretamente na capacidade brasileira de produzir duas, e em alguns casos até três, safras por ano. E é essa capacidade que levou o Brasil a ser um dos maiores produtores de grãos do mundo.

O modelo criado e analisado por Paulo Nobre e os pesquisadores Beatriz de Oliveira, da Fiocruz, Marcus Bottino, também do Inpe, e Carlos Nobre, da USP, apontam para um cenário para 2100. Isso porque foi usado no modelo matemático os dados de aquecimento global que se espera para aquele ano. Paulo Nobre, no entanto, alerta que a savanização da Amazônia já está acontecendo em diversos pontos. O cenário trágico pode chegar muito mais rápido.

Savanização acontece porque floresta não tem mais saúde para se manter viva. E a savanização da Amazônia já está ocorrendo. Já foram vistos lobos-guará na Amazônia, que é um animal do cerrado. Eles estavam lá porque se perderam? Claro que não. É porque o ambiente estava propício a eles

Paulo Nobre, pesquisador do Inpe

Paulo Nobre alerta que quem vê a floresta de cima, tomada por grandes árvores verdes, pode pensar que a transformação da Amazônia em cerrado é impossível, mas não é.

“Não temos como medir isso ainda a não ser com indicadores secundários, como a presença do lobo-guará. Mas indicadores prévios disso já estão presentes”, afirmou.

Recuperação comprometida

Em um artigo publicado em 2018 também na revista Nature, os pesquisadores Carlos Nobre e Thomas Lovejoy, apontaram que, com a combinação de mudanças climáticas previstas, o aumento das áreas desmatadas e o uso de fogo para “limpar” os terrenos na região a capacidade de recuperação da floresta diminui cada vez mais.

O “ponto de não-retorno”, em que talvez a Amazônia não consiga mais recuperar a floresta, estaria em algum momento quando o desmatamento chegasse a algo entre 20% e 25% do total da floresta, apontaram os pesquisadores.

Dados do Inpe de 2020 informam que, até agora, cerca de 729 mil km² já foram desmatados no bioma Amazônia — o correspondente a 17% do território original.

Apesar de outros cientistas contestarem essas previsões, vendo uma margem maior para a destruição total da floresta, há um consenso: não só o desmatamento precisa parar, como partes destruídas da floresta precisam ser recuperadas.

“O risco não é mais pequeno, ele é enorme. E essa é uma responsabilidade planetária”, diz Paulo Nobre.

Não é mais defender o fim do desmatamento por uma questão ética, mas por sobrevivência. Não existe vacina contra excesso de temperatura

compass

Este texto foi inicialmente publicado pela CNN Brasil [Aqui!].