Amazônia em chamas: pirosoberania para devastar é o lema do governo Bolsonaro

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As ações do governo Bolsonaro confirmam que estamos diante de um executivo federal que está fortemente determinado a colocar o Brasil em um curso de irreversível recolonização, sendo os EUA o candidato favorito a ser a nossa nova metrópole tuteladora.  Só assim para se entender a recusa em aceitar cerca de R$ 90 millhões oferecidos pelo G-7 para auxiliar no combate aos incêndios devastadores que estão hoje ameaçando áreas inteiras da Amazônia inteira.

O interessante é que o mesmo governo que trabalha para nos transformar em uma espécie de neocolônia estadunidense age para fazer parecer que a recusa do auxílio financeiro (pequeno e claramente insuficiente, diga-se de passagem) seria uma espécie de ato em defesa da soberania nacional que estaria ameaçada pelo presidente da França, Emmanuel Macron. 

Nessa versão rocambolesca daquilo que eu já rotulei de “pirosoberania”, tivemos de ouvir o porta-voz da presidência da república, o general da reserva Otávio Santana do Rêgo Barros, que afirmou que sobre a Amazôniafalam os brasileiros e as Forças Armadas”.   A afirmação do general porta-voz seria reconfortante se o exército brasileiro não estivesse ponderando liberar 25.000 recrutas por falta de recursos financeiros.

Mais expressiva dessa versão de defesa da soberania em relação às manifestações de Emmanuel Macron são os insistentes discursos do presidente Jair Bolsonaro no sentido de abrir a Amazônia para ser explorada diretamente pelos EUAAparentemente a intromissão na soberania só aparece mesmo quando a discussão gira em torno da proteção do meio ambiente e dos povos indígenas. 

O problema para Jair Bolsonaro é que nem nos EUA a devastação da Amazônia tem apoio completo, com setores importantes se mobilizando neste momento para denunciar a devastação causada na região por uma combinação de omissão estatal que propiciou a ação livre de madeireiros, garimpeiros e grileiros.  Pior ainda será a situação se o presidente Donald Trump for apeado do poder nas eleições presidenciais que ocorrerão em 2020 e for substituído por um democrata que se alinhe mais com a visão que emanada da maioria dos líderes do G-7.

Por isso, todos os arroubos discursivos que estão sendo cometidos por Jair Bolsonaro e seus ministros contra as posições enunciadas por Emmanuel Macron podem até ser apresentados como defesa da soberania nacional, mas não resolvem a questão essencial que é o fato de que o controle sobre a Amazônia, caso a devastação em curso continue sendo tolerada, passará  inevitavelmente por um debate sobre os mecanismos de controle internacional.

Mas antes disso é possível que assistamos ao recrudescimento dos pedidos de boicote às commodities brasileiras vindas das áreas desmatadas na Amazônia.  Quando isso acontecer, e vai acontecer, vamos ver como ficarão os membros do governo Bolsonaro que hoje posam de valentes e recusam a ajuda externa para combater a devastação que suas políticas anti-ambientais trataram de acelerar.

Finalmente, quero notar aqui o massacre sofrido pelo ministro (ou seria anti-ministro) do Meio Ambiente, Ricardo Salles, no programa Roda Viva que ocorreu no dia de ontem (26/08). A clara incapacidade de Salles em responder a questões básicas levantadas pela competente bancada de jornalistas e a insistência de se comportar como um “Rolando Lero” são a melhor expressão da eficiência das políticas anti-ambientais existentes no Brasil. Mas, mesmo assim, não deixa de ser lamentável notar a que ponto chegamos graças à presença de um personagem como esse à frente de uma área tão estratégica para o destino do Brasil.

Aumento no uso agrotóxicos e crescimento do desmatamento na Amazônia: juntos e misturados

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Quando o CEO da rede sueca de mercearias Paradiset, Johannes Cullberg, decidiu lançar o seu boicote contra produtos agrícolas brasileiros, ele o fez por sua oposição ao aumento no uso de agrotóxicos proibidos na União Europa e ao crescimento das taxas de desmatamento na Amazônia (ver vídeo abaixo onde ele envia mensagem aos brasileiros para explicar as razões do seu boicote).

Pois bem, após as recentes controvérsias acerca do papel cumprido pelo governo Bolsonaro na liberação de agrotóxicos altamente venenosos (30% proibidos na União Europeia) e a celeuma causada pelo aumento exponencial das queimadas na Amazônia, as razões levantadas por Cullberg estão sendo confirmadas por pesquisadores que buscam entender as razões pelas quais o Brasil experimentou um crescimento de 25% no uso de agrotóxicos apenas nos últimos cinco anos, uma taxa considerada alta para todos os países do mundo (ver vídeo abaixo postado no canal do jornalista Bob Fernandes no Youtube.

Segundo a professora e pesquisadora do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo, Larissa Bombardi, uma das prováveis razões para o crescimento acentuado no uso de agrotóxicos no Brasil foi justamente o deslocamento do uso de agrotóxicos para estados que formam o chamado “Arco do Desmatamento” (i.e.,  Acre, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia e Tocantins). 

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O arco do desmatamento vem rapidamente se transformando no “arco dos agrotóxicos”, uma combinação que mostra que o agro é tóxico.

Em outras palavras, como havia notado Johannes Cullberg, o aumento exponencial no uso de agrotóxicos proibidos na União Europeia caminha “pari passu” com o desmatamento que em 2019 causou uma quantidade recorde de incêndios, muitos dos quais relacionados à derrubada de florestas nativas na Amazônia.

Imaginem então o que vai acontecer quando essa informação sobre conexão direta entre aumento no uso de agrotóxicos e o crescimento do desmatamento na Amazônia chegar aos segmentos sociais que hoje estão cobrando punições ao Brasil por causa das queimadas ocorrendo em 2019. 

Mídia brasileira “passa o pano” para livrar Jair Bolsonaro de suas responsabilidades na Amazônia

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Li as manchetes das matérias que dominam as capas dos principais veículos da mídia corporativa brasileira e o que vi pode ser sintetizado como um esforço coletivo de “passar o pano” na imagem combalida de Jair Bolsonaro que está completamente chamuscada pelos incêndios devastadores que suas políticas anti-ambientais alimentam na Amazônia e por seus excessos na rede social Twitter, incluindo o ataque sexista à primeira dama da França, a qual já foi vigorosamente respondido por Emmanuel Macron.

Aliás, no tocante às manifestações de Emmanuel Macron, o que verifiquei foi a existência de uma tentativa de mostrá-lo como voz isolada dentro do G-7 e que teria sido derrotado em suas postulações em relação ao controle internacional da Amazônia, caso o Brasil continue permitindo a devastação de uma região que possui papel estratégico no controle das mudanças climáticas.

Aqui é preciso que ninguém caia nesse engano, pois não apenas Emmanuel Macron não é uma voz isolada, pois outros países membros da União Europeia estão dispostos a seguir a mesma orientação da França.  O que parece ter havido na reunião do G-7 foi a tomada de uma posição mais pragmática em prol dos interesses comerciais dos seus membros, principalmente os da Alemanha e da Espanha. Entretanto, os bombeiros dentro do G-7 não vão poder conter a disposição de medidas punitivas contra o Brasil se não houver uma reversão das posições expressas publicamente pelo presidente Jair Bolsonaro sobre o que eu caracterizei como sendo o exercício da “pirosoberania”. 

Outra coisa que precisa ser mencionada é que mais uma vez foram os veículos internacionais que expuseram a verdadeira dimensão da tragédia que continua ocorrendo na Amazônia. Tivesse o problema sido apenas tratado por veículos da mídia corporativa brasileira, o mais provável é que continuássemos totalmente desinformados e achando que essa era apenas mais uma estação “normal” de queimadas.  Entretanto, como os veículos internacionais não apenas possuem bons profissionais, mas como os colocam em campo para fazer jornalismo de verdade, pudemos ver que não há nada de normal no que está acontecendo na Amazônia.

É graças à mídia internacional e ao funcionamento intenso das redes sociais que não se pode mais esconder o que as pesadas colunas de fumaça estavam escondendo.  Simples assim!

O boicote ao Brasil virá, resta agora saber apenas a sua amplitude

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As ações arrogantes e mal educadas de membros do governo federal, a começar pelo próprio presidente Jair Bolsonaro, em relação às críticas ao atual ciclo de desmatamento e queimadas na Amazônia já causaram um dano diplomático significativo.  A coisa é tão grave que neste final de semana os líderes da 7 maiores economias do mundo (o G-7) estarão debatendo medidas para conter o estrago ambiental que ameaça a sustentação do clima da Terra, sem que o Brasil seja sequer convidado a dar explicações sobre o que está acontecendo ou, tampouco, sobre o que fará (em tese) para conter o fogo que consome áreas derrubadas e não derrubadas em toda a Amazônia brasileira.

Ainda que não existe unanimidade sequer dentro da União Europeia sobre como proceder em relação ao Brasil (fato que deve estar sendo festejado dentro dos gabinetes do governo Bolsonaro), há que se lembrar que para a ratificação do acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul todos os países que compõe o bloco europeu precisam aprovar  a medida em seus respectivos congressos nacionais. E já se sabe que pelo menos na França, Irlanda e Finlândia, a oposição a essa ratificação será enorme.

Mas indo além dos interesses representados pelos governos nacionais há algo que parece não estar sendo considerado pelos analistas de plantão.  O fato é que há um crescente movimento social em toda a Europa e em outras partes do mundo contra a destruição da Amazônia. Os membros do governo Bolsonaro e seus apoiadores dentro da sociedade brasileira parecem não compreender que vivemos em um tempo que a informação é distribuída com velocidade extrema, mas não apenas para disseminar a visão canhestra de nacionalismo entreguista que eles parecem abraçar, o que despreza ferozmente as consequências políticas e econômicas do abraço mortal entre os interesses das grandes corporações econômicos e  a destruição ambiental. 

Protesto realizado na última 6a. feira (23/08) em frente da Embaixada do Brasil em Zurich na Suiça

O fato inescapável é que as centenas de manifestações que ocorreram pelo mundo afora contra o Brasil e seu governo anti-ambiental estão colocando em marcha um processo político que terá fortes impactos econômicos. É que movimentos de boicote a produtos agrícolas brasileiros, como o que foi iniciado pelo chefe executivo da rede sueca de supermercados Paradiset, Johannes Cullberg, estão começando a tocar corpo e caminham para um processo de unificação.  O centro gravitacional destes movimentos é a rejeição da compra de todo produto brasileiro que possa ser associado ao desmatamento da Amazônia, a começar por soja e carne bovina. 

cullbergJohannes Cullberg, CEO da rede sueca de mercearias orgânicas Paradiset, foi o primeiro a lançar o boicote a produtos brasileiras por causa do uso excessivo de agrotóxicos e do desmatamento na Amazônia.

Alarmados com o espectro de um boicote generalizado, os barões do agronegócio brasileiro estão buscando formas de impedir que isso aconteça. Mas conspira contra eles o fato de que já foi formada a imagem de que o governo brasileiro, sob a batuta de Jair Bolsonaro, representa um risco para a sobrevivência do planeta. E contra esse tipo de imagem poderosa há muito pouco o que possa fazer em termos de campanhas publicitárias. É que para cada peça que defenda o agronegócio logo surgirão centenas de imagens e vídeos mostrando didaticamente a destruição que eles e outros agentes econômicos estão causando legal ou ilegalmente nas florestas da Amazônia.

fogoMosaico de imagens de satélite Landsat criado pela National Space Agency (NASA) mostra os principais pontos de fogo na América do Sul.

Em suma, um boicote aos produtos agrícolas se tornou inevitável. Resta saber o tamanho e a amplitude que ele terá.  E o principal culpado pelo aprofundamento da crise econômica brasileira tem nome e endereço: Jair Messias Bolsonaro, Palácio do Planalto, D.F., Brasil.

Amazônia em chamas cria tempestade perfeita para o Brasil

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Convenhamos que até aqui o presidente Jair Bolsonaro e seu conjunto de ministros generais saídos de algum freezer criogênico vinham nadando de braçadas no seu projeto de instalar um governo ultraneoliberal com extrema facilidade, muito em parte graças à fragilidade absurda dos partidos ditos de esquerda.

A coisa começou a azedar quando começaram os primeiros ruídos em torno dos dados de desmatamento na porção brasileira da bacia Amazônica, muito em graças ao eficientíssimo processo de desmanche da precária governança ambiental e dos insuficientes mecanismos de comando e controle que protegiam com dificuldades unidades de conservação e terras indígenas na Amazônia.

A primeira reação foi demitir o físico Ricardo Galvão da direção do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) pela divulgação de dados de desmatamento na Amazônia que o presidente Jair Bolsonaro e seu ministro (ou seria antiministro?) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, diziam ser mentirosos ou, quando muito, exagerados.

Havia até este ponto uma disputa retórica acerca da capacidade do Inpe de gerar números precisos sobre o desmatamento (sobre isso ver vídeo abaixo com o Dr. Douglas Morton, do Biospheric Sciences Laboratory do Goddard Space Flight Center da NASA).

Mas bastou que os restos secos da floresta começassem a arder e levantar colunas gigantescas de fumaça na Amazônia para que uma tempestade perfeita começasse a se formar em escala global, a qual ameaça engolir o Brasil e os projetos de governo Bolsonaro em nos transformar em uma espécie de uma plataforma exportadora de produtos primários.

As imagens dos incêndios, animais mortos e indígenas denunciando a ação de criminosos no interior de suas terras são demais para serem ignorados, na medida em que governos nacionais, principalmente na Europa, estão implementando ajustes para evitar o agravamento das mudanças climáticas dentro de seus próprios limites nacionais. E com isso vieram as manifestações de Emmanuel Macron, Angela Merkel e até do presidente da Comissão Europeia, o finlândes Jyrki Katainen, no sentido de cobrar do governo Bolsonaro mais responsabilidade com a Amazônia.

O governo Bolsonaro até ontem parecia obstinado em aplicar sua receita devastadora para a Amazônia, em que pesem os alarmes que começaram a ser soados por líderes do latifúndio agro-exportador como Blairo Maggi, Kátia Abreu e Marcello Brito (diretor da Associação Brasileira do Agronegócio).  Isso mudou com a manifestação dura de Emnanuel Macron na sua página na rede social Twitter, o presidente francês demandou ação urgente para obrigar o governo Bolsonaro a mudar seu curso de ação.

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É que apesar do estilo de dar caneladas antes de pensar, o presidente Jair Bolsonaro e alguns de seus ministros parecem agora dotados de uma condição de urgência para realizar uma operação de controle de danos.  A anunciada posição da Finlândia de exigir um boicote à carne produzida no Brasil deverá agravar ainda mais a sensação de que medidas urgentes terão que ser tomadas para aliviar um pouco a situação catastrófica em que a diplomacia brasileira foi enfiada pelas manifestações “sinceronas” do presidente Bolsonaro.

O problema agora é ver como sair do enrosco em que Jair Bolsonaro meteu o Brasil. Mas as dezenas de manifestações que estão ocorrendo na Europa para exigir atitudes contra a destruição da Amazônia tornarão qualquer tentativa de reduzir dano quase impossível de ser realizada. É o que dá criar uma tempestade perfeita quando as imagens viajam quase tão rapidamente quanto a fumaça das queimadas.

Amazônia em chamas: vídeo com trilha sonora que dispensa comentários

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Muitos vídeos têm circulado na internet sobre o atual ciclo de desmatamento e fogo que assola a Amazônia brasileira. O vídeo abaixo, além de mostrar as imagens dantescas, possui uma trilha sonora que dispensa maiores comentários.

O problema para o governo piromoníaco que hoje controle o Brasil é que não estamos mais na década de 1970 e é impossível ocultar o que está acontecendo.

Melhor que seja assim.

Bolsonaro, o incendiário

O presidente brasileiro Bolsonaro acusa as organizações ambientalistas de atear fogo na área de floresta tropical. Mas ele é responsável pelo desastre ambiental.

An tract of Amazon jungle burning as it is being cleared by loggers and farmers in IrandubaA extensão da destruição do “pulmão verde do mundo” está aumentando – a floresta está queimando em Iranduba, no estado brasileiro do Amazonas. Foto: DPA

Durante semanas,  queimadas estão ocorrendo  na floresta amazônica e em outras florestas do subcontinente sul-americano. No início da semana , São Paulo escureceu no meio do dia, enquanto a fumaça de 2.700 quilômetros se espalhava pela maior metrópole brasileira. A extensão da destruição do “pulmão verde do mundo” está aumentando e está se tornando mais visível: fotos de animais em pânico são postadas, mais de 1,5 milhões de tweets com a hashtag #PrayForAmazonas se reuniram nesta manhã na rede social Twitter.

A preocupação com a floresta amazônica, que está em chamas, é internacional. E o presidente de direita do Brasil, Bolsonaro, que gosta de interferir nos assuntos internos de outros países,  lembrando à Noruega e À Alemanha que suas próprias florestas estão morrendo ou da cruel caça de baleias, de acordo com o lema “Olhe para isso!”, lentamente percebe que ele tem a mundo inteiro contra si.   Bolsonaro só recebe apoio de uma pequena elite  em seu próprio país, o setor agrícola, para o qual ele faz suas políticas anti-ambientais e determina que seu ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, aja de forma a viabilizar isso.

As ações de Bolsonaro incluem não apenas a liberação de áreas nativas  protegidas para a extração de matérias-primas e o aumento de queimadas para conversão em pastagens. A autoridade ambiental Ibama, que até agora podia fiscalizar  e destruir equipamentos pesados ​​apreendidos com madeireiros e garimpeiros ilegais, foi privada de competências. E a “guerra” de Bolsonaro contra organizações não-governamentais de proteção ambiental continua.

Foi somente ontem (21/08) que Jair Bolsonaro alegou que os incêndios ilegais na Amazônia poderiam ter sido feitos por ONGs a fim de desacreditá-lo e a seu governo diante da comunidade mundial. Sem provas,  é claro. E agora a Noruega e a Alemanha, as maiores financiadoras do Fundo Amazônia, que vem investindo em projetos de conservação florestal há anos, também anunciaram que vão cortar o financiamento em protesto contra essa política ambiental.

Mas acima de tudo, a pressão sobre o meio ambiente está crescendo, não o próprio Bolsonaro, que se esconde atrás das teorias da conspiração. Algo deve acontecer para fazer a diferença em seu governo ambientalmente hostil: a União Europeia (UE e, acima de tudo, o governo alemão deveria parar de importar produtos cuja produção está associada à derrubada da floresta tropical. Além disso, o  acordo de livre comércio entre a UE e o Mercosul teria de ser suspenso ou condicionado a uma atividade económica sustentável. Essa deve ser a única chance de salvar o que ainda pode ser salvo.

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Este artigo foi originalmente publicado em alemão pelo jornal “Die Tageszeitung” [Aqui!].

Bolsonaro não precisa das ONGs para queimar a imagem do Brasil no mundo inteiro

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Os focos de incêndio em todo Brasil aumentaram 82% desde o início deste ano, para um total de 71.497 registros feitos pelo INPE, dos quais 54% ocorreram na Amazônia. Diante da escandalosa situação, Bolsonaro disse que o seu “sentimento” é de que “ONGs estão por trás” do alastramento do fogo para “enviar mensagens ao exterior”.

O aumento das queimadas não é um fato isolado. No seu curto período de governo, também cresceram o desmatamento, a invasão de parques e terras indígenas, a exploração ilegal e predatória de recursos naturais e o assassinato de lideranças de comunidades tradicionais, indígenas e ambientalistas. Ao mesmo tempo, Bolsonaro desmontou e desmoralizou a fiscalização ambiental, deu inúmeras declarações de incentivo à ocupação predatória da Amazônia e de criminalização dos que defendem a sua conservação.

O aumento do desmatamento e das queimadas representa, também, o aumento das emissões brasileiras de gases do efeito estufa, distanciando o país do cumprimento das metas assumidas no Acordo de Paris. Enquanto o governo justifica a flexibilização das políticas ambientais como necessárias para a melhoria da economia, a realidade é que enquanto as emissões explodem, o aumento do PIB se aproxima do zero.

O Presidente deve agir com responsabilidade e provar o que diz, ao invés de fazer ilações irresponsáveis e inconsequentes, repetindo a tentativa de criminalizar as organizações, manipulando a opinião pública contra o trabalho realizado pela sociedade civil.

Bolsonaro não precisa das ONGs para queimar a imagem do Brasil no mundo inteiro.

Brasil, 21 de agosto de 2019

Assinam:

Ação Educativa

Angá;

Articulação Antinuclear Brasileira;

Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, APIB;

Assembleia Permanente de Entidades em Defesa do Meio Ambiente, APEDEMA;

Assessoria e Gestão em Estudos da Natureza, Desenvolvimento Humano e Agroecologia, AGENDHA;

Associação Agroecológica Tijupá;

Associação Alternativa Terrazul;

Associação Ambientalista Copaíba;

Associação Ambientalista Floresta em Pé, AAFEP;

Associação Ambientalista Floresta em Pé, AAFEP;

Associação Amigos do Meio Ambiente, AMA;

Associação Arara do Igarapé Humaitá, AAIH;

Associação Brasileira de ONGs, ABONG;

Associação Civil Alternativa Terrazul;

Associação de Pesquisa e Preservação de Ecossistemas Aquáticos, AQUASIS;

Associação de Preservação da Natureza do Vale do Gravataí;

Associação de Preservação do Meio Ambiente e da Vida, APREMAVI;

Associação Defensores da Terra;

Associação do Movimento dos Agentes Agroflorestais Indígenas do Acre, AMAAIAC;

Associação em Defesa do rio Paraná, Afluentes e Mata Ciliar, APOENA;

Associação Flora Brasil;

Associação MarBrasil;

Associação Mico-Leão-Dourado;

Associação Mineira de Defesa do Ambiente, AMDA;

Centro de Apoio e Promoção da Agroecologia, CAPA / FLD;

Centro de Assessoria Multiprofissional, CAMP;

Centro de Estudos Ambientais, CEA;

Centro de Trabalho Indigenista, CTI;

Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro Brasileiro;

Cidade Escola Aprendiz;

Coletivo BANQUETAÇO;

Coletivo Delibera Brasil;

Coletivo do Fórum Social das Resistências de Porto Alegre;

Coletivo Socioambiental de Marilia;

Comissão Pró-Índio do Acre, CPI-Acre;

Conselho de Missão entre Povos Indígenas, COMIN / FLD;

Conselho Indigenista Missionário, CIMI;

Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira, COIAB;

Coordenadoria Ecumênica de Serviço, CESE;

Ecossistemas Costeiros, APREC;

Elo Ligação e Organização;

Espaço de Formação, Assessoria e Documentação;

FADS – Frente Ampla Democrática Socioambiental;

FEACT Brasil (representando 23 organizações nacionais baseadas na fé);

Federação de Órgãos para Assistencial Social e Educacional, FASE;

Fórum Baiano de Economia Solidária;

Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, FBOMS;

Fórum da Amazônia Oriental, FAOR;

Fórum de Direitos Humanos e da Terra;

Fórum de ONGs Ambientalistas do Distrito Federal;

Fórum de ONGs/Aids do Estado de São Paulo, FOAESP;

Fórum Ecumênico ACT Brasil;

Fórum Social da Panamazônia;

Fundação Avina;

Fundação Luterana de Diaconia, FLD;

Fundação Vitória Amazônica, FVA;

GEEP – Açungui;

Gestos – Soropositividade, Comunicação e Gênero;

Grupo Ambientalista da Bahia, GAMBA;

Grupo Carta de Belém;

Grupo de Estudos Espeleológicos do Paraná;

Grupo de Trabalho da Sociedade Civil para Agenda 2030;

Grupo Ecológico Rio de Contas, GERC;

Habitat para humanidade Brasil;

Iniciativa Verde;

Instituto AUÁ;

Instituto Augusto Carneiro;

Instituto Bem Ambiental, IBAM;

Instituto Centro Vida, ICV;

Instituto de Estudos Ambientais – Mater Natura;

Instituto de Estudos Jurídicos de Direitos Humanos, Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais, IDhES;

Instituto de Estudos Socioeconômicos, Inesc;

Instituto de Pesquisa e Formação Indígena, Iepé;

Instituto de Pesquisas Ecológicas, IPÊ;

Instituto Ecoar;

Instituto EQUIT – Gênero, Economia e Cidadania Global;

Instituto Hórus de Desenvolvimento e Conservação Ambiental;

Instituto Internacional de Educação do Brasil, IEB;

Instituto MIRA-SERRA;

Instituto Socioambiental, ISA;

Instituto Universidade Popular, UNIPOP;

Iser Assessoria;

Movimento de Defesa de Porto Seguro, MDPS;

Movimento dos Trabalhadores/as Rurais sem Terra, MST;

Movimento Nacional das Cidadãs PositHIVas de São Paulo;

Movimento Paulo Jackson – Ética, Justiça e Cidadania;

Movimento Roessler;

Movimento SOS Natureza de Luiz Correia;

Núcleo de Pesquisa em Participação, Movimentos Sociais e Ação Coletiva, NEPAC UNICAMP;

Observatório do Clima;

OekoBr;

Operação Amazônia Nativa, OPAN;

Organização dos Professores Indígenas do Acre, OPIAC;

Pacto Organizações Regenerativas;

Plataforma DHESCA Brasil;

ProAnima – Associação Protetora dos Animais do Distrito Federal;

Processo de Articulação e Diálogo, PAD;

Projeto Saúde e Alegria;

Rede Brasileira De Justiça Ambiental;

Rede Conhecimento Social;

Rede de Cooperação Amazônia, RCA;

Rede de ONGs da Mata Atlântica, RMA;

Rede de ONGs da Mata Atlântica;

Rede Feminista de Juristas, deFEMde;

Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e AIDS, RNP+BRASIL;

Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/AIDS do Estado de São Paulo, RNP+SP;

Sempreviva Organização Feminista, SOF;

SOS Mata Atlântica;

Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental, SPVS;

Terra de Direitos;

TERRA VIVA – Centro de Desenvolvimento Agroecológico do Extremo Sul da Bahia;

União Protetora do Ambiente Natural, UPAN;

Vida Brasil;

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Esta nota foi originalmente publicada no sítio oficial da Associação Brasileira de Organizações Não-Governamentais (Abong) [Aqui!].

O Brasil na imprensa alemã (21/08): boicote comercial e outras possibilidades

No debate sobre aumento do desmatamento na Amazônia e a suspensão de repasses para projetos ambientais no Brasil, publicações da Alemanha propõem sanções econômicas para pressionar Bolsonaro e frear destruição florestal.

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Queimada na Amazônia: “Futuro desse ecossistema não pode depender apenas de Bolsonaro”

Der Spiegel – Chegou a hora de impor sanções contra o Brasil (17/08)

A Amazônia diz respeito a toda a humanidade. O desenvolvimento do clima do mundo depende da preservação da floresta tropical. Portanto, não devemos deixar a decisão sobre o futuro desse ecossistema apenas para o presidente extremista de direita do Brasil, Jair Bolsonaro. A Europa não deve assistir inerte enquanto um cético da ciência, movido por preconceitos e pelo ódio, sacrifica vastas áreas de selva em favor de pecuaristas e plantações de soja.

(…)

Chegou a hora de se pensar em sanções diplomáticas e econômicas contra o Brasil. Os produtos agrícolas brasileiros devem desaparecer dos supermercados da UE se não for possível comprovar que foram produzidos em condições ambientalmente justas. Os poderosos grandes fazendeiros, que apoiam decisivamente Bolsonaro, devem sentir que sua atitude tem um preço. Porque seu ídolo não só inflige danos imensuráveis a seu próprio país, mas ao mundo todo.

Die Zeit – Atingir onde mais dói (14/08)

Mas a questão crucial permanece: de que adianta cortar o dinheiro para a conservação da floresta de um parceiro que, de qualquer forma, não tem mesmo interesse na conservação da floresta – e ainda responde à pressão pública com ostensiva teimosia, ao invés de mostrar disposição em conversar?

Talvez seja mais promissor atingir o Brasil num ponto que mais dói: os interesses econômicos de seus exportadores, como, por exemplo, dos agricultores, que vendem soja e carne bovina em larga escala para metade do mundo. A União Europeia é um dos principais importadores e acaba de assinar um acordo de livre comércio com o Mercosul, o mercado comum sul-americano, como anunciado orgulhosamente pelos representantes dos Estados participantes na cúpula do G20 em Osaka. O Brasil é o maior membro do Mercosul.

É verdade que o acordo contém cláusulas sobre proteção climática e florestal. Mas, segundo se sabe até agora – por enquanto só existe uma versão preliminar do texto –, elas permanecem bastante gerais. Elas não estabelecem referências claras para medir se as partes cumprem suas promessas, nem definem sanções. E, para Bolsonaro, o papel tem paciência. De qualquer forma, desde a assinatura do acordo de livre comércio, nada indica que o governo brasileiro realmente esteja se esforçando em prol de políticas climáticas eficazes ou da proteção da Floresta Amazônica.

Se a UE deixasse claro que só importa produtos de soja e carne bovina que foram comprovadamente produzidos respeitando a proteção das florestas tropicais e que, de outra forma, paralisará as importações, isso seria um meio de pressão poderoso. Os agricultores brasileiros são – juntamente com os evangélicos e os militares – importantes apoiadores de seu presidente. Jair Bolsonaro dificilmente pode se dar ao luxo de irritá-los.

Frankfurter Allgemeine Zeitung – Briga de poder pela floresta tropical (20/08)

Para o presidente brasileiro, a Amazônia é uma “virgem”. Que agora está ameaçada. “Pervertidos” querem atacá-la, disse recentemente Jair Bolsonaro, se referindo à Europa. Os europeus, segundo ele, fingem proteger a Amazônia para explorá-la no futuro. “Eles acham que a Amazônia não pertence aos brasileiros.”

Bolsonaro recusa conselhos e avisos sobre como ele deve lidar com os cerca de 5,5 milhões de quilômetros quadrados de área florestal em seu país. Ele quer promover o desenvolvimento econômico da Amazônia sem ser perturbado. Suas palavras caem em terreno fértil no país, revivendo um velho medo dos brasileiros de que a floresta tropical possa cair em mãos de uma potência estrangeira ou ser colocada sob administração internacional. Isso vem do tempo da ditadura militar. Sob o medo de se perder o controle da Amazônia, na época, estradas foram cortadas através da floresta, e colonos foram enviados para a região. Massacres da população indígena se seguiram.

(…)

Em Berlim, impera um sentimento de insegurança. É difícil se saber com quais meios Bolsonaro pode ser convencido a mudar de atitude em relação ao tema Amazônia – se é que isso é possível. A mesma questão surge com relação ao acordo de livre comércio entre a UE e a cooperação sul-americana Mercosul. As negociações foram concluídas no início de julho, e o governo em Brasília celebrou o acordo como um sucesso revolucionário. No pacto, o país se compromete a implementar o Acordo de Paris sobre Mudança do Clima e combater o desmatamento. Os europeus podem tornar a conservação da floresta tropical uma condição para diminuir tarifas? Ou será que isso teria o efeito exatamente oposto sobre Bolsonaro? Naturalmente, existe também a preocupação de que o acordo crie um incentivo para desmatar mais terras florestais, a fim de aumentar a cota de exportação de soja, por exemplo. A França já anunciou que não ratificará o acordo se o Brasil não combater o desmatamento na Amazônia.

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Este material foi originalmente compilado pela Deutsche Welle [Aqui!].

Jair Bolsonaro lança fake news sobre ONGs para esconder seus êxitos na destruição da Amazônia

fogo amazoniaAmazônia: Bolsonaro disse que organizações não-governamentais podem estar por trás das queimadas na região

Uma coisa que considero no mínimo curiosa é a tentativa do presidente Jair Bolsonaro de abrir mão de reconhecer o maior êxito de seu governo até agora que é o desmantelamento do sistema de proteção ambiental no Brasil. Confrontado com o sucesso de suas políticas anti-ambientais no avanço devastador da franja do desmatamento na Amazônia, o presidente do Brasil saiu-se com uma estrondosa “fake news” para tentar se esquivar do que imagens de satélite, vídeos e fotografias estão mostrando o mundo.

É que Jair Bolsonaro declarou que as queimadas devastadoras que estão ocorrendo na Amazônia não são de responsabilidade de invasores de terras públicas e latifundiários despreocupados com o meio ambiente, mas sim de ativistas de organizações não governamentais de proteção ao meio ambiente.

Quando solicitado a oferecer provas materiais de uma acusação tão grave, o presidente saiu pela costumeira tangente, afirmando que coisas desse tipo não possuem planos escritos, o que dispensaria a ele o ônus do oferecimento da prova.

É provável que Jair Bolsonaro ache que suas falas possam ser suficientes para dotar o segmento da população brasileiro que o apoia cegamente, bem como para municiar as milicias digitais que espalham suas “fake news”.  Tal crença é compreensível, pois até agora esse tipo de tática vem funcionando de forma eficiente e sem grande contestação no plano interno do Brasil.

O que Jair Bolsonaro não está certamente levando em conta é que as imagens da devastação em curso em boa parte da Amazônia estão circulando rapidamente pelo planeta inteiro neste momento. E é aí que o bicho pega, pois as relações comerciais que o Brasil possui, principalmente com a União Europeia, estão diretamente sob a dependência de acordos firmados pelo próprio governo brasileiro com a proteção da Amazônia e do combate ao desmatamento desenfreado.

Em outras palavras, o uso do “estilo Chacrinha” de comunicação pode até ser suficiente no plano interno, mas dificilmente resolverá ou sumirá com as pressões por um boicote internacional aos produtos agrícolas brasileiros. E é nesse contexto mais amplo que essa acusação sem base real contra as ONGs ambientalistas vai acabar acelerando a tomada de medidas contra o Brasil por governos estrangeiros que já estão sob imensa pressão para agir em prol da proteção das florestas amazônicas.