A China prepara novos concorrentes para as commodities brasileiras na África

Investimentos chineses em infraestrutura, mineração e agricultura podem reduzir a dependência de Pequim em relação ao Brasil, enquanto a concentração brasileira na exportação de produtos primários aumenta nossa vulnerabilidade

Durante as últimas duas décadas, o crescimento econômico da China foi um dos principais responsáveis pela extraordinária expansão das exportações brasileiras de commodities agrícolas e minerais. Soja, minério de ferro, petróleo, carnes e celulose encontraram no mercado chinês uma demanda gigantesca, ajudando a consolidar um modelo de inserção internacional cada vez mais dependente da venda de produtos primários. Entretanto, enquanto no Brasil ainda se comemoram sucessivos recordes de exportação, a China está contribuindo para construir uma nova geografia mundial das commodities, e a África ocupa posição cada vez mais importante nesse processo.

O movimento já é particularmente evidente no setor mineral, onde investimentos chineses em minas, ferrovias, rodovias, energia e portos estão permitindo transformar jazidas africanas anteriormente limitadas por gargalos logísticos em novas fontes competitivas de matérias-primas. O exemplo mais contundente é Simandou, na Guiné, gigantesco complexo de minério de ferro conectado a mais de 600 quilômetros de nova ferrovia e a instalações portuárias, cuja capacidade poderá chegar a aproximadamente 120 milhões de toneladas anuais. Para o Brasil, isso significa que a China não precisa deixar de comprar minério brasileiro para afetar nossa economia: basta aumentar suficientemente a oferta africana para fortalecer sua capacidade de negociação e exercer pressão sobre os preços internacionais.

No caso das commodities agrícolas, o processo ainda se encontra em estágio menos avançado, mas a direção é igualmente importante. A cooperação sino-africana passou a incorporar investimentos em produção agrícola, mecanização, irrigação, processamento, armazenamento e logística, ao mesmo tempo em que Pequim facilita o acesso de produtos africanos ao mercado chinês. Estradas, ferrovias e portos são particularmente importantes porque podem reduzir justamente um dos maiores obstáculos históricos à expansão das exportações agrícolas africanas: o custo de transportar a produção das áreas interiores até os mercados consumidores.

Isso não significa que a África esteja prestes a substituir o Brasil como grande fornecedora de soja, milho, carnes ou outras commodities agrícolas. A questão estratégica é outra: a China não precisa substituir o Brasil, mas apenas reduzir progressivamente sua dependência dele. Se diferentes países africanos ampliarem simultaneamente sua produção de soja, algodão, oleaginosas, açúcar, café, carnes e outros produtos, o efeito agregado poderá aumentar as alternativas disponíveis para Pequim e ampliar seu poder de negociação diante dos grandes fornecedores atuais.

A dependência brasileira possui também uma dimensão política

Há ainda um componente geopolítico que torna essa questão mais importante. Oficialmente, Pequim considera o Brasil um parceiro estratégico de primeira ordem, mas os acontecimentos das últimas décadas demonstram que a orientação internacional brasileira pode sofrer mudanças importantes entre diferentes governos. A experiência do governo Jair Bolsonaro, quando integrantes do próprio governo adotaram uma retórica fortemente hostil à China apesar da enorme dependência comercial brasileira, mostrou que a política externa do país pode oscilar rapidamente conforme muda a correlação política interna.

Isso acrescenta um elemento de risco que Pequim não tem razões para ignorar. Depender excessivamente do Brasil para soja, minério de ferro e outras commodities significa ficar parcialmente exposta não apenas às condições climáticas, produtivas e logísticas brasileiras, mas também às oscilações da política externa do país e à disputa geopolítica entre Washington e Pequim. Diversificar fornecedores na África torna-se, portanto, simultaneamente uma estratégia de segurança alimentar, mineral, comercial e geopolítica.

O risco mineral é imediato; o agrícola é de médio prazo

No curto prazo, o sinal mais evidente para o Brasil está no minério de ferro, justamente porque Simandou transforma em realidade aquilo que durante muitos anos permaneceu como possibilidade. O crescimento da produção guineense acrescentará uma nova fonte importante de minério de alta qualidade ao mercado internacional, reduzindo progressivamente a dependência chinesa dos grandes fornecedores australianos e brasileiros e potencialmente pressionando preços.

Nas commodities agrícolas, o risco é principalmente de médio prazo. A escala, a produtividade e a estrutura empresarial da agricultura brasileira continuam proporcionando vantagens consideráveis, especialmente na soja e no milho. Entretanto, infraestrutura, capital, tecnologia, armazenamento, processamento e acesso facilitado ao mercado chinês podem alterar gradualmente a competitividade de diferentes regiões africanas, sobretudo se esses elementos forem implantados de maneira coordenada.

O efeito sobre o Brasil tampouco precisa assumir a forma dramática de perda completa do mercado chinês. Ele poderá aparecer silenciosamente por meio de menor participação brasileira nas importações chinesas, maior competição entre fornecedores e pressão sobre os preços internacionais. Para uma economia cuja pauta exportadora se tornou fortemente dependente de commodities e para um agronegócio que possui na China seu principal comprador, alterações relativamente pequenas nesses três componentes podem produzir consequências econômicas significativas.

Quando outros mercados também começam a ficar mais difíceis

Essa vulnerabilidade ganha uma dimensão adicional porque a possível diversificação chinesa ocorre num momento em que o Brasil também encontra obstáculos em outros grandes mercados. Os Estados Unidos vêm utilizando instrumentos tarifários que alcançam produtos brasileiros, enquanto a União Europeia amplia exigências sanitárias, ambientais, aduaneiras e de rastreabilidade para diferentes cadeias de commodities. São mecanismos distintos e seria equivocado tratá-los como se fossem uma única política protecionista, mas todos demonstram que o acesso aos grandes mercados consumidores não está garantido apenas porque o Brasil consegue produzir commodities em enorme escala e a preços competitivos.

É justamente essa combinação que deveria preocupar. Enquanto determinados mercados tradicionais tornam o acesso mais condicionado ou oneroso, a China — que absorveu parcela crescente das exportações brasileiras — investe na infraestrutura e na capacidade produtiva de regiões capazes de se transformar em fornecedores alternativos. O problema deixa então de ser apenas comercial e passa a revelar os riscos de uma economia excessivamente especializada na exportação de soja, minério de ferro, petróleo, carnes, celulose e outros produtos primários.

Há nisso uma ironia histórica que merece atenção. A China que nas últimas décadas ajudou a transformar o Brasil numa potência exportadora de commodities está utilizando sua capacidade financeira, tecnológica e empresarial para desenvolver novas regiões produtoras em outras partes do mundo. No setor mineral, essa estratégia já possui um nome bastante concreto: Simandou. Na agricultura africana, Pequim está ajudando a construir as condições materiais — infraestrutura, tecnologia, armazenamento, processamento e acesso ao mercado — para que novos fornecedores possam ganhar importância nos próximos anos.

Por isso, o avanço chinês na África deveria provocar no Brasil uma discussão bem menos triunfalista sobre o futuro do chamado agronegócio e, mais amplamente, sobre nossa dependência de produtos primários. O risco não está em a África substituir repentinamente o Brasil, mas em nossos principais compradores passarem a dispor de alternativas cada vez maiores justamente quando outros mercados impõem novas condições de acesso às commodities brasileiras. Quanto maior o número de fornecedores disponíveis e quanto mais dependente permanecer o Brasil de poucos produtos e poucos mercados, menor será nossa capacidade de determinar preços e condições de comercialização.

A pergunta estratégica, portanto, não é se a China continuará comprando soja, minério de ferro, carne ou celulose do Brasil amanhã. É se daqui a dez ou quinze anos ainda precisará comprá-los de nós nas mesmas quantidades e nas mesmas condições. Se a resposta for negativa, os atuais recordes de exportação poderão estar escondendo uma vulnerabilidade que somente será percebida quando a nova geografia mundial das commodities já estiver consolidada. Nesse cenário, diversificar a estrutura produtiva brasileira, recuperar capacidade industrial e tecnológica e agregar valor ao que produzimos deixam de ser apenas antigas bandeiras desenvolvimentistas e passam a constituir uma necessidade estratégica.

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