Duas coisas certas para 2020: mais fogo e desmatamento na Amazônia e menos carne na mesa do brasileiro

boi fogo

Apesar de não ser astrólogo nem pai de santo, já me arrisco a fazer duas previsões para o ano de 2020: teremos mais fogo e desmatamento na Amazônia e menos carne na mesa dos trabalhadores brasileiros.  Esse é um paradoxo que decorre da crescente dependência da economia brasileira da exportação de commodities agrícolas, a começar pelas carnes bovina e de frango.

O fato é que dentre os diversos fatores que impulsionam o avanço do desmatamento é ampliar a gigantesca área de pastagens na Amazônia, coisa que equivale atualmente a cinco vezes o território continental de Portugal. Como o latifúndio agro-exportador tem pouca ou nenhuma disposição de investir na manutenção de pastos, a derrubada de florestas é quase que uma decorrência inercial da dependência aumentada da participação da exportação de carnes.

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Entretanto, apesar de se esperar mais animais dentro de áreas maiores de pasto, isto não vai se traduzir em nenhum alívio para os brasileiros que desejarem comer carne, seja bovina ou de frango. É que, por um lado, o governo Bolsonaro vem desinvestindo na agricultura familiar cuja produção está mais voltada para o mercado nacional e, por outra, não está nada disposto a colocar salvaguardas para garantir o abastecimento do mercado interno.

É por isso que em 2020 mais florestas serão consumidas por queimadas monumentais, enquanto o brasileiro vai ter que se contentar com uma dieta mais vegetariana. E viva o neoliberalismo do trio Jair Bolsonaro/Paulo Guedes/ Tereza Cristina que dificilmente terão de viver as mesmas agruras que a maioria da população brasileira viverá.

Em entrevista “bola levantada” no UOL, Ricardo Salles dissemina falácias e delírios sobre a catástrofe ambiental que construiu

amazonia acordo de parisEnquanto a Amazônia arde em chamas, Ricardo Salles distribui falácias e declarações delirantes

O ministro (ou seria anti-ministro) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, deu mais uma daquelas entrevistas de “bola levantada” que a mídia corporativa brasileira se acostumou a realizar ao longo do 2019 para dar tinturas democráticas aos desatinos do governo Bolsonaro.  Na entrevista assinada pelos jornalistas Luciana Amaral e Gustavo e publicada pelo site UOL, Salles ofereceu uma série de declarações falaciosas que, por causa da natureza “bola levantada” da entrevista, passaram sem a devida cobrança.

salles 10 bilhões

Ao meu ver, a principal falácia que passou batida foi a afirmação de  que o “Brasil é modelo para o mundo de conservação ambiental, pois “somos o país que tem 60% da nossa vegetação nativa mantida, e “temos 80% da Amazônia mantida“. 

Vindo do mentor do desmanche da governança ambiental que existia até janeiro de 2019, a afirmação que somos modelo de conservação não é apenas cínica, mas dotada de elementos de negação da realidade.  Como Ricardo Salles é um dos muitos negacionistas das mudanças climáticas, sua predisposição para negar a verdade não chega a ser novidade. O problema é que deixá-lo ministro enquanto avança o desmatamento da Amazônia permite que todos os saqueadores ilegais dos biomas amazônicos sigam agindo com ampla liberdade. 

fire degradationIncêndios florestais são uma importante fonte de degradação das  matas nativas da Amazônia brasileira

Outra falácia contida dentro da falácia é de que temos 80 da Amazônia mantida. Como já divulguei aqui, em artigo publicado em 2013 pelo International Journal of Remote Sensing, eu e outros pesquisadores que estudam as mudanças na cobertura vegetal da Amazônia demonstramos que uma parte semelhante à desmatada se encontrava sob diferentes níveis de degradação por causa da extração ilegal de madeira e incêndios florestais. Passados quase seis anos daquela publicação, e graças ao êxito das ações para desmanchar a governança ambiental brasileira, já posso adiantar que quando forem divulgados os números da degradação total dos biomas amazônicos, haverá outro choque de realidade, a qual abalará ainda mais a versão falaciosa que Ricardo Salles tenta impor nas entrevistas “bola levantada” que se dispõe a oferecer.

Uma declaração que beira o delírio é de que os países ricos precisam entregar US$ 10 bilhões anualmente pelo cumprimento dos termos pelos quais o Brasil aderiu ao Acordo de Paris. Vindo da pessoa que trabalhou exitosamente para enterrar o Fundo Amazônia, tal declaração já beiraria o ridículo completo. Entretanto, ao aprofundar a aposta na afronta à realidade dos dados científicos, o que Ricardo Salles termina por fazer é exponencializar o desgaste da credibilidade brasileira em fóruns multilaterais que cuidam das mudanças climáticas. E se alguém pensar que isso seria bom para a economia brasileira, pense de novo. É que uma das consequências mais objetivas do desgaste político que o Brasil já sofre será o fechado de mercados para as commodities brasileiras.  Quem pensar que a China vai absorver tudo o que, por exemplo, a União Europeia deixar de comprar, está completamente equivocado.

O mais provável é que com o avanço do desmatamento e da degradação das florestas amazônicas, as medidas que estão sendo postergadas acabem sendo implementadas. E certamente entre elas não estará a entrega de bilhões de dólares para um governo que claramente despreza o valor da conservação ambiental não apenas para o Brasil, mas para todo o planeta.

Quanto a Ricardo Salles, ele certamente vai tentar ficar no cargo fazendo o que sabe fazer melhor: distribuir falácias em entrevistas “bola levantada”, enquanto age para sucatear órgãos ambientais e desmanchar tudo o que puder do que ainda resta da governança ambiental brasileira.

Pará, estado campeão do desmatamento na Amazônia, vive desabastecimento de carne bovina

Acabei de receber o Censo Agropecuário de 2017 que foi publicado pelo IBGE e pude constatar que o estado do Pará, que lidera o desmatamento na Amazônia (ver figura abaixo) possuía naquele ano algo em torno de 17 milhões de cabeças de gado bovino, dotando aquela unidade do quinto maior rebanho do Brasil.

amazonia desmatamento

Essa farta disponibilidade de gado bovino deveria deixar o Pará de fora da crise de abastecimento de carne que hoje coloca em risco o churrasco de final de ano, certo? Errado! É que circula nas redes sociais a imagem abaixo que foi tomada do interior de um estabelecimento da Rede Líder, uma das maiores redes de supermercados do Pará, indicando as razões pela falta de carne bovina das gôndolas do estabelecimento.

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A Líder é bem explícita ao associar a “exportação do boi em pé” e da “carne in natura”  ao desabastecimento de carne em seus estabelecimentos.  O interessante é que apesar da exportação de gado em pé não ser uma coisa recente, o avanço dessa modalidade está tendo impacto suficiente no abastecimento interno.  Segundo o site AGRO EM DIA, em 2018, o Brasil exportou cerca de 700 mil cabeças de gado em pé, sendo que cerca de 65% desse total saíram do PA.

gado em péEmbarque de animais vivos em direção ao exterior

Como já realizei um extenso trabalho de campo no centro oeste para estudar a cadeia da carne, sei que em determinadas circunstâncias os pecuaristas adotam medidas extremas para garantir retorno rápido para seus investimentos, incluindo o abate excessivo de fêmeas. Essa prática é completamente irracional no médio e longo prazos, mas isso não impede que ela ocorra, sempre que se mira na renda no curto prazo. 

Em outras palavras, se já não se pode esperar muita racionalidade de um setor que possui amplas demonstrações de apego excessivo ao curto prazo, o que dizer de qualquer tipo de compromisso ou prioridade com o abastecimento do mercado interno em condições que a maioria da população comer carne.

 

 

 

A previsão sombria de Philip Fearnside para a Amazônia em 2020

PHILIP FEARNSIDEEm entrevista à revista Science, o pesquisador do Inpa, Philip Fearnside, fez previsões sombrias para a Amazônia em 2020. 

O pesquisador de origem estadunidense Philip Fearnside trabalha no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) desde 1978 e ao longo de mais de quatro décadas de pesquisa contribuiu para um amplo e compreensivo entendimento das causas das mudanças do uso da terra e da cobertura vegetal nos biomas amazônicos. Dentre de sua formidável carreira acadêmica, Fearnside publicou quase 400 artigos científicos que demonstram seu conhecimento capilarizado sobre os processos e atores que estão transformando a maior floresta tropical no mundo numa mistura de pastagens, monoculturas para exportação e terras abandonadas por incapacidade de sustentarem sequer gramíneas.

Em uma entrevista realizada pelo jornalista Herton Escobar publicada no dia 22 de Novembro pela revista Science, do alto de sua posição de grande autoridade científica, Philip Fearnside nos informa que o ano de 2020 será um ano ainda pior para os biomas amazônicos, pois ele estima que os níveis de desmatamento se sobressairão aos desastrosos números acumulados para o primeiro ano de vigência do desmanche ambiental prometida em campanha eleitoral e realizado pelo presidente Jair Bolsonaro.

Segundo Fearnside, as perspectivas para 2020 são sombrios já que os dados do PRODES para o próximo ano incluirão o desmatamento ocorrido desde agosto, que agora totaliza pelo menos 3929 km2, com base no sistema de monitoramento DETER.  Fearnside relacionou esse padrão de avanço do desmatamento ao fato de “que nada mudou no discurso da administração presidencial e o desmantelamento das instituições ambientais do país continua“. Além disso, Fearnside afirmou que as “várias estradas, barragens e outros projetos planejados na Amazônia levarão a mais desmatamentos“.

As previsões de Fearnside talvez tivessem ainda mais sombrio se, no momento da entrevista, ele soubesse do plano mirabolante do presidente Jair Bolsonaro de autorizar a exportação de toras madeiras retiradas da Amazônia. Essa predisposição de Bolsonaro é particularmente alarmante porque facilitará a comercialização de madeira extraída ilegalmente, especialmente em áreas de proteção ambiental e reservas indígenas.  Um detalhe nessa questão é que poucos países do mundo irão aceitar esse tipo de commodity dadas as fortes regulações existentes. O problema é que determinados países, um bom exemplo é a China se tornem grandes consumidores de madeira amazônica  “in natura“, pois possuem demanda aquecida em meio a padrões ambientais mais frouxos.

madeira ilegalMadeira apreendida pela Força-Tarefa Amazônia em operação feita em Ajuricaba (AM) Imagem: Divulgação 

Outro aspecto que Fearnside não teve oportunidade de apreciar é o fato de que a expansão privilegiada da fronteira do desmatamento são aquelas áreas onde processos de degradação como extração ilegal de madeira e incêndios florestais já “prepararam” grandes áreas para formas rápidas e mais baratas do corte raso da vegetação. E como a quantidade de áreas degradadas estão avançando tão rapidamente quanto as desmatadas, essa combinação poderá trazer números ainda mais expressivos de perda da floresta nativa na Amazônia.

O interessante é que o alarme soado por Fearnside está caindo em ouvidos mocos na mídia corporativa nacional.  Essa disposição de ignorar o alarme possivelmente se explica pelo alinhamento dos proprietários dos grandes veículos da mídia ao projeto de recolonização que o governo Bolsonaro está tentando impor ao Brasil.  Assim, ainda que existam notáveis exceções, a posição em relação ao desastre que está se desenvolvendo na Amazônia é de uma postura cúmplice de ignorar alarmes e manter a desinformação que está permitindo ao governo Bolsonaro desmantelar rapidamente os comandos de comando e controle que existiam até janeiro de 2019 e sepultar, sem direito a velório, as estruturas de governança ambiental estruturadas a partir da Conferência de Estocolmo de 1972.

Jair Bolsonaro e a falácia do desmatamento como traço cultural brasileiro

salles bolsonaroO presidente Jair Bolsonaro e o ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles sorriem com o sucesso do desmanche da governança ambiental na Amazônia. Mas o problema seria o traço cultural dos brasileiros

Após ter exitosamente exterminado as estruturas de comando e controle que garantiam formas básicas de governança ambiental no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro saiu pela tangente ao tentar explicar a jornalistas as razões da explosão nas taxas de desmatamento ao afirmar que “... você não vai acabar com o desmatamento, nem com queimadas, é cultural“.

bolso cultura

A primeira coisa que precisa ser dita é que se há uma cultura do desmatamento e do fogo no Brasil, a explicação para isso está fundamentalmente ligada à permanência de um padrão de alta concentração da propriedade da terra e ao aprofundamento de um modelo de forte dependência na exportação de commodities agrícolas como geradoras de reservas de moedas fortes. 

Em segundo lugar, como já está fartamente ilustrado na literatura científica, padrões culturais são ajustáveis e se transformam conforme os incentivos que ocorrem por parte de diferentes agentes societários, incluindo o Estado. O problema aqui é que o governo Bolsonaro foi montado a partir da noção de que seria preciso (e quase um direito divino) aprofundar os padrões ditados pelo latifúndio agro-exportador que é fortemente dependente do aumento da área em produção em face de sua inaptidão para fomentar ganhos significativos de produtividade.

Outro elemento importante é que se forem estudados os custos de produção das principais culturas de exportação, a começar pela soja, o que se observa é que a maioria dos produtores está operando com margens magérrimas de lucro e com fortes pressões advindas do aumento dos custos dos insumos, especialmente fertilizantes e agrotóxicos. Em função disso é que o governo Bolsonaro operou de forma industriosa em duas áreas expressas: 1) garantir a ampliação da área em produção, mesmo sob o risco de aumentar as taxas de desmatamento, e 2) baixar os custos de produção do insumo “agrotóxico”, mesmo sob pena de gerar uma hecatombe química no Brasil a partir da liberação de substâncias que já estão banidas em outras partes do mundo, inclusive na China que é o principal parceiro comercial do Brasil (o herbicida Paraquate é o maior exemplo disso).

Em suas explicações sobre o desastre de imagem que o aumento de 30% no desmatamento na Amazônia entre 2018 e 2019, o governo Bolsonaro está apontando para a necessidade de ampliar o processo de titulação de terras como a principal ferramenta para combater o que se classifica como desmatamento ou queimadas ilegais. Essa receita vem diretamente do receituário do Banco Mundial que há pelo menos três décadas aposta na entrega de títulos como uma ferramenta que poderia ampliar as chances de “usos sustentáveis da terra”.  O problema é que essa é mais uma falácia pró-mercado. Além disso, no caso da Amazônia, boa parte dos “novos desmatamentos” está ocorrendo em terras públicas, sejam elas reservas indígenas ou unidades de conservação.

Em outras palavras, não vai ser com titulação de terras que se resolverá os problemas relacionados à ampliação do binômio desmatamento-queimadas. Aliás, o que a titulação deverá incentivar é a ampliação da invasão de reservas indígenas e áreas de proteção ambiental, pois os grileiros e invasores poderão depois pedir a “legalização” das invasões via a titulação das terras invadidas.

A verdade é que não vejo muita saída para a crise ambiental em desenvolvimento na Amazônia sem muita pressão interna e dos parceiros comerciais do Brasil. É que sem isso, não haverá por parte do governo Bolsonaro qualquer disposição para retomar as ações de comando e controle. Aliás, o mais provável é que sejam desmanteladas as poucas estruturas que ainda restam. Tudo isso em nome do elemento cultural vislumbrado pelo presidente Jair Bolsonaro.

Desmatamento na Amazônia: o desastre agora é oficial

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Se até ontem o governo Bolsonaro se respaldava no argumento de que o sistema DETER não tem precisão adequada para medir o desmatamento, os números oficiais do desmatamento da Amazônia oriundos do sistema PRODES não deixam dúvidas: a destruição da floresta é dramática. Os dados anuais consolidados do desmatamento Amazônia mostram que, apesar da profunda e duradoura recessão econômica vivida pelo Brasil, a área desmatada alcançou a marca de 9.762 km², a mais alta desde 2008, quando a economia do país ainda crescia a ritmo acelerado.

O período avaliado pelo PRODES, que vai de 1º de agosto do ano passado a 31 de julho deste ano, corresponde a cinco meses de governo de Michel Temer e sete meses de gestão de Jair Bolsonaro.

O aumento em relação aos 12 meses anteriores, de 29,5%, foi o maior percentual de aumento de um ano para o outro em mais de duas décadas e leva a medalha de bronze na série histórica do PRODES, perdendo apenas para 1995 (crescimento de 95%) e 1998 (31%).

A taxa oficial ficou pelo menos 1.500 km² acima da tendência de aumento do desmatamento que vinha sendo observada a partir de 2012. Segundo técnicos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), se a taxa seguisse a tendência dos últimos anos, teria ficado em torno de 8.278 km².

Segundo o Direto da Ciência, com o resultado deste ano do PRODES, o corte raso acumulado na Amazônia até julho deste ano é de 802.570 km², ou 20,1% da área original da parte brasileira da floresta.

Demitido do INPE após a divulgação dos primeiros alertas sobre o aumento do desmatamento na Amazônia, o físico Ricardo Galvão disse ao Congresso em Foco que o crescimento de 30% da área desmatada comprova os alertas emitidos em agosto e indica que o Brasil não vai conseguir cumprir a Política Nacional sobre Mudança do Clima, a qual prevê uma redução no desmatamento da Amazônia para 3.900 km² de agosto de 2019 a julho de 2020.

A notícia foi repercutida pelos Valor EconômicoO Estado de S. PauloFolha de S. PauloO GloboUOLG1 e O Eco, além dos internacionais The GuardianReuters, AFPBBCAl Jazeera e New Scientist, entre outros.

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Este texto foi originalmente publicado pelo ClimaInfo [Aqui!].

NASA: queimadas e gases de efeito estufa estão secando atmosfera da Amazônia

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A queima de vegetação e a liberação de gases de efeito estufa estão conspirando para secar a Floresta Amazônica, segundo as conclusões de um novo estudo.

“Observamos que nas últimas duas décadas houve um aumento significativo da aridez da atmosfera e da demanda atmosférica por água acima da floresta tropical”, diz a principal autora do estudo, Armineh Barkhordarian, do Jet Propulsion Laboratory (JPL) da NASA.

Os incêndios florestais provocados para abrir espaço para pastagens e agricultura alimentam um ciclo no qual secas e incêndios continuarão a ser mais prováveis.

No trabalho publicado na revista Nature Scientific Reports, Barkhordarian e seus colegas usaram satélites para determinar o déficit de pressão de vapor, ou VPD, na América do Sul tropical. O VPD é a diferença entre a quantidade máxima de umidade que o ar pode reter e a quantidade de umidade que realmente existe. O déficit tem crescido nas últimas décadas, criando situações de ar seco na Amazônia.

A análise deixa pouca dúvida de que os seres humanos estão por trás da mudança: “Ao comparar esta tendência dos resultados de modelos que estimam a variabilidade climática ao longo de milhares de anos”, disse Barkhordarian, “determinamos que a mudança na aridez atmosférica está muito além do que seria esperado da variabilidade climática natural”.

Em particular, as partes sul e sudeste da Amazônia, mais afetadas pelo desmatamento provocado pela grilagem, pela implantação de novas fazendas e pastagens, têm experimentado estações secas cada vez mais secas e que duram cada vez mais. Mas, mesmo nos trechos setentrionais da floresta, as “megassecas” pontuam os últimos 20 anos, sendo que a mais recente ocorreu em 2015.

As emissões de gases de efeito estufa são parte do problema. À medida que as suas concentrações aumentam na atmosfera, capturam mais energia, o que aquece o planeta e leva a condições mais secas. Os aerossóis que formam a fuligem e são libertados pelos incêndios também absorvem calor e dificultam a formação de nuvens.

Para se manterem frescas à medida que a temperatura aumenta, as árvores retiram mais água do solo. Normalmente, essa água flui através das árvores, desempenhando um papel vital no transporte de nutrientes ao longo do caminho. Quando finalmente é libertada do topo do dossel, a umidade condensa-se em nuvens e grande parte dela regressa ao solo sob a forma de chuva.

“É uma questão de oferta e demanda”, disse Sassan Saatchi, cientista sênior de pesquisa da JPL e coautor do estudo. “Com o aumento da temperatura e a secura do ar acima das árvores, estas precisam transpirar para se resfriar e adicionar mais vapor de água à atmosfera.

“Mas o solo não tem água extra para as árvores puxarem”, acrescentou.

Essas condições mais áridas tornam os incêndios mais prováveis, o que por sua vez pode secar a floresta ainda mais. À medida que a água se torna mais escassa, as próprias florestas, juntamente com alguns dos ecossistemas mais biodiversos da Terra que elas sustentam, podem estar em perigo.

“Nosso estudo mostra que a demanda está aumentando e a oferta está diminuindo”, disse Saatchi, “e, se isso continuar, a floresta pode não ser mais capaz de se sustentar”.

Como disse o jornalista Marcelo Leite no Twitter, os resultados deste trabalho são muito importantes: podemos estar observando o início da ladeira que levaria a Amazônia a ressecar-se, ficando mais parecida com uma savana. O famigerado “dieback”, espécie de colapso do bioma.

A matéria é da Mongabay.

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Este artigo foi publicado pelo ClimaInfo [Aqui!].

Amazônia em chamas: desmatamento bate recorde, enquanto degradação avança

desmate 0Mosaico de imagens com visualização (em amarelo) do total desmatado. Fonte: INPE.

O governo Bolsonaro bem que tentou esconder o sucesso de sua política de desmanche ambiental que ajudou a turbinar os dados de desmatamento na Amazônia. Mas hoje em tom quase apologético (só de fachada, é claro), o ministro (ou seria anti-ministro?) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, deu a conhecer os dados de desmatamento no bioma amazônico para os últimos 12 meses (ver figura abaixo).

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Os número revelados pelo governo Bolsonaro revelam que cerca de 10,000 km2 de florestas foram derrubadas para dar vazão ao avanço de várias commodities, incluindo a soja e a carne bovina.  Esse valor é um recorde que só perde para os números acumulados em 1995 e 1998.

Ricardo Salles rapidamente ofereceu uma série de promessas para restabelecer os sistemas de comando e controle que ele mesmo desmanchou para fazer frente a esse recorde pavoroso.  Entretanto,  é importante que ninguém caia nesse conto do vigário, pois a recente medida de liberar o plantio de cana-de-açúcar no bioma amazônico e a sinalização de que também vai ser suspensa a moratória da soja são indicativos do que o governo Bolsonaro realmente quer, qual seja, possibilitar ainda mais desmatamento na Amazônia.

Mas se os números de desmatamento já são alarmantes, é sempre importante lembrar que desmatamento (ou corte raso da floresta) é apenas a forma mais drástica de modificação da cobertura vegetal. É que outras formas igualmente importantes de alteração da paisagem florestal estão ocorrendo simultaneamente e de formas mais crípticas, incluindo a extração seletiva de madeira e o fogo. 

Entretanto, uma estratégia que é historicamente usada para esconder o “grande total” da alteração da cobertura vegetal na Amazônia tem sido  omitir os valores da degradação, como se fosse impossível separar cada uma dessas vertentes, o que obviamente se trata de uma falácia.

Gosto sempre de citar um artigo que foi publicado em 2013 pela revista International Journal of Remote Sensing onde, sob a liderança do professor da Universidade Nacional de Brasília (UNB), Eraldo Matricardi, um grupo de pesquisadores do qual participei, ofereceu cálculos bastante precisos sobre o impacto da extração de madeira e do fogo na degradação da floresta amazônica, valores esses que precisam ser acrescidos ao do desmatamento para que tenhamos uma fotografia completa das alterações. O problema é que isso não é feito, justamente para que se fique com a impressão de que só o desmatamento deve ou pode ser contabilizado como significante. E isto não é de forma alguma o caso.

Área degradada por queimadas (esquerda) e extração seletiva de madeira (direita). Fonte: Matricardi et al. 2013

Trocando em miúdos, ainda que os dados de desmatamento sejam impactantes, eles são apenas parte da explicação. Além disso, ainda que a relação entre avanço das formas de degradação e a ocorrência do desmatamento não seja necessariamente direta, há sim um processo de retroalimentação entre eles.  Assim, se a coisa parece preocupante com a contabilização do desmatamento, imaginem o que ruído que ocorrerá quando forem somadas todas as formas de degradação e o seu total acrescido aos valores totais do desmatamento.

E a questão da Amazônia parece definitivamente a confirmação daquela lei de Murphy que diz que “não há tão ruim que não possa piorar”….

Desmatamento na Amazônia vai ultrapassar os 10 mil km²

Estudo revela que incêndios foram causados por aumento da destruição da floresta. Medo de represálias leva alguns cientistas a não assinarem o documento

Queima-1Incêndios florestais na Amazônia, praga que se repete anualmente, estáão em ritmo acelerado em 2019 com aumento de grilagem e desmatamento (Foto Marizilda Cruppe/Greenpeace)

Por Marizilda Cruppe para o Projeto Colabora

Poderia ser mais um artigo científico, fundamental para ajudar a sociedade a entender as recentes queimadas que acometeram a floresta amazônica. Não fosse um detalhe: a frase que encerra os agradecimentos finais. “Alguns colaboradores declinaram da autoria para manter o anonimato. Lamentamos que isso seja necessário e agradecemos a eles por sua importante contribuição.”

Tão grave quanto a projeção de que o desmatamento deve ultrapassar os dez mil quilômetros quadrados, a maior taxa registrada desde 2008, é ver cientistas precisarem esconder suas identidades por questões de segurança, com medo de represálias do governo.

“É chocante. Fiquei indignado de ver que isso tenha sido necessário” desabafa o inglês Jos Barlow, professor das universidades de Oxford e Lavras,  que liderou o estudo divulgado ontem, e que pesquisa as emissões de carbono na Floresta Amazônica brasileira há tempo suficiente para ter passado por quatro presidentes. Está no quinto. “Nunca vi nada parecido no Brasil. O país está seguindo as estratégias da extrema-direita. Não demite, mas torna a vida dos cientistas insuportável”.

Em março deste ano, Barlow assinou, com mais seis cientistas, um editorial no Jornal de Ecologia Aplicada da Sociedade Ecológica Britânica, fundada em 1913, que falava de países onde a influência científica e as liberdades acadêmica e pessoal foram comprometidas. O Brasil foi citado como um país com a liberdade acadêmica comprometida por medidas adotadas pelo governo Bolsonaro, como a extinção de órgãos que lideravam discussões internacionais sobre mudanças climáticas e de departamentos do Ministério do Meio Ambiente que tratavam do desmatamento.

Soja e fragmento de floresta em Belterra.

Foto Marizilda Cruppe/DivulgacãoAs plantações de soja estão entre os vilões do desmatamento na Amazônia. Foto Marizilda Cruppe/Rede Amazônia Sustentável

“Desmatamento e fogo andam de mãos dadas”

O artigo Clarifying Amazonia’s burning crisis (Esclarecendo a crise das queimadas na Amazônia) foi publicado ontem pelo periódico inglês Global Change Biology (versão original aqui), um dos maiores do mundo na área de meio ambiente. Os cientistas identificaram os diferentes tipos de incêndios, os agentes causadores e potencializadores e examinaram as possíveis soluções. O estudo se refere ao período de agosto deste ano quando ocorreu um pico de queimadas diretamente ligadas ao desmatamento. Erika Berenguer, cientista sênior das universidades de Oxford e Lancaster, pesquisa emissões de carbono na Amazônia há mais de uma década. Ela comenta sobre o principal resultado:

“Mostramos nesse estudo que os incêndios de 2019 são um reflexo do aumento do desmatamento, já que desmatamento e fogo andam de mãos dadas. Depois da floresta derrubada, ela continua existindo, só que no chão, morta. É aí que os invasores entram com o fogo, transformam tudo em cinzas para que a agricultura possa chegar”.

Para a brasileira radicada na Inglaterra o Brasil sabe como diminuir o desmatamento e tem essa capacidade “porque de 2004 a 2012 o desmatamento caiu 80%.” Ela lamenta que “pela primeira vez em dez anos o desmatamento pode chegar a dez mil quilômetros quadrados, o que parecia impensável que o Brasil voltasse a fazer.” E arremata “o país sabe o que e como fazer, o que falta é vontade política.”

São vários os agentes causadores apontados pelo estudo como governança fraca, rebanhos enormes e mal administrados, comércio ilegal de madeira e mudanças climáticas. Uma frouxidão do governo pode levar ao aumento do desmatamento que por sua vez é um gatilho para incêndios. As mudanças climáticas tornam as florestas mais quentes e secas e, por isso, mais propensas a incêndios fora do controle. Cada tipo de incêndio traz impactos diferentes. Um incêndio em área aberta pode matar o gado e acabar com plantações, enquanto incêndios florestais, mesmo de baixa intensidade, podem matar metade das árvores.

O estudo avaliou as alegações do governo Bolsonaro de que os incêndios de agosto eram “normais” e “abaixo da média histórica”. Os cientistas compararam dados públicos sobre queimadas e desmatamento e constataram que os incêndios deste ano foram os maiores desde 2010. E, se comparados ao mesmo período de 2018, os incêndios foram quase três vezes maiores.

Os cientistas apontam no estudo caminhos para a prevenção dos incêndios florestais que exigiriam ações do governo no combate ao desmatamento e ao comércio ilegal de madeira, pois mudanças no microclima tornam as florestas mais inflamáveis. Outra ação seria o monitoramento da intensidade da seca e o risco de incêndios com o apoio de brigadas de incêndio locais.

A taxa anual de desmatamento do período que compreende agosto de 2018 a julho de 2019 será divulgada na segunda-feira e os números do PRODES são ansiosamente aguardados porque os monitoramentos do Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE) apontam para o maior desmatamento dos últimos 11 anos.

*Marizilda Cruppe tentou ser engenheira, piloto de avião e se encontrou mesmo no fotojornalismo. Trabalhou no Jornal O Globo um bom tempo até se tornar fotógrafa independente. Gosta de contar histórias sobre direitos humanos, gênero, desigualdade social, saúde e meio-ambiente. Fotógrafa para organizações humanitárias e ambientais. Em 2016 deu a partida na criação da YVY Mulheres da Imagem, uma iniciativa que envolve mulheres de todas as regiões do Brasil. Desde 2015 é nômade e vai onde a Fotografia a leva. Usa seu celular para fotografar as camas onde dorme nessa vida sem casa – já são 130 e contando!

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Este artigo foi originalmente publicado pelo Projeto Colabora [Aqui!].

Se nada for feito, reserva extrativista Chico Mendes vai virar pasto

Imazon indica aumento de 39% nos índices relativos ao aumento de desmatamento; Pecuária está tomando conta, relata companheiro de Chico Mendes

Resex-Chico-Mendes-1Desmatamento abre pastos na reserva criada na para o sustento de famílias extrativistas, que dependem da floresta em pé

Dois dias após o presidente Jair Bolsonaro (PSL) autorizar o plantio de cana na Amazônia e Pantanal, além de outras regiões, nesta quarta-feira (6), a semana terminou com outra notícia no mínimo preocupante. O Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) divulgou estudo mostrando que a ameaça e pressão por desmatamento em áreas protegidas na Amazônia aumentaram 39% no período relativo a agosto de 2018 a julho deste ano, quando comparando ao período anterior. Isso corresponde a um total de 5.054 quilômetros quadrados de florestas derrubadas na Amazônia Legal.

Chama atenção no estudo, entre outros aspectos, o fato de que as mesmas áreas protegidas (APs) continuam no ranking das que mais sofrem ameaça e pressão. A Reserva Extrativista (Resex) Chico Mendes, no Acre, manteve a liderança no ranking das mais ameaçadas de desmatamento. E a Área de Proteção Ambiental (APA) Triunfo do Xingu, no Pará, também manteve-se como a mais foi pressionada.

O Imazon considera pressão a ocorrência de desmatamento no interior da área protegida, o que pode levar a perdas ambientais e até mesmo redução ou redefinição de limites da Área Protegida. E ameaça é o risco iminente de ocorrer desmatamento no interior da área protegida.

Chico Mendes

Criada em março de 1990, pouco mais de um ano após o assassinato de Chico Mendes, a Reserva Extrativista batizada com o nome do líder seringueiro é uma unidade de conservação localizada no sul do estado do Acre, próximo da divisa com a Bolívia. Mais de dez mil pessoas moram na reserva, que tem área área de 970.570 hectares.

Um dos maiores legados de uma das maiores lideranças ambientalistas de seu tempo, as reservas foram concebidas conforme o conceito de reforma agrária para as comunidades locais, que ao usufruírem dos frutos da terra, participam da preservação da floresta.

De olho também nas riquezas sob os territórios indígenas, garimpeiros, mineradoras ilegais e ruralistas avançam sobre essas terras, principalmente após a chegada de Jair Bolsonaro à presidência. Defensor dessas atividades na Amazônia e de seus atores, o capitão tem contribuído para a degradação do bioma com seu discurso e com ações, por meio de políticas de desmonte da estrutura de fiscalização e de preservação ambiental de seu ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles.

Morador da Resex Chico Mendes e integrante do movimento comandado pela liderança seringueira assassinada em dezembro de 1988, Raimundo Mendes disse à equipe da SOS Amazônia que essas áreas de floresta vêm perdendo espaço para a pecuária.

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Este artigo foi originalmente publicado pelo site Amazônia notícia e informação [Aqui!].