Agrotóxicos, uma das esfinges que ameaçam devorar o governo Lula

lula favero

Ao escolher o senador e agropecuarista Marcos Fávero (PSD/MT) para chefiar o Ministério da Agricultura, o presidente Lula se afastou do seu compromisso com a criação de uma agricultura de bases ecológicas

Nesta 4a. feira, o Diário Oficial da União publicou o Ato No. 15 de 31 de março de 2023 por meio do qual foram autorizados mais 11 agrotóxicos para comercialização no território nacional. Com isso, o governo Lula já totaliza 59 agrotóxicos desde janeiro, em uma demonstração de que, apesar de mais lenta, a onda de liberações de agrotóxicos segue inabalada, em uma sinal de que os compromissos com o latifúdio agro-exportador e as corporações multinacionais também se mantém firmes e fortes.

Como já escrevi aqui neste mesmo blog, a questão dos agrotóxicos é uma espécie de farol de como efetivamente o governo Lula se comportaria, se mais próximo ou distante dos compromissos de campanha. Lembro ainda que no seu discurso da vitória, o presidente Luís Inácio Lula da Silva se comprometer a avançar um modelo de agricultura mais sintonizada com o meio ambiente, de modo a criar uma agricultura de bases ecológicas.

A primeira sinalização de que do discurso à prática haveria uma boa distância foi a nomeação do senador Marcos Fávero (/PSD/MT) para o cargo de Ministro da Agricultura. A questão é que Fávero, além de ter um histórico de proximidade com o latifúndio agro-exportador matogrossense, também apoia a implementação do Pacote do Veneno, legislação que enfraquecerá de forma ainda mais flagrante a liberação, venda, uso e manuseio de agrotóxicos no Brasil.  Em outras palavras, com Fávero na chefia do ministério da Agricultura, não é de se surpreender que a chuva de agrotóxicos continue.

Cartazes chamam políticos pró-flexibilização de agrotóxicos de 'bancada do  câncer' - 09/02/2022 - Ambiente - Folha

Cartazes nas ruas de Sâo Paulo chamam políticos pró-flexibilização de agrotóxicos de ‘bancada do câncer’

A questão mais importante é que, além de não se parar com a infindável liberação de agrotóxicos, a sinalização é que não haverá a necessária retomada de critérios mais realistas de definição de risco ou, tampouco, a retirada de substâncias que já se encontram banidas em outras partes do mundo por terem sido identificadas como causadoras de doenças graves como o câncer. Uma lista organizada pela professora Sônia Hess da Universidade Federal de Santa Catarina mostra cabalmente como os principais agrotóxicos do mercado brasileiro são responsáveis por uma grande lista de enfermidades que cada vez mais tomam ares de uma epidemia causada pelo envenenamento por agrotóxicos.

A conclusão a que podemos chegar é de que a disputa política com os setores que defendem o modelo agrícola ancorado no uso extensivo e intensivo de venenos agrícolas não terá nenhuma forma de apaziguamento sob o governo Lula. A saída será a continuidade das pesquisas que mostram o efeito catastrófico que essa dependência química traz para o meio ambiente e para a população brasileira. Mas pesquisas são só instrumentos de identificação do problema e, quando muito, de divulgação de resultados. Sem um claro engajamento de sindicatos, movimentos sociais e partidos políticos, o problema vai apenas se agravar. 

Em suma, os agrotóxicos são uma das muitas esfinges que ameaçam devorar o governo Lula. E, pior,  a todos nós juntos.

Contaminação por chumbo continua adoecendo crianças na América do Sul

canos chumboNa América Latina há uma grande porcentagem de crianças com altos níveis de chumbo no sangue devido às diversas fontes de exposição. Na foto, meninas brincam sobre canos de chumbo ao ar livre em La Oroya, Peru. Crédito da imagem: Chiqaq News , sob licença da Creative Commons (CC BY 4.0

Por Pablo Corso para a SciDev

As concentrações de chumbo no sangue diminuíram consideravelmente nas últimas décadas em todo o mundo, mas na América Latina –particularmente no Peru e no México– a intoxicação por este metal pesado segue sendo um fenômeno preocupante que afeta principalmente as crianças .

Embora o tetraetilo de chumbo (TEL) não seja usado como aditivo de combustíveis para automóveis, outras fontes de exposição causam um dano persistente ao ambiente e à saúde humana, como o consumo de água contaminada de encanamentos antigos, as baterias ácidas, certas pinturas , os incêndios, a queima de resíduos e até mesmo a gasolina (gasolina com querosone usada na indústria aérea), detalha um artigo que será publicado na edição impressa de maio da revista Chemosphere .

Por sua toxicidade extrema, a OMS classifica o chumbo como uma das dez substâncias de maior preocupação para a saúde . Concentrações elevadas podem gerar alterações cognitivas e neuromotoras, com cerca de 600 milhões de casos anuais de incapacidade intelectual em crianças .

“Eles absorvem o chumbo rapidamente e eles podem nascer com déficits de desenvolvimento se suas mães foram expostas durante a gravidez”, explica via WhatsApp Abel Gilvonio, assessor da Plataforma Nacional de Pessoas Afetadas por Metais Tóxicos do Peru, onde o tema é especialmente sensível, já que mais de 10 milhões de pessoas (31% da população) estão expondo metais pesados ​​e outras substâncias químicas, segundo o próprio Ministério de Saúde. Eles podem nascer com déficits de desenvolvimento se suas mães tiverem sido expostas durante a gravidez. Destes, 80% são crianças de até onze anos de idade.

“O chumbo danifica todos os órgãos, mas tem uma afinidade particular com o cérebro”, acrescenta a pesquisadora mexicana Mara Téllez Rojo, uma das autoras de um estúdio que revelou que em 2020 em torno de 17% das crianças( 1,4 milhões) de entre um e quatro anos de seu país estavam intoxicadas por esse metal. “É um neurotóxico que gera problemas de comportamento, atenção e agressividade”, afirmou.

Também foram relatados condições cardiovasculares, respiratórias, hepáticas, renais e reprodutivas, e até mesmo efeitos cancerígenos.

“O chumbo danifica todos os órgãos, mas tem uma afinidade particular com o cérebro.”

Mara Téllez Rojo, Instituto Nacional de Saúde Pública, México

Após a eliminação do TEL,  houve um rápido declínio nos níveis atmosféricos globais, afirma em um correio eletrônico Diego Lacerda, um dos autores do trabalho publicado pela Chemosphere .

“Sem dúvida, as milhões de toneladas de toneladas emitidas se depositam no solo e seguem uma fonte de exposição” por meio de seu ingresso na cadeia alimentar.

“Em geral, os países que mais tardaram em eliminar o TEL são os que têm populações com maiores níveis de chumbo no sangue”, explica.

Na América Latina, esse processo começou no Brasil e na Colômbia (1991), para continuar na Argentina, Bolívia (1996), Equador, México (1997), Paraguai (2000), Chile (2001), Uruguai (2003), Peru e Venezuela ( 2005).

Fonte: Chemosphere .

Depois da África, a América do Sul é a região com as concentrações mais altas, especialmente em Porto Rico (10,6 microgramas por decilitro – μg/dl), México (10,5), Peru (8,7) e Uruguai (6, 2).

Enquanto os Estados Unidos consideram que os valores de 3,5 μg/dl são uma intervenção americana, a Organização Mundial de Saúde sustenta que não existem níveis de seguro.

É importante que os países monitorem a contaminação ambiental e humana”,  afirma Lacerda, para quem “a prevenção primária é a forma de reduzir a exposição”.

Em 2017, uma revisão de estudos sobre crianças latino-americanas sugeriu que a porcentagem de menores de idade estava subestimada. Este ano, um relatório atualizado descobriu que as concentrações de chumbo no sangue de crianças pequenas excedem os limites recomendados na metade dos estudos avaliados.

Fonte: Chemosphere .

Crianças com chumbo no Peru e no México

Durante mais de meio século, a minera estadounidense Cerro de Pasco operou no centro do Peru vertendo chumbo, mercúrio e outros minerais tóxicos no solo e na água , especialmente na cidade de La Oroya. Isso resultou em múltiplos casos de leucemia crônica, aplasia medular severa e diminuição do nível intelectual .

A intervenção de organismos internacionais de direitos humanos não tem sido suficiente para que o estado ou a atual concessionária (Volcan, de participação majoritária suíça) ofereça respostas satisfatórias.

A Comissão Multissetorial criada em 2020 para abordar a problemática “não está em funcionamento, porque está pendente a aprovação de seu regulamento”, explica Gilvonio, que critica a substituição dos técnicos ambientais “por pessoal com pouca experiência no assunto”.

Enquanto isso, a Defensoria do Pueblo segue reivindicando a implementação de um sistema de informação sobre a qualidade das fontes hídricas e a regulamentação de uma lei para fortalecer a atenção dos afetados.

No México, a situação não é melhor. Segundo o estudo de Téllez Rojo e seus colegas, a maioria das mães de crianças intoxicadas por chumbo havia usado utensílios de cerâmica vidrada durante a gravidez, uma tradição antiga que, há pouco tempo, é a principal fonte de contaminação no país.

A cerâmica de barro vidrado, uma tradição artesanal no México, é uma das principais vias de exposição ao chumbo no México. Crédito: Secretaría de Salud de México . Imagem de domínio público.

“O esmalte com o qual se vendem as peças é a base de chumbo”, precisa a investigadora. Como não está completamente fixado, as altas temperaturas dos alimentos fazem com que o pó se liberte e os contamine.

Diante desse panorama, o estado impulsa alianças com diversas organizações para capacitar os ceramistas na transição para esmaltes com metais inócuos, como o boro.

A investigadora também planeja a necessidade de indagar sobre outras fontes de exposição, como a exploração de minas e o trabalho em fundidoras, ladrilhadoras, com soldas ou pinturas.

Às vezes se combinou mais de um fator, como no caso de Puebla, onde a atividade do vulcão Popocatépetl e a contaminação da Barragem de Valsequillo chegaram a um alarmante 46 por cento de casos.

A nível governamental “se poderia fazer mais”, reconhece Téllez Rojo. “Em novembro de 2019 foi lançado um programa para atender o problema, mas se deveu à pandemia. Queremos que se retome, já que atualmente não há um sistema que monitore o chumbo no sangue e cuide das vítimas.”


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Este artigo foi produzido pela edição de América Latina e Caribe de  SciDev.Net e publicado [Aqui!] .

Pesquisadoras do Centro de Tecnologia Mineral analisam exposição ao mercúrio na Terra Indígena Yanomami

Vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, Cetem enviou equipe para coletar amostras e analisar exposição ao mercúrio

unnamed (18)Foto: Fernando Frazão (Agência Brasil)

Uma equipe formada por quatro pesquisadoras do Centro de Tecnologia Mineral (Cetem), instituto de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), está na Terra Indígena Yanomami, em Roraima, para avaliar a exposição da população ao mercúrio, poluente usado no garimpo e de alta periculosidade para a saúde.

As pesquisadoras, que integram o Laboratório de Especiação de Mercúrio Ambiental, estão coletando amostras de cabelo da população indígena para analisar a quantidade de mercúrio presente. O trabalho faz parte das ações emergenciais de saúde e meio ambiente promovidas pelo governo federal.

Segundo a pesquisadora Zuleica Castilhos, a principal forma de contaminação humana por mercúrio é pelo consumo de peixe. As gestantes, ela acrescenta, formam o grupo mais vulnerável já que o metilmercúrio pode atravessar a placenta e causar efeitos neurológicos irreversíveis ao feto.

“As equipes do Ministério de Saúde estão produzindo material explicativo e documentos técnicos para o entendimento detalhado de todo o processo de coleta e de análise por parte das lideranças indígenas, visando a ativa participação das comunidades e o seu consentimento para a coleta de dados epidemiológicos e de cabelo para as análises de mercúrio dentro do território indígena”, explicou a pesquisadora.

Zuleica Castilho afirmou que o trabalho seguirá até o fim do mês de março, podendo ser prorrogado. “Os laudos individuais serão disponibilizados para o Ministério da Saúde, que fará o encaminhamento para o desenvolvimento de ações de vigilância e assistência à saúde.”

Também participam do trabalho as pesquisadoras Líllian Maria Borges Domingos, Jéssica Zickwolf Ramos e Thainá Farinchón.

Peixes com “níveis mais altos de herbicidas no mundo” são encontrados em bacia dominada por monoculturas de soja na Argentina

sabalo-Parana-996x567Curimbatás (Prochilodus lineatus) são altamente consumidos em toda a bacia do Paraná. Crédito da imagem: Jonas Techy Potrich/Wikimedia Commons, sob licença Creative Commons (CC BY-SA 3.0)

Os peixes do Río Salado, afluente do Paraná (o maior rio sul-americano depois do Amazonas), mostrarão restos de novos inseticidas, herbicidas e fungicidas aplicados em cultivos transgênicos de soja, milho e algodão que abundam nessa bacia fluvial.

Embora os efeitos em peixes e humanos ainda não estejam completamente certos, os autores aconselham sobre a necessidade de medidas extremas de precaução em um dos cursos de água mais importantes do país, que provê alimento tanto no âmbito local como para exportação.Estudio planta que “se necessita urgentemente aumentar a distância entre os cultivos transgênicos dependentes de agrotóxicos e os ecossistemas aquáticos, assim como melhorar a abordagem dos riscos ambientais”. Rafael Lajmanovich, responsável pela pesquisa,  disse ao SciDev.Net que essa distância deveria ser de 1.000 metros como mínimo.

Os pesquisadores analisam sedimentos do rio, músculos e vísceras de 16  peixes comprados de pescadores ao longo de 100 quilômetros de alta produtividade agrícola.

No tecido muscular, há “concentrações muito altas” do inseticida cipermetrina (até 204 microgramas por quilo); do fungicida piraclostrobina (50 μg/kg); dos herbicidas glifosato (187 μg/kg), junto com seu ácido de degradação AMPA (3116 μg/kg), e glufosinato de amônia (677 μg/kg).

Antes deste trabalho, os maiores níveis de glifosato registrados em peixes eram “menores a 10 ug/k” e “não havia” informações sobre a presença de glufosinato, assegurou Lajmanovich em um correio eletrônico.

“É necessário aumentar urgentemente a distância entre os cultivos transgênicos dependentes de pesticidas e os ecossistemas aquáticos, assim como melhorar o tratamento dos riscos ambientais”.

Publicado em: “Cocteles de residuos de plaguicidas en peces Prochilodus lineatus del río Salado (América del Sur): Primer registro de altas concentraciones de herbicidas polares”.

Um estudo sobre os efeitos de herbicidas polares publicado em 2021 detectou níveis máximos de AMPA de 300 ug/k no tecido muscular e de 650 ug/k no fígado de peixes Hoplosternum littorale (mais conhecidos como cascudos) da mesma província, precisou em outro e-mail Andrea Rossi, uma das autoras. Embora não tenho sido encontradas  evidências de danos celulares ou efeitos neurotóxicos, é possível encontrar alterações nos parâmetros hematológicos dos espécimes amostrados.

A exposição aguda às quantidades encontradas nesta ocasião, sem nenhuma dúvida, poderia gerar efeitos “múltiplos”, tanto em peixes como em humanos, que incluíam genotoxicidade (capacidade de causar danos genéticos) e disrupção hormonal, associada ao aparecimento de tumores, malformações , disfunções do aparelho reprodutor, neurotoxicidade ou problemas imunológicos, explica Lajmanovich.

Entre 2019 e 2022, o mesmo investigador ―professor titular da Cátedra de Ecotoxicologia da Universidade Nacional do Litoral― fez várias advertências semelhantes sobre os efeitos combinados do glifosato com o arsénico e com os microplásticos .

Os autores reconhecem que a alta solubilidade dos agrotóxicos faz com que a determinação dos níveis de contaminantes seja “problemática”, embora essa mesma solubilidade provoca que sua toxicidade aumente em ambientes aquáticos, onde as membranas dos peixes facilitam a absorção.

Nesse sentido, o médico  Eric Speranza – que há 14 anos encontrou altos níveis de hidrocarbornetos em curimbatpas próximos da cidade de Buenos Aires – disse por telefone que está satisfeito que foi possível medir o glifosato e o glufosinato no tecido muscular do peixe.

“Está evidenciando o impacto da atividade agrícola sojeira”, avisou o investigador do Laboratório de Química Ambiental y Biogeoquímica das universidades argentinas de La Plata e Arturo Jauretche.

Em relação a uma possível vedação provincial sobre a pesca, Speranza é cautelosa, já que se trata de uma medida que “requer ter em conta fatores econômicos e sociais, como as próprias pessoas que vivem dessa atividade”.

Fontes do Servicio Nacional de Sanidad y Calidad Agroalimentaria –encarregado de controlar a segurança dos alimentos de origem animal e vegetal na Argentina – diz ao SciDev.Net que o relatório “recebeu relativa importância”, pois eles têm dúvidas sobre sua metodologia,  , por exemplo, em relação à quantidade de exemplares analisados.

A agência atualmente não mede vestígios de herbicidas em peixes; limites máximos de resíduos (LMR) são estabelecidos apenas para vegetais. Mesmo assim, eles sugerem que os valores encontrados não representam risco à saúde humana. No caso da soja para consumo, por exemplo, o LMR para glifosato é de 5.000 μg/kg.

No entanto, os autores do trabalho insistem em que “a contaminação por agrotóxicos do Rio Salado representa uma ameaça prejudicial à viabilidade da população de peixes e outros organismos aquáticos, e um grande risco para os consumidores”.

Propõe-se uma regulação clara sobre os níveis máximos toleráveis ​​para essas substâncias, permitindo uma melhor abordagem da situação.

Diversas tentativas da SciDev.Net para obter uma declaração oficial sobre medidas futuras por parte do governo de Santa Fé foram infrutíferos até o fechamento deste texto

Link para o resumo do artigo na Science of the Total Environment


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Este artigo foi produzido pela edição de América Latina e Caribe de  SciDev.Net [Aqui!].

Estudo mostra que o Rio Doce segue despejando metais pesados no oceano por causa do desastre de Mariana (MG)

metales-Rio-Doce-996x567Um dos trechos do Rio Doce afetados pelos rejeitos da barragem. Crédito da imagem: Felipe Werneck, Ibama, sob licença Creative Commons (CC BY-SA 2.0)

[RIO DE JANEIRO] As regiões costeiras ao norte e as áreas ao sul da desembocadura do Rio Doce no estado de Minas Gerais, ao sul do Brasil, devem seguir sendo monitoradas permanentemente para avaliar suas condições ambientais e biológicas por causa do desastre ambiental ocorrido no dia 5 de novembro de 2015 pelo colapso da represa de rejeitos do Fundão.

A ruptura liberou 50 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro, que deslocou centenas de famílias e afetou 41 cidades e rios, incluindo o rio Doce. A represa pertence à mineradora Samarco, controlada pelas mineradoras Vale e BHP Billiton.

Agora um novo estudo que será publicado na edição de março do  Marine Science Bulletin que mapeou as rotas dos metais quatro anos depois (novembro de 2019) de ter ocorrido o delito ambiental,  mostra que o rio continua sendo uma fonte de dispersão de metais  para o Oceano Atlântico.

Os resultados corroboram com o outro de 2019 que havia sinalizado a tendência de dispersão para o norte.

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Este texto escrito originalmente em espanhol foi publicado pela SciDev.Nert [Aqui!].

Fumo produzido no Sul do Brasil usa agrotóxicos banidos internacionalmente

Multinacionais do setor orientam fumicultores a aplicarem ao menos 11 produtos químicos com substâncias proibidas na União Europeia, que, apesar disso, é o principal comprador do tabaco nacional; agricultores relatam rotina de adoecimento e contaminação

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Por Poliana Dallabrida | Fotos: Fernando Martinho/Repórter Brasil 

Mais de 8 milhões de pessoas morrem todos os anos pela exposição à fumaça do cigarro, estima a Organização Mundial da Saúde. O que esse cálculo não inclui são os riscos à saúde para quem produz o tabaco. Substâncias que podem causar câncer, são tóxicas para a reprodução humana ou desregulam a produção hormonal do corpo estão presentes em parte dos agrotóxicos usados por fumicultores do Brasil, maior exportador mundial.

Uma investigação exclusiva da Repórter Brasil e da organização de jornalismo investigativo dinamarquesa Danwatch revela que 11 produtos usados nas lavouras brasileiras de fumo são feitos à base de substâncias – chamadas de ingredientes ativos – banidas na União Europeia. Mesmo assim, é justamente essa região o principal destino do tabaco exportado pelo Brasil. Em 2022, o bloco recebeu 40% das exportações brasileiras de tabaco. A Bélgica é o maior comprador, à frente da China e dos Estados Unidos.

Repórter Brasil teve acesso às listas de agrotóxicos prescritos pelas multinacionais Philip Morris e British American Tobacco (BAT) a seus fornecedores. Juntas, as empresas recomendam o uso de até 25 produtos químicos nas lavouras, entre eles os inseticidas Actara (com o ingrediente-ativo tiametoxam), Certero (triflumurom), Evidence 700 WG e Confidor Supra (imidacloprido), Nomolt 150 (teflubenzurom) e Talstar (bifentrina), os fungicidas Dithane NT, Ridomil Gold (mancozebe) e Rovral (iprodiona) e os herbicidas Boral 500 (sulfrentazona) e Yamato SC (piroxasulfona) – cujos ingredientes ativos são proibidos no bloco europeu por causarem danos à saúde.

“Admitir que usamos agrotóxicos cujos estudos já estão consolidados e apontam que fazem mal à saúde, é nos colocarmos como um país submisso num mercado global de commodities”, afirma o pesquisador Francco de Souza e Lima, do Núcleo de Estudos Ambientais e Saúde do Trabalhador da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT). “Para priorizar a exportação, nos sujeitamos a passar mal, a adoecer, e morrer, porque o resultado da exposição a essas substâncias é adoecimento.” 

A reportagem visitou dez propriedades fumicultoras nos três estados da região Sul do país, responsável por 95% da produção nacional, e não encontrou nenhum trabalhador usando os equipamentos de proteção (EPIs) recomendados para uma aplicação, teoricamente, segura dos produtos químicos.

fumo 3fumo 4Trabalhador aplica agrotóxico para impedir o crescimento de brotos nos pés de tabaco sem os equipamentos indicados para a atividade, como luvas, máscara e macacão

Consultadas pela reportagem, as multinacionais processadoras de tabaco informaram que estão substituindo os produtos danosos – ou recomendando essa substituição aos agricultores com os quais têm contrato de fornecimento. A Japan Tabacco International (JTI), por exemplo, diz que substituiu o uso dos pesticidas Actara, Confidor Supra e Talstar e que não recomenda o produto Yamato SC. “Cada país ou região é responsável por liberar ou proibir o uso de qualquer ingrediente ativo”, complementa.

A BAT afirmou que seus fornecedores usam apenas “agroquímicos aprovados, com a menor toxicidade possível” e que devem evitar produtos classificados como altamente perigosos (highly hazardous pesticides ou HHPs, na sigla em inglês) pela Organização Mundial da Saúde. “Quaisquer agroquímicos classificados como HHPs, usados antes de 2018, foram substituídos ou retirados da cadeia de produção da BAT”.

A Philip Morris respondeu que “vem promovendo proativamente o uso de compostos biológicos em detrimento de produtos químicos, visando reduzir o uso de defensivos”. 

Já a Alliance One recomenda o uso de produtos químicos registrados pelos órgãos governamentais competentes. A Universal Leaf não respondeu aos questionamentos enviados até o fechamento desta reportagem. O espaço segue aberto para manifestações futuras. Confira aqui a íntegra das respostas das empresas. 

Tabacolândia

O pórtico de entrada da cidade gaúcha de Santa Cruz do Sul traz, em destaque, a logomarca da fabricante de cigarros Souza Cruz, antigo nome da BAT Brasil. O detalhe não deixa dúvidas: o visitante está entrando na capital nacional do fumo. No município, localizado a 150 km de Porto Alegre e com pouco mais de 130 mil habitantes, estão instaladas as fábricas de multinacionais donas dos rótulos Marlboro (Philip Morris) e Lucky Strike (BAT).

O PIB per capita local é 5 vezes maior que a média do estado. O centro de Santa Cruz tem calçadas limpas repletas de canteiros de flores e uma praça com grama impecavelmente cortada, que é coroada por uma imponente igreja em estilo gótico construída por imigrantes alemães e italianos. As marcas do setor tabagista estão por todos os lados. Em novembro, quando a Repórter Brasil visitou o município, as principais avenidas estavam decoradas com bandeiras da Oktoberfest da cidade, e as multinacionais Philip Morris, BAT, a americana Universal Leaf e a japonesa JTI se destacavam entre as patrocinadoras da festa.

Distante apenas 35 km de Santa Cruz do Sul está Vale do Sol, município de 11 mil habitantes formado sobretudo por pequenas propriedades rurais fornecedoras de tabaco. O cenário ali é bem diferente da potência econômica da cidade vizinha: casas simples dominam a paisagem, onde ainda se pode ver carroças carregadas de folhas de fumo puxadas por bois e famílias inteiras dedicadas ao cultivo. São pequenos e médios municípios como Vale do Sol que garantem o fornecimento de tabaco para o mundo. O Brasil é o segundo maior produtor global, atrás apenas da China, e principal exportador.

No interior de Vale do Sol vive Daniel*, que produz tabaco junto com a esposa, o filho e a nora para a Universal Leaf. Consciente dos riscos que a aplicação incorreta de agrotóxicos pode trazer à sua saúde, ele admite que não consegue usar a roupa de proteção recomendada pelas empresas, que inclui uma segunda pele de mangas longas e calça comprida, mais um macacão de lona, botas e luvas e ainda uma máscara que cobre rosto e pescoço inteiramente. “Se botar a roupa, não aguenta de calor. Faz mais mal ainda”, resume Daniel*. Seu verdadeiro nome e de todos os fumicultores entrevistados serão ocultados para evitar represálias às famílias, como o cancelamento do contrato de venda de fumo.

Uma pesquisa publicada em 2017 mostra que o fumo usa, em média, 60 litros de agrotóxico por hectare plantado. Essa foi a maior média entre os 21 cultivos analisados no estudo, produzido por pesquisadores do Núcleo de Estudos Ambientais e Saúde do Trabalhador da UFMT, referência em pesquisas sobre o tema. “Analisamos o uso do produto formulado, ou seja, que ainda não foi diluído, que é o que é vendido aos agricultores”, explica o pesquisador Francco Antonio Neri de Souza e Lima, um dos autores do trabalho.

Uma conclusão completamente oposta aparece numa pesquisa conduzida por dois professores da Esalq, a escola de agricultura da Universidade de São Paulo (USP), e amplamente compartilhada em materiais de divulgação do sindicato das indústrias do tabaco. Publicada em novembro de 2019, a pesquisa aponta que o tabaco, entre 19 culturas analisadas, demanda a menor quantidade de agrotóxicos. Tomate, maçã e batata inglesa são, proporcionalmente, as lavouras que mais utilizam, sustenta o documento. Nesse estudo, os pesquisadores fizeram os cálculos com base em quilogramas de ingrediente ativo por hectare cultivado.

Piscina de agrotóxicos

No caso do tabaco, a maior parte dos agrotóxicos é usada na produção das mudas, feitas em pequenos canteiros. Mas também há pulverização na etapa final de crescimento das plantas.

Em propriedade fornecedora da Philip Morris, piscina onde foram produzidas as mudas de tabaco, regadas com misturas de agrotóxicos, é deixada à céu aberto

Para a produção das mudas de fumo, as sementes são plantadas em bandejas de plástico dispostas lado a lado numa lona no chão. Cercada por tijolos ou tábuas de madeira, essa área, que os fumicultores chamam de “piscina”, é preenchida com até 10 centímetros de água e banhada com pesticidas, jogados com um regador de plantas. Quando as mudas atingem cinco centímetros, são retiradas das bandejas e plantadas na terra. 

Há riscos de contaminação do solo se a lona estiver furada ou não for corretamente descartada após a produção das mudas. Era esse o caso da propriedade de Joaquim* em Vale do Sol. Os 50 mil pés de fumo cultivados ali seriam futuramente vendidos para a Philip Morris. A piscina outrora usada para a produção de mudas estava cheia de água da chuva. Dentro, boiavam uma embalagem de fertilizante e um pequeno sapo morto.

A segunda situação de exposição mais intensa do fumicultor com os agrotóxicos se dá dias antes da colheita. Quando o tabaco está quase “no ponto”, como dizem, é preciso cortar os brotos que surgem no topo da planta. Enquanto um trabalhador quebra o broto do tabaco, outro despeja um jato do agrotóxico antibrotante no talo remanescente da planta. Para isso, tanto a Philip Morris como a BAT recomendam o uso dos produtos Deoro ou PrimePlus.

Numa manhã quente de novembro, o fumicultor Tiago*, fornecedor da JTI, fazia a mistura dos produtos sem sequer usar luvas. Os frascos estavam jogados no chão, ao lado do carrinho que levava a bomba costal usada para aplicação do produto e de galões com água usada para diluir o agrotóxico. Questionado sobre o uso do EPI, ele começou a gaguejar, constrangido. “A gente tem que ter, só que é muito quente. Eu estou acostumado a trabalhar assim. Só que se a firma me pegar..”, disse, sem conseguir terminar a frase. Por sua vez, a empresa informa que fornece, a preço de custo, “uma vestimenta produzida com tecido mais leve e que possui sistema de ventilação” para aplicação dos químicos. Leia as respostas na íntegra aqui.

A poucos metros dali, outro trabalhador sem máscara, luvas ou roupas impermeabilizantes aplicava o antibrotante com uma bomba costal. Nessa área, que pertence a Francisco*, pai de Tiago*, a produção costuma ser vendida para indústrias locais ou para “picaretas”, como são chamados os compradores de fumo que atuam como intermediários entre os produtores e as indústrias processadoras.

Francisco reconhece que são raras as ocasiões em que o equipamento completo é usado. “Usamos só quando estamos trabalhando na beira da estrada porque não sabemos quando o Ministério Público [do Trabalho, órgão responsável pela fiscalização das condições de trabalho no setor] vem. [Com a roupa] tu sua, sua, sua. Tu não aguenta”, diz.

Joaquim*, fornecedor da Philip Morris, mostrou à reportagem o pacote de EPIs fechado, apesar de garantir que faz uso do equipamento completo sempre que necessário. À Repórter Brasil, a empresa reforçou que o uso dos EPIs é “obrigatório e previsto contratualmente”, verificado em visitas técnicas e também por meio de auditorias externas. Leia as respostas na íntegra aqui.

Pacote com equipamentos de proteção são oferecidos a preço de custo para fumicultores, mas o calor e a redução da mobilidade dificultam uso no dia a dia

“Olha, acho que uns 10% dos produtores usam todo o equipamento que as empresas dão”, estima Maycon, jovem que cresceu numa família de fumicultores, mas que hoje atua numa cooperativa que produz sementes orgânicas em Santa Cruz do Sul. “O resto não usa. Ou só usa quando tem visita técnica”.

“O uso do EPI é uma realidade de um universo paralelo”, afirma o pesquisador Francco Antonio Neri de Souza e Lima, da UFMT. “O EPI é difícil de ser usado. São roupas de borracha, impermeáveis. O setor tem uma tentativa de responsabilizar o trabalhador: ‘é ele que não utiliza’, ‘é ele que não quer usar’. Mas as condições de trabalho são difíceis para usar o equipamento; é quente, atrapalha a mobilidade”, explica.

Intoxicação no trabalho

É comum ouvir histórias de intoxicações por agrotóxicos na produção de fumo. Maycon conta uma experiência recente com o antibrotante Primeplus. Um mês antes de conceder entrevista à reportagem, num sábado de sol, enquanto ele  desbrotava o fumo, o sogro aplicava o antibrotante Primeplus. “Eu só sentia o cheiro daquele produto. À noite começou a me dar dor de cabeça, vômito. No outro dia eu não aguentei mais e fui pro hospital. Fiquei meio dia lá, tomei soro, medicação. Tinha tanta dor na cabeça que meus olhos pareciam que iam pular pra fora”, relatou.

Pesquisas listam os riscos à saúde dos fumicultores com a exposição prolongada aos agrotóxicos usados no setor. Um estudo publicado em 2017 realizou entrevistas e exames clínicos em 46 produtores de tabaco de Rio Azul (PR), município com a sexta maior área de lavoura de fumo do país. Do grupo analisado, 20 fumicultores foram diagnosticados com intoxicação crônica por agrotóxicos – diferentemente da aguda, essa ocorre pela exposição aos produtos ao longo de vários anos.

Outro estudo, de 2014, aponta que a intoxicação por pesticidas e o uso de agrotóxicos, especialmente os da classe de organofosforados, aumentam a taxas de suicídio. No mesmo ano, uma pesquisa realizada com 2,4 mil fumicultores mostrou ainda que exposição à agrotóxicos em sete ou mais situações – como entrada na lavoura após aplicação dos produtos químicos ou mesmo contato com a roupa usada nesse processo – aumenta em 88% a possibilidade de desenvolvimento de transtornos psiquiátricos. 

A crise de saúde mental entre fumicultores é alarmante, com um uso indiscriminado de remédios antidepressivos, segundo profissionais de saúde de municípios produtores de tabaco ouvidos em reportagem da Agência Pública.

‘Eu só queria a minha vida de volta’

A história de Maycon e de outros fumicultores ouvidos pela Repórter Brasil em campo são, em geral, de intoxicações pontuais. Mas há quem carregue o trauma, as marcas e as dores da exposição aos agrotóxicos para sempre. “Eu só queria a minha vida de volta”, resume a ex-fumicultora Lídia Maria Bandacheski do Prado.

Lídia sofre de Polineuropatia Tardia Induzida por Organofosforados, doença que contraiu pela exposição aos agrotóxicos da lavoura de fumo. Com a enfermidade, ela gradualmente perdeu o movimento das pernas, teve o movimento dos braços limitado e passou a sofrer uma série de outras complicações. São mais de sete médicos especialistas que a agricultora consulta com frequência, além de acompanhamento com fisioterapeuta, massagista e psicólogo. “Eu sinto dores terríveis que começam nas mãos e vão subindo para os braços. Tem dias que acordo e estou toda inchada, mal consigo me mexer”, relata

A ex-fumicultora mora em Rio Azul (PR). Ainda criança, com 8 anos, começou a trabalhar com os pais. “Hoje as estufas estão mais modernas, mas no meu tempo a gente dormia nas pilhas de fumo, na pilha de veneno. A empresa sugava tanto que a nossa casa era dividida com o paiol de fumo. Sentíamos o cheiro da nicotina, do veneno.”

Depois de perder o movimento das pernas como efeito da doença causada pela exposição prolongada aos agrotóxicos usados na lavoura do tabaco, Lídia Mara precisa de ajuda da mãe (ao fundo) para realizar atividades básicas do dia a dia, como preparar o almoço

Os primeiros sintomas da doença começaram em 2007, mas o diagnóstico de intoxicação por agrotóxicos veio só em 2010, depois de uma saga por diversos médicos. Em 2015, um profissional de Rio Azul atestou que a doença que Lídia havia contraído fora causada pelo trabalho. O reconhecimento do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) e a concessão da aposentadoria por invalidez chegou apenas em 2017.

Desde 2015 a ex-fumicultora trava uma batalha judicial contra a multinacional Alliance One, que mantinha contrato de compra e venda de fumo com Lídia e o esposo. Vânia Mara Moreira dos Santos, advogada de Lídia, explica que a empresa questiona o diagnóstico obtido em 2015 – o documento que associa a doença à exposição aos agrotóxicos usados no setor. 

O médico perito contratado pela Alliance One afirma que Lídia não tem polineuropatia. “Na perícia ele diz que ela tem várias outras coisas, inclusive obesidade mórbida, e que uma coisa vai ocasionando a outra, mas nada causado pelos agrotóxicos”.

O mesmo perito contratado pela Alliance One também foi coordenador de um estudo patrocinado pela Associação Brasileira de Produtores de Soja (Aprosoja) para avaliar o risco da exposição de trabalhadores rurais ao paraquate, agrotóxico com potencial de causar mutações genéticas, danos renais e doença de Parkinson. A pesquisa tinha o objetivo de reverter a proibição do agrotóxico pela Anvisa, que aconteceria em setembro de 2020. 

Segundo a advogada de Lídia, a Alliance One questiona também sua responsabilidade com a ex-fornecedora de tabaco. “Eles dizem que o contrato deles é um contrato de compra e venda, portanto eles não seriam responsáveis”, afirma. “Não existe um vínculo empregatício, mas existe uma relação de trabalho. São eles que determinam tudo que é feito na safra. Desde o momento em que entregam os agrotóxicos até quando se faz a classificação [da qualidade do tabaco], tudo é determinado pela empresa”, completa Santos.

A ex-fumicultora ganhou o processo na primeira instância. O juiz responsável pela análise do caso reconheceu o nexo causal entre a doença e o trabalho na lavoura de fumo. Reconheceu também a relação de trabalho entre a agricultora e a Alliance One. A empresa recorreu da decisão. Enquanto o processo segue em tramitação, a multinacional precisa pagar mensalmente R$ 6,4 mil para cobrir os custos médicos de sua ex-fornecedora. 

Procurada pela reportagem, a Alliance One afirmou que “não se manifesta em relação a processos judiciais em andamento”. 

Além do uso de agrotóxicos com substâncias proibidas na União Europeia, os fumicultores estão expostos aos riscos que também acontecem durante a colheita do tabaco. Nesse período, a coleta de folhas de fumo úmidas, seja pela chuva, pelo orvalho da manhã ou pelo próprio suor do trabalhador, desprende altas quantidades de nicotina, causando uma espécie de overdose da substância.

Todos que atuam no setor sabem o nome desse tipo de intoxicação: é a Doença da Folha Verde do Tabaco, diagnosticada nos anos 1970, e que tem entre os sintomas dor de cabeça, náuseas, vômito e tonturas. “É uma coisa muito triste. Se você não vai para o hospital tomar soro, não passa”, explica José*, fumicultor em Santa Cruz do Sul e fornecedor da multinacional americana Alliance One.

Nas dez propriedades produtoras de fumo visitadas pela Repórter Brasil, a reportagem não encontrou nenhum produtor ou trabalhador contratado usando o EPI completo recomendado para realizar a colheita – luvas, blusa de manga comprida e o avental plástico que funciona como capa protetora, como usado por representantes de classe e políticos locais em foto tirada durante a abertura da colheita de fumo de 2017 e divulgada pela Associação de Fumicultores do Brasil, a Afubra.

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O uso de EPIs completos para colher as folhas úmidas do tabaco, como na primeira foto, registrada durante cerimônia de abertura da colheita de 2017, é cena rara nas lavouras brasileiras (Primeira foto: Junio Nunes/Divulgação Afubra)

“Tem uma capa plástica para colocar, mas o sol é quente demais. Imagina [trabalhar] embaixo de um plástico”, afirma Daniel*, o produtor de Vale do Sol (RS) que vende para a multinacional americana Universal Leaf. “A gente até tenta se vestir, mas não dá para aguentar o calor, então a gente vai assim mesmo”, diz ele, apontando para as próprias roupas.

A Alliance One informou que suas equipes orientam sobre o uso correto e completo dos EPIs e que a vestimenta de colheita de tabaco úmido ou molhado assegura uma diminuição de 98% da exposição dérmica. “Outras iniciativas setoriais para produção de EPI estão em andamento, ainda em fase de estudos”, completou. Leia a resposta na íntegra aqui.

A Universal Leaf não respondeu aos questionamentos enviados até o fechamento desta reportagem. O espaço segue aberto para manifestações futuras. 

Esta reportagem foi realizada com o apoio do Journalismfund.eu


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Este texto foi inicialmente publicado pela Repórter Brasil [Aqui!].

Garimpo Ilegal acontece em todo território da Amazônia

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A Amazônia nunca esteve tão no centro das discussões como agora. De acordo com levantamento feito pelo Instituto Socioambiental (ISA), com base em dados do Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais (Inpe/Prodes), o desmatamento em terras indígenas aumentou em 157% durante o governo do ex-presidente Bolsonaro.

Garimpo, invasões e roubo de madeira continuam assolando terras indígenas e unidades de conservação. Áreas da floresta estão sendo vendidas via leilão para empresas explorarem petróleo e gás natural.

Boa parte deste desmatamento está associada à expansão das áreas do garimpo nos territórios, mas também pela ação de madeireiros – atividades que andam lado a lado quando o assunto é invasão de terras indígenas. Entre 2010 e 2021, aponta o MapBiomas, o garimpo em terras indígenas cresceu cerca de 625%. O aumento mais expressivo ao longo dos últimos dez anos foi registrado justamente entre 2019 e 2021 e ele não está limitado às cinco terras indígenas citadas pelo relatório.

A Igreja, sempre atenta às necessidades da comunidade, desenvolve ações e cuidados especiais com os indígenas. De acordo com o assessor da Rede Eclesial Pan-Amazônica, a REPAM-Brasil e também da Comissão Ecologia Integral e Mineração da CNBB, padre Dário Bossi, a Igreja se aproxima desses povos em defesa da vida. “Amazônia sempre foi considerada uma terra de conquista, é pautada pelo viés do extrativismo predatório”. 

“O garimpo, na verdade, é como se fosse a primeira etapa de uma invasão, que possui ciclos, onde o primeiro ciclo é a desflorestação, que depois deixa espaço ao latifúndio da soja, do boi e das siderúrgicas, como um modelo que vem avançando. Assim o garimpo entra ocupando e contaminando pequenas áreas para depois deixar abertura para outros modelos de mineração mais consistentes e impactantes e, aos poucos, ir tomando posse dos territórios, por isso, não dá para medir ou para controlar a entrada no território. Há regiões na Amazônia onde precisamos dizer não à mineração. São territórios sagrados, santuários, que precisam ser preservados”, destacou o padre.  

De acordo com o MapBiomas, em relatório publicado há cinco meses, o Pará concentra o maior número de invasões em terras indígenas. Das cinco terras listadas pelo estudo, que utilizou dados de 2021, a TI Kayapó é a mais invadida, com 11.542 hectares de área de garimpo; em segundo lugar, a TI Munduruku, com 4.743 hectares de destruição. Somadas, as duas TIs concentram 16.285 hectares de áreas com lavra ilegal de ouro, o equivalente a 17 mil campos de futebol aproximadamente. Os Yanomami vêm em terceiro. 

A Igreja, sempre atenta às necessidades da comunidade, desenvolve ações e cuidados especiais com os indígenas. De acordo com o assessor da Rede Eclesial Pan-Amazônica, a REPAM-Brasil e também da Comissão Ecologia Integral e Mineração da CNBB, padre Dário Bossi, a Igreja se aproxima desses povos em defesa da vida. “Amazônia sempre foi considerada uma terra de conquista, é pautada pelo viés do extrativismo predatório”. 

Padre Dário fala sobre a importância da atuação da Igreja na região,“Há uma sensibilidade cada vez mais forte do mundo religioso sobre a importância de repensar o modelo, como dizíamos, não pode ser mais um modelo de saque e sim um modelo de reciclagem, reuso, limites e de controle dessa sania extrativa. Essa é a única maneira para permitir uma convivência equilibrada das comunidades em seus territórios”. 

“A opção pelo extrativismo predatório, infelizmente, continua sendo a prioridade de muitos países na América Latina, naturalmente, empurrada por interesses de fora, ainda mais agora, neste tempo de crise, num tempo em que supostamente por necessidade de transição energética, se fazem necessários os famosos minerais estratégicos, portanto, a fronteira de busca desses minerais e de expansão do extrativismo vem ameaçando cada vez mais comunidades que não sabem como se defender. As comunidades indígenas e a Amazônia são como a última fronteira de resistência. O que deve mudar, com certeza, é o ritmo e a intensidade desse sistema extrativo, que não vai se sustentar por muito tempo, por isso, temos que aprender com os povos indígenas uma nova maneira de conviver com o meio ambiente que não seja tão vorazmente predadora dos nossos territórios”. 

Para a professora Márcia Oliveira, da Universidade Federal de Roraima e assessora da REPAM-Brasil, é necessário determinar a retirada dos garimpeiros que oferecem grande risco e grande contaminação ao meio ambiente, destruição da floresta, dos rios, e dos povos que necessitam viver em paz em seus territórios e viver de forma autônoma com a soberania alimentar que eles fazem subliminarmente.

 “São diversas tentativas de invasões em TI desde 2016, quando os governos Temer e após o governo Bolsonaro abriram espaços para o garimpo. São trabalhadores que são agenciados a grandes empresas ligadas ao mercado do ouro e promovem uma grande exploração do trabalho análogo ao escravo, são pessoas muito pobres entrando na região, contaminando todo território os rios com mercúrio e também contaminando com a verminose. São de 20 a 30 mil pessoas no mesmo espaço, as águas levam toda a espécie de contaminação e isso tem resultado em um surto muito grande de verminose entre os povos indígenas”, declara a professora Márcia Oliveira, assessora da REPAM-Brasil. 

São muitos os religiosos e padres que atuam e moram em aldeias. A Igreja sempre se manifestou em relação ao garimpo. E grupos fizeram denúncias na Organização das Nações Unidas (ONU).

Observatório dos Agrotóxicos: Em contradição com o discurso da vitória, governo Lula dá continuidade à liberação desenfreada de venenos agrícolas

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Venho dizendo que a questão dos agrotóxicos e a política  de liberação de produtos banidos em outras partes do mundo por sua alta periculosidade é um dos principais desafios do governo Lula, na medida em que explicitará tensões internas e pressões vindas do latifúndio agro-exportador para que a farra de liberações continue intacta.

Pois bem, a edição desta segunda-feira (13/02) do Diário Oficial da União confirma que, apesar do discurso do presidente Luis Inácio Lula da Silva no dia em que venceu as eleições presidenciais de 2022 de que em seu novo mandato a agroecologia seria priorizada para a criação de uma nova agricultura no Brasil, as coisas continuam como dantes no Quartel de Abrantes. É que com a publicação dos atos 5 e 6 de 2023 foram liberados mais 48 agrotóxicos (22 formulados e 26 produtos técnicos), dando continuidade ao processo de inserção de produtos altamente perigosos na agricultura brasileira.

Da mesma forma que ocorreu ao longo dos quatro anos do governo Bolsonaro, o “Observatório dos Agrotóxicos” do Blog do Pedlowski irá divulgar em breve as duas planilhas contendo as informações sobre cada um dos venenos liberados. Uma primeira leitura dos atos 5 e 6 mostra a persistência das mesmas características daquilo que ocorreu nos últimos 4 anos, com a presença de produtos banidos na União Europeia e a predominância de empresas chinesas no fornecimento dos “novos” agrotóxicos.

O que fica claro já no início do terceiro mandato do presidente Lula é que vai ser preciso continuar acompanhando e documentando a escalada de aprovação de venenos agrícolas, de modo a instrumentalizar e apoiar grupos de pesquisas e organizações sociais que estejam envolvidos na luta pela erradicação de agrotóxicos da produção agrícola brasileira. Apoiar a luta por uma agricultura de base ecológica continuará sendo uma das tarefas prioritárias que este blog seguirá cumprindo.

E a explicação para a prioridade acima é relativamente simples: se essa enxurrada de aprovações de agrotóxicos continuar, o Brasil será palco de uma grave crise social, econômica e sanitária nos próximos anos.

Contaminantes emergentes e turismo: uma combinação perigosa

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Esmeraldas é uma das cidades mais turísticas do Equador, devido à combinação de belas praias e um clima muito agradável.  Mas afluência turística também pode jogar contra. Crédito da imagem: Aldo Barba/Wikimedia Commons , bajo licencia Creative Commons (CC BY-SA 2.5)

Por Carmina de la Luz para a SciDev

A presença de contaminantes emergentes na água dos rios e do mar está diretamente vinculada ao turismo costeiro.  É o que sugere um estudo realizado na provincia de Esmeraldas, no Equador,  que acaba de ser publicado na Science of The Total Environment .

Os contaminantes emergentes são um grupo diverso de substâncias de detecção recente no ambiente, como medicamentos, produtos de cuidado pessoal ou de limpeza de casas e produtos agrícolas, entre muitos outros.

No final de 2019, Isabel Cipriani Ávila, professora-investigadora da Pontificia Universidad Católica del Ecuador e autora principal da pesquisa e seus colaboradores avaliaram a qualidade da água neste destino popular pouco depois de ser iniciado o confinamento para evitar a propagação do COVID-19 e o fluxo de turistas.

“Em novembro de 2020 voltamos a coletar mostras e aproveitamos para fazer a comparação de contaminantes emergentes antes e durante a pandemia, a qual foi uma oportunidade de demonstrar o impacto tão forte que o turismo tem nos nossos hábitos e no meio ambiente ”, disse Cipriani Ávila em entrevista para a SciDev.Net .

O equipamento foi calibrado para identificar e quantificar cafeína, acetaminofén (paracetamol), diclofenaco, trimetoprima e sulfametoxazol em 10 desembocaduras de ríos e 14 praias de Esmeraldas. Esses compostos foram selecionados pelo fato do Ministério da Saúde Pública do Equador considerando-los de alto uso.entre a população.

“O que mais nos surpreendeu foi observar as maiores concentrações de contaminantes emergentes nos pontos onde o grau de urbanização era baixo, mas que estava muito próximo do local de descarga de águas residuais de um grande resort”, apontou a pesquisadora.

A análise evidenciou que a contaminação por cafeína e diclofenaco diminuiu notoriamente no contexto do confinamento, quando não houve  turismo. Da mesma forma, a aparição e a quantidade das substâncias estudadas foram menores durante esse tempo. O sulfametoxazol – um medicamento antibacteriano – resultou ser a exceção, pois não foi detectado nem antes ou durante a pandemia.

Os contaminantes emergentes são de interesse para os científicos no solo porque afetam a qualidade da água, mas também por suas conseqüências na vida silvestre e na saúde humana. Associarlos com uma atividade econômica específica –como se logró com o turismo neste estúdio– é complexo, já que nos ecossistemas aquáticos intervêm múltiplas variáveis.

Para o coautor Jon Molinero, o caso de Esmeraldas evidencia o problema da desigualdade no acesso a uma recreação com água limpa no Equador: “Vemos que os desejos do turismo de alta gama estão contaminando as zonas de entorno que são sedes de pequenos hotéis e negócios com os quais as pessoas humildes obtém sua renda”.

“Os turistas vêm em busca de água limpa para tomar banho, mas a atividade em si está prejudicando esse serviço. Se não fizermos algum tipo de controle não haverá turismo simplesmente porque as águas não vão ter qualidade suficiente”.

Jon Molinero, Escuela de Gestión Ambiental – Pontificia Universidad Católica, Equador

Tal cenário poderia estar se repetindo em outros países da América Latina, onde um quarto da população vive nas costas, segundo o Banco Interamericano de Desenvolvimento . Nas nações caribenhas , o turismo equivale a 26% do Produto Interno Bruto total e no resto da região representa 10%, de acordo com um informe de 2020 elaborado pela Comissão Económica para América Latina e Caribe (CEPAL) .

“Os turistas vêm em busca de água limpa para tomar banho, mas a atividade em si está prejudicando esse serviço. Se não fizermos algum tipo de controle, não haverá turismo simplesmente porque as águas não terão qualidade suficiente”, acrescenta Molinero.

María Teresa Alarcón Herrera, que não participou da investigação, comentou no SciDev.Net que essas reflexões constituem a porta mais destacada do estudo em Esmeraldas.

“O diagnóstico ambiental que é importante, mas também está entendendo o tema desde o ponto de vista econômico. O chamado que faz com sua investigação é melhorar os sistemas de tratamento de águas para que o turismo marítimo seja mais sustentável ”, aponta a acadêmica do Centro de Investigações de Materiais Avançados no México.

Na América Latina, apenas 40 % das águas residuais são tratadas, e as plantas que realizam esse processo não são aptas para eliminar contaminantes emergentes. Germán Santacruz, que também participou do estúdio, relaciona esta deficiência com o fato de que a disposição final dos contaminantes emergentes a um menu não está regulamentada.

Estudos como o publicado na Science of The Total Environment “são relevantes para compreender o fenômeno dos contaminantes emergentes, mas também nos lembramos que a maneira de fazer frente à ‘epidemia silenciosa’ que representam está caminhando para a regulamentação em nossos países”, conclui o professor do programa Água e Sociedade do Colégio de San Luis, no México.

Acesse o artigo completo [Aqui!].


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Este artigo escrito originalmente em espanhol foi publicado pela SciDev [Aqui! ].

Uso indiscriminado de agrotóxicos: desafio para o governo Lula

cana agrotóxicosA cana-de-açúcar, juntamente com a soja e o milho, são as três principais culturas agroindustriais que mais utilizam agrotóxicos em sua produção. No Brasil, juntos, eles usam 80% de todos os pesticidas aplicados. Crédito da imagem: Andrés Garzón/Flickr , sob licença Creative Commons (CC BY 2.0)

 Por Washington Castilhos para a SciDev

[RIO DE JANEIRO]. Um dos grandes desafios de Luís Inácio Lula da Silva, que assumiu a presidência do Brasil em 1º de janeiro, será reduzir o uso indiscriminado dos chamados “defensivos agrícolas”, intensamente promovidos pelo governo de seu antecessor.

Só nos últimos quatro anos, 1.800 agrotóxicos foram introduzidos no mercado brasileiro, a maioria (59%) de origem chinesa, segundo dados de um novo estudo publicado na revista Third World Quarterly .

Um primeiro passo para o novo governo enfrentar essa situação seria revogar o decreto presidencial de 2021 , que antecipa disposições contidas no projeto de lei 6.299 , ainda em tramitação no Congresso Nacional, conhecido como “Lei do Veneno”.

É o que aponta ao SciDev.Net a toxicologista Karen Friedrich, pesquisadora do Centro de Estudos em Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana da Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz.

Ela garante que, se o projeto for aprovado, parte da legislação atual que proíbe o registro de substâncias que causam câncer, mutações ou distúrbios hormonais será eliminada e reduzirá o poder de órgãos de controle, como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária.

Para o geógrafo Marcos Pedlowski, as alternativas ao uso de agrotóxicos seriam a reforma agrária e o incentivo à agricultura familiar e à policultura.

“Estamos priorizando as monoculturas de exportação altamente dependentes de agrotóxicos. Precisamos sair dessa dependência do ciclo do veneno”, diz Pedlowski, pesquisador da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF) no Rio de Janeiro e um dos autores do estudo junto com pesquisadores da Universidade de Helsinki, ao SciDev. Net . Finlândia.

E Friedrich complementa: “O país precisa adotar um novo modelo agrícola baseado nos valores agroecológicos e na produção orgânica”.

Se forem considerados países com o mesmo padrão agrícola e dimensões territoriais comparáveis, e com base na razão de quilos de agrotóxicos por hectare (kg/ha), que é a metodologia utilizada pela Agência das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), o Brasil –com 2,77 kg/ha– ocupa o segundo lugar entre os maiores consumidores do mundo, precedido apenas pela China (10,93 kg/ha) e seguido pelos Estados Unidos (2,38 kg/ha) e Argentina (2,37 kg/ha).

O uso de agrotóxicos no Brasil passou de 16 mil toneladas por ano para quase 500 mil em cinco décadas, segundo o referido estudo.

“Uma das consequências do uso dessa quantidade de agrotóxicos altamente nocivos é o aumento da exposição das pessoas a resíduos de produtos conhecidos por causarem diversos tipos de doenças ”, destaca Pedlowski.

Pesticidas e a UE

Do conjunto de agrotóxicos aprovados pelo governo anterior, um terço são proibidos na União Europeia. No entanto, muitos alimentos brasileiros tratados com agrotóxicos proibidos pela UE chegam ao mercado europeu, para o qual o Brasil é um dos mais importantes fornecedores de produtos agrícolas.

Pedlowski explica que a UE tem critérios muito mais restritivos para limites de resíduos em alimentos do que o Brasil, então, quando esses resíduos ultrapassam o permitido, os governos emitem alertas ou até suspendem a entrada de alimentos altamente contaminados. E lembre-se que há alguns anos a Rússia emitiu um alerta sobre o excesso de glifosato na soja brasileira.

Em seu relatório anual de 2022 sobre resíduos de pesticidas em alimentos, a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos revelou que metade das frutas e vegetais no mercado europeu está contaminada com resíduos de pelo menos um pesticida, enquanto um quarto deles contém um coquetel de até 15 resíduos de agrotóxicos.

“Em breve, os parlamentos nacionais europeus terão que ratificar uma lei muito mais restritiva em relação aos alimentos contaminados com agrotóxicos. Essa será uma questão para a qual o Brasil deve se preparar”, prevê o pesquisador.

No entanto, entre os agrotóxicos introduzidos no Brasil nos últimos quatro anos, 4% vêm de empresas europeias. Ou seja, embora esses produtos sejam proibidos em países com regulamentações mais exigentes, eles continuam sendo vendidos em países do hemisfério sul com economias baseadas em grandes áreas de monoculturas de exportação, como Argentina e Brasil.

É o caso do glifosato e da atrazina, herbicidas que, apesar de proibidos na Europa, são os mais utilizados nos países tropicais “onde ocorrem 99% das intoxicações agudas associadas”, revela o estudo.

O efeito devastador do uso indiscriminado de agroquímicos na agricultura é retratado no minidocumentário argentino O custo humano dos pesticidas , que mostra as mutações genéticas e outras condições associadas à exposição ao glifosato que afetaram populações em várias províncias desse país.

Oito intoxicações diárias

No Brasil, de acordo com o Sistema de Informação de Agravos de Notificação Obrigatória (SINAN ), 25.106 pessoas foram intoxicadas por agrotóxicos entre 2007 e 2014, uma média de oito intoxicações por dia.

E de acordo com o mais recente relatório da rede ambiental Friends of the Earth – Europe, a cada dois dias no Brasil uma pessoa morre por envenenamento por agrotóxicos. 20 por cento das vítimas são crianças e adolescentes até 19 anos de idade.

Os casos de intoxicação se concentram no centro e sul do Brasil, justamente onde estão as principais culturas do agronegócio, como soja, milho ou cana-de-açúcar. Juntas, essas três culturas usam 80% de todos os pesticidas aplicados.

Vários estudos nessas regiões apontam maior incidência de câncer, problemas reprodutivos, infertilidade masculina e malformações em bebês, principalmente devido à exposição ocupacional de trabalhadores rurais.

“A população em geral consome agrotóxicos tanto na água quanto nos alimentos. Estamos comendo e bebendo nossa dose diária de veneno.”

Karen Friedrich, Centro de Estudos em Saúde Ocupacional e Ecologia Humana, Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz

Karen Friedrich, que não participou do estudo do Third World Quarterly , lembra que pesquisas recentes encontraram vestígios de pesticidas não apenas nos alimentos, mas também na água, por meio da contaminação do solo e das águas subterrâneas.

“A população em geral consome agrotóxicos tanto na água quanto nos alimentos. Estamos comendo e bebendo nossa dose diária de veneno”, disse Friedrich ao SciDev.Net.

A pesquisadora alerta que corremos o risco de consumir alimentos que contenham agrotóxicos em doses acima do permitido (que são calculadas para cada agrotóxico), bem como um grande número de substâncias diferentes em um mesmo alimento.

“Ao longo do tempo, doses repetidas desses coquetéis constituem um alto risco à saúde da população”, acrescenta o médico biomédico.

Segundo os pesquisadores, a crença de que sem agrotóxicos é impossível manter o nível de produtividade agrícola exigido pela população humana é um mito.

“Trata-se mais de uma mudança na forma de produção do que de proteção contra pragas”, destaca Pedlowski. “Além disso, os altos custos desses insumos impactam na produção de alimentos”, conclui.

Link para o resumo do artigo no Third World Quarterly


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Este artigo escrito originalmente em espanhol foi produzido pela edição América Latina e Caribe de  SciDev.Net e publicado [Aqui!].