Desmatamento e ocupação desordenada ameaçam conservação do Cerrado

Desmatamento do Cerrado foi mais intenso que o da Amazônia entre 200 e 2015 (236 mil contra 208 mil quilômetros quadrados)

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Alto Paraíso de Goiás (GO) – Área de cerrado desmatada para plantio no município de Alto Paraíso (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Por Débora Brito – Repórter da Agência Brasil

Com mais da metade de sua área degradada, o Cerrado ainda aguarda o título de Patrimônio Nacional pela Constituição Federal, como já obtido por outros ecossistemas do Brasil. Depois da Amazônia, o Cerrado é o maior bioma da América do Sul. No Dia Mundial do Meio Ambiente, especialistas alertam para os danos irreversíveis que o intenso processo de degradação pode trazer não só para o bioma, mas também para a sociedade, ao pôr em risco a disponibilidade de água e a regulação do clima.

O Cerrado se estende por mais de 2 milhões de quilômetros quadrados (Km2) do território brasileiro, o que equivale a quase 24% do país. Contudo, a área com vegetação íntegra do bioma já foi reduzida a cerca de 20% de sua cobertura original.

Um estudo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) mostra que em 15 anos o desmatamento no Cerrado foi mais intenso que na Amazônia. De 2000 a 2015, o Cerrado perdeu 236 mil quilômetros quadrados, enquanto a perda na Amazônia, bioma duas vezes maior, foi de 208 mil quilômetros quadrados. Só no ano de 2015, o volume desmatado do Cerrado correspondeu a mais da metade da área devastada da floresta amazônica.

“A gente vê a expansão do agronegócio de maneira desenfreada no Cerrado, como se isso fosse totalmente natural. Esse é um dos motivos de tentar chamar a atenção para essa situação do Cerrado, que é um bioma que está se esvaindo rapidamente, sendo convertido em pastagens e áreas agrícolas de uma maneira desordenada”, alerta a bióloga Nurit Bensusan, coordenadora adjunta do Programa de Políticas e Direitos do Instituto Socioambiental (ISA).

Brasília - Incêndio destrói cerrado na região do Lago Oeste, no Distrito Federal (Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)
O Cerrado é o bioma mais afetado nas Américas pelas queimadas – Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Segundo relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), o Cerrado é o bioma mais afetado nas Américas pelas queimadas e pela produção de culturas como a soja e a cana-de-açúcar. O processo de expansão da fronteira agrícola, com a exploração predatória, como a produção de carvão vegetal e a pecuária, vem reduzindo gradativamente a extensão do bioma nas últimas décadas.

Patrimônio nacional

Para especialistas, o reconhecimento do Cerrado como Patrimônio Nacional é fundamental para a conservação do bioma. A Constituição de 1988 concedeu o título à Floresta Amazônica brasileira, Mata Atlântica, Serra do Mar, ao Pantanal Mato-Grossense e à Zona Costeira e estabelece que essas áreas e seus recursos naturais devem ser usados “dentro de condições que assegurem a preservação do meio ambiente”.

Tramita desde 2003 no Congresso Nacional uma proposta de emenda à Constituição que pretende incluir o Cerrado e a Caatinga ente os biomas considerados patrimônio nacional. A PEC já foi aprovada no Senado e aguarda, desde 2010, apreciação do plenário da Câmara dos Deputados.

“Não faltam elementos para reconhecer a importância do Cerrado como um ambiente fundamental para garantir a qualidade de vida dos brasileiros, por outro lado, ele está sempre em desvantagem, as políticas de conservação do Cerrado não são implementadas ou faltam políticas”, avalia a bióloga Nurit.

“Ainda há um grande desconhecimento por parte da população brasileira do que é a realidade de ocupação do Cerrado e como este processo nos afeta. O reconhecimento como patrimônio nacional tem um peso importante para sua proteção, não é uma questão local. A conservação do Cerrado tem repercussões e benefícios para o Brasil inteiro”, completou a professora Mercedes, do Departamento de Ecologia da Universidade de Brasília (UnB).

Fragmentos

As consequências da degradação poderão, no futuro, inviabilizar o próprio agronegócio. A mudança no ambiente alterou o regime de chuvas e de produção de alimentos no ecossistema que tem a maior produção agrícola e pecuária do país.

“Metade do Cerrado foi destruída, mas o que sobra dos outros 50% não são áreas inteiras, são áreas fragmentadas, pequenas ilhazinhas de cerrado. E as áreas fragmentadas não conservam aquela diversidade biológica, a mesma flora e fauna das áreas inteiras, mesmo que essa área esteja protegida por uma unidade de conservação”, explica a bióloga Nurit.

“Essas áreas muito fragmentadas não tem condições de sustentabilidade ou de continuar mantendo as funções ecológicas que geram serviços importantes para o ser humano, como a disponibilidade de água e regulação do clima”, completou a professora Mercedes.

As áreas desmatadas do Cerrado são responsáveis ainda pela elevada emissão de gases de efeito estufa. Segundo estudo recente do Observatório do Clima, em 2016, o desmatamento do Cerrado emitiu 248 milhões de toneladas brutas de gases de efeito estufa, volume que corresponde a mais que o dobro da emissão da indústria e equivale a 11% de todo o carbono que o Brasil lançou no ar no mesmo ano.

Meta de redução

Os dados mais recentes do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) indicam que a área desmatada no Cerrado entre 2013 e 2015 foi de quase 19 mil quilômetros quadrados, uma média atual de 9,4 mil quilômetros quadrados por ano. Antes de 2008, essa média era de 15,7 quilômetros quadrados. Segundo o Ministério das Cidades, que coordena o Programa de Monitoramento Ambiental dos Biomas Brasileiros, o resultado mostra redução de 37% no ritmo de desmatamento.

O ministério ressaltou que o percentual se aproxima da meta de redução em 40% do desmatamento do Cerrado estabelecida pela Política Nacional de Mudança do Clima até 2020. Mesmo com a redução, a pasta informou que “o governo continuará atuando até conter todo o desmatamento ilegal no bioma”.

Diferentemente da Amazônia, o monitoramento da degradação do Cerrado não é avaliado anualmente, mas, segundo o Ministério do Meio Ambiente, ainda este ano serão lançados os dados referentes a 2016 e 2017, e o Cerrado passará a contar com dados anuais. Também está em fase de testes o chamado Deter Cerrado, que fará monitoramento em tempo quase real do desmatamento, além de auxiliar nas ações de fiscalização.

O governo federal aprovou, em dezembro de 2016, a 3ª fase do chamado PPCerrado, plano de prevenção e controle do desmatamento. O programa, que será implementado até 2020, prevê o ordenamento fundiário e territorial, monitoramento e controle, promoção de cadeias produtivas sustentáveis e instrumentos normativos e econômicos.

No âmbito da fiscalização, o Ministério do Meio Ambiente informou que nos últimos 5 anos foram instaurados cerca de 2,3 mil processos de infração contra a flora. Foram feitas ainda ações de prevenção e controle de incêndios florestais e foi implantado um sistema de monitoramento da cobertura vegetal e outro de alerta de detecção do desmatamento.

Sobre a captação de recursos, o ministério esclarece que em breve o Brasil poderá pleitear pagamento por resultados alcançados na redução do desmatamento no Cerrado, assim como já é feito para a Amazônia. O Fundo Amazônia dispõe de R$ 2,5 bilhões em pagamentos e já investiu cerca de R$ 1,7 bilhão em projetos de combate ao desmatamento.

Alta biodiversidade

Segundo o Ministério do Meio Ambiente, o Cerrado abriga 5% da biodiversidade do mundo. É a savana com a maior diversidade de árvores e onde vivem 12 mil espécies de plantas nativas, além de mais de 2,5 mil espécies de animais, entre mamíferos, aves, peixes, anfíbios e répteis, e cerca de 67 mil espécies de invertebrados. No entanto, 20% das espécies nativas e endêmicas já não são encontradas nas áreas protegidas do Cerrado, onde pelo menos 137 espécies de animas estão ameaçadas de extinção.

O ecossistema tem cerca de 60 unidades de conservação, que protegem cerca de 8% da área total do bioma. Ele também é considerado o berço das águas, pois concentra as nascentes das três maiores bacias hidrográficas da América do Sul e a cabeceira de importantes rios, lagos e córregos responsáveis pela distribuição de água no Brasil.

Apesar do grande volume de água, alguns estados e o Distrito Federal estão enfrentando grave crise hídrica. “Se não tiver de fato uma política de conservação voltada para manutenção de recursos hídricos, a gente vai sofrer. Não se trata de inventar a roda, tem soluções que poderiam ser feitas a curto prazo e com efeitos positivos. Uma delas é evitar desperdício, pensar num uso mais sustentável da água na agricultura, em outro modelo de agronegócio que combine conservação e produção, além de usar menos agrotóxicos que poluem a água”, explica a especialista Bensusan.

Importância social

A vegetação do Cerrado está presente nos estados de Goiás, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Bahia, Maranhão, Piauí, Rondônia, Paraná, São Paulo, Distrito Federal, além de ocorrências no Amapá, Roraima e Amazonas. Na área de Cerrado, vive cerca de 40% da população brasileira e diferentes comunidades tradicionais, como indígenas, ribeirinhos, os chamados geraizeiros (do Cerrado do norte de Minas Gerais), quebradores de babaçu e quilombolas.

“Os povos do Cerrado são muito importantes, porque têm formas de vida tradicionais ligadas à natureza e que mantêm essa vegetação e essa fauna. À medida que os modos de vida dessas populações colapsam, a ameaça ao Cerrado duplica, porque essas pessoas têm que migrar para outras formas de uso da terra e dos recursos naturais que são mais predatórias, além da própria ameaça ao modo de vida dessas pessoas”, analisa a bióloga Bensusan.

Políticas de conservação

Um grupo de ativistas e pesquisadores socioambientais está elaborando um conjunto de recomendações de conservação do Cerrado para ser entregue aos candidatos à Presidência da República. As medidas serão definidas na próxima quarta-feira (7) em reunião prevista para listar os principais pontos abordados no Seminário Estratégia Nacional para o Cerrado, que ocorre nesta terça-feira na Câmara dos Deputados.

As medidas são reunidas em três eixos: conservação da vegetação e dos recursos hídricos, defesa dos direitos das comunidades e povos tradicionais e o desenvolvimento de um modelo de agronegócio sustentável. Entre as recomendações, estão a revisão das metas do Plano de Mitigação das Mudanças Climáticas e a criação de fundo de captação de recursos para o Cerrado.

Estudos

Os pesquisadores também estão trabalhando em conjunto com a Universidade de Brasília (UnB), que começou a desenvolver este ano um projeto de sensoreamento remoto para estabelecer conexões entre informações de segurança hídrica, energética e alimentar e as comunidades tradicionais que vivem no Cerrado.

O projeto vai consolidar na forma de mapas diferentes informações do bioma, por exemplo a variabilidade do clima nos últimos anos e as projeções futuras de mudanças climáticas com os possíveis impactos sobre a cadeia produtiva. Os primeiros resultados devem sair até o fim deste ano e serão levados pelos cientistas aos gestores públicos para basear as decisões sobre o tema.

“Hoje, a questão central do Cerrado é fazer uma boa gestão territorial que permita você ter o desenvolvimento da agricultura sem ocupar novos espaços e ao mesmo tempo garantir a segurança de fornecimento de água, alimentos e a utilização racional dos recursos energéticos nessa ocupação”, explica a professora Mercedes Bustamante, coordenadora do projeto.

Edição: Talita Cavalcante

FONTE: http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2018-06/desmatamento-e-ocupacao-desordenada-ameacam-conservacao-do-cerrado

INPE e suas “boas” notícias sobre o avanço do desmatamento na Amazônia

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O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) divulgou na última 6a. feira os números acerca da taxa consolidada de desmatamento na Amazônia brasileira e tentou dar um olhar positivo sobre a devastação em curso naquele bioma. É que os dados do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (PRODES) mostram que “apenas” 6.947 km2  em 2017, contra os 7.893 km2 de 2016. Os responsáveis ainda deram uma dourada a mais na pílula e compararam os dados de 2017 com os de 2004 quando desmatamento medido foi de mais de 25.000 km2

A verdade é que o ritmo atual da devastação coloca questões dramáticas não apenas para o Brasil, mas para o resto do mundo devido não só a importância dos biomas amazônicos para a sustentação dos níveis de biodiversidade, mas principal e especialmente para o equilíbrio climático do planeta.

O problema é ainda mais grave quando se considera que os números fornecidos pelo PRODES se refere ao chamado “corte raso” quando há a remoção completa da floresta. É que estão em curso outros processos de degradação, tais como extração ilegal de madeira e garimpos, que servem para abrir caminho para o futuro avanço de monoculturas e da pecuária extensiva que, por sua vez, favorecem a ocorrência de grandes incêndios florestais . 

Quando se considera a combinação do corte raso com outras formas de “degradação” da floresta primária é possível entender que a devastação da Amazônia está indo num passo mais acelerado do que os dados do PRODES nos permitem inferir.

Nunca é demais notar que estados como Pará, Mato Grosso e Rondônia continuam sustentando os seus tradicionais números altos de desmatamento. Entretanto, o fato de que o Amazonas está se colocando no grupo dos grandes desmatadores é particularmente preocupante já que o estado parece estar se transformando paulatinamente na fronteira mais dinâmica do desmatamento amazônico.

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Desta forma, é extremamente importante que sejam realizados mais estudos que integrem as diferentes formas de devastação que estão ocorrendo na Amazônia neste momento, de modo que tenhamos um entendimento mais amplo do que está acontecendo e das possíveis consequências deste processo irracional de destruição de seus biomas e da biodiversidade que os mesmos contém.

 

INPE registra 6.947 km2 de desmatamento na Amazônia em 2017

São José dos Campos-SP, 11 de maio de 2018

A taxa consolidada gerada pelo Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (PRODES), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), apontou o resultado de 6.947 km2  de corte raso no período de agosto de 2016 a julho de 2017.

O resultado indica uma diminuição de 12% em relação a 2016, ano em que foram apurados 7.893 km2  e também representa uma redução de 75% em relação à registrada em 2004, ano em que o Governo Federal lançou o Plano para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia (PPCDAm), atualmente coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA).

O mapeamento utiliza imagens do satélite Landsat complementadas por imagens dos satélites CBERS e ResourceSat, para cartografar e quantificar as áreas desmatadas maiores que 6,25 hectares. O PRODES considera como desmatamento a remoção completa da cobertura florestal primária por corte raso, independentemente da futura utilização destas áreas.

Com o PRODES, o INPE realiza o mapeamento sistemático na Amazônia Legal e produz desde 1988 as taxas anuais de desmatamento na região, que são usadas pelo governo brasileiro para avaliação e estabelecimento de políticas públicas relativas ao controle do desmatamento e ações voltadas a temática de REDD+. Os dados são importantes para toda a sociedade e embasam iniciativas bem-sucedidas como a Moratória da Soja e Termo de Ajuste de Conduta da cadeia produtiva de carne bovina, entre outras.

As tabelas abaixo apresentam a distribuição do desmatamento para o ano de 2017 nos Estados que compõem a Amazônia Legal, bem como a comparação com as respectivas taxas consolidadas para o ano de 2016.

Estado PRODES 2017 (km2) Contribuição (%)
Acre 257 3,7
Amazonas 1.001 14,4
Amapá 24 0,3
Maranhão 265 3,8
Mato Grosso 1.561 22,5
Pará 2.433 35,0
Rondônia 1.243 17,9
Roraima 132 1,9
Tocantins 31 0,4
Total 6.947 100,0
Estado PRODES 2016

(km2)

PRODES 2017

(km2)

Variação (%)
Acre 372 257 -31
Amazonas 1.129 1.001 -11
Amapá 17 24 41
Maranhão 258 265 3
Mato Grosso 1.489 1.561 5
Pará 2.992 2.433 -19
Rondônia 1.376 1.243 -10
Roraima 202 132 -35
Tocantins 58 31 -47
AMZ. Legal 7.893 6.947 -12

O resultado da taxa consolidada, obtida após o mapeamento de 217 cenas do satélite americano Landsat 8/OLI, é 4,9% acima do estimado pelo INPE em novembro de 2017, que foi de 6.624 km2, cálculo gerado à época com base em 95 imagens do mesmo satélite e que cobriram a área onde foram registrados mais de 90% do desmatamento no período anterior (agosto/2015 a julho/2016) e também os 39 municípios prioritários para fiscalização (Decreto Federal 6.321/2007, atualizado em 2017 pela portaria no. 360 do Ministério do Meio Ambiente).

Os gráficos abaixo mostram a série histórica do PRODES para a Amazônia Legal e seus Estados, além da variação relativa anual das taxas de desmatamento.

amzlegaltaxataxaprodestaxaprodesvariacao (1)

 FONTE:  http://www.inpe.br/noticias/noticia.php?Cod_Noticia=4778

Áreas protegidas sob risco na Amazônia: primeiro degrada, depois se extingue

Área desmatada na Amazônia

Em 2005 publiquei com vários colegas um artigo na revista Environmental Conservation onde apontávamos para o fato de que as unidades de conservação existentes no estado de Rondônia tinham se tornado uma espécie de nova fronteira para o desmatamento [1]. O que mostramos naquele trabalho acabou perdido no meio de uma onda de publicações que apontavam de forma normativa para uma espécie de bonança da conservação na Amazônia em meio aos aparentes sucessos das políticas neodesenvolvimentistas do governo Lula.

Agora eis que estão emergindo outros estudos que corroboram algumas das previsões que fizemos há quase 13 anos, apresentando cenários que demonstram que a situação das unidades de conservação em Rondônia  estão sob graça ameaça. Um desses trabalhos acaba de ser publicado pela Academia de Ciências dos EUA no “Proceedings of the National Academy of Sciences” [2].   O artigo assinado por Ateneh T. Tesfaw e colaboradores assinala que as unidades de conservação existentes na Amazônia estão sob a pressão de  uma dinâmica que combina a degradação dos ecossistemas contidos em seus limites com intervenções dos órgãos governamentais que terminam por: 1) mudá-las de categoria (normalmente de uma com uso mais restrito para outra menos protegida), 2) diminuir as suas áreas ou 3) simplesmente extingui-las (o que em inglês é rotulado de “degazettement” ou simplesmente a perda do status de proteção de todo o território da unidade de conservação”) . 

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Mas o artigo vai mais além ao procurar elucidar até que ponto a instalação de hidrelétricas e novos assentamentos agrários contribuem para que determinadas áreas de conservação sejam degradadas, diminuídas ou extintas. O resultado final dessa análise mostra que os impactos não são nada desprezíveis já que a perda de áreas sob conservação é notável (ver figura abaixo).

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Outro elemento crucial levantado no artigo se refere ao fato de que a percepção de “inefetividade” de uma dada área protegida (que se traduz pela existência de taxas altas de desmatamento em seu interior) acaba favorecendo a ocorrência de “barganhas” entre agentes estatais e privados no sentido de possibilitar a diminuição do status de proteção, da área sob proteção, ou mesma de que se faça a extinção da mesma. Isto tudo para que se facilite a instalação de projetos privados, tais como as hidrelétricas que foram construídas em Rondônia.

O problema aqui é que a “fome” por  a liberação de mais áreas para a instalação dos mais diversos tipos de empreendimentos privados parece não ter fim.  Para piorar o que já é ruim, o governo “de facto” de Michel Temer está agindo dentro do congresso nacional para esfacelar o processo de licenciamento ambiental visando justamente liberar mais território para a instalação de projetos de mineração e para a implantação de monoculturas. Em função disso é  provável que tenhamos um processo ainda mais agressivo para rebaixar o nível de proteção, diminuir a área sob proteção e para aumentar o número de unidades de conservação que serão extintas.

Por mais paradoxal que isto possa parecer, o artigo de  Ateneh T. Tesfaw e colaboradores nos mostra que este processo não começou agora e tem tudo para piorar. E se isso ocorrer, não vai ser por falta de informação científica qualificada.


[1] https://www.cambridge.org/core/journals/environmental-conservation/article/div-classtitleconservation-units-a-new-deforestation-frontier-in-the-amazonian-state-of-rondonia-brazildiv/45B8B11C2A5CFA110DF98B1E91FDD51F

[2]  http://www.pnas.org/content/early/2018/02/07/1716462115.short?rss=1

Abismo climático na Amazônia se aproxima, dizem cientistas

América do Sul pode enfrentar problemas de água com a devastação da floresta

 

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Por Reinaldo José Lopes, de SÃO CARLOS

A Amazônia está se aproximando perigosamente da beira do abismo climático, alertam dois respeitados pesquisadores (um brasileiro e outro americano) em editorial publicado numa das principais revistas científicas do mundo.

Se o Brasil e os demais países amazônicos não acharem uma maneira de evitar que o desmatamento da maior floresta tropical supere os 20% de sua área original, aumentará muito a probabilidade de que boa parte da Amazônia, no futuro não tão distante, simplesmente deixe de ser floresta.

Pássaros voam no meio da Amazônia
Pássaros voam no meio da Amazônia – Keiny Andrade/Folhapress

E isso seria uma péssima notícia não apenas para a biodiversidade da região como também para as dezenas de milhões de pessoas América do Sul afora que dependem da água gerenciada pela floresta —o que inclui tanto os moradores de Manaus quanto os da região Sul do Brasil, do Uruguai e até de áreas da Argentina e do Paraguai.

Ponto de Virada

Os responsáveis pelo alerta são o climatologista Carlos Nobre, membro da Academia Brasileira de Ciências, e o biólogo Thomas Lovejoy, da Universidade George Mason (Virgínia, EUA).

O grande temor da dupla é que, embora não se saiba exatamente qual o chamado ponto de virada do sistema amazônico —ou seja, qual o nível de desmatamento e degradação pelo fogo que faria com que grandes porções da floresta se tornassem inviáveis—, seria péssimo descobrir onde fica esse fiel da balança chegando lá, ou seja, quando já seria tarde demais.

Em países como os próprios EUA, políticos e ativistas conservadores que não aceitam as conclusões científicas sobre as mudanças climáticas costumam usar as incertezas consideráveis a respeito de como será o clima do futuro como argumento para evitar os custos de ações drásticas contra o problema, os quais poderiam afetar a economia.

Nobre diz que não vê esse tipo de argumento ganhando força no cenário político brasileiro, mas usa uma analogia médica para rebatê-lo.

“Quando você começa a sentir alguma coisa estranha, marca uma consulta com o médico, depois pode ouvir uma segunda ou uma terceira opinião. Bom, a incerteza sobre os efeitos das mudanças climáticas é muito menor hoje do que a que vem de uma consulta como essa, e mesmo assim as pessoas não deixam de seguir as recomendações dos seus médicos”, compara. “Vai contra toda a evolução da civilização você achar que não vale a pena minimizar um risco que é bem real.”

O risco de que Nobre fala vem de uma conjunção de fatores destrutivos. O primeiro e mais óbvio é o desmatamento —o qual, como lembra o pesquisador, só não ultrapassou o limite perigosamente alto dos 20% porque muitas áreas abandonadas na Amazônia já se regeneraram; ele estima que o número real hoje esteja entre 15% e 17%.

Desmates e queimadas tendem a tornar a mata mais vulnerável durante períodos de seca, porque a luz solar penetra com mais facilidade, levando ao acúmulo de matéria vegetal inflamável. E há indícios de que os próprios períodos de seca severa têm ficado mais comuns nas últimas décadas, com três episódios fora da curva em 2005, 2010 e 2015, por exemplo. Tais períodos de estiagem parecem estar ligados ao aquecimento anormal das águas do Atlântico, coisa que, por sua vez, é o esperado com uma temperatura média global mais alta.

Todos esses fenômenos podem ter impactos péssimos para a disponibilidade de água em boa parte da América do Sul porque a Amazônia, em grande medida, é capaz de reciclar seus próprios recursos hídricos, por meio dos processos de evaporação e transpiração das árvores e pelas moléculas orgânicas produzidas por elas, as quais ajudam a condensar nuvens de chuva. Boa parte dessa umidade é exportada rumo ao sul durante o inverno —justamente a época mais crítica no que diz respeito à falta d’água em boa parte do continente.

Embora o desmatamento tenha passado por aumentos em anos recentes, na contramão da tendência de redução desde 2004, Nobre considera que não houve mudança na postura governamental em relação ao tema.

“O Brasil tem mantido seus compromissos no Acordo de Paris [maior pacto internacional contra as mudanças climáticas firmado até agora] e continua buscando se colocar como liderança nessa área. A questão é saber até que ponto o discurso está afinado com a prática. E não há dúvida de que há forças políticas que querem expandir a produção de carne e grãos na Amazônia até os limites da demanda do mercado internacional por esses produtos, o que seria muito ruim”, diz o climatologista.

FONTE: https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2018/02/abismo-climatico-na-amazonia-se-aproxima-dizem-cientistas.shtml

Aquecimento global por causa do desmatamento será mais alto do que o estimado previamente

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O professor do Departamento de Física da Universidade São Paulo (USP), Paulo Artaxo, informou em sua página na rede social Facebook sobre a publicação de um artigo na revista Nature Communications onde fica apontado que o desmatamento de florestas vai provocar um aquecimento do clima global muito mais intenso do que o estimado originalmente. Isto ocorrerá devido às alterações nas emissões de compostos orgânicos voláteis biogênicos (BVOC) e as co-emissões de dióxido de carbono com gases reativos e gases de efeito estufa de meia-vida curta.  O artigo aponta que que as emissões de florestas que resfriam o clima (BVOCs) serão reduzidas, implicando que o desflorestamento pode levar a temperaturas mais altas do que o considerado em estudos anteriores. 

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Levando em conta todos estes fatores (CO2, VOCs, CH4, albedo, etc), os autores do artigo observaram que as emissões das florestas que esfriam o clima têm um papel enorme na regulação da temperatura do planeta. “Derrubando as florestas, acabamos com este efeito esfriador, e aumentamos o aquecimento global” afirmam os autores do trabalho. O efeito global é de um aquecimento adicional de 0.8 C, em um cenário de desmatamento total. Isso é um valor muito alto, comparável ao atual aquecimento médio global (cerca de 1.2 C) ocorrido com todas as emissões antropogênicas desde 1850.

O artigo na revista Nature Communications: “Impact on short-lived climate forcers increases projected warming due to deforestation” pode ser baixado livremente  [Aqui!].

Brasil bate recorde de queimadas em 2017

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Por Paulo Artaxo*

Brasil campeão em focos de queimadas em 2017. Mais um recorde brasileiro: 2017 teve o maior numero de focos de queimadas de toda a série histórica do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Foram 273.515 focos de queimadas detectados pelos satélites processados pelo Inpe. Destruição em massa do ecossistema Amazônico. E o país assistindo de camarote, sem nada para fazer em um governo Temer e congresso dominado por ruralistas.

Não se esqueça: Agro é POP!

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*Paulo Artaxo é professor titular do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP), membro  do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas  (IPCC) e  da Academia Brasileira de Ciências (ABC).

FONTE: https://www.facebook.com/paulo.artaxo?hc_ref=ARTEeGRloB3ZdsNZ8SbKRSN6sDltw2IFP54peslSBEjPFi2IA0EYM6gE0ned8K-atE0&pnref=story

Um tributo a John Browder, um intelectual que amava a Amazônia e seus povos

A morte de alguém próximo normalmente desperta sentimentos de perda e dor na maioria de nós.  Apesar de tomar a morte como um ponto inevitável no ciclo da vida, sempre me vejo confrontado esses sentimentos quando pessoas influentes na minha vida cessam sua existência. Este é o caso agora do meu orientador de doutorado, John Browder, que faleceu neste final de semana após uma dura batalha contra o câncer.

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Ainda que separados por milhares de quilometros desde que retornei para o Brasil em 1997, mantive com o professor Browder uma profícua parceira acadêmica e uma amizade que se fortaleceu ao longo do tempo. A última em que nos encontramos pude compartilhar na sua casa, onde na base de muitas marteladas consegui terminar de montar cadeiras que ele havia comprado numa loja do Walmart.  Enquanto eu martelava, John ria gostamente com todo aquele esforço para termos cadeiras para sentar e jantar.

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Mas a perda que a morte de John Browder representa vai muito além da pessoal para sua família e os que passaram pelas suas mãos como orientados ou simplesmente alunos na Virginia Tech. Com sua morte se encerra um capítulo de uma saga de pesquisas que ele iniciou na década de 1980 na Amazônia brasileira ocidental quando chegou em Rolim de Moura (RO) para estudar o ciclo de ouro da exploração do mogno, as quais carregam as digitais acadêmicas que ele fez questão de imprimir em cada um dos seus projetos acadêmicos.  Sendo um amante obsessivo dos detalhes e da perfeição, ele me impôs tarefas duras para obter dados sobre os processos controlando o uso da terra no estado de Rondônia, especialmente aqueles que oferecem alguma possibilidade de que a imensa riqueza amazônica representada em suas florestas não seja transformada literalmente em cinzas.  

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É dessa linhagem de pesquisas que precisamos urgentemente neste momento onde todas as barreiras para a completa destruição da biodiversidade amazônica estão sendo derrubadas. Em nossas últimas trocas de e-mails, John Browder se mostrou tremendamente preocupado com as notícias que chegavam sobre a retomada dos altos níveis de desmatamento na Amazônia brasileira. 

Apesar de John Browder já não estar mais por aqui para me instigar para publicar um artigo sobre a penetração da pecuária na Amazônia e suas contribuições para o avanço do desmatamento que ali está ocorrendo., tentarei levar essa tarefa para frente.  Creio que seria a melhor forma de retribuir todas a contribuições que ele generosamente me ofereceu enquanto orientador e amigo. 

Rest in peace, John Browder.

Voz da Alemanha: Retrocesso ambiental deve pôr Brasil em saia-justa na Europa

Recuo na política ambiental e poucos avanços na implementação do Acordo de Paris ameaçam levar governo a Temer a constrangimentos e reprimendas em conferência do clima da ONU na Alemanha.

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Desmatamento na Amazônia teve alta acima de 20% em dois anos seguidos, 2015 e 2016

O Brasil deve sofrer reprimendas de outros países e pode até passar por constrangimentos na próxima Conferência do Clima da ONU (COP23), que ocorre em novembro na Alemanha, em meio ao que ambientalistas descrevem como um pacote de retrocessos na política ambiental do governo.

O aumento do desmatamento na Amazônia, a possível redução do nível de proteção de áreas florestais e o foco excessivo da política energética nos combustíveis fósseis são fatores que farão o país chegar com uma imagem ruim à conferência deste ano. Presidida por Fiji, a próxima edição da COP, que ocorre anualmente, será realizada em Bonn, na Alemanha.

Embora o Brasil tenha feito até agora um bom trabalho em seus esforços diplomáticos na conferência, estes não têm sido acompanhado por avanços na implementação de medidas para reduzir as emissões de gases do efeito estufa e cumprir o Acordo de Paris, diz o secretário-executivo do Observatório do Clima, Carlos Rittl.

“Seis ou sete anos atrás, o Brasil chegava às COPs, um dos diplomatas fazia o anúncio da taxa de desmatamento e isso era seguido de uma salva de palmas porque significava que o Brasil estava enfrentando o desafio de reduzir o desmatamento e, com isso, diminuindo muito suas emissões. Agora não existe mais ambiente para aplausos”, afirma Rittl. “Pelo contrário, o presidente Michel Temer ter criado um ambiente onde as questões socioambientais são moeda de troca para conseguir votos no Congresso é constrangedor por si só.”

Segundo Rittl, o país já levou notícias ruins para a COP de 2016, como o aumento de 24% do desflorestamento na Amazônia em 2015 e a alta da violência no campo. Mas agora o cenário é ainda pior, com mais uma alta no desmatamento amazônico em 2016, de quase 30%, a pior taxa desde 2008.

Temer já levou ao Congresso um projeto de lei para alterar os limites da Floresta Nacional do Jamanxim, no Pará, reduzindo o nível de proteção ambiental da área. O projeto, que conta com apoio da bancada ruralista no Congresso, removeria restrições a atividades rurais e à mineração, e aqueles que ocuparam a região ilegalmente poderiam obter o título das terras.

O avanço do desmatamento já fez com que o governo brasileiro tomasse uma bronca da Noruega, que, questionando as políticas de conservação brasileiras, cortou pela metade, em quase 200 milhões de reais, o repasse ao Fundo Amazônia. A Alemanha também condicionou a manutenção de suas contribuições à redução dos índices de desmatamento.

No âmbito do Acordo de Paris, o Brasil tem como meta reduzir suas emissões de gases de efeito estufa em 37% até 2025 e em 43% até 2030, tendo como referência os níveis de 2005. Para isso, se comprometeu a zerar o desmatamento ilegal na Amazônia até 2030 e expandir a participação de energias renováveis na matriz energética brasileira, incluindo as energias eólica, biomassa e solar.

Impulso para os biocombustíveis

Uma nova política para biocombustíveis, o RenovaBio, pode ser a única notícia positiva que o Brasil terá a apresentar na conferência, mas, ainda assim, a falta de clareza sobre suas metas preocupa. O programa deve ser tema de um evento oficial do governo brasileiro na COP23, segundo o Ministério do Meio Ambiente.

O objetivo do RenovaBio é contribuir para que o país aumente a participação de bioenergia sustentável na sua matriz energética para aproximadamente 18% até 2030, expandindo o consumo de biocombustíveis, aumentando a oferta de etanol e a parcela de biodiesel na mistura do diesel.

Contudo, o governo precisa mostrar números mais concretos para ser convincente com o RenovaBio, diz o professor Tercio Ambrizzi, do Departamento de Ciências Atmosféricas da USP. “Quanto efetivamente vamos contribuir para o corte de emissões? Como isso vai ser importante? Se não se colocar números associados a ele, o anúncio desse programa é como anunciar um programa político”, afirma Ambrizzi, que prevê uma participação “pífia” do país na COP23.

Ainda que a política para biocombustíveis seja implementada, Ambrizzi ressalta que ela pouco trará se não for aliada a uma mudança na matriz energética. E não há indícios de grandes transformações. O Plano Decenal de Expansão de Energia, publicado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), vinculada ao Ministério de Minas e Energia, ainda prevê mais de 70% dos investimentos até 2026 no segmento de combustíveis fósseis, isto é, petróleo e gás natural.

Esse planejamento também foi alvo de críticas da organização Climate Action Tracker (CAT), que monitora o progresso de vários países para alcançar as metas do Acordo de Paris. Em avaliação publicada sobre o Brasil em maio, a CAT afirmou que “acontecimentos recentes no planejamento da infraestrutura energética e níveis crescentes de desmatamento evidenciam uma piora na implementação da política climática do Brasil, na direção oposta do que é necessário para atingir a meta do Acordo de Paris”.

A CAT também mencionou o corte de 50% no orçamento do Ministério do Meio Ambiente e outras áreas, o que, na sua avaliação, aumenta as preocupações sobre a capacidade do governo de monitorar o desflorestamento.

Pior do que Trump?

A COP23 será a primeira Conferência do Clima realizada desde que o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou a intenção de deixar o Acordo de Paris, o que deverá influenciar os debates. Porém, na avaliação de Rittl, do Observatório do Clima, o que tem ocorrido em termos de política ambiental e climática no Brasil chega a ser pior do que o abandono do acordo por Trump.

“Nos EUA, a decisão de Trump acabou gerando uma reação muito positiva de governos estaduais, prefeituras e no setor privado, com muitos anunciando que vão manter proporcionalmente as metas. No Brasil, o que estamos vendo é a desconstrução muito acelerada da política socioambiental num país que era exemplo.”

A imagem brasileira fica ainda mais negativa em comparação com a de outros países emergentes. De acordo com a CAT, medidas positivas de China e Índia, que estão acelerando a transição para energias renováveis e começando a abandonar usinas a carvão, superam significativamente os impactos negativos das propostas do governo Trump nos EUA.

Enquanto isso, especialistas apontam que o Brasil parece estar retrocedendo, o que põe em xeque a capacidade brasileira de cobrar outros países sobre suas ações climáticas nas discussões da COP.

“Em 2016, acendemos a luz amarela. O que está acontecendo agora no Congresso acende a luz vermelha. O alarme precisa ser ligado”, diz Rittl.

FONTE: http://www.dw.com/pt-br/retrocesso-ambiental-deve-p%C3%B4r-brasil-em-saia-justa-na-europa/a-40094991

Florestas amazônicas sob grave risco: Financial Times sugere que Michel Temer troca árvores por votos da bancada ruralista

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O “Financial Times”, um dos mais respeitados  veículos da mídia mundial na área de negócios e notícias econômicas, publicou nesta 3a. feira (18/07) um artigo de autoria do jornalista Joseph Leahy que deve causar mais dor de cabeça para o presidente “de facto” Michel Temer nas suas já conturbadas relações com outros líderes mundiais.

Sob o título de “Temer pushes Amazon deforestation bill in Brazil” (o que pode ser traduzido literalmente para o português como “Temer empurra lei de desmatamento da Amazônia no Brasil”) [Aqui!], Joseph Leahy sugere que o presidente “de facto” do Brasil está trocando a proteção das florestas amazônicas por votos da bancada ruralista no seu esforço de se manter no poder.

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Um dado oferecido pela matéria, e que demonstra a real necessidade de Michel Temer de adular os apoiadores do latifúndio agro-exportador, é de que a bancada ruralista contaria neste momento com 230 membros dentro de um total de 513 deputados.  E como a bancada ruralista não é de brincar em serviço quando se trata de defender os latifundiários, esse controle quase total da Câmara de Deputados explica bem uma série de votações que retroagiram uma série de direitos, começando pela contra-reforma trabalhista.

Partindo do Financial Times,  a afirmação de que Michel Temer está realizando uma troca crua das florestas amazônicas por votos que o mantenham no poder pode ter efeitos diretos nos interesses dos grandes capitalistas do agronegócio que operam no Brasil, visto que já existe um claro desconforto entre governos europeus de receber commodities produzidas em áreas de desmatamento novo.

Eu chamaria ainda atenção para os dados apresentados na matéria sobre o ritmo de desmatamento na Amazônia brasileira que foram produzidos pelo Instituto Nacional de Pesquisas Especiais (INPE) (ver figura abaixo).

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É que estes dados são referentes apenas às taxas de desmatamento de corte raso, que seria aquele que ocorre quando todo uma área é desprovida de sua floresta. O problema é que atualmente na Amazônia existem outras formas graves de degradação florestal que podem facilitar o avanço da mancha de desmatamento, incluindo a extração ilegal de madeira e incêndios.  Assim se somarmos, o desmatamento de corte raso aos danos causados pela extração ilegal de madeira e os incêndios, a ameaça sobre a Amazônia é ainda maior do que apontado pela matéria.

Um detalhe importante que foi mostrado por Joseph Leahy é que a principal ameaça neste momento que paira neste momento é a diminuição das áreas protegidas (um risco que eu e o um conjunto de colegas já havíamos antecipado em um artigo publicado em 2005 na revista “Environmental Conservation” [Aqui!]). 

Entretanto, ao conversar com o meu parceiro de pesquisas Eraldo Matricardi, do Departamento de Engenharia Florestal da UNB, ele ponderou que um aspecto particularmente desestabilizador para os esforços de conservação é a perda que está ocorrendo nas estruturas de comando e controle que foram implantadas a duras penas nas últimas quatro décadas na região.  É que com os drásticos cortes que estão sendo feitos no orçamento do Ministério do Meio Ambiente e da Ciência e Tecnologia, haverá uma inevitável degradação nas atividades de monitoramento via sensoriamento remoto e da ações coibitivas no solo.  E nessa perda de comando e controle, os muitos inimigos e saqueadores da floresta vão ficar livres para agir.

Em suma, o que está ruim poderá ainda piorar. É que pelo andar da carruagem, Michel Temer ainda vai precisar muito dos votos da bancada ruralista para escapar de seu processo impeachment.

 

 

 

O explosivo desmatamento na Amazônia brasileira e suas múltiplas consequências sociais e ambientais

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Jim Wickens/Ecostorm

Graças ao jornalista Maurício Tuffani do “Direto da Ciência” tive acesso a uma matéria assinada pelo jornalista Jamil Chade para o jornal “O ESTADO DE SÃO PAULO” sobre declarações estapafúrdias proferidas pelo ecretário-executivo do Ministério da Agricultura, Eumar Novacki que classificou os aportes da Noruega em torno de US$ 1 bilhão para proteção da Amazônia brasileira como “migalhas” (Aqui!).  Além disso, Novacki ainda emitiu os costumeiros lugares comuns sobre o esforço que o Brasil estaria fazendo para preservar suas florestas.

Antes que eu me concentre no que realmente importa, não me surpreende que o governo “de facto” de Michel Temer contenha personagens tão truculentos quão desinformados como Eumar Novacki. Aliás, essa é a essência de qualquer governo originado por golpes de Estado, e o de Michel Temer não teria como ser exceção.

Agora, se Eumer Novacki tivesse se dado ao trabalho de ler a edição 1141 da “insuspeita” revista Exame teria visto que a matéria mostrada na capa, e que é assinada pelas jornalistas Ana Luíza Herzog e Renata Vieira, era justamente uma que mostra os gravísssimos riscos que hoje ameaçam a floresta amazônica brasileira (para os interessados em ler a matéria na íntegra basta clicar (Aqui!)

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Os números e tendências mostrados na matéria são alarmantes, pois mostram um forte reaquecimento das taxas de desmatamento anuais, com um aumento de 60% entre 2014 e 2016. Mais mais importante do que as taxas anuais é o espalhamento das áreas de remoção de floresta nativa que agora estão atingindo regiões previamente intocadas, o que sugiro um forte agravamento do problema (ver figuras abaixo).

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Mas outras informações trazidas pela matéria são igualmente alarmantes sobre a situação do desmatamento na Amazônia.  Por exemplo:

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 Um aspecto que é elucidado na matéria é a relação direta que existe entre o aumento do desmatamento e o da produção agrícola (ver figura abaixo).  Esa associação não apenas desmente a propaganda disseminada por entidades ligadas ao latifúndio agro-exportador em termos das causas do aumento do total produzido, como também levanta elementos de risco para o futuro das exportações brasileiras de commodities agrícolas.

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Mas esse boom no desmatamento amazônico também custos sociais graves e os seguidos massacres de trabalhadores rurais sem terra e indígenas que estão ocorrendo neste momento são apenas uma das facetas mais evidentes. É que ao se facilitar o avanço do desmatameto, não raramente com a intervenção direta das forças policiais em prol do latifúndio, centenas de comunidades estão sob o risco de desaparecer por estarem no caminho do avanço do desmatamento e de todas as atividades que precedem e se seguem à eliminação das florestas.

A relação macabra entre o avanço do desmatamento e o aumento da violência está expressa nos resultados divulgados no dia de hoje pela organização não governamental Global Witness que colocou o Brasil como líder mundial no assassinato de ativistas pró-ambiente com um total de 46 mortes (Aqui!)

Como já publiquei diversos artigos científicos sobre as causas do desmatamento na Amazônico, vejo o atual momento como extremamente grave. É que temos uma combinação muito ruim de personagens dentro do governo federal. Por um lado, o latifundiário sojeiro Blairo Maggi controla o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), enquanto o inexpressivo Zequinha Sarney está à frente do Ministério do Meio Ambiente. De quebra, o presidente “de facto” Michel Temer, atolado em graves denúncias de corrupção, está cada vez mais dependente do suporte político da bancada ruralista no congresso nacional. Essa conjunção de forças aponta para a possibilidade de que o processo de desmatamento ainda irá se agravar ao longo dos próximos anos. Se isto se confirmar, as consequências também serão desastrosas em termos das alterações climáticas e para o regime de vazão dos principais rios amazônicos (os quais já estão sendo impactdos por uma malha cada vez maior de hidrelétricas). 

A recente promulgação pelo presidente “de facto” Michel Temer da Medida Provisória (MP) 759/2016, conhecida como “MP da Grilagem”, que estabelece a regularização fundiária e promove alterações estruturais em legislações do campo e da cidade (Aqui!) é uma clara demonstração da força do latifúndio agro-exportador, e um prenúncio de vem mais desmatamento por aí. 

Em suma, o cenário na Amazônia brasileira está mais ou menos como o da conjuntura política: ruim, com tendências a piorar.