Cenas americanas e a dificuldade de ser dizer as coisas como elas são

Violent Clashes Erupt at "Unite The Right" Rally In Charlottesville

Leon Trotsky realizou uma série de análises sobre as causas do surgimento do Fascismo e até formulou um conjunto de elementos que explicaria porque de tempos em tempos vemos a ascensão de governos que aplicam formas exremas de violência para impor seu controle sobre uma dada sociedade [1].

Tomando o que teorizou Trotsky, o elemento que hoje mais aparece evidente é aquele que alinha a emergência de elementos fascistas a uma frustração das classes médias com a situação objetiva que lhe é imposta por uma combinação de uma crise estrututal do Capitalismo como outra causada pelo processo de superprodução. O Fascismo nesse sentido nada mais é do que uma opção pela extrema violência para obrigar a classe trabalhadora a aceitar o aumento da superexploração do seu trabalho em nome de uma estabilização da crise capitalista.

Como vivemos um período em que a combinação de crises dentro do Capalismo leva a uma exasperação das médias, não chega a ser surpresa que grupos de orientação fascista estejam brotando em diversas partes do mundo.  A maior surpresa talvez seja a incapacidade da mídia corporativa que dar o nome aos bois, no caso bois fascistas.

A maior expressão dessa incapacidade de nominar corretamente é o tratamento que está sendo dado pela mídia mundial, em particular a estadunidense, os grupos envolvidos na ocupação da cidade de Charlottesville (norte do estado da Virginia) com a desculpa de protestar contra a remoção de uma estátua do general confederado Robert E. Lee.   Esses grupos vem sendo chamados de todo tipo de nomes (Alt Right, White Nationalists, White Supremacists) em vez do nome que realmente os define: neonazistas.

neonazis

Essa não é uma dificuldade qualquer porque esconde as raízes deste tipo de movimentação que é, como Trotsky caracterizou, impor pelo terror o consentimento dos trabalhadores com o aumento da superexploração do seu trabalho.  Encobrir este aspecto é fundamental para governos que hoje estão aplicando fórmulas extremas de expropriação da mais valia, seja pela redução dos investimentos em políticas sociais que reduzem os efeitos da apropriação capitalista da riqueza ou pela cassação de direitos trabalhistas que foram duramente conquistados pela classe trabalhadora ao longo do Século XX.

Interessante também notar que no caso dos enfrentamentos de Charlottesville, os que resistiram à marcha dos fascistas (ou neonazistas se for para caracterizar mais precisamente os grupos que lá estacam) também foram chamados de várias coisas, menos pelo que realmente são, antifascistas. E aqui a causa da ausência de caracterização pode ser apenas para deixar fluída a necessidade de caracterizar corretamente o que está se passando dentro dos EUA a partir da chegada ao poder de Donald Trump e sua mensagem de pseudo nacionalismo.  Em minha opinião, o que está ocorrendo por lá é o início de um processo aberto de luta de classes com uma divisão clara dentro das classes médias sobre qual caminho tomar.

Alguém pode se perguntar se o que está acontecendo nos EUA é, de alguma forma, um preâmbulo do que poderá acontecer no Brasil.  Eu particularmente acredito que é justamente o contrário. É que de uma forma perversa, o que está acontecendo lá, já vem acontecendo no Brasil desde que as multidões vestindo a camisa da CBF se postaram nas ruas para em nome do combate à corrupção exigir o fim das políticas de mitigação das desigualdades sociais.  

É preciso lembrar que em todas as manifestações feitas pelo impeachment de Dilma Rousseff a presença de grupos de orientação nazi-fascista era perfeitamente notável. Mas como a mídia corporativa estadunidense, a mídia brasileira escondeu propositalmente a presença e a mensagem desses grupos.  Desta forma, de uma forma bastante inglória, o Brasil se tornou a vanguarda para o atraso dos EUA.

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Nesse sentido, em vez de nos chocarmos com as tochas acesas numa praça de Charlottesville, o melhor  mesmo seria examinar cuidadosamente o que anda acontecendo por aqui mesmo. Afinal de contas, como país periférico tenderemos sempre a experimentar não apenas o pior da crise capitalista, como também das expressões deformadas que são realizadas para contorná-la.  Assim, ignorar a presença ostensiva desses grupos na sociedade brasileira representa um grave erro. E ficar apenas entoando que fascistas não passarão dificilmente resolverá o problema.

Um aspecto  curioso que poucos conhecem é que Robert E. Lee terminou seus dias como presidente de uma universidade que tem suas raízes ligadas ao primeiro presidente dos EUA, George Washington, e que foi rebatizada após sua morte como Washington and Lee University (WLU), a qual está localizada na cidade de Lexington, também localizada no norte da Virginia [2], não muito longe de Charlotesville.  Como presidente da WLU, Lee realizou um interessante processo de recrutamento de estudantes de todas as partes dos EUA e estabeleceu condições para que a universidade chegasse a ser hoje uma das melhores instituições privadas de ensino superior do sul do país [2].  Interessante lembrar que ele morreu no exercício do seu cargo na universidade e  foi enterrado numa capela existente no campus, estando seus restos mortais  ali até hoje. Mas essa parte da biografia de Robert E. Lee não é certamente a que interesse aos fascistas de lá e daqui.

 


[1] https://www.marxists.org/portugues/mandel/1974/mes/fascismo.htm

[2] https://www.wlu.edu/

Existe fome no mundo, mas não é por falta de comida para acabar com ela

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Provocado a pensar sobre uma das minhas próximas aulas na disciplina de Geografia que ministro para estudantes do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), lembrei  de um filme que venceu em 2015 a categoria de “short film” do tradicional Sundance Film Festival que foi criado em 1985 por iniciativa do ator estadunidense Robert Redford (Aqui!)

Este “short film” cujo título em inglês é “Man in the Maze”  (ou em português O homem no Labirinto”) mostra como milhões de toneladas de alimentos em boas condições são simplesmente despejados em lixões no estado do Arizona após serem produzidos no México.  Apesar de ser um filme de apenas 8 minutos, o seu conteúdo acaba de forma inapelável com a falsa noção de que a fome existe no mundo porque não há alimento suficiente para satisfazer as necessidades nutritivas básicas da humanidade.

O que o “Man in the Maze” mostra de forma bastante didática que a fome está diretamente ligada ao processo de transformação dos alimentos em outra commodity envolvida no processo de especulação financeira que hoje controla a economia capitalista. 

Abaixo segue o “Man in the Maze” cuja direção coube a Phil Buccellato e Jesse Ash.

Em tempos de repressão, o humor continua sendo uma arma poderosa

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A chegada de Donald Trump à presidência dos EUA está sendo acompanhada da implementação das medidas extremas que ele havia prometido fazer, e que muitos estadunidenses achavam que apenas um blefe de campanha.

Da ordem para que sejam iniciados os trabalhos para a construção do muro que separará fisicamente as fronteiras dos EUA e do México ao banimento da entrada de muçulmanos de sete países em estadunidense, as promessas de campanha estão sendo aplicadas.

Esse são medidas que efetivamente aumentarão as tensões no mundo, e deverão aumentar os incidentes de violência contra muçulmanos e latinos que já residem dentro dos EUA.

Mas nesses tempos bicudos, o uso do humor como ferramenta de combate ideológico é certamente bastante eficiente para demonstrar o absurdo de determinadas medidas que supostamente visam aumentar a segurança interna dos países ricos.

Abaixo uma prova de uso do humor para ilustrar os paradoxos que envolvem o uso de medidas para coibir o movimento de pessoas e o uso da xenofobia como política de governo.

Meus poucos pitacos sobre a vitória de Donald Trump

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Tenho lido uma série de manifestações postadas em grupos dos quais participo em redes sociais acerca da vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais que me deixam convicto de que há muita confusão entre os intelectuais brasileiros e que se pretendem de esquerda. É que muitos pareciam ver na candidatura de Hillary Clinton traços de uma situação melhor para o mundo em caso de sua vitória, e de uma espécie de condição pré-apocalíptica caso Trump viesse a vencer.

Como alguém que morou nos EUA por um período relativamente longo e uma região fortemente republicana que é o sul, a minha maior surpresa não é a eleição de Trump, mas o fato que se deu pelo partido republicano. A verdade é que Trump apenas usou a sigla e não ficarei surpreso se ele pular para fora do barco republicano ao longo do seu mandato. Além disso, a base eleitoral de Trump foi composta por setores mais amplos do que os republicanos conseguiram amealhar nas duas últimas eleições presidenciais e em estados tradicionalmente democratas.

Por que isso se deu? As razões são múltiplas, mas penso que basta olhar para a situação de estados como Michigan, Illinois e Pennsylvania para verificar que parte do eleitorado é originária de uma classe operária que some pelos ralos em razão da lógica da acumulação flexível e sucumbiu ao discurso aparentemente nacionalista de Donald Trump.

Outra razão para o resultado é que boa parte do Partido Democrata não queria Hillary Clinton como candidata e optou por não fazer campanha para ela, mesmo arriscando uma vitória de Donald Trump. Essa indisposição para apoiar Clinton foi acentuada pelas revelações trazidas pelo Wikileaks de que a maioria das elites dirigentes dos Democratas havia sabotado e trabalhado abertamente contra a candidatura mais progressiva do senador pel oestado de Vermont, Bernie Sanders.

Ainda pode se acrescentar nessa equação os efeitos da disposição anti-imigrantes e anti-muçulmanos e anti-minortias que persistem em amplos segmentos da classe média estadunidense, e que não são nada de novo, mas que foi trabalhada com maestria por Trump. Aliás, um dos desafios que Donald Trump terá de enfrentar para ter uma chance mínima de governar é se livrar desta parte do seu próprio enredo. É que, apesar desses sentimentos terem aderência em amplos setores da sociedade estaduninense, há uma quantidade provavelmente maior de pessoas que rejeita esses elementos obscurantistas. E Trump, se quiser governar, vai ter que alcançar algum nível de equilíbrio, o que certamente não será fácil, dado o seu comportamento ao longo da campanha e sua própria personalidade.

No frigir dos ovos, a eleição de Donald Trump é o fim do mundo ou a promessa de que ele está mais próximo? Em minha opinião essa é uma tese furada e que concede um tipo de progressividade a Hillary Clinton que ela simplesmente não aplicaria em seu governo. O fato é que vamos ter de esperar para ver quais serão os tipos de política que Trump vai implementar antes que seja possível determinar qual será efetivamente o rumo que ele tomará.

De toda forma, os primeiros a se desapontarem com  Trump certamente serão os membros da classe trabalhadora que depositaram seus votos na sua candidatura Trump na expectativa de que  a “América voltará a ser grande”. É que ninguém mais do que Donald Trump caiu tanto dinheiro roletando com a decadência da centralidade econômica da indústria estadunidense. E não será porque virou presidente que Trump deixará de ser um homem de negócios. Aliás, há uma chance muito grande de que ele se sirva do seu posto para aumentar o tamanho do seu próprio conglomerado econômico.

 

Sérgio Moro e suas múltiplas palestras nos EUA: sou só eu que acha estranho?

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A revista Veja traz na edição que chega às bancas neste final de semana mais uma daquelas edições premonitórias sobre o fim da carreira política do ex-presidente Lula. Em uma das matérias que compõe essa edição funerária há espaço para uma rápida entrevista com o juiz federal Sérgio Moro após ele conceder uma palestra em um seminário organizado pela escola de Direito da Universidade da Pensilvânia sobre a formação de líderes íntegros e a difusão de bons valores na vida pública (Aqui!).

Dessa situação me aparece a seguinte indagação: sou só eu que acha estranho que Sérgio Moro esteja aparentemente passando mais tempo em solo estadunidense do que no seu escritório em Curitiba?

Como um juiz de primeira instância que guarda a estas alturas um arquivo colossal sobre o funcionamento de uma das maiores empresas petrolíferas do planeta, acho curioso que ele possa estar indo tanto aos EUA, sem que ninguém no Brasil se dê ao trabalho de perguntar que tipo de encontros  ocorrem nas margens de eventos supostamente acadêmicos. E, mais ainda, quem está financiando todas essas viagens.l

É que tendo vivido nos EUA por um bom tempo não me lembro deste tipo de vai-e-vem. Além disso, os EUA são especialistas em bajular para depois obter as informações que precisam. Além disso,  se fosse o contrário e o fosse um juiz de primeira instância cuidando de casos da Chevron ou da ExxonMobil, posso dizer com tranquilidade que pelo menos o FBI estaria acompanhando as andanças do magistrado com extrema atenção.

Mas como estamos no Brasil, pelo jeito a segurança corporativa não é algo que incomode tanto as autoridades de facto em Brasília.

O problema dos bilionários do Brasil

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Para compreender a desigualdade global, primeiro você tem que entender a desigualdade do Brasil .

*Por Patrick Iber

Pouco mais de dois anos atrás, em Abril de 2014 , quando Thomas Piketty lançou o seu livro “O Capital no século XXI”, que foi publicado inicialmente em inglês e tomou o primeiro lugar na lista de best-sellers do New York Times. O livro de Piketty atingiu um nervo, ajudando a disseminar várias ideias-entre elas a de que o capitalismo não gera automaticamente uma distribuição razoável ou equitativa da renda e que prestar atenção ao 1% dos mais ricos é necessário para se compreender a política. Piketty focou sua análise na concentração de riqueza nos séculos 19 e 20 na França, no Reino Unido e nos Estados Unidos, lugares onde a maioria dos dados que disponibilizados para esses períodos. Mas se Piketty se comportasse, em vez do economista que é, como um repórter que trabalha para compreender o mundo que os extremos de desigualdade fizeram hoje, ele não olharia para os países ricos. Ele poderia muito bem ter escolhido para se concentrar no Brasil, como Alex Cuadros fez em seu novo livro intitulado “Brazillionaires”.

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Cuadros, um repórter da Bloomberg, chegou ao Brasil em 2010 com uma missão tipo a encaminhada por Piketty: investigar a vida dos não 1%, mas dos 0,0001% mais ricos dos brasileiros. Parte de seu trabalho foi organizar a classificação bilionários brasileiros na lista da Bloomberg. Uma espécie de US News & World Report do ranking dos super-ricos, bem como para se informar sobre seus negócios e suas vidas pessoais.  No “Brazillionaires”, ele consolidou e moldou tais perfis em um pujante e engajador retrato envolvente do Brasil moderno.

Cuadros usa seu retrato do falecido magnata de mídia Roberto Marinho, por exemplo, para discutir como os principais meios de comunicação do Brasil retratam a questão da raça, e através disso, suas ideias e ideologias sobre as questões raciais. Seu capítulo sobre Edir Macedo, um pregador na linha do “evangelho da prosperidade”, que lhe permite discutir a mudança nas práticas religiosas. Embora cada capítulo seja construído em torno de um perfil de um determinado bilionário, Cuadros inclui reflexões de sua própria lavra e de informações obtidas gastando a sola do seus próprios sapatos. Ele visita os grupos comunitários nas favelas e vai junto no helicóptero $ 1.500 por hora que seus casos de estudo (no caso os bilionários) usam para evitar os congestionamentos de trânsito. O livro pode ser mais revelador do que os bilionários estudados gostariam. Na verdade, ele não estará disponível no Brasil, ´pois um dos bilionários em questão não ficou feliz com o que viu nos rascunhos do livro, e por causa disso os editores recuaram da ideia de publicar a obra em português.

O bilionário mais importante para o livro é, sem dúvida, Eike Batista. Eike, como é conhecido, subiu tão alto que chegou ao posto de oitavo colocado na lista de bilionários da Bloomberg, com uma fortuna estimada de US $ 30 bilhões de dólares. Eike ambicionava se tornar o homem mais rico do mundo. Eike que foi campeão de corridas de lanches tem implantes de cabelo usando as tecnologias mais modernas, e foi casado com Luma de Oliveira, uma modelo que posou para a Playboy e foi rainha do Carnaval. Um de seus filhos, Thor Batista, mostrou seu enorme torso muscular no Instagram e, até pouco tempo atrás, dirigia um Mercedes-Benz SLR McLaren avaliado em mais de um milhão de dólares. Eike e sua família dificilmente poderia ser menos representativos do estilo de vida de playboy bilionário dos ultra-ricos globais.

Portanto, Eike serve como um símbolo dos problemas do Brasil de hoje, e cerca de metade dos capítulos Brazillionaires é dedicada a ele. Apesar do que parece ser diferenças fundamentais na perspectiva e ideologia, Eike forjou uma relação de trabalho pragmática com os governos do Partido dos Trabalhadores, de centro-esquerda. Até a presidente Dilma Rousseff, que foi suspensa do exercício do cargo por legisladores hostis em maio deste ano, o país tinha sido governada pelo Partido dos Trabalhadores de centro-esquerda desde 2003, primeiro sob o metalúrgico e líder sindical organizador Luís Inácio Lula da Silva (2003-2011) e depois sob Dilma (2011-2016). Antes de Lula tomar posse, os ricos brasileiros ficaram preocupados com o que iria acontecer quando Lula, um ex-socialista, assumisse o poder. O próprio Eike descreveu-a como uma regressão. Mas Lula que estava determinado a quebrar a associação de governos de esquerda com o caos econômico, e construiu alianças com oligarcas brasileiros.

Lula abraçou um programa desenvolvimentista que Cuadros descreveu como “querendo trazer a nação não tanto para o Século XXI  com alta tecnologia e alta finança, mas para o Século XX, com portos, barragens e grandes empresas brasileiras de base.” Porque Eike controlava um conjunto de empresas inter-relacionadas, principalmente nos setores de mineração e gás, e tinha feito grandes apostas na perfuração offshore, ele recebeu grandes empréstimos de bancos estatal de desenvolvimento. Em função disso Eike se aproximou de Lula.

A corrupção é quase uma parte esperada de negócios e políticos no Brasil, e Eike, embora muitas vezes retratado como um empresário de “estilo americano” e “self-made”, não foi uma exceção. Ele ajudou a financiar um filme biográfico lisonjeiro sobre Lula e gastou quarto de milhão de dólares em um leilão para comprar um terno que Lula tinha usado em sua posse. Mas, apesar da evidência de corrupção e conflitos de interesses através do sistema político, por um tempo todos pareciam estar se beneficiando. A economia do Brasil fez enormes progressos. A classe média cresceu e os padrões de qualidade de vida entre os pobres melhorou dramaticamente. Desnutrição foi diminuída pela metade. Um dos programas com a assinatura de Lula, o Bolsa Família, forneceu transferências monetárias diretas aos pobres, parcialmente em troca de frequência escolar das crianças. Muitos dos bilionários entrevistados por Cuadros justificaram a sua riqueza com alguma versão do argumento “do que é bom para a GM é bom para o país”. A maioria dos brasileiros considerou esta abordagem aceitável: Lula deixou o cargo com a aprovação de mais de 80%.

Mas os problemas surgiram em 2013. O governo do Brasil e seus consumidores tinham tomado dívidas em demasia. Os preços das commodities estavam caindo. As previsões de produção de campos de petróleo offshore de Eike se mostraram ser insuficientes para ele cobrir seus custos e suas empresas começou a colapsar. O seu patrimônio líquido estimado caiu de US$ 30 bilhões para US$ 1 bilhão negativo um em apenas dois anos, e ele se viu perante o tribunal, acusado de fazer uso de informações privilegiadas. Em 2012, seu filho Thor atingiu e matou um ciclista pobre com aquela McLaren avaliada em milhões de dólares. Os julgamentos de Eike e Thor pareciam ser testes para se saber se os poderosos poderiam ser responsabilizados pelas suas ações num momento em que as pessoas comuns estavam sofrendo com a deterioração das suas condições vida e com suas esperanças frustradas.

Em toda a sua ora, Cuadros é crítico dos bilionários que retrata, mas ele não os denuncia. Em alguns deles ele encontra qualidades admiráveis. Mas ele está ciente, de que os mitos contados sobre eles e dos mitos que ele contam sobre si mesmos são profundamente prejudicais. O mais próximo que ele chega a um crítica é quando ele pergunta a funcionários do escritório de Jorge Paulo Lemann (que se tornou o homem mais rico do Brasil depois da queda de Eike, e é dono do Burger King, da Budweiser, e de parte da Heinz), para citar alguma “coisa nova” que ele tivesse criado como um empreendedor adequadamente deve fazer. Eles não deram qualquer exemplo, e ele escreveu “Em uma apresentação recente para investidores recente Heinz apresentou inovações que misturaram mostarda amarela e molhos picantes”. É como se fosse um tipo destruição criativa sem a parte da criatividade.

Muitos dos brasileiros pobres admiram seus conterrâneos ricos, como Cuadros deixa claro. Muitos na classe média direcionam sua ira contra os pobres. Alguns de nós temos que trabalhar duro, mas:

” nós temos estas pessoas que não fazem nada e podem viver uma boa vida boa.” Quando eu perguntei a ela se ela coloca seu dinheiro em certificados de CDBs que recebem altas taxas de juros, ela respondeu que sim. Ela ficou surpresa quando eu argumentei que isto também era um subsídio público, uma muito maior, uma vez que o governo paga enormes somas para os bancos para ter seus títulos. Eu deveria ter mencionado que três de quartos dos adultos apoiados pelo Bolsa Família também precisam trabalhar para sobreviver.

Se Cuadros tem uma agenda, esta pode ser descrita como a ênfase nas contingência dos resultados econômicos, bem como sobre os obstáculos à mobilidade e ao acesso, todos que fazem a ideia de meritocracia pouco mais do que um meio para justificar a desigualdade extrema.

Estas questões-e todos os tipos de conversas sobre mérito, bem estar e distribuição da riqueza, não são, naturalmente, de nenhuma maneira única restritos ao Brasil. Brazillionaires se refere na superfície sobre o Brasil, mas pretende ser mais do que isso.  O Brasil, em alguns aspectos importantes, é mais representativo do mundo do que qualquer outro país.  O Brasil tem sido em décadas recentes um dos países mais desiguais do mundo. Se você combinar todas as pessoas do mundo juntos e medir as desigualdades de riqueza, o que se acha encontra é um nível maior de desigualdade do que existe em qualquer única nação. Ainda assim, o perfil do Brasil é que fica mais próximo de igualar a situação mundial: uma pequena rica e dominante classe alta, uma classe média modesta, e uma grande maioria de pobres que luta por renda e direitos efetivos.

O Brasil é incomum entre os países de desigualdade elevada dado o fato que seus cidadãos estão espalhados por todo o espectro de classes sociais. Nos Estados Unidos, por outro lado, em termos puramente monetários, os pobres são de renda média para os padrões mundiais.  O Brasil tem pessoas que são tão pobres como outros em qualquer outro lugar, e ainda tem, portanto, pessoas que são tão ricas quanto qualquer um em outro lugar qualquer. Apenas um dos entrevistados de Cuadros expressou qualquer tipo de remorso sobre essa situação peculiar. Guilherme Leal, co-fundador de uma empresa de cosméticos sustentáveis (a Natura, grifo meu) disse a Cuadros que se sente desconfortável em ser bilionário em um país tão pobre. “Eu acho que as sociedades mais felizes são os menos desiguais”.  Leal adicionou ainda que:

“Onde todos pudessem ter uma qualidade de vida bastante decente e razoável. Se eu tivesse que desistir de uma parte significativa da minha riqueza, e pagar 30% ou 40% a mais impostos, mas que com isso eu pudesse viver num país com menos desigualdade, eu seria mais feliz.”

Ainda assim, quando sua companhia foi instada a pagar milhões de dólares em impostos não recolhidos, Leal afirmou que: “aqui no Brasil, se você não tentar lidar de forma inteligente com a carga tributária, você vai falir.” Se o nível de desigualdade do Brasil choca a consciência, e leva a injustiças óbvias, então devemos reconhecer que, como uma comunidade humana global, nós somos todo o Brasil.

Cuadros não faz essa comparação global de forma explícita, mas ele espalha trilhas de pedaços de pão para uma terceira interpretação do conteúdo do seu livro. Mesmo o subtítulo da edição nos EUA “Riqueza, poder, decadência e esperança num país americano” visivelmente não diz que “país latino-americano”, mas americano. O ponto, que ele faz com certeza é de que estes problemas não são apenas Brasil, mas também são os dos Estados Unidos. Ambientalistas nos EUA reclamar com desânimo que enormes porções da Amazônia estão sendo desmatadas para o plantio de soja e a criação gado, como também fazem os ambientalistas brasileiros. Mas a atividade de traz ganhos de curto prazo para as áreas pobres do país e, como Cuadros aponta, os EUA tem feito o mesmo cálculo com o uso de fracking nos últimos anos.

Ambos os países são ex-sociedades escravagistas que lutam para enfrenta seus legados de racismo institucional e a violência que acompanha a patologização de um pobre racializado. Ambos são lugares onde os ricos têm aos meios garantir que seus filhos se tornem prósperos e mais se beneficiam até mesmo de bens públicos, como a educação.  A corrupção institucional tem sua cultura particular no Brasil, onde ela tanto pode ser uma frustração cotidiana quanto completamente exasperante. (O juiz responsável pelo julgamento de Eike Batista por manipulação de mercado e uso de informações preferenciais apreendeu alguns dos seus bens pessoais para depois ser flagrado dirigindo o Porsche Cayenne de Eike pelas ruas do Rio de Janeiro)

Mas o que dizer das nossas práticas completamente legais de lobbying na qual a experiência no governo pode ser transformada em riqueza privada, e as corporações e as pessoas ricas tem grande influência sobre a aprovação de leis?  A história de nossos poderosos bilionários não é simplesmente sobre produção de valor social, mas de bolhas, monopólios, negócios preferenciais, e a violência estatal e privada contra os trabalhadores. Os EUA são mais ricos e sua democracia é mais antiga, mas não é assim tão diferentes do Brasil.

Por causa dos Jogos Olímpicos, o Brasil é agora o centro da atenção mundial. Mas o fato de que os jogos acontecem num momento de conflito político e recessão econômica certamente é desapontador para os líderes brasileiros. Mas as legiões de jornalistas estrangeiros que estão caindo de paraquedas para visitas rápidas serão certamente atraídos pelo exótico: a beleza da paisagem e do povo, futebol, Carnaval, as favelas, e assim por diante. Brazillionaires é apenas uma lembrança aos telespectadores nos EUA serão mais bem servidos se não olharem para o Brasil como um lugar exótico com problemas igualmente exóticos. Contemplar as condições do Brasil é contemplar um quadro alarmante, e perceber que nosso olhar não está dirigido a uma pintura, mas a um espelho.

**O texto de Patrick Iber foi originalmente escrito em inglês  e  publicado pelo jornal estadunidense “New Republic” (Aqui!) e foi traduzido pessoalmente por mim para o português.

WikiLeaks expõe Michel Temer como informante do governo dos EUA

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A estas alturas não é mais segredo que o WikiLeaks de Julian Assange liberou documentos demonstrando que o presidente interino era informante da embaixada dos Estados Unidos da América (EUA) e que passou aos diplomatas estadunidenses uma série de informações que os próprios consideraram coisa de amigo da onça.

Mas resolvi ir até o Twitter oficial do WikiLeaks para ver o que foi dito ao longo desta sexta-feira (13/05). E o pessoal do WikiLeaks realmente resolveu expor as relações de Temer com a embaixada estadunidense de forma escancarada (ver imagens abaixo).

É bem provável que Michel Temer não fique muito amuado com a revelação do WikiLeaks, pois já tem sido chamado de coisa bem pior do que “X9” aqui mesmo no Brasil. A questão não é como Temer reage ao ser desnudado frente aos outros governantes que fazem negócios com o Brasil mas que, não necessariamente, são amigos dos EUA. E a lista é grande, envolvendo parceiros comerciais estratégicos como China e Rússia.

Para quem quiser ter acesso aos documentos disponibilizados pelo WikiLeaks sobre as informações passadas pelo “X9” que agora é presidente interino do Brasil, basta clicar (Aqui!)

Obama vai para Cuba e rouba um dos últimos bordões da direita brasileira

Enquanto no Brasil a direita está envolvida numa tentativa de golpe parlamentar contra Dilma Rousseff, as cenas vindas de Havana, mostram o presidente estadunidense marchando célere pelas ruas molhadas da capital cubana. 

Mas o que Barack Obama não sabe é que com essa histórica visita, a primeira de um presidente à ilha em 88 anos, é que ele está roubando um dos maiores, e certamente últimos, da direita brasileira, o “Vai para Cuba!”.

É provável que depois da ida de Obama a Cuba, os líderes da  tentativa da derrubada de Dilma vão querer ir a Cuba, nem que seja para fazer um pit stop antes de se dirigirem para Orlando onde irão visitar o Pateta, símbolo apropriado para a visão de país que temos visto sendo apresentada nas  raivosas manifestações que a direita brasileira vem realizando desde que Dilma Rousseff tomou posse no ano passado. 

Abaixo algumas imagens da visita de Obama a Cuba.

O que o comício de Donald Trump interrompido por protestos tem a ver com o Brasil? Tudo!

Demonstrators cheer after Republican U.S. presidential candidate Donald Trump cancelled his rally at the University of Illinois at Chicago March 11, 2016. REUTERS/Kamil Krzaczynski

A cobertura da mídia brasileira anda focada apenas na caça seletiva à corrupção como um mecanismo de mudança no governo federal, retirando Dilma Rousseff do cargo para a qual foi eleita em 2014. De outro lado, há uma reação por parte da mídia alternativa que, na maior parte das vezes, apenas realça um aspecto correto que é o envolvimento em casos ainda maiores de corrupção. Entretanto, mostrar a parcialidade, e até mesmo casos de atentos à ordem tributária por parte de membros da mídia  corporativa não resolve o problema objetivo envolvimento do neoPT em casos de corrupção, como o caso da Petrobras. 

Mas o pior aspecto desse FlaxFlu é a ocultação de que há uma crise profunda que ameaça a estabilidade política inclusive na principal potência econômica e militar, os Estados Unidos da América.  Abaixo um vídeo mostrando conflitos que impediram a realização de um comício do bilionário Donald Trump que é até agora o favorito para vencer as primárias (notem que falei primárias!) de onde sairá o candidato do Partido Republicano para a sucessão de Barack Obama.

E há que se notar que essas cenas caóticas ocorreram no ginásio da Universidade de Illinois-Chicago, um local onde se esperaria um pouco mais de tolerância democrática. Entretanto, dada o radicalismo da mensagem de Donald Trump que se centra na perseguição a imigrantes ilegais (ou não para dizer a verdade) e a muçulmanos, esses conflitos já vinham ocorrendo em menor escala ao longo dos EUA.

Alguém poderia me perguntar sobre como essas cenas de Chicago se encontram com o que temos assistido nas manifestações pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff, no que eu responderia: ora, é a economia! E em períodos de profunda crise econômica mundial, a tolerância é sempre a primeira vítima. Dai para rupturas da ordem democrática é só um pulo.

Além disso, para um lado e para outro no debate interno no Brasil, o que essas cenas nos mostram é que toda tentativa de restringir a análise ao nível das nossas fronteiras nos faz perder a real dimensão da crise em que o Capitalismo está envolvido neste momento,  e também nos impede de ver porque certos setores estão tão ansiosos para uma mudança de regime no Brasil: ajudar os “amigos” do Norte.

Ciência brasileira em crise: o buraco é definitivamente mais embaixo

crise

Alertado pelo jornalista Maurício Tuffani em sua página no Facebook, me deparei com dois artigos que discutem a raiz da crise que assola atualmente a comunidade brasileira (Aqui! e Aqui!). Apesar de achar as duas análises interessantes, creio que perdem o essencial da questão.

Mas vamos por partes. Como passei algum tempo vivenciando o sistema universitário estadunidense, creio que relacionar os problemas de gestão que temos nas universidades brasileira à crise quantitativa e qualitativa que temos no nosso sistema universitário à uma suposta falta de profissionalização dos dirigentes é equivocado. É que as universidades estadunidenses passam por problemas sérios nas suas relações internas por uma distância objetiva que existe entre gestores e geridos. Além disso, a superposição de uma lógica mercadológica sobre as questões acadêmicas tem servido para reprimir o pleno desenvolvimento de novas gerações de pesquisadores, além de criar um sistema ainda mais injusto nas relações de trabalho. 

Assim, se olharmos de perto e sem olhos colonizados, veremos que o sistema estadunidense enfrenta uma crise que nasce justamente da negação da autonomia para a produção de conhecimento científico que não esteja sendo produzido apenas para encher ainda mais a empada das corporações. Desta forma, apesar de ainda lideraram os diferentes rankings de universidades no mundo, a pressão pró-mercado tem sido apontado como um poderoso elemento de asfixia na capacidade de gerar conhecimento científico, e até mesmo de gerar bons quadros para a iniciativa privada. 

Ainda nesse tópico, há que se lembrar que muitos dos problemas vividos pelas universidades brasileiras ainda decorrem da herança maldita que foi deixada pela ditadura militar de 1964, que privou nosso jovem sistema universitário de lideranças capazes de apoiar o desenvolvimento de um modelo universitário que estivesse atento aos problemas reais da nossa sociedade.  E isso foi feito não apenas pelas aposentadorias forçadas e exílio de muitos intelectuais, mas também pela ascensão de uma classe de dirigentes totalmente servis ao regime de exceção. Desta forma, essas lideranças institucionais acabaram atrelando as nossas universidades às vontades políticas dos ocupantes de plantão dos diferentes palácios de governo, um fato que se mantém até hoje. Em suma, em minha opinião, o problema que enfrentamos nas universidades brasileiras não é de capacidade de gerir sob o ponto de vista administrativo, mas político.

O segundo aspecto abordado nas reflexões que o jornalista Maurício Tuffani divulgou é que a falta de conhecimento da população sobre a importância da ciência e das instituições que a produzem acabaria fragilizando a posição que as mesmas ocupam na sociedade e, por extensão, nas disputas que eventualmente ocorrem por orçamentos encolhidos. Creio que a primeira questão aqui é relacionada ao que eu disse no item anterior. É que se não produzimos uma ciência antenada com as necessidades mais estratégicas do país, e nos contentamos em produzir ciência de segunda mão, dificilmente teremos o devido reconhecimento de nossa importância para o desenvolvimento nacional. E olha que eu acho que as universidades, a Universidade Estadual do Norte Fluminense é um bom exemplo disso, ainda recebem muito crédito da população, muito mais pelo que poderiam ser, e não que efetivamente são.

Em suma, o nosso problema não é falta de divulgação, mas ausência de um entendimento de que ciência, especialmente aquela produzida num país de economia periférica como o Brasil, não pode ser algo que sirva apenas para o engrandecimento de currículos pessoais.  O buraco é muito mais embaixo, pois não apenas persistem problemas básicos e profundamente graves, mas porque abrir caminho para um efetivo processo de desenvolvimento deveria ser encarado como uma tarefa coletiva de todos os que militam profissionalmente em nosso ainda jovem sistema universitário. Mas não é o que se vê, aliás, muito pelo contrário, já que estamos vivendo um período de grande obscurantismo, onde um mínimo de aceno para reflexões críticas sobre a universidade são rotuladas com adjetivos perversos, seja pela esquerda ou pela direita.

Outro aspecto que deveria servir como elemento de discussão se refere à verdadeira bagunça que foi criada pela implantação de uma visão de quantidade sem qualidade, e que resultou numa euforia inebriante por muitos dirigentes de nossas agências de fomento e das próprias universidades. Em função disso, por quase uma década, vivemos uma espécie de “milagre brasileiro” onde se difundiu a idéia de que havíamos nos tornado uma potência científica mundial.

Agora que a cortina de fumaça está baixando e a dura realidade do “trash science” como “modus operandi” de turbinamento de CVs Lattes aparece nos horizonte, podemos ver que no quesito da produção científica estamos deparados com um verdadeiro tigre de papel, pois, em nome de uma súbita aceleração no número de mestres e doutores, acabamos criando um sistema sórdido de confecção em massa de dissertações e teses baseadas em pesquisas pouco rigorosas que, além de não resistir a uma análise minimamente rigorosa, ainda estão servindo para a erupção de um número incrível de fraudes acadêmicas.

Por último, é preciso ressaltar que a política de financiamento adotada pela maioria dos governos civis que sucederam ao regime de 1964 tem sido na direção das instituições privadas de ensino, onde efetivamente não há qualquer produção científica que merece essa nome. No caso do governo de Dilma Rousseff temos assistido, até de forma inaceitável, a aplicação de bilhões de reais em políticas que servem apenas para robustecer a produção de vagas de graduação, enquanto turbinam as contas bancárias dos donos das empresas de ensino.  Essa decisão do governo federal evidencia não apenas a opção preferencial pelas corporações privadas de ensino, mas também, e principalmente, o abandono das instituições públicas, onde se concentra a produção científica.

Essa opção preferencial pelo ensino privado é revelador de algo ainda mais crucial, o do abandono de um projeto nacional para a ciência. E frente a esse fato é que deveríamos estar nos posicionando, o que não está ocorrendo, pois a maioria das análises se concentra em elementos, me desculpem, periféricos e secundários.