Golpe, que golpe? Toda a encenação feita em troca do ministro da Defesa e dos chefes das três forças não passa de uma imensa cortina de fumaça para nos cegar em face da grave crise sanitária e humanitária que assola o Brasil neste momento.
De fato, o pior golpe é o que estamos sofrendo com a negligência proposital no combate à pandemia da COVID-19. Enquanto nos distraem com tramas palacianas, o Brasil teve 3.780 mortes nas últimas 24h, e agora totaliza 317.646 vidas perdidas para Covid. Tivemos ainda 84.494 novos casos, com um total de 12.658.109 em pouco mais de um ano ano.
São famílias inteiras sendo ceifadas. São avôs e avós, filhas e filhos, netas e netos, sobrinhas e sobrinhos, primas e primos, tias e tios. E também muitos que são parte da nossa família do destino que chegam para compor e cumprir papéis fundamentais nas nossas existências.
E é importante lembrar que toda essa dor e sofrimento não é acidente, mas um projeto friamente calculado e aplicado, atingindo principalmente os segmentos mais pobres da nossa população.
Então, modestamente acho que devemos rejeitar as distrações e nos concentrar no que é essencial neste momento, que é combater a pandemia e salvar o maior número de vidas que pudermos.
Vendido como a “educação do futuro”, emprega modelo do século XIX, baseado no despejo frenético de conteúdo. Uma tragédia em tempos de concentração reduzida e traumas familiares. Como usar ferramentas virtuais para romper atraso?
Por Rudá Ricci, no Jornalistas Livres
Rice sustentava que a educação deveria ter o foco na formação para a indústria. Daí, as disciplinas mais importantes seriam aquelas vinculadas à produção industrial: matemática, física, química, biologia e comportamento. A leitura (para o operário ler instruções) completava esta normativa. O educador taylorista, então, dividiu o número de aulas que considerava necessária para o desenvolvimento, em quatro anos do ensino “primário” pelo tempo de aula naquele momento e chegou aos 40 minutos. O módulo-aula, então, não tem relação alguma com qualquer aspecto pedagógico.
Se tivesse alguma relação com a estrutura mental, o módulo aula teria 20 minutos, tempo máximo de concentração de crianças e adolescentes no mundo atual. Para Larry Rosen, professor da Universidade Estadual da Califórnia, a capacidade média de concentração é de apenas cinco minutos. A estranha transposição do módulo-aula para as modalidades de ensino remoto parece um atalho completamente desqualificado. A concentração em tempos de pandemia diminuiu ainda mais. Incluindo os adultos, pais ou responsáveis pelos nossos alunos. Uma pesquisa recente envolvendo 33 mil jovens de 15 a 29 anos do Brasil revela a angústia e pedido de socorro às escolas. Voltarei a esta pesquisa mais adiante, mas vale destacar o percentual elevado de alunos decepcionados com suas escolas por não lhes dar segurança emocional.
Ora, o primeiro erro pedagógico grosseiro que estamos cometendo é transpor – ou adequar sem acuidade técnica alguma – o módulo-aula que empregamos desde o século XIX.
Qual seria o tempo de programação de aulas durante a pandemia: cinco dias úteis. Esta deveria ser a medida. Estou sugerindo que cada plano de aula deveria se apoiar na pedagogia de projetos em que os alunos seriam instigados a planejar seu tempo de pesquisa para elucidar um problema ou situação-problema (como se pensou o ENEM originalmente).
O acompanhamento poderia ocorrer por “dicas” fornecidas por programas de rádio (todos têm acesso ao rádio e esta é a experiência mais exitosa de ensino remoto atual, praticado por Alagoas). O diálogo de professores com alunos se daria por mecanismos próximos ao portfólio. Convênios das secretarias de Educação com os Correios ou, nas áreas rurais, com cooperativas que possuem “linhas” de coleta de produtos agrícolas garantiriam o fluxo. Na segunda, professores despachariam cadernos com o projeto da semana e, na sexta, os cadernos retornariam para análise e correção.
Passemos para o que considero ser o segundo erro grosseiro do ensino remoto: desconsiderar a interatividade típica das novas tecnologias de comunicação. A grande maioria das redes de ensino transformaram as plataformas em informação dada, sem interatividade entre alunos. Se há algo significativo no uso das novas tecnologias pelas crianças e adolescentes é a interatividade. Basta acompanhar a troca de mensagens pelo YouTube, Instagram ou as plataformas mais velozes. Eles formam opinião pela interação, pela troca de impressões.
O que estamos fazendo é transformar as plataformas em “folder eletrônico” em que a relação é verticalizada: o comando pedagógico com o objeto passivo do recebimento. Se alguém lembrar da “educação bancária”, matou a charada.
O módulo-aula e o pobre uso das plataformas empregadas para o ensino remoto são irmãos siameses: fazem uma mera transposição das aulas presenciais para o ensino remoto. Coisa de preguiçoso, sejamos honestos. Chegamos no terceiro erro pedagógico: o foco no resultado (do IDEB e ENEM), negando o desequilíbrio emocional dos alunos.
A pesquisa com jovens que citei logo no início deste fio indica que 30% dos 33 mil jovens pesquisados não sabem se voltarão às aulas no futuro. Parte desses 30% afirmam que esperavam maior apoio emocional nesse momento em que suas famílias perdem renda, morrem parentes por COVID-19 e o futuro ficou nebuloso. O que fazem as escolas? Despejam atividades sem parar, numa sequência desumana. Erramos por ansiedade pedagógica. Esquecemos de entender, antes, as condições concretas de estudo de nossos alunos. Saltamos do mundo real para a construção idealizada de uma aula normal em meio ao caos.
O foco deveria ser a criação de “Rodas de Conversa” entre alunos, espaços em que poderiam relatar suas dúvidas e angústias para reconstruir a crença no coletivo, na escola e na sociedade. A questão central é: estudar para quê? Esta é a chave da comunicação e da pedagogia.
Chegamos no quarto erro pedagógico: acreditar que há uma enorme distância entre educação e desenvolvimento social. Esta crença surge dos modelitos administrativistas e gerenciais da cultura anglo-saxônica que copiamos nas últimas décadas e que o CONSED adora. Focamos nas avaliações externas, nos números, nas tabelas que devem ser preenchidas e nos esquecemos que educação é relação humana. Não há aluno que se concentre se está adoecendo ou se tem familiar sem perspectiva.
Posso relatar casos que vivenciei nesses anos de caminhada na educação brasileira. Vou citar um caso como ilustração. Uma menina furtava lápis e outros objetos dos seus coleguinhas de sala. Um técnico formado para visitar famílias – o articulador comunitário – foi à sua casa. Ao chegar à residência da família da aluna, foi atendido pela avó, que se desesperou quando soube do comportamento da neta. Chamou a neta e ouviu da criança que ela furtava para ser presa e, assim, ficar com a mãe que cumpria pena por ser “mula” do tráfico de drogas. O impacto dessa informação levou a mãe a ter sua sentença reformada. Voltou para casa com tornozeleira eletrônica. Em três meses, a aluna voltava ao seu padrão de comportamento. Não há como existir educação sem equilíbrio familiar.
Nessa ansiedade da “sociedade do desempenho”, o Brasil se esqueceu da função da educação e da pedagogia. A formação de nossos alunos não se dá somente pela escola. A formação formal concorre – ou se associa – com a formação familiar, principalmente em período pandêmico. É comum gestores educacionais distinguirem a estratégia educacional do que consideram “assistencialismo” (na verdade, política de desenvolvimento social). Equívoco grosseiro de quem estacionou no Século XX. Todos os estudos internacionais indicam exatamente o contrário.
Temos, portanto, um desafio educacional gigantesco. Precisamos ouvir mais e estudar mais ao invés de criar atalhos pedagógicos que estão dando com os burros n’água. Muitos pais ou responsáveis trabalham fora. Com quem deixar seus filhos? Muitos pais trabalham em home-office: como dividir tarefas profissionais com familiares se os dois espaços se confundem? É grande parte dos pais que afirmam que os conflitos familiares aumentaram neste período.
Ao mesmo tempo, não há como as aulas presenciais retornarem neste momento em que batemos recordes diários de mortes por COVI-19 em nosso país. A Fiocruz sugere que somente quando chegarmos a um infectado novo por dia a cada 100 mil habitantes poderemos ter aulas presenciais.
Este texto foi originalmente publicado no “Outras Palavras” [Aqui!].
Vacina contra covid-19 não chega em UBS de Moema (sul da cidade de São Paulo) e idosos ficam horas em pé em fila. COSME RÍMOLI/R7
A par das lamentáveis cenas de “turistas” enfrentando de forma agressiva as barreiras sanitárias colocadas em regiões de praia que decidiram que a chegada deles não é bem vinda neste momento, há um outro lado também pouco pitoresco na atual fase da pandemia da COVID-19 no Brasil que é o uso do famigerado “jeitinho brasileiro” nas filas (ou na furação delas) de vacinação.
E não pense que estou falando apenas daquele grupo de políticos e empresários de Minas Gerais que decidiram montar o seu próprio serviço de vacinação comprando vacinas sabe-se lá onde e como. Esse caso é apenas a faceta mais ignóbil de uma parte das elites brasileiras que se acha acima do bem e do mal. A furação da fila que eu estou falando envolve, o que eu chamaria, de “gente como a gente”, mas que na hora “H” e no dia “D” (só para lembrar do agora ex-ministro Eduardo Pazuello) está optando por usar aquela faceta do “jeitinho brasileiro” com o “você sabe com quem está falando“?
Aqui mesmo em Campos dos Goytacazes tenho recebido relatos diversos sobre práticas que envolvem desde a concessão de atestados para estudantes de graduação recém-saídos da adolescência (sob a desculpa insustentável que estão na linha de frente do combate à pandemia), passando pela formação de grupos de “pessoas especiais” que pertencem a determinadas categorias profissionais, e chegando até na simples manipulação das filas com a tática “um carro, famílias inteiras”. Enquanto isso, aqueles que deveriam estar sendo vacinados são expostos a graves humilhações, ficando horas esperando pelo momento de serem vacinados, enquantos os “espertos” fulam a vez, e ainda têm o desplante de postar imagens do momento da “furada” em suas redes sociais.
Toda essas manobras para furar a fila da vacina são práticas que revelam as tripas de uma sociedade baseada na segregação e na concentração de oportunidades nas mãos de uma minoria. Somos assim todos os dias, mas o que está acontecendo nas filas de vacinação tem o dom de expor o odor fétido que pulsa nas veias de uma sociedade que preza mais a esperteza individual do que a solidariedade coletiva. É a mistura acabada entre o jeitinho e o “você sabe com quem está falando?”.
Aí quando se revelam esse especialmente maldoso do “jeitinho brasileiro” há quem culpe este ou aquele governante, pedindo que se organize as filas e se imponha a ordem das coisas. Ainda que haja a necessidade da intervenção do aparato estatal para se colocar “um mínimo de ordem na casa”, para mim está mais claro do que nunca que o único remédio para essa doença individualista é que saiamos da calma olímpica que nos caracteriza para uma posição ativa de ostracização daqueles que se acham “mais iguais do que os demais”. Só assim teremos uma chance de formar uma sociedade que preze a solidariedade e o coletivo.
Uma das primeiras consequências da eleição de Jair Bolsonaro foi a retirada de quase 10 mil médicos cubanos que atuavam nas periferias pobres e nos rincões mais distantes do território brasileiro. Com a saída dos especialistas cubanos pôs-se fim ao exitoso e combatido programa lançado pela presidente deposta Dilma Rousseff, o “Mais Médicos”.
Depois de pouco mais de dois anos daquela saída estrepitosa e que foi saudada com alegria pela maioria da classe médica brasileira, um incontável número de vagas em unidades hospitalares voltadas para o tratamento dos infectados pelo Sars-Cov-2 estão ociosas porque os médicos brasileiros estão decidindo não ocupá-las, provavelmente porque o risco da infecção não é compensado pelos salários oferecidos. Com isso, temos hoje milhares de brasileiros infectados e passando graves dificuldades de saúde, aguardando leitos e até morrendo sem que sejam acolhidos para tratamento.
Em minha modesta opinião, os governadores e prefeitos que hoje estão adotando medidas de isolamento social deveria também iniciar um movimento nacional para pressionar o presidente Jair Bolsonaro para que educadamente solicite ao governo de Cuba o envio de suas brigadas de médicos especializados em tratamento de doenças altamente infecciosas como é o caso da COVID-19. Essas brigadas já vem atuando em diversos países, inclusive na Europa, e conseguido contribuir para reverter cenários extremamente difíceis, como foi o da Itália na primeira onda da COVID-19. Se o presidente Bolsonaro se recusar a solicitar a ajuda cubana, que governadores e prefeitos mobilizem o Congresso Nacional para que isso se dê via a ação do parlamento. O fato é que o Brasil precisa dos médicos cubanos para ter uma espécie de “Mais Médicos contra a COVID-19”.
O que não é possível é continuarmos vendo o avanço destroçador da pandemia e não pedir a ajuda de quem tem todas condições de nos ajudar a superar a situação catastrófico em que fomos metidos por um governo negacionista como é o de Jair Bolsonaro.
Em suma: tragam de volta os médicos cubanos! E que desta vez eles não cheguem nos nossos aeroportos sob vaias e protestos daqueles que podendo auxiliar a população brasileiro estão preferindo ficar na segurança dos seus lares, e muitos deles já vacinados.
A mais recente pesquisa de opinião liberada sobre o desempenho do governo Bolsonaro, que foi feita pela parceria Exame/Idea, traz várias más noticias para o presidente Jair Bolsonaro, muito em função do mau desempenho no controle da pandemia da COVID-19 e da péssima performance da economia brasileira em meio ao avanço do número de mortes.
Um primeiro dado importante que eu selecionei do relatório se refere ao desempenho pessoal do presidente Jair Bolsonaro que agora atingiu 49% de aprovação em um processo de escalada que se aproxima dos piores níveis de performance obtidos em meados do ano passado (ver figura abaixo).
Outro dado é que, ao contrário do defendido por Jair Bolsonaro e pelos setores mais “raiz” do Bolsonarismo, a maioria da população brasileira concorda com as medidas de isolamento social que visam diminuir a curva contaminação do Sars-Cov-2, em uma proporção que chega praticamente a quatro vezes o número dos que se opõe às ações restritivas (ver figura abaixo).
Para piorar ainda mais a situação do presidente Jair Bolsonaro, uma maioria significativa (71%) dos que participaram da pesquisa da Exame/Idea, são favoráveis à abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar os responsáveis pela má gestão da Saúde durante a pandemia da COVID-19 e, em específico, a crise que se abateu sobre a cidade de Manaus, um dos principais epicentros da doença em todo o planeta (ver figura abaixo).
O problema para o presidente Jair Bolsonaro e seu governo fica ainda mais grave quando essas 3 questões são colocadas em conjunto, pois demonstra não apenas que o descrédito em relação ao presidente da república está em processo de aceleração, como há também uma tendência a apoiar as medidas restritivas e, pior, para eventual encontrar culpados pela gravíssima situação em que o Brasil se encontra neste momento.
Se as pesquisas de opinião continuarem captando esse nível de desgaste, a pressão política sobre o presidente Bolsonaro irá certamente aumentar, com resultados ainda imprevisíveis.
Quem desejar ler a pesquisa da Exame/Idea na sua integra, basta clicar [Aqui!]
Por Matheus Magenta, da BBC News Brasil em Londres
300 mil mortes por COVID-19? Total já pode ter passado de 410 mil no Brasil, apontam pesquisadores. Oficialmente, o Brasil ultrapassou nesta quarta-feira (24/3) a marca trágica de 300 mil mortos por covid-19 durante a pandemia. Mas registros hospitalares brasileiros apontam que o número de pessoas que morreram em decorrência de casos confirmados ou suspeitos da doença no país pode já ter passado de 410 mil.
Essa estimativa aparece em duas análises distintas, uma liderada por Leonardo Bastos, estatístico e pesquisador em saúde pública do Programa de Computação Científica da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), e outra pelo engenheiro Miguel Buelta, professor titular da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP).
Ambas se baseiam em dados oficiais de síndrome respiratória aguda grave (SRAG), um quadro de saúde caracterizado por sintomas como febre e falta de ar.
A legislação brasileira estabelece que todo paciente que é internado no hospital com SRAG precisa obrigatoriamente ter seus dados notificados ao Ministério da Saúde por meio do Sistema de Informação de Vigilância Epidemiológica da Gripe (conhecido como Sivep-Gripe). Esse sistema é utilizado há anos e permite saber quantos casos de infecções respiratórias necessitaram de hospitalização e evoluíram para óbito no país.
No primeiro semestre de 2019, foram registrados 3.040 óbitos por síndrome respiratória aguda grave. No mesmo período em 2020, foram registrados 86.651. Até o momento, de todas as pessoas com SRAG e resultado laboratorial para algum vírus na pandemia, mais de 99% acabaram diagnosticadas com covid.
Esses dados são considerados bons indicadores por não sofrerem tanto com a escassez de testes ou resultados falsos positivos. Mas há alguns problemas, entre eles o atraso: pode levar bastante tempo até uma internação ou uma morte ser contabilizada no sistema.
Então, como saber o número atual mais próximo da realidade? Como os pesquisadores chegaram à estimativa de 410 mil ou 415 mil mortes por doença respiratória grave?
Projeção do agora
Bem, os cientistas fazem o que se chama de nowcasting, que grosso modo é uma projeção não do futuro (forecasting), mas do agora. Isso se faz ainda mais necessário durante a pandemia por causa dessa demora da entrada dos registros de hospitalizações e mortes no sistema digitalizado.
É como se os dados disponíveis hoje no sistema oficial formassem um retrato desatualizado e cheio de buracos. Para preencher e atualizar essa imagem, é preciso calcular, por exemplo, qual é o tamanho desse atraso, de uma morte de fato à entrada do registro dela no sistema, a fim de “prever” o que está acontecendo atualmente.
Bastos lidera análises de nowcasting numa parceria que envolve o Mave, grupo da Fiocruz de Métodos Analíticos em Vigilância Epidemiológica, e o Observatório Covid-19 BR, grupo que reúne cientistas de diversas instituições (como Fiocruz, USP, UFMA, UFSC, MIT e Harvard).
“(O nowcasting) corrige os atrasos do sistema de notificação vigente, isto é, adianta-se as notificações oficiais futuras pelo tempo médio entre a ocorrência dos primeiros sintomas no paciente e a hospitalização, quando há o registro dos seus dados no sistema de vigilância. Esse tempo abrange várias etapas: desde procurar um hospital, coletar o exame, o exame ser realizado e o resultado do teste positivo para COVID-19 estar disponível para ser incluído no banco de dados. O tempo acumulado entre essas etapas do processo causa atrasos de vários dias entre o número de casos confirmados no Sivep-Gripe (plataforma oficial de vigilância epidemiológica) e os casos ainda não disponíveis no sistema, que são compensados somando aos casos já confirmados uma estimativa de casos que devem ser confirmados no futuro”, detalha o Observatório COVID-19 BR.
A dificuldade de monitorar em “tempo real” o que acontece durante epidemias é global, e diversos cientistas ao redor do mundo tentam achar soluções para esse problema.
Os cálculos atuais sobre a pandemia no Brasil liderados por Bastos foram feitos a partir da adaptação de um modelo estatístico proposto em 2019 por ele e mais oito pesquisadores.
Para apontar um retrato atual mais preciso da pandemia, essa modelagem estatística (hierárquica bayesiana) corrige os atrasos dos dados incorporando nos cálculos, por exemplo, a partir do conhecimento prévio da ciência sobre o que costuma acontecer durante o espalhamento de doenças como gripe. Mais detalhes no artigo disponível neste link aqui.
Para chegar até o número de 415 mil mortes por SRAG, Bastos explica à BBC News Brasil que são analisados primeiro os dados da semana atual e da anterior, a fim de identificar quantos casos e óbitos tiveram uma semana de atraso.
“Assim, aprendemos a respeito do atraso e usamos isso para ‘prever’/corrigir a semana atual e as últimas 15 semanas. O total de 415 mil mortes por SRAG é a soma dos casos observados acumulados até 15 semanas atrás com as estimativas mais recentes corrigidas.”
Cemitério no bairro Bom Jardim, em Fortaleza. Fonte: JARBAS OLIVEIRA/AFP
Em sua análise, Miguel Buelta, professor da USP, aponta um número parecido.
Ele explica em seu perfil no Twitter que analisou os dados de óbitos por COVID e SRAG até 14 de março e calculou a subnotificação dos últimos 60 dias a partir dos dados atrasados que foram entrando no sistema no período. “Fiz o cálculo para 14/01/2021. Subnotificação = 37% naquela data. Se este valor fosse mantido até hoje, no lugar dos 300 mil óbitos, poderíamos ter hoje 410 mil.”
Mas Buelta acredita que o valor pode ser ainda maior. “A situação atual é muito mais emergencial. É uma tragédia. Vamos todos lutar contra isso. Isolamento social e ajuda emergencial. Fora disso não há solução.” Mais detalhes sobre o modelo estatístico usado por ele aqui neste link.
1,7 milhão de internados
Na análise liderada por Bastos, da Fiocruz, estima-se que o Brasil tenha registrado mais de 1,7 milhão de internações durante a pandemia de coronavírus por causa de doenças respiratórias graves. Na pandemia de H1N1, em 2009, o total foi de 202 mil hospitalizações.
Ao se debruçar sobre os dados, ele aponta ainda uma tendência de piora na ocupação de hospitais no Distrito Federal e em nove Estados: Rondônia, São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás, Rio Grande do Norte, Espírito Santo, Maranhão, Ceará e Minas Gerais.
Todos eles têm mais de 20 hospitalizações por 100 mil habitantes. Em Rondônia, essa taxa chega a 49, por exemplo.
Por outro lado, Rio Grande do Sul e Santa Catarina parecem ter conseguido conter a tendência de alta das hospitalizações. Isso, no entanto, pode significar tanto que a situação melhorou quanto que não tem mais como o número piorar dada a superlotação dos hospitais. De todo modo, ambos os Estados ainda estão em um patamar bastante elevado, acima de 20 hospitalizados por 100 mil habitantes.
“Hospitalizações e óbitos só vão reduzir quando uma boa parcela das populações prioritárias, segundo o Programa Nacional de Imunização, forem imunizadas. Antes disso, sem uma redução efetiva da transmissão, veremos onda depois de onda”, afirma Bastos.
Este texto foi publicado pela BBC News Brasil [Aqui!].
Sistema CFQ/CRQs e Abipla se unem no combate à desinformação
Circula nas redes sociais um vídeo sugerindo que a inalação de uma substância formada por água, bicarbonato de sódio e hipoclorito de sódio (água sanitária) ajuda a prevenir e curar a COVID-19. Preocupados com a desinformação, o Sistema CFQ/CRQs (Conselho Federal de Química e 21 Conselhos Regionais) e a Associação Brasileira das Indústrias de Produtos de Higiene, Limpeza e Saneantes (Abipla) divulgaram, nesta quinta-feira (25), Nota Oficial sobre o perigo dessa inalação. O objetivo é orientar a população neste momento grave da pandemia.
A nota destaca que os produtos saneantes, tais como a água sanitária, foram desenvolvidos para utilização sobre superfícies inanimadas, jamais para aspersão sobre a pele e menos ainda para inserção nas vias respiratórias. A inalação proposta é possível através da aquisição de produtos simples e acessíveis a maior parte da população, o que aumenta a possibilidade de sua utilização em massa e potencializa seus riscos.
“Compreendemos que, neste momento de pandemia, grupos acabam tentados a experimentações sem qualquer tipo de controle ou registro técnico de resultados. Em consequência, é previsível que se promova a divulgação de tais experimentos. A nós, como profissionais da Química e representantes da indústria do setor de higiene e limpeza, cabe o alerta de que as consequências dessas iniciativas são invariavelmente danosas à saúde. Quaisquer substâncias são completamente seguras apenas quando obedecidas as instruções dos fabricantes que foram previamente analisadas e aprovadas pela Anvisa”, diz a nota.
O Sistema CFQ/CRQs e a Abipla reforçam ainda no documento que as “medidas de distanciamento social, higiene pessoal e vacinação em massa são as principais iniciativas respaldadas na Ciência e, por enquanto, as que devem ser consideradas para o controle da pandemia”.
Veja a íntegra da nota:
NOTA CFQ/ABIPLA SOBRE VÍDEO QUE DESINFORMA AO PROPOR INALAÇÃO COM SOLUÇÃO DE ÁGUA SANITÁRIA PARA COVID-19
É com profunda preocupação que o Sistema CFQ/CRQs, composto pelo Conselho Federal de Química (CFQ) e pelos 21 Conselhos Regionais de Química (CRQs), observa uma crescente no volume de desinformação que circula nas redes sociais e especialmente via aplicativos de mensagens instantâneas. Por tal razão, nos somamos à Associação Brasileira das Indústrias de Produtos de Higiene, Limpeza e Saneantes de Uso Doméstico e de Uso Profissional (ABIPLA) na difusão do presente alerta à sociedade.
Nos últimos dias, um vídeo em especial traz apreensão pelos potenciais riscos a que expõe a população. Trata-se de um relato em primeira pessoa em que um homem sugere a inalação de uma solução envolvendo, entre outros produtos, água sanitária e bicarbonato de sódio para nebulização de infectados com o vírus Sars-Cov-2, responsável pela Covid-19.
Como é de conhecimento geral, o tratamento precoce para essa doença é um assunto polêmico, que carece de comprovações científicas e que divide opiniões até entre os próprios médicos. Medidas de distanciamento social, higiene pessoal e vacinação em massa são as principais iniciativas respaldadas na Ciência e, por enquanto, as que devem ser consideradas para o controle da pandemia.
A solução proposta no vídeo em questão expõe a riscos sérios aqueles que a aplicam: esses produtos foram desenvolvidos para utilização sobre superfícies inanimadas, jamais para aspersão sobre a pele e menos ainda para inserção nas vias respiratórias. A inalação proposta é possível através da aquisição de produtos simples e acessíveis a maior parte da população, o que aumenta a possibilidade de sua utilização em massa e potencializa seus riscos.
Substâncias químicas possuem aplicabilidades diversas no cotidiano das pessoas, e muitas delas são indispensáveis direta ou indiretamente para a nossa própria saúde: basta lembrar dos medicamentos ou dos produtos de limpeza que, entre outras funcionalidades, eliminam bactérias e vírus de ambientes comuns.
É preciso ter em mente, entretanto, que para que essas substâncias promovam os benefícios que delas se espera são necessários diversos testes e ensaios. Esse período de testagem se dá em condições controladas de uso, tudo para que sejam garantidas à população a eficácia e a segurança na utilização – desde que, claro, sejam mantidas as condições para as quais foram testadas e indicadas pelos fabricantes.
No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), agência reguladora responsável pela regularização e monitoramento de uma série de produtos químicos destinados ao suporte a saúde, emite frequentes alertas relativos aos riscos assumidos pela população sempre que condições e destinações de uso são alteradas deliberadamente por cidadãos comuns – ou até mesmo por profissionais que atuam sem qualquer suporte técnico ou sanitário oficial, condição que somente a Anvisa poderia assumir.
Destacamos que a essa alteração de destinação de uso de produtos químicos a Anvisa chama “Desvio de Finalidade”, sendo previstas pela lei advertências e penalidades aos autores desta infração.
Compreendemos que, neste momento de pandemia, grupos acabam tentados a experimentações sem qualquer tipo de controle ou registro técnico de resultados. Em consequência, é previsível que se promova a divulgação de tais experimentos. A nós, como profissionais da Química e representantes da indústria do setor de higiene e limpeza, cabe o alerta de que as consequências dessas iniciativas são invariavelmente danosas à saúde. Quaisquer substâncias são completamente seguras apenas quando obedecidas as instruções dos fabricantes que foram previamente analisadas e aprovadas pela Anvisa.
Como supracitado, no caso específico da água sanitária, trata-se de saneante regulado pela Anvisa de aplicação exclusiva para higienização de superfícies inanimadas e hortifrutícolas, em solução diluída. A ABIPLA reforça ainda os termos da NOTA TÉCNICA Nº 47/2020/SEI/COSAN/GHCOS/DIRE3/ANVISA que diz que é aconselhável o uso de luvas, máscara e óculos para manuseio seguro destes produtos, pois possui grau de corrosividade à pele, olhos e mucosas, portanto, em nenhuma hipótese recomenda-se a inalação, ingestão ou exposição à pele deste tipo de substância em animais ou humanos.
Primeiro Manaus, agora todo o Brasil: por trás do aumento maciço de pessoas mortas e infectadas por corona no Brasil estão provavelmente outras variantes do Sars-CoV-2
Um coveiro cava sepulturas para vítimas de COVID-19 em Manaus. Bruno Kelly / Reuters
Por Alexander Busch, em Salvador, para o Neue Zürcher Zeitung
Primeiro, foi a metrópole amazônica de Manaus que registrou um aumento maciço de pessoas infectadas e mortas em janeiro. Exatamente como há um ano. Mas agora todo o Brasil se tornou uma área de desastre da COVID-19. Com mais de 12 milhões de infectados, o Brasil é o país com o maior número de portadores de COVID-19 no mundo, depois dos EUA. Com 354 infectados por milhão de habitantes, menos pessoas estão infectadas atualmente no Brasil do que na Itália. Mas o sistema de saúde do país amazônico está chegando ao limite. As unidades de terapia intensiva estão sobrecarregadas em quase todo o Brasil. Mais de 3.200 pessoas morrem atualmente de Covid-19 todos os dias. A estimativa do Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz), do Estado do Rio de Janeiro, não pode ser descartada entre 4 mil e 5 mil mortes por dia.
“A capacidade de mutação e a velocidade do coronavírus são extremamente altas”, disse em entrevista Marilda Mendonça Siqueira, chefe do laboratório de vírus respiratórios e sarampo da Fiocruz. Em uma sociedade como a brasileira, que desenvolveu poucos anticorpos fora dos hot spots como Manaus e quase não é vacinada, o vírus se espalha mais rápido e inevitavelmente desenvolve novas mutações. “Isso significa que o clima no Brasil para o desenvolvimento de novas variantes do Sars CoV-2 continua favorável”, diz ela.
Novas variantes com defesa imunológica mais fraca?
A nova variante Sars-CoV-2 chamada P.1, que só foi descoberta em novembro, agora dominaria em muitos estados brasileiros. Mas também uma nova variante P.2 agora pode ser comprovada com cada vez mais frequência. Uma nova variante foi descoberta na semana passada, até agora denominada provisoriamente de N9 no instituto. É uma mutação da mutação E484K, que também ocorre na variante do vírus britânico (B.1.1.7) e no P.1, que foi descoberto pela primeira vez em Manaus. Esta mutação E484K provavelmente enfraquece o sistema imunológico humano porque torna os anticorpos menos responsivos.
Técnico de laboratório se prepara para fabricar a vacina AstraZeneca no Brasil. Wagner Meier / Getty
O instituto de pesquisas com sede no Rio tem grande reputação internacional e uma longa tradição no combate a vírus e no desenvolvimento de vacinas nos trópicos: foi fundado em 1900 para combater a epidemia de peste. Em sua história, o instituto desenvolveu vacinas próprias contra febre amarela e varíola. A Fiocruz agora também está produzindo uma vacina para brasileiros em colaboração com a Oxford /AstraZeneca. Junto com o Instituto Butantan de São Paulo, que também produz suas próprias vacinas em conjunto com a chinesa Sinopharm, o Brasil é um dos pouco menos de uma dezena de países do mundo que podem produzir eles próprios vacinas contra o coronavírus.
O Brasil já podia vacinar muito mais há muito tempo. Mas no ano passado o presidente Jair Bolsonaro boicotou tanto a compra de soros quanto as ofertas de empresas farmacêuticas internacionais para trabalhar com os dois laboratórios. Só depois que o número de casos explodiu novamente é que o governo Bolsonaro cedeu no final de janeiro e não mais obstruiu ativamente a produção de vacinas no Brasil.
O farmacologista e bioquímico Siqueira hesita em explicar o aumento explosivo do número de infecções no Brasil com as novas mutações. “Ainda não temos séries de números homogêneas e confiáveis para que possamos estabelecer uma relação causal entre P.1 ou P.2 e o curso da infecção.”
Um grupo de pesquisa brasileiro-britânico (Cadde) afirmou recentemente que o P.1 de Manaus é transmitido mais facilmente por um fator de 1,4 a 2,2 do que as variantes convencionais do vírus. Por isso, apesar da suspeita de imunidade de rebanho ali, após o alto número de infecções há um ano, houve novamente um aumento maciço de infecções em Manaus. De acordo com um estudo de anticorpos, dois terços das pessoas na metrópole isolada de Manaus foram infectadas em abril e maio do ano passado e, portanto, devem estar imunes.
Siqueira, por outro lado, explica o alto número de infecções e mortes em Manaus dizendo que o governo cortou as capacidades adicionais de tratamento e análise lá em um estágio inicial. Além disso, grande parte da população negligenciou quase completamente o distanciamento social mêses atrás. Essa combinação é fatídica e se aplica a todo o Brasil.
Apesar da pandemia, as pessoas estão se divertindo na praia do Rio de Janeiro. Pilar Olivares / Reuters
Siqueira também não quer confirmar a suposição de que as novas variantes do vírus estão infectando mais jovens. É difícil comparar a primeira fase da infecção com a atual: “Há um ano tivemos um bloqueio extremamente difícil por mais de três meses”, explica Siqueira. Agora as pessoas voltariam a viajar, as escolas estavam parcialmente abertas. “Aqui no Rio de Janeiro os bares ficam lotados até as seis da tarde.” Portanto, todas as informações sobre maiores taxas de infecção e transferibilidade com imunidade anterior são bastante especulativas, diz Siqueira. “As condições são completamente diferentes hoje.” Mesmo que se possa presumir uma taxa de infecção mais alta, isso é difícil de provar. “Simplesmente não temos uma série homogênea e confiável de números sobre o curso das várias mutações do vírus.”
Na verdade, comparativamente poucas amostras de pessoas infectadas são sequenciadas no Brasil. Isso deixa uma imagem incompleta de quantas novas variantes do vírus estão se espalhando. As amostras foram enviadas para sequenciamento em apenas 0,03% dos casos da COVID-19, de acordo com a Gisaid, uma plataforma com dados sobre genomas de coronavírus. Em outros países, como o Reino Unido, essa taxa chega a 5%. A variante P.1 circulando na Amazônia também foi detectada pela primeira vez no Japão.
No entanto, Siqueira rejeita as críticas à insuficiência de pesquisas no Brasil – mesmo que ela mesma aponte para a falta de séries de dados. No Brasil, por exemplo, a variante do vírus P.2 foi descoberta pela primeira vez e agora o N9. Além disso, poucos países são tão transparentes em suas pesquisas quanto o Instituto Fiocruz estadual, que atualiza constantemente seus dados e os torna públicos.
Vacina chinesa eficaz contra o vírus de Manaus
Por exemplo, a Fiocruz publicou dados de pesquisa no site no final da semana passada indicando que a vacina AstraZeneca/Oxford protege contra a variante brasileira P.1 do novo coronavírus, semelhante à cepa britânica (B.1.1.7). Em outro estudo, a Fiocruz já havia verificado que a vacina Coronavac da China, amplamente utilizada no Brasil, é eficaz contra a variante P.1.
A eficácia das vacinas para as variantes brasileiras também dá esperança: embora o presidente Jair Bolsonaro tenha negado a pandemia como uma “gripe inofensiva” por meses e boicotado o trabalho das autoridades de saúde, o Brasil agora foi capaz de aumentar as vacinações com uma rapidez surpreendente. As campanhas de vacinação só começaram em meados de janeiro. Apesar disso, já foram distribuídas cerca de 16 milhões de doses de vacinas. Isso corresponde a cerca de 7% da população adulta. Siqueira destaca que as vacinações que já foram concluídas para os brasileiros mais velhos (acima de 70 anos) podem ter levado a um aumento comparativamente maior nos infectados mais jovens.
Este artigo foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo Neue Zürcher Zeitung [Aqui!].
As últimas 24 horas foram especialmente letais para o Brasil, com um total de 3.251 brasileiros vidas ceifadas pela COVID-19, elevando o número de óbitos para 298.676 óbitos, o que provavelmente fará com que o nosso país chegue à incrível marca de 300 mil mortos amanhã. Esse é o resultado mais óbvio do descontrole total que o governo Bolsonaro, tende à frente Jair Bolsonaro como desorganizador mór do combate à pandemia no Brasil.
Enquanto isso, ao final desta tarde, o Supremo Tribunal Federal aceitou um habeas corpus impetrado pela defesa do ex-presidente Lula e decidiu por 3 a 2 que o ex-juiz federal Sérgio Moro como suspeito para julgar os casos que caíram em suas mãos na esteira da chamada Operação Lava Jato. Como resultado disso, todos os casos julgados por Sérgio Moro são objetivamente nulos e todos os processos terão que literalmente recomeçar do Zero, agora no âmbito da justiça federal de Brasília. Com isso, o ex-presidente Lula recuperou seus direitos políticos e poderá, se assim desejar, concorrer nas eleições presidenciais de 2022, caso elas venham a efetivamente ocorrer.
E o que tem a ver o crescimento exponencial das mortes causadas pela COVID-19 e a suspeição de Sérgio Moro? Na minha opinião têm tudo a ver, na medida em que Sérgio Moro foi o operador de um processo de “lawfare” que não só impediu que o ex-presidente Lula pudesse concorrer, como também interferiu diretamente nas chances do ex-ministro Fernando Haddad de ter um chance limpa de concorrer. A maior prova do papel cumprido por Sérgio Moro foi a sua indicação para ser ministro da Justiça. Em uma metáfora futebolística, a ida de Sérgio Moro para o Ministério da Justiça do governo Bolsonaro equivaleria ao juiz que marcou três pênaltis a favor do time que viria a vencer o campeonato, ser carregado nos ombros pelos jogadores vencedores durante a volta olímpica. Aliás, por falar em metáfora futebolística, há que se lembrar da sessão na Câmara de Deputados onde o deputado Glauber Braga (PSOL/RJ) disse a Sérgio Moro que ele era “um juiz ladrão” (ver vídeo abaixo).
A aceleração das mortes e a suspeição de Sérgio Moro deverão aumentar a temperatura do caldeirão onde hoje está enfiado o governo Bolsonaro e seu presidente negacionista. Eu não me surpreenderia se nos próximos dias, o chamado “Centrão” começar a se afastar da base parlamentar de um governo que agora poderá entrar em uma espécie de fritura acelerada.
Enquanto o teatro de operações se desvela, fica ainda mais evidente a importância de que tenhamos atitudes responsáveis frente ao controle da pandemia, a começar pela adoção voluntária das medidas de isolamento social, uso de máscaras e higiene pessoal. É que dada a confusão política e a desorganização que reina no governo Bolsonaro, atitudes responsáveis em relação a nós mesmos e às nossas famílias é o que nos resta.
Em mais um achado inédito, cientistas da Rede Genômica Fiocruz identificaram importantes alterações na estrutura da proteína Spike (S) do vírus Sars-CoV-2 em circulação no Brasil. Onze sequências genéticas apresentaram deleções (perda de material genético) na região inicial da proteína e em quatro ocorreu inserção de alguns aminoácidos. A proteína Spike é associada à capacidade de entrada do patógeno nas células humanas e é um dos principais alvos dos anticorpos neutralizantes produzidos pelo organismo para bloquear o vírus.
“É preciso permanecer com o monitoramento para acompanhar se vírus com essas alterações não aumentarão de frequência” (foto:Josué Damacena, IOC/Fiocruz)
A descoberta é fruto de intensa vigilância genômica conduzida pela Fiocruz no país e de institutos parceiros que se empenham diariamente em gerar dados mais robustos sobre o comportamento do vírus e contribuir para um melhor preparo do país no enfrentamento da pandemia. Os cientistas ressaltam que, até o momento, poucos genomas apresentam as alterações e que ainda não se caracteriza como a formação de uma nova linhagem do Sars-CoV-2. Entretanto, alertam que é preciso permanecer com o monitoramento para acompanhar se vírus com essas alterações não aumentarão de frequência.
“Podemos dizer que esta é uma descoberta precoce, o que enfatiza a importância de ações em vigilância genômica, como a realizada pela rede da Fiocruz”, explica a chefe do Laboratório de Vírus Respiratórios e do Sarampo do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), a pesquisadora Marilda Siqueira. O Laboratório atua como Centro de Referência Nacional em vírus respiratórios junto ao Ministério da Saúde e como referência para a Organização Mundial da Saúde (OMS) em COVID-19 nas Américas.
Os novos resultados, detectados a partir da metodologia de sequenciamento genético, são provenientes de amostras coletadas de pacientes de sete estados: Amazonas, Bahia, Maranhão, Paraná, Rondônia, Minas Gerais e Alagoas. As modificações ocorreram no domínio amino (N)-terminal (NTD), que podem dificultar a ligação com anticorpos e, assim, promover o escape imunológico do vírus no corpo humano. Mas os cientistas adiantam que dados experimentais complementares são necessários para testar essa hipótese nas linhagens que circulam no país.
Uma amostra coletada no Amazonas apresentou deleção em sequência genética ligada à linhagem B.1.1.28. Quatro amostras da Bahia, duas de Alagoas e uma do Paraná apresentaram perdas em sequências caracterizadas como linhagem P.1. Uma amostra de Minas Gerais apresentou a alteração na linhagem P.2. Duas amostras do Maranhão apresentaram a deleção na linhagem B.1.1.33, que também continham a mutação E484K.
Três amostras do Amazonas e uma do Paraná continham inserção de material genético em sequências provenientes da linhagem B.1.1.28 (P.1-like) – assim denominada por ser muito semelhante à P.1. Uma amostra coletada no Paraná e todas na Bahia e em Alagoas são de pacientes provenientes do estado do Amazonas ou com histórico de viagem à região. Os resultados foram publicados na plataforma de pré-print MedRxiv.
“O novo coronavírus está continuamente se adaptando e, com isso, propiciando o surgimento de novas variantes de preocupação e de interesse com alterações na proteína Spike. No entanto, vale ressaltar que as novas mutações foram, até o momento, detectadas em baixa frequência, apesar de encontradas em diferentes estados. Ainda precisamos dimensionar o impacto deste achado e, sem dúvidas, ampliar cada vez mais o monitoramento genômico”, ressalta a virologista Paola Cristina Resende, do mesmo Laboratório, que atua como coordenadora da curadoria da plataforma genômica internacional GISAID no Brasil.
Os pesquisadores da Rede Genômica Fiocruz alertam que os achados destacam a necessidade urgente de ampliação da vacinação e de implementação de medidas não-farmacológicas eficazes (foto:Josué Damacena, IOC/Fiocruz)
Os cientistas acreditam que as novas deleções e inserções estão associadas a uma evolução convergente do vírus, uma vez que foram detectadas em diferentes linhagens. “As variantes identificadas no Brasil até então não haviam apresentado as deleções e inserções que são comuns nas variantes de outros países, como Reino Unido e África do Sul. Aqui vemos pela primeira vez, que as linhagens brasileiras estão seguindo o mesmo caminho evolutivo das demais variantes de preocupação. As mutações agora alcançaram outro importante ponto da proteína viral, o domínio NTD, que é reconhecido por alguns anticorpos neutralizantes específicos”, salienta Gabriel Wallau, que integra o Núcleo de Bioinformática da Rede Genômica e é pesquisador do Instituto Aggeu Magalhães (Fiocruz Pernambuco).
Segundo os cientistas, a acumulação em sequência de mutações observadas em território nacional muito se assemelha ao padrão observado na África do Sul, onde a variante de preocupação B.1.351 adquiriu primeiro as mutações no domínio RBD (E484K e N501Y) e, posteriormente, apresentou uma deleção no domínio NTD. “Esta nova geração de variantes pode ser menos susceptível à neutralização dos anticorpos que suas linhagens parentais P.1, P. 2 e B.1.1.33. A pandemia de COVID-19 em 2021 no Brasil provavelmente será dominada por esse novo e complexo conjunto de variantes”, relata o pesquisador do Instituto Gonçalo Moniz (Fiocruz Bahia), Tiago Gräf.
Gabriel Wallau integra o Núcleo de Bioinformática da Rede Genômica e é pesquisador da Fiocruz Pernambuco
Os pesquisadores da Rede Genômica Fiocruz alertam que os achados destacam a necessidade urgente de ampliação da vacinação e de implementação de medidas não-farmacológicas eficazes, visando a mitigação da transmissão comunitária e o surgimento de variantes mais transmissíveis. Eles também apontam o investimento na vigilância genômica e em estudos de eficácia das vacinas para as novas variantes como medidas fundamentais.
A pesquisa foi realizada pela Rede Genômica Fiocruz, com participação de pesquisadores de diversos estados do país. O estudo foi liderado pelos Laboratórios de Vírus Respiratório e do Sarampo e de Aids e Imunologia Molecular do IOC/Fiocruz, Instituto Gonçalo Moniz (Fiocruz-Bahia), Instituto Leônidas e Maria Deane (Fiocruz Amazônia), Instituto Aggeu Magalhaes (FiocruzmPernambuco) e Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).
Também colaboraram com o trabalho: Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas e Laboratórios Centrais de Saúde Pública do Amazonas (Lacen-AM), Maranhão (Lacen-MA), Alagoas (Lacen-AL), Minas Gerais (Lacen-MG), Paraná (Lacen-PR) e Bahia (Lacen-BA).
Resultado inédito anterior
Recentemente, a Rede Genômica Fiocruz identificou uma nova linhagem do Sars-CoV-2 no Brasil. Chamada de N.9, a linhagem foi caracterizada como variante de interesse por conter uma mutação na proteína S do novo coronavírus, conhecida como E484K, que é associada a evasão do sistema imune e encontrada em outras linhagens com grande disseminação no planeta, incluindo as variantes de preocupação P.1 e B.1.351. A alteração foi detectada em 35 amostras coletadas entre novembro de 2020 e fevereiro de 2021 em dez estados do Sul, Sudeste, Nordeste e Norte do país.
Identificada, pela primeira vez, em São Paulo, a linhagem foi achada, em seguida, em Santa Catarina, Amazonas, Pará, Bahia, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí e Sergipe. Análises do genoma dos vírus indicam que a variante N.9 surgiu em agosto de 2020. O estado de São Paulo é apontado como o local de origem mais provável, mas também é possível que a linhagem tenha surgido na Bahia ou no Maranhão. A descoberta está publicada em forma de pré-print na plataforma bioRxiv.
A virologista Paola Cristina Resende, do Laboratório de Virus Respiratórios e do Sarampo do IOC/Fiocruz, explica que a mutação E484K provavelmente teve origem entre julho e agosto de 2020, nas linhagens B.1.1.28 e B.1.1.33, as mais prevalentes circulando no Brasil naquele momento. “A partir de outubro, com a aceleração da disseminação do vírus, a mutação E484K se espalhou pelo país, coincidindo com uma grande mudança no perfil de evolução do Sars-CoV-2 no mundo”, diz.
Este texto foi inicialmente publicado pela Agência Fiocruz de Notícias [Aqui! ].