Circulando entrevista concedida em Lisboa ao jornal “Diário de Notícias”

Hoje (11/01) foi publicada uma longa entrevista que concedi à jornalista Filomena Naves do jornal português “Diário de Notícias” onde foram abordadas várias questões relacionadas à situação da Amazônia e da ciência brasileira sob a batuta de Jair Bolsonaro e seus ministros, digamos, portadores de opiniões excêntricas sobre várias questões, a começar pelo tema das mudanças climáticas e pela necessidade de controlar o desmatamento que vem crescendo de forma acelerada na maior porção de floresta tropical do planeta.

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Quem desejar ler a íntegra desta entrevista, basta clicar [Aqui!]

Ao atacar Marcos Pontes, Silas Malafaia dá testemunho de porque ciência e religião devem ficar sob os cuidados de quem entende

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A imagem acima mostra a Xilogravura de Flammarion, que é assim chamada porque a sua primeira aparição foi documentada em 1888 no livro L’atmosfera: météorologie populaire (“A Atmosfera: Meteorologia Popular”), de autoria de Camille Flammarion. Ela mostra um homem medieval com seu bastão, vestido como um peregrino, que olha para o céu como se estivesse encoberto por uma cortina, ele olha como se quisesse conhecer o outro lado da Terra, o que está oculto, o que há além do próprio planeta Terra.

Uma das poucas declarações lúcidas pronunciadas por um membro do governo Bolsonaro foi dada pelo ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, que rebateu as declarações da ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, de que “que a igreja evangélica perdeu espaço na História ao “deixar” a Teoria da Evolução entrar nas escolas sem ser questionada.” [1]. Fontes, enquanto o responsável pelas questões relacionadas à ciência e tecnologia do governo Bolsonaro, rebateu de forma educada dizendo algo que deveria ser senso comum entre qualquer cidadão do Século XXI ao afirmar que “… do ponto de vista da ciência, são muitas décadas de estudo para formar a Teoria da Evolução desde o início. Ou seja, não se deve misturar ciência com religião.”

Essa declaração do ministro da Ciência e Tecnologia que nada tem de extraordinária causou um posicionamento do Pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo   e apoiador de primeira hora da candidatura de Jair Bolsonaro, que usou sua página oficial na rede social Twitter para tentar ensinar a Marcos Fontes a diferença entre “lei” e “teoria” para, em seguida, questionar a validade da Teoria da Evolução de Charles Darwin (ver imagem abaixo) [2].

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Uma nota inicial é que por cerca de 17 anos fui o encarregado de ministrar a disciplina “Fundamentos da Metodologia da Pesquisa” no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da Universidade Estadual do Norte Fluminense.  E a enunciação das principais diferenças entre “leis”, “teorias”, “hipóteses”, “conceitos” e variáveis” era uma dos primeiros conteúdos que apresentava aos participantes da referida disciplina. A razão para isso era e é bem simples: a maioria dos leigos em ciência não sabem diferenciar uma coisa da outra, o que contribui para a criação de graves distorções na produção de conhecimento científico. É que quem não sabe o básico do básico em termos de formação do conhecimento científico, não terá como produzir ciência.

Por isso ao ler o tweet do Pastor Silas Malafaia me dividi entre um momento de pasmo e outro de dúvida. O pasmo ficou por conta da ação de um pastor tentando ensinar ciência ao ministro da Ciência e Tecnologia. Já a dúvida ficou por conta do quão certo ou errado o Pastor Silas Malafaia em questionar a “verdade” da Teoria da Evolução ao colocá-la num plano inferior ao ocupado pelas leis da ciência.  E, pior, se o Pastor Silas Malafaia estivesse certo, eu teria que procurar todos os participantes das 17 edições que participaram da disciplina “Fundamentos da Metodologia da Pesquisa” que ofereci na Uenf.

Felizmente hoje existem as chamadas ferramentas de busca na internet, e fiz o que toda pessoa deveria fazer antes de escrever sobre algo que não entende, no caso do Pastor Silas Malafaia, ciência.  

Uma busca rápida com os termos “leis”, “teoria” e “ciência” no Google ofereceu “apenas” 26 milhões de links para serem acessados. Se o Pastor Silas Malafaia tivesse tido a curiosidade de acessar pelo menos um desses 26 milhões de links, ele provavelmente não teria tentando desacreditar a Teoria da Evolução da forma tão tosca quanto tentou.

É que, colocando em miúdos, teorias e leis não estão em condições hierárquicas disparatadas como Malafaia tentou dar a entender.  É que leis e teorias científicas apenas tratam de elementos distintos de construção do conhecimento dito científico, sendo o principal deles o fato de que “enquanto as teorias científicas explicam fenômenos da natureza, as leis são descrições generalistas desses fenômenos.” [3].  

E mais importante: teorias científicas são construídas inicialmente como um modelo ideal da realidade, mas só “sobrevivem” se resistirem a seguidos testes relativos à sua validade e replicabilidade.  Além disso, dado que a ciência assume a possibilidade de aperfeiçoamento mediante à eliminação de erros, teorias podem ser aperfeiçoadas ao longo do tempo ou, simplesmente, serem abandonadas por serem refutadas por outras teorias com maior capacidade de explicação sobre um dado fenômeno.

E quando se fala da Teoria da Evolução, pode-se até não gostar da explicação que ela oferece sobre o processo que origina e afeta a dinâmica evolutiva das espécies que vivem na Terra. Entretanto, a Teoria da Evolução já sobreviveu a basicamente todos os testes concernentes à sua validade e sua aplicação universal. Isso não quer dizer que outra teoria não possa competir por uma explicação melhor. Entretanto, não há como disputar boa parte dos seus postulados teóricos, pois os mesmos já foram extensamente demonstrados empiricamente.  E aí é que mora o maior perigo para leigos que tentem adentrar o domínio da ciência. É que a boa ciência deve resistir tanto à testes teóricos como empíricos, não havendo espaço para o sobrenatural nesse tipo de verficação.

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Charles Darwin (1809-1882), naturalista britânico que convenceu a comunidade científica da ocorrência da evolução e propor uma teoria para explicar como ela se dá por meio da seleção natural e sexual.

Assim, o que parece ficar demonstrado neste ataque de Silas Malafaia a  Marcos Pontes é que parece ser mais prudente que o pastor se atenha à religião e o ministro à questão da ciência. Se ambos fizerem isso, é possível que o produto final seja melhor para ambos. E, principalmente, ninguém passará vergonha por falar do que não entende.

Por fim, aos que se interessarem em conhecer mais sobre o processo de formação e evolução da ciência moderna, sugiro a leitura do livro “A Ciência e a Filosofia dos Modernos” do filósofo italiano Paolo Rossi (atenção para o fato de que não é o mesmo Paolo Rossi, o centroavante que destroçou as esperanças brasileiras no Estádio de Sarriá na Copa do Mundo de 1982!) [4]. Considero esse livro excelente para que se entenda os fundamentos da ciência moderna e sempre recorro a ele quando tenha dúvidas sobre o assunto.

Ciência sob ataque no Brasil: um problema que vai muito além das excentricidades de alguns personagens

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Para a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, a “Igreja Evangélica “perdeu espaço” na história e na ciência quando “deixou” a teoria da evolução “entrar nas escolas”

Se observarmos alguns dos principais personagens que formam a equipe ministerial do presidente Jair Bolsonaro notaremos uma evidente tendência a colocar em dúvida muitos elementos já exaustivamente debatidos e investigados pela ciência.

O mais exemplo disso foi o vídeo em que o selfmade man e guru ideológico de Jair Bolsonaro, o duble de filósofo e astrólogo autodidata Olavo de Carvalho, que postou vídeo questionando o heliocentrismo, um fato que já foi demonstrado em diferentes períodos da história da ciência por Galileu Galilei e Albert Einstein [1].

Mas enquanto Olavo de Carvalho emana suas posições anti-ciência do conforto desde Richmond na Virgínia (costa leste dos EUA), dentro do governo Bolsonaro foram postados vários de seus seguidores em posições chaves, a começar pelo Ministério das Relações Exteriores e também no de Educação e Cultura.

Entretanto, mesmo se inexistisse a influência olavista na equipe de governo de Jair Bolsonaro, outras figuras têm usado seus cargos para expressar posições que ou questionam as explicações científicas ou colocam em xeque o simples direito de os brasileiros terem acesso a evidências científicas para formar sua opinião.

Dois exemplos disso são o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que tem colocado em questão a prioridade das mudanças climáticas no tratamento das questões pertinentes à sua pasta [2]. Isto, inclusive, clama a pergunta sobre o que fará o ministro do Meio Ambiente se não vai tratar as mudanças climáticas como um elemento prioritário. Outra que vem se destacando é a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, que acaba de ser pega em um vídeo onde apontava a entrada da ciência nas salas de aula como uma derrota para a religião (o que, convenhamos, não deixa de ser verdade) [3].

É importante que se diga que estas declarações anti-ciência não são meras “excentricidades” de pessoas peculiares. O fato é que esse discurso aparentemente excêntrico faz parte de um projeto deliberado de desqualificar a ciência para empurrar o Brasil para formas de exploração do trabalho e das nossas riquezas naturais que não podem ser mais aplicadas nos países do capitalismo central, muito em parte ao que a ciência já verificou teórica e empiricamente.

Em outras palavras, o discurso anticiência visa viabilizar uma forma ainda mais agressiva de capitalismo no Brasil. Por isso, seria um equívoco para os cientistas não se postarem publicamente em defesa das evidências que já existem para uma ampla gama de assuntos, a começar pela questão das mudanças climáticas e do processo de degradação dos biomas florestais existentes no Brasil.

Além disso, apesar das ciências ditas humanas serem frequentemente o alvo do ataque de governos de direita, o que torna as outras ramos da ciência mais imunes a cortes de verbas e perseguições ideológicas, o atual cenário brasileiro é indicativo de que o conhecimento científico será atacado como um todo. É que não há como aplicar um pensamento acientífico sem precarizar e inviabilizar o conjunto das ciências, visto que apesar das divisões esquemáticas, o pensamento científico tende a gerar formas comuns de entender a realidade, a despeito das diferentes aplicações que possam ter em termos disciplinares.

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Galileu Galilei (1564-1642), um dos pais da ciência moderna, quase acabou na fogueira da Inquisição por seus estudos que comprovaram a tese do Heliocentrismo.

Assim, é melhor que os cientistas brasileiros adotem o caminho dos seus congêneres estadunidenses que optaram pela ação política pró-ciência desde o início do governo Trump. Essa política resultou, em outras coisas, em uma forte bancada de deputados na Câmara de Representantes. Mas mais do que isso, houve a repetida realização de marchas pela ciência que mobilizarem milhões de estadunidenses de diferentes idades nas maiores cidades dos EUA.

A verdade é que estamos de um momento crucial para a ciência brasileira, uma espécie de “dá ou desce” para os que desejam que o Brasil chegue a um patamar mais elevado não apenas em termos de sua estatura enquanto Estado-Nação, mas principalmente da possibilidade de que possamos chegar a ser um país menos desigual e menos marcado por graves injustiças sociais como somos agora.