Cenas americanas e a dificuldade de ser dizer as coisas como elas são

Violent Clashes Erupt at "Unite The Right" Rally In Charlottesville

Leon Trotsky realizou uma série de análises sobre as causas do surgimento do Fascismo e até formulou um conjunto de elementos que explicaria porque de tempos em tempos vemos a ascensão de governos que aplicam formas exremas de violência para impor seu controle sobre uma dada sociedade [1].

Tomando o que teorizou Trotsky, o elemento que hoje mais aparece evidente é aquele que alinha a emergência de elementos fascistas a uma frustração das classes médias com a situação objetiva que lhe é imposta por uma combinação de uma crise estrututal do Capitalismo como outra causada pelo processo de superprodução. O Fascismo nesse sentido nada mais é do que uma opção pela extrema violência para obrigar a classe trabalhadora a aceitar o aumento da superexploração do seu trabalho em nome de uma estabilização da crise capitalista.

Como vivemos um período em que a combinação de crises dentro do Capalismo leva a uma exasperação das médias, não chega a ser surpresa que grupos de orientação fascista estejam brotando em diversas partes do mundo.  A maior surpresa talvez seja a incapacidade da mídia corporativa que dar o nome aos bois, no caso bois fascistas.

A maior expressão dessa incapacidade de nominar corretamente é o tratamento que está sendo dado pela mídia mundial, em particular a estadunidense, os grupos envolvidos na ocupação da cidade de Charlottesville (norte do estado da Virginia) com a desculpa de protestar contra a remoção de uma estátua do general confederado Robert E. Lee.   Esses grupos vem sendo chamados de todo tipo de nomes (Alt Right, White Nationalists, White Supremacists) em vez do nome que realmente os define: neonazistas.

neonazis

Essa não é uma dificuldade qualquer porque esconde as raízes deste tipo de movimentação que é, como Trotsky caracterizou, impor pelo terror o consentimento dos trabalhadores com o aumento da superexploração do seu trabalho.  Encobrir este aspecto é fundamental para governos que hoje estão aplicando fórmulas extremas de expropriação da mais valia, seja pela redução dos investimentos em políticas sociais que reduzem os efeitos da apropriação capitalista da riqueza ou pela cassação de direitos trabalhistas que foram duramente conquistados pela classe trabalhadora ao longo do Século XX.

Interessante também notar que no caso dos enfrentamentos de Charlottesville, os que resistiram à marcha dos fascistas (ou neonazistas se for para caracterizar mais precisamente os grupos que lá estacam) também foram chamados de várias coisas, menos pelo que realmente são, antifascistas. E aqui a causa da ausência de caracterização pode ser apenas para deixar fluída a necessidade de caracterizar corretamente o que está se passando dentro dos EUA a partir da chegada ao poder de Donald Trump e sua mensagem de pseudo nacionalismo.  Em minha opinião, o que está ocorrendo por lá é o início de um processo aberto de luta de classes com uma divisão clara dentro das classes médias sobre qual caminho tomar.

Alguém pode se perguntar se o que está acontecendo nos EUA é, de alguma forma, um preâmbulo do que poderá acontecer no Brasil.  Eu particularmente acredito que é justamente o contrário. É que de uma forma perversa, o que está acontecendo lá, já vem acontecendo no Brasil desde que as multidões vestindo a camisa da CBF se postaram nas ruas para em nome do combate à corrupção exigir o fim das políticas de mitigação das desigualdades sociais.  

É preciso lembrar que em todas as manifestações feitas pelo impeachment de Dilma Rousseff a presença de grupos de orientação nazi-fascista era perfeitamente notável. Mas como a mídia corporativa estadunidense, a mídia brasileira escondeu propositalmente a presença e a mensagem desses grupos.  Desta forma, de uma forma bastante inglória, o Brasil se tornou a vanguarda para o atraso dos EUA.

saudação

Nesse sentido, em vez de nos chocarmos com as tochas acesas numa praça de Charlottesville, o melhor  mesmo seria examinar cuidadosamente o que anda acontecendo por aqui mesmo. Afinal de contas, como país periférico tenderemos sempre a experimentar não apenas o pior da crise capitalista, como também das expressões deformadas que são realizadas para contorná-la.  Assim, ignorar a presença ostensiva desses grupos na sociedade brasileira representa um grave erro. E ficar apenas entoando que fascistas não passarão dificilmente resolverá o problema.

Um aspecto  curioso que poucos conhecem é que Robert E. Lee terminou seus dias como presidente de uma universidade que tem suas raízes ligadas ao primeiro presidente dos EUA, George Washington, e que foi rebatizada após sua morte como Washington and Lee University (WLU), a qual está localizada na cidade de Lexington, também localizada no norte da Virginia [2], não muito longe de Charlotesville.  Como presidente da WLU, Lee realizou um interessante processo de recrutamento de estudantes de todas as partes dos EUA e estabeleceu condições para que a universidade chegasse a ser hoje uma das melhores instituições privadas de ensino superior do sul do país [2].  Interessante lembrar que ele morreu no exercício do seu cargo na universidade e  foi enterrado numa capela existente no campus, estando seus restos mortais  ali até hoje. Mas essa parte da biografia de Robert E. Lee não é certamente a que interesse aos fascistas de lá e daqui.

 


[1] https://www.marxists.org/portugues/mandel/1974/mes/fascismo.htm

[2] https://www.wlu.edu/

Um pensamento sobre “Cenas americanas e a dificuldade de ser dizer as coisas como elas são

  1. joyphilnow disse:

    Marcos, Thank you for your provocative writing.
    You write: “A maior surpresa talvez seja a incapacidade da mídia corporativa que dar o nome aos bois, no caso bois fascistas.” and “Esses grupos vem sendo chamados de todo tipo de nomes (Alt Right, White Nationalists, White Supremacists) em vez do nome que realmente os define: neonazistas.”
    In fact, I have been impressed with how ‘often’ I have heard the term neonazi used in the past days–precisely on the corporate media. Granted that I do not listen to Fox News. But others have freely used the term. I assume there is an app that would grant us the ability to precisely count the number of times it is used. it would be very interesting to use that app and secure some date on this. Of course, we would then, as good scientists have to determine how many is ‘many times.’
    Again, thank you.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s