O tombamento da Usina Cambahyba pela Alerj é apenas o primeiro passo para a preservação da memória histórica

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O ex-delegado Cláudio Guerra mostrando como os corpos de oposicionistas ao regime militar de 1964  eram incinerados nos fornos da Usina Cambahyba em Campos dos Goytacazes 

A Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) aprovou ontem o Projeto de Lei 2360/2023 que “dispõe sobre o tombamento, por interesse histórico do estado do Rio de Janeiro, do parque industrial situado na Companhia Usina Cambahyba e dá outras providências”, de autoria, dentre outros, da deputa Marina do MST (PT) e do deputado Rodrigo Bacellar (União Brasil).

Essa aprovação é apenas o primeiro passo para um esforço de preservação da memória histórica em relação aos crimes ali cometidos durante o período do regime de 1964 que teriam incluído a incineração ilegal dos corpos de militantes de esquerda que faziam oposição armada ou não ao governo militar instalado com o golpe contra o presidente João Goulart.

Os crimes ocorridos na Usina Cambahyha foram descritos com riqueza de detalhes no livro “Memórias de uma Guerra Suja”, publicado em 2012,   a partir do trabalho de dois jornalistas, Marcelo Netto e Rogério Medeiros, que, ao colherem o depoimento do ex-delegado Cláudio Guerra.

Curiosamente no período de lançamento do “Memórias da Guerra Suja” houve em Campos dos Goytacazes todo um esforço para negar os detalhes descritos por Cláudio Guerra sobre o uso dos fornos da Usina Cambahyba para incinerar os corpos de oposicionistas do regime militar.  Agora, com esse tombamento, há um reconhecimento de que os crimes que Guerra confessou ter cometido enquanto era delegado do temido DOPS realmente ocorreram, justificando assim o tombamento dos prédios que ainda restam de pé na Usina Cambahyba.

Importante lembrar que as terras no entorno da usina foram desapropriadas pelo governo federal para a criação de um assentamento de reforma agrária que deverá o nome de Cícero Guedes, liderança do MST que foi assassinada no dia 26 de janeiro de 2013 enquanto apoiava a luta de acampados no terreno da Cambahyba.

10 anos após a morte de Cícero Guedes, a Quiprocó Filmes anuncia novo documentário sobre a vida do líder do MST brutalmente assassinado em Campos

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No ano em que se completam 10 anos do emblemático assassinato do agricultor rural e ex-líder do MST em Campos, Cícero Guedes, a Quiprocó Filmes anuncia a produção, em parceria com o MST-Rio, do documentário “Brava Gente”, com direção e roteiro de Fernando Sousa e Gabriel Barbosa, que abordará por meio de depoimentos e imagens de arquivo, a luta do trabalhador rural pela conquista da terra, pela defesa da educação e da universidade pública, além do seu legado e o pioneirismo no desenvolvimento de técnicas agroecológicas de produção no Norte Fluminense. 

Cícero Guedes foi brutalmente executado com tiros na cabeça e nas costas, numa estrada rural perto do Assentamento Oziel Alves, em Campos dos Goytacazes. Em 2019, em um julgamento relâmpago, o principal suspeito por ser o mandante do crime foi inocentado por um júri composto em sua maioria por estudantes da Faculdade de Direito de Campos por 4 a 2 votos. A morte completará dez anos no dia 26 de janeiro de 2023.

Fernando Sousa, produtor executivo do projeto, foi amigo pessoal do líder agrário e atuou em diferentes frentes de luta com Cícero Guedes, entre 2005 e 2010. Ele o encontrou pela última vez em dezembro de 2012, pouco antes da execução. 

“Cícero Guedes tinha uma enorme capacidade de articulação e mobilização política. Foi uma das principais lideranças do MST no Estado do Rio de Janeiro, influenciou e foi fundamental na formação de estudantes em nível de graduação e pós graduação da UENF e UFF, em Campos dos Goytacazes. Particularmente, destacaria a sua contribuição com o movimento estudantil na luta pela universidade pública e pela construção do Restaurante Universitário, o Bandejão da UENF, que hoje leva seu nome”, diz o cineasta.

Já a deputada estadual Marina do MST, eleita recentemente pelo PT-RJ e dirigente nacional do MST, diz que um documentário sobre o líder é uma forma de manter vivo o seu legado. “Nesse ano, se completam 10 anos do assassinato do companheiro Cícero Guedes. Um documentário que  resgate e registre o legado de Cícero é muito importante,  pois é a maior referência para a juventude e conjunto da  militância, de lutas, mística e  compromisso com o projeto do MST e da Reforma Agrária Popular”, afirma.

A Quiprocó Filmes já produziu documentários premiados como “Entroncamentos”, sobre a ascensão e queda das ferrovias do Sul-Fluminense; “Nosso Sagrado” e “Respeita Nosso Sagrado”, sobre o Acervo de 523 peças sagradas da umbanda e do candomblé que ficou mais de cem anos em poder da Polícia do Rio de Janeiro; e “Nossos Mortos Têm Voz”, com mães e familiares vítimas da violência do Estado na Baixada Fluminense.

Mais sobre Cícero Guedes

Cícero Guedes foi pioneiro na criação de feiras de distribuição e venda dos produtos da reforma agrária, à exemplo da Feira Estadual da Reforma Agrária Cícero Guedes, batizada com o nome do agricultor após o seu assassinato. Natural do interior de Alagoas, ainda criança, Cícero foi submetido ao trabalho análogo à escravidão em monoculturas de cana de açucar. À exemplo de outros milhares de trabalhadores negros e pobres da região, resolveu migrar para o Sudeste e tentar a vida com esposa e filhos. Em Campos dos Goytacazes, voltaria a trabalhar no plantio e colheita de cana no começo da década de 90, em uma maldita profecia que parecia teimar em lhe perseguir. 

O trabalhador rural que chegou ao Rio de Janeiro sem alfabetização formal, acabou tendo contato com a ocupação da reforma agrária Zumbi dos Palmares, nas terras da falida Usina São João, cuja desapropriação e emissão de posse aconteceu em 1997. A trajetória de vida e a leitura de mundo adquirida na luta pela terra forjaram Cícero Guedes como uma das principais lideranças políticas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra no Norte Fluminense. Cícero também trabalhou como operário nas obras da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, onde mais tarde contribuiria de forma pioneira no desenvolvimento de pesquisas e técnicas agroecológicas. Sua sensibilidade no manejo da terra, tornaria seu sítio uma referência nacional na produção agroecológica, no uso de técnicas sustentáveis de cultivo sem o uso de agrotóxicos. 

Mesmo com a conquista do lote conhecido como Brava Gente, Cícero Guedes continuou contribuindo de forma efetiva na luta pela terra na região, fundou o Comitê Popular de Combate e Erradicação do Trabalho Escravo, engrossou as fileiras do movimento estudantil na defesa da universidade pública e esteve na luta e conquista do restaurante universitário da UENF, batizado com seu nome após a sua execução, no dia 26 de janeiro de 2013.

A eleição de Marina do MST lança a oportunidade de que afinal se faça justiça para Cícero Guedes

Conheci a agora deputada estadual “Marina do MST” assim que cheguei em Campos dos Goytacazes em 1998 quando ela era uma liderança ascendente dentro do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) que recém havia chegado ao município para empreender um arrojado esforço em prol da reforma agrária em terras pertencentes aos donos das usinas de cana de açúcar que haviam entrado em processo falimentar, deixando para trás dívidas milionárias com seus trabalhadores e com o tesouro nacional.

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Vê-la agora eleita com impressionantes 46 mil votos é testemunhar a chegada ao parlamento de uma ativista política que amadureceu ao longo do tempo para se transformar em uma personagem com potencial de ter forte impacto na política fluminense, mesmo porque ela investiu na sua capacitação intelectual ao longo dos anos, sem que tenha abandonado seus compromissos com a luta em prol da reforma agrária no Brasil.

Se a eleição de Marina dos Santos é razão para celebração em um estado em que figuras completamente alheias à necessidade do povo trabalhador. Mas essa eleição e a chegada de Marina na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) também oferece oportunidade para que, finalmente, haja algum tipo de justiça para o líder do MST do Norte Fluminense, Cícero Guedes, que foi covardemente assassinado em janeiro de 2013.

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Cícero Guedes, líder do MST assassinado pelas costas em 2013 quando organizada a luta pela desapropriação das terras da falida Usina Cambahyba

Há que se lembrar que o assassinato de Cícero Guedes mereceu apenas um simulacro de julgamento apenas em novembro de 2019, quando o indíviduo identificado pela Polícia Civil como sendo o mandante foi rapidamente inocentado por um juri composto em sua maioria por estudantes da Faculdade de Direito de Campos.

Estou entre aqueles que acreditam que Cícero Guedes faz por merecer um tratamento mais respeitoso do que aquele que lhe tem sido dispensado até hoje, especialmente por parte do judiciário.  Além disso, a impunidade dos responsáveis pela morte de Cícero serve como incentivo para que outras lideranças sejam igualmente eliminadas, apenas para dificultar a organização dos trabalhadores rurais que precisam de terras para cultivar e garantir a sobrevivência de suas famílias.

Assim, espero que após instalada na Alerj, agora como deputada estadual, Marina dos Santos aja para garantir que a morte de Cícero Guedes deixar de ficar impune.  Esta seria a única forma de se manter o legado de um líder político que tombou em nome dos seus ideais que eram, acima de tudo, coletivos.

Cícero Guedes vive!

“Meu nome é Cícero” é mais do que uma peça teatral, é um chamado à ação

Assassinado pelas costas em uma estrada empoeirada nos limites da antiga Usina Cambaíba em 2013, o líder sem terrra Cícero Guedes ressurgiu na noite de ontem no palco do Teatro Trianon em Campos dos Goytacazes graças à criação de Adriano Moura que escreveu e dirigiu peça-musical “Meu nome é Cícero” (ver imagem abaixo).

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Como muitos que conheceram Cícero enquanto ele estava vivo e lutando pelo avanço da reforma agrária em Campos dos Goytacazes, só posso dizer que essa recuperação da memória de uma liderança que se ergueu do trabalho escravo para expressar as múltiplas formas que a luta pela justiça social é não apenas justa, como fundamental em um contexto histórico tão ruim para a maioria pobre do nosso povo.

Um detalhe que parece sempre passar em branco em uma sociedade claramente racista é que Cícero Guedes era mais do que simplesmente um líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Por sua origem social e étnica, Cícero era uma liderança negra cujo vulto se levantava para colocar claramente que é preciso que construamos uma nova sociedade em que a ordem escravocrata seja um dia superada no Brasil.

Cícero Guedes, o musical | Imagem: Reprodução

Não pude estar no Teatro Trianon, mas a narrativa de quem esteve presente me faz ter certeza que a energia que emanava das palavras e gestos foi revivida de uma forma que  fez justiça a quem Cícero realmente foi. Um personagem de múltiplas facetas Cícero era o que eu já chamei muitas vezes de “uma força natureza” tal era a energia que ele emanava para defender a necessidade da reforma agrária em um país profundamente marcado por graves distorções sociais e desigualdades econômicas.

Aproveitando a deixa, o fato de que os mandantes e assassinos de Cícero Guedes possam caminhar livremente pelas ruas é exemplo de como a justiça continua a ser negada aos que ousam se insurgir contra a ordem social que vige no Brasil.  Cobrar que eles sejam trazidos aos tribunais é uma necessidade que deveria ser abraçada por todos os que dizem defender a injustiça social que grassa em todo o território brasileiro.

Por isso “Meu nome é Cícero” é mais do que uma peça teatral, e se mostra como um convite à ação que Cícero Guedes abraçou de forma contundente, fosse cortando cercas de latifúndios improvidos ou ao entoar músicas que animavam os que encontravam abriga nos barracos de lona preta que são instalados após a derrubada delas.

Nove anos sem justiça para Cícero Guedes

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Cícero Guedes, lider do MST no Norte Fluminense, foi assassinado no dia 26 de janeiro de 2013 e os responsáveis pela sua morte continuam impunes e livres

Neste 26 de janeiro se completam nove anos desde o assassinato covarde de Cícero Guedes, liderança regional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no Norte Fluminense.  Também se completa hoje a completa falta de justiça para a morte de um trabalhador rural que dedicou parte da sua vida à luta pela reforma agrária. É que em 2019 em um julgamento relâmpago, o suposto mandante do assassinato de Cícero foi considerado inocente. Curiosamente, de lá para cá pouco se ouviu de qualquer outro esforço investigativo para retomar as apurações dos responsáveis pela morte de Cícero.

É importante enfatizar que a morte de Cícero Guedes e a consequente falta de punição para os responsáveis expressa bem o papel que o latifúndio ainda exerce na violência contra os pobres nas áreas rurais e todo aquele que se predispõe a organizar a luta pela reforma agrária. Aliás, essa é uma luta que deverá estar entre os principais elementos que qualquer um que espere uma mudança de rumo na situação política brasileira. Do contrário, continuaremos sentados em cima de um imenso barril de pólvora, e, pior, com o latifúndio armado até os dentes graças às ações pró liberação de armas adotadas pelo governo Bolsonaro (liberação para os latifundiários, é preciso que se frise).

Por outro lado, é sempre bom lembrar que Cícero Guedes teve contribuições que iam muito além da luta pela reforma agrária e pelo correto financiamento dos assentamentos criados a partir da luta dos trabalhadores rurais. Cícero era uma pessoa sempre disposta a contribuir com todos aqueles que se dispunham a questionar o “status quo“, estivessem essas pessoas dentro das universidades ou nas comunidades pobres urbanas. Por isso, a sua morte foi tão significativa para todos os que receberam o seu apoio.

Que neste aniversário de sua morte, Cícero Guedes seja lembrado pela grande e generosa figura, e que sua luta seja mantida acesa por todos os que desejam um Brasil mais justo, fraterno e democrático. 

Cícero Guedes vive!

A necessidade da luta, a urgência por justiça: uma nota para Cícero Guedes

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Por Luciane Soares da Silva*

Hoje completamos um ano e dois dias do julgamento do assassinato de Cícero Guedes. Me dirijo especialmente aqueles que não conhecem a história de Cícero, alagoano, trabalhador da terra e mais um brasileiro negro a experienciar os horrores da condição de trabalho análogo a escravidão.

O julgamento de Cícero em 2019 foi importante para pensar o Brasil. Principalmente a ação do Judiciário. O resultado não diferiu de tantos outros. E a justiça não foi feita. Mas o que esperar de uma cidade marcada pelo braço de latifúndio e da cana, das relações desiguais e do racismo? A capacidade de organização e resistência de Cícero em Cambaíba nos servem de exemplo e dever. Exemplo de como é possível repensar o direito à terra e à justiça social. Dever de prática cotidiana com uma luta que seja capaz de alimentar os corpos e principalmente, libertar as consciências das formas de subalternização impostas pelas elites brasileiras no saudosismo autoritário que sentem da escravidão.

Cabe lembrar ainda do significado histórico de Cambaíba. Para a Comissão Nacional da Verdade, a usina pode ter sido utilizada para incineração de corpos sob o regime ditatorial em 1974. De lá para cá o local foi desfigurado em uma tentativa de apagamento da memória e das lutas populares. De lá para cá muita terra improdutiva permaneceu assim por obra e ação do Estado.

Temos como dever pela morte de Cícero e de tantos outros ativistas dos direitos humanos no Brasil, exigir a justiça e a partilha da terra. A forma de resolução de conflitos faz com que o Brasil ocupe desde 2019 o vergonhoso lugar de terceiro país que mais mata ativistas. Ficando atrás da Colômbia e das Filipinas. Particularmente ativistas ligados a luta pela terra e o meio ambiente.

O governo Bolsonaro intensificou estes ataques. Em 2019 foram ao menos 24 mortes, segundo reportagem do El País de julho deste ano. Chama atenção a morte de lideranças indígenas enquanto a Amazônia queima ao longo de meses sob a pasta de Ricardo Sales.

Cícero, conhecido de todos nós na cidade, dos movimentos sociais, estudantes, professores, população, significa a dignidade que nos falta nos momentos em que arrefecemos e acreditamos ser possível viver sem que se faça justiça aos mortos pelo Estado. Frequentemente a mando do capital que aqui tem a cara dos donos de terra. Proprietários  que enviaram jagunços para nos intimidar em agosto de 2019, quando visitamos Cambaíba[1] após declaração do presidente sobre a morte de Felipe Santa Cruz, torturado cruelmente nas mãos da ditadura civil militar brasileira.

No Dia Internacional dos Direitos Humanos faremos a necessária discussão sobre memória e justiça. Um ciclo que se fechou, dando esperanças de um futuro democrático, abre-se como uma roda nefasta girando sobre a cabeça daqueles que ousam opor-se a um governo recheado de militares. Um governo negacionista.

Ao voltar para o Mapa da Fome durante uma pandemia e sofrer o descaso do presidente, caberá a nós a tarefa de zelar e seguir exigindo saúde para famílias negras vivendo em miséria. E justiça para aqueles que tombaram sob o peso de um Estado que segue tratando a bala aqueles que ousaram exigir de volta à terra que lhes é devida. Porque a lavraram, a fizeram florir e alimentaram este país com seus braços.

Justiça para Cícero Guedes e para todos os mortos pelo Estado no Brasil.

[1] https://blogdopedlowski.com/2019/08/01/o-caso-riocentro-cambahyba-e-a-luta-pelo-direito-a-verdade/

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Luciane Soares da Silva é docente da Universidade Estadual do Norte Fluminense  (Uenf), onde atua como chefe Laboratório de Estudos da Sociedade Civil e do Estado (Lesce), e também participa da diretoria da Associação de Docentes da Uenf (Aduenf).

Memórias de um almoço com Cícero Guedes, o sem terra assassinado por se negar a se dobrar para os padrões de subalternização social que existem no Brasil

Na foto abaixo estou ao lado de Cícero Guedes, liderança do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no Norte Fluminense, e que foi brutalmente assassinado com tiros na cabeça e nas costas no dia 26 de janeiro de 2013; tendo sido seu corpo abandonado em uma estrada abandonada nas próximas da Usina Cambahyba.

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Essa foto agora histórica foi tomada em um almoço na minha casa,  que só aconteceu por  eu ter encontrando com o Cícero caminhando no campus Leonel Brizola após uma das muitas reuniões que em vida ele frequentou na Universidade Estadual do Norte Fluminense.  Em princípio ele hesitou em aceitar, mas a fome falou mais alto e ele acabou aceitando compartilhar um almoço na minha casa.

Durante aquele almoço o Cícero me confidenciou duas surpresas: a primeira é que eu comia a mesma coisa que ele comia ou, segundo ele, a comida servida na minha mesa era “de pobre”.  A segunda surpresa foi que a pessoa que sentou ao nosso lado na mesa não era a minha esposa ou namorada, mas a pessoa que trabalha na minha casa. Para ele era surpreendente que “patrão e empregada” estivessem sentados na mesma mesa e comendo a mesma comida.

Quem não conheceu o Cícero não saberá que ele tinha passados momentos duras em sua vida de trabalhador rural, e que saber que eu “comia comida de pobre” e “almoçava junto com a empregada” era para ele realmente uma surpresa, pois não era o que ele estava acostumado a ver por parte das pessoas com mais educação e renda.  Por isso mesmo, após aquela visita, nossas interações se tornaram curiosamente mais amigáveis do que já eram. Lamentavelmente, ele foi assassinado meses depois daquele encontro, e não tivemos a chance de novamente compartilhar a mesma mesa.

Para mim, o assassinato do Cícero sempre será considerado uma enorme e inconsolável perda, pois ele era uma pessoa que eu respeitava e admirava.  Pior é saber que o seus assassinos e os mandantes de sua morte continuam impunes até hoje, fato esse que foi naturalizado pela absolvição em 2019 do suposto mandante. De lá para cá, não vi ninguém se interessando por apurar o assassinato do Cícero, e a impunidade que cerca esse caso é para mim uma prova de que é quase uma sentença de morte nascer negro, especialmente se a pessoa não aceita os padrões de subalternização social que ainda imperam no Brasil.

Cícero Guedes, você sempre estará presente!

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E o dia da justiça ainda não chegou para Cícero Guedes

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Ontem o julgamento do acusado de ser o mandante do assassinato do assentado e importante liderança da agricultura familiar do Norte Fluminense terminou com o veredito de inocência. 

Não tenho como opinar sobre como se deu o julgamento porque não estava na sala do juri, mas acho peculiar que o juri tenha levado em torno 25 minutos para absolver um réu para um caso que levou longos seis anos para ser julgado. 

Tamanho descompasso entre a ligeireza do júri e a lerdeza da justiça de levar o acusado a julgamento é, por outro lado, típico de um sistema onde os pobres definitivamente não possuem o mesmo sistema de garantias que os mais abastados.

Interessante notar que se o acusado de ontem foi inocentado, caberão dois desdobramentos para o caso do assassinato (pelas costas) de Cìcero Guedes: a polícia reiniciar as suas investigações que o júri considerou equivocadas ou a busca de correção da decisão de ontem em segunda instância.

Desconfio que o caminho a ser tomado (caso seja possível) é o da busca de correção da decisão do júri em segunda instância. Até lá, fica evidente que não há como achar natural que um caso tão rumoroso continue em aberto, sem que o culpado ou culpados sejam devidamente punidos pelo assassinato de Cícero Guedes.

Em justiça à memória do Cícero, esse caso não pode ficar jogado pelas calendas como se a vida e a luta dele não tivessem o significado amplo que tiveram. Deixar o assassinato sem a devida punição será incentivar a continuação do extermínio físico de todos aqueles que, partindo da origem e condições de vida em que Cícero viveu, ousaram e ousam sonhar por um país que não seja tão cruel com os pobres. 

E esse país que seja mais justo e menos desigual requer a realização de uma ampla reforma agrária que possa iniciar as necessárias transformações estruturais que o Brasil demanda para almejar ser uma Nação livre e soberana.

Cícero Guedes, presente!

Finalmente é chegada a hora de se fazer justiça a Cícero Guedes

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Cícero Guedes foi assassinado em janeiro de 2013, agora o acusado de ser o mandante do crime finalmente vai a julgamento
Assassinado no dia 25 de janeiro de 2013, o assentado e liderança inequívoca no Assentamento Zumbi dos Palmares, Cícero Guedes, era o que eu chamo de uma força da natureza dada era sua energia e disposição para a ação coletiva. A sua envergadura avantajada e o vozeirão inconfundível o tornavam uma figura difícil de se perder na multidão. Mas a vida nunca foi fácil para quem após uma infância dura em Alagoas, foi submetido a trabalho análogo à escravidão em Campos dos Goytacazes onde chegou buscando emprego no corte de cana.
Pessoalmente considero que o assassinato de Cícero Guedes representou um duro golpe contra as ações voltadas para ampliar a auto-organização dos assentamentos existentes no Norte Fluminense, na medida em que liderava as ações para a implantação de estruturas coletivas de comercialização que livrassem os assentados da dependência dos atravessadores, bem com os esforços para adoção de sistemas agro-ecológicos que diminuíssem a dependência de agrotóxicos e outros insumos químicos.
É importante notar a relação desenvolvida por Cícero Guedes com o cotidiano da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), e que se deu de forma intensa nas diferentes dimensões da vida universitária. Uma que não é que costumeiramente destacada foi a transformação do lote que Cícero e sua família ocupavam no Assentamento Zumbi dos Palmares em um laboratório avançado para a realização de pesquisas e ações de extensão relacionadas ao desenvolvimento de sistemas agroecológicos. Nesse aspecto particular, Cícero não era um simples objeto de pesquisa, mas um sujeito entusiasmado com as possibilidades trazidas pela disseminação da agroecologia por assentados da reforma agrária. Como uma sabedoria oriunda das suas lutas, Cícero sempre dizia que queria que a geração de renda não estivesse separada da sustentabilidade ambiental dos assentamentos.
Como se não fosse suficiente transformar o seu lote em unidade experimental e de demonstração, Cícero trabalhou muito para que a Uenf fosse uma parceira no processo de educação política dos agricultores assentados do Norte Fluminense. Graças a esse esforço, pudemos sediar diversos eventos organizados pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e seus parceiros dentro do campus Leonel Brizola. Pensando em retrospectiva, vejo como o período em que convivemos com Cícero foi enriquecedor para a cultura universitária, na medida em que para ele nos obrigava a pensar a realidade em formas que normalmente a universidade tem dificuldade de fazer, buscando principalmente criar interações entre a teoria e a prática.
Agora passados quase 7 anos do assassinato de Cícero, neste 7 de novembro finalmente acontecerá, em Campos dos Goytacazes, o julgamento do acusado de ser o mandante do crime. Este julgamento tem um caráter especialmente importante, não apenas pela oportunidade de fazer justiça para Cícero, mas também por recolocar em cena o local onde ele foi assassinado, a famigerada Usina Cambaíba em cujos fornos teriam sido cremados diversas vítimas do regime militar de 1964.
Para marcar essa data foram organizadas uma série de atividades que são mostradas abaixo.
Vigília Justiça Para Cicero🚩
📌7/11 Local Praça São Salvador Campos dos Goytacazes.
6:00 Praça São Salvador Café Coletivo: todxs trazer uma colaboração para o Café.
7:00 as 9:00 Panfletagem Especial Brasil de Fato /
Construir 5 grupos
Rodoviária velha, Terminal, Pelourinho, São Salvador, Beira Rio, Mercado Municipal.
9:30 Reconcentração no Fórum na Tenda central.
10:00 a 11:00 Oficina de Produção de cartazes, pirulito e Faixas
Leitura Coletiva da edição especial do Jornal Brasil de Fato
11:00 Mística
11:30 Abertura das Falas. ( Movimentos, Sindicato amigos e parceiros do MST)
13:30 Almoço MST-CPT
14:00 Encerramento Simbolico as 14hr