Extinção do Ministério do Meio Ambiente tornará Brasil um pária no sistema de nações

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O anúncio feito hoje de que o Ministério do Meio Ambiente será fundido com o da Agricultura é uma forma indireta de dizer que o mesmo será extinto [1]. Esta medida sendo tomado em um país que contém os principais estoques de biodiversidade do planeta não pode ser tomada de forma leve, pois representa um erro gravíssimo e que comprometerá ainda mais a já depauperada imagem internacional do Brasil.

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Para quem não sabe, o Brasil foi, ainda na vigência do regime militar instaurado em 1964, um dos pioneiros na criação de um órgão específico para cuidar das questões relacionadas ao meio ambiente. Isto ocorreu em 1973 com a criação da  Secretaria Especial de Meio Ambiente, então vinculada ao Ministério do Interior,  com a promulgação do Decreto nº 73.030, de 30 de outubro de 1973.

Como alguém que realiza estudos relacionados na Amazônia desde 1991 não posso deixar de apontar que hoje o Brasil já possui dificuldades significativas para entrar na União Europeia que possui regras bastantes rígidas para a entrada de carne, por exemplo, vinda de áreas recentemente desmatadas na região amazônica.  Como já existe quem antecipe o estabelecimento de aceleração de desenfreada do desmatamento na Amazônia graças às várias promessas feitas pelo presidente eleito, o que poderia chegar a um aumento de quase 300% de novas áreas de florestas impactadas [2].

O incrível é que existem evidências científicas suficientes demonstrando que há um ligação direta entre a floresta amazônica e o cerrado com a disponibilidade de água no território nacional. Essa ciência é robusta e está amparada em incontáveis estudos acerca dos impactos climáticos locais e regionais do desmatamento na Amazônia. Em outras palavras, a facilitação do desmatamento e do aumento da área degradada nesses dois biomas deverá acarretar ciclos ainda mais agudos de seca e escassez hídrica para além da Amazônia e do Centro Oeste. Isto apenas se for considerado os impactos nacionais. O problema é que a proteção da Amazônia e seus estoques de carbono é um elemento chave na tentativa de impedir que as mudanças climáticas se tornem ainda mais aceleradas. 

Desconhecer a necessidade ampliar o processo de proteção ambiental trará consequências desastrosas para o Brasil e sua já combalida economia. Como bem alertou hoje a ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva, a extinção do ministério implicará num triplo desastre, na medida em que: 1) trará prejuízo à governança ambiental e à proteção do meio ambiente; 2) passará aos consumidores no exterior a ideia de que todo o agronegócio brasileiro, em que pese ter aumentado sua produção por ganho de produtividade, sobrevive graças à destruição das florestas, sobretudo na Amazônia, atraindo a sanha das barreiras não tarifárias em prejuízo de todos; 3) empurrará o movimento ambientalista, a ter que voltar aos velhos tempos da pressão de fora para dentro, algo que há décadas vinha sendo superado, graças aos sucessivos avanços que se foram galgando em diferentes governos, uns mais outros menos [3].

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Particularmente não acredito que os formuladores da nova estrutura ministerial serão demovidos dessa extinção desastrosa.  O que veremos será um avanço da franja de desmatamento nos mesmos moldes que a região amazônica experimentou no início da década de 1970, algo que um dos generais que assessoram o presidente eleito já se mostrou nostálgico.  Essas são favas praticamente contadas, e provavelmente favas de soja. O problema para o Brasil é que o mundo mudou bastante nas últimas 4 décadas e os custos políticos e econômicos serão incalculáveis.  


[1] https://noticias.uol.com.br/politica/eleicoes/2018/noticias/2018/10/30/governo-bolsonaro-transicao-fusao-ministerios-guedes-e-onyx.htm

[2] http://amazonia.inesc.org.br/destaque/desmatamento-saida-do-acordo-de-paris-a-amazonia-no-governo-bolsonaro/

[3] https://www.revistaforum.com.br/marina-critica-extincao-do-ministerio-do-meio-ambiente-retrocesso-e-incalculavel/

The Guardian: Apoiadores de Bolsonaro declaram guerra às florestas da Amazônia

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Apoiadores de Bolsonaro declaram guerra às florestas

A maioria na fronteira do oeste do Brasil, altamente desmatada, apoia Jair Bolsonaro e suas promessas de progresso em vez de proteção

Por Dom Philips, em Porto Velho (RO) [1]

O rugido de uma motosserra e o uivo de um motor de trator foram suficientes para atrair as autoridades do meio ambiente para um caminho esburacado na floresta.

Na clareira no final da estrada, três jovens madeireiros silenciaram suas máquinas e ofereceram seus documentos. Eles foram pagos em dinheiro, disseram – quase quatro vezes o salário mínimo brasileiro para enviar até dois caminhões por dia de enormes toras de madeira.

E como a maioria das pessoas no estado de Rondônia, fortemente desmatado, na fronteira oeste do Brasil, elas têm certeza de quem vão votar na votação presidencial de domingo.

“Tem que ser Bolsonaro. Ele nos apoia ”, disse Edivaldo da Silva, 22.

As pesquisas mostram que Jair Bolsonaro, o ex-capitão do Exército de extrema-direita, tem 78% de apoio em Rondônia, deixando seu rival de esquerda, Fernando Haddad, na poeira. Na Amazônia, Bolsonaro prometeu progresso em vez de proteção. E suas propostas radicais – neutralizar as agências federais de meio ambiente, dar luz verde a represas hidroelétricas destrutivas, congelar a demarcação de novas reservas indígenas e abrir as já existentes para a mineração – com os eleitores daqui, inclusive os que violam leis ambientais. Madeireiros, garimpeiros ilegais e posseiros em uma reserva protegida disseram ao Guardian que estão votando em Bolsonaro porque acreditam que ele facilitará suas vidas.

Ambientalistas argumentam que os planos de Bolsonaro serão desastrosos para a Amazônia e 33 grupos não-governamentais advertiram que suas propostas representam “riscos concretos e irreversíveis” para as florestas brasileiras, a biodiversidade e até mesmo a reputação de seus produtores do agronegócio.

Os aliados de Bolsonaro esquecem essas preocupações. Seu chefe de gabinete e seu candidato a governador de Rondônia criticavam a “interferência” estrangeira na Amazônia e disseram ao “The Guardian” que tinham dúvidas sobre a ciência do aquecimento global. 

Tais visões são comuns em um estado onde os pequenos produtores dizem que são injustamente penalizados por violarem as regras ambientais e argumentam que a responsabilidade pela mudança climática deve ser compartilhada globalmente. 

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Lucemar Kouchut  dirige um carregamento de toras.  Fotógrafo: Dom Phillips

Os três madeireiros mostraram aos funcionários ambientais documentos que, segundo eles, mostraram que seu trabalho foi licenciado sob um plano que permite o corte de árvores “sustentável”. 

Mas os fiscais concluíram depois que os documentos se referiam a outro trecho de terra a 400 metros de distância – não essa área próxima a uma floresta protegida e uma reserva indígena. 

Esse é um estratagema comum, disse Sebastiana Almeida, engenheira florestal na agência de desenvolvimento ambiental de Rondônia. “Com esse documento em suas mãos, eles roubam madeira de dentro da área protegida ou da reserva indígena”, disse ela.  

As pessoas em Rondônia – 43% de seu território foram desmatadas – concordam em grande parte em duas coisas: que votarão em Bolsonaro e que o estado está ficando mais quente e seco.  

Dados do governo confirmam isso. As temperaturas médias anuais na parte norte de Rondônia tiveram uma média entre 26C-28C em 2017, dois graus a mais do que cinco anos antes. A precipitação anual também caiu em todo o estado.  

“O tempo está todo confuso”, disse Wagner Matos, 37 anos, um motorista do Uber em sua capital Porto Velho, que culpou o desmatamento.  

Mas o congressista Onyx Lorenzoni, provável chefe de gabinete de Bolsonaro, contesta que o aquecimento global seja um problema.  “Há coisas que são sólidas e há coisas que são ideológicas”, disse ele ao The Guardian, antes de criticar o Greenpeace por se intrometer no meio ambiente brasileiro. “Os brasileiros estarão no comando da Amazônia, meu irmão, não dos europeus.”

Outros aliados de Bolsonaro pediram mais indústria na Amazônia. O coronel João Chrisóstomo, engenheiro aposentado do exército eleito como um dos deputados federais do estado em 7 de outubro para o Partido Social Liberal (PSL) de Bolsonaro, disse que os militares deveriam asfaltar suas estradas de terra. “O meio ambiente não pode atrasar o desenvolvimento”, disse ele.  

Estradas melhores agradariam a habitantes de Rondônia, como Sheila Barros, 44, que mora com o marido de pescador Adegilton Lopes, 44, e seus dois filhos dentro da reserva protegida do Lago do Cuniã.

 “Não há estrada, não há maneira de obter nossos produtos”, disse ela. A reserva fica a apenas 70 km de Porto Velho, mas chegar nela envolve dirigir por estradas de terra, duas viagens de barco e uma motocicleta que deixa os cabelos em pé por uma estreita trilha na floresta. 

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“Onde mais há tanto verde?”, Diz o pescador  Mabel Lopes, morador  da reserva protegida do Lago do Cuniã. Foto: Dom Phillips

Mas a história da Amazônia mostra que a pavimentação de estradas traz desenvolvimento e destruição para reservas florestais como o Lago do Cuniã, administrado pelo Instituto Chico Mendes (ICMBio), que só permite a pesca de pequena escala e agricultura sustentável para 400 moradores que moram ao lado de uma lagoa majestosamente bela. para jacarés e bandos de pássaros. 

A pescadora Mabel Lopes, de 65 anos, disse que até a criação da reserva em 1999, a lagoa foi sobrepujada por pessoas de fora. Hoje em dia, ele disse, há muitos peixes. Acenando para a floresta exuberante, ele perguntou: “Onde mais há tanto verde?

“Bolsonaro já  prometeu retirar o Brasil do acordo climático de Paris, embora na quinta-feira ele tenha dito que mudou de idéia ao sair do acordo. 

Mas ele prometeu pôr um fim ao “ativismo ambiental” do ICMBio, e da agência ambiental Ibama, e pode passar o ministério do meio ambiente para o Ministério da Agricultura – cujo chefe será escolhido pelo lobby do agronegócio. 

Ele também prometeu ajuda para os garimpeiros artesanais conhecidos simplesmente como “garimpeiros”, alguns dos quais trabalham ilegalmente, dragando lama dos rios da Amazônia em busca de ouro – e, no processo, despejando toneladas de mercúrio e envenenando as populações de peixes. 

Em uma tarde recente, várias barcaças garimpeiras de madeira foram ancoradas no rio Madeira, perto do Lago do Cuniã. Dois homens que manejam as bombas a bordo de uma barcaças admitiram que estavam trabalhando ilegalmente, e temiam ataques do IBAMA – depois disseram que a promessa de “dignidade e segurança” de Bolsonaro havia obtido seus votos.  

“Ele prometeu legalizá-lo, para que trabalhássemos”, disse Aroldo da Silva, 53 anos, dono da barcaça, enquanto uma tempestade açoitava o rio. “Ele prometeu mudanças na lei.”  Marcos Rocha, um coronel da polícia aposentado do PSL de Bolsonaro, que está liderando as pesquisas para o segundo turno do governo de Rondônia, também acredita que os garimpeiros deveriam ser legalizados porque as pessoas precisavam trabalhar. 

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Barcaça garimpeira de Aroldo da Silva. Foto: Dom Phillips

“Os garimpeiros e os madeireiros eram as pessoas que começaram nosso estado, mas hoje são marginalizados. Há muitas pessoas na pobreza”, disse ele em uma entrevista. “Queremos gerar riquezas e renda para o nosso país”.  

A Amazônia precisava de “mais indústria”, disse ele, antes de sugerir que os alarmantes aumentos de temperatura do planeta poderiam ser cíclicos e ocorrer naturalmente.  O atual governador do estado de Rondônia, Daniel Pereira, e seu legislativo estadual estão trancados em um impasse judicial sobre 11 novas reservas florestais criadas por seu antecessor e depois derrubadas por deputados estaduais. Rocha ficou do lado dos legisladores e disse que as pessoas que se agacham em reservas protegidas deveriam poder ficar.  

Alguns desses posseiros moram em Jaci Paraná, uma reserva administrada pelo governo estadual a cerca de 100 km de Porto Velho, que só permite a agricultura sustentável em pequena escala por membros de uma cooperativa. O gado é proibido, mas a reserva foi amplamente desmatada por fazendeiros.  

Na semana passada, um grupo de fiscais estaduais do meio ambiente visitou a reserva com uma escolta policial armada. Eles pararam em uma fazenda de madeira cercada por gado pastando, onde Jessica da Silva, 23 anos, estava sentada com seus dois filhos pequenos enquanto seu marido, Alex dos Santos, cuidava do rebanho. 

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Um oficial de proteção ambiental do estado de Rondônia, Nei Peres, examina uma área desmatada na reserva de Jaci Paraná. Foto: Dom Phillips

Da Silva disse que não planejava votar porque está matriculada em outra cidade, mas que o marido votaria em Bolsonaro.  

Mais abaixo na estrada de terra, passaram por uma motocicleta cujo ocupante estava carregando uma motosserra no colo. Os policiais acenaram com a bicicleta e se aproximaram, mas antes que eles tivessem chegado longe com suas perguntas, o passageiro correu para a vegetação rasteira. Um dos oficiais disparou um tiro e o homem foi trazido de volta algemado – mas ele foi liberado mais tarde.  

Ninguém presta muita atenção às leis ambientais aqui.  

Ednesio Diogo, 51 anos, e Jonas Dantas, 22 anos, estavam preparando o almoço ao lado da estrutura de uma casa de madeira que estavam construindo quando os fiscais ambientais chegaram.

Diogo disse que a casa era para seu filho, Wallan, 21 anos, que recebeu a terra onde planejava criar gado, plantar café e construir um viveiro de peixes. Quando o oficial de proteção ambiental Nei Peres disse aos homens que eles estavam lá ilegalmente e teriam que sair, Diogo apenas assentiu. Os dois homens disseram que votariam em Bolsonaro.

No sábado, veículos do IBAMA foram incendiados em Buritis, um dia depois que os agentes do ICMBio em uma missão anti desmatamento ficaram abandonados quando moradores incendiaram uma ponte no Pará, outro estado do Amazonas. 

 nova guerra do Brasil contra suas florestas e aqueles que as defendem já começou.


Artigo publicado originalmente pelo jornal “The Guardian” [1]

Financial Times faz matéria sobre soja e desmatamento no Cerrado

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A provável eleição de Jair Bolsonaro para presidir o Brasil traz entre muitas promessas o desmantelamento das estruturas de proteção ambiental visando, supostamente, abrir novos espaços para a agricultura em biomas ameaçados como o Cerrado e a Floresta Amazônica.   Mas quem pensa que isso acontecerá sem custos econômicos para o Brasil, de curto a longo prazo, está redondamente enganado, pois se confirmadas as ações para liberar o desmatamento, os produtos brasileiros tenderão a sofrer um forte boicote, especialmente na União Européia. Como os Estados Unidos da América são concorrentes e não parceiros comerciais na área de commodities agrícolas, também se engana que qualquer apoio do governo Trump a esse “liberal geral” vá amenizar os problemas que advirão da política de desmatamento livre, leve e solto.

Um sinal dessa questão é a matéria assinada pelos jornalistas Andres Schipani e Joe Leahy para o “Financial Times” onde eles abordam os problemas causados pelo avanço da fronteira da soja no bioma do Cerrado [1]. 

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A matéria está centrada na prerrogativa apontada pelos diversos atores que foram entrevistados para produzí-la de que já espaço suficiente para ampliar os plantios de soja, sem que haja a necessidade de desmatar ainda mais áreas de florestas. Essa é uma questão óbvia para quem tem um mínimo de conhecimento sobre a relação entre uso e cobertura da terra existente não apenas nas áreas cobertas por cerrado mas também na Amazônia [2].

O fato é que novos desmatamentos podem até ser feitos sob a alegação de que estão necessários para a abertura de novas áreas agrícolas, mas a verdade é que a remoção de áreas florestadas serve aos interesses daqueles que apostam na especulação financeira por meio do controle do ativo terra. Em outras palavras, desmatar é lucrativo porque permite que áreas antes ocupadas por florestas entrem na ciranda financeira.

Entretanto, um ponto que parece ser ignorado pelos dublês de latifundiários e especuladores do mercado financeiro é que já existe uma forte concordância sobre o papel central que a Amazônia e o Cerrado cumpre na regulação hídrica e climática não apenas no continente sul americano, mas em todo o planeta. Em função disso é que ninguém deva se surpreender se o Brasil passar a ser o foco de sanções econômicas e seus produtos agrícolas se tornarem alvos de barreiras cada vez maiores se, de fato, as barreiras de contenção ao avanço do desmatamento forem fragilizadas.

Só à guisa de exemplo, a Holanda foi condenada pela Corte de Haia por não atingir suas próprias metas de redução das emissões de carbono [3]. Imaginemos o que acontecerá com o Brasil se forem confirmadas as notícias de que o Ministério do Meio Ambiente será extinto e o processo de licenciamento ambiental será enviado de volta para a metade do século XX!  A questão central é que apesar de toda as eventuais resistências , o processo de responsabilização pela proteção das florestas, por causa da sua importância na regulação climática e hídrica da Terra, é um elemento chave nas decisões econômicas que estão sendo formuladas neste exato momento. Em outras palavras, quem apostar no desmatamento pode estar assinando seu próprio atestado de óbito.


[1]https://www.ft.com/content/c54abafe-ad30-11e8-8253-48106866cd8a?fbclid=IwAR3AEHf6VcNjIvS7dajtvuHYC8bnsel0ZTr4bkHLnL0fwj1xiCngnN2KgAg

[2] http://www.scielo.br/pdf/aa/v47n1/1809-4392-aa-47-01-00029.pdf

[3]  https://www.theguardian.com/environment/2018/may/28/dutch-government-appeals-against-court-ruling-over-emissions-cuts

Futuro da Amazônia sobre grave risco

Artigo no “New York Times” alerta sobre os impactos da vitória de Jair Bolsonaro sobre florestas e povos tradicionais

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O jornal estadunidense “The New York Times” publicou hoje um artigo assinado pela jornalista especializada sobre questões relacionadas ao clima da Terra, Somini Sengupta, onde é assinalado que o futuro da floresta Amazônica deverá ser uma das principais vítimas da vitória de Jair Bolsonaro no segundo turno das eleições presidenciais de 2018 [1].

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Somini Sengupta lembrou aos leitores do “New York Times” que Bolsonaro que durante a atual campanha, Bolsonaro prometeu patrocinar o poderoso setor de agronegócio de seu país, que busca abrir mais florestas para produzir a carne bovina e soja que o mundo exige.  Ela lembrou ainda que Bolsonaro já aventou  a possibilidade de sair do Acordo Climático de Paris.  Sengupta aponta que mesmo que Bolsonaro não cumpra esta meta, suas promessas de campanha podem ter conseqüências terríveis para a Amazônia e, portanto, para o resto do planeta.  É que estendendo-se por dois milhões de quilômetros quadrados, a maior parte no Brasil, a Amazônia atua como um gigantesco sumidouro para as emissões de dióxido de carbono que o mundo como um todo produz.

Além disso, o artigo lembra que Bolsonaro disse que vai descartar o Ministério do Meio Ambiente, que tem o mandato de proteger o meio ambiente, e, ao invés disso,  colocar as questões ambientais sob a autoridade  do Ministério da Agricultura,  uma opção que tende a favorecer os interesses daqueles que convertem florestas em terras agrícolas.

Segunda lembra Segunpta, ainda que  Bolsonaro rejeita a ideia de separar as terras cobertas por florestas para os povos indígenas que  há séculos vivem na Amazônia, prometendo que “não haverá um centímetro quadrado demarcado como uma reserva indígena” se ele for eleito.

A jornalista lembra que estudos recentes mostram que as reservas florestais controladas por povos indígenas em muitos países fornecem algumas das melhores defesas contra o desmatamento.  Mas ela aponta que Bolsonaro vê outros usos da floresta. “Onde há terra indígena”, ele disse, “há riqueza debaixo dela”. Segunda aponta que, de fato, muito antes de Bolsonaro declarar sua candidatura à presidência, o Brasil estava recuando em suas políticas ambientais.  Políticos de esquerda têm tido cada vez menos voz  para reivindicar recursos em terras indígenas, por exemplo,  mas que a demarcação de reservas diminuiu com a ex-presidente Dilma Rousseff, enquanto as taxas de desmatamento começaram a subir paulatinamente. Além disso, uma recessão incapacitante também causou danos, resultando na redução drástica do financiamento para o Ministério do Meio Ambiente. 

Em conclusão, Sengupta lembrou ainda que uma análise feita por cientistas brasileiros descobriu que se as atuais tendências ambientais continuarem no país, o Brasil não cumprirá suas metas de redução de emissões sob o Acordo de Paris. E a Global Witness, em colaboração com o jornal The Guardian, considerou o Brasil o lugar mais letal para os defensores dos direitos ambientais.

De minha parte, lembro que em 2003 escrevi um artigo logo após uma visita do ex-presidente Lula onde ele fez uma série de considerações sobre o que seria depois chamado de “Neodesenvolvimentismo” e de suas repercussões para a floresta amazônica. Disse naquele artigo que nas declarações de Lula estava antecipada mais uma morte anunciada da Amazônia em função do que poderia ser a retomada de uma visão desenvolvimentista na década de 1950. 

Quinze anos depois me vejo defrontado não com a possibilidade de retorno a 1950, mas ao início do Século XVI quando os portugueses chegaram inicialmente às costas da Bahia. É que a visão não apenas de Bolsonaro mas também dos generais que o assessoram assemelha-se ao que o pesquisador estadunidense denominou de paradigma da “Economia de Fronteira” [2].  Com base nesse paradigma não estarão ameaçadas as florestas amazônicas, mas principalmente os povos indígenas e comunidades tradicionais que vivem no seu interior e margens. Esses serão vítimas inevitáveis do avanço de madeireiros, garimpeiros e latifundiários que se sentirão livres para pilhar tudo o que for possível, antes que qualquer medida possa ser tomada para contê-los.

Meus quase 20 anos de experiência com trabalhos de campo em diferentes partes da Amazônia brasileira não deixam dúvidas que teremos um avanço inédito nas mortes de membros dos povos tradicionais e de lideranças ambientais. E, claro, um aumento explosivo nas taxas de desmatamento e degradação nas florestas amazônicas. Os custos sociais, econômicos e ambientais dessa aplicação da “Economia de fronteiras”  serão altíssimos. Não tenho dúvidas ainda de que caso esse cenário seja confirmado, o Brasil passará a ser tratado com um pária pela maior parte dos países com que hoje comercializa suas commodities agrícolas e minerais. É que, a despeito da economia demandar os produtos brasileiros, a geopolítica ditada pelas mudanças climáticas que estão em curso tornarão inevitáveis a aplicação de medidas punitivas contra o Brasil.


[1] https://www.nytimes.com/2018/10/17/climate/brazil-election-amazon-environment.html?action=click&module=Discovery&pgtype=

[2]  https://pdfs.semanticscholar.org/a009/5c7512bef739455a6980a73ca52d458a7d6c.pdf

De uma só vez, Rondônia acaba com mais de meio milhão de hectares de áreas protegidas

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Sem nenhuma manifestação contrária, deputados da Assembleia Legislativa de Rondônia fizeram desaparecer, em menos de uma hora de discussão, mais de meio milhão de hectares de áreas protegidas na Amazônia. De uma só vez, na tarde da última terça-feira (25), os parlamentares riscaram do mapa onze unidades de conservação no estado. A tramitação se deu em tempo recorde: o projeto foi protocolado na Assembleia no meio da manhã (10h30) e, à tarde, já estava aprovado.

Encarregado de apresentar em plenário parecer sobre a proposta, em nome das comissões da casa, o deputado Léo Moraes (PTB) gastou apenas dois minutos para concluir que as áreas deveriam ser extintas, sem qualquer debate com a sociedade e sem qualquer estudo técnico. “Por ter o clamor de toda sociedade e o apelo dos deputados estaduais, somos favoráveis ao projeto e à emenda para que possamos extinguir as reservas e trazer o desenvolvimento sustentável e responsável ao Estado”, disse.

De acordo com o secretário de Desenvolvimento Ambiental de Rondônia, Hamilton Santiago Pereira, a extinção das UCs foi exigência dos deputados para aprovarem uma série de complementações orçamentárias de que o governo precisava para honrar pagamentos, inclusive de salários de servidores.

Surpresa
O combinado, porém, segundo ele, era extinguir apenas uma das unidades de conservação criadas pelo governo do estado, a maior delas: a Estação Ecológica Soldado da Borracha, de 178.948 hectares, entre os municípios de Porto Velho e Cujubim. Isso era o que propunha o projeto de lei complementar 242/2018, enviado à Assembleia pelo governo – e protocolado às 10h30 da manhã.

Ao entrar em discussão no plenário, no entanto, o PLC recebeu uma emenda coletiva propondo a extinção não só dessa unidade de conservação, mas de todas as onze unidades criadas pelo governo do estado em março deste ano, e assim foi aprovado. Os deputados já haviam tentado extinguir as áreas em março, mas a tentativa foi barrada pela Justiça.

Compromissos
Depois da aprovação do projeto e da emenda, nessa terça, o deputado Lebrão (MDB) discursou esclarecendo quais são os compromissos dos deputados. Ele disse que a Assembleia Legislativa é composta por “deputados ruralistas que têm compromissos com a sociedade de uma maneira geral do estado de Rondônia, mas principalmente com o agronegócio”. E fez uma advertência: “Que (a extinção das UCs) sirva de exemplo para os próximos governantes deste estado: que não passem mais por cima da Assembleia Legislativa”.

deputado Maurão de Carvalho (MDB) disse que em Rondônia “não cabe mais reserva. Tem reserva demais”. No entendimento do parlamentar, os produtores rurais não podem ser controlados pela estrutura do estado: “Precisamos deixar o produtor rural trabalhar com liberdade, sem perseguição do Ibama, sem perseguição de alguns policiais da Polícia Ambiental”, disse.

De acordo com o secretário Hamilton Pereira, o governador deve vetar as extinções impostas pela emenda coletiva, mantendo, porém, a extinção da Estação Ecológica Soldado da Borracha.

Dívida com a coletividade
advogado do WWF-Brasil Rafael Giovanelli lembra que o estado tem o dever constitucional de criar unidades de conservação. “O estado precisa criar unidades de conservação para dar efetividade ao direito das pessoas a um meio ambiente ecologicamente equilibrado, como estabelece o Artigo 225 da Constituição Federal”, disse. “Rondônia é um dos estados com maior índice de desmatamento na Amazônia. Por isso, tem, mais do que nunca, a obrigação de criar unidades de conservação. Se não cria, ou se extingue, fica em dívida com a coletividade”, completou.

O coordenador de Políticas Públicas do WWF-Brasil, Michel Santos, informou que a organização ambientalista tenta uma audiência com o governador do estado, Daniel Pereira (PSB), para expor a preocupação da entidade. “Tanto o processo de criação quanto o de extinção de unidade de conservação pressupõe a realização de estudos técnicos. Sem isso, o processo é viciado e tem que ser declarado nulo”, disse o coordenador. “Assim como na criação, a extinção de unidades de conservação também precisa contemplar a participação da sociedade, o que tampouco aconteceu neste caso”, acrescentou.

Cooperação
Das 11 unidades de conservação criadas pelo governo do estado em março, quatro eram de proteção integral: as estações ecológicas Umirizal e Soldado da Borracha e os parques estaduais Ilha das Flores e Abaitará. As demais unidades são de uso sustentável, que permitem a exploração sustentável dos recursos naturais.

O programa Áreas Protegidas da Amazônia (Arpa) investiu R$ 657 mil na criação das unidades de conservação, por meio de cooperação entre a Secretaria de Desenvolvimento Ambiental de Rondônia, o Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio) e o Ministério do Meio Ambiente. O Arpa apoia financeiramente o desenvolvimento de estudos e a realização e consultas públicas.

FONTE: JB Press House

Projeto MapBiomas mapeia três décadas de mudanças na ocupação territorial do Brasil

Iniciativa que reúne 34 instituições lança coleção inédita de mapas anuais para o período 1985-2017

Por Observatório do Clima

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Mapas mostram tipos de ocupação de terra no Brasil em 1985 e 2017 (MapBiomas).

O projeto MapBiomas lança nesta sexta-feira (17) um conjunto de dados de mapeamento que permite investigar a ocupação territorial de qualquer parte do Brasil, ano a ano, desde 1985. A ferramenta, que possibilita descobrir o que ocorreu no país desde então com uma resolução de 30 metros, é pública, inédita, gratuita e de acesso livre.

“Essa é a mais longa série de dados sobre cobertura e uso da terra já levantada para o Brasil, algo jamais feito em qualquer outro país”, diz Tasso Azevedo, do Observatório do Clima, coordenador do projeto, que envolve parceiros de 34 instituições diferentes. “O que estamos colocando à disposição de todos é a possibilidade de fazer uma viagem no tempo e enxergar a história do Brasil nas últimas três décadas, mostrando o que aconteceu em pixels de 30 x 30 metros.”

Os dados estão disponíveis no site www.mapbiomas.org. As ferramentas de navegação do site permitem explorar o mapa do Brasil e criar visualizações temporais de dados para estados, municípios, unidades de conservação, terras indígenas e outros recortes territoriais.

“Agora, pela primeira vez, permitimos o cruzamento de dados com o Cadastro Ambiental Rural, possibilitando visualizar mudanças de uso da terra em propriedades rurais”, afirma Azevedo. “Também é possível ver dados por bacia hidrográfica e enxergar a infraestrutura de energia e transportes para entender como ela impacta o uso do solo.”

O projeto permitiu constatar com alta precisão diversas mudanças no período 1985-2017:

  • O Brasil teve perda líquida de 71 milhões de hectares de vegetação nativa, o equivalente a SP, PR, RJ e ES somados (a perda líquida é a perda total com a recuperação subtraída)
  • A área de agricultura quase triplicou neste período (cresceu 2,9 vezes), e a área de pecuária cresceu 43%
  • A Mata Atlântica, bioma com 56% da área urbana do país, teve perda líquida de 5 milhões de hectares de floresta; nos últimos 10 anos a regeneração superou o desmate
  • O bioma que viu a maior proporção de sua área de vegetação nativa sumir foi o Cerrado, com 18% de perda líquida
  • A Amazônia perdeu a maior área (líquida) de floresta no período: 36 milhões de hectares
  • Outros biomas tiveram também perda líquida: Pampa (-15%), Caatinga (-8%) e Pantanal (-7%)

O MapBiomas nasceu em 2015, a partir de um seminário que reuniu pesquisadores convidados pelo Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG) para discutir um problema. Como o país só tinha dados confiáveis para monitorar emissões por desmatamento e outras mudanças de uso da terra na Amazônia, os parceiros da iniciativa concordaram em unir esforços para conseguir abarcar os outros cinco biomas do país: Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga, Pantanal e Pampa.

O projeto já lançou ferramentas para explorar duas coleções de dados desde então. A segunda, publicada em 2017, já permitia investigar a mudança de uso da terra no país de 2000 a 2016. Com a terceira coleção, lançada agora, o MapBiomas dobra a extensão do período que pode ser investigado, cobrindo todos os anos de 1985 a 2017.

“Isso só foi possível porque nós conseguimos reunir instituições com cientistas estudando cada um dos biomas brasileiros a especialistas em sensoriamento remoto, em uso da terra, em sistemas de informações geográficas e em ciência da computação”, diz Carlos Souza Jr., do Imazon, coordenador técnico-científico do MapBiomas. “A parceria com o Google Earth Engine, uma plataforma de processamento em larga escala de dados geo espaciais, permite ao MapBiomas tratar um volume monstruoso de dados.”

Máquina do tempo
As imagens usadas pelo projeto são séries históricas produzidas pelos satélites Landsat, dos EUA. Para cada área de 30m por 30m do Brasil, o projeto atribui uma classificação de uso da terra (floresta, campo, pastagem, plantação, água, cidade etc.). Para cobrir o país inteiro, é preciso analisar mais de 9 bilhões de pixels, montados a partir de milhares de imagens de satélite para a série histórica.

“Só foi possível atingir nosso objetivo usando um alto grau de automação do processo, usando o conhecimento de nossos especialistas nos biomas para alimentar um sistema de aprendizado de máquina”, diz Tasso Azevedo. “E hoje, apesar de o projeto ter sido criado para a estimativa de emissões de gases-estufa, ele pode ser usado para inúmeras outras aplicações.”

Por exemplo, municípios utilizam essas informações para montar seus Planos de Conservação e Recuperação da Mata Atlântica e a expansão da infraestrutura urbana; estados podem aplicar os dados para o zoneamento ecológico-econômico; gestores de unidades de conservação (UCs) podem usar os dados como base para desenhar novas UCs e seus planos de manejo. A Fiocruz estuda a relação das mudanças de uso do solo com a dispersão de doenças como febre amarela e malária usando o MapBiomas.

FONTE: http://www.observatoriodoclima.eco.br/projeto-mapbiomas-mapeia-tres-decadas-de-mudancas-na-ocupacao-territorial-brasil/

Paraísos fiscais protegem empresas responsáveis pelo desmatamento na Amazônia e pesca excessiva no mundo

70% dos navios implicados na pesca ilegal, não declarada ou não regulamentada estão registrados em paraísos fiscais, segundo o relatório

soja guardian

Monocultura de soja na floresta amazônica perto de Santarém, no Brasil, com algumas árvores isoladas. Foto: Ricardo Beliel / LightRocket / Getty Images

Por Fioney Harvey, correspondente do “The Guardian” para matérias relacionadas ao Meio Ambiente

O dinheiro canalizado através de paraísos fiscais secretos tem sido usado para alimentar o desmatamento na Amazônia e a pesca ilegal em todo o mundo, acumulando um pesado custo ambiental, mas deixando poucas maneiras para as empresas serem responsabilizadas.

Bilhões de libras esterlinas foram enviados países reconhecidos como paraísos fiscais, e foram rastreadas como tendo sido usadas em atividades que contribuem para a destruição do meio ambiente, tais como o crescimento da monocultura da soja e produção de carne bovina em áreas desmatadas da Amazônia, e expandir uma rede, em grande parte não regulamentada, de navios de pesca que operam sob “bandeiras de conveniência”.

Os montantes traçados são provavelmente apenas uma fração do montante total canalizado através de paraísos fiscais que acabam financiando praticas ambientalmente destrutivas, de acordo com Beatrice Crona, co-autora de um relatório publicado hoje na revista “Nature, Ecology and Evolution”.

Victor Galaz, do Stockholm Resilence Centre da Universidade de Estocolmo e principal autor do estudo, acrescentou que: “o uso de paraísos fiscais não é apenas um desafio sociopolítico e econômico, mas também ambiental. Embora o uso de paraísos fiscais não seja ilegal, o sigilo financeiro dificulta a capacidade de analisar como os fluxos financeiros afetam as atividades econômicas no terreno e seus impactos ambientais. “

O estudo constatou que mais de dois terços do capital estrangeiro direcionados aos setores de soja e carne bovina do Brasil entre 2000 e 2011, conforme registrados pelo Banco Central do Brasil, foram canalizados por meio de paraísos fiscais.  E os plantios de soja a pecuária bovina têm sido associados ao desmatamento na Amazônia.

Durante o período estudado, quase US$ 27 bilhões de capital estrangeiro foram transferidos para empresas-chave dentro desses setores, e cerca de US$ 18,4 bilhões vieram de paraísos fiscais, sendo que as Ilhas Cayman foram as mais usadas.

Beatrice Crona, diretora-executiva da Comissão Econômica para a Dinâmica global e do Programa Biosfera na Real Academia Sueca de Ciências, disse que a disponibilidade dos dados do Banco Central do Brasil para o período em questão foi incomum, e jogou um pouco de luz sobre o que é provavelmente um negócio global muito maior.

Os defensores do verde pediram aos governos que tornem os fluxos financeiros mais transparentes. “Isso é dinheiro sujo, usado para alimentar atividades ilegais que estão impulsionando a crise ambiental global”, disse Elaine Gilligan, ativista internacional da Amigos da Terra. “Comunidades de evasão fiscal agressivas de fundos necessários para uma série de medidas, entre elas as proteções ambientais que desempenham um papel no combate ao caos climático.”

Esta ações estão atrasadas,  afirmou Gilligan. “Está claro que o governo do Reino Unido pode fazer muito para consertar isso. Para começar, eles devem apoiar os esforços internacionais para cobrar impostos e cumprir seu compromisso de maior transparência nos territórios ultramarinos britânicos “.

Andrea Marandino, gerente de finanças sustentáveis ​​do WWF, acrescentou que as empresas também podem desempenhar um papel. “A natureza está enfrentando ameaças sem precedentes à medida em que continuamos a tirar mais recursos das áreas naturais mais ricas do mundo. Os paraísos fiscais dificultam o rastreamento dos fluxos internacionais de capital e isso significa que não há responsabilidade “, disse ela. “Se quisermos garantir um futuro para áreas como a Amazônia, precisamos ter uma maior transparência corporativa e rastreabilidade dos fluxos de capital ao redor do mundo que financiam a destruição da natureza.”

Nos oceanos, cerca de 70% dos navios que foram implicados na pesca ilegal, não declarada ou não regulamentada, foram registrados em paraísos fiscais, de acordo com os resultados do estudo. A posse de barcos de pesca tem sido de interesse para os ativistas, devido às enormes diferenças existentes no monitoramento e regulação da pesca em várias jurisdições. Teias complexas de propriedade permitem que as capturas sejam comercializadas, desembarcadas e, em alguns casos, eliminadas fora dos regulamentos que devem impedir a sobrepesca.

Tony Long, executivo-chefe da Global Fishing Watch, disse: “[O jornal] acrescenta à crescente evidência que ilustra as práticas criminosas e obscuras que fornecem cobertura para a pesca ilegal, não declarada e não regulamentada [IUU]. Um foco internacional em bandeiras de conveniência e sua diligência insuficiente no monitoramento de suas embarcações sinalizadas já está há muito tempo “.

Os proprietários de embarcações podem usar “bandeiras de conveniência” para disfarçar suas atividades ou torná-las mais difíceis de rastrear, registrando sua embarcação sob a jurisdição que tem regulamentação frouxa sobre o envio. A enorme sobreposição entre os navios conhecidos por estarem operando em pesca IUU e voando bandeiras de conveniência de paraísos fiscais reconhecidos mostra a extensão do problema, disseram os autores do estudo da Nature.

Há muito tempo pedimos mais transparência nos movimentos dos navios, licenciamento, documentação de captura e a divulgação dos verdadeiros proprietários de todos os navios de pesca. “Sem isso, esses operadores inescrupulosos extrairão tudo, do oceano, para os próprios bolsos, com dinheiro às custas da sustentabilidade, afirmou Tony Long.

O secretismo de que as empresas desfrutam nos seus negócios em paraísos fiscais é usado principalmente para reduzir seus pagamentos de impostos, transferindo dinheiro entre as jurisdições para aproveitar as baixas taxas de impostos. Alguns dos métodos utilizados e empresas envolvidas foram destacados nos últimos anos por revelações nos chamados Panama Papers e os Paradise Papers, amplamente cobertos pelo “Thr Guardian”.

Mas a falta de transparência também permite que aqueles que querem esconder suas atividades destrutivas ao meio ambiente, disseram os pesquisadores no estudo da Nature. Eles pediram que a ONU examinasse como esse dinheiro financia o dano ambiental.

A abertura dos paraísos fiscais para o escrutínio minucioso dos órgãos reguladores e do público seria impopular com milhares de empresas, muitas delas nomes familiares, que tiram proveito de sua existência e da regulamentação frouxa que os mesmos proporcionam.

Muitas empresas se orgulham de seus altos padrões ambientais, mas ainda canalizam fundos por meio de paraísos fiscais para reduzir seus pagamentos de impostos, que custam aos governos US $ 200 bilhões por ano em receitas fiscais perdidas. Uma vez que o dinheiro passe para paraísos fiscais, há pouca maneira de descobrir como e onde ele foi usado.

O artigo do jornal Nature não nomeia empresas individuais, embora algumas tenham sido questionadas como parte da pesquisa.

Quem desejar ler o artigo a que esta matéria se refere, basta clicar [Aqui!]


Este artigo foi originalmente publicado em inglês no “The Guardian” [Aqui!]

Desmatamento aumenta no cerrado brasileiro

O Cerrado é o bioma mais ameaçado do Brasil, proclamam os ambientalistas

cerrado queimado

Por Jeff Tollefson para a Nature [1]

O desmatamento no Cerrado, uma vasta savana arborizada na fronteira com o sul e leste da Amazônia brasileira, aumentou 9% em 2017 em comparação com 2016, segundo dados de satélite divulgados no mês passado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) em São José dos Campos.

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O desmatamento do Cerrado, deve-se em parte às fracas proteções ambientais. Crédito: Roberto Jayme / Reuters

No total, estima-se que 7.408 km2 de terra foram desmatados para dar lugar a pastagens e plantações de gado. Embora a taxa de desmatamento no Cerrado permaneça bem abaixo dos níveis anuais documentados de 2013 a 2015, cientistas e ambientalistas, no entanto, alertam que a savana continua sendo o bioma mais ameaçado do Brasil atualmente. Em comparação, o INPE registrou 6.947 km2 de desmatamento na Amazônia em 2017, uma queda de 12% em relação ao ano anterior .

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“No Cerrado, estamos falando de um bioma com metade do tamanho da Amazônia e que já perdeu metade de sua vegetação nativa”, diz Ane Alencar, diretor de ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), que tem como base em Brasília. Uma série de fatores está por trás das tendências atuais de desmatamento, incluindo regras ambientais mais fracas no Cerrado do que na Amazônia.

Enquanto os proprietários de terras podem liberar apenas 20% de suas propriedades na floresta amazônica, eles podem reduzir até 80% da floresta no Cerrado. Cientistas e ambientalistas também alertam que a fiscalização ambiental na região continua fraca. A maior parte do desmatamento atual provém da expansão agrícola maciça nos estados do nordeste do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.

Grande parte da terra está sendo convertida em pastagens para gado, mas os cientistas dizem que a poderosa indústria de soja do Brasil se tornou uma importante protagonista no desmatamento no Cerrado. “O que estamos vendo agora é um padrão diferente de ocupação”, diz Mercedes Bustamante, ecologista da Universidade de Brasília. “As fronteiras de desmatamento estão sendo conduzidas agora por grãos de soja em uma região completamente nova”.

Proteger as florestas, a biodiversidade e os recursos hídricos na região exigirá ações adicionais dos governos estadual e federal no Brasil, bem como das corporações que compram e vendem commodities agrícolas, diz Alencar.


Publicado originalmente em inglês [1]

Aliança entre Temer e ruralistas pode custar meta climática ao Brasil

Estudo publicado em revista internacional indica que descontrole do desmatamento pode levar à emissão de 1,8 bilhão de toneladas em 2030 na Amazônia e no cerrado, estourando promessa de Paris

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O presidente “de facto” Michel Temer assinando a MP 759 que anistiou a grilagem de terras. 

DO OC – A aliança do governo de Michel Temer com os ruralistas no Congresso pode ter salvo o presidente de ser investigado no STF por corrupção, mas deixou um monte de mortos pelo caminho. Um deles pode ser a meta brasileira de redução das emissões de gases que causam o aquecimento global, conforme sugere um estudo publicado nesta segunda-feira (9).

Um grupo de pesquisadores do Rio de Janeiro, de Minas Gerais e de Brasília mostrou no periódico Nature Climate Change como as barganhas políticas feitas desde 2016 afetam o controle do desmatamento na Amazônia e no cerrado. No pior caso, isso faria as emissões de gases-estufa por desmatamento retornarem aos patamares do século passado. Dessa forma, o Brasil estouraria em 2030 todos os limites de emissões compatíveis com o cumprimento de sua meta no acordo do clima de Paris.

Só por desmatamento o país emitiria, nesse cenário, 1,8 bilhão de toneladas líquidas de gás carbônico em 2030 – um valor 50% maior do que a meta indicativa da NDC, o compromisso brasileiro em Paris, que é de 1,2 bilhão de toneladas naquele mesmo ano.

No cenário mais provável, a conta da aliança com os ruralistas sobraria para outros setores, como a indústria e os transportes. E seria salgada: para o Brasil se manter na meta em 2030, o restante da economia teria de desembolsar US$ 2 trilhões (mais que valor total do PIB em 2017) para adotar tecnologias ainda imaturas ou não testadas e zerar suas emissões, de forma a compensar o carbono emitido a mais no setor florestal.

Para fazer o estudo, o grupo liderado por Roberto Schaeffer, da COPPE-URRJ, e Britaldo Soares-Filho, da Universidade Federal de Minas Gerais, usou modelos de computador que fazem simulações de como o uso da terra evolui no território e de como as relações entre uso da terra e energia se desenvolvem em resposta a contextos diversos. Para isso, eles alimentaram o modelo com as taxas de desmatamento e as condições de governança ambiental em três momentos: antes de 2005, quando não havia controle sobre a devastação das florestas; entre 2005 e 2012, quando medidas foram adotadas e a taxa de desmatamento caiu; e entre 2012 e 2017, quando a tendência de queda se rompeu na esteira do enfraquecimento do Código Florestal e da crise política.

Nos últimos dois anos, o quadro de governança pós-2012 se agravou. Para tentar aprovar o impeachment, depois reformas impopulares, depois para salvar a própria pele, Michel Temer fez uma série de concessões à bancada ruralista, que representa cerca de 40% dos votos na Câmara dos Deputados: a grilagem de terras de até 2.500 hectares foi legalizada, a demarcação de terras indígenas foi congelada, unidades de conservação tiveram propostas de redução de limites e o licenciamento ambiental passou a ser ameaçado por vários projetos de lei.

Os ruralistas não ganharam tudo ainda. “Mas, para o desmatamento, a sinalização negativa que o governo dá tem uma importância enorme”, diz Raoni Rajão, da UFMG, coautor do estudo.

Com base nessas informações, os modelos produziram três cenários. Num deles, a governança ambiental é fortalecida, algo que soa pouco factível hoje. Neste caso, o desmatamento do cerrado alcança 3.794 km2 em 2030, comparado aos mais de 9.484 km2 hoje. O da Amazônia cairia dos atuais 7.000 km2 para 3.920 km2.

No cenário intermediário, considerado pelo grupo o mais provável, o desmatamento no cerrado vai a 14.759 km2, e o da Amazônia, a 17.377 km2 em 2030. No pior cenário, a governança ambiental é totalmente abandonada e o desmatamento anual retorna aos níveis mais altos: 18.517 km2 no cerrado e 27.772 km2 na Amazônia.  

O carbono emitido por perda de florestas e savanas nos três cenários foi comparado com o chamado “orçamento de carbono” do Brasil, ou seja, quanto CO2 o país ainda pode emitir para cumprir sua parte na meta do Acordo de Paris de estabilizar o aquecimento da Terra abaixo de 2oC em relação à era pré-industrial. Dado o tamanho da economia e da população do Brasil, esse orçamento foi calculado em 24 bilhões de toneladas líquidas de CO2 equivalente entre 2010 e 2050. Como já emitimos 4,6 bilhões de 2010 a 2017, o orçamento remanescente é de 19,4 bilhões de toneladas.

No cenário mais provável, o intermediário, as emissões acumuladas apenas por desmatamento entre 2010 e 2030 chegam a 16,3 bilhões de toneladas. O Brasil só consegue se manter dentro do orçamento de carbono se impuser ao setor industrial e energético as tais tecnologias mais caras a custo de US$ 2 trilhões.

A NDC também vai para o vinagre já no cenário intermediário. “O compromisso assumido no Acordo de Paris é de chegar a 2030 com 1,2 bilhão de toneladas de emissões no conjunto da economia. Mas no cenário tendencial somente as emissões por desmatamento já alcançariam esse valor”, afirma Rajão.

O cenário mais grave é um alerta, mas por ora não é o mais provável, já que o Ministério do Meio Ambiente continua agindo para controlar a devastação. No governo Temer, paradoxalmente, o orçamento do Ibama para a fiscalização ambiental foi incrementado em relação ao do segundo mandato de Dilma Rousseff, com dinheiro doado pela Noruega.

Na semana passada, o órgão anunciou que concluirá neste mês a Operação Panopticum, que consiste no envio de 25,2 mil cartas e e-mails a proprietários de terra de 59 municípios com risco de desmatamento. O objetivo é informar os proprietários de que eles estão sendo monitorados por satélite e serão punidos em caso de desmatamento ilegal.

“O Ibama continua melhorando, mas no caso da Amazônia, isso vai diminuir no máximo um terço do desmatamento total, que está em terras privadas que já estão no Cadastro Ambiental Rural”, disse Rajão, que concebeu a Operação Panopticum juntamente com Jair Schmitt, diretor de Políticas de Combate ao Desmatamento do Ministério do Meio Ambiente. Segundo ele, é mais difícil fazer esse controle em áreas privadas fora do CAR, em unidades de conservação, terras devolutas, terras indígenas e assentamentos.

“O estudo mostra que o Brasil está praticando hoje um tipo de política do século 19, o que faz com que talvez tenhamos que recorrer a tecnologias do século 21, muitas delas ainda não maduras ou comercialmente disponíveis, para compensar o aumento das emissões de gases de efeito estufa advindas do aumento do desmatamento decorrentes desta política”, disse Roberto Schaeffer.

FONTE: http://www.observatoriodoclima.eco.br/alianca-entre-temer-e-ruralistas-pode-custar-meta-climatica-ao-brasil/

Relatório do Global Forest Watch mostra que no campeonato do desmatamento, o Brasil já é campeão mundial

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O consórcio “Global Forest Watch” acaba de divulgar o seu relatório anual sobre o desmatamento em escala mundial  e os números não são nada animadores, especialmente no tocante aos biomas tropicais, que perderam algo semelhante a um campo de futebol por segundo a cada dia em 2017 [1].

E nessa copa do mundo da perda de florestas e da biodiversidade nela contidas, o Brasil deu de goleada de 4 a 1 na segunda colocada, a República Democrática do Congo (ver figura abaixo).

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Um dado ainda mais preocupante é o que indica que a taxa média dos últimos 3 anos está em um curva ascendente, indicando que poderá ocorrer uma elevação ainda maior do desmatamento total acumulado (ver figura abaixo).

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Em uma nota no seu blog oficial, o Global Forest Watch aponta que o aumento constante na perda de cobertura de árvores tropicais é alarmante e os novos dados demonstram cada vez mais que os atuais esforços para reduzir o desmatamento são insuficientes. Na mesma nota, o Global Forest Watch lembra que, além de proteger a biodiversidade e fornecer meios de subsistência humanos, as florestas também desempenham um papel fundamental no armazenamento de carbono. E que embora a conservação florestal possa fornecer cerca de 30% da solução para limitar o aumento da temperatura global a 2 ° C, um limite que os cientistas dizem ser necessário para evitar os piores impactos da mudança climática, apenas 2% do financiamento disponíveis para proteção do clima são para o setor florestal.  A nota conclui dizendo que se o mundo quiser acabar com as mudanças climáticas com seriedade, todos os países devem redobrar seus esforços para reduzir o desmatamento.

Mas, cá entre nós, dado o controle político exercido pela bancada ruralista no congresso nacional e o silêncio cúmplice da maioria da mídia corporativa brasileira sobre o que está acontecendo em todos os biomas florestais brasileiros, é bem provável que ainda vejamos taxas médias ainda mais altas no Brasil, com a consequente extinção de mais biodiversidade e uma contribuição ainda maior na aceleração das mudanças climáticas.

E não custa lembrar que graças ao chamado “Novo Código Florestal” promulgado pela ex-presidente Dilma Rousseff, o nível de afrouxamento da proteção de áreas de alto valor ecológico ficou ainda maior, com o consequente aumento das taxas médias e totais de desmatamento não apenas nos biomas da Amazônia, mas em outras áreas ainda mais sensíveis tais como os do Cerrrado e da Caatinga. A consequência desse afrouxamento pode ser visto claramente na figura abaixo.

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[1] https://blog.globalforestwatch.org/data/el-2017-fue-el-segundo-peor-ano-en-relacion-a-la-perdida-de-cobertura-arborea-en-los-tropicos 

[2] http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2012/10/dilma-aprova-novo-codigo-florestal-com-nove-vetos-na-lei-original.html