Em meio à pandemia, ricos rejeitam impostos e querem precarizar ainda mais os serviços públicos

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Os dados mais reveladores do impacto seletivo da pandemia da COVID-19 no Brasil para mim são dois: o primeiro se refere ao aumento do enriquecimento  dos bilionários que adicionaram 34 bilhões de reais às suas fortunas enquanto 100 mil brasileiros morriam, e o segundo é a completa indisposição dos ricos brasileiros de se comprometerem a partilhar parte das grandes fortunas amealhadas em um país em que a maioria do povo vive em condições miseráveis na forma de novos impostos.

A verdade é que, apesar de todo o discurso em contrário, a carga brasileira de impostos para os mais ricos é mínima, lhes permitindo viver vidas nababescas enquanto do lado de fora das mansões muradas a maioria da população vive em condições cada vez mais precarizadas por seguidas reformas (disfarçadas) do Estado que diminuem a qualidade dos serviços públicos, enquanto os ricos brasileiros ficam cada vez mais ricos, mesmo em meio a uma pandemia letal como a que estamos vivendo.

Aliás, a pandemia da COVID-19 será lembrada, entre outras coisas, pela pressão política do setor empresarial para a retomada das atividades econômicas sem que a expansão e tratamento do coronavírus estivessem asseguradas. Mas apesar de saberem que a imposição do movimento precoce dos trabalhadores em sistemas públicos de transporte de péssima qualidade aumentaria o grau de infecção e, consequentemente, o número de mortos, os (necro) empresários brasileiros insistiram em sua pressão a ponto de governadores e prefeitos sucumbirem completamente, permitindo, como no caso de Campos dos Goytacazes, a reabertura de todo tipo de estabelecimento não essencial. E o resultado está aí: 100 mil mortos, podendo chegar a 200 mil. 

Mas em meio a essa grande quantidade de mortos, uma explicação para a indiferença dos ricos em contribuir com mais impostos e a exigência de mais precarização do estado certamente é associada ao fato de que são o maior número de mortos vêm dos segmentos mais pobres da população brasileira.

É certamente por isso que, quando perguntados sobre como fazer a economia retomar um trilho que permita recolocar milhões de trabalhadores no sistema produtivo, invariavelmente os empresários ouvidos oferecem prontamente a recusa em aceitar novos impostos para depois apontar para a necessidade de demitir servidores públicos e diminuir a oferta de serviços públicos. 

Essa receita, além de egoista, reflete uma postura suicida por parte dessas elites empresariais. É que por se recusar a contribuir com o aporte de recursos que permitam ao estado dinamizar a economia, estes empresários estão criando uma forma de capitalismo sem uma grande massa de consumidores. E para si mesmos, os mais ricos continuam a se apegar um capitalismo dependente onde, como já escreveu Celso Furtado em 1974 no seu ” O Mito do Desenvolvimento Econômico“,  prevalece a imitação dos modelos de consumo praticado pelos seus congêneres nas economias centrais, enquanto que para a maioria do povo sobra ainda mais miséria e exclusão.

A verdade é quem quiser governar qualquer prefeitura que seja nos próximos anos com um mínimo de chance de terminar mandato deverá recusar os péssimos conselhos dos mais ricos no sentido de precarizar ainda mais os serviços públicos, enquanto eles continuam amealhando fortunas espetaculares às custas da miséria da maioria.  Ainda que ajustes precisem ser feitos para aumentar o nível de eficiência da máquina pública, a receita a ser adotada deve ser no sentido de cobrar que os mais ricos partilhem porções mais significativas da sua riqueza com a maioria da sociedade na forma, por que não?, de mais impostos. Basta ver o que países como Noruega, Finlândia e Dinamarca fazem para saber que pagar imposto sobre fortunas amealhadas não deve ser nada mais do que a obrigação dos ricos para tornar a vida dos trabalhadores mais digna.

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E antes que alguém diga que estou exagerando na demanda que os ricos paguem mais impostos para colaborar para o funcionamento apropriado dos serviços públicos, sugiro a leitura do artigo publicado pela insuspeita revista Forbes sobre um movimento criado por bilionários norte americanos para pressionar pela imposição de mais impostos para os mais ricos. Entre os ultrarricos que estão neste movimento por mais impostos estão, entre outros, Warren Buffer, Michael Bloomberg, George Soros e Bill Gates. 

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