Peixes com “níveis mais altos de herbicidas no mundo” são encontrados em bacia dominada por monoculturas de soja na Argentina

sabalo-Parana-996x567Curimbatás (Prochilodus lineatus) são altamente consumidos em toda a bacia do Paraná. Crédito da imagem: Jonas Techy Potrich/Wikimedia Commons, sob licença Creative Commons (CC BY-SA 3.0)

Os peixes do Río Salado, afluente do Paraná (o maior rio sul-americano depois do Amazonas), mostrarão restos de novos inseticidas, herbicidas e fungicidas aplicados em cultivos transgênicos de soja, milho e algodão que abundam nessa bacia fluvial.

Embora os efeitos em peixes e humanos ainda não estejam completamente certos, os autores aconselham sobre a necessidade de medidas extremas de precaução em um dos cursos de água mais importantes do país, que provê alimento tanto no âmbito local como para exportação.Estudio planta que “se necessita urgentemente aumentar a distância entre os cultivos transgênicos dependentes de agrotóxicos e os ecossistemas aquáticos, assim como melhorar a abordagem dos riscos ambientais”. Rafael Lajmanovich, responsável pela pesquisa,  disse ao SciDev.Net que essa distância deveria ser de 1.000 metros como mínimo.

Os pesquisadores analisam sedimentos do rio, músculos e vísceras de 16  peixes comprados de pescadores ao longo de 100 quilômetros de alta produtividade agrícola.

No tecido muscular, há “concentrações muito altas” do inseticida cipermetrina (até 204 microgramas por quilo); do fungicida piraclostrobina (50 μg/kg); dos herbicidas glifosato (187 μg/kg), junto com seu ácido de degradação AMPA (3116 μg/kg), e glufosinato de amônia (677 μg/kg).

Antes deste trabalho, os maiores níveis de glifosato registrados em peixes eram “menores a 10 ug/k” e “não havia” informações sobre a presença de glufosinato, assegurou Lajmanovich em um correio eletrônico.

“É necessário aumentar urgentemente a distância entre os cultivos transgênicos dependentes de pesticidas e os ecossistemas aquáticos, assim como melhorar o tratamento dos riscos ambientais”.

Publicado em: “Cocteles de residuos de plaguicidas en peces Prochilodus lineatus del río Salado (América del Sur): Primer registro de altas concentraciones de herbicidas polares”.

Um estudo sobre os efeitos de herbicidas polares publicado em 2021 detectou níveis máximos de AMPA de 300 ug/k no tecido muscular e de 650 ug/k no fígado de peixes Hoplosternum littorale (mais conhecidos como cascudos) da mesma província, precisou em outro e-mail Andrea Rossi, uma das autoras. Embora não tenho sido encontradas  evidências de danos celulares ou efeitos neurotóxicos, é possível encontrar alterações nos parâmetros hematológicos dos espécimes amostrados.

A exposição aguda às quantidades encontradas nesta ocasião, sem nenhuma dúvida, poderia gerar efeitos “múltiplos”, tanto em peixes como em humanos, que incluíam genotoxicidade (capacidade de causar danos genéticos) e disrupção hormonal, associada ao aparecimento de tumores, malformações , disfunções do aparelho reprodutor, neurotoxicidade ou problemas imunológicos, explica Lajmanovich.

Entre 2019 e 2022, o mesmo investigador ―professor titular da Cátedra de Ecotoxicologia da Universidade Nacional do Litoral― fez várias advertências semelhantes sobre os efeitos combinados do glifosato com o arsénico e com os microplásticos .

Os autores reconhecem que a alta solubilidade dos agrotóxicos faz com que a determinação dos níveis de contaminantes seja “problemática”, embora essa mesma solubilidade provoca que sua toxicidade aumente em ambientes aquáticos, onde as membranas dos peixes facilitam a absorção.

Nesse sentido, o médico  Eric Speranza – que há 14 anos encontrou altos níveis de hidrocarbornetos em curimbatpas próximos da cidade de Buenos Aires – disse por telefone que está satisfeito que foi possível medir o glifosato e o glufosinato no tecido muscular do peixe.

“Está evidenciando o impacto da atividade agrícola sojeira”, avisou o investigador do Laboratório de Química Ambiental y Biogeoquímica das universidades argentinas de La Plata e Arturo Jauretche.

Em relação a uma possível vedação provincial sobre a pesca, Speranza é cautelosa, já que se trata de uma medida que “requer ter em conta fatores econômicos e sociais, como as próprias pessoas que vivem dessa atividade”.

Fontes do Servicio Nacional de Sanidad y Calidad Agroalimentaria –encarregado de controlar a segurança dos alimentos de origem animal e vegetal na Argentina – diz ao SciDev.Net que o relatório “recebeu relativa importância”, pois eles têm dúvidas sobre sua metodologia,  , por exemplo, em relação à quantidade de exemplares analisados.

A agência atualmente não mede vestígios de herbicidas em peixes; limites máximos de resíduos (LMR) são estabelecidos apenas para vegetais. Mesmo assim, eles sugerem que os valores encontrados não representam risco à saúde humana. No caso da soja para consumo, por exemplo, o LMR para glifosato é de 5.000 μg/kg.

No entanto, os autores do trabalho insistem em que “a contaminação por agrotóxicos do Rio Salado representa uma ameaça prejudicial à viabilidade da população de peixes e outros organismos aquáticos, e um grande risco para os consumidores”.

Propõe-se uma regulação clara sobre os níveis máximos toleráveis ​​para essas substâncias, permitindo uma melhor abordagem da situação.

Diversas tentativas da SciDev.Net para obter uma declaração oficial sobre medidas futuras por parte do governo de Santa Fé foram infrutíferos até o fechamento deste texto

Link para o resumo do artigo na Science of the Total Environment


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Este artigo foi produzido pela edição de América Latina e Caribe de  SciDev.Net [Aqui!].

Estudo mostra que o Rio Doce segue despejando metais pesados no oceano por causa do desastre de Mariana (MG)

metales-Rio-Doce-996x567Um dos trechos do Rio Doce afetados pelos rejeitos da barragem. Crédito da imagem: Felipe Werneck, Ibama, sob licença Creative Commons (CC BY-SA 2.0)

[RIO DE JANEIRO] As regiões costeiras ao norte e as áreas ao sul da desembocadura do Rio Doce no estado de Minas Gerais, ao sul do Brasil, devem seguir sendo monitoradas permanentemente para avaliar suas condições ambientais e biológicas por causa do desastre ambiental ocorrido no dia 5 de novembro de 2015 pelo colapso da represa de rejeitos do Fundão.

A ruptura liberou 50 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro, que deslocou centenas de famílias e afetou 41 cidades e rios, incluindo o rio Doce. A represa pertence à mineradora Samarco, controlada pelas mineradoras Vale e BHP Billiton.

Agora um novo estudo que será publicado na edição de março do  Marine Science Bulletin que mapeou as rotas dos metais quatro anos depois (novembro de 2019) de ter ocorrido o delito ambiental,  mostra que o rio continua sendo uma fonte de dispersão de metais  para o Oceano Atlântico.

Os resultados corroboram com o outro de 2019 que havia sinalizado a tendência de dispersão para o norte.

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Este texto escrito originalmente em espanhol foi publicado pela SciDev.Nert [Aqui!].

Fumo produzido no Sul do Brasil usa agrotóxicos banidos internacionalmente

Multinacionais do setor orientam fumicultores a aplicarem ao menos 11 produtos químicos com substâncias proibidas na União Europeia, que, apesar disso, é o principal comprador do tabaco nacional; agricultores relatam rotina de adoecimento e contaminação

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Por Poliana Dallabrida | Fotos: Fernando Martinho/Repórter Brasil 

Mais de 8 milhões de pessoas morrem todos os anos pela exposição à fumaça do cigarro, estima a Organização Mundial da Saúde. O que esse cálculo não inclui são os riscos à saúde para quem produz o tabaco. Substâncias que podem causar câncer, são tóxicas para a reprodução humana ou desregulam a produção hormonal do corpo estão presentes em parte dos agrotóxicos usados por fumicultores do Brasil, maior exportador mundial.

Uma investigação exclusiva da Repórter Brasil e da organização de jornalismo investigativo dinamarquesa Danwatch revela que 11 produtos usados nas lavouras brasileiras de fumo são feitos à base de substâncias – chamadas de ingredientes ativos – banidas na União Europeia. Mesmo assim, é justamente essa região o principal destino do tabaco exportado pelo Brasil. Em 2022, o bloco recebeu 40% das exportações brasileiras de tabaco. A Bélgica é o maior comprador, à frente da China e dos Estados Unidos.

Repórter Brasil teve acesso às listas de agrotóxicos prescritos pelas multinacionais Philip Morris e British American Tobacco (BAT) a seus fornecedores. Juntas, as empresas recomendam o uso de até 25 produtos químicos nas lavouras, entre eles os inseticidas Actara (com o ingrediente-ativo tiametoxam), Certero (triflumurom), Evidence 700 WG e Confidor Supra (imidacloprido), Nomolt 150 (teflubenzurom) e Talstar (bifentrina), os fungicidas Dithane NT, Ridomil Gold (mancozebe) e Rovral (iprodiona) e os herbicidas Boral 500 (sulfrentazona) e Yamato SC (piroxasulfona) – cujos ingredientes ativos são proibidos no bloco europeu por causarem danos à saúde.

“Admitir que usamos agrotóxicos cujos estudos já estão consolidados e apontam que fazem mal à saúde, é nos colocarmos como um país submisso num mercado global de commodities”, afirma o pesquisador Francco de Souza e Lima, do Núcleo de Estudos Ambientais e Saúde do Trabalhador da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT). “Para priorizar a exportação, nos sujeitamos a passar mal, a adoecer, e morrer, porque o resultado da exposição a essas substâncias é adoecimento.” 

A reportagem visitou dez propriedades fumicultoras nos três estados da região Sul do país, responsável por 95% da produção nacional, e não encontrou nenhum trabalhador usando os equipamentos de proteção (EPIs) recomendados para uma aplicação, teoricamente, segura dos produtos químicos.

fumo 3fumo 4Trabalhador aplica agrotóxico para impedir o crescimento de brotos nos pés de tabaco sem os equipamentos indicados para a atividade, como luvas, máscara e macacão

Consultadas pela reportagem, as multinacionais processadoras de tabaco informaram que estão substituindo os produtos danosos – ou recomendando essa substituição aos agricultores com os quais têm contrato de fornecimento. A Japan Tabacco International (JTI), por exemplo, diz que substituiu o uso dos pesticidas Actara, Confidor Supra e Talstar e que não recomenda o produto Yamato SC. “Cada país ou região é responsável por liberar ou proibir o uso de qualquer ingrediente ativo”, complementa.

A BAT afirmou que seus fornecedores usam apenas “agroquímicos aprovados, com a menor toxicidade possível” e que devem evitar produtos classificados como altamente perigosos (highly hazardous pesticides ou HHPs, na sigla em inglês) pela Organização Mundial da Saúde. “Quaisquer agroquímicos classificados como HHPs, usados antes de 2018, foram substituídos ou retirados da cadeia de produção da BAT”.

A Philip Morris respondeu que “vem promovendo proativamente o uso de compostos biológicos em detrimento de produtos químicos, visando reduzir o uso de defensivos”. 

Já a Alliance One recomenda o uso de produtos químicos registrados pelos órgãos governamentais competentes. A Universal Leaf não respondeu aos questionamentos enviados até o fechamento desta reportagem. O espaço segue aberto para manifestações futuras. Confira aqui a íntegra das respostas das empresas. 

Tabacolândia

O pórtico de entrada da cidade gaúcha de Santa Cruz do Sul traz, em destaque, a logomarca da fabricante de cigarros Souza Cruz, antigo nome da BAT Brasil. O detalhe não deixa dúvidas: o visitante está entrando na capital nacional do fumo. No município, localizado a 150 km de Porto Alegre e com pouco mais de 130 mil habitantes, estão instaladas as fábricas de multinacionais donas dos rótulos Marlboro (Philip Morris) e Lucky Strike (BAT).

O PIB per capita local é 5 vezes maior que a média do estado. O centro de Santa Cruz tem calçadas limpas repletas de canteiros de flores e uma praça com grama impecavelmente cortada, que é coroada por uma imponente igreja em estilo gótico construída por imigrantes alemães e italianos. As marcas do setor tabagista estão por todos os lados. Em novembro, quando a Repórter Brasil visitou o município, as principais avenidas estavam decoradas com bandeiras da Oktoberfest da cidade, e as multinacionais Philip Morris, BAT, a americana Universal Leaf e a japonesa JTI se destacavam entre as patrocinadoras da festa.

Distante apenas 35 km de Santa Cruz do Sul está Vale do Sol, município de 11 mil habitantes formado sobretudo por pequenas propriedades rurais fornecedoras de tabaco. O cenário ali é bem diferente da potência econômica da cidade vizinha: casas simples dominam a paisagem, onde ainda se pode ver carroças carregadas de folhas de fumo puxadas por bois e famílias inteiras dedicadas ao cultivo. São pequenos e médios municípios como Vale do Sol que garantem o fornecimento de tabaco para o mundo. O Brasil é o segundo maior produtor global, atrás apenas da China, e principal exportador.

No interior de Vale do Sol vive Daniel*, que produz tabaco junto com a esposa, o filho e a nora para a Universal Leaf. Consciente dos riscos que a aplicação incorreta de agrotóxicos pode trazer à sua saúde, ele admite que não consegue usar a roupa de proteção recomendada pelas empresas, que inclui uma segunda pele de mangas longas e calça comprida, mais um macacão de lona, botas e luvas e ainda uma máscara que cobre rosto e pescoço inteiramente. “Se botar a roupa, não aguenta de calor. Faz mais mal ainda”, resume Daniel*. Seu verdadeiro nome e de todos os fumicultores entrevistados serão ocultados para evitar represálias às famílias, como o cancelamento do contrato de venda de fumo.

Uma pesquisa publicada em 2017 mostra que o fumo usa, em média, 60 litros de agrotóxico por hectare plantado. Essa foi a maior média entre os 21 cultivos analisados no estudo, produzido por pesquisadores do Núcleo de Estudos Ambientais e Saúde do Trabalhador da UFMT, referência em pesquisas sobre o tema. “Analisamos o uso do produto formulado, ou seja, que ainda não foi diluído, que é o que é vendido aos agricultores”, explica o pesquisador Francco Antonio Neri de Souza e Lima, um dos autores do trabalho.

Uma conclusão completamente oposta aparece numa pesquisa conduzida por dois professores da Esalq, a escola de agricultura da Universidade de São Paulo (USP), e amplamente compartilhada em materiais de divulgação do sindicato das indústrias do tabaco. Publicada em novembro de 2019, a pesquisa aponta que o tabaco, entre 19 culturas analisadas, demanda a menor quantidade de agrotóxicos. Tomate, maçã e batata inglesa são, proporcionalmente, as lavouras que mais utilizam, sustenta o documento. Nesse estudo, os pesquisadores fizeram os cálculos com base em quilogramas de ingrediente ativo por hectare cultivado.

Piscina de agrotóxicos

No caso do tabaco, a maior parte dos agrotóxicos é usada na produção das mudas, feitas em pequenos canteiros. Mas também há pulverização na etapa final de crescimento das plantas.

Em propriedade fornecedora da Philip Morris, piscina onde foram produzidas as mudas de tabaco, regadas com misturas de agrotóxicos, é deixada à céu aberto

Para a produção das mudas de fumo, as sementes são plantadas em bandejas de plástico dispostas lado a lado numa lona no chão. Cercada por tijolos ou tábuas de madeira, essa área, que os fumicultores chamam de “piscina”, é preenchida com até 10 centímetros de água e banhada com pesticidas, jogados com um regador de plantas. Quando as mudas atingem cinco centímetros, são retiradas das bandejas e plantadas na terra. 

Há riscos de contaminação do solo se a lona estiver furada ou não for corretamente descartada após a produção das mudas. Era esse o caso da propriedade de Joaquim* em Vale do Sol. Os 50 mil pés de fumo cultivados ali seriam futuramente vendidos para a Philip Morris. A piscina outrora usada para a produção de mudas estava cheia de água da chuva. Dentro, boiavam uma embalagem de fertilizante e um pequeno sapo morto.

A segunda situação de exposição mais intensa do fumicultor com os agrotóxicos se dá dias antes da colheita. Quando o tabaco está quase “no ponto”, como dizem, é preciso cortar os brotos que surgem no topo da planta. Enquanto um trabalhador quebra o broto do tabaco, outro despeja um jato do agrotóxico antibrotante no talo remanescente da planta. Para isso, tanto a Philip Morris como a BAT recomendam o uso dos produtos Deoro ou PrimePlus.

Numa manhã quente de novembro, o fumicultor Tiago*, fornecedor da JTI, fazia a mistura dos produtos sem sequer usar luvas. Os frascos estavam jogados no chão, ao lado do carrinho que levava a bomba costal usada para aplicação do produto e de galões com água usada para diluir o agrotóxico. Questionado sobre o uso do EPI, ele começou a gaguejar, constrangido. “A gente tem que ter, só que é muito quente. Eu estou acostumado a trabalhar assim. Só que se a firma me pegar..”, disse, sem conseguir terminar a frase. Por sua vez, a empresa informa que fornece, a preço de custo, “uma vestimenta produzida com tecido mais leve e que possui sistema de ventilação” para aplicação dos químicos. Leia as respostas na íntegra aqui.

A poucos metros dali, outro trabalhador sem máscara, luvas ou roupas impermeabilizantes aplicava o antibrotante com uma bomba costal. Nessa área, que pertence a Francisco*, pai de Tiago*, a produção costuma ser vendida para indústrias locais ou para “picaretas”, como são chamados os compradores de fumo que atuam como intermediários entre os produtores e as indústrias processadoras.

Francisco reconhece que são raras as ocasiões em que o equipamento completo é usado. “Usamos só quando estamos trabalhando na beira da estrada porque não sabemos quando o Ministério Público [do Trabalho, órgão responsável pela fiscalização das condições de trabalho no setor] vem. [Com a roupa] tu sua, sua, sua. Tu não aguenta”, diz.

Joaquim*, fornecedor da Philip Morris, mostrou à reportagem o pacote de EPIs fechado, apesar de garantir que faz uso do equipamento completo sempre que necessário. À Repórter Brasil, a empresa reforçou que o uso dos EPIs é “obrigatório e previsto contratualmente”, verificado em visitas técnicas e também por meio de auditorias externas. Leia as respostas na íntegra aqui.

Pacote com equipamentos de proteção são oferecidos a preço de custo para fumicultores, mas o calor e a redução da mobilidade dificultam uso no dia a dia

“Olha, acho que uns 10% dos produtores usam todo o equipamento que as empresas dão”, estima Maycon, jovem que cresceu numa família de fumicultores, mas que hoje atua numa cooperativa que produz sementes orgânicas em Santa Cruz do Sul. “O resto não usa. Ou só usa quando tem visita técnica”.

“O uso do EPI é uma realidade de um universo paralelo”, afirma o pesquisador Francco Antonio Neri de Souza e Lima, da UFMT. “O EPI é difícil de ser usado. São roupas de borracha, impermeáveis. O setor tem uma tentativa de responsabilizar o trabalhador: ‘é ele que não utiliza’, ‘é ele que não quer usar’. Mas as condições de trabalho são difíceis para usar o equipamento; é quente, atrapalha a mobilidade”, explica.

Intoxicação no trabalho

É comum ouvir histórias de intoxicações por agrotóxicos na produção de fumo. Maycon conta uma experiência recente com o antibrotante Primeplus. Um mês antes de conceder entrevista à reportagem, num sábado de sol, enquanto ele  desbrotava o fumo, o sogro aplicava o antibrotante Primeplus. “Eu só sentia o cheiro daquele produto. À noite começou a me dar dor de cabeça, vômito. No outro dia eu não aguentei mais e fui pro hospital. Fiquei meio dia lá, tomei soro, medicação. Tinha tanta dor na cabeça que meus olhos pareciam que iam pular pra fora”, relatou.

Pesquisas listam os riscos à saúde dos fumicultores com a exposição prolongada aos agrotóxicos usados no setor. Um estudo publicado em 2017 realizou entrevistas e exames clínicos em 46 produtores de tabaco de Rio Azul (PR), município com a sexta maior área de lavoura de fumo do país. Do grupo analisado, 20 fumicultores foram diagnosticados com intoxicação crônica por agrotóxicos – diferentemente da aguda, essa ocorre pela exposição aos produtos ao longo de vários anos.

Outro estudo, de 2014, aponta que a intoxicação por pesticidas e o uso de agrotóxicos, especialmente os da classe de organofosforados, aumentam a taxas de suicídio. No mesmo ano, uma pesquisa realizada com 2,4 mil fumicultores mostrou ainda que exposição à agrotóxicos em sete ou mais situações – como entrada na lavoura após aplicação dos produtos químicos ou mesmo contato com a roupa usada nesse processo – aumenta em 88% a possibilidade de desenvolvimento de transtornos psiquiátricos. 

A crise de saúde mental entre fumicultores é alarmante, com um uso indiscriminado de remédios antidepressivos, segundo profissionais de saúde de municípios produtores de tabaco ouvidos em reportagem da Agência Pública.

‘Eu só queria a minha vida de volta’

A história de Maycon e de outros fumicultores ouvidos pela Repórter Brasil em campo são, em geral, de intoxicações pontuais. Mas há quem carregue o trauma, as marcas e as dores da exposição aos agrotóxicos para sempre. “Eu só queria a minha vida de volta”, resume a ex-fumicultora Lídia Maria Bandacheski do Prado.

Lídia sofre de Polineuropatia Tardia Induzida por Organofosforados, doença que contraiu pela exposição aos agrotóxicos da lavoura de fumo. Com a enfermidade, ela gradualmente perdeu o movimento das pernas, teve o movimento dos braços limitado e passou a sofrer uma série de outras complicações. São mais de sete médicos especialistas que a agricultora consulta com frequência, além de acompanhamento com fisioterapeuta, massagista e psicólogo. “Eu sinto dores terríveis que começam nas mãos e vão subindo para os braços. Tem dias que acordo e estou toda inchada, mal consigo me mexer”, relata

A ex-fumicultora mora em Rio Azul (PR). Ainda criança, com 8 anos, começou a trabalhar com os pais. “Hoje as estufas estão mais modernas, mas no meu tempo a gente dormia nas pilhas de fumo, na pilha de veneno. A empresa sugava tanto que a nossa casa era dividida com o paiol de fumo. Sentíamos o cheiro da nicotina, do veneno.”

Depois de perder o movimento das pernas como efeito da doença causada pela exposição prolongada aos agrotóxicos usados na lavoura do tabaco, Lídia Mara precisa de ajuda da mãe (ao fundo) para realizar atividades básicas do dia a dia, como preparar o almoço

Os primeiros sintomas da doença começaram em 2007, mas o diagnóstico de intoxicação por agrotóxicos veio só em 2010, depois de uma saga por diversos médicos. Em 2015, um profissional de Rio Azul atestou que a doença que Lídia havia contraído fora causada pelo trabalho. O reconhecimento do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) e a concessão da aposentadoria por invalidez chegou apenas em 2017.

Desde 2015 a ex-fumicultora trava uma batalha judicial contra a multinacional Alliance One, que mantinha contrato de compra e venda de fumo com Lídia e o esposo. Vânia Mara Moreira dos Santos, advogada de Lídia, explica que a empresa questiona o diagnóstico obtido em 2015 – o documento que associa a doença à exposição aos agrotóxicos usados no setor. 

O médico perito contratado pela Alliance One afirma que Lídia não tem polineuropatia. “Na perícia ele diz que ela tem várias outras coisas, inclusive obesidade mórbida, e que uma coisa vai ocasionando a outra, mas nada causado pelos agrotóxicos”.

O mesmo perito contratado pela Alliance One também foi coordenador de um estudo patrocinado pela Associação Brasileira de Produtores de Soja (Aprosoja) para avaliar o risco da exposição de trabalhadores rurais ao paraquate, agrotóxico com potencial de causar mutações genéticas, danos renais e doença de Parkinson. A pesquisa tinha o objetivo de reverter a proibição do agrotóxico pela Anvisa, que aconteceria em setembro de 2020. 

Segundo a advogada de Lídia, a Alliance One questiona também sua responsabilidade com a ex-fornecedora de tabaco. “Eles dizem que o contrato deles é um contrato de compra e venda, portanto eles não seriam responsáveis”, afirma. “Não existe um vínculo empregatício, mas existe uma relação de trabalho. São eles que determinam tudo que é feito na safra. Desde o momento em que entregam os agrotóxicos até quando se faz a classificação [da qualidade do tabaco], tudo é determinado pela empresa”, completa Santos.

A ex-fumicultora ganhou o processo na primeira instância. O juiz responsável pela análise do caso reconheceu o nexo causal entre a doença e o trabalho na lavoura de fumo. Reconheceu também a relação de trabalho entre a agricultora e a Alliance One. A empresa recorreu da decisão. Enquanto o processo segue em tramitação, a multinacional precisa pagar mensalmente R$ 6,4 mil para cobrir os custos médicos de sua ex-fornecedora. 

Procurada pela reportagem, a Alliance One afirmou que “não se manifesta em relação a processos judiciais em andamento”. 

Além do uso de agrotóxicos com substâncias proibidas na União Europeia, os fumicultores estão expostos aos riscos que também acontecem durante a colheita do tabaco. Nesse período, a coleta de folhas de fumo úmidas, seja pela chuva, pelo orvalho da manhã ou pelo próprio suor do trabalhador, desprende altas quantidades de nicotina, causando uma espécie de overdose da substância.

Todos que atuam no setor sabem o nome desse tipo de intoxicação: é a Doença da Folha Verde do Tabaco, diagnosticada nos anos 1970, e que tem entre os sintomas dor de cabeça, náuseas, vômito e tonturas. “É uma coisa muito triste. Se você não vai para o hospital tomar soro, não passa”, explica José*, fumicultor em Santa Cruz do Sul e fornecedor da multinacional americana Alliance One.

Nas dez propriedades produtoras de fumo visitadas pela Repórter Brasil, a reportagem não encontrou nenhum produtor ou trabalhador contratado usando o EPI completo recomendado para realizar a colheita – luvas, blusa de manga comprida e o avental plástico que funciona como capa protetora, como usado por representantes de classe e políticos locais em foto tirada durante a abertura da colheita de fumo de 2017 e divulgada pela Associação de Fumicultores do Brasil, a Afubra.

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O uso de EPIs completos para colher as folhas úmidas do tabaco, como na primeira foto, registrada durante cerimônia de abertura da colheita de 2017, é cena rara nas lavouras brasileiras (Primeira foto: Junio Nunes/Divulgação Afubra)

“Tem uma capa plástica para colocar, mas o sol é quente demais. Imagina [trabalhar] embaixo de um plástico”, afirma Daniel*, o produtor de Vale do Sol (RS) que vende para a multinacional americana Universal Leaf. “A gente até tenta se vestir, mas não dá para aguentar o calor, então a gente vai assim mesmo”, diz ele, apontando para as próprias roupas.

A Alliance One informou que suas equipes orientam sobre o uso correto e completo dos EPIs e que a vestimenta de colheita de tabaco úmido ou molhado assegura uma diminuição de 98% da exposição dérmica. “Outras iniciativas setoriais para produção de EPI estão em andamento, ainda em fase de estudos”, completou. Leia a resposta na íntegra aqui.

A Universal Leaf não respondeu aos questionamentos enviados até o fechamento desta reportagem. O espaço segue aberto para manifestações futuras. 

Esta reportagem foi realizada com o apoio do Journalismfund.eu


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Este texto foi inicialmente publicado pela Repórter Brasil [Aqui!].

Garimpo Ilegal acontece em todo território da Amazônia

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A Amazônia nunca esteve tão no centro das discussões como agora. De acordo com levantamento feito pelo Instituto Socioambiental (ISA), com base em dados do Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais (Inpe/Prodes), o desmatamento em terras indígenas aumentou em 157% durante o governo do ex-presidente Bolsonaro.

Garimpo, invasões e roubo de madeira continuam assolando terras indígenas e unidades de conservação. Áreas da floresta estão sendo vendidas via leilão para empresas explorarem petróleo e gás natural.

Boa parte deste desmatamento está associada à expansão das áreas do garimpo nos territórios, mas também pela ação de madeireiros – atividades que andam lado a lado quando o assunto é invasão de terras indígenas. Entre 2010 e 2021, aponta o MapBiomas, o garimpo em terras indígenas cresceu cerca de 625%. O aumento mais expressivo ao longo dos últimos dez anos foi registrado justamente entre 2019 e 2021 e ele não está limitado às cinco terras indígenas citadas pelo relatório.

A Igreja, sempre atenta às necessidades da comunidade, desenvolve ações e cuidados especiais com os indígenas. De acordo com o assessor da Rede Eclesial Pan-Amazônica, a REPAM-Brasil e também da Comissão Ecologia Integral e Mineração da CNBB, padre Dário Bossi, a Igreja se aproxima desses povos em defesa da vida. “Amazônia sempre foi considerada uma terra de conquista, é pautada pelo viés do extrativismo predatório”. 

“O garimpo, na verdade, é como se fosse a primeira etapa de uma invasão, que possui ciclos, onde o primeiro ciclo é a desflorestação, que depois deixa espaço ao latifúndio da soja, do boi e das siderúrgicas, como um modelo que vem avançando. Assim o garimpo entra ocupando e contaminando pequenas áreas para depois deixar abertura para outros modelos de mineração mais consistentes e impactantes e, aos poucos, ir tomando posse dos territórios, por isso, não dá para medir ou para controlar a entrada no território. Há regiões na Amazônia onde precisamos dizer não à mineração. São territórios sagrados, santuários, que precisam ser preservados”, destacou o padre.  

De acordo com o MapBiomas, em relatório publicado há cinco meses, o Pará concentra o maior número de invasões em terras indígenas. Das cinco terras listadas pelo estudo, que utilizou dados de 2021, a TI Kayapó é a mais invadida, com 11.542 hectares de área de garimpo; em segundo lugar, a TI Munduruku, com 4.743 hectares de destruição. Somadas, as duas TIs concentram 16.285 hectares de áreas com lavra ilegal de ouro, o equivalente a 17 mil campos de futebol aproximadamente. Os Yanomami vêm em terceiro. 

A Igreja, sempre atenta às necessidades da comunidade, desenvolve ações e cuidados especiais com os indígenas. De acordo com o assessor da Rede Eclesial Pan-Amazônica, a REPAM-Brasil e também da Comissão Ecologia Integral e Mineração da CNBB, padre Dário Bossi, a Igreja se aproxima desses povos em defesa da vida. “Amazônia sempre foi considerada uma terra de conquista, é pautada pelo viés do extrativismo predatório”. 

Padre Dário fala sobre a importância da atuação da Igreja na região,“Há uma sensibilidade cada vez mais forte do mundo religioso sobre a importância de repensar o modelo, como dizíamos, não pode ser mais um modelo de saque e sim um modelo de reciclagem, reuso, limites e de controle dessa sania extrativa. Essa é a única maneira para permitir uma convivência equilibrada das comunidades em seus territórios”. 

“A opção pelo extrativismo predatório, infelizmente, continua sendo a prioridade de muitos países na América Latina, naturalmente, empurrada por interesses de fora, ainda mais agora, neste tempo de crise, num tempo em que supostamente por necessidade de transição energética, se fazem necessários os famosos minerais estratégicos, portanto, a fronteira de busca desses minerais e de expansão do extrativismo vem ameaçando cada vez mais comunidades que não sabem como se defender. As comunidades indígenas e a Amazônia são como a última fronteira de resistência. O que deve mudar, com certeza, é o ritmo e a intensidade desse sistema extrativo, que não vai se sustentar por muito tempo, por isso, temos que aprender com os povos indígenas uma nova maneira de conviver com o meio ambiente que não seja tão vorazmente predadora dos nossos territórios”. 

Para a professora Márcia Oliveira, da Universidade Federal de Roraima e assessora da REPAM-Brasil, é necessário determinar a retirada dos garimpeiros que oferecem grande risco e grande contaminação ao meio ambiente, destruição da floresta, dos rios, e dos povos que necessitam viver em paz em seus territórios e viver de forma autônoma com a soberania alimentar que eles fazem subliminarmente.

 “São diversas tentativas de invasões em TI desde 2016, quando os governos Temer e após o governo Bolsonaro abriram espaços para o garimpo. São trabalhadores que são agenciados a grandes empresas ligadas ao mercado do ouro e promovem uma grande exploração do trabalho análogo ao escravo, são pessoas muito pobres entrando na região, contaminando todo território os rios com mercúrio e também contaminando com a verminose. São de 20 a 30 mil pessoas no mesmo espaço, as águas levam toda a espécie de contaminação e isso tem resultado em um surto muito grande de verminose entre os povos indígenas”, declara a professora Márcia Oliveira, assessora da REPAM-Brasil. 

São muitos os religiosos e padres que atuam e moram em aldeias. A Igreja sempre se manifestou em relação ao garimpo. E grupos fizeram denúncias na Organização das Nações Unidas (ONU).

Observatório dos Agrotóxicos: Em contradição com o discurso da vitória, governo Lula dá continuidade à liberação desenfreada de venenos agrícolas

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Venho dizendo que a questão dos agrotóxicos e a política  de liberação de produtos banidos em outras partes do mundo por sua alta periculosidade é um dos principais desafios do governo Lula, na medida em que explicitará tensões internas e pressões vindas do latifúndio agro-exportador para que a farra de liberações continue intacta.

Pois bem, a edição desta segunda-feira (13/02) do Diário Oficial da União confirma que, apesar do discurso do presidente Luis Inácio Lula da Silva no dia em que venceu as eleições presidenciais de 2022 de que em seu novo mandato a agroecologia seria priorizada para a criação de uma nova agricultura no Brasil, as coisas continuam como dantes no Quartel de Abrantes. É que com a publicação dos atos 5 e 6 de 2023 foram liberados mais 48 agrotóxicos (22 formulados e 26 produtos técnicos), dando continuidade ao processo de inserção de produtos altamente perigosos na agricultura brasileira.

Da mesma forma que ocorreu ao longo dos quatro anos do governo Bolsonaro, o “Observatório dos Agrotóxicos” do Blog do Pedlowski irá divulgar em breve as duas planilhas contendo as informações sobre cada um dos venenos liberados. Uma primeira leitura dos atos 5 e 6 mostra a persistência das mesmas características daquilo que ocorreu nos últimos 4 anos, com a presença de produtos banidos na União Europeia e a predominância de empresas chinesas no fornecimento dos “novos” agrotóxicos.

O que fica claro já no início do terceiro mandato do presidente Lula é que vai ser preciso continuar acompanhando e documentando a escalada de aprovação de venenos agrícolas, de modo a instrumentalizar e apoiar grupos de pesquisas e organizações sociais que estejam envolvidos na luta pela erradicação de agrotóxicos da produção agrícola brasileira. Apoiar a luta por uma agricultura de base ecológica continuará sendo uma das tarefas prioritárias que este blog seguirá cumprindo.

E a explicação para a prioridade acima é relativamente simples: se essa enxurrada de aprovações de agrotóxicos continuar, o Brasil será palco de uma grave crise social, econômica e sanitária nos próximos anos.

Contaminantes emergentes e turismo: uma combinação perigosa

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Esmeraldas é uma das cidades mais turísticas do Equador, devido à combinação de belas praias e um clima muito agradável.  Mas afluência turística também pode jogar contra. Crédito da imagem: Aldo Barba/Wikimedia Commons , bajo licencia Creative Commons (CC BY-SA 2.5)

Por Carmina de la Luz para a SciDev

A presença de contaminantes emergentes na água dos rios e do mar está diretamente vinculada ao turismo costeiro.  É o que sugere um estudo realizado na provincia de Esmeraldas, no Equador,  que acaba de ser publicado na Science of The Total Environment .

Os contaminantes emergentes são um grupo diverso de substâncias de detecção recente no ambiente, como medicamentos, produtos de cuidado pessoal ou de limpeza de casas e produtos agrícolas, entre muitos outros.

No final de 2019, Isabel Cipriani Ávila, professora-investigadora da Pontificia Universidad Católica del Ecuador e autora principal da pesquisa e seus colaboradores avaliaram a qualidade da água neste destino popular pouco depois de ser iniciado o confinamento para evitar a propagação do COVID-19 e o fluxo de turistas.

“Em novembro de 2020 voltamos a coletar mostras e aproveitamos para fazer a comparação de contaminantes emergentes antes e durante a pandemia, a qual foi uma oportunidade de demonstrar o impacto tão forte que o turismo tem nos nossos hábitos e no meio ambiente ”, disse Cipriani Ávila em entrevista para a SciDev.Net .

O equipamento foi calibrado para identificar e quantificar cafeína, acetaminofén (paracetamol), diclofenaco, trimetoprima e sulfametoxazol em 10 desembocaduras de ríos e 14 praias de Esmeraldas. Esses compostos foram selecionados pelo fato do Ministério da Saúde Pública do Equador considerando-los de alto uso.entre a população.

“O que mais nos surpreendeu foi observar as maiores concentrações de contaminantes emergentes nos pontos onde o grau de urbanização era baixo, mas que estava muito próximo do local de descarga de águas residuais de um grande resort”, apontou a pesquisadora.

A análise evidenciou que a contaminação por cafeína e diclofenaco diminuiu notoriamente no contexto do confinamento, quando não houve  turismo. Da mesma forma, a aparição e a quantidade das substâncias estudadas foram menores durante esse tempo. O sulfametoxazol – um medicamento antibacteriano – resultou ser a exceção, pois não foi detectado nem antes ou durante a pandemia.

Os contaminantes emergentes são de interesse para os científicos no solo porque afetam a qualidade da água, mas também por suas conseqüências na vida silvestre e na saúde humana. Associarlos com uma atividade econômica específica –como se logró com o turismo neste estúdio– é complexo, já que nos ecossistemas aquáticos intervêm múltiplas variáveis.

Para o coautor Jon Molinero, o caso de Esmeraldas evidencia o problema da desigualdade no acesso a uma recreação com água limpa no Equador: “Vemos que os desejos do turismo de alta gama estão contaminando as zonas de entorno que são sedes de pequenos hotéis e negócios com os quais as pessoas humildes obtém sua renda”.

“Os turistas vêm em busca de água limpa para tomar banho, mas a atividade em si está prejudicando esse serviço. Se não fizermos algum tipo de controle não haverá turismo simplesmente porque as águas não vão ter qualidade suficiente”.

Jon Molinero, Escuela de Gestión Ambiental – Pontificia Universidad Católica, Equador

Tal cenário poderia estar se repetindo em outros países da América Latina, onde um quarto da população vive nas costas, segundo o Banco Interamericano de Desenvolvimento . Nas nações caribenhas , o turismo equivale a 26% do Produto Interno Bruto total e no resto da região representa 10%, de acordo com um informe de 2020 elaborado pela Comissão Económica para América Latina e Caribe (CEPAL) .

“Os turistas vêm em busca de água limpa para tomar banho, mas a atividade em si está prejudicando esse serviço. Se não fizermos algum tipo de controle, não haverá turismo simplesmente porque as águas não terão qualidade suficiente”, acrescenta Molinero.

María Teresa Alarcón Herrera, que não participou da investigação, comentou no SciDev.Net que essas reflexões constituem a porta mais destacada do estudo em Esmeraldas.

“O diagnóstico ambiental que é importante, mas também está entendendo o tema desde o ponto de vista econômico. O chamado que faz com sua investigação é melhorar os sistemas de tratamento de águas para que o turismo marítimo seja mais sustentável ”, aponta a acadêmica do Centro de Investigações de Materiais Avançados no México.

Na América Latina, apenas 40 % das águas residuais são tratadas, e as plantas que realizam esse processo não são aptas para eliminar contaminantes emergentes. Germán Santacruz, que também participou do estúdio, relaciona esta deficiência com o fato de que a disposição final dos contaminantes emergentes a um menu não está regulamentada.

Estudos como o publicado na Science of The Total Environment “são relevantes para compreender o fenômeno dos contaminantes emergentes, mas também nos lembramos que a maneira de fazer frente à ‘epidemia silenciosa’ que representam está caminhando para a regulamentação em nossos países”, conclui o professor do programa Água e Sociedade do Colégio de San Luis, no México.

Acesse o artigo completo [Aqui!].


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Este artigo escrito originalmente em espanhol foi publicado pela SciDev [Aqui! ].

Uso indiscriminado de agrotóxicos: desafio para o governo Lula

cana agrotóxicosA cana-de-açúcar, juntamente com a soja e o milho, são as três principais culturas agroindustriais que mais utilizam agrotóxicos em sua produção. No Brasil, juntos, eles usam 80% de todos os pesticidas aplicados. Crédito da imagem: Andrés Garzón/Flickr , sob licença Creative Commons (CC BY 2.0)

 Por Washington Castilhos para a SciDev

[RIO DE JANEIRO]. Um dos grandes desafios de Luís Inácio Lula da Silva, que assumiu a presidência do Brasil em 1º de janeiro, será reduzir o uso indiscriminado dos chamados “defensivos agrícolas”, intensamente promovidos pelo governo de seu antecessor.

Só nos últimos quatro anos, 1.800 agrotóxicos foram introduzidos no mercado brasileiro, a maioria (59%) de origem chinesa, segundo dados de um novo estudo publicado na revista Third World Quarterly .

Um primeiro passo para o novo governo enfrentar essa situação seria revogar o decreto presidencial de 2021 , que antecipa disposições contidas no projeto de lei 6.299 , ainda em tramitação no Congresso Nacional, conhecido como “Lei do Veneno”.

É o que aponta ao SciDev.Net a toxicologista Karen Friedrich, pesquisadora do Centro de Estudos em Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana da Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz.

Ela garante que, se o projeto for aprovado, parte da legislação atual que proíbe o registro de substâncias que causam câncer, mutações ou distúrbios hormonais será eliminada e reduzirá o poder de órgãos de controle, como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária.

Para o geógrafo Marcos Pedlowski, as alternativas ao uso de agrotóxicos seriam a reforma agrária e o incentivo à agricultura familiar e à policultura.

“Estamos priorizando as monoculturas de exportação altamente dependentes de agrotóxicos. Precisamos sair dessa dependência do ciclo do veneno”, diz Pedlowski, pesquisador da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF) no Rio de Janeiro e um dos autores do estudo junto com pesquisadores da Universidade de Helsinki, ao SciDev. Net . Finlândia.

E Friedrich complementa: “O país precisa adotar um novo modelo agrícola baseado nos valores agroecológicos e na produção orgânica”.

Se forem considerados países com o mesmo padrão agrícola e dimensões territoriais comparáveis, e com base na razão de quilos de agrotóxicos por hectare (kg/ha), que é a metodologia utilizada pela Agência das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), o Brasil –com 2,77 kg/ha– ocupa o segundo lugar entre os maiores consumidores do mundo, precedido apenas pela China (10,93 kg/ha) e seguido pelos Estados Unidos (2,38 kg/ha) e Argentina (2,37 kg/ha).

O uso de agrotóxicos no Brasil passou de 16 mil toneladas por ano para quase 500 mil em cinco décadas, segundo o referido estudo.

“Uma das consequências do uso dessa quantidade de agrotóxicos altamente nocivos é o aumento da exposição das pessoas a resíduos de produtos conhecidos por causarem diversos tipos de doenças ”, destaca Pedlowski.

Pesticidas e a UE

Do conjunto de agrotóxicos aprovados pelo governo anterior, um terço são proibidos na União Europeia. No entanto, muitos alimentos brasileiros tratados com agrotóxicos proibidos pela UE chegam ao mercado europeu, para o qual o Brasil é um dos mais importantes fornecedores de produtos agrícolas.

Pedlowski explica que a UE tem critérios muito mais restritivos para limites de resíduos em alimentos do que o Brasil, então, quando esses resíduos ultrapassam o permitido, os governos emitem alertas ou até suspendem a entrada de alimentos altamente contaminados. E lembre-se que há alguns anos a Rússia emitiu um alerta sobre o excesso de glifosato na soja brasileira.

Em seu relatório anual de 2022 sobre resíduos de pesticidas em alimentos, a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos revelou que metade das frutas e vegetais no mercado europeu está contaminada com resíduos de pelo menos um pesticida, enquanto um quarto deles contém um coquetel de até 15 resíduos de agrotóxicos.

“Em breve, os parlamentos nacionais europeus terão que ratificar uma lei muito mais restritiva em relação aos alimentos contaminados com agrotóxicos. Essa será uma questão para a qual o Brasil deve se preparar”, prevê o pesquisador.

No entanto, entre os agrotóxicos introduzidos no Brasil nos últimos quatro anos, 4% vêm de empresas europeias. Ou seja, embora esses produtos sejam proibidos em países com regulamentações mais exigentes, eles continuam sendo vendidos em países do hemisfério sul com economias baseadas em grandes áreas de monoculturas de exportação, como Argentina e Brasil.

É o caso do glifosato e da atrazina, herbicidas que, apesar de proibidos na Europa, são os mais utilizados nos países tropicais “onde ocorrem 99% das intoxicações agudas associadas”, revela o estudo.

O efeito devastador do uso indiscriminado de agroquímicos na agricultura é retratado no minidocumentário argentino O custo humano dos pesticidas , que mostra as mutações genéticas e outras condições associadas à exposição ao glifosato que afetaram populações em várias províncias desse país.

Oito intoxicações diárias

No Brasil, de acordo com o Sistema de Informação de Agravos de Notificação Obrigatória (SINAN ), 25.106 pessoas foram intoxicadas por agrotóxicos entre 2007 e 2014, uma média de oito intoxicações por dia.

E de acordo com o mais recente relatório da rede ambiental Friends of the Earth – Europe, a cada dois dias no Brasil uma pessoa morre por envenenamento por agrotóxicos. 20 por cento das vítimas são crianças e adolescentes até 19 anos de idade.

Os casos de intoxicação se concentram no centro e sul do Brasil, justamente onde estão as principais culturas do agronegócio, como soja, milho ou cana-de-açúcar. Juntas, essas três culturas usam 80% de todos os pesticidas aplicados.

Vários estudos nessas regiões apontam maior incidência de câncer, problemas reprodutivos, infertilidade masculina e malformações em bebês, principalmente devido à exposição ocupacional de trabalhadores rurais.

“A população em geral consome agrotóxicos tanto na água quanto nos alimentos. Estamos comendo e bebendo nossa dose diária de veneno.”

Karen Friedrich, Centro de Estudos em Saúde Ocupacional e Ecologia Humana, Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz

Karen Friedrich, que não participou do estudo do Third World Quarterly , lembra que pesquisas recentes encontraram vestígios de pesticidas não apenas nos alimentos, mas também na água, por meio da contaminação do solo e das águas subterrâneas.

“A população em geral consome agrotóxicos tanto na água quanto nos alimentos. Estamos comendo e bebendo nossa dose diária de veneno”, disse Friedrich ao SciDev.Net.

A pesquisadora alerta que corremos o risco de consumir alimentos que contenham agrotóxicos em doses acima do permitido (que são calculadas para cada agrotóxico), bem como um grande número de substâncias diferentes em um mesmo alimento.

“Ao longo do tempo, doses repetidas desses coquetéis constituem um alto risco à saúde da população”, acrescenta o médico biomédico.

Segundo os pesquisadores, a crença de que sem agrotóxicos é impossível manter o nível de produtividade agrícola exigido pela população humana é um mito.

“Trata-se mais de uma mudança na forma de produção do que de proteção contra pragas”, destaca Pedlowski. “Além disso, os altos custos desses insumos impactam na produção de alimentos”, conclui.

Link para o resumo do artigo no Third World Quarterly


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Este artigo escrito originalmente em espanhol foi produzido pela edição América Latina e Caribe de  SciDev.Net e publicado [Aqui!].

O retorno da Syngenta ao mercado de ações e seus muitos riscos ambientais e à saúde humana

Os pesticidas afetam a saúde humana e o meio ambiente globalmente. Tendo como pano de fundo o anunciado IPO da Syngenta na China, um estudo encomendado pela Public Eye mostra pela primeira vez como esses impactos representam riscos para os negócios da Syngenta – e, portanto, para potenciais investidores e credores. Isso inclui riscos climáticos que podem afetar seus negócios de fertilizantes sintéticos opacos. No total, nos próximos anos a empresa sediada na Basileia pode sofrer impactos financeiros da ordem de bilhões ou três dígitos
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Por Carla Hoinkes para a PublicEye

Pouco depois de a Syngenta ter sido adquirida em 2017 pela estatal chinesa Chem China, por US$ 43 bilhões, ela foi retirada da SIX Swiss Exchange. No entanto, os novos proprietários prometeram que voltaria ao mercado de ações em cinco anos. Agora, isso pode acontecer pouco antes do final deste período – a empresa anunciou uma Oferta Pública Inicial (IPO) na Bolsa de Valores de Xangai STAR Market antes do final de 2022. A capitalização de mercado buscada, ou seja, o valor total das ações que serão colocar em circulação, é de aproximadamente US$ 45 bilhões. O Mega IPO seria um dos maiores do ano a nível internacional.

Nesse ínterim, a Syngenta tornou-se parte de uma ‘megaempresa’. O Grupo Syngenta surgiu em 2020 a partir da fusão da Syngenta AG com a produtora israelense de agrotóxicos Adama e o ramo agrícola da gigante química chinesa Sinochem. A Syngenyta tinha um faturamento anual de US$ 28 bilhões e uma sede global em Basel. Em 2021, a proprietária chinesa da Holding, a ChemChina, por sua vez, foi fundida com a controladora da Sinochem. Essa fusão deu origem à Sinochem Holding Corporation, atual maior conglomerado químico do mundo .

O Syngenta Group, sediado na Basileia, deve agora retornar ao mercado de ações – pelo menos para reduzir os bilhões em dívidas que acumulou desde a aquisição. Além disso, o CEO da Syngenta, Erik Fyrwald, deu a entender em uma entrevista ao jornal NZZ am Sonntag em maio que o Grupo pretende buscar uma segunda listagem, provavelmente na SIX Swiss Exchange.

Os riscos ocultos associados

Antes de serem listadas na bolsa de valores, as empresas devem informar os potenciais investidores sobre os riscos comerciais em um prospecto. Em seu prospecto (disponível apenas em chinês), a Syngenta cita, por exemplo, os riscos de processos judiciais e outras questões legais. Estes são estimados em mais de US$ 6 bilhões. Numerosos casos em andamento são mencionados pela empresa, mas não incluídos na estimativa. Eles incluem 2.000 reclamantes nos EUA e no Canadá que consideram o herbicida Paraquat da Syngenta responsável por causar o mal de Parkinson. A empresa pode ser obrigada a pagar bilhões em compensação neste caso legal altamente controverso. O mesmo vale para as demandas feitas pelos apicultores canadenses, que consideram o inseticida Thiamethoxam, da Syngenta, responsável por dizimar suas populações de abelhas. E novamente para as famílias de fazendeiros indianos que abriram processos judiciais contra a Syngenta em um tribunal em Basel em relação a intoxicações graves e em parte fatais por pesticidas.

O prospecto também menciona os riscos associados à regulamentação mais rígida de seus produtos ou ao não cumprimento de normas de saúde, segurança e meio ambiente. A empresa descreve esses e outros fatores, mas se abstém completamente de fornecer informações sobre as possíveis ramificações financeiras.

No entanto, existem riscos materiais associados ao atual modelo de negócios da Syngenta, que podem afetar o sucesso do negócio. Analistas financeiros do instituto de pesquisa holandês Profundo  chegaram a essa conclusão em um estudo encomendado pela Public Eye no contexto do próximo IPO em Xangai. De acordo com as descobertas, em particular o modelo de negócios da empresa agroquímica, que depende em grande parte da venda de produtos químicos altamente perigosos e desatualizados, os custos de saúde causados ​​por pesticidas e um negócio de fertilizantes sintéticos opacos na China que é prejudicial ao clima, podem ser uma exposição significativa. As estimativas também mostram que:

Embora os números comerciais estejam atualmente no azul, no fundo o atual modelo de negócios da empresa de agroquímicos com sede em Basel não é sustentável nem adequado para o futuro.

Altamente perigoso e de alto risco

Os produtos da empresa são confrontados com um ambiente regulatório global em rápido desenvolvimento” – é assim que a Syngenta descreve o risco da regulamentação de pesticidas. De acordo com o prospecto, os defensivos respondem por 66% do faturamento de todo o grupo. Com uma participação de mercado estimada em 24%, a Holding é líder de mercado global.

O negócio da Syngenta está particularmente sob pressão em relação ao seu chamado negócio de agrotóxicos altamente perigosos . Em 2019, a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) e a Organização Mundial da Saúde (OMS) emitiram um relatório afirmando que essas substâncias principalmente de “geração mais antiga” “constituem uma parcela relativamente pequena de todos os pesticidas registrados globalmente”, mas podem causar “o mais danos”. Eles pediram que a agricultura global fosse “desintoxicada” de agrotóxicos altamente perigosos. No entanto, a resistência da indústria e de alguns países significa que pode demorar algum tempo até que isso aconteça.

Este não é o caso dos agrotóxicos que já foram proibidos na UE por razões ambientais ou de saúde. Essas substâncias comprovadamente nocivas estão sendo proibidas em cada vez mais países fora da Europa. A UE, onde estão sediados muitos grandes produtores, também anunciou a intenção de proibir a exportação desses agrotóxicos. Além disso, quer deixar de tolerar resíduos dessas substâncias que podem ser detectados em alimentos importados. A utilização destes agrotóxicos na produção de alimentos que são importados para a UE – grande importadora de produtos agrícolas – deixará de ser possível.

Se as substâncias proibidas na UE forem retiradas do mercado global, o Grupo Syngenta pode perder 20% de sua receita com agrotóxicos (mais de US$ 3,5 bilhões). Este é o cálculo da Profundo com base na participação estimada nas vendas de agrotóxicos de cada produto para Adama e Syngenta AG, com sede em Basel.

A potencial queda nas receitas poderia reduzir o lucro (EBITDA) em US$ 630 milhões, além de ativos imateriais e ativos fixos tangíveis que teriam que ser baixados (US$ 2,5 bilhões).

O impacto nos lucros e ativos seria quase o dobro se a venda de todos os agrotóxicos classificados como altamente perigosos tivesse que ser interrompida.

Poluição da água, câncer e Parkinson

Um relatório divulgado recentemente pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) estabelece que os agrotóxicos causam “vários resultados adversos à saúde”, incluindo “cânceres e efeitos neurológicos, imunológicos e reprodutivos”. Eles também causam cerca de 385 milhões de casos de intoxicações não intencionais  todos os anos, incluindo 11.000 mortes. Além disso, 168.000 suicídios ocorrem anualmente como resultado da ingestão de agrotóxicos – o que representa aproximadamente um quinto de todos os suicídios. O Paraquat da Syngenta é um dos agrotóxicos que mais causa intoxicações e mortes em todo o mundo.

Esses impactos fazem parte dos custos gerais causados ​​pelos agrotóxicos, que geralmente são suportados pelo público em geral. O instituto de pesquisa francês Le Basic calculou recentemente esses custos sociais – incluindo o tratamento de problemas crônicos de saúde resultantes e o tratamento de água potável após envenenamento por pesticidas – em um estudo abrangente para a Europa. Os custos sociais que são diretamente atribuíveis apenas aos pesticidas são calculados em 2,3 bilhões de euros por ano.

Profundo calculou o impacto financeiro global no Grupo Syngenta de um cenário em que o Grupo seria responsabilizado por pelo menos uma fração desses custos no futuro. O Profundo limitou seu cenário à Syngenta assumindo os custos do tratamento da água potável e do tratamento de duas doenças ocupacionais reconhecidas entre os trabalhadores agrícolas que são diretamente atribuíveis aos agrotóxicos – Parkinson e Linfoma Não-Hodgkin. (Isto é menos de 2% de todos os custos sociais que o estudo Le Basic atribui aos pesticidas). Globalmente, nos próximos dez anos, a Syngenta poderá incorrer em custos associados de US$ 7,2 bilhões (cenário de baixo risco) até US$ 14,4 bilhões (cenário de alto risco).Muitos outros custos, como os causados ​​pelos milhões de casos de intoxicações agudas por agrotóxicos, são atualmente difíceis de quantificar e por isso não foram incluídos.

Atualmente, o público em geral arca com a maior parte desses custos. No entanto, a Syngenta e seus concorrentes estão sendo cada vez mais responsabilizados – até o momento principalmente por meios legais.

Após uma batalha legal em 2012, a Syngenta teve que concordar em pagar aos fornecedores de água estatais nos EUA US$ 105 milhões pelo tratamento de água potável após a poluição causada por seu herbicida Atrazina. A atrazina é muito persistente na água e está proibida na UE devido à contaminação das águas subterrâneas. Depois que a Bayer teve que compensar inúmeros queixosos que tinham câncer presumivelmente causado pelo glifosato nos EUA, a Syngenta está enfrentando acusações legais devido a alegações de que o Paraquat causou o mal de Parkinson entre os usuários. O glifosato é um dos herbicidas mais vendidos da Syngenta.

©Atul Loke/ Panos Pictures
Purshottam Khadse mostra o restante do pesticida Polo em sua casa na vila de Injala em Yavatmal.
©Atul Loke / Panos Pictures

Todos os anos, até 44% dos trabalhadores agrícolas sofrem envenenamento por agrotóxicos. A grande maioria dos casos envolve agricultores e trabalhadores agrícolas em países de baixa renda, onde as regulamentações costumam ser mais fracas e os trabalhadores têm pouca proteção

Assassino climático oculto

Em campanhas de imagem cada vez maiores (incluindo uma estrela do esqui como embaixadora da marca ), a Syngenta está promovendo seu engajamento em favor do meio ambiente e principalmente do clima. No seu prospecto, a empresa refere as formas como está a contribuir para o combate e adaptação da agricultura às alterações climáticas. A Syngenta se comprometeu a reduzir pela metade suas próprias emissões até 2030.

No entanto – isso se aplica à Syngenta AG, ou seja, o negócio de agrotóxicos e sementes com base em Basel, mas ainda não para o grupo chinês Syngenta, que vende fertilizantes sintéticos em escala. De acordo com o prospecto, em 2020, o Grupo obteve 14% de sua receita global com a venda de nutrição agrícola, ou seja, fertilizantes. A Syngenta é líder no mercado chinês de fertilizantes e isso quer dizer algo – mais de um quarto de todos os fertilizantes nitrogenados são usados ​​na China.

Apesar da relevância comercial, o Grupo Syngenta é taciturno quanto ao impacto de seus fertilizantes no clima. Isso provavelmente não é sem razão – com base nas emissões estimadas da indústria de fertilizantes, Profundo calculou que, de 2016 a 2050, o negócio global de fertilizantes da Syngenta teria causado quase nove vezes mais emissões de gases de efeito estufa do que o negócio de agrotóxicos e sementes da Syngenta AG.

Usando a precificação do carbono da UE como proxy, Profundo calculou possíveis consequências financeiras devido aos danos climáticos. Assumindo que as atividades da Syngenta AG europeia foram afetadas por um preço de emissões, custos acumulados de US$ 13,8 bilhões poderiam surgir de 2016 a 2050 – desde que a Syngenta AG atinja suas próprias metas de redução de emissões até 2030 e até mesmo introduza uma meta zero líquido até 2050 .

Se no futuro as emissões de todo o grupo – incluindo o negócio de fertilizantes – fossem precificadas na Europa ou na China, os custos poderiam chegar a US$ 127,4 bilhões.

Impactos de bilhões de números de dois a três dígitos

Ao todo, o Profundo estima os possíveis impactos financeiros para a Syngenta em US$ 28 bilhões (cenário de baixo risco) até US$ 155 bilhões (cenário de alto risco). Isso é significativo em comparação com a cobiçada – e em comparação com o concorrente da Syngenta, alta – capitalização de mercado de US$ 45 bilhões – e coloca um grande ponto de interrogação sobre se o atual modelo de negócios da empresa é adequado para o futuro.


IPO da Syngenta: investimento de alto risco

Gerard Rijk, Profundo (2022)

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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela ONG Public Eye [Aqui!].

Pesquisadores da UFPR alertam que nova lei de agrotóxicos pode envenenar o mundo

Para pesquisadores do Observatório de Agrotóxicos da UFPR, o Congresso deveria instituir um programa nacional de redução de agrotóxicos em vez de abrir as portas do Brasil para produtos amplamente proibidos no mundo

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Por Afonso Murata, André Cavalcante, Natali Miller, Laís Carneiro, Larissa Faria e Jean Vitule para o “Ciência UFPR”

 Já aprovado na Câmara dos Deputados, tramita agora no Senado um controverso projeto de lei (PLS 526/1999) que flexibiliza a atual legislação de pesticidas. Sob o argumento de que o registro de novos produtos é um processo muito moroso, este PL propõe mudanças na avaliação e autorização de novos pesticidas, excluindo o Ibama e a Anvisa do processo de decisão final. Algo ainda mais preocupante é que as substâncias previamente banidas poderão ser reavaliadas sob estas novas regras. Ou seja, este PL segue a tendência política de enfraquecer a legislação ambiental, priorizando o setor produtivo em detrimento do meio ambiente e da saúde pública do país.

Só em 2022, foi autorizado o uso de 562 novos agrotóxicos no Brasil, muitos deles importados da Europa e da América do Norte. Vários destes pesticidas têm seu uso proibido nos países onde são produzidos, mas as empresas continuam exportando para lugares com legislação mais permissiva, como o Brasil.

O uso indiscriminado de agrotóxicos sem a devida avaliação é, sobretudo, uma questão de saúde pública. Na última década, intoxicações e mortes relacionadas ao envenenamento por agrotóxicos aumentaram em 94% em nosso país.

Em casos de exposição contínua, os agrotóxicos podem acumular nos organismos, causando inflamações crônicas e doenças autoimunes. Esses compostos também podem passar ao longo da cadeia alimentar e serem encontrados até mesmo no leite materno.

Um dos grandes problemas é que os agrotóxicos são altamente persistentes, ou seja, permanecem na água e solo por muito tempo, além de serem carregados pelo ar, o que aumenta o seu potencial de contaminação. Dados do Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (Sisagua), órgão vinculado ao Ministério da Saúde, mostram que neste ano foi detectada, em mais de 2,3 mil cidades brasileiras, água “potável” contaminada por agrotóxicos.

São 27 substâncias persistentes ao tratamento convencional da água e quando combinadas atingem 99% do valor máximo tolerado pela legislação brasileira, que é 2.706 vezes o limite dos países europeus, segundo apresentado por pesquisadores e entidades em audiência pública da Fiocruz Brasília em 2019 sobre o tema.

Não podemos esquecer que se a água pós-tratamento está contaminada, aquela presente nos corpos hídricos o está continuamente. E isso compromete a conservação da biodiversidade, o funcionamento de ecossistemas e, consequentemente, a segurança hídrica.

A Associação Brasileira de Limnologia ao apontou isso ao portal de notícias UOL, em maio. A produção de água, de acordo com a bióloga Vivian Cionek, ultrapassa a capacidade da infraestrutura de concreto das estações de tratamento, que, por sua vez, demanda mais que as capacidades de mão de obra técnica e recursos de muitos municípios. Para ela, produzir água potável integra um ciclo biogeoquímico dependente da conservação da bacia hidrográfica com sua vegetação natural e livre de lançamentos de resíduos e efluentes.

O Brasil abriga, respectivamente, 20 % do total de espécies e 13,7 % da água doce disponível do planeta. Recursos nacionais, porém, importantíssimos para o equilíbrio do mundo.

Além disso, o uso indiscriminado dos agrotóxicos pode causar sérios problemas para a biodiversidade, afetando serviços ecossistêmicos essenciais para a vida dos seres humanos. Alguns dos ingredientes ativos dos agrotóxicos são inseticidas fatais para as abelhas. Esses insetos contribuem para a manutenção de populações de plantas nativas que sustentam a existência de diversas espécies e também para a produtividade agrícola.

No Brasil, as abelhas estão associadas a 132 (92%) cultivos diferentes, sendo polinizadores exclusivos de 74 deles.

É estimado que o valor do serviço ecossistêmico de polinização para a produção de alimentos no país gira em torno de R$ 43 bilhões anuais (cálculo realizado para 67 plantas, entre elas soja, café, laranja e maçã que representam 80% desta quantia). Por isso, a redução das populações de abelhas, além de ter um impacto negativo para a biodiversidade, também pode levar a prejuízos econômicos para o setor agrícola.

O Brasil é um dos líderes na exportação de culturas agrícolas, como a soja, que é destinada a diversos países, especialmente para a produção animal. Por isso, a possível aprovação deste PL (que agora aguarda avaliação pelo Senado Federal) deveria ser uma preocupação global, uma vez que o uso de insumos produzidos com agrotóxicos na alimentação animal afeta também a qualidade do produto final. Como já avaliado em um relatório da Organização das Nações Unidas em 2017, nós não precisamos de mais agrotóxicos para alimentar o mundo. Existem soluções que já são bem conhecidas para aumentar a produtividade e que não requerem o uso intensivo de agrotóxicos, como a agroecologia.

Inclusive um projeto de lei alternativo (PL 6670/2016) poderia colocar o Brasil em uma direção melhor, iniciando um programa nacional de redução de pesticidas. Porém, esta proposta tem recebido menos atenção e é improvável que se torne lei sob o governo atual. O fortalecimento das agências ambientais e o investimento em ciência e tecnologia, especialmente baseados em espécies e produtos nacionais, são medidas necessárias para atingirmos o desenvolvimento sustentável no agronegócio.

Autores
AFONSO MURATA é professor titular do Departamento de Fitotecnia e Fitossanitarismo e membro do Observatório de Agrotóxicos da UFPR
ANDRÉ CAVALCANTE é engenheiro ambiental e mestrando em Engenharia Ambiental (PPGEA) da UFPR
NATALI MILLER é bióloga, mestre em aquicultura e desenvolvimento sustentável e doutoranda em Ecologia e Conservação pela UFPR
LAÍS CARNEIRO é engenheira ambiental (UNIFEI) e doutoranda em Ecologia e Conservação pela UFPR
LARISSA FARIA é mestre em Ecologia e Conservação pela UFPR
JEAN VITULE é professor no Departamento de Engenharia Ambiental e coordena o Laboratório de Ecologia e Conservação da UFPR
➕ Artigo baseado no comentário “Brazilian pesticides law could poison the world“, publicado na seção de cartas da revista Science em abril.

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Este texto foi originalmente publicado pela Ciência UFPR [Aqui!].

Rio Paraná está com água de baixa qualidade, mostra estudo

Antes mesmo de lançamento de efluentes, mais da metade das amostras de água do rio Paraná não tinham boa qualidade

Ponte da Integração Brasil- Paraguai, no Rio Paraná

Ponte da Integração Brasil- Paraguai, no Rio Paraná.  Foto: TV Brasil/Agência Brasil

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A região hidrográfica do rio Paraná, que abrange os estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais e Distrito Federal, é a mais populosa e de maior desenvolvimento econômico do país. A partir de 2020, a nascente de seu principal rio, o Paraná, passou a ser receptora dos efluentes secundários da estação de tratamento de esgoto (ETE) localizada em Aparecida do Taboado (MS). Em artigo publicado na sexta (10) na “Revista Engenharia Sanitária e Ambiental”, pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Brasil alertam que o lançamento desses efluentes pode causar deterioração da qualidade da água – que já era comprometida – afetando as atividades de piscicultura, turismo e recreação da região.

O trabalho mostra que o rio Paraná, antes do lançamento dos efluentes, tinha mais da metade de suas amostras analisadas (57% – 61%) comprometidas, não atendendo à Resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) n° 357/05 para demanda bioquímica de oxigênio e fósforo total, respectivamente. O potencial de impactos negativos está relacionado a esses dois fatores e à presença da bactéria Escherichia coli, indicando que o lançamento pode resultar na deterioração da qualidade da água do rio e comprometer seus múltiplos usos. Já a análise realizada no córrego Rondinha, quando ainda era o receptor dos efluentes da estação de tratamento de esgoto de Aparecida do Taboado, apontou a qualidade da água entre ruim e péssima.

A qualidade da água nestes pontos amostrais foi avaliada por meio do índice da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (IQACETESB), que utiliza parâmetros físicos, químicos e biológicos, como temperatura, turbidez, pH, demanda bioquímica de oxigênio, fósforo total e coliformes fecais (Escherichia coli). A escala do índice compreende as gradações ótima (80 – 100), boa (52 – 79), regular (37 – 51), ruim (20 – 36) e péssima (0 – 19). A qualidade geral do rio Paraná foi avaliada como boa (IQACETESB ≥ 72).

Por que a coleta das amostras precedeu o lançamento de efluentes?

Os autores explicam que a análise foi feita antes do lançamento dos efluentes para poder fornecer uma base documental e subsídios para discussões sobre os possíveis impactos ambientais e sociais da ampliação da estação de tratamento de esgoto, operada pela Empresa de Saneamento de Mato Grosso do Sul (Sanesul). Os monitoramentos foram realizados em quatro pontos específicos, no período de agosto de 2019 a fevereiro de 2020. Em junho de 2019, também foi feita uma coleta de amostras em três locais do córrego Rondinha, onde eram lançados os efluentes anteriormente.

Para João Miguel Merces Bega, um dos autores do artigo e doutorando do Programa de Engenharia Hidráulica e Saneamento da Escola de Engenharia de São Carlos da USP, diante desse quadro é necessário monitorar constantemente a qualidade da água. Isso deve ser feito, principalmente, na área a jusante do ponto de lançamento, onde há empreendimentos turísticos, como um balneário e ranchos utilizados para moradia, locação e lazer.

A princípio, segundo ele, o estudo não terá continuidade. “No entanto, pesquisadores e gestores ambientais podem consultar o artigo e usar os nossos resultados em seus trabalhos. Seria interessante avaliar a qualidade da água do rio Paraná, nos mesmos pontos amostrais do nosso trabalho, para verificar as alterações provocadas pelo lançamento dos esgotos tratados”, sugere.


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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Bori [Aqui!].