Mudanças climáticas estão aqui para ficar: o que a esquerda fará diante dessa realidade inescapável?

chuvas alemanha

As consequências das inundações em Erftstadt-Blessem, Alemanha.

Como alguém que produz ciência em algum nível por mais de quatro décadas e professor universitário há mais de duas, me acostumei a falar sobre o processo de mudanças climáticas ocorrendo na Terra em função das emissões urbano-industriais associados ao funcionamento do sistema capitalista.  Ainda que não possa reclamar da audiência acadêmica com quem me relaciono, sempre considerei difícil fazer com que as pessoas leigas entendessem ou dessem importância a esse fenômeno que deverá mudar radicalmente a vida em escala planetária nas próximas décadas.

Mas isto mudando, muito em função das manifestações meteorológicas que misturam muito com pouco calor, e secas devastadoras com chuvas dignas do dilúvio bíblico. Duas dessas manifestações ocorreram recentemente na América do Norte com temperaturas tão altas que literalmente cozinharam mexilhões nos costões litorâneos no Canadá, e na Europa com as chuvas devastadoras que mataram centenas de pessoas e atingiram de forma particularmente devastadoras áreas da Bélgica e da Alemanha.  Aqui mesmo no Brasil estamos tendo demonstrações de mudanças agudas no clima, que misturam desde estiagens intermináveis no Pantanal matogrossense com temperaturas polares na região Sul. 

Um detalhe crucial nas situações recentes é que elas extrapolam bastante os chamados cenários  “mais pessimistas” que são aqueles que mostram os valores mais extremos que poderiam ser esperados como resultado das mudanças climáticas. Assim, se os cientistas do clima erraram foi na extremidade mais alta das previsões, e o que era para ser ruim, poderá ser ainda pior.

Essas situações geram um contexto de “aqui e agora” que ajuda as pessoas a entenderem que as mudanças climáticas não são algum tipo de fantasia científica ou, como querem os instigadores da ultra direita mundial, algum tipo de complô marxista-globalista para impor uma ditadura sabe-se lá de que orientação para abafar a liberdade, provavelmente, das pessoas continuarem consumindo até que o último grão de vida seja sugado da Terra.

Esse ganho de conhecimento e a inquietação que ela causa devem ser (ou pelo menos deveriam) motivo para que partidos e movimentos sociais ditos de esquerda comecem a efetivamente ajustar suas pautas e programas à necessidade de que nos preparemos para uma situação climática inédita e que exigirá que se ultrapasse as agendas de natureza mitigadora dos malefícios das diferentes formas de apropriação da natureza pelos capitalistas. Nesse sentido, a proteção da natureza e a adoção de uma pauta política ajustada ao mundo afetado pelas mudanças climáticas, até  porque as consequências serão piores para os mais pobres, especialmente aqueles que estejam localizados nos países do sul global.

Entender essa necessidade de mudar a forma pela qual se trabalha com a questão das mudanças climáticas não será apenas um requisito programático, mas também um elemento crucial para o combate político em torno das formas de funcionamento do sistema econômico. Se a esquerda não entender isso, certamente não será a direita que o fará. O problema é que, pelo menos no caso do Brasil, a maioria da esquerda ainda acha que o principal problema do capitalismo brasileiro é a sua falta de desenvolvimento pleno, quando, na realidade,  o que temos é o máximo que poderemos ser dentro da divisão internacional do trabalho que está posta desde o final da Segunda Guerra Mundial.  Quem quiser entender isso minimamente, sugiro a leitura da obra  “O Mito do Desenvolvimento Econômico“, escrito pelo economista Celso Furtado em 1974.

Por vias das dúvidas, quem ainda estiver cético e achando que dá para consertar o inconsertável, observemos a próxima estação de grandes incêndios na Amazônia que começará em breve. 

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