Ao atacar Marcos Pontes, Silas Malafaia dá testemunho de porque ciência e religião devem ficar sob os cuidados de quem entende

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A imagem acima mostra a Xilogravura de Flammarion, que é assim chamada porque a sua primeira aparição foi documentada em 1888 no livro L’atmosfera: météorologie populaire (“A Atmosfera: Meteorologia Popular”), de autoria de Camille Flammarion. Ela mostra um homem medieval com seu bastão, vestido como um peregrino, que olha para o céu como se estivesse encoberto por uma cortina, ele olha como se quisesse conhecer o outro lado da Terra, o que está oculto, o que há além do próprio planeta Terra.

Uma das poucas declarações lúcidas pronunciadas por um membro do governo Bolsonaro foi dada pelo ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, que rebateu as declarações da ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, de que “que a igreja evangélica perdeu espaço na História ao “deixar” a Teoria da Evolução entrar nas escolas sem ser questionada.” [1]. Fontes, enquanto o responsável pelas questões relacionadas à ciência e tecnologia do governo Bolsonaro, rebateu de forma educada dizendo algo que deveria ser senso comum entre qualquer cidadão do Século XXI ao afirmar que “… do ponto de vista da ciência, são muitas décadas de estudo para formar a Teoria da Evolução desde o início. Ou seja, não se deve misturar ciência com religião.”

Essa declaração do ministro da Ciência e Tecnologia que nada tem de extraordinária causou um posicionamento do Pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo   e apoiador de primeira hora da candidatura de Jair Bolsonaro, que usou sua página oficial na rede social Twitter para tentar ensinar a Marcos Fontes a diferença entre “lei” e “teoria” para, em seguida, questionar a validade da Teoria da Evolução de Charles Darwin (ver imagem abaixo) [2].

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Uma nota inicial é que por cerca de 17 anos fui o encarregado de ministrar a disciplina “Fundamentos da Metodologia da Pesquisa” no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da Universidade Estadual do Norte Fluminense.  E a enunciação das principais diferenças entre “leis”, “teorias”, “hipóteses”, “conceitos” e variáveis” era uma dos primeiros conteúdos que apresentava aos participantes da referida disciplina. A razão para isso era e é bem simples: a maioria dos leigos em ciência não sabem diferenciar uma coisa da outra, o que contribui para a criação de graves distorções na produção de conhecimento científico. É que quem não sabe o básico do básico em termos de formação do conhecimento científico, não terá como produzir ciência.

Por isso ao ler o tweet do Pastor Silas Malafaia me dividi entre um momento de pasmo e outro de dúvida. O pasmo ficou por conta da ação de um pastor tentando ensinar ciência ao ministro da Ciência e Tecnologia. Já a dúvida ficou por conta do quão certo ou errado o Pastor Silas Malafaia em questionar a “verdade” da Teoria da Evolução ao colocá-la num plano inferior ao ocupado pelas leis da ciência.  E, pior, se o Pastor Silas Malafaia estivesse certo, eu teria que procurar todos os participantes das 17 edições que participaram da disciplina “Fundamentos da Metodologia da Pesquisa” que ofereci na Uenf.

Felizmente hoje existem as chamadas ferramentas de busca na internet, e fiz o que toda pessoa deveria fazer antes de escrever sobre algo que não entende, no caso do Pastor Silas Malafaia, ciência.  

Uma busca rápida com os termos “leis”, “teoria” e “ciência” no Google ofereceu “apenas” 26 milhões de links para serem acessados. Se o Pastor Silas Malafaia tivesse tido a curiosidade de acessar pelo menos um desses 26 milhões de links, ele provavelmente não teria tentando desacreditar a Teoria da Evolução da forma tão tosca quanto tentou.

É que, colocando em miúdos, teorias e leis não estão em condições hierárquicas disparatadas como Malafaia tentou dar a entender.  É que leis e teorias científicas apenas tratam de elementos distintos de construção do conhecimento dito científico, sendo o principal deles o fato de que “enquanto as teorias científicas explicam fenômenos da natureza, as leis são descrições generalistas desses fenômenos.” [3].  

E mais importante: teorias científicas são construídas inicialmente como um modelo ideal da realidade, mas só “sobrevivem” se resistirem a seguidos testes relativos à sua validade e replicabilidade.  Além disso, dado que a ciência assume a possibilidade de aperfeiçoamento mediante à eliminação de erros, teorias podem ser aperfeiçoadas ao longo do tempo ou, simplesmente, serem abandonadas por serem refutadas por outras teorias com maior capacidade de explicação sobre um dado fenômeno.

E quando se fala da Teoria da Evolução, pode-se até não gostar da explicação que ela oferece sobre o processo que origina e afeta a dinâmica evolutiva das espécies que vivem na Terra. Entretanto, a Teoria da Evolução já sobreviveu a basicamente todos os testes concernentes à sua validade e sua aplicação universal. Isso não quer dizer que outra teoria não possa competir por uma explicação melhor. Entretanto, não há como disputar boa parte dos seus postulados teóricos, pois os mesmos já foram extensamente demonstrados empiricamente.  E aí é que mora o maior perigo para leigos que tentem adentrar o domínio da ciência. É que a boa ciência deve resistir tanto à testes teóricos como empíricos, não havendo espaço para o sobrenatural nesse tipo de verficação.

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Charles Darwin (1809-1882), naturalista britânico que convenceu a comunidade científica da ocorrência da evolução e propor uma teoria para explicar como ela se dá por meio da seleção natural e sexual.

Assim, o que parece ficar demonstrado neste ataque de Silas Malafaia a  Marcos Pontes é que parece ser mais prudente que o pastor se atenha à religião e o ministro à questão da ciência. Se ambos fizerem isso, é possível que o produto final seja melhor para ambos. E, principalmente, ninguém passará vergonha por falar do que não entende.

Por fim, aos que se interessarem em conhecer mais sobre o processo de formação e evolução da ciência moderna, sugiro a leitura do livro “A Ciência e a Filosofia dos Modernos” do filósofo italiano Paolo Rossi (atenção para o fato de que não é o mesmo Paolo Rossi, o centroavante que destroçou as esperanças brasileiras no Estádio de Sarriá na Copa do Mundo de 1982!) [4]. Considero esse livro excelente para que se entenda os fundamentos da ciência moderna e sempre recorro a ele quando tenha dúvidas sobre o assunto.

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