WWF da Alemanha mostra avanço maciço do desmatamento nos trópicos durante a pandemia do coronavírus

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O WWF reclama da destruição maciça de florestas durante a crise do coronavírus. A destruição teria aumentado em até 150%. Áreas na Indonésia, Brasil e Congo são as mais afetadas.

Durante a pandemia de coronavírus, a destruição da floresta tropical aumentou enormemente em todo o mundo. Isso surge de um estudo da fundação ambiental WWF, para o qual avaliou dados de satélite da Universidade de Maryland.

“Tudo indica que estamos lidando com um efeito coronavírus quando o desmatamento está explodindo”, diz Christoph Heinrich, diretor de Conservação da Natureza do WWF na Alemanha. A área das florestas tropicais dos 18 países examinados encolheram no mês de março “Coronavírus” em 6500 km2, cerca de sete vezes a área de Berlim.

A destruição da floresta aumentou cerca de 150%

Segundo a análise do WWF, isso significa um aumento na destruição de florestas em média 150% em comparação com os anos de 2017 a 2019. Os países mais afetados em março foram a Indonésia com mais de 1300 km2, o Congo com 1000 km2 e o Brasil com 950 km2.

O Instituto de Pesquisa da Amazônia (Imazon) também registrou o desmatamento de 529 km2 na Amazônia em Abril – um aumento de 171% em relação ao mesmo mês em 2019.

Lei controversa no Congresso Brasileiro

Segundo o Imazon, muitos desmatamentos no Brasil podem ter sido causados ​​por invasores que ainda não possuem títulos de propriedade. O cientista Carlos Souza, que estuda a mudança na floresta amazônica, disse: “primeiro eles ocupam o espaço público e depois tentam obter legalmente essas áreas”.

Isso poderia ser possível no futuro com a chamada lei de apropriação de terras: este projeto de lei foi apresentado pelo presidente da extrema direita do Brasil, Jair Bolsonaro, em dezembro. O projeto será tratado no Congresso nos próximos dias. Se adotado, a nova lei legalizaria posteriormente o desmatamento ilegal e a ocupação ilegal de terras públicas antes de 2018. Internacionalmente, Bolsonaro tem sido amplamente criticado por esses e outros planos de suavizar a proteção ambiental no Brasil.

Florestas como fonte de renda na crise do coronavírus

Segundo informações da WWF, as pessoas usam a floresta em muitos lugares como fonte de renda devido a cortes de empregos. O suporte financeiro e técnico pode ajudar a conter a destruição.

Para proteger as florestas, o WWF pede apoio dos países em desenvolvimento e emergentes. A assistência técnica e financeira pode ajudar a reduzir o desmatamento ilegal. Isso inclui não apenas uma melhor aplicação das leis, mas também a criação de fontes alternativas de renda e o alívio de problemas sociais por meio das conseqüências da pandemia de coroa.

No entanto, a alavanca mais poderosa são as relações comerciais internacionais. Há uma necessidade urgente de padrões sociais e ambientais melhores e vinculativos, especialmente para cadeias de suprimentos livres de desmatamento. Segundo dados do WWF, cerca de um sexto de todos os alimentos comercializados na União Europeia contribui para o desmatamento nos trópicos. “A proteção das florestas é uma tarefa comum que ninguém pode evitar”, disse Heinrich, membro do conselho da WWF.

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Este texto foi publicado originalmente em alemão pela rede Tagesschau [Aqui!].

Suécia teve em abril a maior taxa de mortalidade em décadas

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Os suecos confiaram nele na crise do coronavírus: o epidemiologista Anders Tegnell. Ele foi fundamental para a adoção de um caminho especial pela governo sueco. Mas agora ele admite que estava errado em suas previsões. Fonte: WELT / Laura Fritsch

Na pandemia causada pelo coronavírus, a Suécia escolheu uma rota especial. Isso pode ter consequências dramáticas: 10.458 pessoas morreram no país em abril – mais do que em qualquer outro mês desde dezembro de 1993.

anders tegnellO epidemiologista Anders Tegnell agora reconhece surpresa com o alto número de mortos resultante da adoção da política do não-confinamento durante a pandemia da COVID-19 na Súecia.

Os suecos, que seguiram um caminho especial na pandemia de coroa, registraram a maior taxa de mortalidade em anos. Conforme relatado pela autoridade estatística sueca, 10.458 pessoas morreram na Suécia, que tem uma população de 10,3 milhões no mês passado – mais do que em qualquer outro mês nas últimas décadas.

“Temos que voltar a dezembro de 1993 para ter mais mortes em apenas um mês”, disse Tomas Johansson, da agência de estatísticas. Ao longo de 1993, a Suécia teve mais de 97.000 mortes – a taxa mais alta desde 1918, quando a gripe espanhola era comum na Suécia.

Segundo Johansson, não há explicação oficial para o alto número de mortes em 1993. No entanto, a Suécia foi atingida por uma epidemia de gripe naquele ano.

A Suécia está tomando uma rota especial na pandemia sem restrições de saída. Escolas para crianças menores de 16 anos permaneceram abertas, assim como cafés, bares, restaurantes e lojas. Pede-se às pessoas que respeitem os regulamentos de distância por sua própria responsabilidade.

A via sueca agora está sendo criticada; pois o número de mortes  pelo coronavírus excede o de outros países escandinavos que tinham restrições estritas de saída. Na terça-feira, a Suécia registrou 3.743 mortes por doença pulmonar de COVID-19 causada pelo coronavírus, de acordo com a Universidade Johns Hopkins . O número de infecções foi dado como 30.799.

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Este texto foi inicialmente publicado pelo canal de TV Welt [Aqui!].

Em meio aos caos criado por Jair Bolsonaro, Brasil atinge a marca macabra de 1.000 mortes diárias

Bolsonaro e Mandetta ignoram recomendação de uso de máscara contra ...

Há quatro dias atrás, o insuspeito jornal “The Washington Post” publicou uma matéria intitulada “Drug promoted by Trump as coronavirus ‘game changer’ increasingly linked to deaths” (o que em português pode ser lido como ” Droga promovida por Trump como “divisor de águas” do coronavírus cada vez mais ligada a mortes”. Obviamente, o artigo assinado pelo trio de jornalistas Toluse OlorunnipaAriana Eunjung Cha e Laurie McGinley falava da hidroxicloroquina, uma variante menos tóxica da hoje famigerada Cloroquina.  O vaticínio final do artigo foi de que as evidências em prol do uso da cloroquina a partir de estudos sérios não são apenas ausentes, mas como estão confirmados vários malefícios do uso do medicamento.

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Enquanto isso, o congênere brasileiro de Donald Trump, o presidente Jair Bolsonaro continuou sua cruzada dupla que, por um lado, insiste no fim das medidas de confinamento social em prol de uma suposta retomada dos empregos e, de outro, demanda a adoção generalizada da mesma cloroquina que foi desmoralizada como ineficiente na matéria mostrada acima.

Há que se lembrar que por causa da insistência na adoção generalizada da cloroquina, o Brasil perdeu em menos de um mês não apenas um, mas dois ministros da Saúde (Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich), e que estamos navegando a pandemia como um cego que tateia as paredes de uma caverna escura. É que o substituto interino de Nelson Teich, o general  Eduardo Pazuello, reconheceu ser um “leigo nas questões técnicas na área da saúde“.  Em outras palavras, o general Pazuello está desde a saída de Nelson Teich no lugar errado, e na nossa pior hora, quando se trata de enfrentar uma pandemia letal. 

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Hoje (19/05) veio a consequência mais concreta do caos que foi instalado no Ministério da Saúde, pois o Brasil acaba de superar a marca macabra de 1.000 mortes diárias  (o equivalente a 13 quedas do avião que vitimou a equipe da Chapecoense) por COVID-19, em um total de 1.179 óbitos em 24 horas, ou um morto a cada 73 segundos! Quando eu previ há algumas semanas que o caos sendo instalado na gestão da pandemia iria causar a chegada dessa quantidade de mortos, tive que conviver com a cara de espanto da pessoa com quem eu conversava.  Lamentavelmente, minha previsão estava certa, e agora temo que cheguemos a números ainda maiores do que os enfrentados em países como EUA, Itália, Espanha, Reino Unido e França.  

Por que essa previsão tão ruim? Simplesmente porque perdemos vários cavalos que passaram encilhados para não chegarmos a esta situação, mas a insistência do presidente Jair Bolsonaro de desacreditar as medidas de isolamento social, combinada com a aquiescência da maioria dos seus ministros, acelerou a curva de contaminação. Agora, nos resta esperar que o vírus siga o seu ritmo, enquanto a rede hospitalar ultrapassa a linha do colapso total.

Esse balanço é fundamental para que depois que passada a grande onda da pandemia, possamos fazer os devidos ajustes de conta com os responsáveis pela catástrofe que está se abatendo sobre um número incalculável de famílias brasileiras, especialmente aquelas vivendo nos grandes bolsões de pobreza que estão espalhados pelas grandes cidades brasileiras. 

Finalmente, para aqueles que estão hoje se perguntando sobre o que é realmente importante neste momento. Eu diria que é se manter saudável, aplicando as regras de confinamento social e de higiene pessoal que são, por enquanto, as ferramentas mais eficazes para se enfrentar a difusão acelerada do coronavírus.

Brasil constrói a própria catástrofe na pandemia

País se torna terceiro do mundo em número de casos de COVID-19 e avança para se tornar o epicentro global da doença, enquanto presidente se esquiva de responsabilidade. E, ao que tudo indica, o pior ainda não passou.

coronafestBolsonaro ignora consenso científico internacional e volta apoiar aglomeração em Brasília

No fim de semana, viu-se novamente um clima de festa entre os jovens na Lapa, bairro boêmio do Rio de Janeiro. E ao longo das famosas avenidas litorâneas da cidade, muitos apreciavam o drinque noturno, muitos sem a máscara de proteção determinada pela prefeitura. Depois de dois meses cheios de restrições, muitas pessoas em bairros mais abastados parecem se se comportar relaxadamente.

Por outro lado, muitos vivem com medo nas favelas, onde o vírus é galopante. “Colocando a proteção facial e sempre limpando as mãos com desinfetante, não acontece nada”, afirma o funcionário de uma pequena mercearia que faz entregas de bicicleta aos clientes em quarentena. Sua esposa, que trabalhava fazendo faxina para famílias com melhores condições, está em casa há meses por medo. “Mal se consegue sobreviver”, diz o marido.

O coronavírus atinge particularmente os pobres que, apesar do perigo, não podem simplesmente ficar em casa e não podem contar com nenhuma clínica particular bem equipada no caso de uma emergência. Com 256 mil casos confirmados e mais de 16,8 mil mortes, o Brasil estava em terceiro lugar nas estatísticas globais de coronavírus nesta terça-feira (19/05).

Mas é provável que o número real de mortes seja mais que o dobro, e o número de casos não relatados de infecção pode ser até 15 vezes maior. Sem testes, os especialistas ficam no escuro. E como os hospitais públicos estão superlotados em muitas localidades, cada vez mais pessoas morrem em casa sem serem testadas.

Os números oficiais já são, por si só, suficientemente assustadores. Atualmente, até 15 mil novas infecções e mais de 800 mortes são relatadas todos os dias. As curvas apontam acentuadamente para cima, não há achatamento à vista. Imagens de valas comuns em Manaus e São Paulo rodam o mundo. No centro da cobertura da mídia está o presidente Jair Bolsonaro, que parece estar pouco preocupado com o sofrimento dos cidadãos.

De “gripezinha” a foco da epidemia

Bolsonaro ainda acha que o vírus causa uma “gripezinha” e ele suspeita que, por trás dessa “histeria”, esteja a China. Ele acredita que alguém quer prejudicar a ele e ao presidente dos EUA, Donald Trump. No início de março, Bolsonaro visitou o líder americano na Flórida. Ao retornar, mais de 20 membros da delegação brasileira testaram positivo para o coronavírus, um desastre de relações públicas para Bolsonaro.

Ele desrespeita deliberadamente as regras de distanciamento social recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e seu próprio Ministério da Saúde. De forma demonstrativa, ele tira selfies e aperta as mãos de seus seguidores, que protestam todos os domingos em frente ao Palácio do Planalto pelo fim das medidas de combate à pandemia. O ex-paraquedista disse que, por seu “histórico de atleta”, ele não precisaria se preocupar e “nada sentiria”, caso fosse contaminado pelo vírus.

Além disso, nas grandes cidades do país, há caravanas de carros de apoiadores de Bolsonaro. Eles criticam abertamente os governadores e prefeitos que fecharam shopping centers e lojas, atividades que não são consideradas essenciais na pandemia. Enquanto seus adversários atribuíam a Jair Messias Bolsonaro o número crescente de mortes, ele comentou com escárnio: “E daí? Eu sou Messias, mas não faço milagres.”

Orações e remédio para malária

Mesmo assim, ele pediu aos seus compatriotas que orassem contra o vírus. Além disso, da mesma forma que Trump, ele está exigindo o uso de cloroquina, um medicamento contra a malária. Bolsonaro instruiu os laboratórios das Forças Armadas a fabricar milhões de comprimidos do remédio.

Depois que recusou-se a aprovar o uso da controversa droga, o médico Luiz Henrique Mandetta teve que deixar o cargo de ministro da Saúde em meados de abril. Seu sucessor, o oncologista Nelson Teich, também se recusou a prescrever cloroquina para pacientes com covid-19. Após 28 dias no cargo, Teich jogou a toalha na última sexta-feira.

Até o momento, não foi possível comprovar a eficácia do medicamento contra a covid-19. Em vez disso, em muitos pacientes, ele leva à arritmia cardíaca. Os médicos suspeitam que centenas de brasileiros tenham morrido em casa nas últimas semanas porque se trataram com cloroquina sem supervisão médica.

No entanto, o Ministério da Saúde deverá mudar esta semana o protocolo para o uso da cloroquina: Bolsonaro quer que o medicamento seja usado de forma ampla e, não somente em casos graves com orientação médica, mas também no início do tratamento.

Bolsonaro contra governadores

Os ex-ministros da saúde Mandetta e Teich também caíram em desgraça por apoiarem as medidas de distanciamento social ordenadas por governadores e prefeitos. Bolsonaro, por outro lado, quer reabrir “quase tudo” para salvar a economia brasileira. “Espero que não venham me culpar lá na frente pela quantidade de milhões e milhões de desempregados”, disse o presidente, apontando que os culpados são os governos locais.

Mas Bolsonaro está de mãos atadas. Porque os governadores e prefeitos são responsáveis por decidir sobre medidas de confinamento. Como os hospitais em algumas regiões já estão sobrecarregados, cada vez mais governos locais estão anunciando medidas drásticas. O bloqueio total já foi anunciado em alguns municípios do Rio de Janeiro, e o governo estadual está prestes a fazê-lo em São Paulo, unidade mais populosa da federação e que já tem mais mortes do que a China. A situação é ainda mais dramática no Norte e Nordeste, onde as cidades de Belém, Manaus e Fortaleza não têm mais leitos hospitalares livres.

Por insistência do Congresso, o governo iniciou pagamentos de ajuda a trabalhadores informais e mães solteiras. O auxílio emergencial de 600 reais será pago durante três meses. Até 50 milhões de pessoas, cerca de um quarto dos brasileiros, têm direito ao benefício. A procura é enorme. Em todo o país, o pagamento caótico da primeira parcela vem causando filas em frente às agências bancárias há semanas ‒ e provocando provavelmente muitas novas infecções.

Mas a recessão iminente pode salvar Bolsonaro, cuja aprovação está caindo nas pesquisas. Para tal, ele tem que conseguir culpar os governos locais pela miséria econômica.

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Este texto foi originalmente publicado pela Deutsche Welle [Aqui!].

Brasil- o inferno da pandemia

O coronavírus está se espalhando rapidamente no maior país da América Latina. O presidente Jair Bolsonaro ainda conta com a flexibilização: ele quer se distrair de acusações sérias contra ele. 

hospital de campanhaNovo hospital de campanha no Rio de Janeiro.  Foto: AFP / Carl de Souza

Por   Ramona Samuel und Tobias Käufer para o Berliner Zeitung

Rio de Janeiro: “O pior”, diz Fleury Johnson, “é que não podemos ajudar as pessoas da maneira que é realmente necessária.” O médico de 28 anos trabalha na UPA Mesquita, um centro médico inicial no Rio de Janeiro. A estação está localizada na Baixada Fluminense, o largo cinturão de bairros pobres que circundam a enorme cidade. Nenhum turista e nenhum estrangeiro chegam lá. Como se costuma dizer no Rio, o verdadeiro Brasil está lá em casa. Tudo é diferente lá do que nos bairros ricos de Ipanema ou Copacabana, onde os hospitais também são melhores.

Ao longo da parede de concreto da UPA, uma grade azul leva à única entrada para todos os pacientes. “24 horas de cuidados” está escrito na parede. Fleury Johnson está enfrentando o maior desafio de sua vida atualmente: o coronavírus chegou ao seu país de origem. E deve ser derrotado.

“Temos muitos pacientes que se pensa terem COVID-19”, diz Johnson. O que dificilmente pode ser feito: Existem poucos ventiladores para muitos pacientes que realmente precisam deles. E, acima de tudo, há muito poucos leitos de terapia intensiva, porque a enfermaria onde ele trabalha é, na verdade, apenas o primeiro ponto de contato dos pacientes. Mas para onde, com as muitas pessoas doentes? “Os pacientes permanecem simples. E não é possível encontrar um local gratuito nos hospitais. Não temos suporte suficiente. “

A situação na UPA é preocupante. Não é possível diferenciar aqui entre pacientes com sintomas semelhantes aos da gripe dos pacientes que vêm por causa de outras doenças. Muitos que querem obter ajuda aqui nem usam proteção bucal.  E o que faz com que o vírus possa se espalhar ainda mais.

O que a equipe médica da UPA Mesquita experimenta agora é comum em todo o Brasil: centros de saúde e hospitais estão sobrecarregados com o atendimento de pacientes com corona e desmoronam. As razões para isso são caseiras. “Existe uma política neste país que quer reduzir a saúde pública. Há um interesse em privatizar o sistema “, diz a médica Cristina Brito, 42 anos.” O que falta é que as pessoas e seu tratamento estejam no centro da política “.

Cristina Brito

A doutora Cristina Brito critica a política de saúde.  Foto: Cristina Brito

O sistema de saúde brasileiro estava em ruínas e cheio de corrupção antes de Jair Bolsonaro se tornar presidente e antes da pandemia de corona.

Antes da Copa do Mundo de 2014, várias centenas de milhares de pessoas em todo o país saíram às ruas para demonstrar investimentos em educação e saúde, em vez de em estádios da FIFA. Mas o curso já estava definido.

E piorou: o Brasil ficou impressionado com a organização da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos. O aumento esperado não se concretizou. Propagação da corrupção, caixas registradoras foram saqueadas. E a raiva contra a classe política cresceu. O que acabou levando à eleição do populista de direita Bolsonaro. E ele também colocou o lápis vermelho no setor de saúde.

O Brasil já registrou oficialmente mais de 240.000 infecções por coroa e quase 16.000 pessoas morreram. Em relação à população de quase 210 milhões de pessoas, esses são números comparáveis ​​- ainda. Porque nos últimos dias os números aumentaram rapidamente. Ninguém sabe se o Brasil está caminhando para um desastre ou se o topo da curva já foi atingido. E, acima de tudo, ninguém sabe quantas pessoas nos bairros pobres realmente morreram de Covid-19 e não foram incluídas nas estatísticas.

A situação na região amazônica também é dramática. Somente em Manaus, o número de mortes aumentou para mais de 2.000. E a desconfiança das estatísticas oficiais é grande. “Os números que conhecemos como movimento indígena são muito maiores do que aqueles que a autoridade oficial SESAI anuncia”, diz Sonia Guajajara na conversa por vídeo.

Guajajara é o coordenador da Associação dos Povos Indígenas Brasileiros e um dos ativistas mais destacados pelos direitos indígenas. A população indígena é exposta ao vírus sem proteção, as dificuldades para protegê-lo são imensas.

A autoridade competente SESAI deve finalmente tomar medidas para proteger a vida dos povos indígenas. “Precisamos de centros de saúde onde as pessoas são tratadas”, diz Guajajara. “E os hospitais também precisam ser construídos para fornecer serviços básicos aos povos indígenas. Especialmente na região amazônica, onde o sistema de saúde já entrou em colapso. “

Aliás, os povos indígenas do Brasil estão travando outra luta que quase foi esquecida. “Nesta crise, não devemos esquecer que o desmatamento está progredindo”, diz Guajajara. Madeireiros ilegais continuam a penetrar em territórios indígenas, trazendo o vírus com eles. Há também um sistema por trás disso, suspeita Guajajara. O desmatamento já existia sob outros governos. Mas Bolsonaro é contra os direitos humanos, contra os povos indígenas e contra a proteção ambiental. “Ele tem uma política destrutiva. Ele institucionalizou o genocídio no Brasil ”, diz Guajajara. No país, cresce o número de pessoas que suspeitam que o governo nacional não agiu para impedir a propagação da pandemia na Amazônia.

Novos fatos também devem ser criados à sombra da pandemia. Nesta semana, o Congresso decide sobre uma iniciativa legislativa chamada “MP da Grilagem” – liminar para a apropriação de terras. A lei, comenta a Sociedade para os Povos Ameaçados, fornece uma anistia para ocupação ilegal e desmatamento, mesmo de terras indígenas. Os ocupantes ilegais tornam-se proprietários legais.

“Se as regras entrarem em vigor como o poderoso lobby agrícola deseja, os conflitos fundiários surgirão em todo o Brasil. Territórios indígenas na Amazônia, por exemplo, também seriam afetados ”, temia Juliana Miyazaki, consultora da Sociedade de Povos Ameaçados. “Esta lei seria um convite para mais apropriação de terras, mais cortes e queimadas e mais violência contra os povos indígenas em suas áreas protegidas”.

De fato, a pandemia de coroa continua a polarizar o país. Agora existem dois campos. Há o presidente Bolsonaro, que há muito tempo subestimou e subestimou o perigo da pandemia e agora está em campanha pela abertura da vida social. E existem aqueles que lutam rigorosamente contra o vírus.

Às vezes, os campos se reúnem, como aconteceu recentemente durante uma manifestação em Brasília, quando os profissionais de saúde queriam chamar a atenção para as vítimas em suas próprias fileiras. Com cruzes de madeira pretas nas quais os nomes dos médicos e enfermeiros que sofrem de COVID-19 podiam ser lidos. Eles foram atacados, insultados e retratados como mentirosos pelos apoiadores de Bolsonaro. Houve brigas.

O campo de Bolsonaro, por outro lado, organizou carreatas que exigem um “retorno ao trabalho”. Os participantes foram insultados pelos transeuntes. A fenda que atravessa a sociedade está se aprofundando.

Jair Messias Bolsonaro, presidente, é responsável por esse desenvolvimento. Contra todos os conselhos dos médicos, ele continua se misturando com as pessoas, causando multidões e zombando dos meios de comunicação que reportam criticamente sobre a propagação do vírus. “Meu nome é Messias, mas não posso fazer milagres”, disse ele com um encolher de ombros recentemente, quando perguntado sobre a propagação do vírus.

Uma luta pelo poder ocorreu em seu próprio gabinete por causa dessa atitude casual. O ministro da Saúde, Luiz Mandetta, que usou critérios científicos para combater a pandemia e fez campanha pelo fechamento de contatos, perdeu a luta contra Bolsonaro, comprometido com a abertura da vida econômica. Menos de quatro semanas depois, o sucessor de Mandetta, Nelson Teich, desistiu exasperado. No meio da pandemia, há um caos na política de saúde.

“Não levarei meu povo à pobreza apenas para receber elogios da mídia”, disse Bolsonaro há algumas semanas, estabelecendo assim o caminho. Enquanto os governadores e prefeitos às vezes impõem restrições rígidas de saída e paralisam a vida econômica, Bolsonaro se apresenta como advogado de vendedores ambulantes e lojistas. Nesta semana, ele declarou academias, salões de beleza e cabeleireiros como sendo sistemicamente importantes, sabendo que todas essas instalações fazem parte do modo de vida brasileiro. Isso torna ainda mais difícil para os governadores implementar seu curso difícil.

Bolsonaro precisa dessa luta para se libertar de uma crise política doméstica. Nas últimas semanas, o presidente perdeu dois ministros populares, Mandetta e o ministro da Justiça, Sergio Moro, que haviam vinculado o potencial eleitoral tradicionalmente conservador.

Além disso, há uma disputa legalmente controversa sobre uma suposta interferência do presidente nos assuntos da Polícia Federal, que está investigando os filhos de Bolsonaro. Mais e mais políticos estão pedindo que Bolsonaro seja destituído do cargo. Mas isso também abriga o risco de que o presidente possa se apresentar como vítima. Com a “discussão de abertura” que ele iniciou, Bolsonaro tenta suprimir os problemas nas primeiras páginas. E seu ponto de vista está ganhando cada vez mais seguidores.

O médico Fleury Johnson, da UPA em Mesquita, não tem entendimento e, acima de tudo, não tem tempo para debates domésticos desse tipo. Ele não apenas combate a pandemia, mas também os problemas que o equipamento de proteção coloca para ele. É insuficiente e não oferece ajuda a ele como segurança suficiente. Johnson diz: “Todo dia que vou trabalhar, sei que o que acontece lá é muito pior do que o que aparece na mídia”.

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Este artigo foi originalmente publicado em alemão pelo “Berliner Zeitung” [Aqui!].

Em editorial, jornal “Le Monde” faz dura avaliação da atuação de Jair Bolsonaro na gestão da pandemia

Brasil: a perigosa fuga de Jair Bolsonaro

Apesar de um custo cada vez mais pesado, o presidente brasileiro continua afirmando sem se preocupar que o coronavírus é uma “gripezinha” ou uma “histeria” nascida da “imaginação” da mídia.

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Editorial do jornal “Le Monde” de 18.05.2020
Não há dúvida de que algo podre no reino do Brasil, onde o presidente Jair Bolsonaro, pode afirmar sem se preocupar que o coronavírus é uma “gripezinha” ou uma “histeria” nascida da “imaginação” “mídias. Algo está apodrecido quando Bolsonaro pede às autoridades locais que retirem restrições, afirma que a epidemia “começa a desaparecer” enquanto cemitérios atravessam enterros recordes . Quando seu ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araujo, defende o “comunavírus”, alegando que a pandemia é o resultado de uma conspiração comunista. Quando o ministro da Saúde, Nelson Teich, renunciou em 15 de maio, quatro semanas após sua nomeação para esse portfólio crucial, por “diferenças de opinião”, no dia em que o país alcançou 240.000 casos confirmados e mais de 16.000 mortos.
Para muitos, as horas sombrias no Brasil, hoje a quinta nação mais afetada pela pandemia, são remanescentes às da ditadura militar de 1964, quando o país foi submetido ao medo e à arbitrariedade. Com uma diferença significativa: enquanto os generais reivindicavam a defesa de uma democracia atacada, segundo eles, pelo comunismo, o Brasil de Bolsonaro habita um mundo paralelo, um teatro do absurdo onde fatos e realidade não existem Mais. Nesse universo tenso, nutrido por calúnias, inconsistências e provocações mortais, a opinião é polarizada em uma nuvem de idéias simples, mas falsas.
A negação mantida pelo governo Bolsonaro dissuade metade da população de que não é preciso se isolar, enquanto os pedidos de distanciamento físico lançados por profissionais de saúde, governadores e prefeitos são apenas moderadamente acompanhados. A atividade econômica deve continuar a todo custo, disse Bolsonaro, que está lutando acima de tudo para medir a pandemia enquanto faz um cálculo político insano: ele espera que os efeitos devastadores da crise sejam atribuídos aos seus oponentes.
Caos sanitário
Um oficial subalterno expulso do exército e um obscuro deputado de extrema-direita, zombado de seus pares por três décadas, Bolsonaro não era um estadista. Chegando ao poder, devorado pela amargura e pela nostalgia marrom, o ex-capitão da reserva continuou acusando o odiado “sistema”. Postura que, durante uma pandemia aguda, causa caos na saúde e semeia a morte.
Traindo os fatos, os governantes populistas acabam acreditando em suas próprias mentiras. Vemos isso em outras partes do mundo. Mas aqui, neste país que surgiu há apenas vinte e cinco anos da ditadura, onde a democracia permanece frágil e até disfuncional, o fato de politizar dessa maneira uma crise de saúde excessiva é totalmente irresponsável.
Com uma base de 25% dos eleitores, Bolsonaro sabe que sua margem de manobra é estreita. Hoje, algumas pessoas evocam o cenário de um golpe institucional. Diante da multidão que veio apoiá-lo em Brasília, o presidente deixou claro em 3 de maio que se o Supremo Tribunal Federal investigasse ele ou seus parentes, ele não respeitaria a decisão dos juízes. Depois de praticar a negação histórica do Holocausto, elogiando a ditadura, negando a existência dos incêndios na Amazônia e a gravidade da pandemia de COVID-19, Bolsonaro e sua tentação autoritária correm o risco de levar o país a uma perigosa corrida adiante.
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Este editorial do jornal “Le Monde” foi originalmente publicado em francês [Aqui!].

O Brasil se tornou o novo hotspot do coronavírus, e Jair Bolsonaro falha como gerente de crise

O presidente brasileiro minimizou o coronavírus por um longo tempo. Agora, o número de infecções está aumentando – e o  Brasil ainda está longe do auge da crise.

bolso deutschJair Bolsonaro:  As ações descontroladas do presidente brasileiro exacerbam a crise. (Foto: AFP)

Por Alexander Busch para o

A crise da coroa chegou tarde ao Brasil – mas o vírus agora está se espalhando cada vez mais rápido: a Amazônia ultrapassou Espanha e Itália no número de pessoas infectadas. Atualmente, 15.000 novas infecções estão sendo adicionadas todos os dias. Apenas dois meses atrás, a primeira morte após uma infecção pelo coronavírus foi registrada no Brasil.

Agora, 816 pessoas morreram em 24 horas. O estado de São Paulo superou a China no número de mortes por coronavírus : no estado mais populoso do Brasil, com mais de 46 milhões de habitantes, 4.688 pessoas morreram por causa do coronavírus, enquanto que na China há uma 1,4 bilhões de habitantes, e morreram 4637 pessoas.

Em muitas grandes cidades do Brasil, os hospitais públicos já estão completamente sobrecarregados. Isto é especialmente verdade para a região amazônica, alguns estados do nordeste, e nas grandes cidades dos estados do Rio de Janeiro e São Paulo.

No entanto, tudo aponta para o fato de que a crise do coronavírus no Brasil ganhará significativamente mais drama. De acordo com uma previsão do Instituto de Métricas e Avaliação em Saúde (IHME) nos Estados Unidos, o Brasil pode registrar cerca de 90.000 mortes no início de agosto. Os cientistas estão atualmente prevendo que 1.000 pessoas morrerão todos os dias a partir de meados de junho.

No entanto, o número crescente de mortes sugere que o cenário dos pesquisadores dos EUA poderia ser alcançado muito mais cedo – provavelmente em alguns dias. O IHME fornece o número máximo de fatalidades possível para o Brasil em 19 semanas, com 194.000 casos. 11.000 pessoas infectadas precisariam de leitos hospitalares para receberem terapia intensiva. O Brasil, no entanto, possui apenas 4.000 deste tipo de unidade hospitalar.

Uma das razões para a rápida disseminação do vírus é o gerenciamento caótico de crises do governo do presidente Jair Bolsonaro. O ex-militar de 65 anos está falhando descaradamente como chefe de Estado e gerente de crise.

Brasil relata mais infecções por vírus do que Itália e Espanha

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Em meio ao pânico crescente,  Jair Bolsonaro demitiu o Ministro da Saúde pela segunda vez em pouco tempo na última sexta-feira. O primeiro ministro da saúde havia se tornado popular demais com seu gerenciamento da crise do coronavírus. O segundo ministro foi liberado depois de apenas um mês por se recusar a usar a cloroquina como droga, que Bolsonaro quer aplicar sem nenhuma base científica.

Mas a oposição de Bolsonaro às políticas de confinamento é decisiva para o crescente número de infecções. Bolsonaro minimizou a pandemia como uma simples gripe por um longo tempo, e se opôs desde o início a que os brasileiros ficassem em casa. Mesmo agora, ele pede todos os dias que os brasileiros que voltem ao trabalho.

Salões de beleza e academias de esportes também devem abrir novamente, embora o número de pessoas infectadas esteja aumentando rapidamente. “Todo mundo tem que voltar ao trabalho. Se você não quer trabalhar, fique em casa, caramba!”,  Jair Bolsonaro disse logo após o pedido de demissão de Nelson Teich.

O presidente Jair Bolsonaro não esconde o fato de que ele se preocupa principalmente com sua sobrevivência política. Ele teme que, com a previsível recessão severa, seus índices de popularidade caiam. E assim ele tenta transferir a responsabilidade pelas conseqüências econômicas  da pandemia para os governadores e prefeitos. ” A mídia está tentando me culpar pela miséria econômica”, diz ele. “Mas não tenho nada a ver com isso. Eu não sou um coveiro. “

Os pedidos de impeachment estão aumentando

Mas a Supremo Tribunal Federal (STF) concedeu aos estados e prefeituras semanas atrás o direito de agir autonomamente em suas estratégias contra a pandemia. Desde então, Bolsonaro também atacou os ministros do STF.

Bolsonaro continua a manter seus seguidores felizes nas mídias sociais: eles são os evangélicos, parte do empreendedorismo, brasileiros populistas de direita, e grande parte das forças armadas. Bolsonaro agora só pode contar com esses apoiadores. Seus índices de popularidade estão diminuindo, mais de um quarto a quase um terço dos brasileiros ainda estão apoiando o populista de direita.

Até agora, não parece incomodar seus apoiadores que Bolsonaro, com seus ataques cada vez mais estridentes contra quem discorde dele, esteja prejudicando a gestão da crise causada pelo coronavírus. Em vez de debater as melhores estratégias contra a pandemia, os políticos agora estão pedindo processos de impeachment contra o presidente brasileiro. É por isso que muitos dos apoiadores de Bolsonaro estão exigindo que ele suspenda os direitos fundamentais, feche o Congresso Nacional e o STF, e estabeleça um regime autoritário.

A situação dos brasileiros não parece importar para Bolsonaro. Quando foi confrontado com o fato de o Brasil já ter ultrapassado a China no número de mortes por  coronavírus, ele gritou para os repórteres: “Desculpe, eu sou Messias, mas posso não fazer milagres.

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Este artigo foi publicado originalmente em alemão pelo jornal especializado na área de negócios Handelsblatt [Aqui!].

 A COVID-19 e a desigualdade social em Campos dos Goytacazes (RJ)

Antes da pandemia do novo coronavírus, a população do município sofre com falta de investimento em assistência social

campos erica almeidaO contexto crescente de regressão dos direitos e de cortes nos gastos sociais colocou novamente em condição de extrema pobreza uma parcela significativa da população – Pablo Vergara

Por Érica T. Vieira de Almeida* para o Jornal Brasil de Fato

O contexto de pandemia da covid-19 vem demandando a articulação das diversas organizações nacionais e internacionais, de natureza governamental e não-governamental, no sentido de reunir esforços tanto no campo da pesquisa quanto das práticas necessárias à prevenção, contenção e enfrentamento desta epidemia. De contágio mais tardio, o Brasil ganhou um pouco mais de tempo para se organizar e planejar as ações de contenção, em meio a uma conjuntura de tensões e desentendimentos na sociedade e, principalmente, no interior do executivo federal.

Representando teses e interesses distintos, os últimos dois ministros da Saúde e o presidente da República, em um contexto de agravamento da crise econômica e sanitária, defenderam publicamente, medidas e agendas distintas, que culminaram com a demissão de Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, abrindo espaço para as teses do Planalto no que se refere ao relaxamento das medidas de isolamento social, dentre outras.

Também, tardiamente, foi a resposta do Governo Federal com relação às medidas de proteção social às parcelas mais vulneráveis da classe trabalhadora, em virtude da combinação perversa de duas crises: a crise econômica que se instala a partir de 2015 e que, em grande medida, tem influência da crise política que se arrasta desde 2016, e a crise sanitária.

Embora o “auxílio emergencial” seja uma medida importante, tem um efeito tímido diante dos desafios colocados pelo contexto atual e está longe de atender às necessidades das famílias em situação de vulnerabilidade social, considerando: o contexto de desemprego e de precarização crescentes experimentado pelo país desde 2015; as políticas de desregulamentação e de flexibilização do trabalho e  o avanço da desproteção social, haja vista o desmonte dos direitos sociais com a aprovação dos Projetos de Emenda Constitucional, como as PECs do Teto dos Gastos e das reformas Trabalhista e Previdência aprovadas recentemente; para não falar da redução drástica nos Orçamentos da Educação, da Saúde e da Assistência Social.

Duramente criticada pelas suas limitações e assimetrias, o que não é inverdade, a Política de Seguridade Social, incluída na CF de 1988, e que abrange a Saúde, a Previdência Social e Assistência Social, representa um patrimônio dos brasileiros no que se refere a sua proteção social e, em especial, dos segmentos mais vulneráveis e, não por acaso, vem sendo alvo das críticas dos neoliberais e do seu projeto de mercantilização dos direitos socais e de privatização dos bens e serviços públicos.

Cresce a desigualdade

Esse contexto crescente de regressão dos direitos e de cortes nos gastos sociais, em especial na Política de Seguridade Social, colocou novamente em condição de extrema pobreza uma parcela significativa da população. E mais, o país voltou a ocupar o Mapa da Fome, em 2017, em função do crescimento do segmento daqueles que viviam na extrema pobreza. Em 2018, foram 13,5 milhões de pessoas com renda mensal per capita inferior a R$ 145 por dia, segundo dados da Síntese de Indicadores Sociais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (PNAD/IBGE).

Também não era para menos, o desemprego continuou crescendo, mesmo após o golpe de 2016 e de todas as contrarreformas neoliberais, chegando em março de 2020 com uma taxa de 12,2% e 40% de trabalhadores informais, isto é, mais de 40 milhões de trabalhadores em condições de precarização e de desproteção social. Em condição similar, cresceu, também, o segmento do trabalho por conta própria, o empreendedorismo precarizado e desprotegido, ocupando 24 milhões de pessoas.

O índice de Gini, que mede a desigualdade social, voltou a crescer depois de alcançar o seu menor índice em 2015, com 0,49. Segundo o IBGE, no ano de 2019, o índice de Gini no Brasil atingiu 0,62, o mais alto desde o ano de 1990. Embora crônica, em função de um conjunto de fatores, a desigualdade brasileira não tem pautado a agenda pública, ou quando isso acontece, é sempre de modo parcial e fragmentado, sem a sua devida associação com o modelo econômico pautado nos Grandes Investimentos (GI), voltados para a exportação de commodities minerais e agrícolas, que além de não promoverem a distribuição da riqueza, vem penalizando o ambiente e os grupo sociais mais impactos.

Mesmo com limites na sua cobertura, abrangência e articulação, o Programa Bolsa Família (PBF) conseguiu garantir, ainda que minimamente, a reprodução social das famílias mais empobrecidas, permitindo às mesmas alguns direitos fundamentais negados pelas relações de mercado. Em 2015, ainda no governo de Dilma Roussef, o PBF atingia quase 14 milhões de famílias. Entre abril e maio deste ano, foram beneficiadas cerca de 14,27 milhões de famílias. No entanto, chama atenção o número de desligamentos realizados do segundo semestre de 2019 até hoje, sem nenhuma notificação: mais de 1 milhão de pessoas. Além dessas, mais 1 milhão de pessoas aguardam serem incluídas no Programa, desde o início da gestão de Bolsonaro.

Ora, se o contexto atual já indicava um cenário crescente de dificuldades e de tensões em função da persistência da desigualdade social, como nos apontam as pesquisas recentes, a disseminação da covid-19 em todo território nacional não pode ser vista apenas como uma crise sanitária: ela é muito mais do que isso se considerarmos o cotidiano de negação e/ou de insuficiência dos direitos fundamentais para a grande maioria dos brasileiros, dentre eles, o direito ao saneamento básico e à água potável, à segurança alimentar, à renda e à saúde.A pobreza em Campos dos Goytacazes (RJ)

Nesse sentido, a atual pandemia nos desafia a todos, Estado e Sociedade, na articulação de esforços e saberes no seu enfrentamento e no tratamento digno a todos e todas, independente da sua classe social, gênero, cor/etnia, orientação sexual ou religião, o que, lamentavelmente, não vem acontecendo. Inúmeros artigos têm chamado a nossa atenção para os altos índices de mortalidade entre os negros e a porção mais pobre da população.

Segundo pesquisa realizada com os beneficiários do Programa Bolsa Família em Campos dos Goytacazes (RJ) e que dá sustentação a esta reflexão, as mulheres foram apontadas como responsáveis por 97% dos domicílios que recebem o Programa de Transferência de Renda Bolsa Família. Tal fato pode ser explicado pelo aumento dos arranjos “monoparentais” femininos entre as famílias mais pobres, já que 49% dos responsáveis pelo domicílio responderam que não possuem companheiros para dividirem as responsabilidades com a reprodução social do grupo familiar, confirmando o crescimento dos arranjos “monoparentais” femininos e do esgarçamento dos vínculos afetivos por inúmeros motivos, dentre eles, a violência doméstica, resultado de um conjunto de fatores no qual o desemprego e a precarização das relações de trabalho ganham centralidade.

Opinião | Coronavírus evidencia má gestão dos recursos públicos em Campos (RJ)

Entre os responsáveis jovens, com idade entre 18 e 29 anos, o percentual daqueles que não têm companheiro(a) é de 44,32%, quase todos, são meninas que contam apenas com o apoio de suas mães, reproduzindo os arranjos “monoparentais” femininos, ou seja, mães e filhos, reduzindo, ainda mais, as estratégias de sobrevivências e a inserção no mercado de trabalho formal. Não é por acaso que 64% delas não estavam trabalhando. Os motivos apresentados são velhos conhecidos: problemas de saúde, porque não encontram trabalho e porque não têm onde e com quem deixar os filhos, expondo a insuficiente rede de proteção às famílias da classe que vive do trabalho e a ausência de políticas de apoio às jovens mães, que precocemente, são obrigadas a abandonar os estudos.

É preciso enfrentar o moralismo que vem contaminando esse debate e impedindo que esse segmento juvenil seja alvo de políticas públicas e, assim, não sejam obrigadas a deixarem a escola. Os altos índices de desemprego entre as mulheres adultas que deixaram de estudar em virtude da gravidez na adolescência ou em função do trabalho, revelam a inexistência e /ou insuficiência de políticas públicas em âmbito local, restando a elas, o subemprego, marcado pela intermitência, precarização dos vínculos, extensas jornadas de trabalho e menores remunerações.

Além disso, se tomarmos o público que não estava trabalhando em virtude de problemas de doença, verifica-se que 88% eram mulheres, com média de idade de 43 anos, ou seja, uma idade bem abaixo da idade prevista para acessaram a Previdência Social ou o BPC (Benefício de Prestação Continuada). Além de revelar as sequelas da superexploração do trabalho, a pesquisa confirma as poucas oportunidades oferecidas pelo mercado de trabalho local às mulheres, em especial às mulheres negras, distribuindo-se entre o emprego doméstico, a faxina e o trabalho na lavoura da cana-de-açúcar. O trabalho exaustivo sob condições desumanas faz com que as doenças apareçam precocemente. As mais citadas são diabetes, hipertensão e problemas relativos ao campo da saúde mental.

Sobre os ocupados, cabe registrar as ocupações vinculadas à construção civil, aos serviços domésticos e faxina, majoritariamente, e aos serviços gerais, ao comércio ambulante, à agricultura e à catação de recicláveis. Atividades marcadas pela precarização e informalidade. Do total dos ocupados, 62% afirmaram não ter carteira de trabalho.

Sobre os domicílios, apontaram uma média de 4,8 pessoas por domicílio, sendo 4,6 para os domicílios urbanos e cinco para os domicílios da zona rural. Como se pode observar, mesmo com a redução no que se refere ao número de filhos, ainda é bastante alta a densidade por domicílio, sobretudo em contexto de necessidade de isolamento social. A outra recomendação da OMS à prevenção à covid-19 é a higienização dos lugares, das roupas e das mão

Em 2010, segundo o Cadúnico, 43,5% dos domicílios mais pobres do município não tinham acesso à água distribuída pela rede pública e 35% dependiam de poços ou nascentes. Quanto ao esgotamento sanitário, e aqui, é preciso lembrar que a covid-19 se reproduz também nos esgotos, apenas 28% tinham acesso à rede pública, 28% possuíam fossa séptica, 35% tinham apenas fossa rudimentar e 4,2% responderam que o esgoto era despejado em valas ou a céu aberto.

É preciso verificar, no entanto, o quanto dessa situação foi modificada com a realização dos Programas Bairro Legal e Morar Feliz a partir de 2009, considerando o recorte territorial destes programas. Sabe-se que os principais problemas relativos à infraestrutura urbana estavam concentrados no subdistrito de Guarus, em 2010, reproduzindo no cenário urbano, a associação entre desigualdade no mercado de trabalho e no acesso aos bens e serviços públicos, já nomeados por Lúcio Kowarick de “espoliação urbana”. Importa ressaltar que o subdistrito de Guarus, historicamente, acolheu os milhares de trabalhadores rurais expropriados das fazendas das Usinas, nos anos de 1960 e 1970, onde construíram suas moradias e sociabilidades.

Desde a sua posse, o governo atual fez a opção política de, em pleno crescimento do desemprego e do trabalho precário, encerrar o Programa Municipal de Transferência de Renda. Justificando a presença do clientelismo político no Programa, o governo atual pôs fim a um programa com mais de duas décadas de existência e que atravessou diferentes governos pela sua função protetiva às famílias mais vulneráveis, sobretudo em momentos de desemprego no país e na região. Em contrapartida, encontramos um espaço público cada vez mais privatizado, menos democrático e menos representativo do ponto de vista dos interesses dos diferentes segmentos que compõem a sociedade local, demonstrando uma profunda assimetria no acesso dos “de baixo” aos recursos do orçamento público.

O fechamento do restaurante popular e o encerramento do Programa Local de Transferência de Renda, ao mesmo tempo, contribuíram significativamente para agravar o problema da insegurança alimentar, atingindo em cheio a população em situação de rua e outros grupos de trabalhadores mais vulneráveis, além dos estudantes oriundos da zona rural e das áreas mais afastadas do Centro. Cabe ressaltar que no início do governo atual, o preço da passagem urbana e intermunicipal subiu de R$ 1 para R$ 2, 75, um aumento de quase três vezes.

Como se não bastassem as medidas acima, o governo local que anunciou o apoio ao empreendedorismo individual, se negou a contratar as quatro cooperativas de catadores de recicláveis para operarem a coleta seletiva de porta em porta, priorizando o contrato com a empresa concessionária. E mais, restringiu drasticamente a coleta seletiva nos domicílios, diminuindo o rendimento das cooperativas, antes mesmo da pandemia, e colocando-as em situação de extrema vulnerabilidade para o enfrentamento da covid-19.

Por último, mas nem por isso menos importante, é preciso construir uma nova dinâmica de trabalho e de atenção social nos equipamentos da Assistência Social durante a pandemia, sem negligenciar as ações de proteção aos trabalhadores do Sistema Único de Assistência Social (SUAS). É essencial que o Conselho Municipal de Assistência Social (CMAS) coordene esse debate que deverá contar com a participação também de outros importantes interlocutores de modo a ampliar a perspectiva e a cobertura das ações de prevenção e de proteção da Assistência Social. A ausência de participação popular na construção das políticas públicas, tão característica, não pode ser a regra na construção desta agenda pública de enfrentamento à pandemia. Só ela é capaz de fazer frente aos interesses corporativos e clientelistas que penalizam a grande maioria da população.

*Érica T. Vieira de Almeida é assistente social, doutora em Serviço Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e professora associada da Universidade Federal Fluminense (UFF/Campos).

Edição: Mariana Pitasse

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Este artigo foi originalmente publicado pelo jornal “Brasil de Fato” [Aqui!].

Greenpeace viabiliza ajuda emergencial para populações indígenas na Amazônia

Através do projeto Asas da Emergência, organização transporta profissionais e equipamentos de saúde com o propósito de diminuir impactos da pandemia em áreas mais remotas

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Pelo menos 99 indígenas já faleceram e mais de 500 foram contaminados pela COVID-19, totalizando 40 povos atingidos, segundo dados sistematizados pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) até o último dia 15. A possibilidade de genocídio de povos indígenas, infelizmente, é real.

Diante deste cenário, o Greenpeace vem, há semanas, atuando em uma ampla rede de solidariedade e apoio para levar ajuda emergencial a territórios em que a logística é um desafio permanente para a Atenção Primária à Saúde. Através do projeto Asas da Emergência, fruto do esforço coletivo de diversas organizações, pretende-se diminuir os impactos da propagação da COVID-19 nos povos indígenas da Amazônia brasileira.

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“Estamos disponibilizando nosso avião, nossa estrutura e equipes de diversas áreas para que médicos, enfermeiros e equipamentos essenciais de saúde possam chegar a essas populações que estão ainda mais vulneráveis diante desta pandemia. De cilindros de oxigênio a álcool em gel e sabão, tudo é válido. Uma pandemia exige solidariedade e nos estimula a expandir nosso senso de humanidade. Nós não vamos soltar as mãos dos povos indígenas e de nossos parceiros em um dos momentos mais desafiadores da atualidade. Estamos juntos, nessa imensa rede de apoio”, explica Carol Marçal, da campanha Amazônia do Greenpeace.

Os primeiros voos do projeto Asas da Emergência, realizados nos dias 8 e 9 de maio, foram para São Gabriel da Cachoeira (AM), considerada a cidade mais indígena do Brasil, com 90% de sua população de 45 mil habitantes composta por mais de vinte povos indígenas. Localizado a 852 km de Manaus, o município não tem leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) e encontra-se em “lockdown” desde o dia 8 de maio, devido ao reconhecimento do colapso do seu sistema de saúde.

Para este município, o avião do Greenpeace transportou 9 profissionais de saúde que atuam no Distrito Sanitário Especial de Saúde Indígena (Dsei) do Alto Rio Negro e materiais hospitalares, como concentradores de oxigênio, testes para COVID-19 e kits de Equipamentos de Proteção Individuais (EPIs). No dia 15 de maio, o projeto voltou para São Gabriel da Cachoeira, levando kits de higiene e, em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA), outros insumos hospitalares, máquinas de costura e tecidos para a confecção de máscaras.

O Asas da Emergência também realizou um voo no dia 12 de maio para a cidade de Jacareacanga, no Pará, região onde vive o povo Munduruku, com uma população estimada em cerca de 13 mil indígenas. “Estivemos ao lado dos Munduruku na luta contra a hidrelétrica e continuaremos ao seu lado neste momento difícil de luta contra a COVID-19”, afirma Carol.

O Greenpeace doou e transportou para o Dsei Tapajós insumos básicos para os agentes de saúde que atuam na linha de frente contra o coronavírus: 400 máscaras cirúrgicas SH-NK11 e 2.000 pares de luvas cirúrgicas. Após um cuidadoso processo de descontaminação, feito em duas etapas, seguindo os padrões do Dsei, também foram encaminhadas 30 caixas de sabão e 5.000 máscaras de tecido, confeccionadas por ativistas e contratados da própria organização, para as aldeias próximas à Jacareacanga, onde já haviam sido notificados 26 casos deCOVID-19.

Nessa nova frente de atuação, nossa iniciativa se articula com a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) e com suas organizações de base, como a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), além de outras instituições e autoridades de saúde envolvidas no auxílio emergencial aos territórios indígenas, especialmente no estado do Amazonas. Outras ações estão sendo planejadas, reforçando este esforço coletivo de solidariedade aos povos indígenas.

Cabe ressaltar que todas as nossas ações têm seguido os mais rigorosos preceitos de segurança sanitária, que passam por diferentes etapas: descontaminação do avião e dos materiais que serão transportados; utilização de todos os equipamentos de proteção individual necessários; e não entrada em territórios indígenas.

Para além da atuação neste projeto Asas da Emergência, o Greenpeace continua denunciando o aumento do desmatamento e das invasões nas terras indígenas, além das outras violações aos direitos desses povos. Num cenário mundial de pandemia e emergência climática, seguimos firmes com nossa missão de defender a floresta, seus Guardiões e a vida no planeta.

Assessoria de Imprensa Greenpeace Brasil

Lockdown, pandemia, desemprego, e extermínio das políticas sociais criam uma mistura explosiva na terra dos Goytacazes

Arquivos Rafael Diniz - Cidadania23Rafael Diniz se elegeu com a promessa de aprimorar as políticas sociais, mas após sentar na cadeira de prefeito, o que se viu foi o massacre da rede de segurança social herdada de outros governos

Estamos a pouco mais de 7 horas do início do lockdown em versão light determinado pelo jovem prefeito Rafael Diniz para conter o avanço da pandemia da COVID-19.  Ainda que eu tenha a sensação de que a adoção de uma versão mais estrita de confinamento social poderia ter sido evitada se Rafael Diniz tivesse se articulado com o governo do estado para implementar as medidas anteriores, agora vejo o lockdown como uma via praticamente inevitável. É que não há outra caminho para evitar o colapso da rede pública de saúde, em uma cidade em que os hospitais privados não estão nem próximos de suprir a demanda que ocorrerá caso mantenhamos os níveis atuais de crescimento do processo de infecção pelo coronavírus.

Esse lockdown, entretanto, aprofundará as dificuldades que muitos pequenos comerciantes já enfrentam em face do período prolongado de confinamento, onde o fechamento de estabelecimentos pune exatamente aqueles segmentos menos capitalizados e, consequentemente, com menos gordura para suportar a situação recessiva que está posta.

Mas feitas as observações acima, eu sou obrigado a notar que a crise social que fincou raízes em Campos dos Goytacazes tem um aspecto ainda mais crítico do que comerciantes em dificuldades. É que segundo artigo publicado pelo site “Campos 24 horas”, cerca de 128 mil campistas serão beneficiadas pelos repasses do auxílio de R$ 600,00 ou R$ 1.200,00  que foi aprovado pelo congresso nacional para minimizar a crise econômica causada pela pandemia da COVID-19. Esse é um número incrível, pois segundo o que o economista Ranulfo Vidigal afirmou em seu perfil na rede social Facebook, o número de empregados antes da erupção da pandemia era de 130 mil pessoas.  Em outras palavras, praticamente equivalentes, o que é muito revelador do tamanho da crise que temos pela frente em um município que durante de mais de duas décadas esteve entre os maiores orçamentos da América Latina.

O problema é que rotineiramente as análises que são feitas acerca das raízes dessa crise omitem um dado fundamental, que foi a decisão do jovem prefeito Rafael Diniz de extirpar os pobres do orçamento municipal, enquanto cifras bilionárias eram gastas em Saúde e Educação, sem que se visse qualquer melhoria na qualidade dos serviços prestados à maioria pobre da população. Somente na área da Saúde Rafael Diniz dispendeu uma quantia acima de R$ 2 bilhões em três anos de seu governo. Mas o que se vê agora é que nossa rede pública de saúde está totalmente despreparada para enfrentar uma pandemia que estava mais do que anunciada. Restou agora a Rafael Diniz decretar o lockdown, mas sem dar as devidas explicações como uma rede de saúde tão cara não está dando conta de atender a população.

Execução orçamentária do segmento da saúde no município de Campos dos Goytacazes (RJ), comparando os três primeiros anos dos prefeitos Arnaldo Vianna, Alexandre Mocaiber, Rosinha Garotinho e Rafael Diniz. Fonte: Blog do José Alves Neto

Outro detalhe que não há como deixar de fora desse cenário de crise é que somente com o programa “Cheque Cidadão” ,  em 2014 o governo municipal chegou a atender 20 mil famílias (algo em torno de 80 mil pessoas). Esse número foi reduzido a pó logo no início do governo Rafael Diniz, e nunca mais foi retomado, com as alegações conhecidas de que vivíamos uma crise econômica sem precedentes na história do município.  O fato é que ao acabar com o Cheque Cidadão, Rafael Diniz ajudou a exterminar centenas de empregos, especialmente nas áreas mais periféricas do município (mas não apenas lá como bem demonstram as centenas de lojas fechadas no centro histórico de Campos), contribuindo assim para aumentar o estoque de pessoas que ficaram sem fonte de renda. Por isso, não chega ser surpreendente que o número de pessoas elegíveis para o auxílio emergencial do governo federal seja próximo dos que foram abandonados pelo extermínio das políticas sociais que foi promovido por Rafael Diniz e seus menudos neoliberais.

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Mesmo com profunda crise social e econômica, desmanche das ...

Se incluirmos o fechamento do Restaurante Popular, o fim da passagem de transporte social e o congelamento do programa “Morar Feliz”,  o peso da pandemia na crise colossal que o município vive neste momento será, no mínimo, relativizado.  E lembremos que existe uma grande probabilidade de que a imensa maioria dos que estão morrendo por causa da COVID-19 seja oriunda da mesma faixa da população que foi abandonada ao Deus dará pelo extermínio das políticas sociais promovido por Rafael Diniz e seus menudos neoliberais.

Crise financeira

Assim, qualquer resgate da saúde econômica de Campos dos Goytacazes após a passagem da pandemia terá que passar por uma profunda reanálise da eficiência da retirada dos pobres do orçamento municipal.  É que por tudo o que se viu nesses quase 3,5 anos de governo de Rafael Diniz, não apenas se continuou a gastar fortunas sem o devido retorno da qualidade dos serviços prestados à população, como houve um aumento drástico do número de desempregados e cidadãos dependendo de bicos para sobreviver.  

Finalmente, gostemos ou não, o aprofundamento do isolamento social é ainda a medida mais eficaz para determos a expansão do processo de contaminação pelo coronavírus, de forma a garantir que não haja o colapso da rede pública de saúde. Mas que depois da pandemia, nos coloquemos a responsabilidade de realizar o devido debate sobre o tipo de cidade que precisamos para que a maioria dos nossos concidadãos possam viver com a dignidade que merecem.