Demissão de chefe do Inpe é ‘alarmante’, diz diretor de centro da Nasa

bbc 1Desmatamento da Amazônia, em foto de 2007; floresta brasileira perdeu 20% de sua área desde 1970. Getty Images

A demissão de Ricardo Galvão do comando do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) é “significativamente alarmante”, pois “reflete como o atual governo brasileiro encara a ciência”.

A opinião é de Douglas Morton, diretor do Laboratório de Ciências Biosféricas no Centro de Voos Espaciais da Nasa, a agência especial americana, e professor-adjunto da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos.

“O Inpe sempre atuou de forma extremamente técnica e cuidadosa. A demissão de Ricardo Galvão é significativamente alarmante”, diz Morton por telefone à BBC News Brasil.

“Não acredito que o presidente Jair Bolsonaro duvide dos dados produzidos pelo Inpe, como diz. Na verdade, para ele, são inconvenientes. Os dados são inquestionáveis”, acrescenta.

Morton vem acompanhando de perto o Brasil nos últimos 18 anos, com foco especial nas fronteiras agrícolas na Amazônia e no Cerrado e na dinâmica do desmatamento, degradação florestal e manejo agrícola após conversão florestal. Em seu laboratório na Nasa, ele conduz pesquisas ecológicas em grande escala usando dados das plataformas aéreas e de satélite, modelos de ecossistemas e trabalho de campo.

bbc 2Para Douglas Morton, dados do instituto são ‘inquestionáveis’ e representam ‘verdade inconveniente’ para o presidente Jair Bolsonaro.

“O processo de análise de imagens de satélite providas por agências espaciais como a Nasa é feito com a mais absoluta transparência e imparcialidade pelo Inpe. O instituto tem prestígio internacional e sua equipe conta com funcionários gabaritados. Os dados são checados e rechecados antes de serem divulgados”, defende Morton.

“Neste sentido, a demissão de Galvão choca a comunidade científica pois envia um alerta sobre como o atual governo brasileiro encara a ciência”, acrescenta.

Morton observa ainda que, apesar de a metodologia na leitura dos dados sobre desmatamento poder variar de acordo com o organismo responsável pela análise, as discrepâncias são “muito pequenas”.

bbc 3Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, cortou qualquer interlocução do Ibama e do MMA com o Inpe, disse Galvão em entrevista à BBC News Brasil

“Os dados usados pelo instituto e outras organizações são baseados em imagens de satélite. O que varia é a forma como esses dados são processados. Mas não há nenhuma diferença fundamental no tocante à metodologia que justifique colocar em dúvida as informações divulgadas pelo Inpe”, diz.

Morton explica que a Nasa apenas fornece as imagens e não faz nenhuma análise sobre cobertura florestal no mundo. Cabe a especialistas como ele e organizações especializadas observar esses dados e avaliá-los.

As informações sobre desmatamento na Amazônia produzidas pelo Inpe são veiculadas por dois sistemas – Deter e Prodes. Esses dados são públicos e podem acessados pelo portal TerraBrasilis.

O Deter – levantamento rápido de alertas de evidências de alteração da cobertura florestal na Amazônia – é baseado em imagens dos sensores WFI, do satélite Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres (CBERS-4) e AWiFS, do satélite Indian Remote Sensing Satellite (IRS).

Já o Prodes gera as taxas anuais de desmatamento na região e utiliza imagens de satélites americanos da classe LANDSAT.

bbc 4Bolsonaro acusou Galvão de estar a serviço de ‘ONGs internacionais’

Demissão

Na última sexta-feira (2 de agosto), Ricardo Galvão foi exonerado do cargo de diretor do Inpe após atritos com o governo.

Segundo afirmou Galvão em entrevista à BBC News Brasil, a crise que culminou em sua demissão foi fruto de um longo desgaste com o ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente) – o ministro chegou a anunciar que poderia contratar uma empresa privada para substituir o Inpe no monitoramento.

O ex-diretor disse ainda que o ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, ignorou alertas feitos por ele desde janeiro deste ano, de que havia um problema de interlocução entre o Inpe e Salles.

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RICARDO GALVÃO / ARQUIVO PESSOAL. O físico Ricardo Galvão, 71 anos, é membro da Academia Brasileira de Ciências

A crise se tornou mais aguda a partir do dia 19 de julho, quando o presidente Jair Bolsonaro pôs em dúvida os dados do Instituto e disse que Galvão estaria “a serviço de alguma ONG”.

No dia seguinte, o diretor do Inpe concedeu entrevista defendendo as informações produzidas pelo instituto e criticando as declarações do presidente. Finalmente, na manhã da sexta-feira (02), Galvão foi informado por Marcos Pontes de que seria demitido.

Galvão foi nomeado diretor do Inpe em 2016 por Gilberto Kassab, que comandava à época o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações Comunicações (MCTIC). Antes disso, era professor titular da USP e presidente da Sociedade Brasileira de Física. Também é membro do conselho da Sociedade Europeia de Física e ex-diretor do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas.

O ex-diretor do Inpe é graduado em engenharia de telecomunicações pela Universidade Federal Fluminense (UFF), mestre em engenharia elétrica pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e doutor em física de plasmas aplicada pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology), com livre-docência em física experimental pela USP (Universidade de São Paulo). É membro titular da Academia de Ciências do Estado de São Paulo e da Academia Brasileira de Ciências (ABC).

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Este artigo foi originalmente publicado pela rede BBC [Aqui!].

Satélites tornam inútil qualquer tentativa de ocultação do que está acontecendo na Amazônia

03/07/2019 Coquetel de recepção para celebrar o 243º AniversMarcos Pontes, o dublê de ministro e turista espacial, interferiu na autonomia do Inpe para agradar o presidente Jair Bolsonaro, mas não impedirá a vigilância dos satélites que o Brasil não controla.

Todo o esforço que o governo Bolsonaro está realizando para ocultar o avanço explosivo da franja de desmatamento na Amazônia brasileira é inútil por um simples fato: o Brasil não controla os diversos satélites que monitoram diariamente a região.

Uma prova disso é o vídeo abaixo que mostra a situação na Área de Proteção Ambiental (APA) Triunfo do Xingu, de São Félix do Xingu que teria perdido 2.300 ha por causa do desmatamento ocorrido somente em julho de 2019.

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Este vídeo não existe

 

Assim, em vez de interferir na autonomia do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o que o governo Bolsonaro deveria fazer é recolocar os servidores do IBAMA e do ICMBIO em campo para impedir a devastação que está ocorrendo sob os olhares cúmplices do anti-ministro do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles e, por que não, do ministro Marcos Pontes da Ciência e Tecnologia.

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Aliás, ou fazem logo isso ou o Brasil brevemente sofrerá pesadas punições comerciais pelo que está sendo feito contra a Amazônia.

A modernidade envenenada de Tereza Cristina, a musa do veneno do governo Bolsonaro

Ricardo-Salles-e-Tereza-Cristina-1024x585Os ministros Ricardo Salles e Tereza Cristina são os principais responsáveis pelo sucesso da desconstrução das políticas ambientais no Brasil: o primeiro permite o avanço explosivo do desmatamento na Amazônia e a segunda acelera a aprovação de venenos agrícolas, muitos deles banidos em outras partes do mundo.

Indubitavelmente o governo Bolsonaro acumula muitas vitórias na implantação de sua pauta anti-ambiental, a maioria delas capitaneada pelo anti-ministro do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, e a pela ministra da Agricultura e “musa do veneno” Tereza Cristina (DEM/MS).

Graças à ação célere da dupla, o Brasil hoje vê-se imerso em uma disparada nas taxas de desmatamento na Amazônia e na aprovação “fast track” de venenos agrícolas que estão transformando o Brasil numa espécie de Chernobyl dos agrotóxicos, já que somente nos primeiros 7 meses de 2019 foram aprovadas 290 agrotóxicos para comercialização em diferentes partes do território nacional.

Hoje, a jornalista Lorena Rodrigues do “ESTADÃO” nos brinda com uma matéria em que Tereza Cristina faz uma espécie de celebração do seu sucesso como aprovadora mór de venenos agrícolas. Um detalhe para lá de instigante é o fato de que Tereza Cristina equipara a aprovação recorde de agrotóxicos altamente tóxicos para o ambiente e para a saúde humana como uma espécie de chegada à modernidade na agricultura brasileira.

tereza cristina venenos

Ainda segundo o relato de Lorena Rodrigues, Tereza Cristina teria alegado que “os produtos autorizados atualmente têm menos toxicidade e são melhores para o País”. Faltou à ministra dizer que para conseguir o feito de ter produtos aprovados sob a égide de serem menos tóxicos, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) mudou repentinamente seu sistema de classificação de graus de toxicidade, o que fez que dos 600 produtos anteriormente classificados como os mais tóxicos, tenham sobrado meros 98. Assim, convenhamos, até eu conseguiria o feito que Tereza Cristina está clamando ser seu.

Como examinei os 290 produtos aprovados pelo governo Bolsonaro e verifiquei o grau de toxicidade ambiental e humana, só posso concluir que a ministra e dublê de musa do veneno padece do desconhecimento do que anda aprovando ou é simplesmente cínica. A verdade é que os produtos que foram autorizados não são nem mais modernos do que os existentes no mercado e, tampouco, são menos tóxicos. Entre os agrotóxicos temos o Acefato e a Ametrina,  banidos pela União Europeia por causarem graves danos à saúde humana e ao meio ambiente. Só essas duas substancias tornam no mínimo falaciosa a declaração de Tereza Cristina de que “O Brasil não utiliza defensivos banidos lá fora, não é bem assim. Tem pesticidas que são usados aqui e não na Europa porque eles não têm a mesma cultura. O Brasil não utiliza nada que não pode ser usado“. O fato é que o Brasil utiliza sim substâncias banidas não apenas na União Europeia, mas também na China como é o caso do Paraquate

Um momento de sinceridade (talvez o único) que Tereza Cristina demonstrou foi de reconhecer a preocupação em não “assustar o consumidor estrangeiro”.  Mas, neste caso, o exemplo do alerta russo sobre o excesso de glifosato na soja brasileira e o boicote promovido pelo CEO da rede sueca Paradiset, Johannes Cullberg, indicam que o temor de Tereza Cristina é tardio, e que evidentemente cresce a sombra de que brevemente boa parte da produção agrícola brasileira seja impedida de entrar nos principais mercados mundiais. Seja por excesso de agrotóxicos banidos internacionalmente e aprovados pelo governo Bolsonaro sob a batuta de Tereza Cristina, seja pelo aumento explosivo das taxas de desmatamento na Amazônia.

Quando o isolamento sanitário acontecer e o Brasil ficar impedido de vender o grosso da sua produção agrícola, vamos ver como se comportarão Ricardo Salles e Tereza Cristina para explicar para o presidente Jair Bolsonaro (também autointitulado como “Johnny Bravo” que focinho de porco não é tomada.  A ver!

Desmatamento e farra dos agrotóxicos ampliam boicote aos produtos brasileiros na Suécia

Empresário Johannes Cullberg diz que campanha conta com universidades, organizações ambientais e a população. E deve crescer com o fim das férias no país

 
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Em suas lojas, Cullberg comercializa melões, suco de laranja, café, chocolate e água de coco, entre outros produtos brasileiros

São Paulo – Dono de uma rede de mercearias especializadas na venda de alimentos orgânicos na Suécia, a ParadisetJohannes Cullberg ficou conhecido internacionalmente no começo de junho, quando mandou retirar de todas as suas prateleiras os produtos brasileiros que comercializava – melões, suco de laranja, água de coco, café e chocolate, entre outros. A iniciativa de propor a outros lojistas que fizessem o mesmo, em reação à farra dos agrotóxicos no Brasil, desagradou o governo de Jair Bolsonaro (PSL).

Uma semana depois, em 12 de junho, a embaixada brasileira em Estocolmo divulgou carta aberta ao empresário, negando que o Brasil ocupe o primeiro lugar no ranking do consumo de agrotóxicos. Estaria entre o quinto e sétimo lugar, segundo o comunicado. Sobre as novas liberações, que já somam 290 em sete meses de governo, afirmou se tratar de uma necessidade do país de clima tropical, onde há grande variedade de pragas, insetos, fungos e bactérias e taxas de proliferação maiores que na Europa. E que isso aumenta os desafios e a exigência de agrotóxicos específicos para conter os elementos que prejudicam a agricultura e a produção. A embaixada destacou ainda que, como nas regiões tropicais é possível produzir até três safras por ano, a demanda por esses produtos acaba sendo bem maior.

resposta da Paradiset foi dada no dia seguinte. Também em carta aberta, Cullberg afirmou ser inaceitável para ele, como para qualquer pessoa, que a exposição a agrotóxicos tenha causado 4.208 casos de intoxicação e 355 mortes somente em 2016, como mostram dados da Rede Europeia de Cientistas para a Responsabilidade Socioambiental.  E salientou que, caso isso não fosse o bastante, em maio deste ano foi desmatada na Amazônia uma área de 739 quilômetros quadrados.  Como se uma área do tamanho de dois campos de futebol fosse desmatada a cada minuto.

Cullberg também se referiu ao anúncio de Bolsonaro de permitir a mineração na floresta Amazônica. “É totalmente incompreensível para mim, considerando que ele, como presidente, deveria ser o modelo para o país inteiro”. E clamou aos diplomatas brasileiros na Suécia: “Agora é tempo, mais do que nunca, em que precisamos proteger e cuidar da melhor maneira do nosso planeta. E não acelerar no sentido contrário, como o Sr. Bolsonaro está fazendo. As ações de Bolsonaro não afetam apenas o Brasil, mas o mundo inteiro”.

Ainda em sua carta, o sueco se voltou para a sociedade como um todo:  “Mesmo que o mercado do seu bairro escolha não boicotar os produtos brasileiros, você pode. Qualquer ação, por menor que seja, faz a diferença. Então, por favor, junte-se a mim nesta luta para que nosso planeta sobreviva. Nós não teremos uma segunda chance.”

Desde então, o empresário passou a liderar a campanha #BoycottBrazilianFood, que conta com a adesão crescente da população em geral, de organizações ambientalistas e de universidades. O crescente alarme sobre o aumento do desmatamento na Amazônia e da aprovação de novos agrotóxicos, segundo crê, têm contribuído para a conscientização da situação crítica não só para o Brasil como para todo o mundo.

Na semana passada, Cullberg concedeu entrevista por e-mail à RBA. Confira:

O que você pensa sobre a carta aberta do governo brasileiro?

Meu primeiro pensamento foi que, se a embaixada me pediu para parar, eu devo estar fazendo a coisa certa. Obviamente eu irritei alguém importante no governo Bolsonaro. Isso motivou-me ainda mais, e assim decidi ir além – o que, obviamente, não era a intenção da carta. Uma réplica mais madura teria sido convidar-me para discutir soluções potenciais, o que talvez possa ser um próximo passo. Como podemos ver, estamos apenas começando.

Desde que você anunciou o boicote, outros supermercados aderiram à campanha?

Na Suécia, há um oligopólio com três grandes cadeias cobrindo 86% do mercado. Todos eles seguem a mesma regra de não boicotar países a não ser que a Federação Sueca de Varejistas de Alimentos assim determine, o que depende da recomendação do governo sueco, da União Europeia ou Nações Unidas ou a União Europeia de fazê-lo. Por isso que agora estou em contato com líderes políticos suecos, no governo e na UE para apoiar o boicote. Eu também estou conversando separadamente com proprietários de mercados que têm ignorado as recomendações nacionais em alguns casos, para também tê-los junto. Mas a maioria deles está de férias. Portanto, é um trabalho em andamento, já que não é uma decisão pequena a ser tomada.

Qual é a situação atual da mobilização?

Logo após as férias suecas, iremos para a segunda fase. A meta é unir forças com companhias maiores que as minhas, e também com a indústria de alimentos, trazer políticos, somar forças com grandes organizações ambientais com aquelas pessoas que podem exercer pressão com sua “faca e garfo”, escolhendo não comprar mantimentos do Brasil que não sejam orgânicos, como carne bovina da JBS, por exemplo. Isso será feito pela educação nas mídias sociais.

Há muito apoio? Esse apoio vem de que setores?

Devido ao crescente alarme nos meios de comunicação sobre o aumento do desmatamento e da aprovação de mais agrotóxicos no Brasil, mais e mais pessoas estão se conscientizando da situação. Atualmente, o apoio vem das universidades, organizações ambientais e da população em geral, por isso, é atualmente um movimento ascendente. Grandes corporações são mais lentas para reagir devido a suas políticas e também porque o período de verão começou justamente quando eu lancei o boicote. Mas era preciso lançar.

Em janeiro, autoridades sanitárias russas advertiram o Brasil sobre a necessidade de reduzir o uso de agrotóxicos. Desde então, Bolsonaro já liberou 290 novos agrotóxicos. Na Europa, esse tema tem sido discutido?

Esse assunto não foi discutido o suficiente por duas razões: primeiramente há grandes forças econômicas de companhias como Bayer e Basf, que ativamente tentam silenciar qualquer discussão. Em segundo lugar eu penso que o conhecimento sobre o impacto dos agrotóxicos é muito baixo e as pessoas não percebem que todos nós somos afetados pelo aumento do uso de agrotóxicos no Brasil, já que recebemos parte deles em nossa alimentação, mesmo na Europa. Isso é algo que estou discutindo atualmente com especialistas da área. Penso em fazer podcasts para ajudar a educar as pessoas na Suécia sobre os efeitos negativos para a saúde.

Os jornais The Economist e The New York Times publicaram reportagem especial em que clamam aos líderes mundiais advertir Jair Bolsonaro, à indústria de alimentos para que deixe de comprar soja brasileira e que o comércio com o Brasil deve estar condicionado à proteção da Amazônia. Quais as suas expectativas a respeito?

É sempre bom quando uma mídia prestigiada como The Economist ou New York Times escreva sobre a situação, já que é mais “legítimo” e mais pessoas e líderes de negócios se tornam conscientes. Um artigo não vai mudar as coisas, mas quando a mensagem é repetida muitas vezes pode criar mudanças. O artigo do The Economist pode ser como uma faísca para criar o fogo selvagem necessário para ferir o Sr. Bolsonaro no único lugar que ele se importa: sua carteira.

Você acredita que a pressão internacional deve aumentar?

Eu também acredito que outros ativistas, como a sueca Greta Thunberg e o maravilhoso trabalho que ela está fazendo, pode ajudar o público em geral a entender que nós precisamos agir agora, não amanhã. É importante notar também que a Europa e os estados Unidos, historicamente, já destruíram muitos dos nossos recursos. E como a Amazônia é uma das poucas que ficaram no mundo, tem de ser protegida. Nós não podemos cometer os mesmos erros cometidos nos nossos ou em outros países no passado.

Outra coisa a ser observada é que a maioria dos agrotóxicos são vendidos a partir de países europeus e nós somos os que compram alimentos do Brasil, onde as lavouras avançam sobre áreas desmatadas e muitas vezes fazendas impõem condições de trabalho horríveis, a fim de tornar o custo dos alimentos produzidos a níveis insustentavelmente baixos.  Então somos todos, de um jeito ou de outro, responsáveis ​​pelo que está acontecendo no Brasil e em muitas outras partes do mundo. Mas também temos o poder de mudar isso.

Bolsonaro tem anunciado que pretende explorar a Amazônia em parceria com os Estados Unidos. O que você pensa sobre isso?

Bem, eu penso que Bolsonaro e Trump são as duas pessoas mais perigosas hoje em dia. E me impressiona como essas pessoas podem chegar ao poder em grandes nações como o Brasil e os Estados Unidos. A julgar pelas ações anteriores do Sr. Trump, eu acho que ele provavelmente se tornará o melhor amigo de Bolsonaro, o que deve ser evitado a todo custo. Seria uma amizade mortal para o planeta Terra.

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Esta entrevista foi originalmente publicada pela Rede Brasil Atual [Aqui!].

Brasil mata e desmata

mapa desmatamento

Por José Eustáquio Diniz Alves

[EcoDebate] O Brasil é o país que mais mata e desmata no Planeta. As forças retrógradas da nação brasileira persistem e insistem no delito do ecocídio e nos homicídios contra os defensores do meio ambiente, agravando o holocausto biológico. O Brasil é campeão da prática dos crimes socioambientais e ecossociais.

Segundo a “Global Forest Watch” o Brasil liderou o desmatamento de florestas primárias no mundo em 2018. Cerca de 12 milhões de hectares de florestas tropicais desapareceram em 2018, o equivalente a 30 campos de futebol por minuto. Só no Brasil, foi desmatado 1,3 milhão de hectares de florestas – sendo o país que mais perdeu árvores no ano passado. Mas o que estava ruim em 2018 piorou ainda mais em 2019, com o agravamento da defaunação.

Segundo a “Global Witness” o Brasil ficou em primeiro lugar entre os países que mais matam ativistas e defensores da terra e do meio ambiente entre 2002 e 2017. Em 2017, pelo menos 207 líderes indígenas, ativistas comunitários e ecologistas foram assassinados mundo afora por protegerem seus lares e comunidades dos efeitos da mineração, da agricultura em grande escala e de outras atividades que ameaçam sua subsistência e seu modo de vida. O Brasil foi o país com o maior número de ativistas ambientais assassinatos: 57, dos quais 80% defendiam os recursos na Amazônia.

Em 2018, o Brasil foi o quarto país que mais matou ambientalistas. Segundo o levantamento da Global Witness, 20 ambientalistas foram assassinados em 2018 no País. O Brasil ficou atrás de Filipinas (30 assassinatos), Colômbia (24) e Índia (23). No total, foram registrados 164 mortes de defensores do meio ambiente em 2018. Mas entre 2002 e 2018 foram assassinados 653 ambientalistas no Brasil, que ficou com o título de país que mais matou no mundo, no período. Além disto, o Brasil é um dos campeões mundiais em homicídios e acidentes de trânsito. Ou seja, o “Patropi” tem taxas escandalosas de mortes violentas.

O Brasil possui a maior reserva ambiental absoluta do mundo, segundo a Global Footprint Network. Contudo, o superávit ambiental era bem maior em 1961 (quando começaram os cálculos), cerca de 3 vezes o superávit atual. Ou seja, o Brasil perde biodiversidade e vê seus ecossistemas serem degradados na medida em que avançam as atividades antrópicas e os indicadores de desenvolvimento humano.

Como mostraram Alves e Martine (2017), toda a riqueza natural deste imenso país está sendo ameaçada pelo descuido, degradação e exploração selvagem dos ecossistemas. O aumento da poluição nas cidades, a destruição dos rios, o uso generalizado de fertilizantes e agrotóxicos, a construção de hidrelétricas, toda a cadeia produtiva industrial, a rede de comércio e serviços, a acidificação dos solos e das águas, a desertificação, a expansão da agricultura e da pecuária, o desmatamento, a malha de rodovias, os incêndios e queimadas, a exploração da biomassa, dentre outros tipos de degradação.

A Mata Atlântica ocupava uma área de aproximadamente 1.300.000 km2, estendendo-se por 17 estados do território brasileiro. Hoje, os remanescentes de vegetação nativa estão reduzidos a cerca de 22% de sua cobertura original e encontram-se em diferentes estágios de regeneração. Apenas cerca de 8% estão bem conservados em fragmentos acima de 100 hectares. Além de ser um dos biomas mais ricos do mundo em biodiversidade, a Mata Atlântica tem importância vital para aproximadamente 120 milhões de brasileiros que vivem em seu domínio, onde são gerados aproximadamente 70% do PIB brasileiro. O Brasil desmatou a ferro e fogo a Mata Atlântica.

O Cerrado é o segundo maior bioma da América do Sul, ocupando uma área de 2.036.448 km2, cerca de 22% do território brasileiro. Em seu espaço, encontram-se as nascentes das três maiores bacias hidrográficas da América do Sul (Amazônica/Tocantins, São Francisco e Prata), o que resulta em um elevado potencial aquífero. Depois da Mata Atlântica, o Cerrado é o bioma brasileiro que mais sofreu alterações com a ocupação humana. O Brasil desmatou mais de 70% do Cerrado.

O Pantanal é considerado uma das maiores extensões úmidas contínuas do planeta. A sua área aproximada é 150 mil km², ocupando assim 1,76% da área total do território brasileiro. Em seu espaço territorial, o bioma é influenciado por rios que drenam a bacia do Alto Paraguai. O Pantanal mantêm 86,8% de sua cobertura vegetal nativa. Apesar de sua beleza natural exuberante o bioma vem sendo muito impactado pela ação humana, principalmente pela atividade agropecuária. Apenas 4,4% do território encontra-se protegido por unidades de conservação. O Brasil desmatou 13% do Pantanal.

A caatinga ocupava uma área de cerca de 844 mil quilômetros quadrados entre o norte de Minas Gerais e o Nordeste, o equivalente a 11% do território nacional. Apesar da sua importância, a Caatinga tem sido desmatada de forma acelerada nos últimos anos, devido, principalmente, ao consumo de lenha nativa e a conversão de áreas naturais para pastagens e agricultura. O Brasil desmatou cerca de 50% da Caatinga.

O Pampa, localizado no estado do Rio Grande do Sul, ocupa uma área de 176.496 km², correspondendo a 63% do território estadual e a 2,07% do território nacional. Porém, a progressiva introdução e expansão das monoculturas e das pastagens com espécies exóticas têm levado a uma rápida degradação e descaracterização das paisagens naturais do bioma. O Brasil já desmatou 54% do Pampa.

A Mata de Araucária ocupava 36,7% da área do estado do Paraná (ou 73 mil km²), 60,1% do estado de Santa Catarina (ou 57 mil km²), 21,6% da área do estado de São Paulo (ou 53 mil km²) e 17,4% do estado do Rio Grande do Sul (ou 48 mil km²). Atualmente, os últimos remanescentes da mata está em perigo, pois foi excessivamente explorada, a maioria das vezes de forma ilegal. O Brasil desmatou impressionantes 99% da Mata de Araucária.

Os Mangues desempenham um importante papel como exportador de matéria orgânica para os estuários, contribuindo para a produtividade nas zonas costeiras. Por essa razão, constituem-se em ecossistemas complexos e dos mais férteis e diversificados do planeta. A destruição dos manguezais gera grandes prejuízos, inclusive para a economia, direta ou indiretamente, uma vez que são perdidas várias importantes funções ecológicas desempenhadas por esses ecossistemas. O Brasil desmatou cerca de 25% dos manguezais somente nos anos 2000.

A Mata de Cocais está situada entre uma zona de transição dos biomas da Amazônia e da caatinga nos estados do Maranhão, Piauí, Ceará, Pará e norte do Tocantins. O bioma é naturalmente fragilizado, e a procura de solos férteis, extração de minérios e de madeira, além de instalações industriais e comerciais estão poluindo o aquífero Tocantins-Araguaia e acelerando o desmatamento. A maior parte deste bioma está em processo de ser savanizada ou desertificada. O Brasil já desmatou cerca de 35% da Mata de Cocais.

A Floresta Amazônica é o maior bioma do Brasil: num território de 4,196.943 milhões de km2 crescem 2.500 espécies de árvores (ou um terço de toda a madeira tropical do mundo) e 30 mil espécies de plantas (das 100 mil da América do Sul). A bacia amazônica é a maior bacia hidrográfica do mundo, cobrindo uma área de cerca de 6 milhões de km2 e e tem 1.100 afluentes. O rio Amazonas lança ao mar cerca de 175 milhões de litros d’água a cada segundo. Água e floresta formam um ecossistema inigualável.

Dados do Prodes do INPE, mostram que o desmatamento, de 1988 a 2014, atingiu o montante de 408 mil km². Essa área desflorestada é maior do que a soma dos territórios dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Alagoas, Sergipe e Distrito Federal. No total, as seis Unidades da Federação possuem uma área de 393.462 km². Outros 400 mil km² foram destruídos entre 1965 e 1988. O Brasil já desmatou mais de 20% da Floresta Amazônica.

Todos estes números são assustadores, mas ao invés de estabelecer a meta de desmatamento zero e começar a investir na regeneração das florestas e dos ecossistemas, o atual governo brasileiro ataca as instituições que medem o grau de desmatamento e aquelas que defendem o meio ambiente e os povos da floresta.

O artigo “O novo presidente do Brasil e ‘ruralistas ameaçam o meio ambiente, povos tradicionais da Amazônia e o clima global” de Lucas Ferrante e Philip Fearnside, do INPA, publicado no sítio do IHU, resume a agenda antiambiental do atual governo e diz: “Jair Bolsonaro, que assumiu o cargo em 1º de janeiro de 2019 como o novo presidente do Brasil, tomou medidas e fez promessas que ameaçam a floresta amazônica brasileira e os povos tradicionais que a habitam. Os ruralistas, nomeadamente os grandes proprietários de terras e os seus representantes, que são uma parte fundamental da base política do novo presidente, estão a avançar uma agenda com impactos ambientais que se estendem a todo o mundo”.

O garimpo e a mineração são duas grandes ameaças à Amazônia. No dia 22 de julho, garimpeiros invadiram a Terra Indígena Waiãpi, no oeste do Amapá, e mataram de forma violenta o cacique Emyra Waiãpi, confirmando que o Brasil desmata e mata em volumes absurdos e de forma violenta, como o desmatamento em unidades de conservação na bacia do rio Xingu.

A revista britânica “The Economist” publicou a matéria “Relógio da Morte para a Amazônia” (01/08/2019) onde diz: “Em nenhum lugar as apostas são maiores do que na bacia amazônica – e não apenas porque contém 40% das florestas tropicais da Terra e abriga 10 a 15% das espécies terrestres do mundo. A maravilha natural da América do Sul pode estar perigosamente próxima do ponto de inflexão além do qual sua transformação gradual em algo mais próximo do estepe não pode ser impedida ou revertida. O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, está apressando o processo – em nome, ele afirma, do desenvolvimento. O colapso ecológico que suas políticas podem precipitar seria sentido com mais intensidade nas fronteiras de seu país, que circundam 80% da bacia – mas também ia muito além delas. Deve ser evitado”.

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Segundo dados do Deter, houve, até o dia 26 de julho, crescimento de 212% nas áreas desmatadas da Amazônia em relação ao mesmo mês do ano passado. De acordo com o sistema gerenciado pelo Inpe, a devastação de florestas neste período corresponde a 1.864 quilômetros quadrados, área maior do que o município de São Paulo. O desmatamento já tinha crescido 88% no mês de junho, na comparação com o mesmo mês de 2018.

Contudo, o governo federal contestou os dados sobre desmatamento, apontados por imagens de satélite usadas no monitoramento ambiental pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), órgão vinculado ao Ministério de Ciência e Tecnologia. O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, apresentou estudo feito pela pasta alegando inconsistências nos dados de desmatamento obtidos pelo Deter.

Mas comunicado à imprensa do INPE mostra que a Instituição prestou os devidos esclarecimentos e que “O INPE reafirma sua confiança na qualidade dos dados produzidos pelo DETER. Os alertas são produzidos seguindo metodologia amplamente divulgada e consistentemente aplicada desde 2004. É amplamente sabido que ela contribuiu para a redução do desmatamento na região amazônica, quando utilizada em conjunto com ações de fiscalização”.

Quanto à saída do Diretor do INPE, o Observatório do Clima divulgou a seguinte mensagem: “A exoneração de Ricardo Galvão é lamentável, mas era esperada. Ele selou seu destino ao não se calar diante das acusações atrozes de Jair Bolsonaro ao Inpe. Ao reagir, Galvão também preservou a transparência dos dados de desmatamento, ao chamar a atenção da sociedade brasileira e da comunidade internacional para os ataques sórdidos, autoritários e mentirosos de Bolsonaro e Ricardo Salles à ciência do Inpe. A imagem do Brasil já está irremediavelmente comprometida por essa cruzada contra os fatos. Nos próximos meses, Bolsonaro e seu ministro do Ambiente descobrirão, do pior jeito, que não adianta matar o mensageiro, nem aparelhar o Inpe: a única maneira de evitar más notícias sobre o desmatamento é combatê-lo.”

Ou seja, o maior país da América do Sul já destruiu cerca de 90% da Mata Atlântica e grande parte dos outros biomas. Agora caminha para destruir a Amazônia, enfraquecer as instituições que fornecem dados sobre o desmatamento e eliminar as pessoas que lutam para manter a floresta de pé e garantir a sobrevivência dos povos da região.

O Brasil é o país que mais mata e desmata. E o governo brasileiro em vez de evitar o desastre ambiental tem atuado no sentido de acelerar a destruição ecossocial e as bases da biodiversidade.

Na semana de 20 a 27 de setembro de 2019 haverá a greve global contra a destruição da natureza e em defesa do futuro. Será a Greve Global pelo Clima. O povo brasileiro precisa se inspirar na greve dos adolescentes contra as mudanças climáticas e iniciar um grande movimento de massas para defender o meio ambiente e não derrubar árvores, mas sim governos incompetentes e que contribuem para a destruição da base ecológica da vida na Terra.

José Eustáquio Diniz Alves
Colunista do EcoDebate.
Doutor em demografia, link do CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

Referências:

ALVES, JED. MARTINE, G. Population, development and environmental degradation in Brazil. In: LENA, P. ISSBERNER, LR. Brazil in the Anthropocene: conflicts between predatory development and environmental policies”, Londres, NYC, Routledge, 2017
https://www.chapters.indigo.ca/en-ca/books/brazil-in-the-anthropocene-conflicts/9781138684201-item.html

FOWKS, Jacqueline. Brasil, o país mais letal para defensores da terra e do meio ambiente, El País, 24/07/2018
https://brasil.elpais.com/brasil/2018/07/23/internacional/1532363870_921380.html

MCGRATH, Matt. Brasil liderou desmatamento de florestas primárias no mundo em 2018, BBC, 25/04/2019 https://www.bbc.com/portuguese/geral-48046107

The Economist. Deathwatch for the Amazon, London, 01/08/2019
https://www.economist.com/leaders/2019/08/01/deathwatch-for-the-amazon

Lucas Ferrante e Philip Fearnside. “O novo presidente do Brasil e “ruralistas” ameaçam o meio ambiente, povos tradicionais da Amazônia e o clima global” INPA, IHU, 02/08/2018
http://www.ihu.unisinos.br/591256-o-novo-presidente-do-brasil-e-ruralistas-ameacam-o-meio-ambiente-povos-tradicionais-da-amazonia-e-o-clima-global

INPE. Comunicado à imprensa, São José dos Campos, 01/08/2019
http://www.inpe.br/noticias/noticia.php?Cod_Noticia=5178

Global Week For Future 20-27 sept
https://fridaysforfuture.org/

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 05/08/2019

Ameaças e diversionismo não irão ocultar o desmatamento explosivo na Amazônia

bolso sallesO presidente Jair Bolsonaro e o ministro do meio ambiente Ricardo Salles: enquanto um ameaça, o outro tenta tampar o sol com a peneira.

O governo Bolsonaro se divide em ameaçar de demissão o  diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Ricardo Galvão e questionar a validade dos dados de desmatamento que os pesquisadores da instituição produzem de forma meticulosa. Essa postura é típica de quem sabe que suas próprias políticas de desmantelamento da governança ambiental e destruição dos mecanismos de comando e controle estão sendo altamente eficientes.

A “novidade” é o anúncio de que o governo Bolsonaro, por meio do seu anti-ministro do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, vai contratar uma empresa particular para fazer aquilo que o resto do mundo já reconhece o Inpe faz com maestria. Essa é a parte do diversionismo, pois não se diz nem como e porque se vai adotar uma nova e misteriosa forma de medir o desmatamento que hoje corre solto pelas florestas da Amazônia.  Há ainda, porém, um elemento do interesse privado e dos potenciais interessados em se contratar a peso de ouro uma empresa particular para fazer aquilo que o Inpe já faz.

O erro do governo Bolsonaro é subestimar o impacto do que está acontecendo a partir do êxito de suas políticas, pois se até a revista “The Economist” já apontou o dedo acusador, não vai ser com uma empresa contratada para produzir dados sob medida que a coisa vai se resolver.

Outro detalhe que parece escapar ao discernimento dos “espertos” que compõe o governo Bolsonaro é que existem dezenas de grupos de pesquisa fazendo trabalho semelhante ao do Inpe em várias partes do mundo. E, mais, que esses grupos não terão como ser tutelados ou seus diretores demitidos. Aliás, o mais provável é que vários pesquisadores de renome internacional que estão hoje no Inpe sejam convidados a continuar o trabalho que está sendo atacado no conforto de laboratórios igualmente equipados em outras partes do planeta. 

Volto a frisar que toda essa chacrinha em torno dos dados de desmatamento serve apenas para ocultar que os problemas criados pelo governo Bolsonaro vão além, muito além, do desmatamento. A ação ampliada de garimpeiros e madeireiros estão criando condições ideais para mais desmatamento, mas isto ainda não está necessariamente sendo medido pelo tipo de sensor utilizado pelo Inpe.  A gritaria mundial vai certamente aumentar quando os dados de desmatamento forem somados aos da degradação florestal que está sendo também acelerada na Amazônia, muito em função do que foi desconstruído pelo governo Bolsonaro em pouco mais de 7 meses de governo.

Finalmente, pressinto que qualquer violência institucional que seja cometida contra o Inpe deverá acelerar as respostas que muitos governos estrangeiros já estão articulando por causa da devastação que o governo Bolsonaro está permitindo na Amazônia. E se isso acontecer, talvez (notem que eu disse talvez) o presidente Jair Bolsonaro e sua entourage de ministros que parecem ter saído de filmes do Século XVI se toquem de que a banda não toca necessariamente do jeito que eles querem, e que existem repercussões para quem quer brincar de  Donald Trump das Selvas às custas do equilíbrio climático da Terra.

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Improbo Ricardo Salles não consegue explicar alta do desmatamento

Nota do Observatório do Clima sobre entrevista coletiva do ministro do Meio Ambiente

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 O ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles em entrevista na GloboNews.

A montanha pariu um rato. O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles (Novo-SP), convocou mais uma entrevista coletiva para apresentar os “dados reais” sobre o desmatamento na Amazônia prometidos por Jair Bolsonaro, mas terminou fazendo apenas ginástica retórica e botando a culpa na mídia pela interpretação dos dados.

Salles fracassou quatro vezes em sua performance: não conseguiu descredenciar o Inpe, instituição que Jair Bolsonaro havia chamado de mentirosa; não apresentou nenhum dado alternativo aos do sistema Deter, que divulga alertas de desmatamento; não explicou o aumento da devastação na Amazônia – o número de alertas em julho é o maior desde que o Deter foi criado, em 2004, e é quase quatro vezes maior do que o de julho do ano passado; e não disse o que vai fazer para conter a explosão da devastação, que é sua responsabilidade.

Pior ainda, reafirmou a intenção de usar dinheiro público para contratar mais um sistema de sensoriamento remoto, quando o que falta na Amazônia neste momento é fiscalização e investimento em atividades sustentáveis. Bolsonaro culpou o termômetro pela febre; seu ministro, agora, culpa a leitura do termômetro. A doença, porém, segue  sem tratamento – e o paciente sofre.

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Este artigo foi inicialmente publicado pelo ClimaInfo [Aqui!].

O improbo Ricardo Salles e a insustentável leveza da ocultação do desmatamento na Amazônia

salles pontesRicardo Salles e Marcos Pontes agem para ocultar o sucesso das políticas de devastação da Amazônia do governo Bolsonaro quando atacam a validade dos dados de desmatamento do Inpe.

O ministro (ou seria anti-ministro) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, continua em sua insustentável procura por uma peneira permita tampar o sol com a peneira no caso das explosivas taxas de desmatamento que estão ocorrendo na porção brasileira da bacia Amazônica.

É que a insistência em atacar os dados gerados pelo sistema DETER do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais apenas explicita ainda mais o fato inescapável de que o desmatamento explodiu na Amazônia sob as asas das políticas anti-ambientais do governo Bolsonaro, dos quais Ricardo Salles é um dos artífices. Nesse sentido, recomendo o interessante artigo da jornalista Giovana Girardi que explica de forma bastante didática como funcionam os sistemas de acompanhamento do desmatamento que o Inpe utiliza. 

desmatamento 1Políticas anti-ambiente do governo Bolsonaro estão acelerando devastação da Amazônia: o curioso caso de um sucesso que precisa ser ocultado.

Como já escrevi, o bode que Ricardo Salles tenta esconder é o sucesso de sua eficiência no desmanche no sistema de governança ambiental (que já era insuficiente) e da paralisação objetiva dos mecanismos de comando e controle que existiam no Ministério do Meio Ambiente antes da sua chegada ao cargo de ministro.  

Mas que ninguém se engane, o que Ricardo Salles está tentando fazer é apenas repetir as táticas diversionistas que são empregadas pelo governo Bolsonaro toda vez que alguém é pego com a boca na botija. A verdade inescapável é que este é um governo que foi eleito para permitir a ampliação desenfreada da devastação na Amazônia e vem trabalhando duro para que isso ocorra. O problema que o governo Bolsonaro vem enfrentando é que parceiros comerciais importantes não estão dispostos a assistir sentados o comprometimento da integridade física da Amazônia, e é isso que efetivamente incomoda Ricardo Salles.  Um artigo bastante crítico publicado pela respeitada “The Economist” indica que a resistência não deverá ficar restrita aos “veganos” como já citou o presidente Jair Bolsonaro.

Por outro lado, quero enfatizar um aspecto  que é pouco abordado em todo esse debate sobre os números do desmatamento.  O fato é que ao centrar todo o debate no corte raso, o governo Bolsonaro omite o fato que sua inação na proteção dos ecossistemas amazônicos estão permitindo o avanço não apenas da franja de desmatamento, mas também de diferentes formas e níveis de degradação que, eventualmente, podem facilitar a remoção total das florestas.  Falo aqui da ação dos garimpeiros e madeireiros que estão pilhando ilegalmente áreas inteiras da Amazônia e, por sua vez, aumentando as áreas sob degradação.

Apesar dessa dinâmica entre diferentes formas de degradação e a eventual ocorrência do desmatamento já ser conhecida, ainda faltam mais estudos de alcance global dentro da Amazônia para que se possa estimar quanto de seu território já foi impactado e quanto está em condições “intocadas”.  Mas posso adiantar que não apenas existem estudos nesse sentido sendo feitos, como os mesmos mostrarão que os 20% de áreas desmatadas são apenas uma parcela de um problema bem maior.

De toda forma, é fundamental não cair na “trampa” armada pelo governo Bolsonaro para desacreditar os dados do Inpe que são excelentes para se estimar a dinâmica do desmatamento e indicar os pontos de “hot spots” desse porção do problema causado pelo avanço da franja de destruição dos ecossistemas amazônicos, os quais sabemos são fundamentais para a regulação climática em escalas regional e global. Nesse sentido, defender a autonomia científica do Inpe é um excelente passo para desmontar os muros de ocultação que Ricardo Salles tenta construir para ocultar o sucesso de suas próprias ações.

Finalmente, me parece cada vez mais claro que o governo Bolsonaro está fortemente disposto a ser o artífice da destruição do acordo comercial do Mercosul com a União Europeia. É que dadas as salvaguardas ambientais colocadas para impedir a destruição da Amazônia e proteger os povos indígenas, o atual curso de negação do óbvio impedirá a ratificação do mesmo.  Algo que Donald Trump e sua política de hegemonia pela submissão irrestrita agradece plenamente.

Estudo demonstra correlação entre desmatamento e atraso no início e duração do período chuvoso na Amazônia

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Em meio aos argumentos anti-ciência que cercam os debates em relação ao retorno de taxas explosivas de desmatamento na Amazônia, três pesquisadores da Universidade Federal de Viçosa (UFV) acabam de publicar um artigo científico que demonstra a existência de uma correlação direta entre o avanço da franja de desmatamento e o atraso no início da estação chuvosa no “Arco de Desmatamento” na porção ocidental da Amazônia brasileira.

Publicado pelo respeitado “Journal of Geophysical Research”, e de autoria dos pesquisadores do Departamento de Engenharia Agrícola da UFV, Argemiro Teixeira Leite‐Filho, Verônica Yameê de Sousa Pontes e Marcos Heil, o artigo conclui, entre outras coisas, que  “ o desmatamento contribui para o atraso no início da estação chuvosa. Para todas as escalas analisadas, a análise de correlação mostra o início cada vez mais tardio da estação chuvosa ao longo do tempo à medida que o desmatamento progride.

Além disso, o trabalho também conclui que a análise de funções cumulativas de densidade de probabilidade para o início da estação chuvosa indicam que “uma porcentagem maior desflorestamento também está associado a uma maior freqüência de longos períodos de seca durante o início e estação chuvosa tardia em relação a regiões minimamente desmatadas“.

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Outras conclusões importantes, especialmente para um país que está cada vez mais dependente da sua produção agrícola para a geração de moedas fortes, é que “o  aumento do desmatamento também aumenta os riscos relacionados ao clima para a agricultura no sul da Amazônia.” E que “especificamente, considerando o sistema de cultivo duplo praticado na região, um atraso no início a estação chuvosa pode limitar a viabilidade de cultivar duas culturas sucessivas.

Os autores também constataram que a relação entre avanço do desmatamento e o atraso no início das chuvas também “é importante para o seleção de cultivares a serem plantadas por agricultores em sistemas de sequeiro, uma vez que cultivares período juvenil e cultivares de maturação média e tardia pouco toleram tardiamente devido a atraso início da estação das chuvas ou eventos com períodos de seca mais longos – os eventos que demonstramos são mais prováveis ocorrer em áreas de maior  desmatamento.”

Trocando em miúdos, o que este artigo alerta é que a prática da agricultura, especialmente aquela considerada tecnologicamente mais avançada e ligada aos mercados internacionais, tem tudo a perder com o avanço do desmatamento. Em outras palavras, que as preocupações ambientais não são “coisas de vegano” como afirmou recentemente o presidente Jair Bolsonaro.

Quem desejar acessar o artigo “Effects of Deforestation on the Onset of the Rainy Season and the Duration of Dry Spells in Southern Amazonia“, basta clicar [Aqui!].

O desmatamento na Amazônia está aumentando, mas o presidente do Brasil chama os dados de “uma mentira”

para deforestationO desenvolvimento está invadindo a floresta no estado do Pará no Brasil. Cerca de 7500 quilômetros quadrados de floresta foram derrubados em todo o país em 2018. IMAGENS DE GALLO / ORBITAL HORIZON / COPERNICUS SENTINEL DATA 2018 / GETTY IMAGES

Por Herton Escobar*

O desmatamento está subindo novamente na Amazônia brasileira, de acordo com dados de monitoramento por satélite. Mas o presidente de extrema-direita do Brasil, Jair Bolsonaro, que muitos culpam pelo aumento, contestou a tendência e atacou a credibilidade do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), que produziu os dados. Bolsonaro classificou os números como “mentirosos” durante uma conversa de café da manhã com jornalistas em 19 de julho, e sugeriu que o diretor do INPE, Ricardo Galvão, estava “a serviço de alguma organização não-governamental”. “Com toda a devastação que você nos acusa de fazer No passado, a Amazônia já se extinguiria ”, afirmou.

Seus comentários provocaram uma violenta reação da comunidade científica, que se sente cada vez mais sitiada pela administração Bolsonaro. “Os satélites não são responsáveis ​​pelo desmatamento – eles registram apenas objetivamente o que acontece”, diz um manifesto da Coalizão pela Ciência e Sociedade, um grupo recém-formado de cientistas preocupados com os acontecimentos políticos no Brasil. “Os fatos científicos prevalecerão, quer as pessoas acreditem ou não neles.” Galvão chamou de Bolsonaro um “covarde” por expressar acusações infundadas em público. “Espero que ele me chame a Brasília para explicar os dados e que ele tenha a coragem de repetir [o que disse] cara a cara”, disse Galvão em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo.

Bolsonaro – que disse que Galvão poderia se reunir com um ministro do gabinete – já atenuou suas críticas, mas insiste que o INPE deve consultar autoridades do governo antes de divulgar dados de desmatamento no futuro porque está prejudicando a imagem do Brasil no exterior. (A política oficial do INPE é divulgar todos os seus dados.) Muitos cientistas e ambientalistas proeminentes culpam o aumento do desmatamento nas agressivas declarações e políticas de desenvolvimento de Bolsonaro, incluindo a promoção da agricultura e mineração em terras protegidas.

O INPE, um instituto de pesquisa público com sede em São José dos Campos, vem acompanhando o desmatamento na Amazônia por meio de imagens de satélite desde a década de 1970. “Esses dados há muito são usados ​​como um indicador confiável do que está acontecendo na Amazônia brasileira”, diz Bill Laurance, diretor do Centro de Ciência Ambiental e Sustentável Tropical da James Cook University, em Cairns, Austrália. Um dos sistemas de monitoramento do INPE, chamado Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (DETER), gera um alerta toda vez que uma clareira maior que 3 hectares é detectada no dossel da floresta. Ele é projetado para funcionar como um sistema de alarme e guiar a aplicação da lei em campo, mas também gera registros aproximados de novos desmatamentos que são liberados semanalmente. Os dados mais recentes do DETER sugerem que mais de 4200 quilômetros quadrados de floresta foram cortados da Amazônia brasileira entre 1º de janeiro, quando Bolsonaro assumiu o poder, e 24 de julho. Isso é 50% mais do que nos primeiros 7 meses de 2018 e mais que o dobro da área desminada no mesmo período de 2017.

Outro sistema, o Projeto de Monitoramento de Satélite do Desflorestamento da Amazônia (PRODES), gera as taxas anuais oficiais de desmatamento do Brasil, calculadas a partir de uma seleção de fotos de alta resolução de diferentes satélites. Embora o PRODES seja mais preciso do que o DETER, os dois sistemas tendem a concordar entre si, então é provável que o próximo relatório do PRODES, esperado em dezembro, mostre um pico de desmatamento de magnitude similar, dizem os analistas.

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Declarar que os dados do INPE são uma mentira é semelhante a argumentar que a Terra é plana. Bill Laurance, James Cook University

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As taxas anuais de desmatamento diminuíram em mais de 80% entre 2004, quando o DETER entrou em operação, e em 2012, mas têm tendência de alta desde então. Cerca de 7500 quilômetros quadrados de floresta foram derrubados em 2018. Mas o pico deste ano se destaca, dizem especialistas. “Ao invés de ser uma surpresa, o resultado confirma os muitos relatos de desmatamento [atividades] no chão, e se encaixa com a expectativa do clima de impunidade que a retórica do governo promoveu”, diz Philip Fearnside, do Instituto Nacional de Desmatamento. Pesquisa na Amazônia em Manaus, Brasil.

Bolsonaro é um feroz crítico das regulamentações ambientais brasileiras e agências de aplicação da lei, que ele afirma serem tendenciosas contra a agricultura e o desenvolvimento econômico. Ele transferiu o controle sobre as terras indígenas para o Ministério da Agricultura e prometeu rever os limites dos parques nacionais e de outras áreas protegidas que, segundo ele, estão retardando o progresso no Brasil.

Outros cientistas defendem os números do INPE. “Declarar os dados do INPE é uma mentira que alega que a Terra é plana”, diz Laurance. “Eu sempre fui impressionado com a habilidade técnica dos cientistas do INPE e aplaudi-los por seus esforços pioneiros para fornecer estimativas anuais de desmatamento”, diz Douglas Morton, chefe do Laboratório de Ciências Biosféricas no Goddard Space Flight Center da NASA em Greenbelt, Maryland, EUA. e professor adjunto da Universidade de Maryland em College Park.

O INPE recebeu muito menos apoio do ministro da Ciência e Tecnologia do Brasil, o ex-astronauta da NASA e engenheiro aeroespacial Marcos Pontes, cujo departamento supervisiona o instituto. Em uma declaração de 22 de julho, Pontes, um membro do partido de Bolsonaro, disse que considera o INPE “em alta consideração”, mas aceitou as preocupações de Bolsonaro ao condenar o contra-ataque de Galvão. Pontes disse que pediu um “relatório técnico completo” do INPE sobre os últimos 24 meses de dados de desmatamento e disse que seu ministério havia convidado Galvão para “esclarecimentos e orientações”. Ele também disse que concorda que o INPE não divulgue seus dados tão cedo. como eles estão prontos.

“É claro que ninguém esperava [Pontes] entrar em choque com o presidente”, diz Mercedes Bustamante, ecologista da Universidade de Brasília e co-fundadora da Coalizão para Ciência e Sociedade, “mas o tom de sua declaração foi decepcionante”.

*Herton Escobar é jornalista especializado em ciência e meio ambiente em São Paulo.

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Este artigo foi originalmente publicado em inglês pela revista científica “Science” [Aqui!].