Para entender o Brasil de Bolsonaro é preciso retomar o costume de ler

bolso bufaoOs discursos escatológicos  de Jair Bolsonaro são uma eficiente cortina de fumaça para ocultar o projeto de recolonização do Brasil

Vejo muitas pessoas sinceras que se encontram aturdidas quanto ao esfacelamento em curso do simulacro de Estado democrático de direito vigente no Brasil em função do esgarçamento social associado à imposição do modelo ultraneoliberal (que alguns remontam a um modelo de anarcocapitalismo) que está sendo aplicado pelo governo Bolsonaro, e que já resultou em fortes regressões nas proteções sociais, trabalhistas e ambientais em meio à discursos toscos que parecem exprimir sandices, mas que, objetivamente, servem como uma poderosa ferramenta de distração para que o projeto econômico desenhado por Paulo Guedes e sua equipe seja executado de forma célere e implacável.

Essa sensação de aturdimento tem a ver com a persistente ilusão de que os problemas brasileiros podem ser resolvidos sem que se mexe nas estruturas sociais herdadas do período escravista e que historicamente nos mantém em uma condição de profundo apartamento entre ultrarricos e ultrapobres.

Entretanto, há algo a mais neste aturdimento que é a diminuição da capacidade analítica já estabelecida para que se possa entender qual é o modelo social e econômico que o governo Bolsonaro vem aplicando, e que na minha opinião remonta a um fortalecimento da posição de dependência em relação às economias centrais, hoje hegemonizadas pelas grandes instituições financeiras que dominam o sistema capitalista global, o que colocando o Brasil no ritmo de um processo de acelerado recolonização. 

E resolver a ausência dessa capacidade analítica pode começar  com leituras de autores que já destrincharam com maestria a posição dependente do capitalismo brasileiro em relação aos humores e necessidades das potências capitalistas.  Falo aqui, entre outros, de autores como Ruy Mauro MariniCelso Furtado, Theotônio dos Santos e, mais recentemente, Carlos Eduardo Rosa Martins, que se deram a tarefa de interpretar as raízes da formação de formas específicas de capitalismo na América Latina, as quais explicam porque continuamos afundados em sociedades tão marcadas pelas discrepâncias causadas pela subordinação da nossa economia às necessidades de produção e reprodução do Capitalismo central.

Em meio a tantas tarefas que o momento histórico coloca para aqueles que desejam rejeitar um modelo econômico que rejeita a perspectiva de um modelo de desenvolvimento nacional autônomo como é objetivamente o caso do governo Bolsonaro, é fundamental que se retome esse esforço analítico que rejeite a superficialidade com que muitos autores têm tratado a emergência de experimentos sociais e políticos que abraçam o aprofundamento da dependência como uma espécie de pedra filosofal do crescimento econômico. 

O significado e os riscos estratégicos da “Via Bolsonaro” para recolonizar o Brasil

bolso continencia

Na imagem acima dois momentos em que Jair Bolsonaro presta continência a símbolos estadunidenses, indicando de forma clara suas intenções de alinhamento político aos EUA que, por sua vez, trará a subordinação econômica aos interesses das corporações estadunidenses.

Apesar das muitas análises que vejo no sentido de tentar explicar a vitória de Jair Bolsonaro e as propostas objetivas de recolonização do Brasil que o seu governo buscará implenetar, creio que a maioria dos analistas continua preso a uma aproximação rasa da realidade. E isso não se dá por falta de instrumentos teóricos para oferecer uma reflexão mais aprofundada que explica a opção aparentemente suicida das elites brasileiras por um governo que abertamente flerta com a destruição do que resta da economia nacional.

Penso que não é nem necessário ir muito longe em termos de teoria para encontrar algumas pistas pela opção feita pelos ultrarricos brasileiros. Apesar de já ter lido há algum tempo o livro “O Mito do Desenvolvimento Econômico” que Celso Furtado publicou no exílio no ano de 1974 [1], lembro de uma passagem onde está dito que no modelo de desenvolvimento adotado no Brasil, o padrão consumo das elites locais tenderá a imitar a praticada pelas das suas congêneres nos países do capitalismo central. Isto, por sua vez, decorre de uma opção de instaurar a modernização da economia sem que haja qualquer intenção de se romper com os padrões existentes de concentração da riqueza.

Esta elaboração de Celso Furtado me parece perfeita para explicar a opção reacionária da quase totalidade dos ultrarricos por um governo que buscará erradicar as poucas formas de distribuição de renda, que nem chegaram perto de descontrar a riqueza nacional, e recolocar o Brasil na condição de uma colônia provedora de commodities agrícolas e minerais. É que nesse modelo não haverá espaço para indústria nacional ou, sequer, indústria.  Mas apesar de saberem disso, organizações patronais como a FIESP e a FIERJ se alinharam de forma entusiasmada às propostas de Jair Bolsonaro e seu “Posto Ipiringa”, o economista Paulo Guedes que sinaliza com um ataque virulento ao chamado Sistema “S” de onde a elite industrial tira muitas vantagens.

A explicação para esta adesão aparentemente suicida das elites nacionais, pois o ataque aos pouco de mecanismos de distribuição de renda via políticas sociais deverá destruir a frágil base de consumo de massas existente no Brasil, só se explica pela certeza de que não se modificará o sistema de parasistimo rentista do qual as elites retiram mais riqueza do que se estivessem investindo em atividades produtivas. As elites apostam nessa manutenção para mover seu capital ainda mais para a especulação, e pouco se importam com o destino trágico que espera milhões de brasileiros pobres que não possuem os mesmos canais de escape ao ajuste ultraneoliberal que se avizinha.

O problema que até aqui todos parecem preferir ignorar são os sinais de que a economia global está próxima de um novo e mais profundo surto de crise estrutural, justamente pelo sobrepeso representado pela especulação financeira. E que se note que esta ignorância das elites nacionais não se dá por falta de sinais claros vindos das bolsas mundiais, a começar por Wall Street, mas por uma decisão férrea de seguir apoiando um processo de recolonização da economia brasileira.  É por isto que  por ter feito esta opção por uma completa subordinação aos interesses do rentismo financeiro global, as elites se comportam como o capitão do Titanic depois que o navio foi atingido pelo iceberg e se comportam como a música não pudesse parar.

Nesse processo, a opção das elites por Bolsonaro e por um comportamento esquizóide de ignorar os alarmes que estão soando talvez resida a melhor oportunidade da classe trabalhadora brasileira de se restabelecer como o elemento dinâmico da realidade nacional.  É que não restará outro caminho para a sobrevivência de padrões mínimos de dignidade que o de combater de forma prática uma opção que só irá beneficiar as elites.


Quem desejar baixar o arquivo contendo o “Mito do Desenvolvimento Econômico” de Celso Furtado, basta clicar[Aqui!

O mito do desenvolvimento econômico, uma obra extraordinária e ainda desconhecida

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Em 1974 em pleno exílio que lhe fora pelo imposto pelo regime militar de 1964 o economista publicou o livro “O mito de desenvolvimento econômico”. Ali Furtado estabeleceu as bases para que fosse feita uma ampla crítica do modelo subalterno de crescimento econômico abraçado e aprofundado pelos militares. Entretanto, quase meio século depois, o livro de Celso Furtado não apenas continua basicamente desconhecido, mas como suas elaborações quase proféticas permanecem desconsideradas tanto pela direita quanto pela esquerda.

celso furtado

Mas essencialmente o que fez Celso Furtado nesta obra? Ele fez o que a intelectualidade dos tempos de “Currículo Lattes” e “Fatores de Impacto” não faz por preguiça intelectual. Ele utilizou um método de análise que lhe capacitou não apenas a olhar para dentro das engrenagens do Capitalismo, mas com de lá retirou uma análise aprofundada dos porquês da impossibilidade do modelo de crescimento dos países centrais ser universalizado no que ele chamou de periferia.

Entretanto, Celso Furtado inovou ao analisar os custos ambientais e sociais que a imitação (o que ele chamou de mimetização) dos padrões de acumulação e consumo existentes no centro do Capitalismo traria em termos de degradação ambiental e aprofundamento da concentração da renda e, por consequência, da desigualdade social em países como o Brasil.

Essa junção entre degradação ambiental e concentração da renda é hoje um dos aspectos mais notáveis da expansão das corporações transnacionais na periferia do Capitalismo, bem como os efeitos deletérios da transposição dos padrões de consumo que claramente já estão levando ao esgotamento de elementos fundamentais para a sobrevivência da espécie humana, a começar pela água.

Lamentavelmente não temos hoje qualquer debate sério sobre a produção de um modelo econômico divergente da simples imitação do que é praticado pelos países centrais. A isso se soma a total rendição do governo “de facto” de Michel Temer à lógica rentista que aprofunda a subordinação da economia brasileira aos piores aspectos da divisão internacional do trabalho vigente.  E também no campo daqueles que se dizem de esquerda não há o oferecimento de uma alternativas, já que a maioria dos partidos que estão dentro desse campo ideológico (a começar pelo PT) estão fortemente aferroados ao aspectos mais retrógrados que decorrem do mito do desenvolvimento. 

De toda forma, como o conteúdo desta obra de Celso Furtado continua objetivamente atual, caberá aos que querer escapar das armadilhas do mito que se ponham a refletir sobre as saídas que poderão ser adotadas para que não canhamos ainda mais fundo no precipício.

Não vai ter golpe!

Por João Batista Damasceno*

golpe

A semana transcorreu com alardes de golpe de Estado. Análise do Brasil na década de 50 e no início da de 60 demonstra similitude dos discursos, em realidades diversas. Não há condições para que tenham êxito os algozes da democracia. O golpe de 1964 foi articulado por industriais, por banqueiros, por proprietários rurais e pelo capital internacional. A intervenção militar com apoio das lideranças políticas conservadoras foi apenas o desfecho das pretensões do capital. Próceres da política aparentemente democráticos também tinham interesse no afastamento dos trabalhistas e da esquerda do poder e apoiaram o golpe empresarial-militar. Foi o caso de Ulysses e JK. Tancredo, por ser parente de Vargas e compreender que o poder que se toma com o auxílio das armas pertence ao dono delas, foi uma das poucas lideranças do campo conservador que não aderiram ao golpe de 1964.

A UDN, partido formado por homens letrados ligados ao capital, não conseguia hegemonia pela via democrática. Daí suas reiteradas tentativas de golpe, dentre eles o apoio ao Manifesto dos Coronéis em 1953, que levou à queda de Jango do Ministério do Trabalho depois de aumento do salário mínimo; a República do Galeão, que propiciou o suicídio de Vargas, em 1954; a tentativa de impedir a posse de JK em 1955; as revoltas na Aeronáutica em Jacareacanga em 1956 e em Aragarças em 1959; os entraves à posse de Jango em 1961, até o 1º de abril de 1964. Todas demonstraram que o compromisso da classe dominante com as instituições subsiste enquanto contemplados seus interesses.

Naquele período havia ameaça real aos interesses do capital, ante compromissos populares de Brizola e Jango. Os projetos — educacional com Darcy Ribeiro, de desenvolvimento do Nordeste com Celso Furtado, de erradicação da fome com Plínio Sampaio, de reforma agrária com João Pinheiro e Almino Afonso — se direcionavam no sentido da emancipação popular e descontentavam a classe dominante.

Agora, não. Nunca os bancos ganharam tanto dinheiro; a dívida é regiamente paga, com o sacrifício dos direitos dos trabalhadores; os empresários se fartam com verbas do BNDES, ainda que a crise tenha reduzido a farra; as empresas de comunicação continuam a receber verbas de publicidade, ainda que queiram mais; o capital internacional, volátil, não tem controle, e os serviços públicos foram privatizados para satisfação dos empresários. Os discursos do ex-presidente FHC, de Aécio Neves e de Roberto Freire em favor do golpe é conversa fiada de quem precisa da mídia para ter a existência lembrada. Não vai ter golpe!

FONTE:  http://odia.ig.com.br/noticia/opiniao/2015-07-11/joao-batista-damasceno-nao-vai-ter-golpe.html

*João Batista Damasceno ocupa o cargo de juiz de direito no tribunal de justiça do Estado do Rio de Janeiro. É doutor em Ciência Política.