Quando a pandemia se encontra com o Cristofascismo

No domingo em que o Brasil já ultrapassou 2 milhões de infectados e 78 mil mortos pela COVID-19,  não posso deixar de esquecer dos muitos conhecidos que possuem afiliação a igrejas protestantes que se sentem claramente incomodados e até perplexos com o papel que seus líderes vem jogando na sustentação do governo Bolsonaro. Um sentimento que é expresso em um gradual afastamento da defesa de um presidente que, por força das orientações das principais lideranças evangélicas brasileiras, eles ajudaram a eleger na expectativa de que realmente haveria uma aproximação com os valores éticos e morais que eles defendem.

cristofascismo

Em meio a essa perplexidade, e até com a expectativa de que esses milhões de brasileiros ligados a diferentes denominações, possam entender o jogo político que envolve a aproximação do presidente Jair Bolsonaro com algumas das principais lideranças protestantes do Brasil é que decidi compartilhar com os leitores deste  blog o E-book intitulado “Pandemia Cristofascista” escrito pelo professor do Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da Universidade Estadual do Norte (Uenf), Fábio Py.

Obviamente o conteúdo da obra traz elementos polêmicos, mas também esclarecedores, sobre as relações estabelecidas sobre o que Py acredita ser uma relação direta entre as grandes estruturas evangélicas existentes no Brasil com o desenvolvimento do que veio a ser popularmente denominado de “Bolsonarismo”.  Para isso, ele realiza um trabalho bastante eficiente no sentido de desvelar os mecanismos que possibilitam não apenas a aproximação, mas também o necessário suporte político, inclusive no parlamento, mas não apenas lá.

bolso lideresO presidente Jair Bolsonaro em encontro com líderes religiosos, incluindo Silas Malafaia e R.R. Soares

A boa notícia é que, segundo Py, sinais de desgaste já começam a aparecer e, desde o início da pandemia da COVID-19, alguns grupos religiosos estão reavaliando o apoio incondicional a Bolsonaro.  Nesse sentido, Py afirma que “algumas estruturas tradicionais, como os protestantes tradicionais, já estão fazendo uma crítica do alinhamento com o governo. Os Presbiterianos e os Metodistas começaram a fazer uma crítica das ações do presidente durante a pandemia, principalmente por não seguir as recomendações da Organização Mundial da Saúde – OMS”.

Quem desejar baixar gratuitamente, o E-book “Pandemia Cristofascista”, basta clicar [Aqui!].

O coronavírus coloca a Teologia da Prosperidade contra a parede

teologia da prosperidadeAlgumas das principais lideranças neopentecostais brasileiras no entorno do presidente Jair Bolsonaro na 27ª edição da Marcha para Jesus, em São Paulo.| Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil.

Não tenho nem conhecimento suficiente nem pretensão de ter em relação ao alinhamento do presidente Jair Bolsonaro com determinadas lideranças  de uma variante cristã que é popularmente conhecida como “Teologia da Prosperidade“. Outros pesquidadores, entretanto, já escreveram textos interessantes sobre os esforços de Bolsonaro em associar sua imagem à lideranças ligadas à Teologia da Prosperidade, um esforço que aumentou com a queda flagrante de sua popularidade em função de sua forma particular de negar a pandemia criada pelo coronavírus.

Um desses pesquisadores, o doutor em Ciências da Religião, que atua no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), Fábio Py, acaba de publicar um artigo intitulado “Cristologia pascoal bolsonarista“, onde traça um itinerário para que seja possível entender os esforços do presidente Bolsonaro em ligar a sua imagem e trajetória no trato da pandemia a uma lógica messiânica que, em última instância,  tenta relativizar as consequências mortais da pandemia.

Apresentada a análise do Dr. Fábio Py,  volto ao que realmente me chama a atenção não em relação ao presidente Bolsonaro, mas sim às lideranças neopentecostais que se associaram tão fortemente ao atual presidente, e que também estão colocadas em xeque pelo coronavírus. Sem entrar em nomes, uma característica comum a várias destas lideranças religiosas tem sido a sua oposição ao isolamento social, sob o argumento de que não se pode impedir o direito de culto, mesmo em face do risco real de disseminação do coronavírus entre os seus fiéis. 

Várias análises já foram postas sobre a posição das principais lideranças neopentecostais brasileiras, com a maioria dos analistas insistindo em uma explicação que tem a ver com o aspecto financeiro, já que fica mais difícil coletar dízimos e outras formas de contribuição se não houver a presença física dentro dos templos. Eu diria que essa não é a questão chave que faz com que uma parte significativa dessas lideranças insistam em reabrir templos em tempos de pandemia.

rr-soaresO missionário R.R. Soares, líder  da Igreja Internacional da Graça de Deus, inovou ao solicitar a entrega online de dízimos pelos fiéis em função da ausência de cultos presenciais por causa do coronavírus.

O problema me parece muito mais existencial, pois a Teologia da Prosperidade possui uma tônica que são as promessas de saúde e prosperidade que são os sustentáculos da congregação de seus seguidores. Como o coronavírus desconhece qualquer obediência aos clamores feitos em púlpitos, a própria existência dessa variante cristã está em xeque em face da incapacidade de oferecer uma imunidade concedida ou obtida pela fé.

Muitos analistas do fenômeno neopentecostal tendem a apresentar as congregações que a adotam como sendo monolíticas em termos de práticas e estáveis em termos de congregados.  Eu diria que nem uma coisa, nem outra. E a incapacidade de entregar as promessas de saúde que está ficando evidente por causa da virulência com que o coronavírus está atingindo a todos, independente da opção religiosa. Por isso mesmo, arrisco a dizer que período que se abrirá após a passagem do pico da pandemia criará grandes movimentos das “placas tectônicas” dentro das grandes denominações neopentecostais no Brasil. Suspeito ainda que as denominações protestantes que não abraçaram essa variante estarão atentas para, provavelmente, experimentar uma grande afluência de fiéis desencantados com a Teologia da Prosperidade.

Menos uma flor no nosso jardim

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Por Fábio Py Murta*

Passei o dia engasgado, com algo preso no peito. É que algumas vezes, passei, falei, beijei uma flor. Na última vez trocamos meia dúzia de palavras de carinho. Recebi um daqueles abraços. Hoje, percebi que era despedida. Tinha uma voz potente. Não se aguentava nos gestos, nos muros, nas bocas e interjeições. Era uma voz dissonante nas políticas de esquerda, quando normalmente são ocupados por brancos, homens, letrados de classe média, que vivem no asfalto.

Seria candidata à prefeitura do Rio de Janeiro, na chapa encabeçada por Tarcísio Motta. Uma vida política foi interrompida. Era muito política, muito. Vinha da favela. Cria da maré. Mulher, pobre, negra, favelada, interseção que marca no Brasil um lugar de toda exclusão. Por isso, se destacou vocalizando o lugar de sentido distintos dos feitores de política oficial no Brasil. Linda e propositiva. Profunda e suave. Mesmo assim ouvia os pontos de todos e todas. Sempre se lembrando de onde vinha, ouvi ela dizendo certa vez: “tudo bem, gente, mas na favela, a questão que se pede são as creches para as mulheres trabalharem”. Assim, eu via Marielle, mulher, preta, pobre, de favela, que sempre pensava no chão que pisava. Vivendo as lutas necessárias. Todas. Acumuladas. Engasgadas…

Ontem, após participar de atos de sua memória. Vi seu enterro que me lembrou a memória da profecia bíblica. No tempo bíblico, o enterro era o momento de denúnciar, gritar os males, xingar os governantes e elites. A profecia/enterro era para bradar o que não se dizia no habitual. Era um espaço de permissão, denúncia. Era o instante do grito: “Ai!”, como tido em Isaias 10,1-2: “Ai, daqueles que fazem leis injustas, que escrevem decretos opressores,para privar os pobres dos seus direitos e da justiça os oprimidos do meu povo, fazendo das viúvas sua presa e roubando dos órfãos!”. Confesso que passei o dia todo nas profecias bíblicas, buscando suas poesias. Lembrando de profetas e profetizas da Bíblia: Isaias, Amós, Débora… Contudo, no noticiário percebi que estavam só falando das poesias, manifestações, atos. Os veículos oficiais e os governantes praticando a operação deslavada de tratar o crime como sendo mais um no número da violência das favelas, coisas do trafico de drogas, das guerras de facções. Com a operação tentam esconder, escorregar a resposta correta. Por isso, me permitam dizer: a vida da Marielle Franco foi-nos tirada em um ASSASSINATO tramado. Coisa da estética brutal militar. Coisa típica da truculência, arrogância e burrice dos oficiais milicos. Me desculpem: deram quatro tiros no seu lindo rosto para esculachar. Não foi um tiro. Foram quatro. Destruíram sua face, na tentativa de esfarelar sua memória. Não tiveram vergonha de fazê-lo em frente às câmeras, em um cruzamento. E, ainda por cima, deixaram uma assessora viva para contar a história. Não nos enganemos. Eles querem mostrar poder.

Não. Não foi a ‘simples’ linha da espiral de violência que nos levou a Marielle Franco. Mas sim, foi essa mania de dar poder aos militares no Brasil quenos levou uma filha da Maré. Os jornais oficiais, as elites, não podem apagar da memória esse dado. Marielle merece mais, muito mais do que estão oferecendo a ela. Mais chão. Mais concreto. Mais do sonho que o povo preto/preta, favelado, pobre, inunde o asfalto para cobrar com o dedo ao fronte a parte que lhe cabe nesse quinhão brasileiro. Sim, lembro o bom e velho Marx, que cortaram mais uma flor. A primavera há de chegar. Essa é minha oração ontem, hoje e eternamente… Marielle, seus gestos, falas e temas são nossos: desde ontem, ressuscitada está entre nós!!!

Foto: Reprodução internet.

*Fábio Py é pós-doutorando no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da Universidade Estadual Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) e colunista no site de Caros Amigos

FONTE: http://fazendomedia.org/menos-uma-flor-no-nosso-jardim/

 

Contra a territorização evangélica de qualquer lugar

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Por Fábio Py

As cenas de traficantes da região da Ilha do Governador, do Morro do Dendê, no Rio de Janeiro, que gravaram um vídeo mandando o povo de terreiro destruir seus próprios símbolos são para amedrontrar. Formam imagens e sons de uma apologética de medo patrocinada pela arma na mão. Sobre isso não se pode relativizar. Mesmo com as muitas das muitas imagens e mais imagens de violências que chegam pelos noticiários, pelas mídias, a ação dos traficantes armados mandando os próprios povos de terreiros a destruir seus templos e apetrechos religiosos de matriz africanas são simbólicas e também mostram uma perspectiva de higienização territorial dessa nova onda de evangélicos. Não basta destruir os espaços religiosos. Devem obrigar com os fuzis em riste os próprios membros das religiões afro que destruam seus símbolos, seu centro do mundo. No ato se tem uma violência dobrada, quiçá triplicada: uma entre as muitas expressões do sadismo territorial-religioso que os fundamentalismos trajados na linguagem da batalha espiritual atualizam para o ambiente nervural das favelas. 

Ora, mesmo com a confusão da quantidade de imagens e notícias penso que deve-se dizer que como cristão, de corte protestante evangélico, um ato como esse de violência extrema pouco tem a ver com o seguimento de Jesus. Para isso lembro um pouco das Escrituras Sagradas: Jesus não era cristão. Ele era judeu! Logo, assim, para época, não construía uma religião “pura”, “sem-mancha”. Seu seguimento sempre dialogou com os demais ritos e culturas ao redor.

Ele sempre foi permeado e utilizou elementos de outras tradições religiosas, como, por exemplo: o rito inicial nas águas, orações soltarias, a escolha de pessoas para seguir sem moradias… Tudo isso. E, até, a própria noção de ressurreição não é originalmente do ambiente cristão. Portanto, essa noção de pureza religiosa impregna essa territorialização evangélica das favelas do Rio, é uma expressão racista do Cristianismo. Ela que é uma noção que data do início do século XX no ambiente americano chamado de fundamentalismo religioso. Assim, ao inverso desse seguimento, assumindo a diversidade que forma o Cristianismo e o ajuda a se desenvolver até os dias de hoje, reconhecemos que é vergonhoso assistir as cenas da destruição do local de culto afro pelos chamados “traficantes de Jesus”. Pois, a aceitação do outro é uma prática que perpassa importantes textos das Escrituras Sagradas, e que se faz presente em toda história do Cristianismo.

Além disso, uma ação como essa vai contra a própria ação política dos protestantes evangélicos desde a formação do Brasil. Eles que sempre apoiaram a diversidade religiosa e de culto. Apoiaram a diversidade porque no passado eram ainda mais uma minoria no País. Portanto, a garantia desse dispositivo legal seria uma forma estratégica para a continuação e até uma propagação das celebrações evangélicas. Nesse sentido, é ainda mais alarmante a percepção de que existem pastores que incentivam tal territorialização da violência contra os povos de terreiro. Sim! Existem religiosos que vêm auxiliando os traficantes contra qualquer grupo ou ser humano de confissão diferente da dele, principalmente, dos ritos afro. Só para dizer. Esse Cristianismo virulento, intolerante não representa a postura histórica dos protestantes evangélicos. Muito menos eles dão a tônica de todo setor. Dão essa impressão porque suas violências chamam atenção dos canais e mídias. O que não é por menos, claro.

Assim, marcando posição se diz que se é contra qualquer territorialização evangélica levada pelos “traficantes de Jesus” nas comunidades da Ilha do Governador, Rio de Janeiro. Sua perspectiva de pureza religiosa violenta, racista só mancham mais de sangue das favelas do Rio. E, o que é menos importante (do que o ambiente de violências nas favelas) mancham ainda mais o desenho feito sobre o setor evangélico no País. O que respinga no rosto do setor mais dialogal e aberto que está mais preocupado com teorias e leituras, sem se interessar em se sujar a mão na construção pedagógica de alternativas no dia-a-dia desse setor tão largo que cresce exponencialmente nas últimas décadas.


 Fábio Py é pós-doutorando no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da Universidade Estadual Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) e colunista no site de Caros Amigos

FONTE: https://www.carosamigos.com.br/index.php/colunistas/188-fabio-py/10778-contra-a-territorizacao-evangelica-de-qualquer-lugar