Agronegócio e escassez hídrica no Brasil: uma tragédia anunciada

Seca no Rio Madeira em 2024. Foto: Michael Dantas / AFP

Um levantamento feito pela Agência Pública no banco de dados da Agência Nacional de Águas (ANA) identificou que 50 grupos empresariais possuem outorgas de uso de água que alcançam 3,5 trilhões de litros de água, um valor que serviria para abastecer cerca de 98 milhões de pessoas (46% da população brasileira) por um ano. Há que se notar que 86% das outorgas eram para atividades do dito agronegócio.

O Brasil vive hoje um processo de diminuição da água existente em seus principais rios. Isso é o que mostram diferentes estudos científicos realizados nos últimos anos e publicados em importantes revistas científicas internacionais. As causas dessa perda da capacidade hídrica estão ligadas a problemas que vão desde as mudanças climáticas, passam pelo desmatamento na Amazônia e no Cerrado, e desembocam na outorga de trilhões de litros de água anualmente para uso pelo agronegócio e pela mineração.

Um levantamento feito pela Agência Pública no banco de dados da Agência Nacional de Águas (ANA) identificou que 50 grupos empresariais possuem outorgas de uso de água que alcançam 3,5 trilhões de litros de água, um valor que serviria para abastecer cerca de 98 milhões de pessoas (46% da população brasileira) por um ano. Nesse caso, há que se notar que 86% das outorgas eram para atividades do dito agronegócio.

Mas os problemas associados ao uso intenso de água pelo agronegócio estão entrelaçados ao processo de desmatamento, especialmente no bioma do Cerrado. Uma pesquisa da qual participei e que foi publicada em 2023 na revista Sustainability mostrou a perda da capacidade hídrica (ou seja, o ressecamento) em 82 bacias hidrográficas localizadas dentro do Cerrado. Essa perda de capacidade hídrica é especialmente preocupante, na medida em que são os rios do Cerrado que abastecem a maioria das bacias hidrográficas que abastecem o resto do Brasil. É uma espécie de efeito cascata no qual o ressecamento dos rios do Cerrado irá espalhar a seca por outras partes do Brasil.

Uma estratégia dos latifundiários para responder aos impactos oriundos do desmatamento, o uso de água subterrânea para irrigação, também colabora para que o volume dos rios esteja diminuindo. Um estudo publicado pela prestigiosa revista Nature em 2019 apontava para um lento processo que estava atingindo entre 15 e 21% das bacias hidrográficas que têm suas águas subterrâneas removidas, já atingiram um limiar ecológico crítico, dizem os autores — e que esse número pode subir rapidamente para algo entre 40 e 79% até 2050. Essa tendência foi confirmada de forma específica para o Brasil por um estudo publicado pela revista científica “Nature Communications”, que apontou que mais da metade dos rios brasileiros está perdendo água para o subsolo, o que deverá comprometer a vazão, o que afetará fortemente a quantidade de água disponível para consumo humano”.

Apesar das evidências de que caminhamos para um grave problema de abastecimento de água em um futuro não muito distante, e que os principais responsáveis são conhecidos, a privatização das empresas concessionárias na maioria dos estados e municípios torna a crise uma oportunidade para os donos do capital. É que, com demanda em crescimento e oferta em diminuição, a tendência será de aumentos explosivos do preço da água para os trabalhadores do campo e da cidade.

Em face desse cenário ameaçador, é preciso que o debate em torno da democratização do acesso à água, bem como da imposição das restrições sobre o consumo abusivo pelo agronegócio e pela mineração. Mas a receita para isso precisa nascer do reconhecimento de que não há como esperar soluções das estruturas criadas para gerir a privatização da água, a começar pela própria ANA e os chamados comitês de bacia. É que desse aparato não sairá uma gota de água para os pobres, pois foi criado para gerenciar a água não como um direito humano, mas mais uma commodity a ser comercializada para alcançar o lucro máximo. 

O caminho para evitar uma aguda crise social causada pela escassez da água terá de ser o da organização popular e do questionamento frontal do modelo privatista de gerenciamento dos recursos hídricos que foi estipulado em 1997 com a promulgação da Política Nacional de Recursos Hídricos. Um exemplo prático de como o controle privado da água deve ser enfrentado pelos trabalhadores foi a chamada Revolta de Correntina, que ocorreu em 2017 na região oeste do estado da Bahia, quando milhares de pessoas se mobilizaram para denunciar o uso abusivo da água pelas atividades do agronegócio.  A replicação da mobilização de Correntina terá de estar na ordem do dia, pois, do contrário, a falta de água vai se tornar regra e não exceção.

Finalmente, há que se dizer que todo esse contexto de diminuição da quantidade de água facilmente disponível para consumo deverá ser piorado pelas mudanças climáticas com o aumento dos períodos de seca e de ondas de calor. Por isso, não há tempo para contemplar, pois a hora é agir. O quanto antes, melhor. 


Fonte: A Nova Democracia

Desmatamento da Amazônia é ainda mais impactado por demandas do centro-sul do que pelas exportações

Estudo da USP mostra que a expansão da pecuária, pressionada pelo aumento do consumo interno, foi o fator que mais contribuiu para a eliminação ou degradação da cobertura vegetal da região. Produção agrícola vem em segundo lugar

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Atualmente, 23% da área correspondente à Amazônia Legal Brasileira já foi desmatada e mais de 1 milhão de km2 encontram-se degradados (foto: Ibama)

José Tadeu Arantes | Agência FAPESP 

A Amazônia Legal Brasileira (ALB) – que compreende toda a parte da Bacia Amazônica situada no Brasil e vastas porções adjacentes do Cerrado, estendendo-se por nove Estados – soma mais de 5 milhões de quilômetros quadrados (km2) e corresponde a quase 60% do território nacional. Atualmente, 23% dessa área já foi desmatada e mais de 1 milhão de km2 encontram-se degradados, colocando a região em risco de atingir um ponto de inflexão ecológica que poderia colapsar os ecossistemas e liberar bilhões de toneladas de carbono na atmosfera. Algumas regiões da ALB, especialmente nas franjas do Cerrado e no chamado “Arco do Desmatamento”, já são emissoras líquidas de carbono. A manutenção da área preservada e a recuperação de porções degradadas são necessidades urgentes, que mobilizam diferentes atores da comunidade global.

A demanda estrangeira por commodities é frequentemente considerada a motivação principal do desmatamento. Mas, embora esta constitua um fator muito relevante, os mercados domésticos exercem pressão ainda maior. Foi o que constatou um estudo realizado por Eduardo Haddad e colaboradores, publicado na revista Nature Sustainability.

“O desmatamento é frequentemente avaliado a partir da perspectiva da oferta, ou seja, quais setores produtivos estão promovendo a substituição das florestas por outros usos da terra, como agricultura e pecuária. A metodologia que adotamos permite ver o fenômeno do desmatamento também a partir da perspectiva da demanda, identificando as fontes de estímulos econômicos para que os setores produtivos se envolvam no desmatamento. Com base nesse critério, nosso estudo mostrou que 83,17% do desmatamento foi desencadeado por demandas de fora da Amazônia e apenas 16,83% por demandas da própria região. Na composição dos 83,17%, verificamos que 59,68% foram decorrentes de demandas do restante do Brasil e 23,49% de demandas do comércio internacional”, relata Haddad.

O pesquisador é professor titular da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (FEA-USP) e consultor de agências internacionais de desenvolvimento, como o Banco Mundial (BM), Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e o Joint Africa Institute (JAI).

A metodologia adotada no estudo baseou-se principalmente na chamada Matriz de Insumo-Produto (MIP). Criada pelo russo naturalizado norte-americano Wassily Leontief (1906-1999), a MIP (Input-Output Matrix, em inglês) representa matricialmente as relações entre os diversos setores da economia, registrando os fluxos de bens e serviços e possibilitando conhecer os impactos que as alterações em um setor produzem nos outros.

“No Brasil, a MIP mais recente foi feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística [IBGE] em 2015. Devido à complexidade matemática e à restrição de acesso aos dados de milhões de empresas e suas estruturas comerciais, não houve atualização depois disso. Usar dados de 2015 poderia ser inadequado se não fosse pelo fato de que, infelizmente, a estrutura da economia brasileira mudou muito pouco desde então. A década de 2010 foi a pior na série histórica de 120 anos do Produto Interno Bruto do país, com crescimento de apenas 0,3% ao ano. Por isso, utilizamos a MIP de 2015 adaptada para a Amazônia Legal Brasileira, combinada com dados setoriais e regionais de desmatamento e de emissões de gases de efeito estufa, para medir os impactos diretos e indiretos da demanda doméstica e internacional por insumos e produtos finais da ALB, com foco em setores intensivos em desmatamento, como a agricultura e a pecuária”, explica Haddad.


A configuração atual da Amazônia Legal Brasileira (imagem: IBGE)

Mudanças no uso da terra

A Amazônia passou por enormes transformações no último meio século. Inovações técnicas, investimentos em infraestrutura e mudanças políticas facilitaram a expansão do cultivo de soja: da região central do Cerrado para vastos segmentos da ALB. A produção local de soja, que era inferior a 200 toneladas em 1974, representando apenas 0,02% do montante nacional, alcançou 50 milhões de toneladas em 2022, 41,5% do total brasileiro. Igualmente vertiginoso foi o crescimento da pecuária: de 8,9 milhões de cabeças de gado em 1974 (9,5% do rebanho brasileiro) para 104,3 milhões de cabeças em 2022 (44,5% do total).

“A expansão da pecuária atendeu principalmente ao crescimento do consumo de carne, produtos lácteos e couro em outras regiões do país. Impulsionado pelo aumento da renda média per capita e pela rápida urbanização, o consumo de carne no Brasil subiu acima da média global após os anos 1960. Dos 1,4 milhão de hectares desmatados pela pecuária, 61,63% visaram atender, direta ou indiretamente, à demanda interna de fora da Amazônia e 21,06% à demanda internacional. O desmatamento por atividades agrícolas mostra um padrão diferente, com 58,38% atendendo à exportação e 41,62 ao mercado interno”, informa Haddad.

O estudo ressalta que, apesar de afetar diferentes biomas da Amazônia Legal, o desmatamento ocorrido até agora no Brasil se concentrou geograficamente nessa região. Em 2015, a ALB respondia por 65,7% do total do desmatamento acumulado no país. A pecuária foi a principal causa imediata (93,4% do total regional), seguida pela produção agrícola, principalmente de soja, milho e algodão (6,4%), e pela mineração (0,2%). A construção de infraestrutura e o processo intensivo de urbanização também fazem parte dos fatores antrópicos diretamente ligados à eliminação ou à degradação da cobertura vegetal original da Floresta Amazônica e do Cerrado.

“Atividades ilegais, como a grilagem de terras, são muito relevantes no contexto. Um estudo recente mostrou que metade do desmatamento da ALB nas últimas duas décadas ocorreu em terras públicas ocupadas ilegalmente por grileiros. Disputas legais têm levado décadas e não impedem que a maioria das áreas ilegais ou do desmatamento ilegal em propriedades privadas participe tanto do mercado de terras quanto do processo de produção”, acrescenta Haddad.

O estudo em pauta demonstra que a demanda econômica originada no centro-sul mais desenvolvido do Brasil impõe uma pressão ainda maior sobre o desmatamento na Amazônia do que as exportações internacionais. Esse conhecimento é muito relevante para orientar políticas públicas e ações da sociedade civil voltadas para preservação ou regeneração. E, como as mudanças no uso da terra, por meio da pecuária e da agricultura, continuam sendo as principais fontes de emissões de dióxido de carbono (CO2) no Brasil, o controle do desmatamento e da degradação torna-se imperativo para que o país possa cumprir suas metas de redução de emissões de gases de efeito estufa.

Além de Haddad, participaram do estudo Inácio Fernandes de Araújo Junior, Rafael Feltran Barbieri, Fernando Salgueiro Perobelli, Ademir Rocha, Karina Simone Sass e Carlos Afonso Nobre.

O grupo recebeu apoio da FAPESP por meio de dois projetos (14/50848-9 e 21/12397-9).

O artigo Economic drivers of deforestation in the Brazilian Legal Amazon pode ser acessado em: www.nature.com/articles/s41893-024-01387-7.


Fonte: Agência Fapesp

Idec lança guia contra mentiras verdes propagadas por empresas

Manual lançado no Dia da Mentira explica os tipos de greenwashing, leis nacionais e informações sobre como o assunto é tratado no mundo, além de indicar os caminhos para denunciar abusos

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O Instituto de Defesa de Consumidores (Idec) lançou nesta segunda-feira (1º de abril), Dia da Mentira, o e-book “É Mentira Verde! Guia de Enfrentamento ao Greenwashing para Pessoas Consumidoras”. O documento é um manual com linguagem simples e direta que explica os principais pontos sobre o greenwashing no Brasil e no mundo.

Dentro do guia, consumidores vão encontrar o conceito de Mentira Verde e os tipos principais encontrados nas prateleiras de supermercados, propagandas e demais formas de marketing. Além disso, o manual também traz informações sobre leis, normas e dicas sobre como questionar, reclamar e até processar empresas que praticam o greenwashing.

O documento é inédito e pioneiro no Brasil e traz várias referências nacionais e internacionais de enfrentamento a esse fenômeno cada vez mais comum na publicidade brasileira e mundial. “O guia foi feito para trazer aos consumidores tim-tim por tim-tim sobre a prática de mentira verde e como enfrentá-la, de forma didática e acessível. Para além de oferecer ferramentas para que as pessoas identifiquem e se defendam em situações em que se tornam vítimas de greenwashing. O guia pretende ser um verdadeiro chamado de ação sobre o tema, explica a especialista do Programa de Consumo Sustentável do Idec, Julia Catão Dias.

O objetivo do lançamento do guia é trazer as pessoas ao ativismo contra a mentira verde. “Este é um tema relativamente novo e que vem ganhando relevância na medida em que as empresas perceberam que as pessoas querem fazer a sua parte no enfrentamento às crises socioambientais e climáticas, consumindo produtos mais sustentáveis. O nosso desafio agora é mostrar para a população que essas boas intenções estão cobertas de maquiagem verde e que precisamos do engajamento para denunciar tais práticas e cobrar as empresas por mudanças reais. É esse o nosso objetivo com a divulgação do guia!”, conclui a especialista.

Para acessar o “É Mentira Verde! Guia de Enfrentamento ao Greenwashing para Pessoas Consumidoras”, é só clicar neste link.

Efeito do desmatamento do consumo do Reino Unido é insustentável, dizem parlamentares

Comité considera que os consumidores britânicos contribuem de forma particularmente elevada para a destruição das florestas mundiais

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Uma vista aérea de um incêndio florestal desencadeado para limpar terras para o plantio de soja na floresta amazônica no Brasil. Fotografia: André Dib/WWF/PA

Por Helena Horton, repórter de Meio Ambiente, para o “The Guardian” 

O consumo do Reino Unido está tendo um impacto “insustentável” no mundo e contribuindo de forma particularmente elevada para o desmatamento, concluiu um relatório dos deputados.

Produtos como soja, cacau, óleo de palma, carne bovina e couro podem ser produtos de desmatamento, e o comitê de auditoria ambiental descobriu que a pegada de desmatamento do Reino Unido por tonelada de produto consumido é maior do que a de outros países, incluindo a China, chamando-a de “insustentável”. ”. Uma pegada de desmatamento é semelhante a uma pegada de carbono. Significa quanto ocorre desmatamento por tonelada de produto consumido. Os cientistas calcularam as pegadas de desflorestação de vários países, analisando os padrões de comércio de bens que estão ligados a elevados níveis de destruição florestal.

O governo anunciou recentemente que os produtos acima mencionados, produzidos por desflorestação ilegal, seriam banidos da cadeia de abastecimento. Mas isto só se aplica a uma pequena parte do problema, porque grande parte da desflorestação é legal nos países onde ocorre.

O relatório, divulgado na quinta-feira, cita o Client Earth dizendo que a proibição cria “incentivos perversos” para os países exportadores removerem leis que protegem as florestas, de modo que o desmatamento se torne legal e, como resultado, a importação de produtos associados para o Reino Unido não seja proibida.

A legislação, anunciada em dezembro, ainda não foi aprovada no parlamento. A proibição do Reino Unido foi criticada por não incluir produtos populares como o café.

Os deputados do comité de auditoria ambiental apelam no relatório aos ministros para que desenvolvam uma meta para reduzir o impacto do Reino Unido na desflorestação global, bem como um Indicador de Pegada Global para demonstrar esse impacto ao público. O relatório destaca que as florestas albergam 80% da biodiversidade terrestre mundial, apoiam a subsistência de 1,6 mil milhões de pessoas e fornecem serviços ecossistémicos vitais para apoiar as economias locais e globais.

O desmatamento contribui com 11% das emissões globais de carbono. Um estudo realizado pela RSPB e pela WWF concluiu que as importações do Reino Unido de apenas sete produtos de risco florestal – soja, cacau, óleo de palma, carne bovina e couro, papel, borracha e madeira – representaram uma pegada terrestre de 88% do tamanho do Reino Unido. cada ano. No mesmo estudo, a investigação mostrou que 40% da pegada terrestre do Reino Unido no exterior estava em países com elevado risco de desflorestação, com mecanismos de governação fracos e padrões laborais deficientes.

O relatório também pede ao governo que adote legislação para garantir que todos os produtos que representam um risco florestal adquiridos por organismos públicos sejam certificados como sustentáveis ​​e não conduzam à desflorestação em áreas sensíveis. Isto garantiria que o próprio governo do Reino Unido não comprasse bens que estão ligados à desflorestação insustentável e serviria de exemplo para outras indústrias. Solicitou que os regulamentos relativos à madeira do Reino Unido garantissem que toda a madeira importada fosse extraída de forma sustentável, em vez de apenas impedir a entrada no país de madeira extraída ilegalmente.

Os deputados expressaram alarme face aos riscos enfrentados pelos povos indígenas que protegem muitas florestas em risco em todo o mundo. As suas vozes são frequentemente ignoradas e eles são privados de direitos das suas terras, sendo frequentemente expulsos dos seus antigos territórios. O comitê ouviu da Global Witness que uma pessoa é morta a cada dois dias defendendo a terra e o meio ambiente. O relatório afirma: “Os povos indígenas são protetores das florestas do mundo e podem possuir conhecimentos detalhados sobre a biodiversidade e as tendências dos ecossistemas. É, portanto, fundamental que lhes seja facilitada a participação plena nas negociações para abordar a actividade de desflorestação.”

O presidente do comité, Philip Dunne MP, disse: “O consumo do Reino Unido está tendo um impacto insustentável no planeta ao ritmo atual. Os mercados do Reino Unido não devem ser inundados com produtos que ameaçam as florestas do mundo, as pessoas cuja subsistência depende dela e os preciosos ecossistemas que as chamam de lar. No entanto, apesar do recente compromisso antes e durante a Cop28 de investir mais em medidas contra o desmatamento e no Fundo Amazônia para ajudar a travar a velocidade do desmatamento global, o Reino Unido precisa de tomar medidas tangíveis para mudar o rumo a nível interno.

“A ambição do governo e o compromisso declarado na Cop26 de travar a desflorestação até 2030 foram muito bem-vindos, mas não estão no caminho certo agora. A sua legislação relativa a um regime que exige que certos produtos sejam certificados como “sustentáveis” antes de poderem ser vendidos nos mercados do Reino Unido foi bem-vinda, mas a legislação de implementação ainda não foi apresentada. Há pouco sentido de urgência em conseguir um controlo rápido do problema da desflorestação, o que precisa de corresponder à retórica.

“Países de todo o mundo contribuem para o desmatamento e, claro, a comunidade internacional precisa de fazer muito mais para combater a desflorestação. No entanto, em alguns aspectos, a intensidade do consumo de produtos de risco florestal no Reino Unido é superior à da China . Isto deveria servir como um alerta para o governo. Para demonstrar uma liderança global genuína nesta área crítica, o Reino Unido deve demonstrar o progresso da política interna e incorporar proteções ambientais e da biodiversidade em futuros acordos comerciais.”

Um porta-voz do governo disse: “O Reino Unido está liderando o caminho globalmente com uma nova legislação para combater o desmatamento ilegal para garantir a eliminação das cadeias de abastecimento do Reino Unido de produtos que contribuem para a destruição desses habitats vitais.

“Esta legislação já foi introduzida através da Lei Ambiental e é apenas uma das muitas medidas para deter e reverter a perda global de florestas.

“Também estamos a investir em programas internacionais significativos para restaurar florestas, que evitaram mais de 410.000 hectares de desmatamento até esta data, juntamente com o apoio a novos fluxos de financiamento verde.”


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Carne representa 86% da pegada de carbono na dieta dos brasileiros, mostra pesquisa

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De 2008 a 2017, a presença da carne aumentou 12% no prato dos brasileiros de todas as faixas de renda. Por isso, o consumo deste alimento contribui com 86% da pegada de carbono da dieta, um indicador de emissão de carbono na atmosfera. Os dados são da análise de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) publicada hoje (31) no periódico científico “Environment, Development and Sustainability”. 

O estudo foi realizado a partir da análise da Pesquisa de Orçamento Familiar, nos anos 2008 e 2017, que divulgou informações sobre consumo individual e também do  preço dos alimentos. “Juntar informações sobre consumo e preço dos alimentos não é muito comum na literatura científica. Essa é uma inovação do artigo”, explica Aline Martins de Carvalho, docente da Faculdade de Saúde Pública da USP.

Nele são especificados as características do consumo de acordo com cada tipo de carne. Entre todos os grupos, o consumo de peixe reduziu 23%; de porco aumentou 78%; frango, 36%; e a carne bovina não apresentou mudanças expressivas no consumo no período analisado, apesar de ser a carne mais consumida pelo brasileiro.

A partir de um recorte de renda, os pesquisadores constataram que as famílias mais pobres, com menos de meio salário mínimo por pessoa, não aumentaram o consumo total de carne no período analisado. Este grupo reduziu o consumo de peixe, mas as refeições com frango e porco aumentaram. Dessa forma, seu impacto ambiental foi menor que os demais grupos. Entretanto, isso pode ter se dado pelo preço, acesso e aspectos sociais envolvidos no consumo de carne.

De acordo com Carvalho, o consumo da carne em altas quantidades impacta o meio-ambiente e a saúde das pessoas, aumentando o risco  de quadros de câncer de intestino, hipertensão, diabetes e obesidade. Dessa forma, reduzir o seu consumo é uma saída importante, mas não é a única para melhorar a saúde das pessoas e do planeta. “Também é preciso verificar relações de preço, acesso, cultura, consumo e sustentabilidade nos diferentes grupos econômicos”, recomenda a pesquisadora.

Além disso, a nutricionista reforça a importância de discutir os impactos do consumo de carne com a população por meio das políticas públicas. “É necessária também uma abordagem inter e transdisciplinar para investigar as variações do consumo de carne no Brasil, com foco nos valores e na intencionalidade dos sujeitos”, conclui a autora do artigo. 


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Este texto foi originalmente produzido pela Agência Bori [Aqui!].

Mudanças climáticas: o papel pouco discutido dos ricos na catástrofe em curso

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Acabo de ter acesso a um livro organizado pela ativista sueca Greta Thunberg sob o título de “The Climate Book” e pode se dizer que o mesmo traz um acervo impressionante de conhecimento sobre as evidências científicas sobre as causas e consequências das mudanças climáticas. Um mérito da obra é que a mesma não se restringe às complicadas análises sobre a natureza físico-química das mudanças que estão ocorrendo na atmosfera da Terra e que, consequentemente, têm alterado o comportamento do tempo atmosférico e do clima.

Um mérito é fazer a análise da distribuição desigual das responsabilidades pelo caos climático que objetivamente castiga mais os países mais pobres e os mais pobres dentro deles.

Um gráfico que me chamou a atenção em uma primeira leitura de alguns dos capítulos do “Climate Book” está colocado abaixo, e mostra o impacto dos diferentes níveis de renda sobre as emissões de CO2. O que fica evidente é que enquanto os 10% mais ricos da população mundial respondem por 49% das emissões de CO2, os 10% mais pobres respondem por apenas 7%!

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Essa distorção na capacidade de emissão de um dos principais causadores do aquecimento da atmosfera da Terra reflete ainda as graves desigualdades que existe na economia global, pois a grande parte desses 10% mais ricos está localizada nos países capitalistas desenvolvidos.

Entretanto, quando as cúpulas climáticas são reunidas em resorts e outros locais luxuosos, toda a discussão é encaminhada para um caminho onde todos têm que “arcar com os sacríficios” do ajuste climático, o que apenas serve para reforçar o padrão de injustiça ambiental que existe sob o Capitalismo.

Por essas e outras é que só haverá algum tipo de solução positiva se o debate climático for tirado das mãos dos governos e corporações multinacionais que são quem causam o problema para começo de conversa. Do contrário, o que estamos vendo neste momento em partes do Brasil é apenas uma fase inicial do processo catastrófico em que estamos metidos.

Lançamento da Editora Blucher explica a falta de ação frente às mudanças climáticas

“A psicologia das mudanças climáticas” mostra o contraste entre evidências crescentes do caos climático e a preocupação decrescente por parte da população

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A ciência vê as mudanças climáticas como caóticas para a humanidade. Então por que há pessoas pouco preocupadas com isso, apesar de o assunto estar na pauta do dia com a COP26? O livro A psicologia das mudanças climáticas , recentemente publicado pela Editora Blucher, reúne as principais conclusões da Psicologia em resposta a esta questão.

Originalmente publicada em inglês (Routledge, 2018), a obra faz parte da coleção A psicologia das coisas, que apresenta ao leitor conhecimentos cientificamente consolidados sobre temas diversos em linguagem clara e acessível.

Em A psicologia das mudanças climáticas, o professor Geoffrey Beattie e a pesquisadora Laura McGuire evidenciam uma contradição eminente: com catástrofes naturais aumentando em frequência e intensidade, cada vez mais pessoas sentem na pele o impacto do caos climático. Ainda assim, poucos se engajam para evitar que a situação se agrave.

Aos olhos da ciência, as mudanças climáticas são alvo de consenso ímpar, assim como o principal contribuinte a seu agravamento: o ser humano. O uso da energia e da terra, o crescimento populacional e os padrões de consumo cotidianos são responsáveis por emissões crescentes de gás carbônico, um dos principais gases responsáveis pelo efeito estufa.

Ações simples, como comer menos carne e reciclar, teriam grande impacto se adotadas. Além disso, a conscientização e a pressão da sociedade sobre governos são importantes para a adoção de medidas e tecnologias que ajudem a diminuir as emissões de gases de efeito estufa. Mas a Psicologia evidencia que a falta de ação envolve crenças culturais, políticas e religiosas fortemente arraigadas, associadas a uma série de vieses presentes em nossas formas de agir no cotidiano.

Questão de viés
A Psicologia distingue dois sistemas cognitivos, distintos e complementares. Um é racional, lógico. O outro, irracional, não costuma ponderar sobre as coisas. Automaticamente, associa ideias diversas, resultando em impressões e sentimentos com grande influência sobre nosso julgamento.

Os autores destacam que muitas campanhas de conscientização falham por depositar sua confiança na racionalidade do ser humano. O problema é que nosso sistema lógico costuma defender as emoções e impressões do sistema irracional. Sem examiná-las, busca argumentos e informações coerentes com as crenças dele originadas, adotando o chamado viés de confirmação.

Há vieses diversos que acompanham este processo. Os vieses espacial e temporal, por exemplo, dizem respeito à crença de que as chances de algo ruim acontecer com alguém em outro lugar ou época seriam maiores do que de acontecer aqui e agora, conosco.

Outro exemplo é o viés de otimismo, que diz respeito às diferentes formas de processar o mundo e são inconscientemente adotadas pelos otimistas. Respostas emocionais muitas vezes nos guiam a crenças errôneas sobre benefícios e riscos de atitudes diversas, com tendência a subestimar o perigo e não tomar atitudes que poderiam preveni-lo.

Então como promover mudanças? Geoffrey Beattie e Laura McGuire trazem a indústria do cigarro à conversa para entendermos as poderosas lições de suas propagandas. A chave pode estar em considerar os lados racional e emocional da mensagem, despertando a emoção certa para que a necessidade de preservar o planeta seja vista como oportunidade, e não sacrifício.

Sobre os autores – Geoffrey Beattie é professor de Psicologia na Universidade Edge Hill. Autor de mais de vinte livros, foi eleito, em 2018, fellow da Royal Society of Arts por sua contribuição à pesquisa sobre mudança social. É supervisor do mestrado no Programa de Liderança em Sustentabilidade na Universidade de Cambridge e professor visitante na Escola Bren de Ciência e Gestão Ambiental na Universidade da Califórnia.

Laura McGuire é assistente de pesquisa em pós-doutorado na Universidade Edge Hill. Ela explora as possíveis barreiras psicológicas que impedem que as pessoas tenham uma vida mais sustentável. Foi assistente de pesquisa na Universidade de Manchester de 2007 a 2011 e trabalhou como assistente de pesquisa no Instituto de Consumo Sustentável na Universidade de Manchester de 2011 a 2012.

Ficha técnica:
Título: A psicologia das mudanças climáticas
Autores: Geoffrey Beattie e Laura McGuire
Número de páginas: 128
Formato: 14 x 21 cm
Preço: R﹩ 35,00
ISBN: 9786555062267

Consumo, logo existo. Mas qual é a surpresa, se esse é o maior fetiche capitalista?

mallClientes fazem fila para entrar da Gucci no shopping The Gallery , depois que um shopping foi aberto durante o surto  de COVID -19, em Houston, EUA, 1 de maio de 2020. / Reuters

As cenas de multidões acorrendo os shoppings centers que reabriram ontem em São Paulo são chocantes, ao menos para aqueles que entendem a gravidade da pandemia da COVID-19 que ronda todo o Brasil neste momento. Uma reação de muitos que estão podendo ou desejando se manter socialmente isolados enquanto os pobres acorrem os templos do consumismo às vésperas  e no do “Dia dos Namorados” é meio que jogar a toalha para o Brasil e os brasileiros, como se fossemos uma causa perdida, restando apenas o caminho do aeroporto para aqueles que puderem.

shoppingShopping Tatuapé teve fila com mais de 200 pessoas à espera da reabertura nesta quinta-feira, 11 de junho.

Mas alto lá! As cenas de shopping centers e cafés lotados foram comuns em países como França e Espanha, onde a pandemia da COVID-19 matou proporcionalmente muito mais do que deverá no Brasil, apesar dos gigantescos números brasileiros que hoje já somam mais de 40.000 mortos e quase 1 milhão de infectados (com subnotificação e tudo). Isto sem falar dos EUA, onde os shopping centers foram reabertos antes do Brasil.

E não nos esqueçamos que nos anos em que fomos governados pelo ex-presidente Lula, o acesso ao consumo para amplas camadas da população funcionou como uma espécie de pedra filosofal do Neodesenvolvimentismo.  Agora que os pobres sentiram o gostinho do consumo e das comodidades dos habitantes assépticos que os shoppings centers (onde o tempo é congelado pela falta proposital de relógios e a violência social é mantida do lado de fora), eu não me sinto em condição de julgá-los.

A questão mais profunda que aparece desde o centro até a periferia do Capitalismo é que o consumo, seja lá do que for, é o principal fetiche pela qual as sociedades são mantidas letárgicas, enquanto o planeta nos emite sinais de que esse modo de vida é insustentável. No Volume 1 do ” O Capital”, Karl Marx chamou esse processo de encantamento com o consumo de o “fetichismo da mercadoria“.

Por outro lado, a pandemia da COVID-19 é uma prova cabal de que o avanço desenfreado do consumo está criando as condições necessárias para o aparecimento de uma sucessão de vírus que são mortais para seres humanos e para os animais que eles colocaram no topo da sua cadeia alimentar, como os porcos e bois.

Como se libertar do fetiche do consumo é uma das questões mais transcendentais que a espécie humana enfrenta em mais de 2 milhões de anos de evolução enquanto espécie. As indicações vindas da Europa é que um modelo de decrescimento está em gestão, e isto afetará forçosamente a intensidade e o tipo de consumo a que determinadas sociedades vão se adequar. Se isso será suficiente para impedir a repetição de pandemias como a COVID-19 é uma questão que fica aberta.

Mas voltando ao Brasil, o mais resultado mais óbvio desse retorno ao consumo intenso em um momento em que a pandemia continua se alastrando como fogo em pasto seco será o aumento inevitável de infectados e mortos. E isso ficará claro daqui a duas semanas quando quem se infectar nessa corrida aos shoppings tiver completado o ciclo mortal da COVID-19.

E nos túmulos que tiverem lápide: morri por quiz consumir, sem medo do coronavírus. Lamentavelmente, para muitos restará apenas as covas coletivas.

A dualidade da Blackfriday: consumo inútil para uns, vida degradada para outros

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A última 6a. feira foi marcada em quase todo o mundo pela corrida de milhões de seres humanos para lojas onde supostamente comprariam a preços supostamente menores uma série de bens para os quais não existe uma necessidade objetiva a não ser a de consumir.  Eu mesmo fui num centro de compras em Lisboa com a esperança de que o horário me pouparia das longas filas e de pessoas sequiosas por comprar todo tipo de quinquilharia. 

Ledo engano! As filas eram gigantescas e sai de lá com a impressão de que se não demonstrarmos melhor os efeitos dessa opção pelo consumo desenfreado, nossa espécie não terá outro caminho a não ser a extinção. E nesse processo ainda levaremos tantas outras que foram levadas a essa via pelo nosso modo consumista de viver.

Quem conseguiu ler este post até este ponto pode estar achando que estou exagerando e com a tentação de parar a leitura imediatamente.  Pois bem, eu reconheço que essa é uma conversa difícil de engolir e, por isso, substituo o texto pela imagem, com a expectativa de deixar meu ponto de vista mais claro.

Erro
Este vídeo não existe

 

O fato é que esse consumo perdulário tem um preço alto para boa parte da humanidade que acaba sendo obrigada a produzir coisas que nunca poderá consumir ou, sequer, terá a necessidade de fazer isso. 

Vivemos definitivamente uma era das necessidades criadas artificialmente para que uma parte extremamente minoritária da Humanidade viva em condições nababescas para que a imensa maioria viva vidas em completa degradação.

Resta saber quantas “Black Fridays” iremos sobreviver nesse ritmo de robots adoradores do consumo que nos leva a uma vida desigual e degradada, seja material e/ou socialmente.

A ideologia neoliberal e a transformação do cidadão em consumidor

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Os estudos acerca dos impactos da ideologia Neoliberal já trouxeram inúmeros “insights” sobre o que acontece com os seres humanos que se deixam absorver pela visão de mundo que a mesma oferece [1 e 2]. A coisa vai da solidão profunda, passa pelo consumismo desenfreado e acrítico, e desemboca na completa insensibilidade frente aos semelhantes a partir de uma visão completamente individualista de realização pessoal, já que tudo deve ser resolvido a partir da capacidade de competir e, sim, vencer [3].

É interessante notar que no bojo da aplicação das políticas neoliberais houve um crescimento exponencial das taxas de desemprego e a precarização do acesso aos elementos de mitigação das enfermidades sociais e clínicas desenvolvidas a partir da criação de uma visão de mundo que por um lado infatiliza e, por outro, objetifica todas as relações pessoais e inter-pessoais.

O problema é que vejo grassando na atual greve dos professores da Universidade Estadual do Norte Fluminense uma síntese de todas essas características neoliberais. É que de um lado os professores em greve são pintados como demônios insensíveis que não se preocupam com os impactos na formação dos alunos transformados em consumidores de conhecimento. Entretanto, em contrapartida, não há qualquer menção de se cobrar do (des) governo Pezão que pare de asfixiar financeiramente a instituição, fato esse que não apenas está no bojo da greve, como também impedirá que o estudante/consumidor=cliente possa alcançar uma formação minimamente qualificada para que possa assim pleitear uma colocação num mercado que cada vez cobra mais excelência para os poucos escolhidos para terem empregos. E, pior, com a aceitação tácita de que os fornecedores do conhecimento (i.e., professores) devam fazer isso, em que pese a falta de salários e condições de trabalho. A eles importa apenas o pleno exercício da sua condição de clientes preferenciais.

E aí parece residir uma das grandes dificuldades para se enfrentar as deformações psicossociais originadas pela hegemônia da ideologia neoliberal. É que o cidadão transformado em consumidor se torna plenamente apático quando se trata de enfrentar o aparato estatal que age para restringir o número de aquinhoados com as possibilidades de acessar os arquétipos que representam o sucesso no mundo neoliberal.

Certamente desconstruir a ideologia neoliberal não é uma tarefa simples, já que ela hoje se apresenta como hegemônica. Mas como Karl Marx já elaborou de forma seminal na “Ideologia Alemã”, a saída do labirinto neoliberal se dará a partir do oferecimento de práticas materiais que apontem no sentido da superação de seu modelo de mundo. E nas atuais circunstâncias da Uenf, por exemplo, aqueles que falam na superação das ideologias como método de volta a uma normalidade intangível sabem perfeitamente que estão exercendo práticas para evitar a fuga do labirinto em que se colocaram e querem atrair mais companhias para, provavelmente, diminuir a solidão em que se meteram.


[1] https://link.springer.com/article/10.1057/pcs.2014.5

[2] http://naspa.tandfonline.com/doi/pdf/10.2202/1940-1639.1620?needAccess=true

[3] https://www.researchgate.net/profile/Daniel_Butler5/publication/305402204_Falling_Through_the_Cracks_Precarity_Precocity_and_Other_Neoliberal_Pressures/links/578dc25008ae5c86c9a65d3a.pdf