Contra a territorização evangélica de qualquer lugar

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Por Fábio Py

As cenas de traficantes da região da Ilha do Governador, do Morro do Dendê, no Rio de Janeiro, que gravaram um vídeo mandando o povo de terreiro destruir seus próprios símbolos são para amedrontrar. Formam imagens e sons de uma apologética de medo patrocinada pela arma na mão. Sobre isso não se pode relativizar. Mesmo com as muitas das muitas imagens e mais imagens de violências que chegam pelos noticiários, pelas mídias, a ação dos traficantes armados mandando os próprios povos de terreiros a destruir seus templos e apetrechos religiosos de matriz africanas são simbólicas e também mostram uma perspectiva de higienização territorial dessa nova onda de evangélicos. Não basta destruir os espaços religiosos. Devem obrigar com os fuzis em riste os próprios membros das religiões afro que destruam seus símbolos, seu centro do mundo. No ato se tem uma violência dobrada, quiçá triplicada: uma entre as muitas expressões do sadismo territorial-religioso que os fundamentalismos trajados na linguagem da batalha espiritual atualizam para o ambiente nervural das favelas. 

Ora, mesmo com a confusão da quantidade de imagens e notícias penso que deve-se dizer que como cristão, de corte protestante evangélico, um ato como esse de violência extrema pouco tem a ver com o seguimento de Jesus. Para isso lembro um pouco das Escrituras Sagradas: Jesus não era cristão. Ele era judeu! Logo, assim, para época, não construía uma religião “pura”, “sem-mancha”. Seu seguimento sempre dialogou com os demais ritos e culturas ao redor.

Ele sempre foi permeado e utilizou elementos de outras tradições religiosas, como, por exemplo: o rito inicial nas águas, orações soltarias, a escolha de pessoas para seguir sem moradias… Tudo isso. E, até, a própria noção de ressurreição não é originalmente do ambiente cristão. Portanto, essa noção de pureza religiosa impregna essa territorialização evangélica das favelas do Rio, é uma expressão racista do Cristianismo. Ela que é uma noção que data do início do século XX no ambiente americano chamado de fundamentalismo religioso. Assim, ao inverso desse seguimento, assumindo a diversidade que forma o Cristianismo e o ajuda a se desenvolver até os dias de hoje, reconhecemos que é vergonhoso assistir as cenas da destruição do local de culto afro pelos chamados “traficantes de Jesus”. Pois, a aceitação do outro é uma prática que perpassa importantes textos das Escrituras Sagradas, e que se faz presente em toda história do Cristianismo.

Além disso, uma ação como essa vai contra a própria ação política dos protestantes evangélicos desde a formação do Brasil. Eles que sempre apoiaram a diversidade religiosa e de culto. Apoiaram a diversidade porque no passado eram ainda mais uma minoria no País. Portanto, a garantia desse dispositivo legal seria uma forma estratégica para a continuação e até uma propagação das celebrações evangélicas. Nesse sentido, é ainda mais alarmante a percepção de que existem pastores que incentivam tal territorialização da violência contra os povos de terreiro. Sim! Existem religiosos que vêm auxiliando os traficantes contra qualquer grupo ou ser humano de confissão diferente da dele, principalmente, dos ritos afro. Só para dizer. Esse Cristianismo virulento, intolerante não representa a postura histórica dos protestantes evangélicos. Muito menos eles dão a tônica de todo setor. Dão essa impressão porque suas violências chamam atenção dos canais e mídias. O que não é por menos, claro.

Assim, marcando posição se diz que se é contra qualquer territorialização evangélica levada pelos “traficantes de Jesus” nas comunidades da Ilha do Governador, Rio de Janeiro. Sua perspectiva de pureza religiosa violenta, racista só mancham mais de sangue das favelas do Rio. E, o que é menos importante (do que o ambiente de violências nas favelas) mancham ainda mais o desenho feito sobre o setor evangélico no País. O que respinga no rosto do setor mais dialogal e aberto que está mais preocupado com teorias e leituras, sem se interessar em se sujar a mão na construção pedagógica de alternativas no dia-a-dia desse setor tão largo que cresce exponencialmente nas últimas décadas.


 Fábio Py é pós-doutorando no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da Universidade Estadual Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) e colunista no site de Caros Amigos

FONTE: https://www.carosamigos.com.br/index.php/colunistas/188-fabio-py/10778-contra-a-territorizacao-evangelica-de-qualquer-lugar

2 pensamentos sobre “Contra a territorização evangélica de qualquer lugar

  1. Marco Antonio do Nascimento Sales disse:

    Alguns esclarecimentos: 1º – Toda pessoa honesta e que busca a verdade dos fatos e das situações, tem o dever de separar “o joio do trigo”. Os argumentos usados pelo Sr. Fábio Py, em que pese ser um articulista do Programa de Pós-Graduação da UENF, parecem apenas a vociferação de um ativista e, não, as palavras de um cientista (as quais deveriam, por força de “ofício” sê-lo!), tentando a todo custo “culpabilizar” os evangélicos pela obra “maldita de perseguição às religiões de raízes afro”. Quando se fala em evangélicos, se o ilustre “Pós-Doutorando”, tivesse um pouco mais de cuidado e repito: honestidade. Deveria conceituar o que ele entende por evangélico! O Guarda-Chuva “EVANGÉLICO”, reúne sob a sua égide, os históricos, tais como Episcopais, Anglicanos, Luteranos, Presbiterianos, Batistas, Congregacionais, Metodistas e outras nomeclaturas Reformadas de menor visibilidade. Há também os pentecostais tradicionais como as Assembleias de Deus, O Brasil para Cristo, A Igreja do Evangelho Quadrangular, entre outras. Além das Igrejas Neopentecostais, que possui um modo peculiar de viver a sua eclesialidade! Isto posto, dizer “OS EVANGÉLICOS” é, no mínimo, uma irresponsabilidade! 2º – Seja lá o que o Sr. Fábio Py, desejou dizer com o termo “EVANGÉLICOS”, colocá-los em franca aliança com “NARCOTRAFICANTES”, além de chamá-los de “TRAFICANTES DE JESUS”, é tão pueril, quanto irresponsável! E, mais, parece-me que tal associação beira a “CALÚNIA” e a “DIFAMAÇÃO”, tal como rotineiramente faz o serviçal da Rede Globo, Sr. José Júnior do Affroreggae, nos meios de comunicação sobre as ações de Igrejas Evangélicas em Comunidades Carentes, quando se sabe, que a aliança com o Crime Organizado no Estado do Rio de Janeiro, se dá através de outras entidades. Mesmo porque a ética doutrinária e eclesial das Igrejas Evangélicas como um todo, é totalmente avessa ao comportamento e estilo de vida que os narcotraficantes manifestam e vivenciam! 3.º – Creio que o Sr. Fábio Py, poderia fazer um curso com o Dr. Ricardo Mariano, autor renomado em Sociologia da Religião, para entender um pouco mais do assunto que pretendeu escrever, já que abordou o mesmo, de modo tendencioso e superficial.

    • Fábio disse:

      Prezado Marco Antonio do Nascimento Sales, de inicio quero agradecer a leitura do material, e sua comentário. Contundo quero comentar suas pontuações de forma detida, que demonstram o porque escrevi. Bom, vamos lá. O texto foi uma reação aos últimos acontecimentos no Morro do Dendê, contudo, o texto se baseia em dois grandes estudos. Um do ano de 2008 da antropóloga Christina Vital, que já pesquisava o aparecimento dos “traficantes evangélicos” nas favelas cariocas. A pesquisa gerou o livro “Oração de Traficante”. Também sobre o tema, outra linha apresenta dois livros da relação entre evangélicos do campo pentecostal e traficantes ou pertencentes a facções de “criminosos”: Fé e Crime, de Vagner Marques, e Cristianismo e criminalidade, de Lucas Medrado. Nesses textos se encontram os termos “traficantes evangélicos” e “traficantes de Jesus”. Ambos termos entendo como oportunos, pois os mesmos de definem como tal. Não posso, como pesquisador, ter o direito de definir como as pessoas se definem. Não tenho uma bula dizendo o que é evangélico. Nesse caso, esses trabalhos citados, penso que sejam bem mais interessantes que dizem respeito ao tema do que os clássicos trabalhos de Ricardo Mariano. Aliás, hás categorias de Mariano vem sendo refutados á algum tempo como escreveu Leonildo Campos. Eu, como pós-doutorando da UENF, ciente da complexidade, utilizo o termo evangélico (até porque me encontro dentro desse guarda-chuva). Além disso, como se sabe, sua minoria é de tradição ecumênica, não preocupada diretamente com a apologética religiosa. Claro, os protestantes de imigração, pela característica de sua igreja têm aspectos mais dialogais com a cultura. E, pouquíssimos protestantes históricos têm a característica ecumênica. Logo, ciente dessa complexidade, o que fiz foi no fim do texto foi pontuar que esses setores mais intelectualizados pouco se envolvem com as favelas no Rio. Poucos trabalhos são desenvolvidos nas comunidades do Rio, com exceção, por exemplo, da Igreja Luterana de Ipanema, com a Creche Bom Samaritano (no Morro Pavão-Pavaozinho), e outras parcas ações. Assim, posso não ter escrito de forma tão clara, mas considero a tese de Veronica Melander (The Hour of God? People in Guatemala Confronting Political Evangelicalism and Counterinsurgency (1976-1990). Uppsala: The Swedish Institute of Missionary Research, 1999), de que as ondas do fundamentalismo americano impregnou de tal forma o protestantismo no Brasil, e em alguns países, que não se tem mais como desvencilhar a identidade evangélica desses locais. Logo, a partir disso, foram brotando expressões diversas em ações religiosas tais como os “simples” cultos evangelísticos e as diferentes gradações de pentecostais, que atuam sob principio da “batalha espiritual”. Sobre a questão da batalha espiritual, o que está em jogo é um uma disputa pelo “legítimo território de Deus” (“legítimo território de Deus é uma metáfora). Sim, evangélicos (de vários espetros) são na maioria das vezes propagadores de ódio e violência contra as religiões afro. Lembro numa aula que ministrava no Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, quando um liderança batista disse sobre a importância de se erradicar nas favelas os cultos afros porque o “pecado” que ocasiona a pobreza. Nada mais colonizador, racista, pré-conceituoso.
      Repito, não sou da Globo, nem do AfroReggae, sou apenas um pesquisador, que tenta expressar as pesquisas em mínimas laudas para ajudar na leitura do público geral. Por isso, não posso definitivamente citar todas as obras que estou baseando minhas poucas frases. Ah sim! Dizendo novamente. Sou protestante-evangélico passando ao longo da vida por várias dessas tradições religiosas, entre elas, as igrejas batistas, e a igreja luterana. Infelizmente, não fui aluno de Ricardo Mariano, mas, tenho orgulho de ter sido aluno de Leonardo Boff, Adriana Facina, Cecília Mariz, Patrícia Birmann e Clara Mafra. Pessoalmente, acredito que cada um desses nomes são tão relevantes para analise da “religião” e das “favelas” no Rio de Janeiro quanto se vê na bibliografia do “Doutor Mariano”. Nesse caso, que tal vir para o Rio assistir as aulas das lindas, mestras, doutoras, professoras: Cecilia, Patrícia e Facina sobre tais temas? Obrigado pelo carinho. Abs, Fábio.

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