Mudanças climáticas: o papel pouco discutido dos ricos na catástrofe em curso

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Acabo de ter acesso a um livro organizado pela ativista sueca Greta Thunberg sob o título de “The Climate Book” e pode se dizer que o mesmo traz um acervo impressionante de conhecimento sobre as evidências científicas sobre as causas e consequências das mudanças climáticas. Um mérito da obra é que a mesma não se restringe às complicadas análises sobre a natureza físico-química das mudanças que estão ocorrendo na atmosfera da Terra e que, consequentemente, têm alterado o comportamento do tempo atmosférico e do clima.

Um mérito é fazer a análise da distribuição desigual das responsabilidades pelo caos climático que objetivamente castiga mais os países mais pobres e os mais pobres dentro deles.

Um gráfico que me chamou a atenção em uma primeira leitura de alguns dos capítulos do “Climate Book” está colocado abaixo, e mostra o impacto dos diferentes níveis de renda sobre as emissões de CO2. O que fica evidente é que enquanto os 10% mais ricos da população mundial respondem por 49% das emissões de CO2, os 10% mais pobres respondem por apenas 7%!

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Essa distorção na capacidade de emissão de um dos principais causadores do aquecimento da atmosfera da Terra reflete ainda as graves desigualdades que existe na economia global, pois a grande parte desses 10% mais ricos está localizada nos países capitalistas desenvolvidos.

Entretanto, quando as cúpulas climáticas são reunidas em resorts e outros locais luxuosos, toda a discussão é encaminhada para um caminho onde todos têm que “arcar com os sacríficios” do ajuste climático, o que apenas serve para reforçar o padrão de injustiça ambiental que existe sob o Capitalismo.

Por essas e outras é que só haverá algum tipo de solução positiva se o debate climático for tirado das mãos dos governos e corporações multinacionais que são quem causam o problema para começo de conversa. Do contrário, o que estamos vendo neste momento em partes do Brasil é apenas uma fase inicial do processo catastrófico em que estamos metidos.

Lançamento da Editora Blucher explica a falta de ação frente às mudanças climáticas

“A psicologia das mudanças climáticas” mostra o contraste entre evidências crescentes do caos climático e a preocupação decrescente por parte da população

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A ciência vê as mudanças climáticas como caóticas para a humanidade. Então por que há pessoas pouco preocupadas com isso, apesar de o assunto estar na pauta do dia com a COP26? O livro A psicologia das mudanças climáticas , recentemente publicado pela Editora Blucher, reúne as principais conclusões da Psicologia em resposta a esta questão.

Originalmente publicada em inglês (Routledge, 2018), a obra faz parte da coleção A psicologia das coisas, que apresenta ao leitor conhecimentos cientificamente consolidados sobre temas diversos em linguagem clara e acessível.

Em A psicologia das mudanças climáticas, o professor Geoffrey Beattie e a pesquisadora Laura McGuire evidenciam uma contradição eminente: com catástrofes naturais aumentando em frequência e intensidade, cada vez mais pessoas sentem na pele o impacto do caos climático. Ainda assim, poucos se engajam para evitar que a situação se agrave.

Aos olhos da ciência, as mudanças climáticas são alvo de consenso ímpar, assim como o principal contribuinte a seu agravamento: o ser humano. O uso da energia e da terra, o crescimento populacional e os padrões de consumo cotidianos são responsáveis por emissões crescentes de gás carbônico, um dos principais gases responsáveis pelo efeito estufa.

Ações simples, como comer menos carne e reciclar, teriam grande impacto se adotadas. Além disso, a conscientização e a pressão da sociedade sobre governos são importantes para a adoção de medidas e tecnologias que ajudem a diminuir as emissões de gases de efeito estufa. Mas a Psicologia evidencia que a falta de ação envolve crenças culturais, políticas e religiosas fortemente arraigadas, associadas a uma série de vieses presentes em nossas formas de agir no cotidiano.

Questão de viés
A Psicologia distingue dois sistemas cognitivos, distintos e complementares. Um é racional, lógico. O outro, irracional, não costuma ponderar sobre as coisas. Automaticamente, associa ideias diversas, resultando em impressões e sentimentos com grande influência sobre nosso julgamento.

Os autores destacam que muitas campanhas de conscientização falham por depositar sua confiança na racionalidade do ser humano. O problema é que nosso sistema lógico costuma defender as emoções e impressões do sistema irracional. Sem examiná-las, busca argumentos e informações coerentes com as crenças dele originadas, adotando o chamado viés de confirmação.

Há vieses diversos que acompanham este processo. Os vieses espacial e temporal, por exemplo, dizem respeito à crença de que as chances de algo ruim acontecer com alguém em outro lugar ou época seriam maiores do que de acontecer aqui e agora, conosco.

Outro exemplo é o viés de otimismo, que diz respeito às diferentes formas de processar o mundo e são inconscientemente adotadas pelos otimistas. Respostas emocionais muitas vezes nos guiam a crenças errôneas sobre benefícios e riscos de atitudes diversas, com tendência a subestimar o perigo e não tomar atitudes que poderiam preveni-lo.

Então como promover mudanças? Geoffrey Beattie e Laura McGuire trazem a indústria do cigarro à conversa para entendermos as poderosas lições de suas propagandas. A chave pode estar em considerar os lados racional e emocional da mensagem, despertando a emoção certa para que a necessidade de preservar o planeta seja vista como oportunidade, e não sacrifício.

Sobre os autores – Geoffrey Beattie é professor de Psicologia na Universidade Edge Hill. Autor de mais de vinte livros, foi eleito, em 2018, fellow da Royal Society of Arts por sua contribuição à pesquisa sobre mudança social. É supervisor do mestrado no Programa de Liderança em Sustentabilidade na Universidade de Cambridge e professor visitante na Escola Bren de Ciência e Gestão Ambiental na Universidade da Califórnia.

Laura McGuire é assistente de pesquisa em pós-doutorado na Universidade Edge Hill. Ela explora as possíveis barreiras psicológicas que impedem que as pessoas tenham uma vida mais sustentável. Foi assistente de pesquisa na Universidade de Manchester de 2007 a 2011 e trabalhou como assistente de pesquisa no Instituto de Consumo Sustentável na Universidade de Manchester de 2011 a 2012.

Ficha técnica:
Título: A psicologia das mudanças climáticas
Autores: Geoffrey Beattie e Laura McGuire
Número de páginas: 128
Formato: 14 x 21 cm
Preço: R﹩ 35,00
ISBN: 9786555062267

Consumo, logo existo. Mas qual é a surpresa, se esse é o maior fetiche capitalista?

mallClientes fazem fila para entrar da Gucci no shopping The Gallery , depois que um shopping foi aberto durante o surto  de COVID -19, em Houston, EUA, 1 de maio de 2020. / Reuters

As cenas de multidões acorrendo os shoppings centers que reabriram ontem em São Paulo são chocantes, ao menos para aqueles que entendem a gravidade da pandemia da COVID-19 que ronda todo o Brasil neste momento. Uma reação de muitos que estão podendo ou desejando se manter socialmente isolados enquanto os pobres acorrem os templos do consumismo às vésperas  e no do “Dia dos Namorados” é meio que jogar a toalha para o Brasil e os brasileiros, como se fossemos uma causa perdida, restando apenas o caminho do aeroporto para aqueles que puderem.

shoppingShopping Tatuapé teve fila com mais de 200 pessoas à espera da reabertura nesta quinta-feira, 11 de junho.

Mas alto lá! As cenas de shopping centers e cafés lotados foram comuns em países como França e Espanha, onde a pandemia da COVID-19 matou proporcionalmente muito mais do que deverá no Brasil, apesar dos gigantescos números brasileiros que hoje já somam mais de 40.000 mortos e quase 1 milhão de infectados (com subnotificação e tudo). Isto sem falar dos EUA, onde os shopping centers foram reabertos antes do Brasil.

E não nos esqueçamos que nos anos em que fomos governados pelo ex-presidente Lula, o acesso ao consumo para amplas camadas da população funcionou como uma espécie de pedra filosofal do Neodesenvolvimentismo.  Agora que os pobres sentiram o gostinho do consumo e das comodidades dos habitantes assépticos que os shoppings centers (onde o tempo é congelado pela falta proposital de relógios e a violência social é mantida do lado de fora), eu não me sinto em condição de julgá-los.

A questão mais profunda que aparece desde o centro até a periferia do Capitalismo é que o consumo, seja lá do que for, é o principal fetiche pela qual as sociedades são mantidas letárgicas, enquanto o planeta nos emite sinais de que esse modo de vida é insustentável. No Volume 1 do ” O Capital”, Karl Marx chamou esse processo de encantamento com o consumo de o “fetichismo da mercadoria“.

Por outro lado, a pandemia da COVID-19 é uma prova cabal de que o avanço desenfreado do consumo está criando as condições necessárias para o aparecimento de uma sucessão de vírus que são mortais para seres humanos e para os animais que eles colocaram no topo da sua cadeia alimentar, como os porcos e bois.

Como se libertar do fetiche do consumo é uma das questões mais transcendentais que a espécie humana enfrenta em mais de 2 milhões de anos de evolução enquanto espécie. As indicações vindas da Europa é que um modelo de decrescimento está em gestão, e isto afetará forçosamente a intensidade e o tipo de consumo a que determinadas sociedades vão se adequar. Se isso será suficiente para impedir a repetição de pandemias como a COVID-19 é uma questão que fica aberta.

Mas voltando ao Brasil, o mais resultado mais óbvio desse retorno ao consumo intenso em um momento em que a pandemia continua se alastrando como fogo em pasto seco será o aumento inevitável de infectados e mortos. E isso ficará claro daqui a duas semanas quando quem se infectar nessa corrida aos shoppings tiver completado o ciclo mortal da COVID-19.

E nos túmulos que tiverem lápide: morri por quiz consumir, sem medo do coronavírus. Lamentavelmente, para muitos restará apenas as covas coletivas.

A dualidade da Blackfriday: consumo inútil para uns, vida degradada para outros

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A última 6a. feira foi marcada em quase todo o mundo pela corrida de milhões de seres humanos para lojas onde supostamente comprariam a preços supostamente menores uma série de bens para os quais não existe uma necessidade objetiva a não ser a de consumir.  Eu mesmo fui num centro de compras em Lisboa com a esperança de que o horário me pouparia das longas filas e de pessoas sequiosas por comprar todo tipo de quinquilharia. 

Ledo engano! As filas eram gigantescas e sai de lá com a impressão de que se não demonstrarmos melhor os efeitos dessa opção pelo consumo desenfreado, nossa espécie não terá outro caminho a não ser a extinção. E nesse processo ainda levaremos tantas outras que foram levadas a essa via pelo nosso modo consumista de viver.

Quem conseguiu ler este post até este ponto pode estar achando que estou exagerando e com a tentação de parar a leitura imediatamente.  Pois bem, eu reconheço que essa é uma conversa difícil de engolir e, por isso, substituo o texto pela imagem, com a expectativa de deixar meu ponto de vista mais claro.

 

O fato é que esse consumo perdulário tem um preço alto para boa parte da humanidade que acaba sendo obrigada a produzir coisas que nunca poderá consumir ou, sequer, terá a necessidade de fazer isso. 

Vivemos definitivamente uma era das necessidades criadas artificialmente para que uma parte extremamente minoritária da Humanidade viva em condições nababescas para que a imensa maioria viva vidas em completa degradação.

Resta saber quantas “Black Fridays” iremos sobreviver nesse ritmo de robots adoradores do consumo que nos leva a uma vida desigual e degradada, seja material e/ou socialmente.

A ideologia neoliberal e a transformação do cidadão em consumidor

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Os estudos acerca dos impactos da ideologia Neoliberal já trouxeram inúmeros “insights” sobre o que acontece com os seres humanos que se deixam absorver pela visão de mundo que a mesma oferece [1 e 2]. A coisa vai da solidão profunda, passa pelo consumismo desenfreado e acrítico, e desemboca na completa insensibilidade frente aos semelhantes a partir de uma visão completamente individualista de realização pessoal, já que tudo deve ser resolvido a partir da capacidade de competir e, sim, vencer [3].

É interessante notar que no bojo da aplicação das políticas neoliberais houve um crescimento exponencial das taxas de desemprego e a precarização do acesso aos elementos de mitigação das enfermidades sociais e clínicas desenvolvidas a partir da criação de uma visão de mundo que por um lado infatiliza e, por outro, objetifica todas as relações pessoais e inter-pessoais.

O problema é que vejo grassando na atual greve dos professores da Universidade Estadual do Norte Fluminense uma síntese de todas essas características neoliberais. É que de um lado os professores em greve são pintados como demônios insensíveis que não se preocupam com os impactos na formação dos alunos transformados em consumidores de conhecimento. Entretanto, em contrapartida, não há qualquer menção de se cobrar do (des) governo Pezão que pare de asfixiar financeiramente a instituição, fato esse que não apenas está no bojo da greve, como também impedirá que o estudante/consumidor=cliente possa alcançar uma formação minimamente qualificada para que possa assim pleitear uma colocação num mercado que cada vez cobra mais excelência para os poucos escolhidos para terem empregos. E, pior, com a aceitação tácita de que os fornecedores do conhecimento (i.e., professores) devam fazer isso, em que pese a falta de salários e condições de trabalho. A eles importa apenas o pleno exercício da sua condição de clientes preferenciais.

E aí parece residir uma das grandes dificuldades para se enfrentar as deformações psicossociais originadas pela hegemônia da ideologia neoliberal. É que o cidadão transformado em consumidor se torna plenamente apático quando se trata de enfrentar o aparato estatal que age para restringir o número de aquinhoados com as possibilidades de acessar os arquétipos que representam o sucesso no mundo neoliberal.

Certamente desconstruir a ideologia neoliberal não é uma tarefa simples, já que ela hoje se apresenta como hegemônica. Mas como Karl Marx já elaborou de forma seminal na “Ideologia Alemã”, a saída do labirinto neoliberal se dará a partir do oferecimento de práticas materiais que apontem no sentido da superação de seu modelo de mundo. E nas atuais circunstâncias da Uenf, por exemplo, aqueles que falam na superação das ideologias como método de volta a uma normalidade intangível sabem perfeitamente que estão exercendo práticas para evitar a fuga do labirinto em que se colocaram e querem atrair mais companhias para, provavelmente, diminuir a solidão em que se meteram.


[1] https://link.springer.com/article/10.1057/pcs.2014.5

[2] http://naspa.tandfonline.com/doi/pdf/10.2202/1940-1639.1620?needAccess=true

[3] https://www.researchgate.net/profile/Daniel_Butler5/publication/305402204_Falling_Through_the_Cracks_Precarity_Precocity_and_Other_Neoliberal_Pressures/links/578dc25008ae5c86c9a65d3a.pdf

Psicanalista afirma que o fim do limite é o pano de fundo para a deslegitimação de pais e educadores

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“O fim da necessidade de perda, de proibição e de limite deslegitima todos que têm a tarefa de prescrever a necessidade da subtração do gozo para poder crescer. Isso deslegitima o pai, que então se pergunta por que deve dizer não. Deslegitima o professor, que se sente mal quando deve avaliar negativamente o trabalho de um aluno. E isso, através do processo da educação, da maneira como os pais lidam com a criança, se sentem incompetentes para poderem intervir.”

Por  Jean-Pierre Lebrun 

Uma coisa que até então pouco se via: nos primeiros dias em que os pais vão levar seu filho à escola, observa-se cada vez mais que não são as crianças que choram, como antes, mas sim os pais. Esses pequenos sinais parecem nos dizer que alguma coisa se passa. E podemos, é claro, nos perguntar do que se trata. Na realidade, também os governos estão se perguntando do que se trata e de que maneira ajudar o que eles chamam de parentalidade. 

A palavra parentalidade vem substituir outras mais habitualmente utilizadas, como paternidade ou maternidade. E, como podem perceber, no termo parentalidade não se sabe muito bem quem é o pai e quem é a mãe. Haveria uma função parental assexuada que estaria em jogo. Pode parecer um pouco banal, pode parecer insignificante.

Mas, se refletirmos um pouco, podemos nos perguntar: como se explica que uma coisa que durante séculos se transmitiu de geração a geração sem nunca precisar de estudo ou de escola para ser transmitida – ou seja, que para ser pai era preciso de vez em quando dizer não aos filhos –, como se explica que, de repente, tenhamos de inventar algo para o que parece ter se rompido?

Hoje, há cada vez mais a ideia de que esse lugar de poder, de exceção, diferente dos outros lugares – que era o de Deus, do rei, do chefe, do mestre – é um lugar que não tem mais necessidade de existir. Esse lugar não tem mais importância, não tem mais necessidade de ser. Está caduco, de certo modo. Todos os lugares dão agora impressão de se equivaler pelo simples fato de que um lugar diferente dos outros não é mais reconhecido como natural. Agora somos autônomos.

Hoje, o objeto de consumo que nos é proposto cada vez mais rapidamente quer nos dar a ilusão, nos fazer pensar que justamente não se deve mais consentir nessa perda de limite, de gozo. Pelo contrário, diz que hoje devemos aproveitar o que se apresenta. Portanto, deveríamos banir de nosso trajeto a necessidade da perda. E eis aí algo que faz virar a cabeça de todo o mundo. É algo que nos atormenta profundamente e que me parece ser a mutação do vínculo social que enfrentamos hoje com uma série de consequências.

Se há ruptura quanto à necessidade da perda, então a noção de proibição se revela também completamente caduca. Por que proibir? Para que servem as proibições? Não há mais razão de proibir. Nada de proibição. E é o que constatamos hoje. Nada de regulação necessária.

O fim da necessidade de perda, de proibição e de limite deslegitima todos que têm a tarefa de prescrever a necessidade da subtração do gozo para poder crescer. Isso deslegitima o pai, que então se pergunta por que deve dizer não. Deslegitima o professor, que se sente mal quando deve avaliar negativamente o trabalho de um aluno. E isso, através do processo da educação, da maneira como os pais lidam com a criança, se sentem incompetentes para poderem intervir. Como hoje essa diferença de lugar não é mais reconhecida no discurso social, não temos outra saída senão querer a todo momento evitar o conflito. O que nos organiza hoje é o evitamento do conflito.

Na Bélgica e na França, 60% das crianças têm televisão em seu quarto. Ter uma televisão no quarto, para cada um dos filhos, é um modo extremamente eficaz de evitar o conflito no seio da família, de dia, de noite, para saber qual programa se vai escolher. Assim, cada um pode gozar tranquilo, sozinho.

Deixamos as crianças assim, durante todo esse período dos 2 aos 15 anos. Durante 15 anos, elas são deixadas em seu gozo privado, ou seja, podendo sempre evitar ter de se confrontar com o outro para saber como, afinal, vão deixá-las seguir seu caminho. Notem que isso ocorre justamente durante a infância e a adolescência, um momento em que alguém deveria vir ajudá-las a organizar a regulação de sua pulsão mortífera, destruidora, que surge quando se deparam com o outro.

Onde seria mais necessário um trabalho para aprender a renunciar, nem que seja um pouco, a essa realização mortífera, geralmente a criança se vê hoje entregue a si mesma, abandonada. Literalmente abandonada ao seu universo pessoal. De tal modo que, quando tiver 16, 17, 18 anos, o que acontecerá por ocasião de um desgosto amoroso, um desgosto de estudante ou de profissão? Um desgosto, alerto, que os pais com certeza não poderão evitar. 

Portanto, se há uma coisa que os pais devem transmitir a seus filhos, é a como falhar.

*Jean-Pierre Lebrun , diretor da Associação Freudiana da Bélgica e um dos fundadores da Associação Lacaniana Internacional fala sobre aquela que considera a causa da mutação do vínculo social contemporâneo: o fim da necessidade de aprender a perder, a renunciar, a entrar em conflito com o outro. O fim do limite.

FONTE: http://www.fronteiras.com/artigos/geracao-rede-o-sujeito-sem-limite

Mineração é a grande vilã do consumo de água na Grande Belo Horizonte, aponta especialista

Setor é responsável, juntamente com a indústria, por um dos maiores consumos na Grande BH, mas até agora nenhuma medida foi tomada pelo governo para frear o gasto desses segmentos da economia

Por Thaís Mota – Minas Livre

Foto: Vale/Divulgação

 Em meio a uma crise hídrica sem precedentes, os mineiros estão sendo solicitados a economizar até 30% de água. Além disso, o Governo do Estado estuda a possibilidade de adotar medidas mais enérgicas de contenção do consumo, como o racionamento ou a aplicação de multas e sobretaxas aos consumidores que extrapolarem a média registrada no ano anterior.

No entanto, as medidas são veementemente criticadas pelo engenheiro civil e sanitarista e ex-secretário executivo do Consórcio Intermunicipal da Bacia Hidrográfica do rio Paraopeba (Cibapar), Mauro da Costa Val, que garante que a fatura pela falta de água não pode ser paga pela população

“Discordo de se aumentar a tarifa para reduzir o consumo. O cidadão não tem nada a ver com essa crise, inclusive o uso dele é infinitamente menor”, afirma ao se referir ao consumo total dos setores de mineração, siderurgia, indústria e agroindústria. Ainda conforme ele, em volume de demanda, o segmento de saneamento vem depois de todos os outros citados anteriormente.

Em nota a Semad (Secretaria de Estado de Meio Ambiente), responsável pelo Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam), confirmou que o volume de água do rio Paraopeba destinado ao abastecimento é menor que o destinado à indústria e mineração e à irrigação. Conforme dados do órgão, 42,85% da demanda hídrica do Paraopeba é o consumo humano enquanto 39,59% vem da indústria e mineração e 16,31% é utilizada para irrigar plantações.

Ainda conforme o engenheiro, o Estado emitiu várias outorgas a empresas mineradoras e siderúrgicas nos últimos anos para retirada de água da bacia do rio Paraopeba, um dos responsáveis pelo abastecimento na região metropolitana de Belo Horizonte e que pode entrar em colapso dentro de três meses.

“Há cerca de 30 ou 40 usuários, compostos por empresas de mineração e siderurgia, que consomem um volume muito grande de água do Paraopeba. Em somente uma delas, a retirada diária equivale ao volume de água necessário para abastecer uma cidade de 700 mil habitantes por dia. Ou seja, um usuário único consome o equivalente a um município e o cidadão comum, que gasta em média 120 litros de água por dia, é que vai ter que economizar?”.

Essas informações foram obtidas durante o período em que Costa Val permaneceu no Cibapar e constam em um estudo sobre a situação da bacia do Paraopeba, entregue ao governo do Estado na época. Ele sugere ainda que, diante da crise de falta de água pela qual passa o Estado, o Igam reúna os principais usuários, defina metas de reuso da água e também de redução da captação até que volte a chover no Estado.

“Outorga é isso. É um instrumento temporário e que é caracterizado pelo fato de o governo poder determinar mudanças em casos de escassez, sendo que nesses casos, a Política Nacional de Recursos Hídricos, define como prioritário o abastecimento público e a dessedentação animal”.

Por meio de nota, a Semad informou que nenhuma outorga foi revogada como medida para evitar o desabastecimento de água, como prevê o artigo 15 da Política Nacional de Recursos Hídricos. O órgão também não estabeleceu metas de economia para estes setores da economia e não informou o número de outorgas para uso de recursos hídricos concedidas no Estado.

FONTE: http://minaslivre.com.br/plus/modulos/noticias/ler.php?cdnoticia=3006#.VNJv5Z3F9sh

Crise hídrica: por que centrar o debate na quantidade é essencialmente inútil?

Tenho ouvido e lido diversas manifestações sobre a crise hídrica que atualmente impõe grandes sacrifícios e riscos sociais e econômicos a toda a região sudeste do Brasil. Essas manifestações se concentram sobre um discurso restrito ao problema da quantidade de água que estaria chegando aos principais reservatórios, que é apontado por “especialistas” como o nó da questão.

Pessoalmente considero isso mais um grave erro em meio a tantos outros que vem sendo cometidos nesse processo de escasseamento de água que se tornou evidente a partir de 2014. O problema é que água em quantidade até existe, ainda que haja o problema de fazê-la chegar aos lugares que mais necessitam para consumo. Além desse “pequeno” problema de natureza do sistema de distribuição de água, há outro que está sendo desprezado, o da diminuição da qualidade dos recursos hídricos.

Se analisarmos com um mínimo de cuidado o que se verá é que o avanço da contaminação dos mananciais hídricos vem ocorrendo a partir de múltiplas fontes de contaminação, algumas das quais sem ainda formas de tratamento adequado. Mas até para aquelas fontes com tratamento conhecido, muito pouco ou nada tem sido feito para mapear e controlar o processo de despejo de material sem tratamento, como no caso dos rejeitos urbano-industriais. E olha que, ao menos no caso de Campos dos Goytacazes, pagamos 50% da conta de água na forma de tratamento de esgotos, apenas para assistir (ou melhor identificar pelo olfato) que não há ainda tratamento da maior parte do esgoto que é gerado. Se formos multiplicar o exemplo de Campos para todas as cidades que enviam seu esgoto in natura para dentro da calha principal do Rio Paraíba do Sul, ai a coisa piora exponencialmente.

Além disso, persiste um discurso enganoso de que as pessoas (essas eternas vítimas e ao mesmo tempo as culpadas mais fáceis pelos problemas hídricos que existem) são responsáveis por evitar desperdício! Ora, basta olhar para os números disponibilizados para a Agência Nacional de Águas (ANA) que se alguém tem de começar a fazer a lição de casa são os grandes latifundiários ligados à agro-exportação que hoje gastam 82,8% da água consumida no Brasil. Aliás, além do alto consumo, o latifúndio é a principal fonte de contaminação por agrotóxicos e fertilizantes químicos!

Assim pedir aos usuários domésticos, que gastam em torno de 10% do total, que se esforcem para evitar o desperdício é como pedir para que paremos todos de respirar para economizar o oxigênio que resta na atmosfera. Pode até soar um chamado à responsabilidade coletiva, mas é essencialmente inútil.

Enfim, há que se olhar a atual crise hídrica para além da quantidade, e pensar na qualidade e na tomada de responsabilidades por todos os setores responsáveis pro ela. Do contrário, vamos continuar ouvindo e lendo discursos bonitos, mas de torneiras completamente secas.

Quem usa mais água? A Agência Nacional de Águas mostra!

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Apesar das críticas e da falta d’água que já causa rodízios e racionamentos em centenas de municípios, o governo pouco fala sobre o uso consciente da água e necessidade de proteger as matas ciliares – fundamentais para proteção de córregos e rios. Será porque os maiores “gastadores” de água e “destruidores de matas ciliares” são a agricultura e pecuária?

Chega a hora em que tais setores precisam ser pressionados a repensar que “modernidade” não é depender de semente transgênica e sim ter um modelo sustentável, que gere lucro sim, mas que possa se manter ao longo das décadas e permitir a vida no estado.

FONTE: Mídia Ninja