Desafios para pensar as cidades na perspectiva da adaptação climática

É urgente preparar as cidades para enfrentar as ameaças que tendem a se intensificar nos próximos anos, ao mesmo tempo em que é necessário repensar os modelos de produção e gestão das nossas cidades  

Crédito: Gladystone Fonseca/Unsplash

Por Lívia Izabel Bezerra de Miranda e Orlando Alves dos Santos Junior para “Le Monde Diplomatique”

Nosso ponto de partida é a constatação de que são cada vez mais intensas e frequentes as catástrofes decorrentes de eventos climáticos. Enchentes e deslizamentos, ondas de calor, secas prolongadas e aumento do nível do mar estão presentes no cotidiano das cidades brasileiras e têm gerado inúmeras perdas materiais e de vidas humanas. Apesar de também ter relação com outros fenômenos naturais, é inquestionável que a forma como a sociedade se relaciona com a natureza, como se organiza, produz e se reproduz, pode intensificar essas mudanças, ou pelo menos alterar as formas como os impactos decorrentes dessas mudanças são sentidos. 

A questão é reconhecer que a intensificação dos desastres climáticos-ambientais e dos seus impactos sobre as cidades, cada vez mais frequentes e profundos, ocorre no contexto de um mundo cada vez mais urbanizado. É preciso levar em consideração que desde a década de 1960, com o processo de expansão das áreas urbanas, o Brasil tem mais pessoas morando em cidades do que no campo. Esse processo de urbanização, por sua vez, tem sido historicamente marcado por um modelo excludente de cidades, caracterizadas pela concentração fundiária, de riqueza e renda; pela segregação socioespacial, fortemente conformada pelos marcadores de raça, gênero e etnia; pela distribuição desigual dos benefícios da urbanização; e pela distribuição desigual da arborização e de áreas verdes urbanas e de equipamentos públicos. Essas características são a expressão do modelo de desenvolvimento brasileiro e de suas contradições. 

Embora os eventos climáticos afetem todas as pessoas, seus impactos são muito desiguais: variam entre cidades e, dentro delas, entre diferentes grupos sociais. No Brasil, essas diferenças resultaram tanto das relações entre o ambiente construído e o ambiente natural quanto das desigualdades socioterritoriais que caracterizam as configurações urbanas e intraurbanas, especialmente nas periferias, favelas e territórios ribeirinhos. Assim, é preciso considerar que, apesar dos impactos dos eventos climáticos serem sentidos por todos, são as populações majoritariamente negras em situação de pobreza e vulnerabilizadas as que mais sofrem com os desastres, muitas vezes evitáveis se os territórios que ocupam tivessem recebido intervenções estruturais de urbanização e de recuperação ambiental e, também, políticas de prevenção de riscos e de adaptação climática. Mulheres, bebês, crianças, pessoas idosas e pessoas com deficiência também estão entre os grupos mais vulneráveis aos impactos da mudança do clima – o que reforça a relevância de uma abordagem interseccional nas ações de adaptação. 

Apenas um olhar específico e prioritário para os territórios periféricos e com recortes de gênero, raça, etnia, idade, renda possibilitará a efetivação de uma estratégia inclusiva de adaptação climática para as cidades. É necessário focar na justiça climática, buscando reduzir as desigualdades intraurbanas concretizadas na exclusão urbanística, no déficit habitacional e de áreas verdes urbanas, nas inadequações habitacionais e em serviços inadequados de saneamento básico e de mobilidade. É preciso reforçar os princípios do direito à cidade para enfrentar as adversidades da mudança do clima com foco nas áreas urbanas das cidades brasileiras. Nesse sentido, é urgente preparar as cidades para enfrentar as ameaças que tendem a se intensificar nos próximos anos, ao mesmo tempo em que é necessário repensar os modelos de produção e gestão das nossas cidades. O objetivo do nosso artigo é contribuir nesta perspectiva, discutindo o que está em disputa no contexto das eleições de 2026. 

Torna-se fundamental superar e repensar o paradigma que ainda persiste na nossa maneira de pensar, que separa a sociedade da natureza. Os fenômenos naturais não são considerados como produzidos socialmente e os fenômenos sociais não são percebidos como variáveis socioecológicas. Esse modo de pensar ignora que a sociedade e a natureza não são mundos separados: estamos inseridos em um ambiente dialético, em que tudo o que fazemos transforma o ambiente que também condiciona as nossas vidas cotidianas. E esse paradigma tem sido particularmente limitador dos nossos diagnósticos e das nossas propostas de enfrentamento do problema. Nesse sentido, o contexto de emergência climática nos parece uma oportunidade para pensar a nossa condição de espécie no planeta Terra, como propõe o geógrafo David Harvey. 

No contexto das eleições presidenciais de 2026, estão em disputa concepções, agendas e políticas que terão muitas consequências nas formas como o Brasil vai lidar com a temática do desenvolvimento urbano na perspectiva da adaptação climática. De uma forma sintética, podemos identificar três posicionamentos. 

O primeiro posicionamento pode ser chamado de negacionismo ou de fachada. Aqui estão as narrativas que não reconhecem as mudanças climáticas e seus impactos sobre as cidades como um problema; defendendo que tudo siga como está. Muitas vezes, mesmo que não haja uma negação explícita da agenda das mudanças climáticas, esta não recebe prioridade nos programas de governo nem na discussão das políticas de desenvolvimento urbano. 

O segundo posicionamento pode ser denominado ambientalismo excludente, que mobiliza os argumentos climáticos-ambientais para criminalizar as populações mais vulneráveis, inviabilizando os processos de produção desigual das cidades. Aqui o argumento climático é mobilizado para promover remoções, projetos segregadores expressos em conjuntos verticalizados e fechados voltados para as elites. 

Por fim, o terceiro posicionamento, a perspectiva crítica fundada no direito à cidade, na sustentabilidade ambiental e na justiça climática. Este posicionamento reconhece a necessidade de enfrentar este debate com foco no fenômeno urbano a partir de uma perspectiva crítica, o que implica duas abordagens interligadas. De um lado, identificar as ameaças climáticas e os riscos delas decorrentes: chuvas intensas e os riscos de enchentes e desabamentos; temperaturas extremas e os riscos da formação de ondas de calor; estiagem e secas prolongadas e os riscos de escassez hídrica; e aumento do nível do mar e os riscos de diminuição da área urbana. Por outro lado, é preciso focar nas ameaças desses fenômenos impactarem quatro dinâmicas vinculadas ao cotidiano: o direito à cidade, o acesso à moradia digna, o acesso ao saneamento básico e o acesso à mobilidade urbana.  

Nessa perspectiva, o esforço de monitoramento dos fenômenos climáticos deveria incorporar variáveis que permitam compreender os processos socioecológicos de produção da cidade que promovem e intensificam os riscos e ameaças de desastres e catástrofes, o que implica identificar seus agentes, seus interesses, conflitos sociais e suas contradições. É preciso discutir as condições que tornam possíveis o enfrentamento dos interesses do mercado imobiliário e o estabelecimento de pactos em torno da produção da cidade fundados na justiça socioambiental. 

Consideramos que a recriação do Ministério das Cidades, em 2023, trouxe uma inovação importante ao incorporar a adaptação das cidades à mudança do clima como uma política transversal, em sintonia com o Plano Clima Adaptação – Cidades sendo, inclusive, tema da 6ª Conferência Nacional das Cidades, realizada em 2026.   

Neste contexto, nossa perspectiva é que está em disputa a possibilidade de o Brasil avançar ou retroceder na superação de uma cultura tecnocrática que ainda predomina no campo de planejamento urbano, avançando para políticas que atuem sobre os processos de produção do espaço e da cidade. Isso deve se refletir na elaboração dos planos diretores municipais das nossas cidades e na implementação de instrumentos de política urbana na perspectiva da adaptação climática.  

Isso tem fortes implicações sobre as formas como nossas cidades têm sido produzidas e geridas, ainda fortemente subordinadas aos interesses do mercado imobiliário, que determina onde e como construir, quem vive aqui e ali, o que é preservado e o que é destruído, quem fica e quem é removido. A dinâmica e a força do capital imobiliário no contexto contemporâneo do nosso urbanismo periférico e dependente estão sendo reconfiguradas pela sua subordinação ao capital rentista e financeirizado do capitalismo global, e isso precisa ser estudado e compreendido para ser enfrentado. 

Em suma, apesar dos discursos em torno das mudanças climáticas parecerem um consenso, existem muitas diferenças sobre como esta temática é pensada e incorporada nos programas de governo e nas propostas de políticas públicas federais.  

É por isso que se torna um desafio a mobilização de ativistas sociais, movimentos populares, profissionais e acadêmicos, empresários e gestores públicos comprometidos com a justiça socioambiental para garantir que a agenda vitoriosa nas eleições favoreça novas práticas de planejamento urbano, orientadas pela adaptação climática e pelo direito à cidade. 

Lívia Izabel Bezerra de Miranda é pesquisadora do Núcleo Paraíba do INCT Observatório das Metrópoles e Orlando Alves dos Santos Junior é coordenador nacional do programa INCT Observatório das Metrópoles. 


Fonte: Le Monde Diplomatique

Dançando enquanto o colapso não vem: Hegemonia do modelo agroquímico mineral causa atraso na adaptação climática no Brasil

Solidariedade real e radical entre os povos para enfrentar o colapso  climático - Brasil de Fato

As últimas semanas têm sido marcadas pela ocorrência de eventos tão extremos como díspares. As cenas de grandes tempestades, grandes oscilações de temperatura, e destruição de bens e propriedades têm ocupado parcelas cada vez mais maiores dos noticiários. Somado à confirmação de um novo normal climático, o que se vê é a discrepância já existente na capacidade de adaptação a essa situação, com países do capitalismo dependente ficando cada vez mais para trás na aplicação de medidas que representem algum tipo de esforço de preparação para as situações extremas que estão se tornando cada vez mais frequentes.

Um aspecto que sempre é negligenciado é que não falta ciência e cientistas para informar melhor a tomada de decisões. Uma voz que alerta frequentemente para os problemas climáticos é o físico Paulo Artaxo, professor da Universidade de São Paulo, que sendo um dos maiores experts em mudanças climáticas no Brasil sempre se manifesta sobre a necessidade de preparar nossas cidades para o novo normal climático. Um dos elementos que Artaxo destaca é o fato de que a adaptação terá de ser ajustada localmente, na medida em que os extremos climáticos se manifestarão de forma diferenciada, dependendo de fatores locacionais.  Em outras palavras, não haverá uma receita única para o processo de adaptação.

Como venho me interessando há algum tempo pela questão da adaptação climática ao nível das cidades, usando a cidade de Campos dos Goytacazes como ponto privilegiado de observação, o que posso dizer é que ainda não há o mínimo interesse por partes dos governantes em discutir seriamente a necessidade de preparação para o aprofundamento dos problemas associados ao clima.  Em Campos dos Goytacazes, inexistem medidas de mudança na paisagem urbana. Aliás, pelo contrário. O que se tem é a persistência de práticas de remoção da parca vegetação urbana existente, como ficou claro recentemente com a remoção de dezenas de árvores de grande porte, apenas para tornar a marca de um supermercado mais visível. Além disso, não temos ainda nenhuma medida para ajustar materiais de construção que possam ser mais afeitos aos extremos de temperatura que estão se tornando uma das marcas do padrão climático.  Para colar a cereja no bolo, ainda inexiste orçamento para instalar as estruturas que deveriam apoiar e viabilizar as decisões de governo em momentos de ocorrência de eventos meteorológicos extremos.

O problema é que Campos dos Goytacazes não é uma exceção insólita, mas uma espécie de vanguarda do atraso. A verdade é que a maioria, senão a totalidade, das cidades brasileiras não deu ainda os passos iniciais para a adaptação climática que poderia evitar o colapso das cidades com locais viáveis para a existência humana.  Um dos fatos essenciais para isso é a hegemonia das forças políticas que controlam e se beneficiam do modelo agroquímico e mineral que ditam os investimentos públicos no Brasil. Essas forças determinam grandes investimentos na produção de commodities agrícolas e minerais de exportação, bem como a instalação de infraestruturas de escoamento (chamam isso de logística) do que é produzido a partir deste modelo. E nunca é demais dizer que esse modelo contribui diretamente para a crise climática, o que explica porque a hegemonia desse modelo inibe qualquer discussão séria sobre adaptação. 

Como é a classe trabalhadora quem sofre e sofrerá cada vez mais os efeitos da crise climática, já que seus membros estarão expostos a um agravamento das temperaturas enquanto trabalham e terão de voltar para locais de moradia que serão os mais atingidos pelos extremos meteorológicos, é necessário colocar essa discussão no centro do debate político. No caso brasileiro, me parece evidente que não serão as forças políticas que apoiam o modelo agroquímico e mineral que farão isso. Esta tarefa terá que ser abraçada pelos segmentos de esquerda que não se limitam a gerenciar o capitalismo dentro dos limites aceitos por quem realmente controla o status quo agroquímico mineral.  O problema é se essas forças de esquerda vão acordar antes que o colapso se torne inevitável.

Aqui um um aviso é importante: o tempo para a tomada de posições está se esgotando.

Conversão de florestas em pastos e cidades afeta o clima na Amazônia

Mudança de uso de solo e seca na Amazônia contribui para mudanças climáticas ameaça segurança alimentar e ecossistema 

Áreas da Floresta Amazônica convertidas em pastos e cidades têm maior amplitude térmica, menor umidade, maior reflexão da luz solar e perda de eficiência na regulação do clima. Essas são algumas das conclusões obtidas pelo estudo “Microclima no Cenário de Floresta, Pastagem e Cidade no Sudoeste da Amazônia”, publicado na “Revista Brasileira de Meteorologia”. O trabalho, realizado em colaboração entre o Instituto Nacional de Pesquisas Amazônicas (INPA), a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Federal de Rondônia (UNIR), indica que é preciso equilibrar os efeitos das atividades humanas para reduzir os impactos negativos dessas transformações. 

Para avaliar se mudanças no uso e na cobertura do solo podem afetar as variáveis micrometeorológicas em florestas, os pesquisadores coletaram dados sobre temperatura, radiação solar, chuva e umidade do ar em três ambientes distintos: florestas, pastagens e cidades. As medições ocorreram em Rondônia, sudoeste da Amazônia, em 2017. Com base nas informações amostrais e em estudos anteriores, a equipe calculou possíveis diferenças nos parâmetros entre os tipos de cobertura e comparou os resultados por meio de análises estatísticas.

Entre os principais resultados, destacam-se a redução da umidade nos ambientes antropizados e uma diferença de 2°C na amplitude térmica diária, ou seja, na diferença entre as temperaturas máximas e mínimas do dia. Pastagens e cidades apresentaram uma variação térmica maior. “O processo de remoção das florestas em Rondônia vem sucedido por pastagens e cidades, que são paisagens homogêneas e modificam toda a dinâmica local; elas acabam contribuindo menos com a evapotranspiração e aquecendo mais, tornando o local mais seco e mais quente”, alerta Bárbara Antonucci, primeira autora do estudo. O conceito de evapotranspiração abrange tanto a evaporação de água do solo e a transpiração das plantas

A conversão de florestas em pastagens e áreas urbanas também elevou a capacidade de reflexão da luz solar, um fenômeno conhecido como albedo. A maior variação foi observada na substituição da floresta pela cidade, resultando em um aumento de 264%. “O albedo indica o quanto de luz é refletida, como em um espelho”, diz a pesquisadora. Ela explica que, nas florestas, a luz solar é absorvida e utilizada, principalmente, em três processos: aquecimento do ar, fotossíntese e evapotranspiração. No entanto, nas áreas urbanas analisadas, apenas uma pequena fração é aproveitada na fotossíntese e o restante se converte em calor. “Vimos que as cidades e pastagens, superfícies com maior albedo, refletem mais luz, acumulam menos energia e tendem a ser mais quentes”, complementa.

Segundo Antonucci, além de alterar o microclima, as mudanças identificadas podem ter impactos importantes na biodiversidade local e nas atividades econômicas que dependem do clima e do solo, por exemplo. “A interrupção dos serviços ecossistêmicos fornecidos pelas florestas, como evapotranspiração, regulação térmica e sombreamento, pode levar ao agravamento de extremos climáticos”, diz a autora. “Ainda, a maior vulnerabilidade dessas áreas pode comprometer a agricultura, tornando as atividades produtivas mais suscetíveis a secas, ondas de calor e mudanças nos regimes de chuvas, o que também afetaria a segurança alimentar e a economia local”, acrescenta.

Para ela, ações de mitigação e preparo são urgentes para lidar com os possíveis impactos da conversão florestal em ambientes antropizados. “Uma medida essencial é a adoção de estratégias para cidades mais resilientes, como a arborização, e o reconhecimento dos serviços ambientais prestados historicamente por populações tradicionais — como ribeirinhos, extrativistas e comunidades indígenas”, sugere Antonucci. 

A autora argumenta que políticas públicas devem priorizar incentivos à conservação e ao uso sustentável dos recursos naturais e defende que é imprescindível conciliar o desenvolvimento econômico com a preservação ambiental e os saberes locais. Nesse sentido, a equipe de pesquisadores visa, agora, aprofundar as análises micrometeorológicas da região, identificar padrões e tendências e integrar os estudos com as comunidades locais, visando contribuir para mudanças de paradigmas.

DOI: http://dx.doi.org/10.1590/0102-778640230038


Fonte: Agência Bori

Desastres no RS: adaptação a mudanças climáticas precisa entrar na pauta das eleições municipais

Rio Guaíba, após forte chuva em Porto Alegre

Menos de 15% dos municípios brasileiros têm planos de mitigação e adaptação às mudanças climáticas

Por André Luiz Cotting e Victor Marchezini

O ano de 2024 é ano de eleições municipais no Brasil. E os desastres são um problema que tem afetado os municípios e suas populações em todas as regiões do país. Desde as últimas eleições, presenciamos inundações nos estados da Bahia em 2021 e no Rio Grande do Sul em 2024, deslizamentos de terra nas cidades de Petrópolis (RJ) em 2022 e de São Sebastião (SP) em 2023, além da seca nos municípios do Amazonas no ano passado.

As perdas de vidas e econômicas em desastres só aumentam, mas menos de 15% dos municípios brasileiros têm planos de mitigação e adaptação às mudanças climáticas. No Rio Grande do Sul, essa porcentagem cai para menos de 5% dos municípios. As enchentes que estão atingindo as cidades gaúchas de forma desproporcional agora em maio mostram a necessidade de incluir a gestão de riscos de desastres nos programas de governo para prefeito(a) e nos planos de legislatura para vereador(a) nos municípios brasileiros.

O governo municipal tem uma série de responsabilidades nesse tema, conforme a Lei 12.608/2012, como garantir o pleno funcionamento das defesas civis municipais, que devem atuar em contextos de desastre, fazer o mapeamento das áreas de risco de inundação e deslizamentos para implantar medidas estruturais, como muros de contenção de encostas, e não estruturais, como sistemas de alerta e realizar o zoneamento municipal, que prevê melhorias na infraestrutura urbanas para as áreas de risco, como a drenagem da água das chuvas. Também cabe ao poder público municipal definir onde podem ser construídas moradias para pessoas desabrigadas por desastres.

Essas iniciativas são importantes para a adaptação às mudanças do clima, pois eventos extremos como chuvas intensas e ondas de calor serão cada vez mais frequentes e intensos. Mas outra frente de ação tão importante quanto a adaptação é a mitigação das mudanças do clima. A diminuição das emissões de gases de efeito estufa, responsáveis pelo aquecimento global, pode reduzir o aumento da temperatura média da Terra a níveis mais seguros para a adaptação.

Municípios podem ter soluções para essa agenda. Algumas sugestões: incentivar o uso do transporte público coletivo por meio de tarifas mais baixas (ou mesmo da gratuidade), criar condições seguras para pedestres e ciclistas para incentivar esse tipo de deslocamento e aproximar áreas de produção de alimentos aos locais de consumo, o que tem potencial de reduzir as emissões de gases de efeito estufa no transporte. O governo municipal também pode investir na ampliação de áreas verdes, como parques, para aumentar a absorção dos gases pela vegetação, o que ajuda também a reduzir os efeitos das ondas de calor, e na promoção da coleta seletiva de resíduos sólidos, diminuindo o volume destinado a aterros sanitários e lixões, que emitem gases de efeito estufa.

A conscientização de eleitores sobre a necessidade e a possibilidade de medidas como essas pode mobilizar candidatas e candidatos às prefeituras e às câmaras municipais a apresentarem propostas para o problema. Afinal, apesar de as mudanças do clima serem um fenômeno global, seus efeitos se manifestam localmente. Portanto, o enfrentamento também deve partir do nível local.

Sobre os autores

André Luiz Cotting é planejador territorial e pós-graduando em Desastres pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), com bolsa de apoio da Fapesp.

Victor Marchezini é sociólogo e pesquisador do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden/ MCTI).


color compass

Fonte: Agência Bori

O poder das árvores na mitigação de inundações

arboles-inundaciones-1-996x567Mais de 580 mil pessoas estão desabrigadas e mais de 2,3 milhões foram afetadas pelas enchentes no Rio Grande do Sul, sul do Brasil. As inundações podem ser mitigadas com ações locais baseadas nos recursos naturais, como preservação e plantio de árvores. Crédito da imagem: Thales Renato/Midia NINJA , licenciado sob Creative Commons CC BY-NC 2.0 Deed

Por Luiz Felipe Fernandes para a SciDev 

[GOIÂNIA] Enquanto o Sul do Brasil enfrenta uma das piores tragédias de sua história, causada por chuvas intensas que elevaram o nível dos rios e causaram enchentes devastadoras, alguns especialistas lembram a importância das árvores para a prevenção e mitigação do impacto da subida das águas .

Mais de 90% das 497 cidades do estado do Rio Grande do Sul, que faz fronteira com o Uruguai e a Argentina, foram afetadas. Até 31 de maio, a Defesa Civil do estado já havia confirmado 169 mortos e 806 feridos. Mais de 580 mil pessoas estão desabrigadas e mais de 2,3 milhões foram afetadas de alguma forma.

O problema não é isolado. Neste momento, a Colômbia também enfrenta inundações e inundações, especialmente com as chuvas que provocaram o rompimento da barragem de Caregato, na região de La Mojana, no departamento de Bolívar.

Consequência direta de fenômenos climáticos extremos derivados do aquecimento global , as enchentes que atingem diversos países podem ser mitigadas com ações locais baseadas nos recursos naturais, como a preservação e o plantio de árvores.

“As árvores são algumas das ‘pontes’ mais importantes para um futuro com um clima estável num planeta habitável”, disse a diretora executiva do Centro Internacional de Pesquisa Florestal e Agroflorestal Global (CIFOR-ICRAF), Éliane Ubalijoro, em recente artigo de opinião.

Especialista em agricultura e genética molecular, Ubalijoro explicou ao SciDev.Net que as árvores aumentam a matéria orgânica do solo, transformando-a em uma “esponja” capaz de absorver até 50 vezes mais água em comparação com solos degradados.

“Essa barreira [de árvores, arbustos e outras plantas] garante um processo de desaceleração do fluxo de água que se desloca na superfície. Isso permite uma absorção de água mais eficiente e também contribui para reduzir os picos de inundação.”

Karla Maria Silva de Faria, professora do Instituto de Estudos Socioambientais da Universidade Federal de Goiás (Iesa/UFG)

As raízes também fortalecem as camadas do solo, criando pilares naturais de apoio contra o movimento do solo. Além disso, as árvores podem reduzir os níveis de umidade do solo através da interceptação, evaporação e transpiração, diminuindo o risco de deslizamentos de terra.

Karla Maria Silva de Faria, professora do Instituto de Estudos Socioambientais da Universidade Federal de Goiás (Iesa/UFG), no Brasil, acrescentou que a presença de árvores, arbustos e outras plantas nas faixas marginais dos canais de drenagem atua como uma barreira natural, contribuindo para a absorção da água da chuva e reduzindo a quantidade de água que correrá diretamente para os rios.

“Essa barreira garante um processo de desaceleração do fluxo de água que se desloca pela superfície. Isso permite uma absorção de água mais eficiente e também contribui para a redução dos picos de enchentes”, destacou Faria ao SciDev.Net .

Porém, a conservação e o plantio de árvores devem ser feitos com planejamento. Portanto, ao orientar as iniciativas de restauração e florestamento, o CIFOR-ICRAF defende a abordagem “árvore certa, no lugar certo, para o propósito certo”.

Segundo Ubalijoro, nem todas as árvores servem para todos os lugares. “A escolha das espécies e da localização é essencial para maximizar os benefícios da proteção contra inundações e aumentar a probabilidade de sobrevivência das plantações a longo prazo”, explicou.

Portanto, a seleção das espécies deve levar em consideração o ecossistema e as particularidades do relevo. A plantação de espécies de árvores grandes e pesadas demasiado perto de cursos de água, por exemplo, pode aumentar o risco de inundações.

Faria destacou que, no Brasil, a legislação prevê que o plantio de árvores esteja incluído no processo de ocupação. O especialista integra a equipe técnico-científica do Plano Diretor de Drenagem Urbana de Goiânia (PDDU-GYN), outra capital brasileira que sofre com inundações.

“O plano diretor preverá quais áreas serão ocupadas e indicará as estratégias do projeto de arborização e os mecanismos regulares de ocupação que evitarão problemas socioambientais”, observou.

A organização do espaço urbano deve ter em conta estes corredores naturais de prevenção de inundações. Faria explicou que as Áreas de Proteção Permanente (APP), que correspondem a faixas de vegetação marginal ao longo dos canais de drenagem, não devem ser ocupadas por atividades humanas, por serem áreas naturalmente sujeitas a inundações.

Os especialistas também destacam a necessidade de envolver as comunidades locais e outras partes interessadas no planeamento. A escolha de espécies que proporcionem benefícios à segurança alimentar e aos meios de subsistência, como frutas colhíveis, por exemplo, pode aumentar as chances de aceitação e proteção local.

O cumprimento da legislação e a criação de mais dispositivos legais para a preservação ambiental são o foco das discussões sobre o problema que ocorre no Sul do Brasil, diante das acusações que o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, tem flexibilizado o regime de proteção jurídica para APLICATIVOS. O governador foi chamado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) para prestar esclarecimentos.

Além dos efeitos locais nos centros urbanos, as árvores são importantes aliadas na mitigação dos problemas climáticos globais. “As árvores são as máquinas mágicas de que precisamos para combater as alterações climáticas . São essenciais para reparar os nossos sistemas alimentares danificados, fornecer alimentos, nutrientes e pontos críticos de biodiversidade e apoiar a agricultura sustentável ”, concluiu o diretor executivo do CIFOR-ICRAF.


compass black

Este artigo foi produzido pela edição América Latina e Caribe do  SciDev.Net 

Injustiça climática, aqui e lá, atingirá desproporcionalmente os pobres

Areasrisco_Salvador_EloiCorrea_GovBA

Um interessante artigo escrito pelas jornalistas Anne Bennand, Corey Kilgannon, Jazmine Hughes e Emma Goldberg para o “The New York Times” sob o título de “It is going to be a hot summer. It will be hotter if you´re not rich” (em português “Vai ser um verão quente, que será mais quente se você for pobre”) são apontados vários elementos do que seria “injustiça climática”. É que no frigir dos ovos, as mudanças climáticas e suas diversas manifestações irão atingir os segmentos mais pobres da população nova iorquina, na medida em que até mesmos os espaços públicos destinados aos ricos irão protegê-los melhor das altas temperaturas que deverão ocorrer no próximo verão.

Diferente do que está posto no artigo das jornalistas do New York Time, injustiça climática no Brasil não é mais só um prognóstico, mas um fato que está se tornando corriqueiro, só que na forma de chuvas extremas que chegam rapidamente e atingem mais duramente as áreas que restaram para os mais pobres morarem.

Apenas em 2022 já tivemos os exemplos de Petrópolis, da Baixada Fluminense, de Angra dos Reis e Paraty, de inúmeras cidades de Minas Gerais, e agora no Recife.  Em todos esses lugares as chuvas chegaram rápidas e intensas, e causaram enormes perdas de vidas humanas e colocaram abaixo milhares de habitações localizadas em regiões geologicamente instáveis que foram ocupadas depois que o filé mignon imobiliário foi ocupado e submetido a um processo de valorização que expulsou para longe quem não tinha como pagar.

No caso brasileiro, a injustiça climática continuará se agravando até que se faça uma radical reforma da terra urbana, que inclua ainda a tomada pelo Estado de um grande estoque de imóveis que os proprietários deixam vazios até que possam adentrar a próxima bolha imobiliária ou algum processo de gentrificação que é normalmente é financiado com dinheiro público.

A verdade é que qualquer medida paliativa para esconder o acúmulo de cadáveres causados pela injustiça climática servirá apenas para causar a chegada de outro desastre social de base climática. É que, queiramos ou não, as mudanças climáticas chegaram para ficar, servindo ainda para expor as dramáticas diferenças sociais existentes nas cidades brasileiras.

 

Flexibilização da proteção às margens dos rios pode deixar a população mais exposta a desastres naturais e crise hídrica

Projeto de lei aprovado pelo Congresso nesta quarta-feira, 8/12, altera o Código Florestal e dá autonomia aos municípios para legislarem sobre as Áreas de Preservação Permanente (APP) em centros urbanos. Especialistas veem riscos de aumento das pressões locais pelo uso de áreas que deveriam ser preservadas

unnamed (39)Vista do mirante do Parque Passaúna, em Curitiba – Foto Pixabay

O Congresso Nacional aprovou nessa quarta-feira, 8/12, um projeto de lei que transfere da União para os municípios a competência para definir as regras de proteção às margens de rios, lagos, lagoas e demais cursos d’água de cidades brasileiras. O texto aprovado, que segue para sanção da Presidência da República, altera o Código Florestal e pode permitir a realização de intervenções e obras, além de facilitar a regularização de construções irregulares. A alteração na legislação foi recebida com preocupação por pesquisadores e organizações comprometidas com a conservação da natureza e o desenvolvimento sustentável no Brasil, que temem o aumento das pressões pelo uso de áreas que deveriam ser preservadas. De acordo com o Código Florestal, margens de rios são Áreas de Preservação Permanente (APP).

A definição das faixas mínimas a serem protegidas nas margens dos rios, conforme especificado na lei federal, visa garantir que as funções gerais dessas áreas sejam minimamente resguardadas, tanto no espaço rural quanto no urbano. A tentativa de remeter a definição de APP ao legislador municipal pode facilitar a redução dessas áreas. Uma das consequências diretas deve ser o aumento dos riscos de deslizamentos de encostas e a potencialização dos efeitos das enchentes, causando prejuízos econômicos, sociais e sanitários. Além disso, recursos hídricos desprotegidos comprometem o fornecimento de água, agravando a crise hídrica e potencializando uma iminente crise energética.

A Aliança Bioconexão Urbana, formada por oito organizações que defendem o uso de Soluções Baseadas na Natureza para enfrentar desafios das cidades, realça que proteger as nascentes e cursos d’água deveria ser uma prioridade nacional, já que os recursos hídricos são estratégicos para o abastecimento da população, irrigação de lavouras, geração de energia e o desenvolvimento das mais variadas atividades econômicas. “As APPs contribuem para a proteção da biodiversidade, ajudam a regular o microclima, protegem recursos hídricos, reduzem os efeitos das ilhas de calor em grandes cidades e regiões metropolitanas e também oferecem bem-estar para as populações. Não faz sentido flexibilizar a legislação, gerando incertezas sobre essas áreas e colocando a população em risco. Ao poder induzir desmatamentos, a mudança na lei também vai contra o acordo de desmatamento zero até 2030 assumido pelo Brasil durante a COP26”, alerta André Ferretti, gerente de Economia da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário, uma das organizações que integram a Aliança Bioconexão Urbana.

Menos áreas verdes

A transferência de competência na legislação sobre APPs também pode facilitar a redução de áreas verdes em grandes cidades, gerando ainda maior gasto público com serviços como o abastecimento de água. Caso isso ocorra, a medida vai na contramão de políticas públicas adotadas com sucesso no Brasil e em outros países em relação às chamadas Soluções Baseadas na Natureza (SBN), que utilizam infraestrutura verde como estratégia para solucionar diversos desafios enfrentados pelas cidades.

Para Cecília Herzog, paisagista urbana, especialista em Preservação Ambiental das Cidades e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN), os legisladores deveriam considerar que a natureza oferece uma série de serviços ecossistêmicos essenciais à qualidade de vida da população. “Diversos estudos comprovam que a manutenção da infraestrutura natural nas margens de rios reduz os sedimentos depositados nas águas e, consequentemente, gera economia de recursos ao poder público nos sistemas de tratamento e distribuição de água. Manter áreas verdes nas margens dos rios é uma maneira inteligente de gerar economia em gastos com dragagem dos reservatórios e também na aquisição de produtos químicos para tratamento”, salienta a especialista.

Além de preservar os recursos hídricos, APPs contribuem para a preservação da biodiversidade e podem ser importantes para melhorar a saúde e a qualidade de vida da população, conforme explica André Ferretti. “Com a adoção de parques e corredores ecológicos nas margens dos rios, é possível estimular a atividade física e o lazer, além de diversas atividades culturais e econômicas, gerando um ciclo virtuoso a partir do contato com a natureza. Áreas verdes devem ser compreendidas como grandes ativos das cidades”, ressalta.

E-book gratuito

Para saber mais sobre como as Soluções Baseadas na Natureza são importantes para que as cidades se preparem para os desafios das mudanças climáticas, a Fundação Grupo Boticário disponibiliza gratuitamente o e-book “Cidades Baseadas na Natureza – infraestrutura natural para resiliência urbana”. O material traz exemplos de diferentes metrópoles que adotaram com sucesso a infraestrutura verde para solucionar problemas urbanos. Baixe aqui.

Flexibilização de Áreas de Preservação Permanente (APP) pode deixar a população mais exposta a desastres naturais e crise hídrica

Propostas em votação na Câmara e no Senado podem reduzir ainda mais áreas verdes em grandes cidades. Medidas estão na contramão de políticas públicas adotadas com sucesso em diferentes países

unnamed (37)Vista do Mirante do Passaúna, em Curitiba / Foto: Rodrigo Santos – Pixabay

Elaborados para flexibilizar a definição sobre Áreas de Preservação Permanente (APP) em regiões urbanas, dois Projetos de Lei (PL) ameaçam a proteção às margens de rios, lagos, lagoas e demais cursos d’água de cidades brasileiras. O PL 2.510/2019, aprovado em regime de urgência na Câmara dos Deputados em agosto, e o PL 1.869/2021, pronto para ser votado a qualquer momento no Senado Federal, dão autonomia a municípios para legislarem sobre as APPs, alterando o Código Florestal e permitindo a realização de intervenções e obras, além de facilitarem a regularização de construções irregulares. A flexibilização é vista como retrocesso por organizações e entidades comprometidas com a conservação da natureza e o desenvolvimento sustentável no Brasil.

A definição das faixas mínimas a serem protegidas nas margens dos rios, conforme especificado no Código Florestal, visa a garantir que as funções gerais dessas áreas sejam minimamente resguardadas, tanto no espaço rural quanto no urbano. A tentativa de remeter a definição de APP ao legislador municipal pode facilitar a redução dessas áreas. Uma das consequências diretas deve ser o aumento dos riscos de deslizamentos de encostas e a potencialização dos efeitos das enchentes, causando prejuízos econômicos, sociais e sanitários. Além disso, recursos hídricos desprotegidos comprometem o fornecimento de água, agravando a crise hídrica e potencializando uma iminente crise energética.

A Aliança Bioconexão Urbana, formada por oito organizações que defendem o uso de Soluções Baseadas na Natureza para enfrentar desafios das cidades, realça que proteger as nascentes e cursos d’água deveria ser uma prioridade nacional, já que os recursos hídricos são estratégicos para o abastecimento da população, irrigação de lavouras, geração de energia e o desenvolvimento das mais variadas atividades econômicas. “As APPs contribuem para a proteção da biodiversidade, ajudam a regular o microclima, protegem recursos hídricos e também oferecem bem-estar para as populações. Não faz sentido flexibilizar a legislação, gerando incertezas sobre essas áreas e colocando a população em risco”, alerta André Ferretti, gerente de Economia da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário, uma das organizações que integram a Aliança Bioconexão Urbana.

Menos áreas verdes

Caso sejam aprovados, os projetos de lei podem reduzir ainda mais áreas verdes em grandes cidades, gerando ainda maior gasto público com serviços como o abastecimento de água. A medida vai na contramão de políticas públicas adotadas com sucesso em diferentes países em relação às chamadas Soluções Baseadas na Natureza (SBN), que utilizam infraestrutura verde como estratégia para solucionar diversos desafios enfrentados pelas cidades.

Para Cecília Herzog, paisagista urbana, especialista em Preservação Ambiental das Cidades e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN), os legisladores deveriam considerar que a natureza oferece uma série de serviços ecossistêmicos essenciais à qualidade de vida da população. “Diversos estudos comprovam que a manutenção da infraestrutura natural nas margens de rios reduz os sedimentos depositados nas águas e, consequentemente, gera economia de recursos ao poder público nos sistemas de tratamento e distribuição de água. Manter áreas verdes nas margens dos rios é uma maneira inteligente de gerar economia em gastos com dragagem dos reservatórios e também na aquisição de produtos químicos para tratamento”, salienta a especialista.

Além de preservar os recursos hídricos, APPs contribuem para a preservação da biodiversidade e podem ser importantes para melhorar a saúde e a qualidade de vida da população, conforme explica André Ferretti. “Com a adoção de parques e corredores ecológicos nas margens dos rios, é possível estimular a atividade física e o lazer, além de diversas atividades culturais e econômicas, gerando um ciclo virtuoso a partir do contato com a natureza. Áreas verdes devem ser compreendidas como grandes ativos das cidades”, ressalta.

E-book gratuito

Para saber mais sobre como as Soluções Baseadas na Natureza são importantes para que as cidades se preparem para os desafios das mudanças climáticas, a Fundação Grupo Boticário disponibiliza gratuitamente o e-book “Cidades Baseadas na Natureza – infraestrutura natural para resiliência urbana”. O material traz exemplos de diferentes metrópoles que adotaram com sucesso a infraestrutura verde para solucionar problemas urbanos. Baixe aqui.

 —-

Conheça as organizações que integram a Aliança Bioconexão Urbana:

Fundação Grupo Boticário– Com 30 anos de história, a Fundação Grupo Boticário é uma das principais fundações empresariais do Brasil que atuam para proteger a natureza brasileira. A instituição atua para que a conservação da biodiversidade seja priorizada nos negócios e em políticas públicas e apoia ações que aproximem diferentes atores e mecanismos em busca de soluções para os principais desafios ambientais, sociais e econômicos. Já apoiou cerca de 1.600 iniciativas em todos os biomas no país. Protege duas áreas de Mata Atlântica e Cerrado – os biomas mais ameaçados do Brasil –, somando 11 mil hectares, o equivalente a 70 Parques do Ibirapuera.

Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) – Organização sem fins lucrativos que tem como objetivo subsidiar processos de tomada de decisão em temas relacionados à ciência, tecnologia e inovação. Atua por meio de estudos em prospecção e avaliação estratégica baseados em ampla articulação com especialistas e instituições. Trabalha diretamente com Soluções Baseadas na Natureza para cidades. 

Rede Brasil do Pacto Global da ONU – Iniciativa da Organização das Nações Unidas para encorajar empresas a adotar políticas de responsabilidade social corporativa e sustentabilidade. Criada em 2003, a Rede Brasil responde à sede do Pacto Global, em Nova Iorque, e preside o Conselho das Redes Locais na América Latina. Os projetos conduzidos no país são desenvolvidos por meio das Plataformas de Ação e dos Programas Internacionais. Atualmente estão em andamento cerca de 40 iniciativas, que contam com o envolvimento de centenas de empresas, assim como agências da ONU e agências governamentais.

ICLEI (Governos Locais pela Sustentabilidade) – Rede global de mais de 2.500 governos locais e regionais comprometida com o desenvolvimento urbano sustentável. Ativos em mais de 125 países, a Rede influencia políticas de sustentabilidade e impulsiona a ação local para o desenvolvimento de baixo carbono, baseado na natureza, equitativo, resiliente e circular. A Rede e equipe de especialistas trabalham juntos oferecendo acesso a conhecimento, parcerias e capacitações para gerar mudanças sistêmicas em prol da sustentabilidade urbana.

WRI Brasil – Instituto de pesquisa que transforma grandes ideias em ações para promover a proteção do meio ambiente, oportunidades econômicas e bem-estar humano. Atua no desenvolvimento de estudos e implementação de soluções sustentáveis em clima, florestas e cidades. Alia excelência técnica à articulação política e trabalha em parceria com governos, empresas, academia e sociedade civil. O WRI Brasil faz parte do World Resources Institute (WRI), instituição global de pesquisa com atuação em mais de 60 países. 

BPBES – A Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos – BPBES (do inglês, Brazilian Platform on Biodiversity and Ecosystem Services) foi constituída inicialmente como Grupo de Trabalho da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência/SBPC. Suas atividades são desenvolvidas desde 2015 com destaque para o Diagnóstico Brasileiro de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos. Em 2019, a Plataforma foi reestruturada para apoiar e fomentar a elaboração de novos relatórios, apoiando-se em três pilares: a coordenação executiva, conselho técnico-científico, e autores de diagnósticos.

Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC) – O Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC) se espelha no Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, sigla em inglês) e objetiva fornecer avaliações científicas sobre as mudanças climáticas de relevância para o Brasil, incluindo os impactos, vulnerabilidades e ações de adaptação e mitigação.

TNC – A The Nature Conservancy (TNC) é uma organização global de conservação ambiental dedicada à proteção das terras e águas das quais toda a vida depende. Guiada pela ciência, a TNC cria soluções locais inovadoras para os principais desafios do mundo, de forma que a natureza e as pessoas possam prosperar juntas. Trabalhando em mais de setenta países, a organização utiliza uma abordagem colaborativa, que envolve comunidades locais, governos, setor privado e a sociedade civil. No Brasil, onde atua há mais de 30 anos, o trabalho da TNC concentra-se em solucionar os complexos desafios de conservação da Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica a partir de uma abordagem sistêmica, com foco na implementação e geração de impacto, para reverter as mudanças climáticas e a perda da biodiversidade.

Cidades amazônicas sob risco de grandes incêndios por causa das queimadas

tangará da serra

Área urbana de Tangará da Serra (MT) cercada pelas chamas no dia de ontem (11/09).

Um dos aspectos que é pouco considerado quando se pensa nas mudanças do uso da terra que estão ocorrendo na Amazônia brasileira é o fato de que a região Norte possui uma taxa de urbanização acima de 70% (no Brasil como um todo, esta taxa está em torno de 85%).

Decorrente dessa alta taxa de urbanização da Amazônia (para os interessados no processo, eu recomendo o livro de John Browder e Brian Godfrey intitulado “Cidades da floresta: urbanização, desenvolvimento e globalização na Amazônia Brasileira” que oferece uma análise regional completa do processo de urbanização acontecendo na Amazônia Brasileira), o que temos é uma proximidade grande entre as aglomerações urbanas e as regiões florestadas que já foram ou estão sendo alteradas pelos processos de desmatamento e degradação florestal em curso na região.

Por isso, as cenas das chamas oriundas de queimadas cercando diferentes cidades na Amazônia não deveria surpreender ninguém (ver abaixo a situação que ocorreu ontem na cidade de Tangará da Serra, localizada no sudoeste do estado do Mato Grosso) (ver video abaixo).

A verdade é que outras cidades com tamanho mais significativo do que Tangará da Serra estarão, cedo ou tarde (talvez mais cedo do que tarde) no caminho de grandes incêndios na Amazônia, com consequências incalculáveis.

Por isso, quando leio que apoiadores do governo Bolsonaro utilizam as cenas de grandes incêndios ocorrendo na Califórnia como uma espécie de desculpa minimizadora do que está acontecendo na Amazônia, eu só posso pensar que a ignorância é a causa desse esforço negacionista. 

É que, ao contrário da Califórnia, a maioria das cidades da Amazônia brasileira não possui equipamentos para combater grandes incêndios, o que amplia a chance de que uma grande quantidade delas esteja hoje vivendo sob o risco da devastação via o fogo. Como já estive fazendo trabalhos de campo por quase 20 anos em Rondônia, posso afirmar que essa proximidade com as áreas de queimada aumenta a chance de que áreas urbanas sejam atingidas em cheio por grandes incêndios por causa delas.

Enquanto isso, vemos o presidente e o vice-presidente da república, bem como o ministro do Meio Ambiente, envolvidos em esforços rocambolescos de negação da catástrofe ambiental que está ocorrendo tanto na Amazônia quanto no Pantanal Matogrossense.  Esse tipo de comportamento negacionista ainda poderá resultar em grandes perdas humanas, além da ambiental que já está em curso. O governo Bolsonaro neste momento literalmente brinca com fogo.

As cidades devem pensar nas árvores como uma infraestrutura de saúde pública

torontoToronto, Ontário, Canadá. Imagem: Shutterstock Shipfactory

Plantar árvores é uma forma de melhorar a saúde das pessoas, e uma medida muito fácil e barata de se tomar. As árvores, além de embelezar uma cidade, proporcionam ar fresco e limpo. Por isso deveria se pensar nelas como uma infraestrutura de saúde pública.

Todas as pessoas deveriam poder respirar ar puro. Isso deveria ser possível também nas grandes cidades. As árvores não só ornamentam as ruas como ajudam a manter a saúde física e mental dos seus habitantes, ajudando a criar um ambiente mais saudável.

A organização The Nature Conservancy questiona por que não são incluídos esses conceitos nos orçamentos governamentais direcionados à saúde pública.

Esta organização elaborou recentemente um documento que explica com cifras as razões pelas quais se deve mudar o paradigma das verbas públicas, para incluir o investimento em criação e manutenção de áreas verdes nos gastos de saúde.

Para elaborar este documento usou-se o exemplo dos Estados Unidos, já que nesse país se dedica apenas 1% do seu orçamento para o plantio e manutenção das áreas verdes – e somente um terço disso é realmente investido. Como consequência, as cidades do país norte-americano perdem cerca de 4 milhões de árvores por ano.

Este é um documento oficial que detalha o problema, suas causas, conceitos e as soluções para lutar contra ele.

Se estima que com uma média de 8 dólares por pessoa em cada ano seria possível impedir a perda de árvores no país.

Também seria possível aumentar o aproveitamento dos benefícios que elas geram. O número não sugere o valor, senão apresenta uma mostra de que esse investimento necessário também é possível.

Investimento verde diminuindo

Com respeito aos investimentos, o informe indica que, atualmente, os municípios estão gastando menos com o plantio e o cuidado das árvores, em comparação com o que era gasto em décadas anteriores.

A falta ou presença de árvores em um local muitas vezes está ligada ao nível de renda de um bairro. Isso também cria uma enorme desigualdade nas cifras de saúde.

Nos Estados Unidos, a diferença nas expectativas de vida entre bairros de uma mesma cidade que estão próximos geograficamente pode chegar a ser de até uma década.

Embora a diferença nos índices de saúde não tem a ver somente com a questão das árvores, os investigadores asseguram que os bairros com menos áreas verdes têm piores resultados com relação à saúde de seus residentes. Desta forma, é possível concluir que a desigualdade urbanística pode se refletir em piores níveis saúde.

Entretanto, há outras cidades (como é o caso de Londres) ou países (como é o caso da China ou da Nova Zelândia) onde existe sim uma preocupação em promover o reflorestamento de forma mais massiva.

Medidas para aumentar as áreas verdes numa cidade

O documento propõe uma série de conselhos que podem ser usados pelo poder público e privado, entre os quais estão os seguintes:

Implementar políticas que incentivem o semear de árvores, seja por iniciativa privada ou pública.

Intercâmbios municipais que visem facilitar a colaboração de organismos de saúde pública e agências ambientais.

Relacionar o financiamento de árvores e parques a objetivos e metas das políticas de saúde pública.

Educar a população sobre os benefícios das áreas verdes para a saúde pública, e também sobre o impacto econômico das mesmas.

*Publicado originalmente em EcoInventos