Mais uma barriga: a comunidade científica campista não subiu no palanque de Caio Vianna

Li com alguma curiosidade a nota publicada por Aldir Sales [Aqui! ] dando conta da presença do deputado estadual Waldeck Carneiro no palanque eleitoral do candidato Caio Vianna (PDT) na noite de ontem (25/11). É que segundo essa nota, a presença do reitor da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), Raul Palácio, e de uma representante do Diretório Central de Estudantes da Uenf no mesmo palanque eleitoral representaria uma pretensa subida no palanque de Caio Vianna (ver imagem abaixo).

1_waldeck-1702536

Sem querer me ater muito à oportunidade de um reitor de universidade pública subir em palanque eleitoral, o mesmo valendo para uma sindicalista estudantil, é uma barriga jornalística (para não dizer uma fake news) que a comunidade científica campista tenha subido no palanque de quem quer que seja na atual campanha eleitoral. Isto não quer dizer que pesquisadores e docentes não tenham colaborado individualmente para a confecção de programas ou votado neste ou naquele candidato, mas daí dizer que todo o coletivo de pesquisadores esteve ontem no palanque de Caio Vianna é, no mínimo, um exercício de “wishful thinking” (ou melhor de um pensamento desejoso).

Eu particularmente lamento que nenhum dos dois candidatos que estão no segundo turno tenha tomado a iniciativa de convidar a tal “comunidade científica” aludida por Aldir Sales para uma reunião aberta a todos os interessados. É que assim se poderia ter discutido francamente toda as potencialidades existentes nas instituições de ensino superior sediadas na cidade de Campos dos Goytacazes. Nesta conversa franca se poderia ter debatido as melhores opções para a construção das saídas que o nosso município tão urgentemente necessita após quatro anos de destruição da capacidade do governo municipal de se posicionar como um agente de transformação da nossa realidade social e econômica. Resta apenas agora desejar que o vencedor passe a agir concretamente para firmar parcerias e financiar projetos de pesquisa que gerem a necessária alavancagem para sairmos da crise em que nos encontramos.

Sobre a presença do deputado estadual Waldeck Carneiro no palanque de Caio Vianna após o diretório municipal do PT ter definido uma posição de neutralidade eu só tenho a lamentar. É que tendo o PT conseguido sair da obscuridade em que se encontrava a partir da militância aguerrida da professora Odisséia Carvalho, o mínimo que qualquer deputado do PT deveria fazer, em nome do fortalecimento do partido em Campos dos Goytacazes, seria respeitar as instâncias municipais que se decidiram democraticamente pela neutralidade no segundo turno.  Depois ainda tem militante do PT que reclama que outras forças de esquerda tenham conseguido ocupar mais espaço político, traduzido em um número maior de votos, e avançando mais do que o seu partido no esforço de construção partidária no atual ciclo eleitoral. É por esse tipo de intromissão de cima para baixo que eu, apesar de ser um dos primeiros filiados do PT no estado do Rio de Janeiro, decidi me desfiliar já em 1997 quando voltei ao Brasil. 

A extinção do MCTI e suas implicações para o desenvolvimento nacional

dark

Vou deixar de lado a discussão sobre a natureza golpista da assunção ao poder do presidente interino Michel Temer, pois acho que muitos outros blogueiros vão se dedicar a abordar esse aspecto do que está ocorrendo no Brasil.  Mas como professor universitário e pesquisador não posso deixar de lamentar a extinção do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação e a colocação dos assuntos desta pasta numa espécie de puxadinho num novo ministério alcunhado com um estranhíssimo nome “Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações.

Algum esperançoso poderia dizer que ciência, tecnologia e inovação não pode ser um puxadinho num ministério que tem esses conceitos na prioridade do seu nome. Mas eu acredito que os engenheiros dessa extinção acham que podem enganar a comunidade científica (que terá mais a perder inicialmente com esse retrocesso) e o resto da população brasileira ao vincular o desenvolvimento tecnológico nacional à área de comunicações. Se fosse pelo menos a área de comunicação científica ainda poderia se entender, mas não é evidentemente o caso. Aliás, a entrega desse “novo” ministério a Gilberto Kassab não deixa nenhuma dúvida sobre o papel secundário que se pretende dar à ciência e tecnologia. É que tendo passado algum tempo no Ministério das Cidades,  a única coisa digna de ser notada que Kassab fez foi abandonar o governo Dilma para apoiar o seu impeachment,

A raiz do problema é que ao negar à ciência e tecnologia um ministério próprio, o que o presidente interino está apontando é o seu pouco caso com o desenvolvimento autônomo da produção do conhecimento que poderia nos transformar em um outro tipo de exportador, qual seja, de ciência e tecnologia.  Aliás, esse é o caso que está sendo adotado pela China que não apenas turbinou o orçamento do seu ministério da Ciência, mas como também já anunciou que pretende diminuir a dependência em relação à exportação de produtos manufaturados e aumentar o peso das transações comerciais apoiadas em tecnologia de ponta.  Diante dessa opção de Temer, o Brasil que ficou na poeira atrás da Coréia do Brasil, agora se arrisca a ser sumir no espelho da “Ferrari” científica que os chineses estão desenvolvendo.

Eu que voltei ao Brasil em 1998 em meio às tentativas do PSDB de privatizar as universidades federais, vi de tudo um pouco em relação ao descaso do governo federal com o necessário suporte para nos alçar enquanto uma potência científica e tecnológica. Agora, os sinais emitidos nas primeiras 24 horas do governo interino de Michel Temer mostram que se quer impor uma regressão ainda pior sobre a nossa capacidade de produzir ciência qualificada e efetivamente inovadora. Como a comunidade científica brasileira vai responder a esse ataque à sua própria existência é um mistério neste momento. Eu espero que não seja de forma conformista e acovardada, pois isto nos levaria mais rapidamente de volta ao Século XIX quando inexistiam universidades e centros de pesquisa científica no brasil. Parece trágico e é.

Ciência brasileira na encruzilhada: grandes desafios, orçamentos dilapidados

perflecture1

Algo que vem passando despercebido na cobertura caolha que a mídia corporativa faz da crise econômica e política que grassa nos diferentes níveis da federação brasileira é o profundo corte de verbas públicas para as universidades e centros de pesquisas nacionais.  Se a coisa já foi tenebrosa em 2015, os cortes orçamentários projetados pelo governo federal e por governos estaduais colocam a maioria dos grupos de pesquisas em um estado de comatose profunda. É que sem recursos mínimos, a maioria das pesquisas que requerem um mínimo de insumos para fluírem são efetivamente inviabilizadas.

O mais impressionante é que neste momento a sociedade brasileira está sendo assolada por um grande número de problemas que demandam respostas científicas precisas que impulsionem a adoção de soluções. Vejamos, por exemplo, a recente disseminação do vírus zika e e a febre chikungunya (lê-se chicungunha), cujos efeitos sobre a saúde humana deixam pálidos aqueles causados pela dengue (Aqui!). A ausência de recursos para pesquisar essas doenças certamente causará mortes e deformações e, de quebra, aumentará ainda mais a sobrecarga da rede pública de saúde, a qual já se encontra totalmente sobrecarregada.

Eu poderia ainda mencionar a falta de qualquer resposta institucional do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) à hecatombe socioambiental iniciada pelo rompimento da barragem do Fundão da Mineradora Samarco em Mariana (MG). Em um país minimamente organizado para atender as demandas reais que emergem na sociedade, uma agência como o CNPq já teria convocado pesquisadores a se associarem em redes para pesquisarem os diferentes compartimentos ambientais que foram devastados pelo TsuLama. Mas até agora a única iniciativa de que se tem é da Fundação de Amparo  à Pesquisa de Minas Gerais (Fapemig) que lançou um edital para pesquisadores interessados em investigar o TsuLama da Samarco e as medidas necessárias para sua mitigação no âmbito do Rio Doce (Aqui!). O problema é que premida pelo encurtamento de recursos, a capacidade de financiamento da Fapemig é consideravelmente menor, e não deverá aportar os recursos minimamente necessários para que pesquisas de grande fôlego sejam realizadas, de modo a estabelecer os limiares de ações de mitigação para este incidente ambiental de proporções apocalípticas.  Tanto isto é verdade que o edital para a recuperação do Rio Doce é de magros R$ 4 milhões, o que se mostra claramente insuficiente para pesquisar uma tragédia de dimensões ainda incalculáveis. 

Mas o que me incomoda mesmo é notar que apesar da magreza do aporte financeiro, continuamos imersos numa cultura institucional que obriga a comunidade científica brasileira a continuar sua rotina de privilegiar a quantidade em detrimento da qualidade.  E isto se traduz na pressão para continuarmos a publicar em quantidades que justifiquem ranqueamentos e premiações. E como já abordei de forma repetida aqui neste blog, tal pressão cria um terreno fértil para a legitimação do “trash science” como forma de qualificar a comunidade científica nacional.  O fato é que não se ouve no plano da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) qualquer ajuste na forma de se avaliar os programas de pós-graduação, em que pesem as evidências de que estamos profundamente contaminados com a cultura do “trash science” onde quantidade é o que importa.

A somatória desses problemas acaba colocando a comunidade científica brasileira diante de um grande dilema. Como evoluir a ciência e atender as demandas emergentes num ambiente de cobertor curta e critérios que privilegiam a quantidade? Algumas respostas estão surgindo e apontam não apenas para formas alternativas de financiamento (como é o caso do mecanismo do “crowdfunding”), mas também para o estabelecimento de redes de cooperação que ultrapassem os limiares do personalismo imposto pelo “trash science”. Ainda que embrionárias, muitas iniciativas no caso do TsuLama da Samarco apontam para a adoção de uma tomada de posição que privilegia a cooperação científica em detrimento do egotismo que grassa atualmente na maioria da comunidade cientifica brasileira.

Essas redes de cooperação são para mim a principal esperança de que possamos superar a encruzilhada em que se encontra a ciência brasileira neste momento. É que formas genuínas de cooperação em rede poderá se mostrar como a única forma de vencermos ao mesmo tempo a falta de recursos e a pressão para que nos submetamos todos à lógica do “trash science”. E como nenhum país se desenvolveu até hoje sem comunidades científicas efetivamente qualificadas, a superação dessa encruzilhada tem tudo a ver com o destino do Brasil enquanto nação independente.