As hidrelétricas, a nova cheia histórica do rio Madeira e as tergiversações de Dilma

Por LUIZ FERNANDO NOVOA GARZON   

A presidente Dilma Rousseff promoveu uma viagem relâmpago a Porto Velho e Rio Branco, no dia 15 de março, para verificar in loco o resultado da maior cheia já observada nessa porção da Amazônia – entre Rondônia, Acre e o noroeste boliviano. A verificação poderia ter se traduzido em algo mais do que as migalhas emergenciais de praxe, liberadas em casos de “calamidade pública”. Poderia ter sido um início de averiguação e avaliação conscienciosa dos danos sociais e ambientais adicionais, para além dos chamados “danos naturais”. Danos adicionados a outros tantos pré-existentes, produzidos por intervenções predatórias e imprevidentes, como foram as implantações das usinas de Santo Antônio e Jirau no rio Madeira.

A presidente não precisaria fazer tal sobrevoo para anunciar medidas mitigatórias-padrão. Motivações da campanha eleitoral pela reeleição? Talvez. Mas convenhamos que o público-alvo em questão não são os diminutos eleitorados dos dois estados. Dilma veio em defesa de sua preciosa relação com o setor elétrico que embalou sua carreira política. Veio reafirmar que as concessões no setor de infraestrutura são incondicionadas – e por isso muito rentáveis para os investidores. Veio advogar, com túnica presidencial, a causa dos consórcios que detêm a concessão para aproveitamento energético do rio Madeira: “É um absurdo atribuir às duas hidrelétricas a quantidade de água que vem pelo rio”, afirmou a zelosa Dilma. Absurda é a própria alegação de que alguém possa atribuir tal dom às hidrelétricas.

Não há registro de qualquer afirmação de que as hidrelétricas multipliquem água. Se tal milagre fosse possível, os reservatórios do centro-sul não estariam em tão baixo nível. É preciso não escamotear: o problema nunca foi a água que vem pelo rio, mas a que ficou no meio do caminho por conta de dois reservatórios concebidos e operados sem estudos hidro-sedimentológicos suficientes e que abrangessem a bacia do rio Madeira.

A presidente procurou ser didática na vitimização dos investidores privados, que primeiro se empenharam na cruzada, vinculada ao PAC, de expandir em marcha forçada a fronteira elétrica para toda a Amazônia. “E eu até uso a fábula do lobo e do cordeiro. O lobo na parte de cima do rio diz ao cordeiro: ‘você está sujando minha água’. O cordeiro respondeu: ‘não estou, não. Eu estou abaixo de você no rio’”. Odebrecht e Suez, controladoras respectivas das concessionárias de UHE de Santo Antônio e Jirau, seriam o cordeiro? Quem seria então o lobo nessa fabulação? A natureza em si mesma, inexorável e imprevisível?

Se assim fosse, tais hidrelétricas nem poderiam ter sido construídas, ou nem poderiam mais operar, pois foram planejadas para fazer uso controlado da vazão hídrica, ou seja, da “água que desce”. Dilma tergiversa e diz que agora “vamos trabalhar para que não sejamos mais pegos de surpresa em situações como essa que aconteceu em Rondônia”. Mas se todos “fomos pegos de surpresa”, foram pegos em primeiro lugar os dois consórcios, o IBAMA, a Agência Nacional de Águas e a Agência Nacional de Energia Elétrica, justamente aqueles que atestavam plena viabilidade do empreendimento e juravam deter todos os dados relevantes para o monitoramento do fluxo e do volume de água que “entra no Madeira”.

Se, como diz a presidente, “não podemos evitar desastres naturais, mas temos como amenizar os danos causados por eles”, a responsabilidade primeira pela amenização desses danos – antes, durante e depois do desastre – deveria ser dos consórcios e dos órgãos licenciadores e de outorga. Segue em contradição consigo mesma a presidente: “basta lembrar o exemplo de várias cidades nos Estados Unidos, onde existe um período de inverno denso, mas após esse período a agricultura e as condições estruturais da cidade são rapidamente normalizadas, isso vem do planejamento e monitoramento”.

Exatamente o que não veio, o que não foi cobrado e fiscalizado. Planejamento e monitoramento que agora precisam ser efetivados ao custo da suspensão da licença de operação, conforme o acertado entendimento do Ministério Público e da Justiça Federal, em primeira instância, que obriga os consórcios a assumirem a responsabilidade pelos danos a montante, além de refazerem os estudos de impacto em função da nova vazão máxima atingida.

O que deveria ter sido condição prévia (provar a capacidade do empreendimento de se adaptar à dinâmica do rio e da bacia) tornou-se uma interpelação judicial – que vem sendo soberbamente ignorada pelas empresas concessionárias. Assim como obtiveram suas licenças ambientais à revelia dos embargos técnicos e dos conflitos sociais de 2007 até hoje, a Santo Antônio Energia (SAE) e a Energia Sustentável do Brasil (ESBR) acreditam apenas na lei do lobo e no seu direito de devorar o cordeiro, de apossar-se do rio e de determinar unilateralmente seu uso. Acreditam também no direito de inviabilizar o modo de vida das comunidades ribeirinhas, de interromper o ciclo de reprodução e migração dos peixes e do agroextrativismo de várzea. Além disso, converteram a cidade de Porto Velho, capital do estado, primeiro em um apêndice dos seus canteiros de obras e depois em um campo de testes da incidência da vazão a jusante, o que redundou no desbarrancamento de toda sua orla e na condenação de seu patrimônio histórico mais conhecido, a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré.

Em dezembro de 2013, já era possível identificar acúmulo de precipitações na região dos formadores do Madeira. Em janeiro de 2014, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) e a Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM) já descreviam o fenômeno chamado “Alta da Bolívia” que, associado à zona de convergência intertropical e ao bloqueio proporcionado por uma extensa massa de ar quente e seca posicionada no centro- sul, estava produzindo níveis de precipitação acima da média nos Departamentos de Beni (Bolívia) e Madre de Dios (Peru).

Enquanto isso, a SAE e a ESBR, obcecadas com a maximização do aproveitamento energético e motorização das usinas, atracavam-se em torno de novas cotas máximas para seus reservatórios. Até o desligamento das turbinas, determinado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e atestado no dia 24 de fevereiro, a usina de Santo Antônio operava acima da cota autorizada de 70,5m (71,3 m segundo a CPRM, ou 75m, conforme sua “parceira” de empreendimento, a ESBR), passando a operar desde então com uma cota de 68m. Os dois reservatórios retiveram água porque planejaram maximizar sua operação no período da cheia, indiferentes e cegos ao fenômeno climático e hídrico que se instaurava nas cabeceiras. Consumado o desastre, restou-lhes despejar a água excedente para salvar suas instalações.

Novos estudos, se promovidos com distanciamento mínimo dos interesses imediatistas das empresas concessionárias, poderão provar que as usinas funcionaram como uma bomba de retardo e contenção de água a montante, “afogando” igarapés, furos e rios acima, território boliviano adentro. Poderão provar também que a subida das águas a jusante, a partir da última semana de fevereiro, se deu de forma muito acelerada e em defasagem com o fluxo concomitante verificável em Abunã, a montante de Jirau.

Em suma, diante da nova e “surpreendente” cheia histórica, as usinas se mostraram ineptas para controlar ou sequer acompanhar a variabilidade da vazão hídrica e de sedimentos do rio Madeira. Primeiro super-armazenaram, depois passaram a liberar grandes “bolsões” d’água com efeitos fatais para comunidades ribeirinhas centenárias como São Carlos, Calama e Nazaré, que tiveram suas casas não apenas alagadas, mas arrancadas pela correnteza amplificada pela abertura não programada dos vertedouros das usinas.

A presidente certamente entende que o funcionamento de usinas a fio d’água na Amazônia deveria pressupor conhecimento meticuloso e detalhado da variação da vazão e do nível dos rios formadores e em formação. Como também sabe que esse conhecimento e essa capacidade operacional não existem – por causa da flexibilização do licenciamento ambiental que ela mesma promoveu enquanto ministra de Minas e Energia e depois como presidente –, ela tergiversa.

As usinas são responsáveis não pela cheia do Madeira, com as quais os povos e comunidades da região sempre souberam lidar até a construção das usinas, mas pelos seus efeitos amplificados e direcionados justamente para os segmentos populacionais que já se encontravam mais fragilizados por conta dos impactos cumulativos de sua implantação.

Luis Fernando Novoa Garzon é professor da Universidade Federal de Rondônia e pesquisador do ETTERN/IPPUR-UFRJ.

FONTE: http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=9433:submanchete180314&catid=72:imagens-rolantes

Em meio ao desastre, os espertos agem

Em meio a todo o desastre causado pelas chuvas, os espertos de sempre tentam se aproveitar com o pedido de verbas emergenciais e realização de obras sem licitação. Este processo que mistura a desgraça dos pobres com a esperteza dos que ocupam cargos públicos já recebeu o rótulo de “indústria das enchentes” pelo ambientalista carioca Sérgio Ricardo.

Na versão final de 2013 da indústria das enchentes, vemos um pouco do mesmo: cidades devastadas, pobres perdendo o pouco que conseguiram juntar, e autorizações para obras emergenciais sem licitação.

O que quase ninguém fala é que este ciclo de fenômenos climáticos agudos pode estar apenas começando e que o mais aconselhável seria que nos preparássemos para mudanças radicais na forma de distribuição e ocupação do solo urbano, no estabelecimento de mudanças estruturais na forma e  função das cidades, bem como na universalização de medidas preventivas.

Se nada disso for feito, é bem provável que o que estamos assistindo agora seja apenas mais um capítulo trágico de uma tragédia que será ainda muito maior.

(Des) governador Cabral é um (des) carado

O (des) governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, vai mal nas pesquisas de opinião sobre a qualidade (ou falta de) do seu (des) governo. Mas não há número negativo que faça Cabral tentar ter pelo menos uma face menos (des) carada.

É que, como mostra a matéria abaixo da Agência Brasil, está querendo aproveitar os impactos devastadores causados pelas chuvas na região metropolitana da cidade do Rio de Janeiro para arrancar mais dinheiro do governo federal. A verdade nua e crua é que este (des) governo já arrancou bilhões do governo federal para fazer coisas que tornariam desnecessárias coisas como essa “patrulha” que Cabral diz querer criar com mais essas verbas.

O ambientalista carioca Sérgio Ricardo já destrinchou essa estratégia à qual deu o nome de “indústria das chuvas”, onde (des) governantes como Cabral se aproveitam da desgraça da população para ordenhar um pouco mais a vaca leiteira conhecida pelo nome “tesouro nacional”.

Alguém deveria lembrar a Sérgio Cabral que só na reforma do estádio do Maracanã ele enterrou R$ 1,5 bilhão para depois entregá-lo a um consórcio privado onde a construtura que fez a reforma (sem falar do amigão e ex-bilionário Eike Batista) participa.

O que Dilma ainda não percebeu é que o apoio a Cabral tira em vez de dar votos. É que a população do Rio de Janeiro, como mostra a última enquete do IBOPE, não confia no (des) governador.  Simples assim.

 

Governo do Rio quer criar patrulha para recuperar estragos de chuvas na Baixada

Vitor Abdala
Repórter da Agência Brasil

Rio de Janeiro – O governo do Rio de Janeiro vai pedir recursos ao governo federal para criação de uma patrulha que atuará na recuperação de estragos provocados pelas chuvas nos municípios da Baixada Fluminense. A patrulha terá pessoal treinado e equipamentos como retroescavadeiras, para retirar entulho e desobstruir rios e ruas.

A criação das patrulhas foi discutida hoje (13), em reunião do governador Sérgio Cabral com o ministro da Integração Nacional, Francisco Teixeira, e o secretário nacional de Defesa Civil, Adriano Pereira Júnior, além de oito prefeitos da Baixada Fluminense.

“É uma força-tarefa para a limpeza de ruas e de casas, com equipamentos que podem ser comprados ou alugados. É uma patrulha para essas situações de emergência”, disse Cabral.

O governo fluminense também deve pedir à União recursos para a conclusão do projeto de controle de inundações e revitalização dos rios da Baixada Fluminense, que prevê o desassoreamento desses rios, a construção de reservatórios para captar o excesso de água e o reassentamento de pessoas que vivem nas margens.

O projeto, que integra o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), está sendo executado em três fases. A primeira já foi concluída e a segunda, que tem recursos garantidos, deve ser iniciada no início do ano que vem. O governo estadual precisa de R$ 450 milhões para a terceira fase.

Segundo Cabral, o vice-governador Luiz Fernando Pezão deve se reunir no início da próxima semana com a ministra Gleisi Hoffmann, chefe da Casa Civil da Presidência da República, para acertar detalhes dos pedidos de recursos.

Após receber bilhões do governo federal, (de) governador do Rio de Janeiro ainda joga culpa nos antecessores

Há sete anos no poder, Cabral culpa ‘décadas de abandono’ por enchentes

Estadão ConteúdoNo Rio


A chuva forte em Nova Iguaçu provocou o desabamento de casas em vila de Carmari, no Rio de Janeiro Cleber Junior/EXTRA/Agência O Globo

Há sete anos no cargo, o governador Sérgio Cabral Filho (PMDB) culpou nesta quinta-feira (12) as “décadas de abandono” pelas enchentes e mortes causadas pelas chuvas na Baixada Fluminense, além das prefeituras pela ocupação irregular das áreas de risco.

Durante a entrevista, após reunião com sete secretários estaduais e dez prefeitos da Baixada, no quartel dos bombeiros de Nova Iguaçu, Cabral foi interpelado por um morador do município. Identificado como Adriano Naval, ele afirmou que nenhuma casa foi construída, nem nenhum morador da cidade foi reassentado após seis anos do Projeto Iguaçu de saneamento básico. “Não é verdade. O rio Iguaçu não passa só em Nova Iguaçu. A segunda fase é que vai atender agora o município de Nova Iguaçu”, contestou o governador.

Cabral não percorreu a pé áreas atingidas e, após receber um telefonema da presidente Dilma Rousseff durante a entrevista, anunciou para sexta-feira (13) uma reunião com o ministro da Integração Nacional, no Centro Integrado de Comando e Controle.

Dois radares de alta precisão para previsão meteorológica anunciados pelo governo do Estado há mais de dois anos ainda não estão em operação. O Inea (Instituto Estadual do Ambiente) atribuiu o atraso à realização de uma licitação internacional e deu novo prazo para que os equipamentos, comprados por R$ 13 milhões, entrem em operação, em março de 2014.

FONTE: http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2013/12/12/cabral-culpa-decadas-de-abandono-por-enchentes.htm

A cidade do Rio inundada: a falência da cidade partida de Paes e Cabral

Não  tivessem o estado e a cidade do Rio de Janeiro investido bilhões na reforma do Maracanã e na reformulação da estrutura viária  em áreas escolhidas pelos grandes incorporadores imobiliárias para serem o filé mignon de uma cidade ainda mais partida e segregada, as cenas que tomaram os jornais nos últimos dois dias até poderiam surpreender. Mas não há nada de surpreendente nisto o que está acontecendo, e os culpados são mais do que conhecidos.

Agora resta saber como serão apuradas as responsabilidades e punidos os responsáveis. Do contrário, 2014 promete ser ainda mais catastrófico e os perdedores serão os mesmos de sempre: a classe trabalhadora e os setores mais pobres da população fluminense.

binario

Mas como já notei ontem, o carioca perde a casa, mas não deixar de usar o humor apurado para destroçar a propaganda oficial. Resta saber qual será o efeito dessa catástrofe premeditada na consciência dos moradores da cidade do Rio de Janeiro nas eleições de 2014.

rio inundado