Qualis ou não Qualis, eis a questão!

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Estive ontem participando do “II Seminário Latino-Americano sobre Coleções Biológicas e Biodiversidade, Saúde e Ambiente” que está ocorrendo até hoje (26/11) das dependências do Museu da Vida do Instituto Oswaldo Cruz (Aqui!), onde participei de uma mesa redonda sobre mudanças climáticas. Entretanto, o momento que mais despertou a plateia não teve nada a ver com o tema da mesa em si, mas sobre o caos que foi estabelecido a partir das mudanças realizadas no ranqueamento do Qualis Capes. 

É que apesar da própria Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (Capes) ter alertado que o “Qualis Capes” se atém basicamente a avaliar a qualidade da produção dos programas de pós-graduação e não dos pesquisadores individualmente, o fato é que ao não se combinar o jogo com os russos (no caso os comitês de assessoramento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq), muitos pesquisadores estão tendo que se virar para escolher as revistas científicas onde irão tentar publicar seus trabalhos, já que o ranqueamento feito no Qualis Capes é sim considerado nos momentos de se escolher quem serão os beneficiários dos financiamentos, seja no plano individual ou coletivo.

A principal questão que eu consegui identificar é que as comissões de áreas  (CAs) da Capes na ânsia de responder às pressões criadas pela infestação de “trash science” no Qualis Capes como alertado pelo jornalista Maurício Tuffani em seu blog (Aqui!Aqui!Aqui!) acabaram piorando o que já era ruim. É que em vez de fazer a limpeza necessária e descontaminar o Qualis Capes, o que parece ter ocorrido foi a instalação de um grau de incerteza inédito sobre onde se deve publicar.

E o pior é que o remendo pela metade acaba perpetuando uma mentalidade que está impregnada na comunidade científica brasileira de que o mais importante é publicar bastante e apenas naquelas revistas que tenham sido aquinhoadas com uma nota melhor num determinado ano, já que a avaliação de uma dada revista só vale para o ano em que for avaliada!

Lamentavelmente essa postura produtivista se dá num momento de enxugamento de verbas, o que acaba fortalecendo a postura pragmática de publicar não para avançar o conhecimento, mas para viabilizar a obtenção de financiamentos e premiações. Em outras palavras, o que já aconteceu no plano da avaliação da carreira docente está se estendendo para a produção científica. E os resultados disso serão péssimos para a consolidação da comunidade científica brasileira. E eu me arrisco a dizer mais, ao se “jogar o bebê fora com a água suja do banho”, o que a Capes acabou fazendo foi desestimular o pensamento crítico entre as novas gerações de pesquisadores, algo que se provará mortal para a ciência brasileira no médio e longo prazo.

Enquanto isso, que ninguém se engane, os produtores de “trash science” continuam com suas produções de vento em popa e rindo da cara de quem tenta produzir ciência qualificada. É que no frigir dos ovos, tudo continua como dantes no Quartel de Abrantes.  É que, ao fim e ao cabo de cada dia dentro das universidades públicas, a maioria está tendo sobreviver ao vagalhão de cortes de verbas impostos pelos diferentes governos cujas prioridades não são nem de perto aquelas que embalam os pesquisadores mais comprometidos com o avanço da ciência. Simples, porém trágico.

Maurício Tuffani analisa o rebaixamento do “trash science” no Qualis Capes

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O jornalista Maurício Tuffani que vem há algum  tempo noticiando a contaminação da produção científica brasileira por revistas predatórias e reprodutoras de lixo científico agora nos dá as novas em seu blog hospedado na Folha de São Paulo sobre o início da limpeza que a Capes no seu ranking de publicações científicas.

Apesar de considerar que este início é ainda tímido, já que muitas revistas sequer deveriam ser incluídas em qualquer ranking que se pretenda sério, alguma coisa é melhor do que nada. Principalmente porque sinaliza a intenção de acabar com o faroeste caboclo em que estávamos envolvidos por causa do apoio explícito de aumentar a quantidade de publicações sem que se olhasse para a qualidade. Com isso, uma série de  de docentes terão que repensar seus caminhos.

Uma coisa que me preocupa é sobre se essa primeira limpeza vai ficar por ai ou se começaremos uma verdadeira discussão das causas da incapacidade da ciência brasileira de produzir com qualidade e na quantidade em que o Brasil requer.  

De toda forma, agora que o gato foi colocado para fora do saco, vamos ver se mais pesquisadores ousam falar do problema. É que foi a indisposição da maioria de confrontar, ou sequer reconhecer, a existência do problema é que chegamos à situação vergonhosa de rotular de ciência o que não passa de lixo científico.

Capes rebaixa revistas científicas de má qualidade

POR MAURÍCIO TUFFANI

Má notícia para professores universitários, pesquisadores e pós-graduandos brasileiros que andaram publicando nos chamados periódicos predatórios, aquelas revistas acadêmicas que aceitam artigos sem os submeter previamente a uma rigorosa avaliação conforme os padrões tradicionais da comunidade científica, mas também sem deixar de lucrar cobrando taxas de autores.

Nada indica que parece ser a grande limpeza que precisa ser feita. Mas muitas publicações desse tipo começaram a ser rebaixadas e até mesmo eliminadas da classificação que tiveram na avaliação trienal de 2010 a 2012 feita pela Capes (Coodenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), órgão do Ministério da Educação.

A classificação de revistas científicas pela Capes tem sete níveis —A1, A2, B1, B2, B3, B4, B5 e C, em ordem decrescente. Acessível pela base de dados on-line Qualis Periódicos, ela tem sido amplamente usada em processos seletivos para contratações e promoções de docentes e pesquisadores e também em avaliações individuais para concessões de bolsas e auxílios à pesquisa.

PREJUÍZO

Os periódicos predatórios são desprestigiados por cientistas mais conceituados e também por instituições de pesquisa de destaque. O motivo disso é que essas revistas não só facilitam a publicação de trabalhos de baixa qualidade, mas também porque sua má reputação prejudica os bons estudos que elas possam veicular. E pesquisas exigem tempo e investimentos em equipamentos, materiais e salários, que são quase totalmente custeados por recursos públicos no Brasil.

Com a ajuda de alguns pesquisadores, este blog revelou em março deste ano uma primeira relação dessas publicações e a ampliou no mês seguinte (“Sobe para 235 a lista de predatórios da pós-graduação brasileira”).

As novas avaliações, que são relativas a 2013 e 2014, estão acessíveis desde segunda-feira (21.set) em outra base de dados da Capes, a Plataforma Sucupira, que passou a integrar informações de vários programas da agência.

LIMPEZA COMPLETA

Casos típicos de periódicos predatórios que foram eliminados nas novas avaliações da Capes foram “Transactions on Biology and Biomedicine“, “Transactions on Computers”“Transactions on Environment and Development” e “Transactions on Power Systems”. Os quatro são publicados pela editora chinesa WSEAS (World Science and Engineering Academy Society), famosa na internet por promover conferências científicas caça-níqueis.

Também não houve chance nas novas avaliações da Capes para o “Trends in Applied Sciences Research”, que havia sido classificado nas áreas de Geociências (B4), Interdisciplinar (B4), Biotecnologia (B5) e Biodiversidade (C). O periódico é editado pela Academic Journals Inc., que tem 57 revistas com códigos ISSN registrados nos EUA e indica endereço nesse mesmo país. No entanto, seu domínio de internet é de Faisalabad, no Paquistão, onde, de fato, estão suas operações editoriais.

DUROS DE MATAR

Mas ainda não dá para comemorar. Apesar de não terem mais registro em algumas da áreas em que foram pontuadas anteriormente, muitas revistas de publishers acadêmicos de má reputação ainda sobrevivem no Qualis Periódicos. Isso acontece pelo simples fato de elas continuarem com algumas classificações, por mais baixas que sejam, em vez de serem definitivamente descartadas.

Embora não tenham sido eliminadas como as quatro revistas da WSEAS apontadas acima, pelo menos foram rebaixadas em suas classificações todas as outras 13 revistas dessa editora que também haviam sido pontuadas na avaliação de 2010-2012 da agência do Ministério da Educação.

É o caso também do “African Journal of Agricultural Research”, publicado pela editora nigeriana Academic Journals (não confundir com a do parágrafo anterior, embora sejam ambas predatórias), que tem 13 revistas classificadas no Qualis. Enquanto isso, na Malásia o Ministério da Educação Superior não reconhece e também não dá apoio para artigos publicados por esse publisher, como já mostrou este blog ( “Na ciência, o ruim para a Malásia é bom para o Brasil”, 7.mar).

Esse periódico nigeriano não só deixou de constar com a elevada —e absurda— classificação A2 que havia obtido no grupo Administração, Ciências Contábeis e Turismo, mas também nem sequer foi incluído nessa área nas avaliações de 2013 e 2014. A não inclusão também aconteceu no segmento Interdisciplinar, no qual a revista havia sido classificada como B1, como mostra a tabela a seguir.

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VAI LONGE

Além das duas não inclusões acima indicadas, o “African Journal of Agricultural Research” teve também dois rebaixamentos (de B2 para B3 em Biodiversidade, e de B2 para B5 em Engenharias III). Apesar de sua péssima reputação internacional, bastaria manter essas duas classificações para ele permanecer no Qualis como alternativa para professores, pesquisadores e pós-graduandos que não conseguem coisa melhor.

Essa revista também teve estabilização em seis outras áreas e uma única “promoção” (de B4 para B3 em Ciência de Alimentos). Sem falar na inclusão em Arquitetura e Urbanismo (B4), Ciências Ambientais (B2), Ciência da Computação (B5), Economia (B4) e até mesmo nas mais exigentes Ciências Biológicas III (C)  e Química (C) , que pelo menos aplicaram a classificação mais baixa, mas mainda assim permitem espaço para artigos que merecidamente podem ser considerados lixo acadêmico.

Houve também desclassificações e rebaixamentos de outros periódicos “famosos” que pretendo comentar nos próximos dias. Ainda é cedo para saber se eles serão excluídos na próxima avaliação, que será quadrienal (2013-2016).

LIXO ACADÊMICO

Concluída em 2013, a avaliação trienal de 2010-2012 do Qualis Periódicos envolveu cerca de 2 mil especialistas, distribuídos por 48 comitês assessores da Capes, cada um deles com um coordenador e dois coordenadores adjuntos —eleitos por comissões de pós-graduação de todo o país—, com o apoio de, em média, 20 consultores.

Apesar de não ser ainda a limpeza que tem de ser feita e de a avaliação quadrienal 2013-2016 ainda estar em curso, as informações parciais de 2013 e 2014 indicam que a divulgação sobre o chamado “lixo acadêmico” começou a fazer efeito.

O que importa é que agora, com a atualização do Qualis na Plataforma Sucupira, será possível para a comunidade acadêmica monitorar o processo antes da conclusão da avaliação quadrienal. E, quem sabe, teremos melhores condições para compreendermos se esse tipo de avaliação de periódicos realmente funciona.

FONTE: http://mauriciotuffani.blogfolha.uol.com.br/2015/09/23/capes-rebaixa/

Mudanças à vista na CAPES: sai o ufanismo e entra o realismo

Atitude realista da Capes sobre a qualidade da pesquisa brasileira

Por Maurício Tuffani
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Carlos Nobre, presidente da Capes, abordou a necessidade de aumento do impacto da produção científica e tecnológica brasileira (Foto: Haydeé Vieira – CCS/Capes)

Ligada ao Ministério da Educação, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) tem se mostrado mais realista em relação a muitos dos problemas da pós-graduação e da pesquisa do Brasil desde que teve início a gestão do climatologista Carlos Nobre, que assumiu a presidência da agência federal em maio

Nesta semana, o novo dirigente da Capes contrastou de forma inequívoca com ufanismo do discurso de todo o governo federal nos muitos anos na área da política científica, que vinha destacando o aumento do número de publicações de artigos do Brasil, mas deixava completamente de lado a estagnação dos indicadores de qualidade dessa produção.

O presidente da agência foi categórico ao pôr o dedo nessa ferida na segunda-feira (10/8). Em reunião na sede do órgão em Brasília com coordenadores dos comitês assessores do órgão nas áreas de Ciências Biológicas III, Educação Física, Engenharias III, Geociências, História, Odontologia e Zootecnia, ele afirmou:

A qualidade da produção no país tem crescido acima da média mundial, mas ainda é relativamente baixa. Temos áreas com qualidade na média ou acima da média mundial e outras áreas com um índice de impacto abaixo desta média. Não existem receitas prontas ou explicações fáceis para isso, temos que fazer considerações área por área. É preciso ouvir de vocês onde estão os obstáculos. Temos uma história de sucesso na pós-graduação, mas temos que qualificar a produção. Temos que tornar a produção científica e tecnológica mais relevante, com maior impacto para desenvolvimento social, atingindo os grandes desafios do século 21, como a sustentabilidade.”

O que surpreende também nessa declaração é ela ter sido divulgada por meio de nota oficial da própria Capes. O comunicado, destacou também a seguinte fala de Arlindo Philippi Jr., diretor de Avaliação de agência, sobre os chamados indicadores de impacto do conjunto das publicações científicas, que medem aspectos importantes de qualidade.

“O Brasil está em 13º lugar no ranking da produção científica. Em termos de impacto, está em 18º. Enquanto economia mundial, estamos em 7º ou 8º. Temos que nos esforçar para que o impacto da produção seja compatível com relação ao crescimento numérico e à posição do país na economia.”

Impacto

Os índices de qualidade mencionados por Nobre e Filippi se referem diretamente ao impacto ou repercussão dos artigos científicos na comunidade científica internacional. Existem métricas para avaliar esse impacto, como a média de citações por artigo e também o impacto relativo, que é essa média em proporção à média mundial.

Em 1981, o Brasil havia publicado 2.100 artigos científicos em periódicos de padrão internacional. A repercussão desses trabalhos foi quantificada por meio do indicador de impacto relativo à média mundial de 0,55, como mostrei em reportagem em outubro do ano passado para a “Folha de S. Paulo”.

Fundamentada em dados da base Web of Science compilados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), essa mesma reportagem mostrou também que a produção científica do Brasil conseguiu alcançar no final do século 20 um patamar muito maior na quantidade, mas com um aumento muito discreto na qualidade. Em 2000, o país produziu 11.033 papers — o que corresponde a um aumento de 425%, ou seja, mais de quatro vezes maior —, com o indicador de impacto relativo à média mundial de 0,69 — um crescimento de 25,5%.

Desde o início deste século a quantidade da produção científica continuou crescendo, mas repercussão na comunidade científica internacional estagnou. A publicação de artigos em periódicos indexados chegou a 38.523 papers em 2013, mas seu impacto relativo à média mundial permaneceu na média de 0,69.

Esse índice brasileiro de 2013 está muito abaixo não só dos indicadores de países como o Reino Unido (1,88), Canadá (1,81) e Estados Unidos (1,80), mas também de emergentes asiáticos como China (1,36) e Coreia do Sul (1,31) e latino-americanos como Argentina (1,40) e México (1,39).

Mudança

Nos últimos anos, quase sempre que indicadores como esses apareciam na imprensa, a resposta do governo sempre foi evasiva, preferindo destacar programas e projetos em andamento. Desta vez, por conta própria, a atitude foi outra.

Há também informações ainda não oficiais de uma mudança positiva de atitude da Capes em relação à classificação de revistas científicas na sua plataforma Qualis Periódicos. A agência parece estar disposta a enfrentar o problema da presença nessa base dos chamados periódicos predatórios nessa base de dados que é consultada por professores universitários, pesquisadores e pós-graduandos brasileiros na escolha de revistas científicas para publicar seus artigos e também tem sido usada para instituições acadêmicas avaliarem o desempenho de seus docentes.

Resta saber como essas mudanças positivas acontecerão em face do cenário de contenção de investimentos do governo federal. Sejam como forem ou vierem a ser, elas são mais que bem-vindas.

FONTE: http://blogdasciam.com.br/2015/08/13/atitude-realista-da-capes-sobre-qualidade-da-pesquisa-brasileira/

Marketing acadêmico: texto aborda os problemas vividos dentro da universidade brasileira sob o império do produtivismo

produtivismo

Recebi de uma colega professora da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), e sugiro a leitura do texto “Dos Valores de Medida aos Valores como Medida: Uma avaliação axiológica da avaliação acadêmica” do professor adjunto da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), André Luís de Oliveira Mendonça, publicado na Revista “Ensaios Filosóficos”, e que pode ser acessado (Aqui!). Em um texto que mostra com perfeição os problemas enfrentados dentro das universidades brasileiras por professores e estudantes no tocante aos  efeitos do produtivismo acadêmico, os quais estão atualmente umbilicalmente ligados ao processo de avaliação de programas de pós-graduação, o prof. Mendonça não se limita a falar da “doença”, mas aponta para os remédios que permitiriam buscar a cura do mal que nos aflige.

O interessante é que dependendo da forma com que este texto for lido e devidamente apreciado, o leitor poderá se enquadrar nas diversas categorias que foram estabelecidas para diagnosticar a situação em que nos encontramos atualmente, onde a pressão produtivista compromete o estabelecimento de reflexões críticas da realidade e fere mortalmente o poder criativo dos cientistas brasileiros.

Entretanto, ainda que eu discorde em relação à efetiva eficácia da “medicação” sugerida pelo Prof. Mendonça, a simples menção de que estamos imersos num sistema enfermo já me anima a recomendar a leitura deste interessante texto. É que no meio do deserto das produções comuns e corriqueiras, é sempre salutar ver que existem esforços reflexivos acerca dos problemas e saídas a serem adotadas para superá-los. Pode não parecer, mas isso já é muita coisa. Afinal de contas, sem reflexão crítica não há ciência verdadeira, apenas arremedo.

A importância de se poder identificar e coibir a publicação em revistas de “ciência trash”

Não faz muito tempo, a inundação da minha caixa de e-mails por convites vindas de revistas obscuras não passava de um  incômodo que eu resolvia com o simples uso da tecla “Delete”.  Lamentavelmente com o passar do tempo, fui  tomando consciência que aquele atitude não era nem perto suficiente. É que uma simples verificação de uma amostra de aleatória do currículos da base Lattes me mostrou que a possibilidade do crescimento rápido da lista de publicações havia fisgado muitos pesquisadores brasileiros, indo desde os mais jovens até alguns figurões da ciência nacional.

Nesse sentido, as recentes reverberações contra a lista compilada pelo professor e bibliotecário da Colorado University-Denver, Jeffrey Beall, (Aqui!) continuam sendo para mim uma distração oportuna dos graves problemas com que a ciência brasileira está se deparando neste momento. É que tomados pelos padrões produtivistas impulsionados pelos principais órgãos de fomento (i.e., CNPq e Capes), aqueles que caíram no canto da sereia do “trash science” fogem da “Lista de Beall” como o diabo foge da cruz.

Uma das acusações mais cínicas que eu já li é de que a “Lista de Beall” é produto de uma e só opinião, o que desqualifica todo o trabalho que Jeffrey Beall fez em prol de uma produção científica minimamente rigorosa. Além disso, a outra preferida, e ai também oferecida sem nenhuma prova empírica, é de que Jeffrey Beall está a serviço das grandes corporações de edição de material científico.  

Entretanto, quem é que já se deu ao trabalho de, após receber um dos encantadores e-mails oferecendo publicação rápida e barata em alguma revista científica obscura, de ir até a página da “Lista de Beall” para verificar se a mesma está inclusa? Pois bem, eu me dei a esse trabalho que, sem a referida lista, seria impossível, diga-se de passagem. 

Vejamos, então a sequência que começa com um e-mail que chegou na minha caixa de correio eletrônico institucional na Universidade Estadual do Norte Fluminense.

trashMensagem oferecendo publicação no “Academia Journal of Environmental Research”

A partir dai, me dirigi à página onde está a “Lista de Beall” e procurei o nome do editor da dita revista e, voilá, vejam o que eu encontrei!

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Editor da “Academia Journal of Environmental Research” é identificado como predatório (trash) por Jeffrey Beall

Os mais céticos poderiam me perguntar como posso ter certeza que Jeffrey Beall “acertou” na colocação” desse editor como predatório ou não. Eu diria que a maioria dos pesquisadores já sabe a resposta, mas vou usar os critérios que o próprio Jeffrey Beall já ofereceu numa entrevista a este blog (Aqui!  ):

“Mas eu analiso as editoras e as revistas em termos de sua ética e suas normas de publicação. Eu olho para o uso de mentiras, falta de transparência, e desvio dos padrões acadêmicos que prevalecem no ramo das publicações científicas. Eu uso critérios documentados que me guiam na análise dos periódicos.”

Pois bem, quem é que utilizando os mesmos critérios iria negar que o e-mail que eu recebi é com alta chance oriunda de uma editora produtora de trash science? E esse me parece ser o elemento crucial neste debate. É que todos sabem com algum grau de confiança quando estão de uma revista “trash”, seja ela de acesso aberto ou não.  E se isto for mesmo verdade, por que ainda temos pesquisadores e, mais importante ainda, a Capes e o CNPq oferecendo tanta demora em reagir ao problema que as publicações “trash” representam para a produção científica de qualidade por parte da comunidade científica brasileira?

A resposta ao enigma acima não parece ter uma só resposta. De toda forma, creio que se demorarmos ainda mais a reconhecer a existência do problema causado pelo invasão de revistas predatórias e que se manifesta de forma aberta (e eu acrescentaria descarada) em um número nada desprezível de currículos da Base Lattes, estaremos fadados a uma condição catastrófica de periferização ainda maior da nossa produção acadêmica.  

Agora, o que eu espero é que aqueles que criticam a Lista de Beall por ser o produto de uma só mente, apareçam com mecanismos institucionalizados de banir o lixo científico e impedir que os seus praticantes continuem a ser beneficiados com as cobiçadas bolsas de produtividade do CNPq e a dominância em editais das nossas agências de fomento. Em outras palavras, se a “Lista de Beall” não é suficiente ou confiável, que se faça um esforço institucionalizado para produzir listas mais confiáveis.  É que como diz o velho ditado “ajoelhou, tem que rezar”.  

 

Do blog do jornalista Maurício Tuffani: morto era editor-chefe de revista científica trash

Médico assassinado se torna editor-chefe de revista científica

Por MAURÍCIO TUFFANI

Imagem: Reprodução

O neuropatologista Roger Brumback e sua esposa Mary foram assassinados em maio de 2013 em sua casa em Omaha, em Nebraska, nos Estados Unidos. Apesar de ter sido amplamente noticiada, inclusive neste ano pela notícia do julgamento do acusado a ser realizado em setembro, a morte do médico não foi impedimento para ele ser apontado como editor-chefe do periódico “American Journal of Medical Sciences and Medicine”.

Morto por vários tiros no abdômen, Brumback era professor da Universidade Creighton, onde havia chefiado o departamento de patologia. O uso indevido de seu nome pela revista foi noticiado na terça-feira (7.jul) pelo blog “Scholarly Open Access”, do biblioteconomista Jeffrey Beall, professor da Universidade do Colorado em Denver.

AJMSM_detalheAlgumas horas depois, o periódico removeu o nome de seu site e em seu lugar inseriu um link para inscrições de candidatos ao cargo de editor-chefe, como mostra o detalhe da página na imagem à direita.

Periódicos predatórios

Longe de parecer apenas um mero episódio anedótico, a apropriação indevida do nome de Brumback pela revista se insere no crescente cenário de desconfiança na comunidade científica em relação aos chamados “periódicos predatórios”. A expressão tem sido usada há alguns anos para designar revistas acadêmicas editadas por empresários que exploram sem rigor científico uma importante iniciativa de comunicação científica que surgiu com a internet, que é o modelo editorial de publicação de artigos em acesso livre, financiado pelas próprias instituições acadêmicas mantenedoras dos periódicos ou pela cobrança de taxas de autores dos estudos.

Tanto nas publicações científicas em acesso aberto como no modelo tradicional mantido por assinaturas anuais ou pela cobrança por artigo baixado pela internet, os periódicos bem conceituados demoram meses e até mais de um ano para analisar e aceitar artigos, ou rejeitá-los. Os publishers predatórios não só reduzem a poucas semanas e até a poucos dias o intervalo entre a apresentação e a aceitação de artigos, mas também são menos seletivos e rigorosos nesse processo.

Em novembro de 2012, Beall já havia publicado um post informando o lançamento simultâneo de 85 periódicos científicos pela mesma editora dessa revista, a Science and Education Publishing (SciEP), que desde então está na lista de publishers predatórios mantida pelo blogueiro.

A revista “American Journal of Medical Sciences and Medicine” não consta na na base de dados online Qualis Periódicos, mantida pela Capes (Coodenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), órgão do MEC (Ministério da Educação). Pelo menos 235 periódicos da lista de Jeffrey Beall foram identificados no Qualis Periódicos por este blog em abril deste ano.

FONTE: http://mauriciotuffani.blogfolha.uol.com.br/2015/07/09/medico-assassinado-se-torna-editor-chefe-de-revista-cientifica/#_=_

Trash science é apenas a ponta do iceberg

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A postagem que fiz aqui neste blog sobre a cassação de um título de mestre pela Universidade Federal de Viçosa e uma retratação de um artigo publicado pelo autor da dissertação cassada na Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia (RBGG) (Aqui!) gerou (plagiando o ex-presidente Lula) um tráfico nunca visto na história deste blog e obteve inúmeros comentários relativos aos problema. Da leitura desses comentários, eu verifico que os problemas relacionados a variados tipos de plágio parecem estar assumindo uma característica epidêmica, pois os relatos, apesar de variados em forma, apontam para o problema de que muitos pós-graduandos estão se valendo do trabalho alheio para concluir as suas tarefas e para publicar seus próprios artigos científicos.

Um desses comentários atacou para mim um problema que me parece crucial, qual seja, a forma atomizada e varejista de se fazer ciência que parece estar entranhada nos programas de pós-graduação brasileiros, muito em função das determinações da agência reguladora que é a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (Capes).

Mas para mim a novidade não é nem se ver críticas à forma pela qual a Capes vem regulamentando a pós-graduação no Brasil, com todos os efeitos perversos que foram notados pela pessoa que enviei o comentário. Para mim a novidade é que as pessoas estejam dispostas a falar abertamente no assunto, tocando em aspectos que são incompreensivelmente tabus, a começar pela disseminação de diferentes tipos de plágio. Essa disposição de tocar no assunto é indicativo de que há uma reação salutar que começa a emergir, a qual poderá obrigar a Capes e também o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) a repensarem as suas formas de premiação e qualificação da produção científica nacional. Aliás, só mesmo uma reação generalizada e explícita teria essa capacidade de mudança, visto que a cultura atual de se premiar a quantidade em vez da qualidade está bastante entranhada e ouso dizer, naturalizada entre aqueles que deveriam estar buscando um aperfeiçoamento de nosso sistema nacional de pós-graduação.

A questão crucial,  como observou um dos comentaristas da postagem citada acima, o que será da pesquisa brasileira  amanhã com um quadro composto por pessoas de péssima formação?

Trash science: depois de negar o problema, CAPES começa a limpar o Qualis Capes

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Após objetivamente negar o problema da contaminação do Qualis Capes por revistas predatórias em matéria feita pelo jornalista Maurício Tuffani (Aqui!), a Capes parece ter começado o necessário esforço para deixar de reconhecer centenas de revistas “trash” como fontes de produção científica qualificada. Esta informação foi passada a todos os coordenadores de programas de pós-graduação reconhecidos pela Capes, numa mensagem tão breve quanto direta:  

Prezados Coordenadores seguem algumas informações sobre os títulos de periódicos suprimidos pelo JCR, Editores e Revistas consideradas predadoras (que sairão do Qualis caso não tenha cites per doc ou JCR)”

A mesma mensagem ainda traz a lista de editoras predatórias organizada pelo professor da University of Colorado-Denver, Jeffrey Beall, o que pode ser entendido como uma indicação aos pesquisadores brasileiros de que evitem várias centenas de revistas pseudo-científicas que vinham engordando a produção científica dos programas de pós-graduação certificados pela Capes.

Como o professor Beall deverá vir ao Brasil no final de maio para participar do 4o. Congresso Mundial de Integridade na Pesquisa, evento que ocorrerá na cidade do Rio de Janeiro, é provável que a Capes esteja evitando novos embaraços públicos frente aos pronunciamentos que esse especialista em “trash science” deverá fazer. 

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De toda forma, vamos esperar que a partir de agora a Capes pare efetivamente de premiar programas contaminados por produções científicas que não valem nem o papel em que são impressos. E, sim, que essa postura saneadora se estenda também ao CNPq, onde o processo de concessão de bolsas de produtividade e concessão de fomentos também deve estar sofrendo com essa contaminação da ciência trash. A ver!

Trash science e a contaminação dos concursos públicos nas universidades brasileiras

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Venho falando aqui neste blog dos problemas causados pela difusão em ritmo espetacular de publicações de baixa qualidade em revistas com nível ainda mais baixo sobre o processo de alocação de recursos financeiros pelas agências de fomento ao desenvolvimento científico e tecnológico no Brasil. Por sua vez, o jornalista Maurício Tuffani já alertou em seu blog hospedado no site do jornal Folha de São Paulo sobre a presença de revistas predatórias (i.e., produtoras de lixo científico) no Sistema Qualis Capes, o que confere a estas publicações uma legitimidade indevida (Aqui!).

Pois bem, conversando hoje com um colega que acaba de retornar de uma banca de concurso numa universidade pública localizada fora do estado do Rio de Janeiro, ele compartilhou a situação inusitada por que passou ao avaliar o currículo de um candidato que havia acumulado impressionantes número de de artigos num período de dois anos numa revista científica publicada um país sul americano sem muita tradição na área do concurso. A banca, mesmo suspeitando dessa proficuidade concentrada, não teve saída a não ser assinalar o número de pontos a que o montante de publicações fez por um simples e prosaico motivo: a revista em questão estava classificada no Sistema Qualis Capes por 29 comitês, e com notas variando entre B3, B4, B5 e C! Em outras palavras, tinha a chancela de legitimidade que terminou garantindo a aprovação do candidato.  Mas como era de se esperar,  o concurso em questão está sendo alvo de vários recursos, já que os candidatos perdedores se sentiram lesados.

O problema é que esse caso parece estar se repetindo em escala ampliada nos concursos sendo realizados ao longo do território brasileiro! Um perigo que emerge dessa situação é que essa faceta ainda obscura do “trash science” sobre a contratação de docentes pelas universidades públicas poderá ser usada para questionar o rigor e transparência do próprio mecanismo do concurso público via exames de conhecimento e títulos!

Nesse sentido me parece inadiável que se faça uma revisão do processo de ranqueamento no Sistema de Qualis Capes. É que se o sistema nacional de pós-graduação depende de quadros docentes bem preparados, não há como aceitar que a Capes continua ignorando a necessidade de estabelecer critérios que considerem não apenas a quantidade, mas principalmente a qualidade e o impacto do que está sendo publicado.  A falta de ação da Capes neste caso poderá resultar no colapso completo da pós-graduação no Brasil. Simples assim!

Trash science: ofertas mirabolantes de editores obscuros enchem caixas de correio eletrônico dos pesquisadores brasileiros. Quantos estão resistindo à tentação?

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A existência de editoras científicas predatórias que oferecem serviços fáceis a preços módicos a incautos (aliás, nem sempre tão módicos assim) se tornaram conhecidas no Brasil a partir de uma série de matérias publicadas pelo jornalista Maurício Tuffani em seu blog que está hospedado no site UOL (Aqui!). 

Mas o que muitos não sabem é que ofertas mirabolantes chegam cotidianamente nas caixas de correio eletrônico dos pesquisadores brasileiros, como mostra a imagem que me foi enviada por um colega, que se mostrou indignado com a óbvia desfaçatez da oferta, bem como do desmazelo com que os editores de uma revista desconhecida tentaram chamar sua atenção para as “facilidades sendo oferecidas”

trash science

Em sua justa irritação, esse colega ainda me perguntou “será que há alguém disposto a entrar nessa?” A minha resposta, baseando-me no pouco que já foi desvelado pelo trabalho do Maurício Tuffani é que, sim, há muita gente disposta a entrar nessa!

E o pior é que se os comitês assessores do Conselho de Desenvolvimento Científico Tecnológico (CNPq) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) começassem a olhar de forma mais rigorosa os currículos dos pesquisadores brasileiros vão acabar descobrindo que não são apenas jovens pesquisadores imaturos que estão enveredando pelo caminho fácil de engordar seus CVs com publicações em editoras predatórias, onde que vale é pagar seja quanto for, para colocar no ar qualquer coisa que seja, apenas para atingir índices de produtividade que omitem a necessidade da qualidade e do impacto científico.  

A essas alturas, desconfio que até pesquisadores do topo da cadeia meritocrática montada pelo CNPq em cima de quantidade, e não da qualidade, estão aceitando o tipo de convite que meu colega julgou óbvio demais para ser levado à sério. Afinal, a pressão pelo número é muito forte, e as ofertas tentadoras aparecem todos os dias!

A pergunta que se coloca é a seguinte: qual é o tamanho da parcela dentro da comunidade científica brasileira que está resistindo à essas promessas mirabolantes? Interessante seria ver se a Capes e o CNPq estão dispostos a começar a apurar. A ver!