Estudo reforça papel do “distanciamento social” para refrear contágios de COVID-19 antes da vacina

Usando como modelo a capital de São Paulo e dados entre fevereiro e junho de 2020, pesquisadores avaliam que decreto que restringiu mobilidade teve “papel crucial” para cortar a curva de infecções no período, mas dias quentes prejudicaram prevenção. Experiência ajuda a guiar novas crises sanitárias

Comércio fechado na Rua 25 de Março durante a quarentena na capital paulista, em março de 2020. Foto: Rovena Rosa/ABr 

Por Camille Brop para o “Ciência UFPR”

Uma das cidades mais populosas do mundo com seus mais de 11 milhões de moradores, São Paulo capital teve trânsito de vila do interior em vários dias entre fevereiro e junho de 2020. Em locais de grande circulação, como a Rua 25 de Março e o Viaduto do Chá, só um ou outro pedestre se arriscava a andar pelas ruas e as aglomerações estavam proibidas. Ao longo daquele ano, a cidade teve de se adequar a uma série de decretos governamentais que restringiam a mobilidade devido à ameaça de contágio pela COVID-19.

Mesmo impopular, a redução de mobilidade no período anterior à vacina vem sendo cientificamente ligada a quedas no contágio durante a pandemia. No caso de São Paulo capital, essa conclusão está em um artigo científico publicado na revista Chaos por um grupo de quatro pesquisadores, entre eles dois professores do Departamento de Física da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

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Com base na análise de um modelo matemático que reunia dados de mobilidade e meteorológicos — para entender os reflexos dos dois fatores sobre a transmissão de COVID-19 antes da vacina —, o estudo concluiu que o papel do decreto municipal de situação de emergência, de março de 2020, foi “crucial” para diminuir infecções.

Entre as medidas que restringiram a mobilidade, o Decreto Municipal 59.283/2020 inclui fechamento de museus e centros culturais, suspensão gradual das aulas, servidores públicos em teletrabalho ou férias, e impedimento de alvarás para eventos públicos.

Além da redução de mobilidade, outro fator destacado na pesquisa pela correlação com o aumento no número de contágios é os aumentos da temperatura e da pressão máximas. Condições meteorológicas estão relacionadas à mudança no comportamento das pessoas e é nisso que estão as suas consequências sobre a pandemia. Quando faz calor, é mais provável que as pessoas não obedeçam ao “fique em casa”.

“Nosso trabalho conclui, mais uma vez, pelo papel importante do distanciamento social para o enfrentamento da pandemia”, resume Marcus Werner Beims, professor na UFPR, onde lidera grupo de pesquisa sobre caos, desordem e complexidade em sistemas de física.

Ainda segundo Beims, o estudo avança ao mostrar a inter-relação entre três variáveis bastante estudadas na investigação de novos casos — mobilidade e tempo —, mas que geralmente não são associadas ao mesmo tempo.

A medida usada no estudo, a correlação de distância (distance correlation ou DC), permite detectar correlações não-lineares entre séries de tempo diferentes. Ou seja, possibilitou que os pesquisadores verificassem a correlação entre eventos que não ocorreram simultaneamente, no caso, as novas infecções, a redução de mobilidade e as mudanças no tempo, de acordo com as janelas de tempo válidas para cada variável.

A pesquisa também contribui para a prevenção de doenças infecciosas como a COVID-19 ao sugerir que a mudança no comportamento das pessoas para uma postura mais preventiva leva de oito a 17 dias para aparecer nos números de contágio.

Com esse tipo de informação sobre a cidade em mãos, a saúde pública consegue pensar melhor sobre como promover a cooperação coletiva no enfrentamento de patógenos (organismos que causam doenças) que funcionam de forma semelhante ao da COVID-19.

“Para um outro vírus que se comporte como a COVID-19, nossos resultados podem ser levado em consideração, sem dúvida. Basta adequar os parâmetros”, avalia Carlos Fábio de Oliveira Mendes, um dos autores do artigo, que é doutor em Física pela UFPR e hoje é professor na Universidade do Estado do Amazonas (UEA).

Papel do tempo na epidemiologia da covid-19 é explicar comportamento social

A pesquisa também ajuda a fortalecer conceitos mais atuais sobre as consequências das condições meteorológicas sobre a pandemia de COVID-19. De acordo com a professora Alice Grimm, coordenadora do Laboratório de Meteorologia (Labmet) da UFPR, esse foi um dos objetos de pesquisa cuja compreensão evoluiu à medida que a ciência caminhou.

“Praticamente todos os trabalhos anteriores que procuraram relacionar características meteorológicas com a disseminação da COVID-19 adotaram a abordagem de determinar quais características favorecem a disseminação do vírus. Tal abordagem levou a muitos trabalhos com resultados discrepantes sobre quais seriam as condições meteorológicas mais favoráveis para a disseminação, porque o vírus sobrevive e se dissemina muito bem em um amplo intervalo de condições ambientais, bastante haver o suficiente contato entre as pessoas e falta de vacinação”, explica.

A abordagem que tem se mostrado mais procedente é a que investiga como o tempo altera as relações entre as pessoas e, assim, contribui ou não para a disseminação do vírus da COVID-19.

“Isso exige que os dados meteorológicos sejam também relacionados com a mobilidade humana, que influi na quantidade de contatos”.

Nesse sentido, o estudo aponta que dias de temperaturas mais altas e de pressão atmosférica elevada — essa última causa a sensação de calor “sufocante”, difícil de respirar — tiveram mobilidade maior em mercados, farmácias e locais de recreação, mesmo com as restrições do governo municipal.

Modelo da capital paulista pode ser adaptado para cidades de mesmo porte

A escolha pela cidade de São Paulo para o estudo tem a ver principalmente com a disponibilidade de dados.

A fonte dos dados meteorológicos foram as estações do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a Mirante de Santana (na região Norte) e a Interlagos (na Sul). Já os dados de mobilidade foram coletados nos relatórios de mobilidade comunitária do Google durante a pandemia (COVID-19 Community Mobility Reports).

“Uma cidade grande e populosa também proporciona dados mais numerosos e, portanto, mais confiáveis de mobilidade humana, indicando tendências de deslocamento ao longo do tempo em diferentes categorias de locais, como varejo e lazer, mercados e farmácias, parques, estações de transporte público, locais de trabalho e áreas residenciais”, explica Alice.

Os cientistas avaliam que as principais considerações da pesquisa podem ser generalizadas para cidades com tamanho e população semelhantes às da capital paulista.

Também é outro estudo que reforça a validade do distanciamento social na prevenção de doenças altamente contagiosas e causadas por vírus que infectam por meio das vias respiratórias, caso da COVID-19. No período sem vacina, a restrição de contato atuou pela contenção.

“Na minha opinião, temos dois motivos que impedem que as pessoas se convençam disso. O primeiro é político, quando acreditam e seguem, de forma irrestrita, um governo que não acredita em ciência. O segundo é a falta de conhecimento aprofundado sobre análise de dados e estatística”, afirma Beims.

➕ Leia detalhes no artigo Temporal relation between human mobility, climate, and COVID-19 disease, publicado no periódico Chaos

Fonte: Ciência UFPR

Estudo polêmico sobre COVID-19 que promovia tratamento não comprovado é despublicado após saga de quatro anos

Artigo sobre hidroxicloroquina liderado pelo pesquisador francês Didier Raoult é o segundo estudo mais citado a ser retirado de circulação

Visão de perto de um técnico segurando um frasco de hidroxicloroquina em uma farmácia em Utah.

A hidroxicloroquina é usada para tratar malária e foi testada como tratamento para COVID-19. Crédito: George Frey/AFP via Getty

Por Richard Van Noorden para a Nature 

Um estudo que despertou entusiasmo pela ideia, agora refutada, de que um medicamento barato contra a malária pode tratar a COVID-19 foi retirado de circulação — mais de quatro anos e meio após sua publicação 1 .

Pesquisadores criticaram o artigo controverso muitas vezes, levantando preocupações sobre a qualidade dos dados e um processo de aprovação ética pouco claro. Sua eventual retirada, com base em preocupações sobre aprovação ética e dúvidas sobre a condução da pesquisa, marca a 28ª retratação do coautor Didier Raoult, um microbiologista francês, anteriormente no Hospital-University Institute Mediterranean Infection (IHU) de Marselha, que ganhou destaque global na pandemia. Investigações francesas descobriram que ele e o IHU violaram protocolos de aprovação ética em vários estudos, e Raoult agora se aposentou.

O artigo, que recebeu mais de 3.600 citações de acordo com o banco de dados Web of Science, é o artigo mais citado sobre a COVID-19 a ser retratado, e o segundo artigo retratado mais citado de qualquer tipo.

“Esta é uma notícia incrivelmente boa”, diz Elisabeth Bik, especialista em imagem forense e consultora de integridade científica em São Francisco, Califórnia, que está entre os críticos do artigo e do trabalho de Raoult. Vários países, incluindo os Estados Unidos, aprovaram o medicamento no centro da pesquisa, a hidroxicloroquina (HCQ), para tratar infecções por COVID-19, ela observa. Mas estudos posteriores mostraram que não teve nenhum benefício. “Este artigo nunca deveria ter sido publicado — ou deveria ter sido retirado imediatamente após sua publicação”, diz Bik.

Atraso de medicação

Por ter contribuído tanto para o hype da HCQ, “o efeito não intencional mais importante deste estudo foi desviar parcialmente e desacelerar o desenvolvimento de medicamentos anti-COVID-19 em um momento em que a necessidade de tratamentos eficazes era crítica”, diz Ole Søgaard, um médico infectologista do Hospital Universitário de Aarhus, na Dinamarca, que não estava envolvido com o trabalho ou suas críticas. “O estudo foi claramente conduzido às pressas e não aderiu aos padrões científicos e éticos comuns.”

Em um longo aviso de retratação publicado no International Journal of Antimicrobial Agents em 17 de dezembro, a editora Elsevier, juntamente com a International Society of Antimicrobial Chemotherapy (ISAC), coproprietária do periódico, disse que investigou o estudo e — entre outras preocupações — não conseguiu confirmar se a aprovação ética foi obtida antes dos participantes ingressarem no estudo, nem se todos poderiam tê-la inserido a tempo para que os dados fossem analisados ​​e incluídos no manuscrito submetido.

Três dos coautores do estudo pediram para que seus nomes fossem removidos do artigo, dizendo que tinham dúvidas sobre seus métodos, disse o aviso de retratação. Mas outros cinco discordaram da retratação e contestaram seus fundamentos.

Um desses pesquisadores, Philippe Brouqui, pesquisador de doenças infecciosas do IHU, enviou à Nature sua resposta a uma versão anterior da retratação proposta, de agosto, na qual ele e Raoult disseram à Elsevier que não há “nenhuma questão ética ou regulatória” no artigo e “nenhum desvio da integridade científica” e disseram que foram “vítimas de assédio cibernético”.

Raoult se recusou a comentar à Nature sobre a retratação e as preocupações sobre sua pesquisa.

Hype da hidroxicloroquina

No início da pandemia, estudos de laboratório e alguns relatórios da China sugeriram que a HCQ poderia ajudar a tratar a COVID-19. Raoult, então chefe do IHU, defendeu fortemente a ideia.

Em 16 de março de 2020, ele e seus colegas do IHU relataram em uma pré-impressão que a HCQ, em alguns casos com o antibiótico azitromicina, reduziu a carga viral em 20 participantes. O estudo foi imediatamente divulgado nas emissoras de televisão dos EUA. Quatro dias depois, o estudo foi publicado no International Journal of Antimicrobial Agents , no qual o coautor Jean-Marc Rolain era editor-chefe; o periódico aceitou o manuscrito submetido em um dia. Uma nota foi adicionada posteriormente para dizer que Rolain “não teve envolvimento” na revisão por pares do artigo. O então presidente dos EUA, Donald Trump, mencionou o artigo no Twitter (agora X), dizendo que os medicamentos poderiam ser “revolucionários”.

Mas os críticos rapidamente encontraram falhas no trabalho. Bik levantou preocupações, incluindo uma falta de clareza sobre o cronograma de aprovação ética e potenciais diferenças de confusão entre as características dos participantes nos grupos de controle e tratamento, sugerindo que os participantes não foram aleatoriamente designados para esses grupos (embora o estudo não alegasse ser um ensaio randomizado). Seis indivíduos tratados com HCQ também abandonaram o estudo — dos quais um morreu e três foram transferidos para uma unidade de terapia intensiva.

Em abril de 2020, o ISAC disse que o artigo não atendia aos seus padrões. E em julho daquele ano, o periódico publicou revisões críticas do trabalho, incluindo uma de Frits Rosendaal, epidemiologista do Centro Médico da Universidade de Leiden, na Holanda, que disse que o estudo sofria de “grandes deficiências metodológicas” 2 . Mas o ISAC decidiu não retirar o artigo, dizendo que “além da importância de compartilhar dados observacionais no auge de uma pandemia, um debate científico público robusto sobre as descobertas do artigo de forma aberta e transparente deve ser disponibilizado”.

Didier Raoult fotografado falando em microfones de mídia durante uma visita ao IHU Mediterannee na França em 2020.

Didier Raoult se aposentou como chefe do Instituto Hospitalar-Universitário de Infecção Mediterrânea de Marselha neste ano. Crédito: Julien Poupart/Abaca Press via Alamy

Estudo sob investigação

No entanto, em junho, a Elsevier reabriu uma investigação sobre o estudo depois que um grupo de cientistas, incluindo Bik, pediu novamente sua retratação, e por causa dos três autores que pediram para remover seus nomes devido a preocupações metodológicas, informou o site Retraction Watch .

O aviso de retratação identifica esses autores como o oncofarmacologista Stéphane Honoré da Universidade de Aix-Marseille e o pesquisador de doenças infecciosas Johan Courjon e a virologista Valérie Giordanengo, ambos do Hospital Universitário de Nice. Ele diz que eles “afirmam sua opinião de que têm preocupações quanto à apresentação e interpretação dos resultados neste artigo” e não queriam que seus nomes fossem publicados.

O aviso acrescenta que a Elsevier pediu a Jim Gray, um microbiologista consultor do Birmingham Children’s Hospital e do Birmingham Women’s Hospital, Reino Unido, para orientar a investigação. Além das preocupações sobre a aprovação ética, o periódico acrescentou que não conseguiu estabelecer se havia “equilíbrio” — ou seja, incerteza genuína sobre os efeitos relativos dos tratamentos em um ensaio — entre os participantes que receberam HCQ e os controles.

O aviso de retratação diz que o periódico não recebeu uma resposta do autor correspondente — Raoult — sobre suas preocupações dentro do prazo estabelecido pelo periódico.

Questões da IHU

A investigação e a retratação vêm na esteira de preocupações mais amplas sobre a pesquisa no IHU. Após o estudo de 2020, os pesquisadores de lá continuariam a publicar outros artigos sobre HCQ e COVID-19, incluindo um estudo envolvendo 30.000 pessoas 3 . Mas outros trabalhos logo mostraram que a HCQ não era eficaz contra a doença 4 . E detetives e jornalistas começaram a levantar questões sobre ética em pesquisa em uma série de estudos de pesquisadores do IHU, principalmente sobre doenças infecciosas diferentes da COVID-19. Alguns críticos enfrentaram ameaças legais de Raoult — incluindo Bik , embora este ano um promotor de Marselha tenha concluído que ela não tinha nenhum caso para responder.

Em 2022, a Agência Nacional Francesa para Segurança de Medicamentos e Produtos de Saúde e inspetores de duas agências de auditoria comissionadas pelo governo emitiram relatórios encontrando violações éticas em vários projetos de pesquisa da IHU sobre tuberculose e outras doenças infecciosas. As descobertas foram encaminhadas a um promotor público para investigação, embora o status do caso não esteja claro.

Naquele ano, Raoult se aposentou como chefe do IHU. Como uma indicação da escala potencial de preocupações com o trabalho do IHU, um comentário de cientistas externos, publicado em agosto de 2023, levantou preocupações sobre aprovações éticas em 456 ensaios do IHU 5 . Os periódicos começaram a emitir retratações ou expressões de preocupação sobre os artigos do hospital, e os críticos fizeram um apelo renovado para retratar o artigo inicial do HCQ 6 .

“Por que levou mais de quatro anos e meio após a publicação inicial do estudo para que o periódico chegasse a essa conclusão não está claro. Também é um tanto surpreendente que a maioria dos autores do artigo ainda defenda as descobertas e conclusões do estudo, apesar de suas inconsistências óbvias, falhas metodológicas e potenciais problemas éticos, conforme descrito na nota de retratação”, diz Søgaard.

No geral, o IHU agora tem 32 artigos retratados — 28 deles de autoria de Raoult — e 230 outros estudos com expressões de preocupação.

doi: https://doi.org/10.1038/d41586-024-04014-9

Referências

  1. Gautret, P. et al. Internacional J. Antimicrobiano. Agentes 56 , 105949 (2020).

    Artigo PubMed Google Acadêmico 

  2. Rosendaal, FR Int. J. Antimicrobiano. Agentes 56 , 106063 (2020).

    Artigo Google Acadêmico 

  3. Brouqui, P. et al. Novos micróbios, nova infecção. 55 , 101188 (2023).

    Artigo PubMed Google Acadêmico 

  4. Axfors, C. et al. Natureza Comun. 12 , 2349 (2021).

    Artigo PubMed Google Acadêmico 

  5. Frank, F. et al. Res. Integr. Peer Rev. 8 , 9 (2023).

    Artigo PubMed Google Acadêmico 

  6. Barraud, D. et al. Terapias 78 , 437–440 (2023).

    Artigo Google Acadêmico 

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Fonte: Nature

COVID-19 pode impactar o cérebro de maneira semelhante à esquizofrenia e acelerar deficiências cognitivas

robina-weermeijer-IHfOpAzzjHM-unsplash-2Cientistas examinaram padrões de proteínas de cérebros de pessoas falecidas, que tinham esquizofrenia ou faleceram devido à COVID-19

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Ao infectar o cérebro, o vírus da COVID-19 afeta processos cerebrais também impactados por distúrbios como esquizofrenia e doença de Alzheimer. É o que aponta artigo publicado na sexta (19), na revista científica “European Archives of Psychiatry and Clinical Neurosciences”, assinado por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), do Instituto D’Or de Ensino e Pesquisa e do Centro Nacional de Pesquisas em Energia e Materiais (CNPEM). O achado pode colaborar para a compreensão e o tratamento dessas e de outras doenças com efeitos no cérebro.

Para investigar os mecanismos de atuação dessas condições, o grupo de pesquisadores examinou padrões de expressão de proteínas em cérebros de pessoas falecidas que tinham esquizofrenia ou que morreram devido à COVID-19, a partir de estudos prévios e de bancos de dados científicos. Eles identificaram uma espécie de assinatura cerebral proteica para cada uma das doenças. O segundo passo foi comparar esses padrões e entender quais funções do cérebro são afetadas pelas mudanças na quantidade e no tipo de proteínas presentes em relação a cérebros saudáveis.

“Nós esperávamos encontrar mais diferenças do que semelhanças, já que uma das condições é uma infecção viral aguda e a outra é uma doença que acontece desde o neurodesenvolvimento, com base genética”, explica Daniel Martins-de-Souza, pesquisador da Unicamp e autor do estudo. Contrariando as expectativas da equipe, os resultados mostram que diversas vias cerebrais em comum são afetadas pela COVID-19 e pela esquizofrenia, especialmente em termos de impactos moleculares e funcionais do cérebro.

Para o pesquisador, o que mais chama a atenção é a semelhança entre as duas condições nos processos que aceleram o envelhecimento cerebral. Além disso, ambas modificam os processos de obtenção de energia das células cerebrais e de comunicação com o organismo. A longo prazo, essa combinação pode contribuir para deficiências cognitivas e sintomas psiquiátricos, traços já observados em casos dessas doenças. “A infecção do vírus mostra um potencial de dessintonizar a maquinaria cerebral, deixando a pessoa mais propensa a eventos psiquiátricos e, aparentemente, também aos neurodegenerativos”, comenta o autor.

Outro efeito comum entre a COVID-19 e a esquizofrenia, destacado pelo estudo, é o aumento do risco de comorbidades metabólicas, como diabetes e síndrome metabólica, um grupo de condições que eleva o risco de ataques cardíacos e derrames. Isso porque essas condições alteram a maneira como o corpo processa carboidratos, como a glicose, resultando em dificuldades para regular os níveis de açúcar no sangue. Isso, por sua vez, aumenta a probabilidade de complicações graves e a taxa de mortalidade dos pacientes afetados.

As semelhanças encontradas pelo estudo na forma como as duas doenças atingem os mecanismos cerebrais podem levar a mais estudos e, no futuro, ao desenvolvimento de novas terapias para tratar pacientes afetados por uma ou ambas as condições. “Talvez a gente possa aprender mais sobre esquizofrenia com os dados de Covid e vice-versa”, ressalta Martins-de-Souza. “Acho que isso encurta caminhos para eventuais tratamentos, até mesmo na perspectiva de olhar para outras infecções virais que têm o potencial de afetar o cérebro, como o zika vírus, por exemplo”, conclui.


Fonte: Agência Bori

Estudo inédito mostra que uso de  Hidroxicloroquina no tratamento de COVID-19 causou aumento de mortalidade

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O uso de hidroxicloroquina (HCQ) no tratamento de casos de COVID-19 causou aumento de 11% na taxa de mortalidade em pacientes hospitalizados, segundo pesquisa publicada no volume mais recente da revista científica Biomedicine & Pharmacotherapy .

Segundo a investigação, realizada por uma equipe liderada por de cientistas franceses da Universidade de Lyon, a hidroxicloroquina foi prescrita em pacientes hospitalizados com esta doença, apesar do baixo nível de evidência de benefícios no controle da COVID-19.

“O uso de HCQ foi associado a um aumento de 11% na taxa de mortalidade em uma meta-análise de ensaios randomizados”, diz o estudo.

Com base nos resultados desta investigação, o número de mortes relacionadas com a hidroxicloroquina em pacientes hospitalizados é estimado em 16.990 em apenas seis países com dados disponíveis para análise.

Contato com outros coronavírus preparou defesa contra COVID-19 e explica casos assintomáticos

Pesquisadores descobriram que variante genética que ajuda sistema imunológico a combater o Sars-Cov-2 antes que cause sintomas surgiu do contato com antigos coronavírus que já circulavam anteriormente e causam infecções sem gravidade

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Por Rodrigo Choinski para Ciência UFPR

Os resultados de um estudo publicado na Nature nesta quarta-feira (19) revelou o motivo de algumas pessoas não apresentarem sintomas de Covid-19 quando infectadas. Os resultados mostraram que a presença de uma variante genética prepara o sistema imunológico para combater rapidamente o vírus Sars-Cov-2, que causa a doença, acabando com a infecção sem causar sintomas.

A variante foi identificada em um conjunto de genes que regula nosso sistema de defesa, chamado HLA (do inglês, Human Leukocyte Antigen). Quando temos uma infecção, esses genes são capazes de guardar cópias de partes de vírus, bactérias ou protozoários, formando uma memória imunológica que permite que as células T, uma de nossas células de defesa, consigam identificar e eliminar esses microrganismos.

Como explica Danillo Augusto, pesquisador do Laboratório de Genética Molecular Humana (LGMH) e professor do Programa de Pós-graduação em Genética da UFPR e na Universidade da Carolina do Norte em Charlotte, nos Estados Unidos, que é o primeiro autor desse estudo:

“As células T reconhecem partículas virais apresentadas pelas moléculas HLA, e montam uma resposta imune contra essas partículas. Dessa forma, quando uma célula tiver infectada, as células T vão perceber a presença dessa partícula e matá-la. Uma vez que a célula T reconheceu uma partícula uma vez, elas criam um mecanismo de memória imunológica, de forma que na próxima vez que elas encontrarem essa partícula viral a resposta será mais rápida e eficaz”.

O estudo, que consolidou um entendimento já levantado em 2021, mostrou que a variante, chamada de HLA-B*15:01, é uma resposta imunológica surgida do contato com coronavírus sazonais que não têm a capacidade de causar doenças graves. Esses vírus circulam há muito tempo causando pequenos resfriados, sem grande importância médica.

“Os indivíduos portadores dessa variante genética, que foram expostos a outros coronavírus, conseguiam reconhecer e eliminar as células infectadas pelo vírus da Covid-19 por causa da memória imunológica causada pela infecção anterior”, conclui o pesquisador.

O estudo mostrou que a presença do HLA-B*15:01 diminui em cerca de 2,4 vezes as chances de desenvolver sintomas da Covid-19, e quando o indivíduo tem um par desse gene, as chances eram 8 vezes menores. Além disso, segundo os resultados, cerca de 20% dos casos assintomáticos estavam associados à presença da variante.

Estudo comprovou que a resposta imune surgiu de semelhanças de outros vírus com o Sars-Cov-2

No início da pandemia os casos assintomáticos chamaram atenção dos pesquisadores que pensaram que poderia haver algum fator genético envolvido. Contudo, pessoas sem sintomas normalmente não procuram atendimento médico e seria muito difícil coletar amostras biológicas desses casos para estudo.

Augusto explica que foi dessa dificuldade que surgiu a ideia de trabalhar com um registro de doadores de medula óssea existente nos Estados Unidos, que já contava com dados genéticos, já que o HLA também tem um papel importante nos casos de rejeição de transplantes. Essas pessoas foram convidadas a baixar um aplicativo pelo qual compartilhavam resultados de testes para Covid-19 e relatavam se haviam tido algum sintoma.

O estudo analisou quase 30 mil voluntários que baixaram o aplicativo, dentre os quais 1.428 reportaram testagem positiva para a infeção. Foi a análise dos dados genéticos desse grupo que permitiu identificar a correlação entre os casos assintomáticos e a presença do HLA-B*15:01.

A partir desses resultados foram feitas análises com outras duas amostras, que confirmaram os primeiros achados. Com a associação bem estabelecida a pesquisa se debruçou em saber como a variante atuava, por meio de estudos funcionais.

Augusto explica que a análise de amostras de células coletadas antes da pandemia, quando era impossível que alguém tivesse tido contato com o vírus causador da Covid-19, confirmou a existência de memória imunológica contra o vírus.

“Nós mostramos diretamente a existência de células de memória contra Sars-Cov-2 nesses indivíduos, apesar de ser amostras muito antes da pandemia. Fizemos todo o sequenciamento do repertório de células T desses indivíduos. Com isso, nós conseguimos mostrar resposta imunológica cruzada com outros tipos de coronavírus que já existiam antes da pandemia”, relata o pesquisador.

Isso significa que as células T utilizavam a informação da variante gerada pelos coronavírus sazonais para reconhecer o Sars-Cov-2 devido a semelhança de alguns peptídeos. Em outras palavras, antes mesmo do novo coronavírus surgir esses indivíduos estavam preparados para combatê-lo.

Jill Hollenbach, professora do Departamento de Epidemiologia e Bioestatística da Universidade da Califórnia – São Francisco (UCSF) nos Estados Unidos, que também participou do estudo, explica que é como se houvesse um exército que já sabia o que procurar e conseguia identificar os inimigos por meio das roupas que eles estavam usando.

➕ Leia detalhes no artigo A genetic basis for asymptomatic SARS-CoV-2 infection, publicado pelo periódico Nature.


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Este texto foi inicialmente pela Ciência UFPR [Aqui!].

Jair Bolsonaro segue a trilha de Al Capone e pode ser pego por ato banal

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Jair Bolsonaro, que tanto brincou com fogo, pode acabar trilhando o caminho de Al Capone

É conhecida a história do gangster estadunidense Alphonse Gabriel “Al” Capone que, apesar de ter cometido muitos crimes, acabou sendo pego por algo aparentemente trivial que foi mentir em suas declarações de renda. Agora, 76 anos após a morte de Al Capone é o ex-presidente Jair Bolsonaro que está enredado com as teias da justiça por algo que pode parecer igualmente trivial que seria a falsificação de seus dados de vacinação contra a COVID-19, aparentemente para poder adentrar o território dos EUA.

É que na manhã desta 4a. feira estão sendo presos auxiliares diretos do ex-presidente, incluindo o já conhecido tenente-coronel do exército Mauro Cid. À essa prisão de auxiliares diretos somou-se a entrada na residência do ex-presidente onde foram realizadas, entre outras coisas, a apreensão do telefone dele e o da sua esposa, Michelle Bolsonaro.

Um detalhe que pode azedar ainda mais a situação de Jair Bolsonaro é que, conforme noticia o jornal O GLOBO, segundo o site da Embaixada dos EUA no Brasil, quem usar documentos fraudulentos para ingressar em solo americano “não receberá o benefício imigratório” e “poderá enfrentar multas ou prisão”.  Além disso, a embaixada informou que “são analisados pela Justiça segundo as leis americanas e brasileiras. A vacinação para entrar em solo americano será obrigatória até o dia 12 de maio deste ano.”

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Em outras palavras, se a situação de Bolsonaro já pode estar ruim no Brasil, a coisa pode ficar ainda pior nos EUA onde ele teria entrado com uma de vacinação falso. E é aí que a trilha de Al Capone poderá começar a ser trilhada por Bolsonaro e membros mais próximos de sua equipe e família que podem ter se utilizado do esquema de cartões falsos de vacinação. Isso, no mínimo, é curioso.

Revista Agenda Social lança nova edição com dossiê sobre Políticas Sociais durante a pandemia de COVID-19

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A revista científica Agenda Social, que é publicada pelo Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da Uenf desde 2007 e que passou por um processo de reestruturação, acaba de lançar uma nova edição que é composta primariamente por um dossiê contendo artigos que tratam da situação das políticas sociais durante a pandemia de COVID-19 no Brasil. Os artigos que compõe a edição trata de diferentes aspectos da condução da pandemia de COVID-19, bem como de diferentes estratégias adotadas para se minimizar os efeitos devastadores do novo coronavírus, especialmente entre os mais pobres. 

Como apontado no editorial da edição,  é preciso ter em mente que, no momento em que a pandemia do coronavírus se disseminou pelo mundo, o cenário brasileiro estava marcado pelo aprofundamento das desigualdades sociais, a drástica redução de recursos para o Sistema Único de Saúde, bem como pela retirada de direitos trabalhistas que dificultou ou impediu o acesso de milhares de brasileiros aos  programas de transferência de renda propostos pelo governo Bolsonaro.

Nesse sentido, o dossiê apresenta uma história de resistência em face não apenas do Sars-Cov-2, mas principalmente de um governo federal que agiu para dificultar o enfrentamento da pandemia.

Por outro lado, a edição também traz dois artigos no chamado “fluxo livre” que, de certa forma, se ajustam perfeitamente ao conteúdo do dossiê, na medida em que oferecem uma espécie de enquadramento das condições pelas quais a pandemia de COVID-19 teve efeitos tão devastadores no Brasil, na medida em que dados científicos já demonstraram que a população negra e as crianças foram particularmente afetadas pela ação do coronavírus.

Quem desejar acessar a nova edição da Agenda Social, basta clicar [Aqui!].

A pílula COVID é a primeira a reduzir o tempo de teste positivo após a infecção

O antiviral ensitrelvir, que não é aprovado nos Estados Unidos, reduz os sintomas em pessoas com COVID leve e pode reduzir o risco de COVID longa – mas são necessários mais dados

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Partículas de SARS-CoV-2 (azul; coloridas artificialmente) infectam uma célula. Crédito: Steve Gschmeissner/SPL

Por Mariana Lenharo para a Nature

A COVID-19 pode causar dias de sofrimento, mesmo em pessoas que não desenvolvem doenças graves. Agora, dados de testes mostram que um antiviral chamado ensitrelvir reduz os sintomas de COVID-19 leve a moderado em cerca de um dia – e é o primeiro medicamento a fazer uma redução estatisticamente significativa no número de dias em que as pessoas testam positivo para SARS-CoV- 2 .

O fabricante do medicamento, Shionogi em Osaka, Japão, diz que os dados também mostram que o ensitrelvir tem o potencial de prevenir COVID prolongado. Mas os cientistas são céticos sobre essa afirmação e críticos do desenho do ensaio clínico. A pesquisa foi apresentada na Conferência sobre Retrovírus e Infecções Oportunistas (CROI) em Seattle, Washington, em 21 de fevereiro, e ainda não foi revisada por pares.

Dois antivirais orais já são amplamente utilizados no tratamento da COVID-19: Paxlovid (nirmatrelvir/ritonavir) e molnupiravir . Ambos visam pessoas com alto risco de doença grave. Mas o ensitrelvir foi testado em pessoas independentemente de seu risco, o que pode ter implicações para seu uso em indivíduos de baixo risco. Nenhum medicamento demonstrou conclusivamente reduzir o risco de COVID longa, embora evidências preliminares indiquem que Paxlovid pode ter esse efeito.

Uma pílula para a tosse da COVID

Os organizadores do ensaio com ensitrelvir investigaram cerca de 1.200 pessoas, com o objetivo principal de determinar se o medicamento poderia acelerar a recuperação. Os resultados mostraram que os participantes que tomaram comprimidos de 125 miligramas de ensitrelvir se recuperaram de cinco sintomas específicos – nariz entupido ou escorrendo, dor de garganta, tosse, sensação de calor ou febre e baixa energia ou cansaço – cerca de 24 horas antes do que os do grupo de controle.

Os participantes que tomaram a dose de 125 miligramas também testaram negativo para SARS-CoV-2 cerca de 29 horas antes do que aqueles que tomaram placebo. Segundo Shionogi, o estudo foi o primeiro a mostrar uma redução estatisticamente significativa no tempo para um resultado de teste negativo.

Um subconjunto de participantes foi questionado sobre seus sintomas de COVID-19 três e seis meses após a inscrição no estudo, bem como durante o período de infecção aguda. Aqueles que relataram dois ou mais dos mesmos sintomas pelo menos duas vezes seguidas durante esse período foram definidos como tendo desenvolvido COVID longa. Os participantes que apresentaram um número relativamente alto de sintomas durante os estágios iniciais da doença tiveram um risco de 14% de desenvolver COVID longa se tomassem o antiviral, em comparação com um risco de 26% para participantes semelhantes no grupo placebo. Isso levou Shionogi a concluir que os participantes que receberam ensitrelvir tiveram um risco reduzido de desenvolver COVID longa.

Dúvidas sobre o projeto

Mas os cientistas que não estiveram envolvidos no estudo apontam que o ensaio não tinha como objetivo específico investigar o risco de COVID longa. Isso significa que o plano de pesquisa pré-julgamento não descrevia nenhum método para analisar dados longos da COVID.

Isso significa, por exemplo, que não está claro se a definição de Shionogi de COVID longa foi determinada antes do início do julgamento, observa o médico Eric Topol, diretor do Scripps Research Translational Institute em San Diego, Califórnia. Como esta foi uma fase exploratória do estudo, não é possível tirar conclusões fortes, acrescenta.

Simon Portsmouth, chefe de desenvolvimento clínico da Shionogi em Florham Park, Nova Jersey, diz que a empresa não poderia especificar o plano para analisar dados longos da COVID com antecedência porque  a COVID-19 longa era menos claramente definida no passado do que agora. Ele diz que esses resultados, embora não sejam definitivos, moldarão um estudo em andamento avaliando o efeito do ensitrelvir nos sintomas da COVID-19.

Os cientistas dizem que é plausível que os antivirais possam prevenir a COVID por muito tempo. Uma análise recente descobriu que as pessoas que tomaram Paxlovid tiveram um risco reduzido de desenvolver COVID longo em comparação com aquelas que não tomaram medicamentos antivirais 1 . O estudo, publicado como uma pré-impressão, ainda não foi revisado por pares. O coautor do estudo, Ziyad Al-Aly, chefe de pesquisa e desenvolvimento do VA St Louis Health Care System, no Missouri, diz que os dados do ensitrelvir o tornam mais otimista de que atacar o vírus no início de uma infecção “parece ser a chave para reduzir o risco de longo COVID.

Topol concorda que os dados que Shionogi tornou públicos apóiam a ideia de que os antivirais protegem contra a COVID longa, pelo menos quando o vírus residual está envolvido na causa de sintomas prolongados.

Perguntas persistentes

Mas não há consenso de que o vírus persistente cause COVID longo. “É perfeitamente possível que o vírus não tenha nada a ver com o longo COVID”, diz Edward Mills, pesquisador de saúde da McMaster University em Hamilton, Canadá. O longo COVID pode ser causado, por exemplo, pela resposta imune ao vírus, observa ele.

O estudo ideal para investigar se os antivirais previnem a COVID longa envolveria a seleção apenas de participantes cuja doença pode ser causada em parte pelo SARS-CoV-2 persistente, diz o imunologista Danny Altmann, do Imperial College London. Se os cientistas não separarem essas pessoas daquelas cujos sintomas não têm a mesma causa, os testes podem produzir “respostas obscuras”, diz Altmann.

doi: https://doi.org/10.1038/d41586-023-00548-6

Referências

  1. Xie, Y., Choi, T. & Al-Aly, Z. Pré-impressão em medRxiv https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2022.11.03.22281783v1 (2022).


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Este escrito originalmente em inglês foi publicado pela Nature [Aqui!].

EUA: quem está morrendo de COVID-19 agora e por quê

Quase três anos após a pandemia, a carga de mortalidade do COVID está crescendo em certos grupos de pessoas

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Crédito: EllenaZ/Getty Images

Por Melody Schreiber para a Scientific American

Hoje, nos EUA, cerca de 335 pessoas morrerão de COVID – uma doença para a qual existem vacinas , tratamentos precauções altamente eficazes . Quem ainda está morrendo e por quê?

As pessoas mais velhas sempre foram especialmente vulneráveis ​​e agora representam uma proporção maior de mortes por COVID do que nunca na pandemia. Embora o número total de mortes por COVID tenha caído, o ônus da mortalidade está mudando ainda mais para pessoas com mais de 64 anos. As mortes por COVID entre pessoas com 65 anos ou mais mais que dobraram entre abril e julho deste ano, aumentando 125% , de acordo com uma análise recente da Kaiser Family Foundation. Essa tendência aumentou com a idade: mais de um quarto de todas as mortes por COVID ocorreram entre pessoas com 85 anos ou mais durante a pandemia, mas essa parcela aumentou para pelo menos 38% desde maio.

O local onde as pessoas vivem também afeta seu nível de risco. A pandemia atingiu primeiro as áreas urbanas com mais força, mas a mortalidade aumentou drasticamente nas áreas rurais no verão de 2020 – um padrão que se manteve . Atualmente, a diferença está diminuindo, mas as pessoas que vivem em áreas rurais ainda estão morrendo em taxas significativamente mais altas. As taxas de mortalidade rural caíram de 92,2% acima das taxas urbanas no final de setembro para 38,9% mais altas em meados de outubro.

O racismo e a discriminação também desempenham um papel descomunal nas mortes por COVID. Embora as diferenças nas taxas de mortalidade ajustadas por idade com base na raça tenham diminuído recentemente, os especialistas preveem que as desigualdades provavelmente aumentarão novamente durante os surtos.

Nas últimas semanas, a taxa de mortalidade por COVID nos EUA permaneceu bastante estável , com 2.344 pessoas morrendo da doença no período de sete dias encerrado em 9 de novembro, de acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA. Mesmo assim, os EUA ainda respondem por uma grande parte de todas as mortes confirmadas de COVID que ocorrem em todo o mundo e têm o maior número de mortes confirmadas de COVID de qualquer país. Houve 1,2 milhão de mortes em excesso nos EUA desde fevereiro de 2020, de acordo com o CDC – perdas que remodelaram quase todas as partes da vida americana. A doença viral continua sendo a principal causa de morte durante toda a pandemia. E a expectativa de vida geral nos EUA caiu significativamente desde o início da crise. “Isso não tem precedentes”, diz Kristin Urquiza, cofundadora da Marked by COVID , uma rede de defesa em homenagem às vítimas da doença. “E eu não acho que isso vai parar tão cedo.”

O gráfico de área mostra a parcela de mortes por COVID nos EUA por faixa etária (abaixo de 65, 65–74, 75–84, 85+) de abril de 2020 a setembro de 2022.
Crédito: Amanda Montañez; Fonte: Kaiser Family Foundation

Mais de 200.000 pessoas já morreram por causa do COVID nos EUA em 2022, e o governo do presidente Joe Biden está se preparandopara mais 30.000 a 70.000 mortes neste inverno. Um ano de gripe ruim, em comparação, causa cerca de 50.000 mortes .

No entanto, o financiamento público diminuiu ou desapareceu para as próprias vacinas e tratamentos que reduziram o risco de morte por COVID. Nos próximos quatro meses , essas ferramentas-chave estarão disponíveis apenas para aqueles que puderem comprá-las no mercado privado, à medida que os atuais subsídios federais acabarem – uma situação que pode afetar o acesso e a aceitação. “É assustador pensar no que acontecerá quando houver uma próxima onda se essas coisas não voltarem”, diz Elizabeth Wrigley-Field, demógrafa e socióloga da Universidade de Minnesota.

No auge do aumento mais recente de mortes em agosto, 91,9% de todas as mortes em todo o país ocorreram entre pessoas com 65 anos ou mais – a maior parcela de qualquer aumento na pandemia, ainda maior do que em abril de 2020.

As instituições de cuidados de longo prazo foram duramente atingidas durante a pandemia, com residentes e funcionários respondendo por cerca de um quinto de todas as mortes por COVID. Em 2021 as vacinações e tratamentos ajudaram a diminuir esses golpes. Mas as mortes por COVID em lares de idosos agora aumentaram novamente. De abril a agosto deste ano, esse número mais que triplicou .

Embora a maioria das mortes por COVID esteja entre os idosos, os mais jovens ainda estão morrendo em taxas mais altas do que o normal por causa da doença – especialmente aqueles que trabalham em áreas essenciais, mostram pesquisas . Em condições normais nos Estados Unidos, “os jovens raramente morrem”, diz Justin Feldman, cientista visitante do Harvard François-Xavier Bagnoud Center for Health and Human Rights, que estuda a desigualdade social. Mas agora, diz ele, “o excesso de mortalidade para todas as faixas etárias é bastante alto e excepcionalmente alto nos EUA, em comparação com outros países ricos”.

Quando se trata de raça e etnia, bem como de geografia, outros padrões também estão surgindo. Mas os especialistas observam que essas mudanças provavelmente serão temporárias.

A cada outono, as taxas de mortalidade por COVID entre os brancos ficaram mais próximas ou mais altas do que entre os negros. Mas as mortes de pessoas racialmente minoritárias aumentaram novamente durante os surtos, quando a taxa total de mortes por COVID aumenta. Os especialistas esperam o mesmo padrão de desigualdade em surtos futuros. “Os brancos estão morrendo em taxas mais altas durante determinados períodos de tempo, quando a contagem total de mortes é menor. E os negros estão morrendo em taxas mais altas durante outros períodos de tempo em que a contagem de mortes é maior ”, diz Feldman. “E isso nem sequer reconhece os índios americanos, os nativos do Alasca e as ilhas do Pacífico, que tiveram consistentemente as maiores taxas de mortalidade durante todo o tempo, em todos os momentos, e muitas vezes são excluídos desses tipos de análises”.

Dois anos após o início da pandemia, as mortes por todas as causas foram maiores para os povos indígenas e ilhéus do Pacífico , em comparação com os níveis pré-COVID, de acordo com um estudo publicado em setembro. As mudanças na expectativa de vida também atingiram as pessoas de cor com mais força. Pessoas negras, hispânicas e indígenas em áreas rurais tiveram o COVID-19 mais mortal em 2021 entre todos os grupos raciais ou étnicos relativamente grandes nos EUA, de acordo com um artigo de pré-impressão que ainda não foi revisado por pares. Essas disparidades são muitas vezes exacerbadas em áreas rurais com menor acesso aos cuidados de saúde e uma população mais velha e doente – e com taxas de vacinação frequentemente mais baixas.

As vacinas COVID ajudaram a reduzir algumas disparidades. “A vacinação reduz a desigualdade racial”, diz Feldman. “É simples assim.” Mas os mesmos fatores que colocam muitas pessoas de cor em risco, incluindo racismo e opressão sistêmica, persistem. Por exemplo, o acesso de reforço em comunidades de cor tem sido desigual, elevando as taxas de mortalidade.

Não ser vacinado ainda é um importante fator de risco para morrer de COVID. Em agosto de 2022, pessoas não vacinadas morreram seis vezes mais do que aquelas que receberam pelo menos a série primária da vacina, de acordo com o CDC. E pessoas não vacinadas com 50 anos ou mais tinham 12 vezes mais chances de morrer do que seus pares vacinados e com reforço duplo.

Como uma grande parte da população dos EUA recebeu pelo menos uma vacina contra a COVID, a maioria das mortes agora ocorre entre pessoas vacinadas. Em julho, 59% das mortes por COVID ocorreram entre os vacinados e 39% entre as pessoas que receberam um reforço ou mais. Isso não significa que as vacinas não estão mais funcionando; eles ainda são altamente eficazes na redução dos riscos de doenças graves e morte. Mas sua eficácia diminui com o tempo, e reforços contínuos precisam ser combinados com outras precauções para evitar doenças e morte. Em agosto, pessoas com 50 anos ou mais que foram vacinadas e receberam apenas um reforço tiveram três vezes mais chances de morrer do que pessoas com dois ou mais reforços, de acordo com o CDC.

Apenas 10,1% dos americanos com cinco anos ou mais receberam o relativamente novo reforço bivalente, que é altamente eficaz contra as variantes Omicron do SARS-CoV-2, o vírus que causa o COVID. Mais de 14 milhões de americanos com 65 anos ou mais (ou quase 27 por cento) receberam a vacina atualizada – uma taxa mais alta do que entre os americanos mais jovens, mas nada como a absorção das duas doses iniciais. “Nunca tivemos o mesmo tipo de esforço para tornar os reforços disponíveis e acessíveis da mesma forma que fizemos as séries primárias de vacinação”, diz Wrigley-Field. Os reforços são essenciais não apenas para reduzir a hospitalização e a morte de todos, mas também para enfraquecer as cadeias de transmissão e ajudar a proteger os mais vulneráveis.

Medicamentos antivirais e tratamentos com anticorpos monoclonais, que podem ser extremamente eficazes na prevenção de hospitalização e morte, também são subutilizados e distribuídos de forma desigual. Os códigos postais com as pessoas mais vulneráveis ​​têm a menor absorção de antivirais , apesar de terem mais locais de distribuição, descobriu um estudo do CDC. Outro estudo do CDC mostrou que pessoas de cor são menos propensas do que pessoas brancas a receber anticorpos monoclonais. Entre maio e o início de julho, apenas 11% das pessoas que testaram positivo para COVID relataram ter recebido prescrição de antivirais. Notavelmente, aqueles com rendas mais altas receberam o antiviral altamente eficaz Paxlovid em mais do que o dobro da taxa daqueles com rendas mais baixas, de acordo com outro estudo. Estima-se que 42 por centodos condados dos EUA eram “desertos de Paxlovid” em março, de acordo com uma análise de um local de distribuição de medicamentos.

Cerca de 8,7 milhões de americanos são imunocomprometidos, colocando-os em maior risco de morte por COVID. No entanto, apenas cerca de 5,3 por cento deles receberam Evusheld, um tratamento que pode prevenir resultados graves por seis meses de cada vez, o CDC estimou em setembro.

“Ainda estamos no meio desta crise”, diz Urquiza. “Os mais vulneráveis ​​não serão apenas deixados para trás, mas serão condenados à morte.”

Isso pode parecer uma história sobre números. Não é. É uma história sobre pessoas. Muitas de suas histórias foram compiladas por Alex Goldstein, fundador do Faces of COVID , um projeto online criado para mostrar as histórias por trás das estatísticas – e para homenagear as vidas perdidas e aqueles que as lamentam. “Todos nós perdemos algo quando seu ente querido morreu”, diz Goldstein. “Meu maior medo sempre foi que, se não aprendermos as lições dessa pandemia, o que acredito que estamos fazendo, seremos 10 vezes mais atingidos pela próxima”, acrescenta. “Acho que estamos provando que somos completamente incapazes de abraçar esses tipos de desafios. E isso me assusta para o futuro.”


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela revista Scientific American [Aqui!].

Agenda Social faz chamada para dossiê com artigos sobre “Políticas Sociais e a pandemia”

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A revista “Agenda Social”, uma publicação do Programa de Pós Graduação em Políticas Sociais (PGPS) da Universidade Estadual do Norte Fluminense acaba de lançar uma chamada para a publicação de um dossiê que versará sobre as “Políticas Sociais e a pandemia da COVID-19” que terá os professores Carlos Abraão Valpassos e Renata Maldonado da Silva como os editores responsáveis. O período de submissão dos artigos é de 15 de agosto a 15 de outubro de 2022.

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Para eventuais interessados em submeter artigos científicos para este dossiê, segue abaixo uma descrição completa dos termos da convocatória:

Em 11 de março de 2020 a Organização Mundial de Saúde decretou a existência da pandemia de Covid-19. A partir desse momento, o mundo passou a enfrentar a primeira grande crise sanitária do século XXI, responsável pela imposição de significativos desafios relativos a todas as esferas da vida. Diante da crise que se instaurou, inúmeras estratégias de enfrentamento foram estabelecidas pelos atores sociais, no afã de reduzir os efeitos perniciosos do coronavírus.

Neste dossiê, pretendemos reunir trabalhos que abordem os impactos da pandemia de covid-19 sobre as políticas sociais, abordando as transformações acarretadas e as respostas oferecidas ao novo contexto que abruptamente se impôs. Nos interessa a crise instaurada pela covid-19 sobre as políticas sociais e também a forma como estas tiveram que se adaptar, ou não, na persecução de seus objetivos. Seja na esfera educacional, habitacional, ambiental, da saúde, da segurança pública ou da segurança alimentar, mudanças foram impostas pela pandemia, rearticulando objetivos e atores. Os movimentos sociais, os grupos de interesse, as elites econômicas e intelectuais foram envolvidas na crise pandêmica, o que alterou o escopo e os desafios das políticas sociais existentes até então.

Quais alterações, paralisias e respostas foram apresentadas nesse contexto? Qual o papel e os desafios das políticas sociais frente ao quadro de mudança apresentado pela emergência pandêmica? Essas são algumas das questões que surgem quando correlacionamos o advento da covid-19 e a formulação e implementação das políticas sociais enquanto ações da esfera pública, envolvendo a participação do Estado e das diferentes instituições de governo, bem como de movimentos sociais organizados e o contexto econômico e político do país.

Nesse sentido, a Revista Agenda Social, do Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da Universidade Estadual do Norte Fluminense – Darcy Ribeiro, convida autoras e autores de diferentes áreas de formação, dedicados à reflexão sistemática sobre políticas sociais, a contribuírem com artigos originais para seu dossiê temático intitulado “As Políticas Sociais e a Pandemia de Covid-19 – Ações e reações em um mundo colapsado”.