Prevenção em tempos de COVID-19

Por Eliane S. Pedlowski*

Tenho acompanhado as notícias e orientações sobre como se prevenir contra as consequências da contaminação pelo coronavírus, mas pouco se fala em outros cuidados que não os de higiene pessoal/ambiental… Precisamos que se fale mais em melhorar a nossa saúde em geral, para melhor reagirmos às agressões ambientais…

Pensando inicialmente no conceito de saúde, palavra que vem do latim salus, literalmente um bom estado físico, mais recentemente, a Organização Mundial de Saúde (OMS) propôs um conceito onde saúde é considerada como um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não, simplesmente, a ausência de doenças ou enfermidades. É fato estabelecido pela comunidade científica que precisamos fugir da ideia de ‘fórmulas milagrosas’, sendo a saúde a soma de um conjunto de ações na vida.

Tentar seguir um estilo de vida saudável é uma das estratégias para manter o sistema natural de defesa do corpo – a chamada ‘imunidade’ – sempre forte e eficiente: recomenda-se não fumar, praticar exercícios físicos leves ou moderados de forma regular, dormir o suficiente (o quanto, depende de cada um, mas em geral de 7 a 8 horas diárias), e ter boa alimentação – sim, há necessidade que se entenda que nossa saúde está também naquilo que comemos e bebemos, e aqui há algo que também a ciência já estabeleceu: quanto menor a quantidade de substâncias químicas nós ingerirmos, melhor para a saúde de nosso sistema imune.

Quem, hoje, não ouviu falar em alimentos prebióticos e probióticos? A ‘biota’ contida nestas palavras diz respeito à microbiota intestinal, ou seja, as bactérias existentes em nosso intestino, e os cientistas há várias décadas já demonstraram que a mucosa do intestino aloja também a maior coleção de células imunes do corpo e que estas estão em atividade contínua para nos defender – tanto a microbiota quanto a formação de células imunes dependem dos ‘ingredientes’ fornecidos por nossa alimentação diária; a chamada disbiose, que são alterações na diversidade dessa microbiota, pode ser desencadeada por fatores externos e está relacionada ao desenvolvimento de doenças tão diversas como alergias, doenças autoimunes e inflamatórias crônicas, dentre outras.

Por isso tudo e muito mais, nossa proteção começa com a boa alimentação diária, que deve incluir preferencialmente alimentos in natura, pouco cozidos e minimamente processados, hoje distantes de muitos lares; a vida moderna, por diversos motivos, nos levou a privilegiar os alimentos prontos, os “fast foods“, a comida que não é comida, só parece que é comida – já viu a margarina com gosto de manteiga? Quanto custa uma fruta comparada a um pacote de salgadinho?

O Ministério da Saúde brasileiro, há tempos, se preocupa com a questão alimentação X saúde, e por isso publicou o Guia Alimentar para a População Brasileira, cuja última edição em 2014 não teve como foco único e principal a ingestão de nutrientes e porções ou o grupo alimentar, mas se preocupou principalmente em salientar como a qualidade do alimento influencia na melhoria do bem estar. Este Guia traz os dez passos para a alimentação saudável (ver figura abaixo).

alimentação saudável

Assim, é o conjunto de atitudes que fará com que tenhamos uma saúde melhor e consigamos resistir melhor às doenças, e em alimentação, a regra de ouro é fugir dos alimentos industrializados e/ou agrotóxicos e/ou alimentos geneticamente modificados o máximo possível!

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*Eliane S. Pedlowski é Nutricionista (UFRJ) e Mestre em Políticas Sociais (UENF), e atua na Secretária Municipal de Saúde de Telêmaco Borba (PR).

O fast food brasileiro está envenenado pelo ódio de classe

Há alguns anos baixei bastante a ingestão de comida “fast food” por razões de saúde e também de consciência social. É que não há estabelecimento comercial em que fica mais evidente para mim a alta exploração do trabalho em troca de salários irrisórios do que no sistema “fast food”, seja a cadeia “nacional” ou “multinacional”.

Mas de tempos em tempos, normalmente em aeroportos e rodoviárias, sou obrigado a usar estabelecimentos dessas cadeias de “fast food” onde sempre faça a ingestão da comida com a sensação de que estou pagando demais pelo que me é servido, enquanto quem me serve tem sempre a aparência de trabalhar no limite.

Entretanto,  reconheço que nunca diz estudos empíricos sobre quem são os proprietários e operadores de cadeias como “Madero” ou “Giraffas” ou sobre como pensam acerca da relação capital x trabalho, sendo essa uma área em que tive apenas acesso a estudos feitos sobre grandes cadeias multinacionais como é o caso do McDonald´s. 

Pois bem, a pandemia do coronavírus está possibilitando que vejamos e ouçamos o que pensam pessoas como Júnior Dorski, proprietário do Madero, e Alexandre Guerra, CEO da rede Giraffas (posto os vídeos de gravações disseminadas pelos próprios na internet) pensam sobre as estratégias adotadas para diminuir a difusão da pandemia do coronavírus).

Júnior Durski, proprietário do Madero, falando contra as medidas de isolamento social contra o coronavírus

Alexandre Guerra, CEO do Giraffas, ataca medidas de isolamento social contra a pandemia do coronavírus

O que sai da boca desses líderes do “fast food” brasileiro incluem pérolas como a relativização da possível morte de até 7.000 pessoas (Júnior Durski) e a caracterização como o isolamento dentro de residências normalmente apertadas e pouco ventiladas como “home office” (Alexandre Guerra).  Mas em comum há ainda uma clara e incontida irritação com a falta de trabalhadores em seus postos de serviço para servir clientes que sabem que estão a comer comida de baixa qualidade e a preços salgados.

Essas falas expressam muito claramente o que tantos outros grandes empresários e ocupantes de ministérios podem estar falando de forma mais velada em relação ao destino de milhões de brasileiros pobres que são usados para exponencializar lucros de uma classe de abastados que deveria estar na linha de frente do combate ao avanço da pandemia.  Afinal, temos uma das concentrações de renda mais fortes do planeta e essa gente teria toda condição de doar parte de suas fortunas para garantir que o Brasil saia dessa crise sanitária mais forte do que está entrando.

Mas não, o que transparece nas falas de Durski e Guerra é o mais claro e transparente ódio de classe, onde os trabalhadores são equiparados a vagabundos que se refugiam em casa de forma oportunista enquanto um vírus de baixa letalidade. 

Uma coisa é certa: se as ideias de empreendedorismo e ódio aos sindicatos precisavam ser desmistificadas e mostradas pelo que são (extrema precarização do trabalho em prol do lucro de poucos), os chefões do “fast food” brasileiro estão dando uma contribuição para que isto ocorra.  Pelo menos disso não poderemos reclamar do coronavírus, pois sua circulação no Brasil está possibilitando a que se veja claramente que estamos ingerindo um “fast food” que está envenenado pelo ódio de classe dos que controlam a sua produção.

Porto do Açu vira foco potencial do coronavírus no Norte Fluminense

Este blog vem desde sua criação acompanhando e notando várias das mazelas envolvendo a implantação e funcionamento do Porto do Açu que está localizado no município de São João da Barra na região Norte Fluminense.

Aqui já se falou sobre desapropriações escabrosas, greves causadas por violações dos direitos trabalhistas, contaminação de águas por sal oriundo do aterro hidráulico, erosão costeira, várias das mazelas mais evidentes que o Porto do Açu trouxe para São João da Barra.

Mas eu realmente não esperava que o Porto do Açu também se transformasse em um ponto focal para a disseminação da pandemia do coronavírus em função da insensibilidade e descaso de empresas que ali operam com a saúde de seus trabalhadores. Contudo, hoje o jornalista Roberto Barbosa informou em matéria publicada no cadernos Cidades do jornalO REBATE que as empresas TechnipFMC e a Gercon, duas empresas que operam juntas no Porto do Açu, e estão tentando os seus trabalhadores dentro de expediente normal, apesar da orientação governamental seja para que todos fiquem em casa.

porto do açu

Se esta situação não for revertida, o risco que corremos é que todos os bons esforços que estão sendo realizados nos municípios que circundam o Porto do Açu para conter a expansão do coronavírus serão inúteis, já que ao retornar para suas casas os trabalhadores do Porto do Açu poderão agir como difusores (ainda que contrariados) do vírus que hoje aterroriza o mundo inteiro.

Aguardemos o que farão as autoridades que hoje se debatem com a calamidade sanitária que está foi deflagrada pela chegada do coronavírus no Norte Fluminense.

A pandemia do Coronavírus coloca o Bolsonarismo nas cordas

bolso corda

A forma singular de fazer política do presidente Jair Bolsonaro, aquela que alguns chamam de “Bolsonarismo”, já foi adjetivada de diversas formas, a maioria pouco lisonjeira.  Entretanto, cavalgando na onda de descontentamento de parcelas significativas da população brasileira com a forma de gerenciar o Estado por parte principalmente dos governos do Partido dos Trabalhistas (PT), o “Bolsonarismo” vinha surfando de forma fácil os mares revoltos criados por uma economia que não sai da profunda recessão em que se encontra desde o início do segundo mandato da ex-presidente Dilma Rousseff.

Mas no que consiste exatamente o “Bolsonarismo”?  Eu diria que os ingredientes principais juntam uma clara rejeição ao conhecimento científico, o apelo aos valores religiosos e uma aposta quase ilimitada da suposta capacidade do individualismo como mecanismo de melhoria econômica, além dos elementos que apontam para uma forma peculiar de nacionalismo subordinado (no caso aos EUA).

Pois bem, todas as características que formam o núcleo central do “Bolsonarismo” estão agora em xeque pelo coronavírus. Para começo de conversa, a necessidade de uma resposta científica rápida joga por terras formulações que menosprezam o conhecimento científico e os cientistas que o produzem.  Está claro para a maioria das pessoas que será necessária a intervenção da ciência rápida e eficaz da comunidade científica para que uma vacina seja desenvolvida. 

Outro fundamento do “Bolsonarismo” que é reduzida a pó é a de que individualmente poderemos chegar a uma espécie de autosalvação econômica. As cenas de entregadores de comida e motoristas de aplicativos que agora não conseguem dinheiro sequer para comprar gêneros básicos já estão correndo o mundo e corroendo rapidamente a fábula de que pela precarização das relações de trabalho é possível se chegar a ganhos econômicos que dispensem a ação dos sindicatos. 

A última peça a cair está sendo o desmoronamento do governo de Donald Trump em face da rápida expansão da pandemia do coronavírus nos EUA. Como o “Bolsonarismo” é uma espécie de sub-Trumpismo, a eventual remoção de Donald Trump do poder nas próximas eleições presidenciais que deverá ocorrer nos EUA logo após o achatamento da curva da pandemia deixará o “Bolsonarismo” sem qualquer tipo de âncora ideológica e, pior, econômica.

Há quem tema que colocado na extrema defensiva, o presidente Jair Bolsonaro irá tentar recorrer a uma solução de força para preservar sua forma peculiar de ver o mundo. Ainda que isso não seja inteiramente descartável, eu diria que a maioria preocupação de Jair Bolsonaro deveria ser a de manter o cargo pelo qual tanto lutou.  É que até agora sua posição diante da pandemia do coronavírus tem sido pífia, o que poderá transformar o Brasil em uma espécie de área global de quarentena por tempo indefinido. 

Em meio à pandemia, Bolsonaro edita MP que permite suspender contratos de trabalho por 4 meses

bolsonaro vendaJair Bolsonaro, indo de encontro ao que resto do mundo está fazendo, pune ainda mais a classe trabalhadora ao permitir a suspensão de contratos de trabalho em meio à pandemia do coronavírus

Seguindo os passos diametralmente opostos da maioria dos governos mundiais que estão liberando grandes volumes de dinheiro para proteger os trabalhadores, o presidente Jair Bolsonaro fez publicar uma Medida Provisória (a MP 927) que permitirá aos patrões suspender por até 4 meses o contrato de trabalho de seus empregados, segundo informam os jornalistas William Castanho e Alexa Salomão em matéria publicado pelo jornal “Folha de São Paulo”.

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Que Jair Bolsonaro possui uma grande dívida política com as elites nacionais não há dúvida. Sem o dinheiro e o apoio político dos ultrarricos brasileiros nas eleições de 2018, é bem possível que hoje tivéssemos um  outro presidente no Brasil neste momento.  E como naquela máxima de quem “paga a orquestra, escolhe a música”, o governo Bolsonaro acaba tentando jogar sobre as costas dos trabalhadores o ônus de uma pandemia que continua a ser negligenciada por Jair Bolsonaro, que a a apresenta como uma “gripezinha“.

O problema é que o Brasil possui uma das maiores concentrações de renda do planeta, o que possibilita que nesta hora de grande dificuldade, o patronato possa ser chamado a dar a dose de sacrifício que as vastas fortunas acumuladas às custas do suor alheio permite.  Como disse o presidente de El Salvador, Nayib Bukele, em relação aos ricos salvadorenhos, os ricos podem viver facilmente por várias gerações com uma perda mínima nas suas fortunas neste momento.

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Já os trabalhadores, cujo volume de sacrifícios tem sido gigantesco ao longo dos últimos anos, já se encontravam em graves dificuldades antes da erupção da pandemia do coronavírus.  Esperar que eles aceitem ficar com contratos suspensos (e sem salários) é uma grande maldade que, entretanto, poderá gerar uma convulsão social sem precedentes na história do Brasil. Assim, até por motivos de autopreservação, caberá ao grande empresariado brasileiro recusar esse passe livre que está sendo ofertado pelo governo Bolsonaro. É que não haverá como impedir saques a supermercados e empresas se esse plano  sinistro for concretizado.

O que mais poderia se esperar de um governo composto por negacionistas, senão negação?

jair bolsonaro ministério

Vejo em muitas pessoas a completa surpresa pela postura negacionista do presidente Jair Bolsonaro em relação aos riscos colossais que estão sendo impostos sobre a população brasileira, especialmente sobre suas porções mais pobres, por causa da pandemia do coronavírus. 

Pessoalmente eu fico surpreso com esse elemento de surpresa, visto que o governo Bolsonaro é composto por negacionistas de várias estirpes em algumas áreas estratégicas. O ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo é um negacionista das mudanças climática, negação essa que é compartilhada de forma velada pelo ministro do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles. 

Já a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, não apenas nega o perigo imposto pelo uso extensivo e intensivo de agrotóxicos altamente perigosos e banidos em outras partes do mundo.  Tereza Cristina transformou a negação sobre os ricos riscos  trazidos por agrotóxicos para a saúde humana e o meio ambiente em um verdadeiro tsunami de aprovações de agrotóxicos altamente tóxicos que até os países produtores, incluindo a China, querem distância, apesar de vendê-los de forma frugal no Brasil. 

Por outro lado, o dublê de banqueiro e ministro da Fazenda Paulo Guedes, o Posto Ipiringa de Jair Bolsonaro, nega o óbvio naufrágio de suas políticas ultraneoliberais e ainda tenta surfar na crise do coronavírus para empurrar mais privatização e mais perda da soberania nacional como a única solução para que o Brasil saia da recessão prolongada em que se encontra.

Também temos a ministra Damares Alves que nega até a necessidade de termos políticos que protegem a saúde e a integridade das mulheres brasileiras, apesar de seu ministério ser, em tese, voltado justamente para garantir a proteção delas.

No timão dessa nau de negacionistas, temos Jair Bolsonaro que antes de negar a gravidade da pandemia do coronavírus já havia negado tantas outras coisas, incluindo a existência de um regime militar entre 1964 e 1985, sendo ele próprio um defensor dos instrumentos de coerção que marcaram os 21 anos de duração do regime de exceção.

Então por que poderia se esperar qualquer ação racional e lógica, a começar pela imediata retomada dos investimentos em ciência que pudesse dotar os cientistas brasileiros dos recursos de que necessitam para desenvolver uma vacina para o coronavírus? A resposta é simples: não há como esperar qualquer coisa que beire o reconhecimento de que vivemos um momento singular na história do Brasil, momento este que requer uma participação ativa da comunidade científica, dos serviços público de saúde e da ação solidária da nossa população para que possamos atravessar a pandemia como  um mínimo de perdas de vidas humanas.

Felizmente para todos nós, a conta do custo de tantos negacionismos acumulados desde janeiro de 2019 está chegando para Jair Bolsonaro. E eu me arrisco a dizer que as próximas semanas poderão ser palco de uma mudança drástica na forma com que a maioria dos brasileiros se relaciona com a postura negacionista de Jair Bolsonaro e seus ministros negacionistas em questões chaves nacionais.

Coronavírus: presidente de El Salvador decreta suspensão de pagamentos de serviços básicos e ameaça empresários que quiserem tirar vantagem da crise

bukele-4Em El Salvador, o presidente Nayib Bukele suspendeu o pagamento das contas de serviços básicos por 3 meses, e ainda ameaçou os empresários que quiserem tirar vantagem da crise causada pelo coronavírus.

Enquanto no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro e sua equipe de ministros negacionistas deixam a população à mercê da pandemia do Coronavírus, em El Salvador, país localizado na América Central, o seu presidente Nayib Bukele, aprovou  uma série de medidas para mitigar o impacto econômico da pandemia de coronavírus no país sobre os afetados pela COVID-19. Dentre as medidas autorizadas por Bukele, estão a suspensão do pagamento de eletricidade, água, serviços de TV a cabo e de internet, e o congelamento da cobrança de créditos e hipotecas.

De quebra, Nayib Bukele mandou um recado duro aos empresários salvadorenhos no sentido de que espera colaboração e ameaçou aqueles que quiserem tirar vantagem da população do país em um momento de grave dificuldade (ver vídeo abaixo).

Antes que alguém pense que Bukele seja um político de esquerda, é preciso dizer que apesar de ter tido um percurso irregular, o presidente de El Salvador tem posições de centro direita e foi eleito em 2018, e também assumiu o poder em janeiro de 2019, tal qual ocorreu com Jair Bolsonaro.

Entretanto, em meio à pandemia do coronavírus, o presidente de El Salvador está adotando posições que diferem diametralmente de Jair Bolsonaro que até agora não só negou a gravidade da pandemia, mas adotou medidas que beneficiam apenas o empresariado.  Melhor para os salvadorenhos, pior para os brasileiros.

Da Revolta da Vacina às praias lotadas: do que riem aqueles que desafiam uma pandemia

wp-1584877198437.jpgGravura que retrata a “Revolta da Vacina” que ocorreu na cidade do Rio de Janeiro em 1904.

Por Luciane Soares da Silva*

Não há como pensar o coronavírus e a descrença por parte da população sem lembrar das razões pelas quais esta parcela, principalmente do povo, não acredita que algo possa acontecer. Os áudios que tenho recebido apresentam um hipotético carioca desconstruindo por dois minutos toda a gravidade da pandemia. Este carioca afirma que  seria necessário, para o vírus firmar-se no país, aguentar engarrafamento na avenida Brasil, Luís Paulo Conde, Rosinha Garotinho, Pezão, Sérgio Cabral, Crivella, Eduardo Paes, a família Bolsonaro e sua relação com a milícia, a crise hídrica vivida recentemente na cidade, a Igreja Universal. E ainda, o Comando Vermelho, o Terceiro Comando, o Comando Amigos dos Amigos, o Primeiro Comando da Capital e a Assembleia Legislativa. E o que seria um vírus diante do cotidiano do enfrentamento com a Polícia Militar?  Ao relembrar o sumiço das vigas da Perimetral e as falsas notícias nas eleições, completa sua fala com a condição do transporte público em bairros como Bangu. Para uma população que convive com tiroteios, que gravidade poderia superar sua realidade concreta?

No final de década de 1980, em um país com boa parte da população vivendo nas cidades, mas com práticas herdadas do mundo rural, as formas de cura eram absolutamente fundadas na ação de benzedeiras, na frequência a terreiros de candomblé e umbanda, nas operações feitas pelo espaço, como as operadas pelo doutor Fritz. Além disto, centros espíritas eram responsáveis por passes, tratamentos e sessões de psicografia que explicavam aos familiares as razões da morte de um ente querido. Importante lembrar que no Brasil em 2014, um advogado apresentou uma carta psicografada em um processo de homicídio. Ela foi aceita como prova testemunhal em Uberada . E muitos advogados antes deste se valeram do mesmo expediente.

A criação das Faculdades de Medicina no Brasil foi tardia, ocorrendo apenas com a chegada de D. João VI em 1808. A preocupação dos primeiros estudiosos, ocupava-se mais com temas de medicina legal e em como “curar um país doente”.  O importante aqui é compreender como a relação entre povo e doença é estabelecida em pesquisas que advogavam os males sustentados no sangue que era apresentado enquanto raça. Ou melhor, cruzamento racial e degenerescência.

Todos conhecemos popularmente expressões como “raça ruim”. E conhecemos também as formas pelas quais as populações acessaram a cura e as formas de tratamento ao longo destes séculos. O privilégio de acesso médico criou em cidades do interior e figura do “doutorzinho”. O médico, branco, filho de algum fazendeiro que voltava à pequena Ilhéus, ou a pequena Itaperuna para praticar a medicina. Existia no Brasil também a figura do médico vocacionado que bradando contra o poder, aliava sua medicina ao combate a fome e ao analfabetismo. Era o sanitarista, o médico que cobrava pouco, uma espécie de vocacionado social. Em outros casos, era o “milagreiro” como José de Camargo, um ex-escravo que construiu uma igreja em Sorocaba, incomodando a elite católica local e nacional. Sem cobrar pela cura.

Seria impossível encontrar entre as classes populares até a década de 1990, alguém que não conhecesse de alguma forma o médium Chico Xavier. E não era incomum encontrar entre as famílias católicas brasileiras, pessoas que já tivessem recorrido a psicografia e aos centros de passe existentes em todo o Brasil. Centros administrados por engenheiros, médicos, advogados que encontravam ali, uma forma segura de fazer caridade ao próximo sustentados pelas leis de Alan Kardec. Estes centros sobreviveram e existem até hoje em muitas cidades do Brasil. E são eles, junto com as igrejas neopentecostais que produzem as narrativas mais próximas do povo de como tratar doenças que ao fim, estão na alma e por isto, exigem fé. A fé sempre foi um vetor de organização social e política no Brasil. Se a pobreza é a condição de entrada para o reino do céu católico, a doença tem uma função essencial para purgar pecados, destas e de outras vidas. Assim, como a morte é um destino seguro para os que acreditam. Não há como vencer estes discursos sem compreender sua sustentação. Não são crendices e tampouco ignorância. Porque asseguraram a vida de gerações. Ervas, orações, chás, remédios caseiros aliados a certeza de quem não teria mais outra possibilidade a não ser esta aposta.

Uma busca rápida com os termos “descrença” e “coronavírus”  é reveladora. De manchetes sobre população exposta a constantes intervenções policiais e tiroteios, da descrença nos políticos, da descrença na mídia e na justiça. A quantidade de situações absurdas de mortes sem resolução e a continuidade de práticas antidemocráticas parece enfraquecer o apelo de que “é um momento de união”.

Para fechar este texto, volto ao cenário da Revolta da Vacina na capital federal em 1904. O próprio nome remete a uma revolta popular contra a vacinação obrigatória. Mas não são poucos os pesquisadores, principalmente historiadores que observam outras variáveis tais como : a obrigatoriedade aliada a presença policial na entrada em casas do centro da cidade, uma nova ordem econômica mundial que impõe uma compreensão de ciência, empregada pelo Estado sem preocupação com a informação à população, o remodelamento de áreas centrais com expulsão de seus moradores, o alto preço dos alimentos, o alto preço dos aluguéis aliado a crescente especulação imobiliária[1].

Um dos fatos essenciais para entender a relação entre ciência e fé: a varíola para muitos dos moradores negros da área portuária estava sob a proteção de  Omulu, dentro do panteão africado, ligado a saúde e a doença. Ao evocarem tambores e sofrerem a repressão das autoridades policiais, aumentaram a fúria da população. Dados oficiais dão conta de 200 mortos e vários feridos e presos.

A informação contra o coronavírus é parte essencial de seu combate. Mas fica evidente a cada dia que questões básicas sobre saúde, saneamento e  emprego e renda serão temas mobilizados no cotidiano. As resoluções dadas as condições básicas de saúde da população não excluem a debate sobre periferias, acesso a saúde e formas de comunicação. Por isto, não se trata de simples ignorância do povo ou má fé. Trata-se de pensar a relação entre Estado e sociedade civil. Crença e capacidade de ação.

[1] Para mais informações ler A Revolta contra a vacina: A vulgarização científica na grande imprensa no ano de 1904, de Aline Salgado, disponível em https://www.arca.fiocruz.br/bitstream/icict/31112/2/dissertacao_aline_salgado.pdf

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*Luciane Soares da Silva é docente do Laboratório de Estudos da Sociedade Civil e do Estado (Lesce) da Universidade Estadual do Norte Fluminense, e também participa da diretoria da Associação de Docentes da Uenf (Aduenf).

Cientista desmente vídeo de Bolsonaro sobre suposta droga milagrosa para a Covid-19. A culpa é da produção?

Já circula amplamente nas redes sociais um vídeo onde o presidente Jair Bolsonaro comunica o possível uso da cloroquina para cura da Covid-19 que, segundo ele,  o fato lhe teria sido comunicado por médicos do Hospital Albert Einstein (o que foi devidamente negado pela renomada instituição).

Pois bem, posto abaixo uma versão do mesmo vídeo, mas com as devidas explicações e desmentido das afirmações de Jair Bolsonaro pelo economista Eduardo  Moreira e pela professora doutora Luciana Costa do Instituto de Microbiologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Aí alguém pode se perguntar como a equipe de comunicação da presidência da república teria não só permitido a veiculação de informação, no mínimo, imprecisa por Jair Bolsonaro, mas a própria produção do vídeo que agora acaba sendo desmentido por uma cientista especializada em doenças infecciosas.

A imagem abaixo aparentemente mostra não apenas o momento em que o referido vídeo foi produzido, mas também quem eram os membros da equipe que “produziu” o material, quais sejam, os três filhos do presidente Jair Bolsonaro que possuem cargos eletivos (o deputado federal Eduardo Bolsonaro, o senador Flávio Bolsonaro e o vereador Carlos Bolsonaro).

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Apesar dessa não ser primeira vez que essa “equipe” se envolve na produção de materiais visuais do agora presidente Jair Bolsonaro, o momento é especialmente grave e toca na vida de milhões de brasileiros.

A pergunta que se coloca é a seguinte: quem vai ser responsabilizado se a fala do presidente Jair Bolsonaro que este veículo dissemina for responsável por intoxicações graves em quem comprar e usar o cloroquina para combater a COVID-19? O presidente ou os seus filhos? Ou todos eles?

A canção da hora!

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Higienizar bem as mãos é principal recomendação contra transmissão do coronavírus Foto: Pixabay

Não conheço os dois jovens do vídeo abaixo, mas eles sintetizam o que penso ser urgente e necessário para que contenhamos ao máximo o número de mortes pela pandemia do coronavírus.  Ao divulgar este vídeo, fica a minha expectativa que possamos enfrentar este desafio colossal acima de tudo com bom humor e irreverência, marcas essenciais da nossa gente.