São João da Barra e a eterna (des) ilusão com empregos no Porto do Açu

Vi com alguma curiosidade a informação apresentada no sítio oficial da Câmara de São João da Barra que na sessão desta 3ª. feira (16/05) , um dos tópicos abordados foi a da questão da empregabilidade de cidadãos (ou pelo menos habitantes) do município sejam empregados pelas empresas operando no interior do Porto do Açu (Aqui!).

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Reconheço que essa seria uma discussão meritória se a mesma não estivesse passando ao largo das fartas evidências de que a criação do Porto do Açu não trouxe consigo as prometidas centenas de milhares de empregos (e arrisco dizer que nunca trará dada a obvia diminuição do tamanho presente e futura do empreendimento). A verdade é que aos vereadores bastaria visitar o blog mantido pelo professor Alcimar das Chagas Ribeiro, economista e docente  do Laboratório de Engenharia de Produção (LEPROD) da Uenf para verificar que o maior problema de São João da Barra tem sido o fato óbvio de que o Porto do Açu não tem vivido à altura das expectativas que foram geradas para justificar sua implantação e seus custos sociais e ambientais (Aqui! e Aqui!).

E eu me arrisco a dizer que em vez de cobrar mais empregos no Porto do Açu, o que os vereadores deveriam estar fazendo é demandar reparações imediatas para as pesadas externalidades sociais e ambientais que foram e continuam sendo impostas a São João da Barra por um empreendimento que está funcionando objetivamente como um enclave estrangeiro dentro do seu território.

Aliás, me causa espécie que a Câmara Municipal de São João da Barra não tenha ainda iniciado um movimento político pela anulação dos decretos de desapropriação promulgados pelo ex-(des) governador Sérgio Cabral que tirou do município a sua principal base agrícola, a qual gerava emprego e renda para milhares de famílias, e a entregou de mãos beijadas para o ex-bilionário Eike Batista que, por sua vez, a repassou para o controle da Prumo Logística Global. E o que era terra produtiva hoje se tornou um imenso latifúndio improdutivo.

O fato é que os empregos que ainda serão gerados no Porto do Açu tenderão a ser cada vez mais especializados e demandadores de um tipo de formação profissional para a qual poucos cidadãos natos de São João da Barra estão preparados para ocupar.  Tal realidade continua demandando a realização de investimentos na formação de capital social endógeno, o que só vai se conseguir se instituições de ensino superior como a Uenf, IFF e UFF forem tornadas parceiras estratégicas. Do contrário, São João da Barra continuará apenas arcando com os custos sociais e ambientais que a existência do Porto do Açu causa e continuará causando enquanto funcionar. E, sim, toda a riqueza gerada no Porto do Açu continuará escapando para os acionistas do fundo de “private equity” que detém o controle acionário da Prumo Logística. 

 

Porto do Açu e o fechamento da BR-356: o rei está nu

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A notícia abaixo vem do site sanjoanense “Parahybano” e nos dá conta do fechamento na manhã desta 4a. feira (01/07) da BR-356 na altura da localidade de Cajueiro no município de São João da Barra. O motivo do fechamento da rodovia é que se mostra mais revelador do que as centenas de matérias positivas publicadas pela imprensa corporativa em prol do Porto do Açu. É que atraídos pela promessa de uma centena de empregos, trezentos brasileiros passaram a noite numa fila para descobrir depois que as vagas efetivas eram apenas três.

Essa distância entre propaganda e realidade tem sido abordada por mim neste blog de forma razoavelmente exaustiva nos últimos cinco anos. Mas como este espaço não está ligado aos interesses privados que impulsionam a propaganda do Porto do Açu, tenho consciência de que a efetividade da minha opinião em relação ao descompasso entre os anúncios de crescimento miraculoso e a magreza do que foi entregue até hoje é pequena.

É preciso que os que se sentem enganados pela propaganda fechem estradas para desvelar a propaganda e deixar o rei, no caso o Porto do Açu, nu.  E eu diria que os problemas que ainda estão por vir deixarão o fechamento da BR-356 que ocorreu como uma lembrança daquele tempo que éramos felizes e não sabíamos. Mas uma coisa também me deixa tranquilo em relação ao meu próprio papel de observador privilegiado desta quimera. Ninguém vai poder dizer que não vai avisado, começando por aqueles que disseminam os press releases que promete que o eldorado se instalou em São João da Barra.

Cerca de 300 pessoas interditam BR 356, em Cajueiro

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Foto: Renato Timotheo – Parahybano

A rodovia BR 356, em Cajueiro, foi interditada na manhã desta quarta-feira, 01, por cerca de 300 pessoas que buscam uma vaga de emprego em uma empresa que está instalada no Complexo Portuário do Açu, em São João da Barra.

De acordo com informações da equipe de reportagem no local próximo do escritório da empresa Belov, o motivo da manifestação seria uma falsa divulgação de 100 vagas de emprego e cerca de 300 trabalhadores ficaram durante à noite e logo pela amanhã foram informados que só teriam três vagas.

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Foto: Divulgação WhatsApp

O gerente de contrato da empresa Belov, Hélio Machado, disse que não houve divulgação do número de vagas e o que aconteceu foi uma “falha de comunicação” e distorção das informações.

A Polícia Militar (PM) esteve na rodovia na tentativa de controlar os ânimos dos manifestantes enquanto aguardava a chegada da Polícia Rodoviária Federal (PRF).

Um grande congestionamento foi formado por horas ao longo na rodovia, mas alguns condutores conseguiram acesso para Campos dos Goytacazes pela SB 02 (Estrada que liga Bairro de Fátima a Degredo). A BR foi liberada por volta das 10h.

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FONTE: http://www.parahybano.com.br/site/cerca-de-300-pessoas-interditam-br-356-em-cajueiro/

Porto do Açu: o mito do desenvolvimento e suas falácias são desvelados

O texto abaixo vindo do blog do economista e professor da UENF Alcimar Chagas desnuda um dos principais mitos que deram sustentação a todas as barbáries cometidas pelo (des) governo Cabral e seus parceiros privados contra a população de pescadores e agricultores do V Distrito de São João da Barra. É que os algozes sempre utilizaram o argumento de que estavam criando um novo ciclo de desenvolvimento econômico e, com isso, justificavam seus malfeitos.

Agora com essa análise baseada em estatísticas oficiais, o Alcimar Chagas demonstra que, pelo menos no âmbito da criação de postos de trabalho no comércio de São João da Barra, o efeito do Porto do Açu é quando muito nulo ou mesmo negativo.

Como amanhã (02/12) o deputado Roberto Henriques estará realizando uma audiência pública a partir das 10 horas na Câmara Municipal de São João da Barra exatamente sobre o Porto do Açu quem sabe ele possa usar uns poucos minutinhos para pedir explicações aos governantes e empreendedores de como isso se explica.

De minha parte retorno à obra de Celso Furtado “O Mito do Desenvolvimento Econômico” lançado em 1973 para dizer que o que se viu até agora no Porto do Açu foi muita espuma e pouco sabão  (ou seria muito sal e pouca feijoada?), pois esse retorno à uma base primária é parte de um engodo muito maior de que podemos ascender no processo de desenvolvimento sem tocar nas profundas desigualdades econômicas e sociais que persistem no Brasil e, principalmente, na região Norte Fluminense. 

Os investimentos do porto do Açu e seus reflexos no emprego no comércio em São João da Barra

Os saldos de emprego gerados em São João da Barra, no período de construção do Porto do Açu, evidenciam as contradições nos relatórios de impacto ambiental, que registram os impactos e as promessas de políticas compensatórias por conta das intervenções. Observem que as obras iniciam no final de 2007 e tem seu seu ápice em 2008. Ainda sem o impacto das obras, o ano de 2007 registra uma geração de 34 novas vagas no comércio. Em 2008, realmente observa-se um forte crescimento com o registro de 89 novas vagas no comércio. Em 2009 são geradas somente 10 vagas, em 2010 são geradas 28 vagas e em 2011 são geradas 39 vagas. Em 2012 observa-se um resultado negativo, onde as demissões superaram as admissões em 29 vagas e em 2013, até outubro, foram geradas somente 23 vagas. A conclusão que se chega é que as promessas de geração de emprego, em função das obras do porto do Açu, não se concretizaram. Somente nos anos de 2008 e 2011, o saldo de emprego superou 2007. Segundo esses indicadores do Ministério do Trabalho, os investimentos do porto do Açu não tiveram impacto no comércio, conforme promessa.