Na CNN, João Dória chama Jair Bolsonaro de “psicopata despreparado”

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Em entrevista dada em um inglês até razoável, o governador de São Paulo, João Dória (PSDB), aproveitou o espaço dado pela cadeia CNN para literalmente classificar o presidente Jair Bolsonaro como “psicopata despreparado” que está causando um grave desastre sanitário (ver vídeo abaixo).

Dória afirmou ainda que Bolsonaro causou uma série de erros inacreditáveis ao se colocar contra os governadores que estavam tentando controlar a pandemia, além de incitar seus seguidores a desobedecerem as regras de isolamento social e o uso de máscaras. Dória lembrou ainda que Jair Bolsonaro classificou a COVID-19 como uma “gripezinha”.

Segundo Dória, a situação no Brasil neste momento beira o completo colapso com hospitais superlotados, enquanto Bolsonaro assiste a situação de braços cruzados.

Ainda que se possa recordar que João Dória jogou um papel importante na vitória de Jair Bolsonaro nas eleições presidenciais de 2018, esse pronunciamento em uma das principais cadeias de comunicação do mundo deverá servir para piorar ainda mais a imagem do presidente brasileiro. Como resultado disso, o isolamento em que nos encontramos neste momento deverá se aprofundar.

Carta aberta de banqueiros e economistas cobra ação urgente para conter o avanço da pandemia da COVID-19 no Brasil

covid19

Um documento assinado por vários expoentes do pensamento econômico neoliberal e do empresariado brasileiro deverá aumentar o grau de nervosismo nos meios palacianos em Brasília, já que o receituário oferecido para conter a crise sanitária e funerária que o assola o Brasil neste momento em função da situação de completo descontrole em que se encontra a pandemia da COVID-19.

Entre os nomes mais conhecidos dos signatários desta carta estão os ex-ministros da Fazenda Marcílio Marques Moreira, Pedro Malan, Mailson da Nóbrega e Rubem Ricupero, além de ex-presidentes do Banco Central, como Afonso Celso Pastore, Arminio Fraga, Gustavo Loyola, Ilan Goldfajn e Pérsio Arida.  

A principal consequência desse documento será provavelmente o aumento da pressão sobre o governo Bolsonaro e, principalmente, para o presidente Jair Bolsonaro a quem são destinados vários adjetivos nada lisonjeiros, principalmente nos parágrafos finais da “carta aberta”.

O teor desta “carta aberta”, que segue em sua íntegra, pode ser também ser lido em formato pdf  [Aqui! ], o que permitirá o conhecimento dos nomes de todos os seus signatários.

O País Exige Respeito; a Vida Necessita da Ciência e do Bom Governo

Carta Aberta à Sociedade Referente a Medidas de Combate à Pandemia

O Brasil é hoje o epicentro mundial da COVID-19, com a maior média móvel de novos casos. Enquanto caminhamos para atingir a marca tétrica de 3 mil mortes por dia e um total de mortes acumuladas de 300 mil ainda esse mês, o quadro fica ainda mais alarmante com o esgotamento dos recursos de saúde na grande maioria de estados, com insuficiente número de leitos de UTI, respiradores e profissionais de saúde. Essa situação tem levado a mortes de pacientes na espera pelo atendimento, contribuindo para uma maior letalidade da doença.

A situação econômica e social é desoladora. O PIB encolheu 4,1% em 2020 e provavelmente observaremos uma contração no nível de atividade no primeiro trimestre deste ano.

A taxa de desemprego, por volta de 14%, é a mais elevada da série histórica, e subestima o aumento do desemprego, pois a pandemia fez com que muitos trabalhadores deixassem de procurar emprego, levando a uma queda da força de trabalho entre fevereiro e dezembro de 5,5 milhões de pessoas. A contração da economia afetou desproporcionalmente trabalhadores mais pobres e vulneráveis, com uma queda de 10,5% no número de trabalhadores informais empregados, aproximadamente duas vezes a queda proporcional no número de trabalhadores formais empregados. Esta recessão, assim como suas consequências sociais nefastas, foi causada pela pandemia e não será superada enquanto a pandemia não for controlada por uma atuação competente do governo federal. Este subutiliza ou utiliza mal os recursos de que dispõe, inclusive por ignorar ou negligenciar a evidência científica no desenho das ações para lidar com a pandemia.

Sabemos que a saída definitiva da crise requer a vacinação em massa da população. Infelizmente, estamos atrasados. Em torno de 5% da população recebeu ao menos uma dose de vacina, o que nos coloca na 45a posição no ranking mundial de doses aplicadas por habitante. O ritmo de vacinação no país é insuficiente para vacinar os grupos prioritários do Plano Nacional de Imunização (PNI) no 1o semestre de 2021, o que amplia o horizonte de vacinação para toda a população para meados de 2022. As consequências são inomináveis.

No momento, o Brasil passa por escassez de doses de vacina, com recorrentes atrasos no calendário de entregas e revisões para baixo na previsão de disponibilidade de doses a cada mês. Na semana iniciada em 8 de março foram aplicadas, em média, apenas 177 mil doses por dia. No ritmo atual, levaríamos mais de 3 anos para vacinar toda a população. O surgimento de novas cepas no país (em especial a P.1) comprovadamente mais transmissíveis e potencialmente mais agressivas, torna a vacinação ainda mais urgente. A disseminação em larga escala do vírus, além de magnificar o número de doentes e mortos, aumenta a probabilidade de surgirem novas variantes com potencial de diminuir a eficácia das vacinas atuais. Vacinas são relativamente baratas face ao custo que a pandemia impõe à sociedade. Os recursos federais para compra de vacinas somam R$ 22 bilhões, uma pequena fração dos R$ 327 bilhões desembolsados nos programas de auxílio emergencial e manutenção do emprego no ano de 2020. Vacinas têm um benefício privado e social elevado, e um custo total comparativamente baixo.

Poderíamos estar em melhor situação, o Brasil tem infraestrutura para isso. Em 1992, conseguimos vacinar 48 milhões de crianças contra o sarampo em apenas um mês.10 Na campanha contra a COVID-19, se estivéssemos vacinando tão rápido quanto a Turquia, teríamos alcançado uma proporção da população duas vezes maior, e se tanto quanto o Chile, dez vezes maior. A falta de vacinas é o principal gargalo. Impressiona a negligência com as aquisições, dado que, desde o início da pandemia, foram desembolsados R$ 528,3 bilhões em medidas de combate à pandemia, incluindo os custos adicionais de saúde e gastos para mitigação da deteriorada situação econômica. A redução do nível da atividade nos custou uma perda de arrecadação tributária apenas no âmbito federal de 6,9%, aproximadamente R$ 58 bilhões, e o atraso na vacinação irá custar em termos de produto ou renda não gerada nada menos do que estimados R$ 131,4 bilhões em 2021, supondo uma recuperação retardatária em 2 trimestres. Nesta perspectiva, a relação benefício custo da vacina é da ordem de seis vezes para cada real gasto na sua aquisição e aplicação. A insuficiente oferta de vacinas no país não se deve ao seu elevado custo, nem à falta de recursos orçamentários, mas à falta de prioridade atribuída à vacinação.

O quadro atual ainda poderá deteriorar-se muito se não houver esforços efetivos de coordenação nacional no apoio a governadores e prefeitos para limitação de mobilidade. Enquanto se busca encurtar os tempos e aumentar o número de doses de vacina disponíveis, é urgente o reforço de medidas de distanciamento social. Da mesma forma é essencial a introdução de incentivos e políticas públicas para uso de máscaras mais eficientes, em linha com os esforços observados na União Europeia e nos Estados Unidos.

A controvérsia em torno dos impactos econômicos do distanciamento social reflete o falso dilema entre salvar vidas e garantir o sustento da população vulnerável. Na realidade, dados preliminares de óbitos e desempenho econômico sugerem que os países com pior desempenho econômico tiveram mais óbitos de COVID-19. A experiência mostrou que mesmo países que optaram inicialmente por evitar o lockdown terminaram por adotá-lo, em formas variadas, diante do agravamento da pandemia – é o caso do Reino Unido, por exemplo. Estudos mostraram que diante da aceleração de novos casos, a população responde ficando mais avessa ao risco sanitário, aumentando o isolamento voluntário e levando à queda no consumo das famílias, mesmo antes ou sem que medidas restritivas formais sejam adotadas. A recuperação econômica, por sua vez, é lenta e depende da retomada de confiança e maior previsibilidade da situação de saúde no país. Logo, não é razoável esperar a recuperação da atividade econômica em uma epidemia descontrolada.

O efeito devastador da pandemia sobre a economia tornou evidente a precariedade do nosso sistema de proteção social. Em particular, os trabalhadores informais, que constituem mais de 40% da força de trabalho, não têm proteção contra o desemprego. No ano passado, o auxílio emergencial foi fundamental para assistir esses trabalhadores mais vulneráveis que perderam seus empregos, e levou a uma redução da pobreza, evidenciando a necessidade de melhoria do nosso sistema de proteção social. Enquanto a pandemia perdurar, medidas que apoiem os mais vulneráveis, como o auxílio emergencial, se fazem necessárias. Em paralelo, não devemos adiar mais o encaminhamento de uma reforma no sistema de proteção social, visando aprimorar a atual rede de assistência social e prover seguro aos informais. Uma proposta nesses moldes é o programa de Responsabilidade Social, patrocinado pelo Centro de Debate de Políticas Públicas, encaminhado para o Congresso no final do ano passado.

Outras medidas de apoio às pequenas e médias empresas também se fazem necessárias. A experiência internacional com programas de aval público para financiamento privado voltado para pequenos empreendedores durante um choque negativo foi bem-sucedida na manutenção de emprego, gerando um benefício líquido positivo à sociedade. O aumento em 34,7% do endividamento dos pequenos negócios durante a pandemia amplifica essa necessidade. A retomada de linhas avalizadas pelo Fundo Garantidor para Investimentos e Fundo de Garantia de Operações é uma medida importante de transição entre a segunda onda e o pós-crise.

Estamos no limiar de uma fase explosiva da pandemia e é fundamental que a partir de agora as políticas públicas sejam alicerçadas em dados, informações confiáveis e evidência científica. Não há mais tempo para perder em debates estéreis e notícias falsas. Precisamos nos guiar pelas experiências bem-sucedidas, por ações de baixo custo e alto impacto, por iniciativas que possam reverter de fato a situação sem precedentes que o país vive.

Medidas indispensáveis de combate à pandemia: a vacinação em massa é condição sine quanon para a recuperação econômica e redução dos óbitos.

  1. Acelerar o ritmo da vacinação. O maior gargalo para aumentar o ritmo da vacinação é a escassez de vacinas disponíveis. Deve-se, portanto, aumentar a oferta de vacinas de forma urgente. A estratégia de depender da capacidade de produção local limitou a disponibilidade de doses ante a alternativa de pré-contratar doses prontas, como fez o Chile e outros países. Perdeu-se um tempo precioso e a assinatura de novos contratos agora não garante oferta de vacinas em prazo curto. É imperativo negociar com todos os laboratórios que dispõem de vacinas já aprovadas por agências de vigilância internacionais relevantes e buscar antecipação de entrega do maior número possível de doses. Tendo em vista a escassez de oferta no mercado internacional, é fundamental usara política externa – desidratada de ideologia ou alinhamentos automáticos – para apoiar a obtenção de vacinas, seja nos grandes países produtores seja nos países que têm ou terão excedentes em breve.

A vacinação é uma corrida contra o surgimento de novas variantes que podem escapar da imunidade de infecções passadas e de vacinas antigas. As novas variantes surgidas no Brasil tornam o controle da pandemia mais desafiador, dada a maior transmissibilidade. Com o descontrole da pandemia é questão de tempo até emergirem novas variantes.  O Brasil precisa ampliar suas capacidades de sequenciamento genômico em tempo real, de compartilhar dados com a comunidade internacional e de testar a eficácia das vacinas contra outras variantes com máxima agilidade. Falhas e atrasos nesse processo podem colocar em risco toda a população brasileira, e também de outros países

  1. Incentivar o uso de máscaras tanto com distribuição gratuita quanto com orientação educativa. Economistas estimaram que se os Estados Unidos tivessem adotado regras de uso de máscaras no início da pandemia poderiam ter reduzido de forma expressiva o número de óbitos. Mesmo se um usuário de máscara for infectado pelo vírus, a máscara pode reduzir a gravidade dos sintomas, pois reduz a carga viral inicial que o usuário é exposto. 22 Países da União Europeia e os Estados Unidos passaram a recomendar o uso de máscaras mais eficientes – máscaras cirúrgicas e padrão PFF2/N95 – como resposta às novas variantes. O Brasil poderia pode reduzir a gravidade dos sintomas, pois reduz a carga viral inicial que o usuário é fazer o mesmo, distribuindo máscaras melhores à população de baixa renda, explicando a importância do seu uso na prevenção da transmissão da Covid.

Máscaras com filtragem adequada têm preços a partir de R$ 3 a unidade. A distribuição gratuita direcionada para pessoas sem condições de comprá-las, acompanhada de instrução correta de reuso, teria um baixo custo frente aos benefícios de contenção da COVID-1923. Considerando o público do auxílio emergencial, de 68 milhões de pessoas, por exemplo, e cinco reusos da máscara, tal como recomenda o Center for Disease Control do EUA, chegaríamos a um custo mensal de R$ 1 bilhão. Isto é, 2% do gasto estimado mensal com o auxílio emergencial. Embora leis de uso de máscara ajudem, informar corretamente a população e as lideranças darem o exemplo também é importante, e tem impacto na trajetória da epidemia. Inversamente, estudos mostram que mensagens contrárias às medidas de prevenção afetam a sua adoção pela população, levando ao aumento do contágio.

  1. Implementar medidas de distanciamento social no âmbito local com coordenação nacional. O termo “distanciamento social” abriga uma série de medidas distintas, que incluem a proibição de aglomeração em locais públicos, o estímulo ao trabalho a distância, o fechamento de estabelecimentos comerciais, esportivos, entre outros, e – no limite – escolas e creches. Cada uma dessas medidas tem impactos sociais e setoriais distintos. A melhor combinação é aquela que maximize os benefícios em termos de redução da transmissão do vírus e minimize seus efeitos econômicos, e depende das características da geografia e da economia de cada região ou cidade. Isso sugere que as decisões quanto a essas medidas devem ser de responsabilidade das autoridades locais.

Com o agravamento da pandemia e esgotamento dos recursos de saúde, muitos estados não tiveram alternativa senão adotar medidas mais drásticas, como fechamento de todas as atividades não-essenciais e o toque de recolher à noite. Os gestores estaduais e municipais têm enfrentado campanhas contrárias por parte do governo federal e dos seus apoiadores. Para maximizar a efetividade das medidas tomadas, é indispensável que elas sejam apoiadas, em especial pelos órgãos federais. Em particular, é imprescindível uma coordenação em âmbito nacional que permita a adoção de medidas de caráter nacional, regional ou estadual, caso se avalie que é necessário cercear a mobilidade entre as cidades e/ou estados ou mesmo a entrada de estrangeiros no país. A necessidade de adotar um lockdown nacional ou regional deveria ser avaliado. É urgente que os diferentes níveis de governo estejam preparados para implementar um lockdown emergencial, definindo critérios para a sua adoção em termos de escopo, abrangência das atividades cobertas, cronograma de implementação e duração. Ademais, é necessário levar em consideração que o acréscimo de adesão ao distanciamento social entre os mais vulneráveis depende crucialmente do auxílio emergencial. Há sólida evidência de que programas de amparo socioeconômico durante a pandemia aumentaram o respeito às regras de isolamento social dos beneficiários. É, portanto, não só mais justo como mais eficiente focalizar a assistência nas populações de baixa renda, que são mais expostas nas suas atividades de trabalho e mais vulneráveis financeiramente. Dentre a combinação de medidas possíveis, a questão do funcionamento das escolas merece atenção especial. Há estudos mostrando que não há correlação entre aumento de casos de infecção e reabertura de escolas no mundo26. Há também informações sobre o nível relativamente reduzido de contágio nas escolas de São Paulo após sua abertura.

As funções da escola, principalmente nos anos do ensino fundamental, vão além da transmissão do conhecimento, incluindo cuidados e acesso à alimentação de crianças, liberando os pais – principalmente as mães – para o trabalho. O fechamento de escolas no Brasil atingiu de forma mais dura as crianças mais pobres e suas mães. A evidência mostra que alunos de baixa renda, com menor acesso às ferramentas digitais, enfrentam maiores dificuldade de completar as atividades educativas, ampliando a desigualdade da formação de capital humano entre os estudantes. Portanto, as escolas devem ser as últimas a fechar e as primeiras a reabrir em um esquema de distanciamento social. Há aqui um papel fundamental para o Ministério da Educação em cooperação com o Ministério da Saúde na definição e comunicação de procedimentos que contribuam para a minimização dos riscos de contágio nas escolas, além do uso de ferramentas comportamentais para retenção da evasão escolar, como o uso de mensagens de celular como estímulo para motivar os estudantes, conforme adotado em São Paulo e Goiás.

  1. Criar mecanismo de coordenação do combate à pandemia em âmbito nacional –preferencialmente pelo Ministério da Saúde e, na sua ausência, por consórcio de governadores – orientada por uma comissão de cientistas e especialistas, se tornou urgente. Diretrizes nacionais são ainda mais necessárias com a escassez de vacinas e logo a necessidade de definição de grupos prioritários; com as tentativas e erros no distanciamento social; a limitada compreensão por muitos dos pilares da prevenção, particularmente da importância do uso de máscara, e outras medidas no âmbito do relacionamento social. Na ausência de coordenação federal, é essencial a concertação entre os entes subnacionais, consórcio para a compra de vacinas e para a adoção de medidas de supressão.

O papel de liderança: Apesar do negacionismo de alguns poucos, praticamente todos os líderes da comunidade internacional tomaram a frente no combate ao COVID-19 desde março de 2020, quando a OMS declarou o caráter pandêmico da crise sanitária. Informando, notando a gravidade de uma crise sem precedentes em 100 anos, guiando a ação dos indivíduos e influenciado o comportamento social. Líderes políticos, com acesso à mídia e às redes, recursos de Estado, e comandando atenção, fazem a diferença: para o bem e para o mal. O desdenho à ciência, o apelo a tratamentos sem evidência de eficácia, o estímulo à aglomeração, e o flerte com o movimento antivacina, caracterizou a liderança política maior no país. Essa postura reforça normas antissociais, dificulta a adesão da população a comportamentos responsáveis, amplia o número de infectados e de óbitos, aumenta custos que o país incorre.

O país pode se sair melhor se perseguimos uma agenda responsável. O país tem pressa; o país quer seriedade com a coisa pública; o país está cansado de ideias fora do lugar, palavras inconsequentes, ações erradas ou tardias. O Brasil exige respeito.

Prefeito Wladimir, um lockdown “bem meia boca” não resolverá o problema

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Em face do avanço desenfreado dos casos de COVID-19 no município de Campos dos Goytacazes, o prefeito Wladimir Garotinho promulgou o Decreto 090/2021, onde notadamente está ausente qualquer menção à palavra “lockdown” ou palavra equivalente na língua portuguesa. As razões para isso aparentemente são múltiplas, indo desde a preocupação com os comerciantes locais até algum tipo de estranhamento com o governador em exercício do estado do Rio de Janeiro, o Sr. Cláudio Castro, e seu padrinho político, o senador Flávio Bolsonaro (PSL/RJ).

Mas ao ler o conteúdo do Decreto Municipal 090/2021 acabei concordando que a ausência do termo “lockdown” é até coerente, pois o que está expresso nos 12 artigos em que o mesmo se compõe não chega nem perto de ser o tipo de isolamento social que a situação requer.  Há até a incrível autorização para a continuação das reuniões em templos religiosos, ainda que restritos a 30% da frequência possível, o que, convenhamos, dificilmente vai ser monitorado.

O problema é que com a manutenção dos cultos religiosos, outros setores que estão mais atingidos pelo Decreto 090/2021 vão se sentir propensos a ignorá-lo, mesmo que funcionem com portas baixadas, já que sabem que quem baixa uma legislação como essa, dificilmente vai se colocar em campo para fazê-la cumprir. É aquela coisa do “me engana que eu gosto”.

A tragédia disso tudo é que sem um lockdown real que estabeleça medidas realmente duras para controlar o movimento de pessoas, a COVID-19 continuará seu passo mortal em nossa cidade. Se o prefeito Wladimir Garotinho estivesse mesmo afim de controlar o avanço da pandemia, o exemplo que seguiria seria o do prefeito de Araraquara, Edinho Silva, que adotou regras estritas de confinamento social e, com isso, conseguiu zerar a fila de espera para pacientes em sua cidade.

O momento que estamos atravessando requer medidas corajosas e que coloquem a saúde da população acima de todos os outros interesses, a começar os do “necrocomerciantes” que acham que são empresários, mas que não passam de empregados que exploram outros empregados.

A hora em que estamos metidos, muito em parte por causa da sabotagem contra as medidas de confinamento social lideradas pelo presidente Jair Bolsonaro, não tolera “lockdowns bem meia boca”.  O que precisamos, e não estamos tendo, é que realmente somente as atividades essenciais sejam autorizadas, e em horários muito mais restritos do que estão sendo permitidos por meio do Decreto 090/2021.

Brasil, a nação que se tornou uma ameaça global

Sem vacinas, sem liderança, sem fim à vista. Como o Brasil se tornou uma ameaça global

Por  Matt Rivers para a CNN

Rio de Janeiro, Brasil (CNN)A temperatura marcava 95 graus Fahrenheit na terça-feira, mas a umidade fez com que parecesse pior. Em meio ao calor sufocante do final do verão no Rio de Janeiro, Silvia Silva Santos acalmou sua mãe de 77 anos enquanto caminhavam em direção ao portão da clínica.

“Já viemos aqui duas vezes, mas ela não conseguiu vacinar-se”, disse Silva Santos. “Ela apenas fica na fila e então não há mais vacinas e temos que ir embora.”

No portão, Silva Santos perguntou à guarda se ela poderia vacinar a mãe. Consciente das câmeras da CNN assistindo, ele rapidamente a conduziu para dentro.

Cerca de cinco minutos depois, a dupla voltou com más notícias escritas em seus rostos. “Acho isso muito errado”, disse Silva Santos, claramente irritada e frustrada. “Agora teremos que descobrir novamente quando eles terão as vacinas e nunca se sabe quando.”

Essa frustração percorreu a multidão de idosos à medida que pessoa após pessoa foi negada a primeira dose de uma vacina, depois que o estado do Rio de Janeiro suspendeu sua campanha de vacinação porque havia acabado o estoque de vacina.

“Isso é um desastre, um desastre total”, disse uma mulher à CNN após ter sua vacina negada. “Quem é o culpado por tudo isso? Acho que nossos líderes, nossos políticos são uma merda.”

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Equipe médica transporta um paciente em uma maca em um hospital de campanha enquanto os casos de coronavírus aumentam em 11 de março de 2021 em Santo André, Brasil.

A crescente tempestade perfeita

A crise da COVID-19 no Brasil nunca esteve tão ruim. Quase todos os estados brasileiros têm uma ocupação de UTI de 80% ou mais, de acordo com uma análise de dados estaduais feita pela CNN. Na sexta-feira (19/03), 16 dos 26 estados estavam em 90% ou mais de taxa de ocupação, o que significa que esses sistemas de saúde entraram em colapso ou estão em risco iminente de fazê-lo.

As médias de sete dias de novos casos e novas mortes são mais altas do que nunca.

Nos últimos 10 dias, cerca de um quarto de todas as mortes por coronavírus no mundo foram registradas no Brasil, de acordo com análises da CNN.

“São sinais claros de que estamos em uma fase de aceleração muito crítica da epidemia e sem precedentes”, disse Jesem Orellana, epidemiologista brasileiro.

Se as vacinas são a melhor saída para essa pandemia global, o Brasil ainda tem um longo caminho a percorrer para superar isso.

Até sexta-feira, menos de 10 milhões de pessoas no país de cerca de 220 milhões haviam recebido pelo menos uma dose, de acordo com dados federais de saúde. Apenas 1,57% da população foi totalmente vacinada.

Isso é o resultado de um programa de implementação lentoque tem sido afetado por seguidos atrasos. Durante o anúncio de seu plano de distribuição no início de fevereiro, o governo prometeu que cerca de 46 milhões de doses de vacina estariam disponíveis em março. Ele foi repetidamente forçado a diminuir esse número, agora estimando apenas 26 milhões no final do mês.

A produção nacional do que os governos dizem que acabará por ser centenas de milhões de doses da vacina Oxford-AstraZeneca  acaba de decolar. As primeiras 500.000 doses foram entregues e comemoradas por altos funcionários do Ministério da Saúde no Rio de Janeiro esta semana, apesar de estar com meses de atraso.

“[Não há] vacinas em uma quantidade que realmente causaria um impacto no momento”, disse Natalia Pasternak, uma microbiologista brasileira, que disse que não vai demorar até o segundo semestre do ano antes que vacinas suficientes estejam disponíveis para ter um impacto significativo na epidemia.

Em face da possibilidade que as vacinas continuarão escassas no futuro próximo, as únicas formas de controlar o crescimento exponencial da epidemia no Brasil são os métodos que o mundo ouviu ad nauseam – distanciamento social,  ausência de multidões, movimentos restritos e boa higiene.

Mas em muitos lugares do Brasil, isso simplesmente não está acontecendo. No movimentado Rio de Janeiro, é fácil encontrar multidões sem máscara andando pelas ruas, conversando de perto.

Embora as famosas praias da cidade estejam fechadas neste fim de semana, os restaurantes e bares ainda podem estar abertos até as 21h, muitos provavelmente lotados.

Muitos estados impuseram restrições muito mais duras, incluindo toques de recolher noturnos, mas os líderes locais estão lutando contra a liderança federal, ou a falta dela, determinados a manter as coisas abertas.

O presidente Jair Bolsonaro , um cético daCOVID-19 que zombou da eficácia das vacinas e não as tomou publicamente, anunciou na quinta-feira que entraria com uma ação judicial contra certos estados na Suprema Corte do país, reivindicando a única pessoa que pode decretar toque de recolher é ele – algo que ele prometeu nunca fazer.

Apesar de milhares de pessoas morrendo por causa do vírus a cada dia, ele afirma que a verdadeira ameaça vem dos danos econômicos que as restrições provocadas pelo vírus podem impor.

Milhões de seus apoiadores estão seguindo seu exemplo, desrespeitando abertamente os regulamentos locais de distanciamento social e o uso de máscaras.

Tudo isso por si só já seria preocupante, mas é exacerbado por uma realidade profundamente preocupante – a disseminação das variantes da COVID-19.

‘As pessoas não percebem o quão pior  a P.1 é’

A variante P.1 foi descoberta pela primeira vez no Japão. As autoridades de saúde detectaram a mutação viral em vários viajantes que retornavam do estado do Amazonas, uma região isolada no norte do Brasil repleta de floresta tropical.

A CNN noticiou da região no final de janeiro, onde uma segunda onda brutal de COVID-19 dizimava a cidade de Manaus.

Quase dois meses depois, mais e mais pesquisas apontam para a variante P.1 como um fator crucial não apenas no surto de Manaus, mas na crise nacional que o Brasil enfrenta hoje.

Um estudo da principal fundação de pesquisa médica do Brasil, a Fiocruz, do início de março descobriu que, dos oito estados brasileiros estudados, as variantes do COVID-19, incluindo P.1, eram prevalentes em pelo menos 50% dos novos casos.

A variante é amplamente aceita como sendo mais facilmente transmissível, até 2,2 vezes mais, de acordo com um estudo recente . Isso é mais transmissível do que a variante B.1.1.7 amplamente discutida identificada pela primeira vez no Reino Unido, que é até 1,7 vezes mais transmissível, de acordo com um estudo de dezembro.

Esse mesmo estudo também descobriu que as pessoas têm 25% a 65% mais probabilidade de escapar da imunidade protetora existente de infecções anteriores não P.1.

Finalmente, ainda existem preocupações de que as diferentes vacinas possam não ser tão eficazes contra a variante P.1. Embora um estudo recente do Reino Unido tenha descoberto que “as vacinas existentes podem proteger contra a variante do coronavírus brasileiro”, a CNN conversou com vários epidemiologistas que continuam preocupados.

“O mundo não despertou a terrível realidade potencial que a variante P1 pode representar”, disse o Dr. Eric Feigl-Ding, epidemiologista. “As pessoas não percebem o quanto a P1 é pior.”

O Brasil está se tornando um perigo global

Em meio à disseminação não mitigada do vírus no Brasil, existem duas ameaças adicionais distintas.

Um, a exportação mais fácil da variante P.1 existente para o exterior. Já está em pelo menos duas dezenas de países e contando e as viagens internacionais de e para o Brasil ainda estão abertas para a maioria dos países.

Dois, se a variante P.1 foi criada aqui, outras também podem.

“O fato de a pandemia estar fora de controle no Brasil causou a variante”, disse Pasternak, a microbiologista brasileira. “E vai causar mais variantes. Vai causar mais mutações porque é o que acontece quando você deixa o vírus se replicar livremente.”

De acordo com as leis da evolução viral, novas variantes são criadas para tentar permitir que o vírus se espalhe mais facilmente. Ao longo do caminho, interações mais perigosas podem ser criadas.

“Mais variantes significam que há uma probabilidade maior de que uma dessas variantes possa realmente escapar de todas as vacinas, por exemplo”, disse Pasternak. “É raro, mas pode acontecer.”

Isso, diz ela, torna o Brasil um perigo global, não apenas para os países vizinhos, mas para outros ao redor do mundo.

“Tudo isso junto deve aumentar o alarme em todos os países do mundo de que devemos ajudar o Brasil a conter P1, para que não soframos o mesmo destino do colapso do sistema hospitalar brasileiro”, disse o Dr. Feigl-Ding.

Com a falta de vacinas e um governo relutante em tomar as medidas necessárias para evitar que isso aconteça, não está claro como as coisas vão melhorar no Brasil tão cedo.

O jornalista Eduardo Duwe contribuiu para esta reportagem.

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Este texto foi escrito inicialmente em inglês e publicado pela rede CNN [Aqui! ].

Um Comando de Caça aos Cientistas (CCC) age no Brasil para impedir que a comunidade científica exerça o seu papel

Os visitantes estão diante da citação de Martin Niemöller que está em exibição na Exposição Permanente dos Estados Unidos ... [LCID: img4857]

No dia 11 de janeiro, no limiar do governo Bolsonaro, concedi uma entrevista ao jornal português “Diário de Notícias” que recebeu a manchete “A ciência no Brasil está sob ataque do governo Bolsonaro” onde pude tecer uma série de considerações sobre o que aconteceria com a ciência brasileira e, mais especificamente, sobre pesquisadores envolvidos com temas de pesquisa que fossem julgados prejudiciais aos interesses dos novos ocupantes dos palácios em Brasília, e mais principalmente os seus apoiadores. Dentre as minhas previsões inclui o escasseamento dos recursos para a pesquisa e a perseguição política aos pesquisadores que fossem identificados como “trouble makers” (causadores de problemas).

Pedro Hallal, Larissa Bombardi e Lucas Ferrante: três pesquisadores perseguidos por revelaram “verdades inconvenientes” sobre o Brasil sob Bolsonaro e seus aliados preferenciais

Pois bem, passados 26 meses desde aquela entrevista, a comunidade científica brasileira não apenas está completamente asfixiada financeiramente, com seus principais órgãos de fomento (i.e., CNPq e Capes) virtualmente paralisados, mas também com uma crescente onda de ataques judiciais e extra-legais contra pesquisadores que têm se destacado em suas áreas específicas por documentar todos os malefícios que têm decorrido de uma política de “passa boiada” em áreas extremamente sensíveis como a questão da pandemia da COVID-19, o desmatamento acelerado nos biomas da Amazônia e do Cerrado, e o crescimento exponencial na liberação de agrotóxicos altamente perigosos para uso nos grandes monocultivos de commodities voltadas para a exportação.

Dentre todos os casos que emergiram recentemente destaco os do ex-reitor da Universidade Federal de Pelotas, o epidemiologista Pedro Hallal, coordenador do projeto EPICOVID19, que foi alvo de um processo judicial movido pelo deputado federal bolsonarista Bilbo Nunes (PSL/RS) em função de críticas realizadas contra a condução dada pelo presidente Jair Bolsonaro ao combate da pandemia da COVID-19.  Essa tentativa de silenciamento de um dos principais pesquisadores das repercussões sanitárias e sociais da COVID-19 acabou resultando em um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) que, em tese, deve sustar o andamento do processo. Entretanto, a mensagem a Hallal já foi dada e ela é no sentido de que ele não se calar, poderá acabar perdendo o seu emprego. Quero aqui frisar se o professor Pedro Hallal vier a ser demitido no futuro, a grande perdedora será a ciência brasileira, pois certamente alguma instituição estrangeira rapidamente dará emprego e guarida a ele.

Um segundo caso que veio recentemente à tona, não por causa de pressão judicial, mas pelo fato do pesquisador ter sido sequestrado e fisicamente agredido é o do biólogo e pós-doutorando do Instituto de Pesquisas da Amazônia, Lucas Ferrante, que têm se destacado por publicações importantes sobre o avanço do desmatamento na Amazônia, inclusive sobre terras indígenas, e pela situação desastrosa em que se encontra o Amazonas em função do descontrole da pandemia da COVID-19.  Segundo informe pelo site “The Intercept”, Lucas Ferrante foi vítima até uma espécie de sequestro relâmpago seguido de agressões cujo objetivo não era levar seus pertences pessoais, mas obrigá-lo a se calar.

Já no caso da geógrafa Larissa Bombardi, professora do Departamento de Geografia da USP, o motivador de ataques e ameaças foi a exitosa publicação do livro “Atlas Geográfico do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia” que ganhou grande repercussão dentro e fora do Brasil em função da meticulosa documentação da forma pela qual venenos agrícolas altamente tóxicos estão sendo amplamente utilizados no Brasil, o que implica na disseminação de graves riscos à saúde humana e aos ecossistemas naturais.  Após uma série de ataques em redes sociais e até ameaças contra a sua integridade física, Larissa Bombardi decidiu abandonar o país e continuar suas pesquisas na  Universidade Livre Bruxelas. 

Quando colocados em perspectiva, esses casos revelam que ao contrário do período da ditadura militar de 1964 quando agia livre e impunemente o famigerado “Comando de Caça aos Comunistas” (CCC), no momento temos um outro CCC em ação, o Comando de Caça aos Cientistas. E o interessante notar que as faces de alguns membros desse novo CCC são públicas e agem até com a benção de quem deveria defender os cientistas ameaçados.  O mais curioso é que ao forçar o auto-exílio de pesquisadores, fato que já ocorreu no período da ditadura de 1964, os novos “caçadores” podem estar piorando a sua própria situação por vários motivos. O principal deles é que Larissa Bombardi não apenas terá mais recursos para continuar seus estudos enquanto estiver em Bruxelas, mas também, graças à internet, poderá disseminar o conhecimento adquirido com liberdade e mais capacidade de difusão. 

Mas como nem todos poderão ou quererão se auto-exilar, estas perseguições a cientistas engajados em transmitir o conhecimento científico ao principal interessado, o povo brasileiro, não irão cessar com notas de protesto. As associações e sociedades científicas vão ter que agir firmemente para impedir qualquer tentativa de coerção dos membros da comunidade científica. Uma primeira oportunidade seria o engajamento na anulação da Portaria nº 151, de 10 de março de 2021, do ICMBio (Diário Oficial da União de 12/03/2021) que objetivamente criou um sistema de censura dentro do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Essa portaria é para mim é a pedra angular de um sistema que oficializa a perseguição à liberdade de cátedra e autonomia dos cientistas brasileiros e, por isso, deveria ser exemplarmente repudiada até que ela seja anulada.

Aos membros da comunidade científica brasileira que acharem que os problemas de Hallal, Ferrante e Bombardi nunca serão os seus, dedico a citação do pastor luterano alemão Martin Niemöller que testemunhou o holocausto nazista:

“Primeiro, eles vieram atrás dos socialistas e eu não falei abertamente – porque não era socialista.

Aí eles vieram atrás dos sindicalistas e eu não falei – porque não era sindicalista.

Então eles vieram atrás dos judeus, e eu não falei – porque não era judeu.

Então eles vieram atrás de mim – e não havia mais ninguém para falar por mim.”

Agência Europeia de Medicamentos declara que a vacina Astrazeneca/Oxford é segura e eficaz

A vacina da Astrazeneca/Oxford acaba de ser declarada como sendo segura e eficaz pela Agência Europeia de Medicamentos (EMA).  Segundo declarou  nesta quinta-feira em Amsterdã. o diretor da EMA, Emer Cooke, não houve conexão entre a vacinação e o aumento do risco de coágulos sanguíneos em humanos. Ao mesmo tempo, uma conexão com certos casos não pode ser definitivamente descartada, pois no geral, os benefícios da droga superam os riscos, disse Cooke.

Vários países europeus suspenderam as vacinações com a vacina da Astrazeneca/Oxford. Na Alemanha, foi o que aconteceu na última segunda-feira. A razão para isso foram novos relatos de coágulos sanguíneos em conexão com a vacinação. 

Agora, em que pese as reservas que poderão ser feitas por determinados governos europeus, a vacina está liberada para o uso na União Europeia.

 

Consulado Geral de Cuba emite nota negando existência do “tour da vacina”, mas site jornalístico de Cuiabá mantém notícia

Homem de máscara protetora diante de muro grafitado

A controvérsia criada por uma postagem do site jornalístico “O Documento” sobre um possível “tour da vacina” que estaria sendo organizado por empresários de Cuiabá (MT) levou ao Consulado Geral de Cuba em São Paulo a emitir uma nota onde desmente de forma firme a mera possibilidade de que o noticiado seja verdade, ressaltando que inexiste qualquer tratativa no sentido de aplicar a vacina Sputnik V nesse grupo de brasileiros bem aquinhoados financeiramente (ver imagem abaixo).

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Por sua vez , o pessoal do “O Documento” emitiu uma nota sobre a repercussão do texto sobre o “tour da vacina”, onde basicamente se reafirma que o informado se trataria de “um furo jornalístico”, mantendo assim o teor do que foi informado, a despeito da negativa do Consulado Geral de Cuba.

Com a publicidade que o caso acabou tendo, o mais provável é que se algo estava sendo realmente planejado para realizar um “tour da vacina” em Cuba, todo essa cobertura serviu para enterrar a chance de que o planejado virasse realidade.

A pandemia da COVID-19 no Brasil: o próximo, por favor

 Com mais de 1.800 mortes por corona por dia, o Brasil tem seu quarto ministro da saúde desde o início da pandemia. É provável que pouca coisa mude.

Virus Outbreak Brazil

Os mortos precisam de espaço: Cemitério em São Paulo, BrasilFoto: Andre Penner / dpa

BERLIN taz |  Queiroga tem tudo para fazer um bom trabalho, disse o presidente Jair Bolsonaro em discurso na noite de segunda-feira (15/03). O que se queria dizer era o recém-nomeado Ministro da Saúde do Brasil, Marcelo Queiroga. O cardiologista é o quarto ministro da saúde desde o início da pandemia e assume o cargo na fase mais dramática.

Com uma média de 1.855 mortes por dia e um total de 280.000 mortes corona, o Brasil está mergulhando cada vez mais na catástrofe corona. Em muitos estados, o sistema de saúde está à beira do colapso. O maior país da América Latina está avançando lentamente com a vacinação.

Muitos culpam o predecessor de Queiroga pelo caos. O general 3 estrelas Eduardo Pazuello, que os críticos também chamam de Pesadello, chefiou o ministério por 10 meses – sem experiência anterior na área de saúde. Como seu chefe Bolsonaro, Pazuello teimosamente minimizou a pandemia e confiou em uma droga ineficaz contra a malária na luta contra o Corona.

Mesmo durante a campanha de vacinação, o suposto especialista em logística cambaleou de uma avaria para a outra. Particularmente constrangedor: seu ministério confundiu os estados do Amazonas e Amapá e mandou vacinas erradas para o norte do país.

Como o suprimento de oxigênio nos hospitais da região amazônica entrou em colapso em janeiro , há até uma investigação contra Pazuello. Ele afirma ter cumprido as decisões do presidente: “É simples: um dá ordens e o outro obedece”, disse ele em outubro.

O novo ministro da Saúde, Queiroga, se pronuncia contra o uso de medicamentos polêmicos e é descrito como um bom negociador. Ele também não acredita em bloqueios e muitos criticam sua proximidade com os filhos do presidente.

Antes de Pazuello, um ministro da saúde havia sido demitido por Bolsonaro por tentar seguir as recomendações da OMS. Outro porque havia se manifestado contra o uso do remédio para malária.

Na segunda-feira, o renomado cardiologista Ludhmila Hajjar recusou a indicação para ministro da Saúde. O motivo: você acredita na ciência. Diz-se que Bolsonaro disse a ela em uma reunião: “Você não vai me foder com um bloqueio no Nordeste e, assim, impedir minha eleição, vai?”

A mudança no Ministério da Saúde provavelmente se deve à pressão do influente bloco de centro-direita. Especialmente depois que o popular ex-presidente Lula pôde concorrer às eleições de 2022 na semana passada , Bolsonaro e seus parceiros estratégicos perceberam que o curso catastrófico da coroa poderia cair sobre seus pés. O adversário da vacinação, Bolsonaro, recentemente se pronunciou a favor da vacinação e moderou um pouco seu tom.

Mas para sua reeleição em 2022, Bolsonaro depende do núcleo duro de seus apoiadores – e eles só se manifestaram novamente no domingo, sem máscaras e sem o devido distanciamento, contra as restrições impostas para conter a disseminação do coronavírus.

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Este texto foi inicialmente publicado em alemão e publicado pelo jornal Taz.de [Aqui!].

O esgotamento emocional causado pela pandemia da COVID-19 se tornou galopante na comunidade científica

burnoutTrabalho remoto, atrasos em pesquisas e obrigações de cuidar de crianças estão afetando os cientistas, causando estresse e ansiedade.

Por Virginia Gewin para a Nature

Em sua essência, o burnout é causado por um trabalho que exige um esforço físico, cognitivo ou emocional contínuo e de longo prazo.

Os indicadores da síndrome aumentaram acentuadamente em algumas instituições de ensino superior no ano passado, de acordo com pesquisas nos Estados Unidos e na Europa. Em uma pesquisa com 1.122 membros do corpo docente dos EUA que se concentrou nos efeitos da pandemia, quase 70% dos entrevistados disseram que se sentiram estressados ​​em 2020, mais que o dobro do número em 2019 (32%). A pesquisa, conduzida em outubro passado pelo The Chronicle of Higher Educatione pela empresa de serviços financeiros Fidelity Investments em Boston (EUA), Massachusetts, também descobriu que mais de dois terços dos entrevistados se sentiam cansados, em comparação com menos de um terço em 2019. Durante 2020, 35% ficaram com raiva, enquanto apenas 12% disseram isso em 2019. Os resultados foram divulgados no mês passado.

Mais da metade das pessoas entrevistadas disse que estava pensando seriamente em mudar de carreira ou se aposentar mais cedo. Os efeitos emocionais e outros efeitos do esgotamento relacionado à pandemia foram piores para os professores do sexo feminino: 75% das mulheres relataram sentir-se estressadas, em comparação com 59% dos homens. Em contraste, em 2019, esse número era de 34% para as mulheres entrevistadas. Cerca de oito em cada dez mulheres também indicaram que sua carga de trabalho aumentou como resultado da pandemia, em comparação com sete em cada dez homens. Quase três quartos dos professores do sexo feminino relataram que seu equilíbrio entre vida profissional e pessoal se deteriorou em 2020, em comparação com pouco menos de dois terços dos homens entrevistados.

Uma pesquisa semelhante na Europa oferece um panorama igualmente sombrio, mostrando um aumento drástico nas taxas de estresse e preocupações com a saúde mental na força de trabalho científica acadêmica. Agourentamente, o pedágio da pandemia agora também inclui incerteza desenfreada de carreira.

Enquanto as universidades lutam com as consequências econômicas de fechamentos repetidos, o esgotamento entre os pesquisadores acadêmicos provavelmente continuará por algum tempo em meio a demissões ou congelamento de contratações, dizem pesquisadores do ensino superior. Não existem soluções rápidas ou fáceis para o burnout, especialmente sem um fim à vista para suas causas estruturais subjacentes; os cientistas acadêmicos muitas vezes são deixados para lidar com o melhor que podem (consulte ‘Gerenciando o esgotamento’).

Gerenciando o “Burnout”

Pesquisadores acadêmicos que estão experimentando sintomas de esgotamento em conexão com a pandemia podem tomar algumas medidas para se sentirem melhor. Aqui estão algumas sugestões para atenuar o sofrimento.

Não internalize o esgotamento como um fracasso

Burnout é consequência de um sistema que espera que as pessoas trabalhem muitas horas e sacrifiquem suas vidas pessoais. Esse mesmo sistema costuma enviar a mensagem de que uma semana de trabalho de 40 horas não é suficiente, diz a psicóloga clínica Desiree Dickerson, que trabalha como consultora acadêmica de saúde mental em Valência, Espanha. Muitas vezes, diz Dickerson, os acadêmicos internalizam o burnout como um fracasso. “Isso é impreciso e prejudicial”, diz ela. Além de focar nos pilares da saúde mental – sono, boa nutrição, exercícios, socialização de forma segura – Dickerson incentiva os acadêmicos a encontrarem um fórum por meio do qual possam expressar a dor, a perda, a incerteza, a preocupação e o medo que tantos estão sentindo-me. “[Academia] é uma ultramaratona, não um sprint. Você tem que se controlar ”, diz ela.

Crie maneiras de se livrar do estresse

A chave para períodos de recuperação eficazes é fazer atividades que lhe dêem uma sensação de distanciamento – ler ficção, cozinhar ou sair para uma corrida, diz Rajvinder Samra, professor sênior de saúde na Open University em Milton Keynes, Reino Unido. “Se você está usando a mídia social para conversar com amigos ou família e traz à tona coisas estressantes, isso não é desapego”, observa ela.

Priorize e normalize conversas sobre saúde mental

A pandemia tornou as conversas sobre saúde mental a norma. “Manter nossa saúde mental e dedicar-nos ao autocuidado deve ser uma prioridade de uma forma que não reconhecemos totalmente no passado”, disse Lisa Jaremka, diretora do Laboratório de Relações Próximas e Saúde da Universidade de Delaware em Newark. “Duas ou três vezes por semestre, converso com os alunos sobre folgas e os incentivo a fazer isso”, diz ela. “Eu compartilhei abertamente que fui a um terapeuta muitas vezes na minha vida e como utilizar recursos de saúde mental, se necessário.”

Lute contra o isolamento

A bioinformática Emma Bell – que se identifica como uma pessoa de uma minoria de gênero, uma pessoa de cor, queer, um imigrante e uma acadêmica de primeira geração – tem lutado contra o esgotamento relacionado à pandemia durante seu pós-doutorado no Princess Margaret Cancer Centre, em Toronto, Canadá. Quando a pandemia atingiu o Canadá em março de 2020, Bell morou em Toronto por apenas um ano e perdeu importantes fontes de apoio, incluindo um clube de bioinformática para mulheres e membros de identidades de gênero marginalizadas que vacilavam em um ambiente digital. Bell marcou uma reunião semanal com outro pós-doutorado do grupo para fornecer estrutura e apoio de colegas, e para levantar o ânimo. Mas Bell diz que eles lidaram melhor com o estresse e a incerteza comprando um novo filhote. “Fiz questão de ter animais em meu apartamento para lutar contra o isolamento”, diz Bell.

Campo minado de meio de carreira

Uma pesquisa europeia de autores de periódicos e livros acadêmicos pela De Gruyter, uma editora acadêmica em Berlim, descobriu que os pesquisadores em meio de carreira, principalmente mulheres, foram os mais atingidos pelo estresse relacionado ao trabalho. De acordo com seu relatório de dezembro de 2020, Locked Down, Burned Out : “Para muitos acadêmicos, a pandemia foi, e continua sendo, uma época de grande estresse, insegurança e pressão”.

Equilíbrio trabalho-vida: quebrar ou queimar

Os pesquisadores estão cada vez mais ocupados à medida que a pandemia continua, diz Deirdre Watchorn, gerente sênior da equipe de análises e percepções de De Gruyter. A editora conduziu duas pesquisas: uma em maio passado, envolvendo 3.214 entrevistados de 103 países, e outra em outubro passado, na qual 1.100 pessoas responderam de 78 países. “Uma das maiores mudanças foi quantas horas as pessoas trabalhavam diariamente”, diz Watchorn: as horas da maioria das pessoas aumentaram, em grande parte devido à transição global para o aprendizado digital. A necessidade de acadêmicos ministrarem ensino online pode quase triplicar o tempo de preparação para uma palestra de uma hora, diz Liz Morrish, que pesquisa políticas de ensino superior como bolsista visitante na York St John University em York, Reino Unido. Isso deixa menos tempo para pesquisa.

Além das demandas de ensino online, diz Watchorn, os entrevistados identificaram dois outros impedimentos para conduzir pesquisas acadêmicas como normais: redes profissionais interrompidas e trabalhar em casa, muitas vezes enquanto cuidam de crianças. Os pesquisadores acadêmicos sentem que suas carreiras estão suspensas e as colaborações de longo prazo estão sofrendo como resultado das interrupções da rede e da incapacidade de trabalhar juntos pessoalmente. “Vimos o uso relatado do Twitter aumentar como resultado da pandemia e de pessoas tentando encontrar colaboradores”, diz Watchorn.

Efeito de empilhamento

Thomas Kannampallil, que estuda a tomada de decisões clínicas na Escola de Medicina da Universidade de Washington em St Louis, Missouri, conduziu três pesquisas com médicos estagiários em meados de 2020 para determinar se o esgotamento foi agravado pela exposição a pessoas que foram hospitalizadas com COVID- 19 Na primeira pesquisa, envolvendo 393 trainees trabalhando em dois hospitais dos EUA em abril do ano passado, ele e seus colegas descobriram que aqueles que estavam envolvidos nas respostas médicas de linha de frente à pandemia experimentaram mais estresse e esgotamento do que aqueles que não cuidavam de pessoas com COVID-19 (T.Kannampallil et al . PLoS ONE 15 , e0237301; 2020).

Kannampallil diz que maiores estressores relacionados ao trabalho afetam a habilidade de dissociar do trabalho, resultando em uma menor probabilidade de se envolver em atividades como exercícios, sono e autocuidado que ajudam na recuperação. A carga de trabalho mais pesada, junto com menos capacidade de recuperação, produz um ciclo vicioso, diz Kannampallil. “Você está emocionalmente exausto, mas desconectado, o que cria uma incapacidade de se recuperar e leva a um ‘efeito de empilhamento’”, diz ele.

Um problema inerente

Mesmo antes da pandemia, muitos pesquisadores na academia lutavam com problemas de saúde mental. Desiree Dickerson, uma consultora acadêmica de saúde mental em Valência, Espanha, diz que o burnout é um problema inerente ao sistema acadêmico: por causa de como ele define excelência de forma restrita e como categoriza e recompensa o sucesso. “Precisamos recompensar e valorizar as coisas certas”, diz ela. 

Desiree Dickerson fazendo turismo local em Alcalà de la Jovada.A consultora de saúde mental Desiree Dickerson diz que o burnout é inerente ao sistema acadêmico. Crédito: Vicent Botella Soler

Lisa Jaremka, diretora do Laboratório de Relações Próximas e Saúde da Universidade de Delaware em Newark, diz que as pressões que levam ao esgotamento são institucionais e que as estruturas acadêmicas devem mudar. Os que estão no poder, incluindo administradores universitários, membros de comitês de contratação e presidentes de departamento, precisam mudar as expectativas e definir novas, diz Jaremka.

No entanto, as evidências de liderança empática no nível institucional são escassas, diz Richard Watermeyer, um pesquisador de ensino superior da Universidade de Bristol, no Reino Unido, que tem conduzido pesquisas para monitorar os impactos da pandemia na academia. O conselho performativo dos empregadores para cuidar de si mesmo ou sair um dia da semana sem reuniões para pôr em dia o trabalho é muito superficial, diz ele. Tal conselho não reduz a alocação de trabalho, ele destaca.

E embora muitos financiadores tenham concedido prorrogações para ajudar a aliviar as pressões de prazos, geralmente não há dinheiro extra, acrescenta Srinivas. No lado positivo, no entanto, a pandemia trouxe uma maior aceitação institucional de horários de trabalho flexíveis e proporcionou mais oportunidades para escrever ou passar tempo com a família, diz ela.

Morrish não está otimista quanto à redução das cargas de trabalho em breve. “Todas as universidades estarão sob aperto financeiro, o que significa menos professores e mais carga de trabalho”, diz ela. As demissões estão em andamento desde o ano passado em muitas instituições, incluindo relatos de 17.000 cortes de empregos na Austrália, além de demissões nos Estados Unidos, Canadá e Reino Unido.

Para pesquisadores acadêmicos que têm o benefício de representação sindical em suas instituições, Morrish recomenda filiar-se a um sindicato e participar de reuniões. Para outros cientistas, diz ela, é importante revisar os contratos. “Fique atento, conheça seu contrato e certifique-se de que a instituição não atropele você.” Samra aconselha que os cientistas acadêmicos atualizem seus currículos com novos conjuntos de habilidades que tiveram de aprender como consequência das mudanças relacionadas à pandemia. “Reconheça e obtenha crédito pelas habilidades que você está desenvolvendo”, diz ela – isso pode levar a melhores perspectivas de emprego no futuro.

Watermeyer acredita que os pesquisadores em início de carreira, em particular, precisam tomar decisões claras agora sobre suas perspectivas futuras de carreira na academia. “A precariedade”, ele avisa, “tende a aumentar”.

Nature 591 , 489-491 (2021)

 
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Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado pela revista Nature [Aqui!].

‘Bolsonaro não sabe que a Terra é redonda’: como Lula pode reconquistar o Brasil

O tratamento incorreto da pandemia apenas fortaleceu a posição do ex-presidente – e agora ele está livre para concorrer novamente

lula vacinaLula da Silva recebe vacina contra coronavírus em São Bernardo do Campo no último sábado. Fotografia: Reuters

Por Andre Pagliarini para o jornal “The Guardian”

Na quarta-feira, 10 de março, o ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva fez um discurso de retorno empolgante na sede do sindicato dos metalúrgicos em São Bernardo do Campo, um centro industrial na região metropolitana de São Paulo de onde Lula emergiu como uma figura nacional no 1970s. No dia anterior, em uma reviravolta chocante que surpreendeu até mesmo aqueles que estavam convencidos de sua inocência, um juiz do Supremo Tribunal anulou as condenações criminais contra Lula, tornando-o elegível para um terceiro mandato no ano que vem.

A decisão a favor de Lula teria sido uma grande história, mesmo se sua popularidade tivesse diminuído desde que deixou o cargo em 2011. Mas as pesquisas recentes mostram que ele continua surpreendentemente eleito, à frente do titular da extrema direita, Jair Bolsonaro, que venceu as eleições de 2018. Outras pesquisas apontam para uma disputa mais acirrada, o que ainda é notável visto que Lula nem começou a fazer campanha. Lula também liderou as pesquisas há três anos, mas foi impedido de concorrer por um infame juiz que ingressou no governo Bolsonaro. Por sua vez, Bolsonaro, capitão aposentado do exército que serviu sem distinção no Congresso por 27 anos, presidiu uma catástrofe absoluta. Se a maior nação da América Latina já foi tida como modelo para saber como equilibrar o crescimento econômico com a redução dramática da pobreza, sua liderança atual parece perfeitamente satisfeita em ser um pária global (o ministro das Relações Exteriores disse literalmente em outubro passado).

Desde o modo como lida com o meio ambiente e a pandemia, para citar algumas questões importantes, Bolsonaro se mostrou imune à razão. Por isso, Lula parecia tão decidido a reafirmar a primazia dos fatos no discurso político de seu país em seu discurso na semana passada. “É sempre importante reiterar sempre que possível”, declarou ele, “o planeta é redondo … e Bolsonaro não sabe disso”. Ele descreveu todas as medidas que teria tomado se estivesse no cargo quando a pandemia o atingiu, cada medida mais sensata que a anterior. O Bolsonaro continua a minimizar o vírus, mesmo enquanto observadores internacionais temem que o Brasil se torne um centro de disseminação de novas variantes.

Embora não esteja claro se Lula vai realmente concorrer novamente no ano que vem, o simples fato de que ele pode mudou o terreno político do Brasil. Tanto o atual presidente da Câmara, eleito para sua posição de influência com o apoio de Bolsonaro, quanto o anterior, uma figura de centro-direita cujo partido sugeriu que poderia endossar Bolsonaro em 2022, sinalizou uma abertura para a reabilitação de Lula. Esta é uma reversão impressionante em relação a apenas três anos atrás, quando a sociedade brasileira se viu nas garras de uma onda reacionária que responsabilizava os progressistas por todos os males sociais, reais ou imaginários. O reconhecimento que Lula recebeu da esquerda e da direita nos últimos dias pode ser atribuído à sua capacidade de vender uma mensagem conciliatória, enraizada não no confronto ideológico, mas na recuperação dos valores republicanos básicos que Bolsonaro abertamente desdenha.

Um obstáculo flagrante permanece no caminho caso Lula volte a assumir a presidência: as forças do mercado internacional. Conforme noticiado na Bloomberg , a renovada elegibilidade política de Lula “fez com que as ações e a moeda craterassem, aprofundando alguns dos piores desempenhos deste ano”. Em outro lugar, os investidores disseram à Reuters que “a perspectiva de Bolsonaro concorrer contra Lula coloca dois candidatos ‘populistas’ um contra o outro, esvaziando o centro, que é mais fértil para as reformas econômicas de que o Brasil precisa desesperadamente”. Em meio ao aperto de mão dos observadores mais sintonizados com os desejos estreitos dos investidores privados, vale a pena lembrar as diferenças óbvias entre o titular e o candidato a desafiante que, sem sucesso, concorreu à presidência três vezes antes de finalmente rompê-lo em 2002.

Sob o Partido dos Trabalhadores de Lula, o governo federal brasileiro implementou uma enxurrada de políticas federais inovadoras que transformaram a vida de milhões de brasileiros. A pobreza despencou, enquanto o número de graduados aumentou. Bolsonaro, por sua vez, lamenta sua incapacidade de fazer qualquer coisa, ansiando pelos dias de regime militar. Ele demonstra uma atitude irreverente em relação ao bem-estar de qualquer pessoa que não seja parente de sangue. O fato de ele ter conquistado a presidência em 2018 é uma prova não do apelo de sua agenda, mas da erosão da civilidade básica no Brasil. Essa é a comparação a ter em mente à medida que as manchetes aparecem nos próximos meses – e com certeza farão – alertando os investidores para a agenda econômica supostamente preocupante de Lula e seu partido, o mesmo “bando horrível” que uma vez levantou 28 milhões de pessoas saíram da pobreza.

Também houve algumas reclamações de militares aposentados sobre a impropriedade de Lula ser elegível para um cargo público. Para seu grande crédito, no entanto, o vice-presidente Hamilton Mourão, um general aposentado, jogou água fria em qualquer conversa sobre conspiração, dizendo que as pessoas têm todo o direito de votar no ex-presidente. É altamente improvável que uma trágica história de intervenção militar se repita. O retorno de Lula à cena também deixou a centro-direita em desordem. Por exemplo, João Doria, um ex-empresário que cavalgou a cauda do casaco de Bolsonaro até a mansão do governador de São Paulo em 2018, anunciou ele pode não exercer a presidência, afinal, reconhecendo o perigo de dividir o voto da direita. A ação de Doria é uma admissão tácita da capacidade do ex-presidente de atrair o amplo centro da política brasileira.

Como em 2002, quando Lula prometeu uma alternativa social-democrata plausível às privações do neoliberalismo, seu momento pode novamente se provar impecável. Há um ciclo de feedback a seu favor – os números das pesquisas indicam que Lula se sai melhor contra o Bolsonaro entre figuras da oposição, fortalecendo assim sua posição como líder da oposição e levando a números mais altos nas pesquisas à medida que outros eleitores anti-Bolsonaro acorrem ao seu lado. Percebendo esse ímpeto, até mesmo figuras de centro-direita notaram a capacidade de Lula de construir pontes, uma crítica à incapacidade de Bolsonaro de fazê-lo. Talvez seja um sinal de que o establishment que antes apostou no Bolsonaro para manter o Partido dos Trabalhadores de Lula acuado em 2018 esteja chegando, aos trancos, à conclusão de que não vale mais a pena levar o país à beira do colapso.

*Andre Pagliarini é professor de história e estudos latino-americanos no Dartmouth College

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Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].