E agora Bolsonaro? Donald Trump cita Brasil como mau exemplo de gerenciamento da pandemia da COVID-19

Em um daqueles exemplos da máxima “das voltas que o mundo dá”, o presidente dos EUA, Donald Trump citou o Brasil e a Suécia como maus exemplos no gerenciamento da pandemia da COVID-19.   Em uma coletiva de imprensa na Casa Branca, Donald Trump  afirmou hoje (05/06)  que “se você olhar para o Brasil, eles estão passando por dificuldades. A propósito, eles estão seguindo o exemplo da Suécia. A Suécia está passando por um momento terrível. Se tivéssemos feito isso, teríamos perdido 1 milhão, 1 milhão e meio, talvez até 2 milhões ou mais de vidas” 

trump brasil

Essa rejeição do “Brazilian Way” (o famoso “jeitinho brasileiro” de tratar (ou melhor, ignorar) a pandemia da COVID-19 vem em um momento especialmente delicado para Donald Trump que vê o seu isolamento crescer após os EUA acumularam a incrível marca de mais de 110 mil mortos que resulta, para muitos, da sua incapacidade de liderar os esforços da primeira economia do mundo para controlar a pandemia (ver fala de Donald Trump no vídeo abaixo).

Assim, se até Donald Trump está tratando o caso brasileiro como um mau exemplo de descontrole na luta contra o coronavírus, imaginemos o que pensam os seus oponentes democratas. 

Aliás, um pouco do que pensam os democratas já se sabe.  É que no dia  04 de junho, membros do estratégico comitê “House and Means” da Câmara de Deputados dos EUA rejeitaram  a intenção do governo Trump de buscar uma parceria econômica ampliada com o Brasil, sob a liderança do presidente Jair Bolsonaro.  Estes membros do “House and Means” escreveram uma carta ao Representante Comercial Robert Lighthizer, onde  detalharam o que eles chamaram de “uma plêiade de razões pelas quais é inapropriado o governo doss EUA se engajar em discussões de parceria econômica de qualquer escopo com o governo Bolsonaro no Brasil,  visto que este desmantelou anos de esforços para progredir direitos civis,  humanos, ambientais e trabalhistas”.

Em outras palavras, se o presidente Jair Bolsonaro está achando que a salvação do seu governo virá do “grande irmão do Norte”, melhor pensar de novo.

Em meio à catástrofe causada pela COVID-19, revolta popular contra violência policial abala os EUA

Os EUA são o principal epicentro da pandemia da COVID-19 e no dia de hoje a principal potência econômica e militar do planeta já contabiliza cerca de 1.8 milhão de infectados pelo coronavírus e em torno de 103.000 mortos pela COVID-19. Não obstante,  outro caso rumoroso de violência policial contra um cidadão negro, George Floyd, por policiais brancos na cidade de Minneapolis, a mais populosa do estado de Minnesota, causou uma revolta popular sem precedentes, com partes inteiras da cidade, a começar pela delegacia de polícia, foram reduzidas à cinzas (ver vídeo abaixo).

A verdade é que os EUA hoje amargam uma decadência econômica que ameaça a estabilidade social do país, com a grande parte da riqueza ficando concentrada nas mãos dos 1% mais ricos da população. Esse processo de alta concentração de renda já foi rotulado de “Brazilinization” da sociedade estadunidense, pelos motivos que os leitores deste blog podem facilmente imaginar.

Essas cenas de caos social são exatamente aquelas que se imaginaria em países mais pobres que hoje sofrem duramente com os efeitos de décadas de políticas neoliberais. Entretanto, estas são cenas genuinamente estadunidenses, o que chega a ser irônico, pois foi dos EUA que se originaram as políticas que aumentaram a concentração da renda em outras partes do planeta. É o famoso “o feitiço se virando contra o feiticeiro.

Essa situação caótica serve ainda para piorar as chances de reeleição do presidente Donald Trump que é visto cada vez mais como o principal responsável pelo duro custo humano que a pandemia da COVID-19 tomou nos EUA. Sempre é bom lembrar que como Jair Bolsonaro fez no Brasil, Donald Trump apostou todas as suas fichas em uma combinação de negacionismo da letalidade do coronavírus e da aposta nos efeitos supostamente milagrosos da cloroquina.

 

A esquizofrenia do governo Bolsonaro frente à China terá efeitos desastrosos para o Brasil

china brasilBrasil e China têm fortes interesses comerciais, mas apesar disso o governo Bolsonaro segue hostilizando nosso principal parceiro comercial.

Como já narrei aqui mesmo, visitei a República Popular da China em duas ocasiões, ambas para participar de eventos científicos. Como não fiquei trancado no hotel e circulei nas cidades que visitei (Yantai e Shenzen), sempre alerto as pessoas que me ouvem falar dessas visitas para que evitem cair nos estereótipos fáceis sobre a China, e principalmente, sobre os chineses. O fato é que voltei de ambas as visitas com diferentes impressões sobre o funcionamento de uma sociedade que a maioria dos brasileiros sequer imagina como se dá, apesar dos fortes laços comerciais que existem entre os dois países e da proximidade objetiva que isso acarreta, apesar da enorme distância geográfica existente.

Em Yantai, prinvíncia de Shandong, no aeroporto e no centro da cidade.

Um fato que a imensa maioria dos brasileiros desconhece é que a China é hoje o principal parceiro comercial do Brasil, especialmente na área do chamado “agronegócio”, onde exportamos parcelas significativas das nossas commodities agrícolas e importamos insumos chineses que mantém a agricultura de exportação brasileira em padrões competitivos de produção.  Além disso, as empresas chinesas já estão presentes em setores estratégicos da economia brasileira, a começar pela exploração de petróleo na camada pré-Sal.

Outro detalhe é que boa parte da balança comercial depende hoje da assimilação das commodities agrícolas brasileiras pelo mercado chinês, já que vivemos um claro processo de desindustrialização, o que diminuiu fortemente o peso da exportação de produtos industrializados. Isso acaba formando uma espécie de círculo perfeito, onde os chineses cumprem o papel de importar comida e vender, por exemplo, agrotóxicos e fertilizantes químicos.

Por isso é que considero esquizofrênico os ataques desferidos por membros do governo Bolsonaro ao sistema político chinês e, agora, sobre a forma de condução da pandemia da COVID-19. É que os governantes chineses, apesar de serem conhecidos por terem um comportamento altamente pragmático, também não são de levar desaforo para casa, já que não são de emitir desaforos de forma irresponsável.  E como esses ataques têm partido de membros do alto escalão do governo do Brasil, a começar pelo chanceler olavista, o Sr. Ernesto Araújo,

ji trump

Ao assumir a retórica de Donald Trump para hostilizar a China pela pandemia da COVID-19, o governo Bolsonaro arrisca as relações econômicas e políticas com o principal parceiro comercial do Brasil

A verdade é que hostilizar o governo da China, apenas para servir os interesses do governo dos EUA, se apresenta quase como um verdadeiro suicídio político e econômico para um país cuja economia se tornou umbilicalmente ligada ao mercado chinês., especialmente agora que está completamente fragilizada pela pandemia da COVID-19.  Não se trata aqui de desconhecer eventuais problemas ocorrendo na China e fechar os olhos a tudo em nome das relações comerciais. Entretanto, atacar para atender os interesses estratégicos de um concorrente importante na mesma faixa de produtos da qual o Brasil depende não faz o menor sentido.

O pior é que o nível das hostilidades agora poderá fortemente aumentado, se for confirmado que na reunião ministerial que desatou o pedido de demissão do ex-ministro Sérgio Moro, o próprio presidente Jair Bolsonaro desferiu palavras “pouco elogiosas” ao governo da China. É que uma coisa é ser ofendido por um subalterno, outra coisa é ser ofendido pelo chefe desse subalterno.  É provavelmente por causa da noção dos danos que isto irá causar que o governo Bolsonaro está tentando impedir que o inteiro conteúdo da gravação daquela reunião venha ao conhecimento público.  A questão é que a estas alturas do campeonato, os chineses já saibam tudo o que foi dito, e já estejam preparando contramedidas proporcionais às ofensas gratuitas que lhes foram desferidas pelo presidente Bolsonaro.

Definitivamente o presidente Bolsonaro e seu governo estão trabalhando para confirmar a força de previsão da Lei de Murphy que estipula que “nada é tão ruim que não possa piorar (tudo que começa bem, termina mal e tudo que começa mal, termina pior).” A ver!

EUA: maior potência econômica e militar da história desmorona frente ao coronavírus

CORONACOVID-19: Os EUA concentram o maior número de contaminados, de mortos e de pacientes em condições críticas

Até por força do fato de morar no Brasil, tenho abordado de forma repetida os efeitos e características da difusão da pandemia da COVID-19 em nosso país, que nesta segunda-feira (27/04) já contabiliza 4.286 óbitos. Entretanto, por mais catastróficas que as tendências no Brasil sejam em relação aos resultados da pandemia, nada do que nos acontecer vai ofuscar o desmoronamento do sistema de saúde dos EUA, que lideram em três quesitos importantes da crise sanitária deflagrada pelo desprezo ao poder letal do novo coronavírus.

É que os EUA são o país com o maior número de pessoas infectadas (32,7% do total global), no número de mortos (26,7% do total) e no número de casos graves (26,3%). Apenas por comparação, a Espanha que é a segunda colocada no número de casos de pessoas infectadas detém 7% do total global,  11% dos mortos, e 13% dos casos graves. 

mass gravesFossas coletivas estão sendo usadas para enterrar os mortos pela COVID-19 na Ilha de Hart em Nova York

A pergunta que se coloca para muitas pessoas é de como a principal potência econômica e militar da história da Terra conseguiu se tornar o centro desta pandemia, mesmo tendo alguns meses para se preparar a sua chegada em seu próprio território.

Uma primeira e óbvia questão é que nos EUA não há um sistema gratuito de saúde, e o acesso ao sistema privado de saúde se dá pela via dos planos de saúde.  Além disso, segundo dados de 2018, um total de 27.9% de estadunidenses abaixo de 64 anos não possuíam qualquer cobertura para obter atendimento de saúde (ver o gráfico abaixo).

sem seguro

E obviamente os não-possuidores de seguro de saúde estão localizados em grupos economicamente fragilizados e que operam em áreas profissionais em que predominam salários que mal lhes garante o ato de comer todos os dias. Estão aí inclusos negros e latinos, mas também um número significativo de trabalhadores brancos que, aliás, são a maioria dos que não possuem seguro de saúde  (ver figura abaixo).

sem seguro 1

Há ainda que se lembrar que a desigualdade de renda nos EUA é uma das maiores dentre os chamados países industrializados, e vem crescendo aceleradamente desde o final da União Soviética.  O resultado disso é que os membros do 1% mais afluentes da sociedade estadunidense possuem acesso a todo tipo de luxo, enquanto uma porcentagem crescente está sendo empobrecida de forma galopante, com um número cada vez maior de pessoas sem trabalho e morando nas ruas das principais cidades dos EUA.

donald trumpO presidente Donald Trump foi um negacionista de primeira hora do impacto do coronavírus nos EUA, e agora paga o preço  da sua postura anti-científica

Para completar a equação, não há como deixar de fora a situação política, onde a atuação do presidente Donald Trump foi decisiva para uma piora nas condições de financiamento da pesquisa científica, com seguidos cortes de investimento e a ostracização de cientistas que passaram a ser vistos como inimigos das ideias por detrás do “Make America Great Again“.  Para piorar, Trump se apresentou até recentemente com um negacionista da pandemia, e só parece ter acordado para o problema quando ficou evidente que sofreria danos eleitorais se nada fosse feito para conter o número de mortos pela infecção. A partir daí, o que tem sido visto é um percurso errante de Trump, que culminou na sugestão de que as pessoas ingerissem dióxido de cloro (usado em alvejantes) para eliminar o coronavírus.

Como ocorre no Brasil em relação aos “bolsonaristas”, os seguidores de Donald Trump tem sido mobilizados para tentar romper as políticas de isolamento social adotadas por governadores e prefeitos para diminuir a velocidade de difusão do coronavírus. A diferença é que, ao menos por enquanto, nos EUA, a maioria da população vem ignorando as carreatas e manifestações dos seguidores de Trump. Entretanto, isto não tem impedido que governadores mais alinhados ao presidente Donald Trump sinalizem uma abertura precoce do comércio, mesmo em estados em que a difusão do coronavírus ainda está em fase de aceleração, como é o caso da Geórgia.

us pandemiaSeguidores de Donald Trump se mobilizam para acabar com as políticas de isolamento social em diferentes partes dos EUA

Ainda que seja difícil realizar um prognóstico definitivo de como os EUA estarão após o fim da pandemia, já é possível dizer que sairão com a imagem de maior nação do mundo e terra das oportunidades desmoronar de forma inapelável. É que certamente outros países mostrarão que com sistemas públicos de saúde e com políticas de apoio aos trabalhadores desempregados são as principais formas de enfrentamento desta e das outras pandemias que virão.

Finalmente, o economista Nouriel Roubini previu no início de março que a pandemia da COVID-19 levaria a um derrota eleitoral de Donald Trump e a uma recessão de dimensões globais que, em última instância, obrigaria um abandono das políticas neoliberais. A entrevista, quando dada, soou exagerada, mas nesta etapa da pandemia, Roubini parece ter acertado mais uma vez.

Essa é a hora exata de Bolsonaro imitar Trump

trump bolsonaroJair Bolsonaro e Donald Trump durante encontro ocorrido nos EUA.

Como todos sabem, o presidente Jair Bolsonaro é um fã ávido do seu congênere estadunidense Donald Trump.  Em função disso, boa parte da sua linha de raciocínio vinha sendo uma espécie de espelho do que Trump estava mandando seu governo e o povo dos EUA fazerem para achatar a curva de difusão da COVID-19. A partir de uma minimização do potencial devastador do vírus, Trump estava efetivamente tratando o coronavírus como uma “gripezinha”, tal como Bolsonaro.

Pois bem, agora que os EUA se tornaram o epicentro global da pandemia causada pelo coronavírus, Donald Trump acaba de fazer um giro considerável em sua posição e enviou cartas à população pedindo que restrinja ao máximo a circulação e que, sempre que possível, os estadunidenses fiquem em casa (ver imagens abaixo).

trump fica e mcasatrump fica em casa 1

É interessante nota que as diretrizes de Donald Trump incluem os seguintes pontos:

  1. Escutar e seguir as determinações dos estados e autoridades locais
  2. Não ir trabalhar se estiver com sintomas
  3. Não sair de casa com crianças doentes e chamar a assistência médica
  4. Idosos e pacientes com doenças crônicas devem ficar em casa
  5. Isolamento total da família caso haja a confirmação de um caso de COVID-19
  6. Trabalhar e estudar em casa sempre que possível
  7. Evitar reuniões sociais e em grupos com mais de 10 pessoas
  8. Evitar bares e restaurantes, dar preferência a delivery e “para viagem”
  9. Evitar viagens desnecessárias, para compras ou turismo
  10. Não visitar berçários ou asilos
  11. Praticar sempre uma boa higiene

Todas essas orientações são muito semelhantes ao que já foi largamente recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), e que países que contiveram a explosão da contaminação por COVID-19 já adotaram.

Pois então, esse momento me parece o mais recomendado e oportuno para que o presidente Jair Bolsonaro tome medidas para fazer o que ele tem mais feito ao longo de 15 meses de governo, qual seja, imitar as ações de Donald Trump. 

Aliás, falando em imitar as boas ações de Donald Trump, o governo Bolsonaro poderia também cessar o desfinanciamento do sistema nacional de ciência e tecnologia. É que no recente pacote aprovado pelo Congresso dos EUA, um total de US$ 1,25 bilhão (algo próximo R$ 7 bilhões) para agências federais de pesquisa apoiarem cientistas que tentam entender melhor COVID-19. Além disso,  parte desse valor será utilizado para apoiar universidades que fecharam devido à pandemia, algumas das quais poderiam apoiar pesquisas que foram interrompidas.

 

Negacionismo científico de Donald Trump colocou os EUA no centro da pandemia da COVID-19

Donald Trump,Jair Bolsonaro,TrumpDonald Trump e Jair Bolsonaro: dois negacionistas do conhecimento científico que agora precisam que os cientistas gerem respostas rápidas e eficazes para uma pandemia que eles ignoraram propositalmente.

O presidente Donald Trump, como seu congênere brasileiro Jair Bolsonaro, é um negacionista da importância do conhecimento científico. Como Bolsonaro, Trump negou os imensos riscos que estavam sendo criados sobre o povo dos Estados Unidos da América (EUA) pela rápida e letal expansão do COVID-19 em diferentes partes do planeta (ver vídeo abaixo).

Agora, os EUA estão no olho do furacão e já possuem mais cidadãos contaminados do que a China. A rede hospitalar estadunidense, majoritariamente controlada por grandes corporações, já chegou rapidamente à beira do colapso e, como em outros países, é provável que também os serviços funerários cheguem ao limite de sua capacidade em um momento muito distante.

Como já previsto pelo economista israelense Nouriel Roubini, o mesmo que previu o crash das bolsas em 2008,  já disse que Trump deverá perder as próximas eleições presidenciais por sua insistência por negar as evidências robustas que estavam sendo apresentadas pela comunidade científica acerca dos perigos postos pelo COVID-19.

Mas pior do que perder uma eleição, é provável que Donald Trump passe aos livros de história como aquele governante que permitiu que a maior potência econômica e militar do mundo sofra uma hecatombe sanitária por sua arrogância em relação ao conhecimento científico.

Entretanto, as semelhanças entre os presidentes do Brasil e o dos EUA nos ensinam importantes lições sobre a necessidade de se valorizar o conhecimento científico como a base de superação dos grandes desafios que estão postos neste momento, a começar pela pandemia do coronavírus.

Finalmente, lembro que morei nos EUA por mais de 7 anos, contando desde a minha chegada no Oak Ridge National Laboratory onde participei de uma equipe incrível por 1 ano e meio, o meu doutoramento na Virginia Tech onde fiquei quase 5 anos, e finalmente o meu pós-doutorado na Fairfield University onde atuei como bolsista da Comissão Fulbright por 11 meses. Em todo esse tempo, acumulei amizades que perduram até hoje, e hoje me preocupo com o destino de todas as amigas e amigos que como nós estão expostos aos riscos do COVID-19. 

Coronavírus já causou 1.000 mortes nos EUA, e governo Trump terá pacote de R$ 10 trilhões para impedir crise econômica

Resultado de imagem para usa hospitals donald trump coronavirus

No agora infame discurso do presidente Jair Bolsonaro em que ele atacou todos os que estão tentando impedir as piores manifestações da pandemia do coronavírus no Brasil,  houve uma clara menção de que a posição defendida era a mesma de Donald Trump. Pois bem, dois dias depois, o que se vê é os EUA alcançando o trágico número de 1.000 mortes por coronavírus e a negociação de um pacote anti-crise que deverá alcançar R$ 10 trilhões, um valor que é maior do que o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil em 2019.

coronavirus nyt

Então não há melhor hora para que o presidente Bolsonaro e seu ministro da Fazenda, o banqueiro Paulo Guedes, sigam os mesmos passos do governo Trump e despejem dinheiro não apenas nos bancos, mas que haja o aporte de renda para todos os trabalhadores brasileiros que estejam perdendo seus empregos por causa da pandemia.

Até aqui o que se viu foi um desprezo pelos efeitos gravíssimos dessa pandemia, especialmente nos segmentos mais pobres da população brasileira. Mas o exemplo que está vindo dos EUA, onde Donald Trump está fazendo um giro de 180 graus nas posições que defendia até ontem e adotando posições extremas para conter o vírus e a crise econômica que se seguirá a ele, não poderá ser mais desprezado em outros países, ainda que possuam recursos financeiros mais limitados.

E, sim, o que está ocorrendo nos EUA onde a rede hospitalar está rapidamente entrando em colapso demonstra duas coisas básicas: 1) o coronavírus não é uma mera gripezinha, e 2) os serviços de saúde privada não possuem nem a competência ou o grau de preparo necessários para conter pandemias. Que isso sirva de lição para todos os que nos últimos anos agiram para sucatear o Sistema Único de Saúde (SUS) e a difamar os servidores públicos que nele servem à maioria pobre da nossa população.

A pandemia do Coronavírus coloca o Bolsonarismo nas cordas

bolso corda

A forma singular de fazer política do presidente Jair Bolsonaro, aquela que alguns chamam de “Bolsonarismo”, já foi adjetivada de diversas formas, a maioria pouco lisonjeira.  Entretanto, cavalgando na onda de descontentamento de parcelas significativas da população brasileira com a forma de gerenciar o Estado por parte principalmente dos governos do Partido dos Trabalhistas (PT), o “Bolsonarismo” vinha surfando de forma fácil os mares revoltos criados por uma economia que não sai da profunda recessão em que se encontra desde o início do segundo mandato da ex-presidente Dilma Rousseff.

Mas no que consiste exatamente o “Bolsonarismo”?  Eu diria que os ingredientes principais juntam uma clara rejeição ao conhecimento científico, o apelo aos valores religiosos e uma aposta quase ilimitada da suposta capacidade do individualismo como mecanismo de melhoria econômica, além dos elementos que apontam para uma forma peculiar de nacionalismo subordinado (no caso aos EUA).

Pois bem, todas as características que formam o núcleo central do “Bolsonarismo” estão agora em xeque pelo coronavírus. Para começo de conversa, a necessidade de uma resposta científica rápida joga por terras formulações que menosprezam o conhecimento científico e os cientistas que o produzem.  Está claro para a maioria das pessoas que será necessária a intervenção da ciência rápida e eficaz da comunidade científica para que uma vacina seja desenvolvida. 

Outro fundamento do “Bolsonarismo” que é reduzida a pó é a de que individualmente poderemos chegar a uma espécie de autosalvação econômica. As cenas de entregadores de comida e motoristas de aplicativos que agora não conseguem dinheiro sequer para comprar gêneros básicos já estão correndo o mundo e corroendo rapidamente a fábula de que pela precarização das relações de trabalho é possível se chegar a ganhos econômicos que dispensem a ação dos sindicatos. 

A última peça a cair está sendo o desmoronamento do governo de Donald Trump em face da rápida expansão da pandemia do coronavírus nos EUA. Como o “Bolsonarismo” é uma espécie de sub-Trumpismo, a eventual remoção de Donald Trump do poder nas próximas eleições presidenciais que deverá ocorrer nos EUA logo após o achatamento da curva da pandemia deixará o “Bolsonarismo” sem qualquer tipo de âncora ideológica e, pior, econômica.

Há quem tema que colocado na extrema defensiva, o presidente Jair Bolsonaro irá tentar recorrer a uma solução de força para preservar sua forma peculiar de ver o mundo. Ainda que isso não seja inteiramente descartável, eu diria que a maioria preocupação de Jair Bolsonaro deveria ser a de manter o cargo pelo qual tanto lutou.  É que até agora sua posição diante da pandemia do coronavírus tem sido pífia, o que poderá transformar o Brasil em uma espécie de área global de quarentena por tempo indefinido. 

Governo Bolsonaro apoia assassinato de general iraniano e insere Brasil na explosiva situação do Oriente Médio

átrump araujoAo emitir nota de apoio ao governo Trump pela eliminação de general iraniano, o ministro Ernesto Araújo cometeu grave prejuízo contra os interesses brasileiros.

O governo Bolsonaro já flertou com o perigo ao anunciar a transferência da embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém.  Nesse caso prevaleceu prevaleceu o pragmatismo que levou em conta as fortes relações comerciais mantidas pelo Brasil com os países árabes, o que significou uma derrota para a ala olavista cuja grande expressão é o, digamos, excêntrico ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo.

Mas defrontado com as repercussões do assassinato do general iraniano Qasem Soleimani, o ministro Ernesto Araújo resolveu deixar de lado o pragmatismo e fez o Itamaraty emitir uma nota de apoio ao governo dos EUA sob a escusa de apoiar o combate ao terrorismo (ver imagem abaixo).

nota itamaraty

Se ainda havia algum tipo de dúvida acerca do grau de irresponsabilidade reinante no governo Bolsonaro em relação não apenas aos interesses comerciais nacionais, mas à própria segurança interna, eu me permito dizer que essa nota totalmente fora de propósito acaba de confirmar o que já era visível. É que essa nota acaba de enterrar décadas de uma forma cuidadosamente elaborada de pragmatismo diplomático que manteve o Brasil como parceiro comercial de países virtualmente em guerra em diversas partes do planeta, mas também nos manteve fora da rota do terrorismo internacional.

Agora, ao endossar a ação bélica do governo Donald Trump pela simples razão de mostrar alinhamento ideológico,  Ernesto Araújo e seus chefes dentro do governo Bolsonaro não apenas colocaram em risco as exportações de commodities agrícolas para os países árabes (mesmo aqueles não alinhados politicamente ao Irã), mas também abriram a possibilidade de que brasileiros e suas representações políticas e comerciais se tornem alvos de ataques terroristas. 

Como o Irã e seus diversos “proxies” estão certamente neste momento acompanhando a reação dos governos de todas as partes do mundo para medir o grau de alinhamento com os EUA no assassinato de Qaseim Suleimani,  ao emitir essa nota, Ernesto Araújo colocou um alvo nas costas de todos os brasileiros.  É que como todo o mundo já sabe, a resposta iraniana ao assassinato de seu mais importante líder militar não virá sob a forma de confrontos diretos com as forças estadunidenses, mas com a escolha de alvos mais fáceis de serem atacados. Essa é a realidade que deveria ter sido considerada pelo governo Bolsonaro antes de emitir qualquer comunicado sobre a eliminação de Suleimani, mas não foi. 

Agora não adiantará nada qualquer desmentido de fachada sobre uma posição oficial do ministério das Relações Exteriores. A única saída seria demitir imediatamente Ernesto Araújo e todos os seus auxiliares diretos por não terem impedido a emissão dessa nota despropositada. Mas como dificilmente ocorrerá na velocidade que deveria, o melhor é nos prepararmos para o pior, seja na área comercial como na militar.

 

Assassinato de general iraniano é jogada política de Donald Trump que pode acelerar crise econômica global

Qasem SoleimaniQasem Soleimani (ao centro na posição central da imagem) era um dos principais estrategistas das forças iranianas e seu assassinato deverá ter fortes repercussões políticas e militares no Oriente Médio

O assassinato do general iraniano Qasem Soleimani pelas forças armadas dos EUA é claramente uma jogada política do encrencado presidente estadunidense Donald Trump. Para sair das cordas em que foi colocado pela jogada obscura que realizou para pressionar o governo da Ucrânia, Donald Trump autorizou a eliminação da principal liderança militar do Irã.

O problema em realizar uma jogada de tão alto risco é que, apesar de Trump e seus generais estarem bem longe do alcance das ações retaliatórias que o Irã deverá realizar para vingar o assassinato de Soleimani, suas próprias tropas e agentes de governos aliados no Oriente não estarão. 

Com isso em mente é preciso levar em conta que o Irã acabou de realizar uma série de operações conjuntas para fazer frente à possíveis agressões armadas, principalmente dos EUA.  A partir desse fato é que se vê que a decisão de eliminar Soleimani não é uma a ser ignorada para entendermos a intrincado situação geopolítica em que o assassinato do general iraniano se insere.

De qualquer forma, a principal consequência desta jogada política e eleitoral é causar um desequilíbrio para cima dos preços do petróleo que terá fortes consequências para uma economia global onde já existem sinais abundantes de que uma grave crise deve se instalar ao longo de 2020. 

No caso específico do Brasil, há que se ver como se pronunciará o excêntrico (para dizer o mínimo) ministro das Relações Exteriores sobre este grave incidente geopolítico. Se abrir a boca para “passar o pano” no assassinato de Qasem Soleimani (como é esperado), quem sofrerá vai ser o latifúndio agro-exportador que poderá perder acesso ao mercado iraniano. Como o Brasil agora depende ainda mais diretamente da exportação de commodities agrícolas qualquer perda de mercado trará perdas econômicas que não serão desprezíveis.

Um elemento a ser considerado é que a decisão de assassinar um alto oficial iraniano pode até demonstrar a capacidade bélica dos EUA. Entretanto, por outro lado, isso demonstra a fraqueza estratégica em que está posta a principal potência militar do planeta. E isso não é uma notícia secundária para se entender o que virá pela frente nos próximos anos e décadas. 

Finalmente, o tempo dirá se a jogada de Donald Trump vai dar certo ou não, e como o custo disso será sentido pelo resto do mundo. Mas que ninguém se surpreenda se uma grave crise econômica global eclodir.