Em entrevista “bola levantada” no UOL, Ricardo Salles dissemina falácias e delírios sobre a catástrofe ambiental que construiu

amazonia acordo de parisEnquanto a Amazônia arde em chamas, Ricardo Salles distribui falácias e declarações delirantes

O ministro (ou seria anti-ministro) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, deu mais uma daquelas entrevistas de “bola levantada” que a mídia corporativa brasileira se acostumou a realizar ao longo do 2019 para dar tinturas democráticas aos desatinos do governo Bolsonaro.  Na entrevista assinada pelos jornalistas Luciana Amaral e Gustavo e publicada pelo site UOL, Salles ofereceu uma série de declarações falaciosas que, por causa da natureza “bola levantada” da entrevista, passaram sem a devida cobrança.

salles 10 bilhões

Ao meu ver, a principal falácia que passou batida foi a afirmação de  que o “Brasil é modelo para o mundo de conservação ambiental, pois “somos o país que tem 60% da nossa vegetação nativa mantida, e “temos 80% da Amazônia mantida“. 

Vindo do mentor do desmanche da governança ambiental que existia até janeiro de 2019, a afirmação que somos modelo de conservação não é apenas cínica, mas dotada de elementos de negação da realidade.  Como Ricardo Salles é um dos muitos negacionistas das mudanças climáticas, sua predisposição para negar a verdade não chega a ser novidade. O problema é que deixá-lo ministro enquanto avança o desmatamento da Amazônia permite que todos os saqueadores ilegais dos biomas amazônicos sigam agindo com ampla liberdade. 

fire degradationIncêndios florestais são uma importante fonte de degradação das  matas nativas da Amazônia brasileira

Outra falácia contida dentro da falácia é de que temos 80 da Amazônia mantida. Como já divulguei aqui, em artigo publicado em 2013 pelo International Journal of Remote Sensing, eu e outros pesquisadores que estudam as mudanças na cobertura vegetal da Amazônia demonstramos que uma parte semelhante à desmatada se encontrava sob diferentes níveis de degradação por causa da extração ilegal de madeira e incêndios florestais. Passados quase seis anos daquela publicação, e graças ao êxito das ações para desmanchar a governança ambiental brasileira, já posso adiantar que quando forem divulgados os números da degradação total dos biomas amazônicos, haverá outro choque de realidade, a qual abalará ainda mais a versão falaciosa que Ricardo Salles tenta impor nas entrevistas “bola levantada” que se dispõe a oferecer.

Uma declaração que beira o delírio é de que os países ricos precisam entregar US$ 10 bilhões anualmente pelo cumprimento dos termos pelos quais o Brasil aderiu ao Acordo de Paris. Vindo da pessoa que trabalhou exitosamente para enterrar o Fundo Amazônia, tal declaração já beiraria o ridículo completo. Entretanto, ao aprofundar a aposta na afronta à realidade dos dados científicos, o que Ricardo Salles termina por fazer é exponencializar o desgaste da credibilidade brasileira em fóruns multilaterais que cuidam das mudanças climáticas. E se alguém pensar que isso seria bom para a economia brasileira, pense de novo. É que uma das consequências mais objetivas do desgaste político que o Brasil já sofre será o fechado de mercados para as commodities brasileiras.  Quem pensar que a China vai absorver tudo o que, por exemplo, a União Europeia deixar de comprar, está completamente equivocado.

O mais provável é que com o avanço do desmatamento e da degradação das florestas amazônicas, as medidas que estão sendo postergadas acabem sendo implementadas. E certamente entre elas não estará a entrega de bilhões de dólares para um governo que claramente despreza o valor da conservação ambiental não apenas para o Brasil, mas para todo o planeta.

Quanto a Ricardo Salles, ele certamente vai tentar ficar no cargo fazendo o que sabe fazer melhor: distribuir falácias em entrevistas “bola levantada”, enquanto age para sucatear órgãos ambientais e desmanchar tudo o que puder do que ainda resta da governança ambiental brasileira.

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