Brasil campeão mundial de juros: quando a dívida pública vale mais do que o país

Os dados publicados neste sábado pelo Poder360 deveriam provocar um escândalo nacional. O Brasil destinou, em 2024, o equivalente a 8,8% do Produto Interno Bruto apenas ao pagamento de juros da dívida pública, a maior proporção entre os países do G20. O dado se torna ainda mais impressionante quando se observa que, de 2023 para 2024, essa despesa saltou de 5,8% para 8,8% do PIB, um crescimento de três pontos percentuais em apenas um ano.

O mais revelador, entretanto, é que o Brasil não ocupa posição equivalente quando se considera o tamanho de sua dívida. Pela metodologia utilizada pelo Financial Stability Board, a dívida bruta brasileira correspondia a 88% do PIB, colocando o país apenas na oitava posição entre os membros do G20. O Japão, por exemplo, possui uma dívida próxima de 220% do PIB, mas gasta cerca de 2,5% de sua riqueza anual com juros. O Brasil deve proporcionalmente muito menos, mas paga muito mais para carregar sua dívida.

Essa diferença deveria ser suficiente para deslocar o debate público da obsessão quase religiosa com o tamanho da dívida para uma questão muito mais incômoda: por que o Estado brasileiro paga tanto para se endividar e quem se beneficia desse mecanismo?

A reportagem atribui o elevado custo da dívida aos riscos fiscais, à inflação, às incertezas institucionais, à taxa Selic e à composição dos títulos públicos, parte importante dos quais está indexada aos juros ou aos índices de preços. Esses elementos são reais e ajudam a explicar o mecanismo. Mas há um limite evidente nessa explicação: ela tende a apresentar o problema como resultado quase natural de variáveis econômicas, quando o próprio dado central revela uma escolha política de enormes consequências distributivas. O Brasil mantém uma estrutura na qual a remuneração dos detentores da dívida ocupa uma posição extraordinariamente protegida, enquanto educação, saúde, ciência, universidades e serviços públicos precisam disputar recursos sob a vigilância permanente da austeridade.

É justamente aqui que os dados publicados pelo Poder360 encontram as contribuições que Paulo Lindesay, diretor da ASSIBGE-SN e coordenador do Núcleo Rio de Janeiro da Auditoria Cidadã da Dívida, vem apresentando e que já foram discutidas neste blog. Em seus estudos, Lindesay insiste em um ponto que raramente ocupa o centro da cobertura econômica convencional: não basta perguntar quanto o Brasil deve; é necessário investigar como essa dívida se forma, como ela cresce, quanto já foi pago, quem recebe e por que o estoque continua aumentando apesar dos volumes gigantescos transferidos aos seus credores.

Em estudo recentemente analisado no Blog do Pedlowski, Lindesay mostrou que, entre 2018 e 2025, aproximadamente R$ 13,343 trilhões foram destinados ao serviço da dívida pública, somando juros e amortizações. Apenas em 2025, esse montante teria alcançado R$ 2,135 trilhões, enquanto os dados do primeiro semestre de 2026 já indicavam um ritmo capaz de superar novamente esse valor.

Esse é o ponto que transforma o ranking do G20 em algo muito maior do que uma curiosidade estatística. O Brasil não é apenas o país que paga proporcionalmente mais juros entre as principais economias do planeta. Ele mantém um sistema de drenagem contínua do orçamento público em favor do serviço da dívida. Enquanto isso, políticas sociais, universidades, institutos de pesquisa, hospitais e investimentos públicos são submetidos à lógica permanente da escassez.

No estudo sobre os desvios orçamentários da educação, comentado anteriormente neste blog, Lindesay mostrou precisamente a dimensão dessa assimetria. De um lado, trilhões de reais circulam pelo sistema da dívida; de outro, recursos destinados a funções sociais permanecem sujeitos a contingenciamentos, subexecuções e limites fiscais. A escassez, portanto, não se distribui igualmente pelo orçamento. Ela parece atingir com extraordinária precisão aquilo que atende à maioria da população, enquanto o serviço da dívida desfruta de uma capacidade de absorção de recursos que nenhuma universidade pública, nenhum hospital e nenhuma política de ciência e tecnologia jamais conheceram.

Os dados mais recentes reforçam esse diagnóstico. Em maio de 2026, o pagamento de juros nominais acumulado em 12 meses chegou a 8,48% do PIB, o maior patamar desde fevereiro de 2016. No mesmo período, o déficit primário correspondia a 1,14% do PIB, mas, quando os juros são incorporados, o déficit nominal saltava para 9,62%. A diferença entre esses dois números deveria ocupar um lugar muito maior no debate brasileiro, porque mostra que o problema fiscal não pode ser explicado apenas pela narrativa de um Estado que supostamente “gasta demais” com políticas públicas.

Em outras palavras, enquanto o debate cotidiano insiste em responsabilizar aposentadorias, salários de servidores, universidades, políticas sociais e investimentos públicos pela crise fiscal, uma parcela gigantesca do desequilíbrio passa pelo custo financeiro da dívida. O déficit primário e o déficit nominal contam histórias muito diferentes, e entre uma e outra está o peso dos juros.

Esse diagnóstico também ajuda a compreender a crítica de Paulo Lindesay ao PROPAG e, em particular, aos mecanismos de renegociação das dívidas estaduais. Como já discutido no Blog do Pedlowski, Lindesay questiona a ideia de que o estoque da dívida deva ser simplesmente reconhecido como um dado natural e incontestável, sobretudo quando nunca houve a auditoria pública e independente prevista na Constituição. Para ele, programas de renegociação podem acabar consolidando dívidas cuja formação permanece sem exame adequado e, ao mesmo tempo, impor novas rodadas de austeridade, privatizações e restrições aos investimentos sociais.

O caso do estado do Rio de Janeiro oferece uma demonstração particularmente didática dessa lógica. Dados apresentados pela Auditoria Cidadã da Dívida e divulgados neste blog mostram que o estado refinanciou cerca de R$ 15,2 bilhões em 1999 e, mesmo depois de pagar mais de R$ 31,8 bilhões, continuou vendo o saldo devedor crescer, superando R$ 108 bilhões apenas no contrato original. Considerando a dívida consolidada com a União, o valor alcançaria cerca de R$ 205,4 bilhões.

É difícil imaginar exemplo melhor daquilo que Lindesay chama a atenção ao reconstruir a história do endividamento brasileiro: uma dívida que recebe pagamentos sucessivos, consome parcelas crescentes dos recursos públicos e, ainda assim, parece adquirir uma extraordinária capacidade de nunca desaparecer. A dívida é paga, refinanciada, renegociada e novamente paga, enquanto seu estoque permanece ou cresce.

O dado publicado agora pelo Poder360 deveria, portanto, ser lido à luz dessa questão mais ampla. O fato de o Brasil liderar o G20 em gastos com juros não é apenas um problema de política monetária nem uma fatalidade decorrente da “desconfiança dos mercados”. Trata-se de uma estrutura de transferência de renda mediada pelo Estado. Os juros pagos pela dívida não desaparecem no ar; eles chegam a destinatários concretos. Por isso, qualquer discussão séria deveria identificar a composição dos credores, a estrutura dos títulos, os mecanismos de indexação e os beneficiários finais desse fluxo de recursos.

Também seria necessário perguntar por que o país aceita como normal pagar 8,8% de toda a riqueza que produz em um ano apenas em juros e, ao mesmo tempo, trata aumentos de recursos para educação, saúde, ciência ou servidores públicos como ameaças à responsabilidade fiscal. A contradição é particularmente evidente porque o Brasil ainda enfrenta déficits históricos de infraestrutura e serviços públicos. Em um país com tantas carências, a liderança mundial no pagamento proporcional de juros representa uma escolha distributiva de enorme alcance.

A reportagem do Poder360 acerta ao mostrar que o Brasil possui uma das dívidas mais caras do mundo. Mas a contribuição de Paulo Lindesay permite avançar para a pergunta seguinte, talvez mais importante: por que essa dívida é tão cara, por que continua crescendo depois de pagamentos trilionários e por que seu funcionamento permanece fora do escrutínio público que se aplica a praticamente qualquer outra despesa estatal?

A resposta não surgirá de mais uma rodada de cortes em universidades, congelamento de salários, redução de investimentos sociais ou privatização do patrimônio público. Essas medidas podem até liberar novos recursos, mas, enquanto a engrenagem financeira permanecer intocada, existe o risco de que apenas aumentem a quantidade de dinheiro disponível para alimentar o mesmo mecanismo.

O Brasil acaba de conquistar um título que ninguém deveria comemorar: é o campeão do G20 em gastos com juros em relação ao PIB. E talvez a pergunta decisiva não seja por que o país gasta tanto, mas por que a sociedade brasileira continua sendo convencida de que o problema fiscal está sempre na escola, no hospital, na universidade, na aposentadoria ou no salário do servidor, e quase nunca no sistema que transforma uma parcela gigantesca da riqueza nacional em remuneração financeira para os detentores da dívida.

Os dados apresentados pelo Poder360 e as análises de Paulo Lindesay apontam, por caminhos diferentes, para a mesma conclusão: o problema da dívida pública brasileira não é apenas contábil. É uma questão de poder, de prioridades e de distribuição da riqueza produzida pelo país. Enquanto essa discussão permanecer interditada, continuaremos ouvindo que falta dinheiro para quase tudo, ao mesmo tempo em que o Brasil encontra, ano após ano, recursos extraordinários para sustentar o mais caro sistema de juros entre as maiores economias do mundo.

PROPAG: solução para a dívida ou aprofundamento da austeridade permanente?

O debate sobre o Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados revela que a questão central talvez não seja apenas pagar a dívida, mas discutir quem paga a conta e quais interesses são preservados

O extenso estudo elaborado por Paulo Lindesay, diretor da Executiva Nacional da ASSIBGE-SN, coordenador do Núcleo Sindical Canabarro e coordenador da Auditoria Cidadã da Dívida – Núcleo RJ, constitui uma importante contribuição para um debate que, embora tenha enorme impacto sobre o futuro do Estado do Rio de Janeiro, permanece praticamente ausente do espaço público: os efeitos da adesão ao Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (PROPAG), instituído pela Lei Complementar nº 212/2025.

A principal virtude do texto é deslocar a discussão do plano meramente técnico para o plano político. Em vez de tratar a dívida pública como um fato consumado, Lindesay questiona a própria legitimidade do estoque da dívida, argumentando que sua consolidação significa o reconhecimento definitivo de valores que jamais foram submetidos a uma auditoria pública e independente. Nesse sentido, o autor recupera uma reivindicação histórica da Auditoria Cidadã da Dívida: antes de vender patrimônio público ou impor novas rodadas de austeridade, seria necessário verificar a origem, a legalidade e a legitimidade dos passivos financeiros acumulados ao longo das últimas décadas.

Outro aspecto relevante é a crítica à lógica patrimonialista do PROPAG. O programa apresenta a alienação de imóveis, empresas estatais, receitas futuras de royalties do petróleo e créditos da dívida ativa como mecanismos para reduzir encargos financeiros. Entretanto, essa estratégia pode significar a substituição de um problema conjuntural por uma perda permanente da capacidade de intervenção do Estado na economia e na oferta de serviços públicos. Em outras palavras, vende-se patrimônio que gera receita para aliviar temporariamente um fluxo financeiro que continuará existindo por décadas.

No caso específico do Rio de Janeiro, essa discussão assume um caráter ainda mais dramático. O estado é um dos maiores produtores de petróleo do país, e seus royalties representam uma das principais fontes de financiamento de políticas públicas. Vincular essas receitas futuras ao pagamento da dívida significa limitar a capacidade de investimento justamente em um momento em que o estado precisará enfrentar desafios como adaptação às mudanças climáticas, diversificação econômica e recuperação de sua infraestrutura social.

O texto também chama atenção para um aspecto frequentemente negligenciado: a relação entre política fiscal e qualidade do serviço público. Os limites impostos ao crescimento das despesas primárias tendem a restringir concursos públicos, dificultar recomposições salariais e congelar planos de carreira, mesmo em cenários de aumento da arrecadação. O resultado pode ser um processo contínuo de precarização do Estado, no qual escolas, universidades, hospitais e órgãos de pesquisa passam a operar permanentemente abaixo de sua capacidade.

Essa preocupação é especialmente pertinente para as universidades estaduais fluminenses. Instituições como a UENF, a UERJ,   e a FAETEC já convivem há anos com restrições orçamentárias, perdas salariais acumuladas e dificuldades para renovar seus quadros. Um novo regime fiscal excessivamente rígido pode comprometer ainda mais sua capacidade de produzir conhecimento, formar profissionais qualificados e responder às demandas da sociedade.

Há, evidentemente, espaço para divergências quanto a algumas interpretações jurídicas e econômicas apresentadas por Lindesay, especialmente no que diz respeito à aplicação da Súmula 121 do STF e à discussão sobre anatocismo em contratos públicos e operações financeiras modernas. Contudo, essas divergências não diminuem a relevância da questão central levantada pelo autor: a naturalização da dívida pública como um compromisso absoluto, acima de qualquer consideração sobre direitos sociais, desenvolvimento regional ou autonomia federativa.

Talvez seja exatamente esse o maior mérito do trabalho. Em vez de aceitar o PROPAG como uma solução técnica inevitável, Paulo Lindesay convida o leitor a perguntar quem ganha e quem perde com esse modelo de renegociação. A resposta sugerida pelo texto é inquietante: enquanto o mercado financeiro obtém maior previsibilidade e segurança para o recebimento dos créditos, o patrimônio público, a autonomia dos estados e os direitos dos servidores tornam-se as principais variáveis de ajuste.

Independentemente da posição que se adote sobre o PROPAG, uma conclusão parece inevitável: uma decisão capaz de comprometer receitas, empresas públicas e políticas sociais por várias décadas não pode ser tratada apenas como uma operação financeira. Trata-se de uma escolha profundamente política, que deveria ser precedida de amplo debate público, transparência absoluta e efetiva participação da sociedade fluminense.

Paulo Lindesay também disponibilizou uma apresentação para tornar ainda mais claras as questões que ele levantou em sua análise técnica [Aqui!].

A dívida que nunca termina: a construção histórica do endividamento permanente no Brasil

Em estudo da Auditoria Cidadã da Dívida, Paulo Lindesay reconstrói mais de dois séculos de endividamento público e questiona um modelo que parece produzir dívidas eternas enquanto restringe investimentos sociais e o desenvolvimento nacional

Poucos temas permanecem tão ausentes do debate público brasileiro quanto a dívida pública. Embora ela consuma anualmente uma parcela gigantesca do orçamento nacional, seu funcionamento continua envolto em uma linguagem técnica que dificulta a compreensão por parte da maioria da população. É justamente contra essa opacidade que Paulo Lindesay se insurge em seu  provocativo ensaio sobre a evolução histórica da dívida pública brasileira.

O mérito central do trabalho está em mostrar que a dívida pública não pode ser entendida apenas como resultado de gastos excessivos do Estado. Ao contrário, Lindesay reconstrói historicamente os mecanismos que transformaram o endividamento em um elemento estrutural da formação econômica brasileira, desde o período imperial até os atuais regimes fiscais. Sua tese é contundente: ao longo de mais de dois séculos, consolidou-se um sistema que produz endividamento de forma contínua e crescente, transferindo recursos públicos para o setor financeiro enquanto restringe investimentos sociais e produtivos.

A narrativa histórica apresentada pelo autor revela que o nascimento da dívida brasileira está ligado ao próprio processo de independência. O novo Estado assumiu compromissos financeiros herdados de Portugal e passou a recorrer sistematicamente a empréstimos externos. Desde então, sucessivas crises, renegociações e refinanciamentos criaram uma dinâmica em que a dívida nunca é efetivamente liquidada, apenas transformada em novos passivos.

Um dos pontos mais relevantes do texto é a distinção entre dívida contraída para financiar investimentos produtivos e dívida que cresce em função dos próprios encargos financeiros. Segundo Lindesay, especialmente a partir das décadas finais do século XX, o crescimento do endividamento brasileiro passou a estar fortemente associado à política monetária baseada em juros elevados e aos mecanismos de refinanciamento permanente dos títulos públicos. Essa interpretação converge com análises anteriores da própria Auditoria Cidadã da Dívida, que questionam a contabilização de parcelas significativas dos juros como amortização ou rolagem da dívida.

A consequência desse processo seria a construção de uma espécie de “dívida impagável”. Não porque o Estado brasileiro seja incapaz de gerar receitas, mas porque o próprio desenho institucional faz com que a dívida se reproduza continuamente. Em outras palavras, paga-se muito, mas a dívida continua crescendo. A cada renegociação surgem novas obrigações; a cada refinanciamento ampliam-se os compromissos futuros. O resultado é um sistema que exige crescentes transferências de recursos públicos para o setor financeiro sem que isso represente uma redução significativa do estoque da dívida.

Essa lógica torna-se ainda mais evidente quando observamos os estados brasileiros. O caso do Rio de Janeiro, frequentemente analisado por Lindesay em outros trabalhos, é emblemático. Diversos estados já pagaram várias vezes o valor originalmente contratado junto à União e aos credores financeiros, mas permanecem presos a contratos que continuam produzindo saldos devedores elevados. O fenômeno lembra uma esteira rolante: quanto mais se caminha, mais distante parece ficar o destino final.

O artigo também oferece uma interpretação crítica dos mecanismos fiscais recentes, incluindo o teto de gastos, os regimes de recuperação fiscal e os novos modelos de renegociação das dívidas estaduais. Segundo a perspectiva defendida pela Auditoria Cidadã da Dívida, essas iniciativas compartilham um traço comum: priorizam a garantia dos pagamentos financeiros enquanto comprimem despesas sociais, investimentos públicos e políticas de desenvolvimento.

Tal diagnóstico conduz a uma questão política fundamental: por que a sociedade brasileira aceita discutir exaustivamente os gastos com saúde, educação, previdência ou funcionalismo público, mas raramente debate os mecanismos que determinam o crescimento da dívida? Para Lindesay, essa assimetria não é acidental. Ela faz parte de um modelo de gestão econômica em que a dívida se converte em instrumento privilegiado de transferência de riqueza.

Independentemente de concordar integralmente ou não com as conclusões da Auditoria Cidadã da Dívida, o trabalho de Paulo Lindesay cumpre uma função essencial: retirar a dívida pública do terreno da tecnocracia e recolocá-la no centro do debate democrático. Afinal, quando mais de uma geração de brasileiros vive sob a justificativa permanente da escassez de recursos para direitos sociais, mas observa simultaneamente o crescimento contínuo dos pagamentos financeiros, torna-se legítimo perguntar se estamos diante de um problema de falta de dinheiro ou de prioridades políticas.

A principal contribuição do artigo reside justamente nessa provocação. Ao reconstruir dois séculos de história do endividamento brasileiro, Lindesay sugere que a questão central não é apenas quanto devemos, mas sobretudo como essa dívida foi construída, quem se beneficia de sua reprodução permanente e por que ela continua sendo tratada como uma verdade incontestável. Em um país marcado por profundas desigualdades sociais e regionais, essas perguntas estão longe de serem meramente contábeis. Elas dizem respeito ao próprio modelo de Estado e ao futuro da democracia brasileira

Poucos temas permanecem tão ausentes do debate público brasileiro quanto a dívida pública. Embora ela consuma anualmente uma parcela gigantesca do orçamento nacional, seu funcionamento continua envolto em uma linguagem técnica que dificulta a compreensão por parte da maioria da população. É justamente contra essa opacidade que Paulo Lindesay se insurge em seu extenso e provocativo ensaio sobre a evolução histórica da dívida pública brasileira.

O mérito central do trabalho está em mostrar que a dívida pública não pode ser entendida apenas como resultado de gastos excessivos do Estado. Ao contrário, Lindesay reconstrói historicamente os mecanismos que transformaram o endividamento em um elemento estrutural da formação econômica brasileira, desde o período imperial até os atuais regimes fiscais. Sua tese é contundente: ao longo de mais de dois séculos, consolidou-se um sistema que produz endividamento de forma contínua e crescente, transferindo recursos públicos para o setor financeiro enquanto restringe investimentos sociais e produtivos.

A narrativa histórica apresentada pelo autor revela que o nascimento da dívida brasileira está ligado ao próprio processo de independência. O novo Estado assumiu compromissos financeiros herdados de Portugal e passou a recorrer sistematicamente a empréstimos externos. Desde então, sucessivas crises, renegociações e refinanciamentos criaram uma dinâmica em que a dívida nunca é efetivamente liquidada, apenas transformada em novos passivos.

Um dos pontos mais relevantes do texto é a distinção entre dívida contraída para financiar investimentos produtivos e dívida que cresce em função dos próprios encargos financeiros. Segundo Lindesay, especialmente a partir das décadas finais do século XX, o crescimento do endividamento brasileiro passou a estar fortemente associado à política monetária baseada em juros elevados e aos mecanismos de refinanciamento permanente dos títulos públicos. Essa interpretação converge com análises anteriores da própria Auditoria Cidadã da Dívida, que questionam a contabilização de parcelas significativas dos juros como amortização ou rolagem da dívida.

A consequência desse processo seria a construção de uma espécie de “dívida impagável”. Não porque o Estado brasileiro seja incapaz de gerar receitas, mas porque o próprio desenho institucional faz com que a dívida se reproduza continuamente. Em outras palavras, paga-se muito, mas a dívida continua crescendo. A cada renegociação surgem novas obrigações; a cada refinanciamento ampliam-se os compromissos futuros. O resultado é um sistema que exige crescentes transferências de recursos públicos para o setor financeiro sem que isso represente uma redução significativa do estoque da dívida.

Essa lógica torna-se ainda mais evidente quando observamos os estados brasileiros. O caso do Rio de Janeiro, frequentemente analisado por Lindesay em outros trabalhos, é emblemático. Diversos estados já pagaram várias vezes o valor originalmente contratado junto à União e aos credores financeiros, mas permanecem presos a contratos que continuam produzindo saldos devedores elevados. O fenômeno lembra uma esteira rolante: quanto mais se caminha, mais distante parece ficar o destino final.

O artigo também oferece uma interpretação crítica dos mecanismos fiscais recentes, incluindo o teto de gastos, os regimes de recuperação fiscal e os novos modelos de renegociação das dívidas estaduais. Segundo a perspectiva defendida pela Auditoria Cidadã da Dívida, essas iniciativas compartilham um traço comum: priorizam a garantia dos pagamentos financeiros enquanto comprimem despesas sociais, investimentos públicos e políticas de desenvolvimento.

Tal diagnóstico conduz a uma questão política fundamental: por que a sociedade brasileira aceita discutir exaustivamente os gastos com saúde, educação, previdência ou funcionalismo público, mas raramente debate os mecanismos que determinam o crescimento da dívida? Para Lindesay, essa assimetria não é acidental. Ela faz parte de um modelo de gestão econômica em que a dívida se converte em instrumento privilegiado de transferência de riqueza.

Independentemente de concordar integralmente ou não com as conclusões da Auditoria Cidadã da Dívida, o trabalho de Paulo Lindesay cumpre uma função essencial: retirar a dívida pública do terreno da tecnocracia e recolocá-la no centro do debate democrático. Afinal, quando mais de uma geração de brasileiros vive sob a justificativa permanente da escassez de recursos para direitos sociais, mas observa simultaneamente o crescimento contínuo dos pagamentos financeiros, torna-se legítimo perguntar se estamos diante de um problema de falta de dinheiro ou de prioridades políticas.

A principal contribuição do artigo reside justamente nessa provocação. Ao reconstruir dois séculos de história do endividamento brasileiro, Lindesay sugere que a questão central não é apenas quanto devemos, mas sobretudo como essa dívida foi construída, quem se beneficia de sua reprodução permanente e por que ela continua sendo tratada como uma verdade incontestável. Em um país marcado por profundas desigualdades sociais e regionais, essas perguntas estão longe de serem meramente contábeis. Elas dizem respeito ao próprio modelo de Estado e ao futuro da democracia brasileira.

Luciano Huck, o Bolsa Família e o preconceito de classe travestido de preocupação fiscal

Enquanto criminaliza um programa social que reduz a fome e consome parcela modesta do orçamento público, o apresentador silencia sobre os privilégios do sistema financeiro, os gastos bilionários com a dívida pública e as conexões com o universo bancário de Daniel Vorcaro e do Banco Master

O recente episódio envolvendo o apresentador Luciano Huck e suas declarações sobre o Bolsa Família revela mais do que uma simples opinião mal formulada sobre políticas sociais. Expõe, na verdade, um preconceito estrutural profundamente arraigado entre parcelas das elites econômicas e midiáticas brasileiras: a ideia de que os pobres seriam naturalmente inclinados à acomodação, à dependência e à fraude, enquanto os privilégios dos muito ricos seriam vistos como expressão legítima de mérito e empreendedorismo.

Durante participação em um fórum empresarial promovido pela Esfera Brasil, Huck afirmou que o Bolsa Família criaria “atalhos” para que famílias permanecessem “ad aeternum” no programa, desestimulando a busca por emprego. A reação negativa foi imediata porque os dados oficiais e os estudos acadêmicos disponíveis contradizem frontalmente essa narrativa.

Segundo levantamento citado pelo próprio UOL, estudos do FMI, Banco Mundial, FGV e Ipea mostram que mais da metade dos beneficiários deixou o Bolsa Família na última década. Além disso, análises reiteradas demonstram que a maioria esmagadora dos beneficiários trabalha — geralmente em empregos precários, mal remunerados e informais — utilizando o programa apenas como complemento mínimo de renda para sobreviver em um país marcado por desigualdades brutais.

O preconceito implícito na fala de Luciano Huck não é novo. Ele ecoa uma longa tradição brasileira de criminalização da pobreza. O pobre que recebe algumas centenas de reais do Estado é imediatamente suspeito de parasitismo social. Já os mecanismos permanentes de transferência de riqueza pública para o sistema financeiro raramente provocam indignação semelhante entre celebridades empresariais e apresentadores de televisão.

E aqui reside uma contradição central que deveria ser debatida publicamente: por que Luciano Huck demonstra tanta preocupação com o Bolsa Família — um programa que representa parcela relativamente pequena do orçamento federal e possui efeitos concretos na redução da fome e da extrema pobreza — enquanto permanece silencioso sobre o gigantesco volume de recursos drenados anualmente pelo pagamento de juros e amortizações da dívida pública?

O debate sobre gastos públicos no Brasil costuma ser profundamente seletivo. O problema nunca parece ser o custo do rentismo financeiro, dos privilégios tributários dos super-ricos, das desonerações empresariais ou dos mecanismos de remuneração da especulação financeira. O alvo preferencial é quase sempre o gasto social destinado aos mais pobres. Trata-se de uma pedagogia ideológica extremamente funcional às elites: convencer a população de que o problema fiscal do país está nos miseráveis, e não nos mecanismos estruturais de concentração de renda.

A situação torna-se ainda mais delicada quando se observa a relação de Huck com o universo financeiro que hoje se encontra no centro de outra grande controvérsia nacional: o colapso do Banco Master e as conexões empresariais de seu controlador, Daniel Vorcaro. Diferentes reportagens apontam que Huck foi garoto-propaganda do Will Bank, instituição ligada ao grupo Master, além de ter mantido relações próximas com Vorcaro. Há ainda relatos de que o apresentador participou de negociações envolvendo possível aquisição do banco digital antes do aprofundamento da crise financeira da instituição.

Nesse contexto, a pergunta inevitável é: qual a opinião de Luciano Huck sobre os custos já produzidos ao Tesouro Nacional e ao sistema financeiro pela crise envolvendo o Banco Master? Afinal, enquanto o Bolsa Família transfere renda para milhões de famílias pobres, os episódios recorrentes de socialização de prejuízos bancários historicamente transferem bilhões de reais para salvar instituições privadas e preservar interesses do mercado financeiro.

A seletividade moral é gritante. Quando o dinheiro público vai para pobres comprarem comida, fala-se em “dependência”. Quando vai para estabilizar bancos, remunerar rentistas ou salvar instituições financeiras problemáticas, fala-se em “responsabilidade fiscal” ou “estabilidade do sistema”.

No fundo, a polêmica em torno de Luciano Huck ajuda a revelar uma disputa muito maior sobre o próprio significado do Estado brasileiro. Um Estado que segue sendo extremamente generoso com o capital financeiro, mas cuja elite econômica reage com indignação sempre que parcelas mínimas da riqueza nacional são direcionadas para garantir dignidade aos mais pobres.

Talvez o maior mérito involuntário da fala de Huck tenha sido justamente escancarar esse duplo padrão moral. Porque o verdadeiro debate nunca foi sobre “dependência” dos pobres. O Brasil convive há décadas, isto sim, com a dependência estrutural de suas elites em relação ao fundo público.

Matéria do “Poder 360” aborda gastos com “Welfare State” e espertamente esquece da Dívida Pública

Looting the Pension Funds: How Wall Street Robs Public Workers

O site “jornalístico” Poder 360 publicou hoje uma daquelas matérias capiciosas sobre os gastos federais com o chamado “Welfare State” entre 2004 e 2025, o que daria uma média anual de R$ 441 bilhões com todos os programas e obrigações sociais da União para com os trabalhadores brasileiros.

O valor parece alto, mas não é. Pelo menos se compararmos com os pagamentos feitos apenas para rolar a dívida pública. Segundo matéria publicada pelo jornal “Brasil de Fato” em abril de 2025, o valor a ser pago este ano apenas com a rolagem da dívida pública deverá chegar ao histórico valor de R$ 1 trilhão.

Em outras palavras, se pegarmos tudo o que gasta em benefícios e direitos sociais, ainda teremos um valor que é cerca de duas menor do que aquilo que gasta com a ciranda financeira que é turbinada pela política de juros extorsivos que é determinada pelo Banco Central.

Se pegássemos esse 1 trilhão de reais que são desperdiçados para fazer a fortuna dos bancos e o investissémos em escolas e universidades, talvez o Brasil tivesse alguma chance de sair da condição de país de economia periférico para liderar o mundo, como sempre gosta de dizer em seus discursos o presidente Lula.

E eu não sei o que é pior, termos essa política extorsiva de juros ou termos esses pseudo sites jornalíticos fazendo o papelão de atacar os investimentos, enquanto o Brasil é usado como uma verdadeira vaca leiteira dos bancos nacionais e internacionais.

Arcabouço fiscal do governo Lula está mais para calabouço fiscal que pune os pobres para premiar os ultrarricos

lula arcabouço

O presidente Lula entregou o projeto do arcabouço fiscal ao presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e ao vice-presidente do Senado, Veneziano Vital do Rego (MDB-PB) — Foto: Diogo Zacarias/ Ministério da Fazenda

Sob inspiração do ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT/SP), o governo Lula enviou ontem ao Congresso o projeto de lei sobre o “Arcabouço Fiscal” que deverá substituir o “Teto de Gastos” aprovado no governo de Michel Temer.

O problema é que, contrariando as promessas feitas aos eleitores que votaram para eleger o presidente Lula, o “arcabouço fiscal” proposto por Fernando Haddas mantém o teto só para investimentos sociais, enquanto o gasto com a chamada dívida pública continua sem teto, controle ou limite algum, apesar de ser o responsável pelo rombo das contas públicas, de acordo com Maria Lúcia Fatorelli, uma das principais conhecedoras do orçamento federal e membro atuante da Auditoria Cidadã da Dívida (ver imagem abaixo).

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O primeiro problema é que ao manter livre o pagamento da dívida pública e aprisionados os gastos sociais a uma espécie de “teto de gastos do bem”, o governo Lula continuará punindo os pobres em benefícios dos 1% de ultrarricos que se alimentam da jogatina financeira que mantém os mais pobres aprisionado em uma espécie de calabouço fiscal. 

O segundo problema é que mantida essa postura de neoliberalismo com face social, as chances dos planos de retomada do crescimento econômico serão praticamente inviabilizados. Com isso, cairá água no moinho da extrema-direita que poderá se habilitar a avançar ainda mais no plano eleitoral, inclusive nas eleições presidenciais de 2026.

Bolsa Família x Bolsa Banqueiro: o fosso que separa os ricos dos pobres no Brasil

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Acabo de ouvir uma reportagem dando conta dos múltiplos requisitos que foram postos pelo governo Lula para a concessão da chamada “Bolsa Família” a mais de 20 milhões de famílias pobres. Algumas dessas regras fariam total sentido se não estivéssemos em uma condição totalmente precária em termos não só da geração de empregos, mas também da capacidade limitada de prestação de serviços que deveriam públicos.  A imposição de regras que de cara não serão fáceis de serem cumpridas representa uma negação do direito de milhões de brasileiros a terem um mínimo de condição de melhorarem sua condição de vida.

A coisa fica ainda píor se lembrarmos que o estado brasileiro vem há várias décadas entregando mais da metade do orçamento federa aos bancos na forma do pagamento de juros de uma dívida pública que nunca foi devidamente auditada. Para piorar, os bancos brasileiros, que estão entre os mais lucrativos do planeta, possuem mecanismos de proteção contra perdas que advenham de suas atividades que são verdadeiras “bolsa banqueiro”.

Um exemplo da “Bolsa Banqueiro” foi o repasse de R$ 1,8 bilhão feito pelo Bradesco para a União por causa da decisão da instituição financeira de  repassar seus prejuízos com o imbróglio das Lojas Americanas para a União.  Apenas para ver o tamanho do abusrdo, usando o valor base da Bolsa Família, apenas com esse “repasse” seria possível beneficiar 3 milhões de famílias. 

Por outro lado, se os mesmos “analistas” da mídia corporativa dedicassem o mesmo tipo de viés crítico que dispensam à Bolsa Família à congênere concedida aos banqueiros, eu até acharia que estamos próximos de um debate sério. Mas a verdade está muito longe disso. 

Na prática o que temos é a perpetuação de que os investimentos sociais são gastos inúteis, enquanto que a entrega de grandes nacos do orçamento federal aos bancos seria uma espécie de direito divino.

Juros altos do BC custaram R$ 410 bilhões a mais para o Tesouro em 2021 e 2022

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Por Jeferson Miola

Como explica o economista André Lara Resende em artigo no jornal Valor de 26/12/2022, “os juros, outra vez, ameaçam a retomada do desenvolvimento” do Brasil.

De fevereiro de 2021 a dezembro de 2022, o Banco Central [BC] elevou em 11 pontos percentuais a taxa básica de juros, que passou de 2,75% ao ano para os atuais 13,75%.

Importante lembrar que este surto altista coincide com a aprovação, pelo Congresso Nacional, da Lei Complementar nº 179, de 24/2/2021, que estabeleceu a autonomia do BC e fixou mandatos para o presidente e diretores da instituição.

Lara Resende salienta que o aumento da taxa básica de juros pelo BC representou um custo adicional, para o Tesouro, de 1,75% do PIB em 2021 e 3,65% do PIB em 2022, o que equivale a R$ 136 bilhões a mais em 2021 e R$ 274 bilhões a mais em 2022 em comparação com 2020 – um acréscimo de R$ 410 bilhões desta despesa somente nos dois últimos anos do governo fascista-militar, conforme marcação em azul na tabela:

gastos com juros1

O economista recorda que a PEC da Transição, jocosamente chamada de ‘PEC da gastança’ pela Folha de São Paulo e de ‘PEC do estouro’ pela CNN, “autorizou gastos acima do teto num valor de até R$ 169 bilhões” para 2023.

Enquanto os R$ 169 bilhões serão direcionados para quase 30 milhões de beneficiários do bolsa-família e, ainda, para a recomposição dos orçamentos da saúde, educação, cultura, ciência e tecnologia, os R$ 410 bilhões dos juros pagos a mais pelo Tesouro foram apropriados por um restrito grupo de rentistas: instituições financeiras e fundos de investimentos abocanham 53,6%, fundos de previdência ficam com 22,7%, seguradoras com 4%, governo com 4,3% e não residentes ficam com 9,2%.

Lara Resende destaca que o Brasil está dentre os países “que mais agressivamente subiram as taxas de juros depois da pandemia”, mas que ainda assim “tiveram um desaquecimento da economia em relação aos demais países”. Apesar disso, “a inflação média continuou teimosamente alta”.

A equivocada política de juros altos do Banco Central faz do Brasil o paraíso dos rentistas. Com a taxa Selic de 13,75% ante uma inflação anual de 5,79%, “o Brasil tem hoje a taxa básica de juros real mais alta do mundo” – de 8% – que “é mais do dobro da [taxa] do segundo colocado neste triste concurso, o Chile”.

O Banco Central do Brasil está na contramão das principais economias do mundo, cujas taxas reais de juros são negativas; ou seja, os respectivos Tesouros Nacionais oferecem taxas de juros inferiores às taxas inflacionárias, conforme tabela:
comparação taxas de juros e inflação“No mundo hoje, só o Brasil garante aos rentistas uma taxa real perto de 8% ao ano sem risco e com liquidez imediata”. Para Lara Resende, trata-se de “uma excrescência que inviabiliza o investimento”.

Ele sustenta ainda que “o pagamento de juros sobre a dívida é um gasto público como qualquer outro”. A única diferença em relação aos demais gastos públicos é que o pagamento de juros não é contabilizado como despesa primária, e por isso não é computado no teto de gastos, embora os juros “expandem a demanda agregada e podem vir a pressionar a inflação”.

Para Lara Resende, “a manutenção das absurdas taxas de juros do Banco Central desafia a lógica”. Ele denuncia os “profetas do abismo fiscal”, para quem “o gasto primário, para atender necessidades básicas da população carente, seria inflacionário, mas o gasto com o serviço da dívida, com o bolsa rentistas, não”.

Cada ponto percentual de juros equivale a um gasto de aproximadamente R$ 19 bilhões para pagar a dívida de curto prazo. Isso significa, portanto, que os 8% de juros acima da inflação correspondem a cerca de R$ 160 bilhões desviados do orçamento anual diretamente para o rentismo.

A decisão do Banco Central de manter as altas taxas de juros em que pese a mudança de governo em 1º de janeiro e os novos rumos da economia nacional, é injustificável.

A política de juros altos do Banco Central, lesiva às finanças e aos interesses nacionais, legitima a desconfiança do presidente Lula em relação às intenções de Roberto Campos Neto, o presidente bolsonarista da instituição.

É legítimo se suspeitar, portanto, se por trás da política de juros elevados não se esconde um plano de sabotagem do país – além, claro, de significar um esquema de rapinagem monumental do orçamento brasileiro.

* charge: Maringoni


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Este texto foi inicialmente no blog do jornalista Jeferson Miola [Aqui!].

CPI da dívida pública do Rio de Janeiro revela que União é a principal credora, e dívida continua aumentando em vez de diminuir

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A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), criada pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) para apurar o montante da Dívida Pública do estado do Rio, realizou na última nesta terça-feira (24), uma oitiva na qual a Secretaria de Estado de Fazenda (Sefaz) apresentou os dados da dívida pública do estado (Aqui! Aqui!) .

Segundo a Sefaz, dos R$ 184 bilhões da dívida pública estadual, 61% têm como credor diretamente a União e 16% estão relacionados a contratos nos quais o Governo Federal é garantidor (ou seja a União detém 77% da dívida pública estadual), enquanto que 25% de toda a dívida está indexada em dólar (suponho que em parte causada pela famigerada “Operação Delaware”.

Por outro lado, ao contrário do que muitas vezes se pensa, a adesão ao chamado Regime de Recuperação Fiscal (RRF) não cessou a atualização do estoque via a aplicação de taxas de juros, o que faz com que, apesar de todos os sacrifícios impostos ao funcionalismo público e aos serviços que eles prestam, o estoque da dívida não só não diminuiu, como aumentou, ainda que estabilizo em vultosos R$ 200 bilhões.

Mas uma coisa está clara com essas primeiras revelações, qual é a razão de que o Ministério da Fazenda sob o comando do banqueiro Paulo Guedes esteja pressionando o estado do Rio de Janeiro a impor ainda mais sacrifícios aos servidores públicos e à população em geral. É que sendo a União sendo a principal ganhadora da hemorragia de recursos pertencentes ao Rio de Janeiro, a decisão é continuar sugando a galinha de ovos de ouro, ainda que sob o risco de uma grave insurreição social causada pela degradação extrema dos serviços públicos, como já está ocorrendo.

Uma coisa é certa, o RRF na verdade é um regime de repressão fiscal que retira toda a autonomia e capacidade de investimento do estado do Rio de Janeiro, tornando o governador e a Alerj uma espécie de rainha da Inglaterra tropical.

Banca oportunista aproveita pandemia para destruir finanças públicas

GUEDES BANQUEIROS

Por Maria Lúcia Fatorelli

Em pleno estado de calamidade pública, enquanto a sociedade enfrenta alarmante drama social agravado pela desigualdade extrema e insuficiência de serviços de saúde e assistência, a banca oportunista se aproveita da pandemia do coronavírus e do tumulto gerado por crise política para aumentar ainda mais os seus privilégios por meio de graves mecanismos financeiros incluídos na PEC 10 e no PLP 39, que irão destruir as finanças públicas e alimentar ainda mais o Sistema da Dívida.

Tais mecanismos não têm nada a ver com a pandemia do coronavírus; não representam ajuda alguma aos entes federados, pelo contrário, irão agravar ainda mais a situação, pois ambos geram dívida pública sem contrapartida alguma, a qual passa a exigir mais e mais dinheiro público para o seu pagamento, sangrando os orçamentos públicos e reduzindo direitos sociais, além da perda de patrimônio público continuamente privatizado “paga pagar dívida pública”.

Os mecanismos inseridos na PEC 10 e no PLP 39 irão aprofundar de forma drástica o Sistema da Dívida, isto é, a dívida pública gerada em sua maioria sem contrapartida alguma em investimentos, como já declarado inclusive pelo TCU (1) ao Senado.

PEC 10/2020

Na PEC 10 foi inserido imenso golpe financeiro que provocará o aumento de trilhões no estoque da dívida pública, o agravamento do arrocho orçamentário e a consequente redução de direitos sociais, além da perda de patrimônio público e reservas, ou seja, um rombo de trilhões de reais aos cofres públicos e à sociedade, em troca da “carteira podre” dos bancos!

Essas afirmações estão comprovadas em documentos e declarações públicas de autoridades:

– O presidente do Banco Central informou ao Senado que a operação chegará a R$972,9 bilhões (2) , porém, levantamento feito pela IVIX
Value Creation (3) já havia revelado que a “carteira podre” dos bancos chegava ao valor de quase R$ 1 Trilhão, sem considerar a correção monetária! Se computada essa correção, chegaremos a vários trilhões, pois esses ativos privados vêm sendo acumulados nos bancos há 15 anos, segundo o levantamento!

– Na última semana o ministro Paulo Guedes anunciou que quer vender reservas internacionais para pagar dívida pública (4) ! Falou também sobre a aceleração das privatizações de R$ 1 trilhão de imóveis públicos, e mais R$ 1 trilhão de participações em estatais (5) , também para pagar a dívida pública.

– A PEC não estabelece limite algum para a operação que autoriza que o Banco Central opere com títulos da dívida pública em mercado secundário desregulado (de balcão), atuando como um mero operador independente, podendo comprar derivativos sem lastro e debêntures de bancos, sem limite de valor, sem identificar os beneficiários, sem obedecer aos “Procedimentos Mínimos” recomendados pela Anbima, sem a possibilidade de investigação efetiva, sem limitar o prazo dos papéis, sem a exigência de contrapartida alguma ao país, e mais: pagando tudo isso com títulos da dívida pública, cujo peso recairá sobre o povo brasileiro (6)!

– Por isso, a própria PEC 10/2020 já incluiu outro dispositivo infame, que autoriza a emissão de novos títulos da dívida pública para pagar os juros, ou seja, a dívida vai aumentar de forma exponencial tanto por causa da absorção de papelada podre da banca pelo Banco Central às custas da geração de dívida pública, como também pela emissão de mais títulos para pagar os seus juros!

A Auditoria Cidadã da Dívida já enviou NOTIFICAÇÃO (7) EXTRAJUDICIAL a todos(as) deputados(as) federais para garantir que cada parlamentar tomou conhecimento dos diversos e graves problemas de ordem jurídica, constitucional, econômico-financeira e social envolvidos na PEC 10/2020, assim como os seus impactos danosos à sociedade brasileira, e assegurar que todos que irão votar a referida PEC 10/2020 em plenário deem conhecimento a seus pares e deliberem, no âmbito de suas responsabilidades político-parlamentares, as medidas necessárias para que sejam superados os diversos problemas elencados na Notificação Extrajudicial, previamente à deliberação da referida proposta pelo Plenário da Câmara dos Deputados. A Auditoria Cidadã da Dívida pediu ainda que a referida NOTIFICAÇÃO EXTRAJUDICIAL conste dos anais da sessão que analisar a referida PEC 10/2020 na Câmara dos Deputados.

PLP 39/2020

O conteúdo do PLP 149/2020 passou a constar agora do PLP 39/2020, conforme votação virtual do Senado no último sábado à noite, e incluiu o ESQUEMA FRAUDULENTO DE SECURITIZAÇÃO, mediante o qual uma nova dívida securitizada (formalizada em debêntures) é gerada, a qual é paga mediante a cessão de parte da arrecadação tributária e não tributária, POR FORA DOS CONTROLES ORÇAMENTÁRIOS.

O texto do PLP 39 inclui a securitização no mercado doméstico de créditos denominados e referenciados em reais”.

O pagamento da securitização se dá por fora do orçamento público, mediante a cessão do fluxo de arrecadação do ente federado, que perde o controle sobre suas receitas, tendo em vista que o desvio do fluxo se dá durante o percurso do dinheiro pela rede bancária!

O mercado financeiro vem tentando aprovar o esquema de securitização de créditos públicos por meio do PLP 459/2017 (8(consta também da PEC 438/2018), e diante da gravidade desse mecanismo e da obscuridade do texto legal, o tema também já foi objeto de INTERPELAÇÃO EXTRAJUDICIAL (9) a todos os líderes de todos os partidos políticos na Câmara dos Deputados, a fim de garantir que todos tomaram conhecimento do verdadeiro teor desse esquema.

O esquema da Securitização de Créditos já tem sido implementado de forma ilegal em alguns entes federados, a exemplo de Belo Horizonte, onde uma CPI (10) comprovou graves danos aos cofres públicos. As finanças do Estado de Minas Gerais também têm sido gravemente afetadas por esse esquema (11) .

Esse esquema vem dando errado no mundo todo, pois só interessa aos bancos que passam a se apropriar de parte da arrecadação tributária que sequer alcança os cofres públicos (12) , em montante muitas vezes maior do que o adiantamento inicial de recursos que o esquema possibilita, como uma isca para o imenso rombo que virá em seguida e comprometerá drasticamente o orçamento público.

Em vez de significar ajuda, esse esquema representa um rombo às contas públicas! Não houve o devido debate sobre esse dispositivo aprovado às pressas no sábado à noite, em rito que impedia argumentação e sequer o devido debate acerca das consequências do que se estava votando!

O Congresso não pode penalizar os estados e municípios dessa forma!

Somente bancos (que agenciam o processo de securitização, cobram taxas exorbitantes e acabam adquirindo a totalidade das debêntures emitidas nesse processo), ganham com esse negócio, que irá prejudicar as gerações atuais e futuras de todos os entes federados, comprometendo o fluxo de arrecadação dos respectivos entes de forma definitiva no processo de securitização!

Ademais, o texto do PLP 39 está vago e dá a entender que qualquer dívida dos entes federados poderia ser objeto de securitização, abrindo margem para referendar as ilegitimidades das dívidas dos estados (em especial a transferência dos passivos dos bancos estaduais para o estoque dessas dívidas no esquema que se denominou PROES na década de 90), além das históricas condições financeiras abusivas
aplicadas contra os entes federados. Essa proposta de securitização passa por cima de decisão do STF que suspende temporariamente as dívidas refinanciadas pela União (13), e que deveriam ser auditadas e revisadas, expurgando-se os cálculos abusivos e as parcelas ilegais e ilegítimas (PROES).

Em vez de empacotar as dívidas dos entes federados e oferece-las em processo fraudulento de securitização, em linha com a perversa financeirização que está dado errado no mundo todo, o Congresso deveria obrigar a União a socorrer estados e município, onde vive a população, pois tem muito dinheiro em caixa; mais de R$ 4 trilhões em caixa: saldo de R$ 1,4 trilhão na conta única do Tesouro Nacional (14), mais de R$ 1,7 trilhão em Reservas Internacionais (15) , e mais de R$ 1 trilhão no caixa do Banco Central (16).

É inaceitável que se aproveite do drama da pandemia do coronavírus para suicidar de vez as finanças dos entes federados com esse fraudulento esquema da securitização.

Conclusão

Diante disso, solicitamos aos excelentíssimos deputados e deputadas federais que sejam excluídos da PEC 10/2020 (Arts. 7 o e 8 o do substitutivo aprovado no Senado (17 ) e do PLP 39/2020 (Art. 6 o do texto aprovado no Senado), tendo em vista que tais dispositivos não têm nada a ver com o drama da pandemia do coronavírus e descaradamente representam mais privilégio ainda para bancos, às custas de geração exponencial de dívida pública sem contrapartida alguma e comprometimento de todas as gerações atuais e futuras com os seus pagamentos exorbitantes, destruindo as finanças públicas e qualquer possibilidade de desenvolvimento socioeconômico do país.

Apelamos a toda a sociedade que pressione deputados e deputadas federais que terão que votar a PEC 10/2020 e o PLP 39/2020 para que REJEITEM ESSE GOLPE FINANCEIRO!

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Este artigo foi originalmente publicado no site da “Auditoria Cidadã da Dívida” [Aqui!].