Estudo mapeia risco de derramamento de petróleo na Margem Equatorial brasileira

Maior risco acumulado está em áreas no CE e RN, que devem ser priorizadas no monitoramento e nos planos de contigência. Foto: Jan-Rune Smenes Reite / Pexels

Um novo estudo publicado na revista Conservation Letters na quinta (30) mapeia os riscos de impactos por derramamento de petróleo em áreas da Margem Equatorial brasileira, porção do território marítimo que vai do Amapá ao Rio Grande do Norte. As costas cearense e potiguar, que já contam com produção iniciada, concentram maior probabilidade de danos a bancos de pradarias marinhas, manguezais, recifes de corais e bancos de rodolitos – que reúnem algas calcárias. Já na área entre Pará e Amapá, com expansão projetada de atividade petroleira, os ambientes mais expostos a risco são os recifes mesofóticos – localizados entre 30 e 150 metros de profundidade.

O estudo avaliou os riscos de impactos cumulativos de derramamento de óleo na região a partir de simulações da trajetória do contaminante, informações científicas e governamentais sobre a distribuição dos habitats marinhos e costeiros, além dos diferentes níveis de sensibilidade à contaminação dessas áreas por óleo. Assim, a equipe estimou a probabilidade de exposição ao contaminante em todas as bacias que compõem a região: Foz do Amazonas, Pará-Maranhão, Barreirinhas, Ceará e Potiguar.

Para uma avaliação abrangente, o estudo considerou os 15 blocos já em produção na bacia Potiguar, além de 34 blocos com possibilidade de exploração e 75 blocos de possível oferta, sujeitos a mudanças que dependem de fatores como o interesse das empresas e os processos de licitação e de licenciamento ambiental.

Com autoria de pesquisadores do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), da Universidade do Porto em Portugal, e da Universidade Federal da Bahia (UFBA), o trabalho também indica ações prioritárias de acordo com o nível de risco ecológico de cada área. As áreas mais expostas estão concentradas na Bacia Potiguar, entre o litoral do Ceará e do Rio Grande do Norte. Conforme o trabalho, elas devem ser priorizadas para o monitoramento ecológico, a elaboração de planos de contingência e o fortalecimento da capacitação estatal de resposta rápida a acidentes.

De forma complementar, o estudo identifica regiões com maior integridade ecológica e menor exposição ao petróleo, que se mostram adequadas para o estabelecimento de novas áreas marinhas protegidas, com o objetivo de mitigar possíveis impactos da atividade. Além disso, essa estratégia de conservação desempenha um papel importante no fortalecimento da governança ao ampliar o processo de participação social nos processos de tomada de decisão. Áreas com essas características se situam principalmente na Bacia da Foz do Amazonas, entre o Pará e o Amapá. Trata-se de uma região única, do ponto de vista oceanográfico, e ainda pouco estudada, conforme explica Rafael Magris, autor principal do artigo. “As áreas em frente à foz, onde estão os recifes mais profundos, funcionam como corredores de habitats para espécies que possam coexistir no Caribe e na Província Brasileira”, detalha. 

O artigo destaca que o derramamento de óleo na costa do Nordeste, entre os anos de 2019 e 2020, mostrou a vulnerabilidade dos ecossistemas costeiros, trazendo também graves consequências às comunidades locais. Embora tenham origens distintas – já que o evento que atingiu o Nordeste esteve provavelmente associado ao transporte de óleo e não ao processo de exploração e produção – a comparação traz lições importantes. A principal delas é que todo cuidado é pouco, de acordo com Rafael Magris.

“As consequências de episódios de derramamento são frequentemente difíceis de serem mensuradas, tanto pelo conhecimento ainda limitado sobre muitos ecossistemas quanto pela vulnerabilidade socioambiental das regiões costeiras, onde diversas comunidades dependem da pesca artesanal e do turismo”, aponta o autor. “Mesmo quando os derrames ocorrem em áreas de alto mar, seus impactos podem atingir ecossistemas costeiros e comunidades tradicionais que dependem diretamente desses recursos”, finaliza Magris.


Fonte: Agência Bori

‘Nossos medos estão se tornando realidade’: Povos indígenas enfrentam a realidade da perfuração de petróleo na foz do Amazonas

Amazon Indigenous communities face harsh reality of oil… | TBIJ

Por Flávia Milhorance e  Grace Murray para “TBIJ” 

Em janeiro deste ano, 18 mil litros de fluido de perfuração de um poço de petróleo em alto-mar vazaram para o Oceano Atlântico, na costa norte do Brasil. O incidente paralisou as operações e prejudicou a vida marinha.

Era exatamente o que os povos indígenas que viviam ali temiam. “Todos os nossos medos como comunidade indígena, tudo o que nos preocupava, está se tornando realidade”, disse Luene Karipuna, uma jovem líder do povo Karipuna.

As comunidades indígenas de Oiapoque, no norte da Amazônia brasileira, já haviam manifestado há tempos suas preocupações com o projeto. Em reuniões públicas e em comunicações com políticos locais, alertaram que as fortes marés poderiam causar o transbordamento de efluentes em suas terras e que os helicópteros sobrevoariam a área, perturbando a natureza e seu modo de vida.

No entanto, ao longo do processo que durou anos para obter uma licença para perfuração exploratória, a Petrobras, empresa petrolífera estatal, argumentou que a atividade não teria impacto direto sobre os povos indígenas.

Essas comunidades têm solicitado repetidamente uma consulta adequada sobre a exploração de petróleo na Amazônia, em consonância com os acordos internacionais que o Brasil apoia. De maneira mais ampla, o país, sob o governo do presidente Lula, comprometeu-se com a participação significativa dos povos indígenas nas negociações climáticas e nas políticas públicas.

No entanto, a realidade, nas palavras de Luene, apresenta “uma flagrante contradição”. Analisamos centenas de documentos, atas de reuniões e trocas de mensagens entre o órgão ambiental brasileiro e empresas petrolíferas, incluindo a Petrobras. Descobrimos que repetidos alertas sobre os efeitos da prospecção sobre os povos indígenas foram ignorados e que essas comunidades não foram devidamente consultadas.

Anos de avisos

Durante décadas, as grandes empresas petrolíferas têm cobiçado esta parte da Bacia Amazônica. Ela abriga milhares de espécies da vida selvagem, muitas das quais seriam vulneráveis ​​a um derramamento de petróleo – incluindo a tartaruga-de-couro, a baleia-azul e o peixe-boi-das-antilhas.

A BP solicitou pela primeira vez autorização para licenciar uma parte do leito marinho offshore (conhecida como Bloco 59) em 2014, após vencer leilões em consórcio com a Petrobras no ano anterior. Apesar da presença de territórios indígenas próximos à costa e de outros conectados ao mar por vias navegáveis, o pedido inicial da BP não mencionava os povos indígenas.

A empresa então submeteu estudos ambientais ao Ibama, o órgão regulador ambiental brasileiro. O Ibama identificou diversos problemas, incluindo a falta de dados ambientais de referência, programas de monitoramento e planos de manejo para as aves e mamíferos da área.

Desde então, ocorreram algumas reuniões públicas, mas os representantes indígenas constituíram apenas uma pequena porcentagem dos participantes. Em 2016, a BP se reuniu com líderes indígenas em Oiapoque. A empresa observou as preocupações das comunidades sobre derramamentos de petróleo e combustível, a necessidade de consultas que respeitassem os protocolos indígenas e o potencial aumento de voos que perturbariam a vida selvagem. A BP não comentou para esta reportagem, informando que não possui participação no Bloco 59 desde 2020.

Costa Oiapoque no estado do Amapá, BrasilNelson Almeida / AFP

A tartaruga-de-couro é uma das muitas espécies ameaçadas por derramamentos de petróleo nas proximidades.Philippe Giraud / Corbis via Getty

Quando a Petrobras assumiu o controle total do Bloco 59, a empresa ainda precisava de uma licença ambiental do Ibama para perfuração exploratória – e, para isso, agendou novas audiências públicas. Mas o trabalho na plataforma continuou.

Em uma reunião com a Petrobras no início de 2023, líderes indígenas expressaram novamente preocupação com os helicópteros que sobrevoavam seus territórios. Na ocasião, a Petrobras alegou que havia uma média de apenas dois voos diários sobre suas terras.

Mas o número real foi quase quatro vezes maior. Novos dados de voo que obtivemos mostram que o número de helicópteros da Petrobras sobrevoando os territórios até as plataformas marítimas aumentou de 130 em 2022 para quase 3.000 em 2023. No ano passado, esse número subiu novamente, para mais de 4.000. A Petrobras não respondeu às nossas perguntas para esta reportagem.

Segundo o chefe Edmilson, coordenador do Conselho de Chefes Indígenas da região de Oiapoque, o barulho dos helicópteros espantou os animais. Ele afirmou que os moradores relataram o desaparecimento repentino de um grande número de pássaros. Os peixes nos rios também se tornaram mais escassos, afetando o abastecimento de alimentos. “Este projeto nos tirou a paz”, disse ele.

Perfuração exploratória em um poço que faz parte do projeto Bloco 59.Petrobras

Consulta inadequada

Enquanto a Petrobras prosseguia com o processo de obtenção da licença de perfuração, a atenção dos moradores se voltou para a Convenção 169 da OIT, um tratado internacional vinculativo assinado pelo Brasil. Em audiências públicas realizadas em 2022 e 2023, eles exigiram saber se os povos indígenas seriam consultados, em conformidade com as obrigações da convenção. A convenção exige consultas livres, prévias e informadas aos povos indígenas, com o objetivo de obter seu consentimento para projetos que os afetem.

Luene é uma das muitas líderes indígenas em Oiapoque. Ela trabalhou com outros povos dos povos Karipuna, Palikur, Galibi-Marworno e Galibi Kali’na para criar um protocolo de consulta. Este protocolo dá menos ênfase a reuniões com um ou dois líderes e, em vez disso, incentiva processos coletivos e culturalmente apropriados, nos quais informações claras e oportunas são compartilhadas. O processo também deve proporcionar tempo e espaço suficientes para deliberação dentro dos territórios.

Luene afirmou que isso não aconteceu. Ela disse que existe confusão entre audiências públicas, às quais qualquer pessoa pode comparecer, e reuniões específicas para, digamos, universidades ou povos indígenas. O formato público, disse Luene, “não funciona para os povos indígenas”.

No ano passado, Luene foi uma das 100 pessoas indígenas que entrevistamos antes das negociações climáticas globais no Brasil. Ela nos contou como a exploração de petróleo está transformando sua comunidade de maneira drástica e que os custos de contestá-la são altos. “Quando começamos a nos posicionar e exigir consulta”, disse ela, “começamos a receber inúmeras ameaças”.

Nos três anos desde que começou a se manifestar, Luene disse que houve várias tentativas de silenciá-la, incluindo um arrombamento em sua casa e ameaças online. Agora, ela muda de endereço regularmente na tentativa de proteger a si mesma e à sua família.

Licença para perfuração

Em 2023, o Ibama negou à Petrobras uma licença de perfuração. Um documento oficial citou a alta sensibilidade ambiental do litoral amazônico, o risco de derramamentos de petróleo e as limitações no plano de resposta a emergências da empresa. O documento também observou que o estudo ambiental da Petrobras não havia avaliado adequadamente os impactos dos voos. (A empresa contestou a decisão, alegando ter resolvido a questão com um líder indígena. No entanto, descobriu-se que o representante era do governo local e não representava a comunidade.)

O advogado ambientalista Rodrigo Leitão disse que, quando começou a trabalhar com organizações indígenas em Oiapoque, em 2024, elas tinham recebido pouca ou nenhuma informação concreta sobre os planos de exploração de petróleo da Petrobras. “Ninguém tinha falado com eles ainda”, lembra.

Segundo Leitão, as reuniões realizadas nos anos anteriores não abordaram a questão central da consulta nem os potenciais impactos da exploração. Em vez disso, afirmou, as discussões se concentraram em projetos que a Petrobras alegava beneficiar a comunidade. Tanto o Estado quanto a Petrobras deixaram de cumprir uma obrigação fundamental para com os povos indígenas, disse ele: “Eles não reconhecem o direito à consulta livre, prévia e informada, de boa-fé”.

Uma decisão recente do Tribunal Federal do Amapá determinou que não havia obrigação legal de realizar consulta na fase de prospecção do licenciamento, uma vez que não havia impacto direto e imediato sobre comunidades indígenas ou tradicionais. A decisão, em resposta a uma ação civil movida contra o Ibama e a Petrobras pelo Ministério Público Federal, também afirmou que, embora não tenha havido consulta formal aos povos indígenas, o processo de licenciamento ambiental ofereceu diversas oportunidades de participação.

A Petrobras, empresa petrolífera estatal brasileira, afirmou que seu projeto em alto-mar não afetaria comunidades indígenas.Vanderlei Almeida/AFP via Getty Images

No início do ano passado, o Ibama continuava negando a licença à Petrobras. A questão do aumento dos voos sobre os territórios permanecia sem solução. Os planos de proteção da fauna, embora aprimorados pela Petrobras, continuavam em discussão. Contudo, em maio passado, algo mudou: o órgão regulador ordenou que o processo prosseguisse.

Seis meses depois, em 20 de outubro, o Ibama emitiu uma licença de operação para perfuração exploratória. A Petrobras iniciou a perfuração no mesmo dia.

Ibama informou que a avaliação de impacto ambiental da atividade de perfuração offshore no Bloco 59 foi aprovada dentro dos parâmetros técnicos e legais estabelecidos.

Ibama acrescentou que a licença só foi concedida após a apresentação de um plano de emergência atualizado com um “aumento nos cuidados com a vida selvagem”, e uma avaliação realizada em agosto de 2025 mostrou que isso era viável.

Suely Araújo, ex-presidente do Ibama, nos disse que esse processo expôs mais uma vez deficiências críticas nos procedimentos de consulta aos povos indígenas e comunidades tradicionais.

Embora a Petrobras tenha cumprido uma série de exigências do Ibama – incluindo a apresentação de estudos e a participação em audiências públicas –, essas formalidades não contemplaram as implicações mais amplas do projeto, afirmou Araújo. Ela agora trabalha para o Observatório do Clima, uma rede de ONGs que está movendo uma ação judicial buscando a paralisação imediata de todas as perfurações. Essa é uma das três ações que contestam o licenciamento da exploração de petróleo na região e alegam consultas inadequadas. O Ibama informou que está ciente das ações e que respondeu prontamente a cada uma delas.

O tratado internacional que o Brasil assinou “tem força de lei”, disse Araújo. “Não é uma questão de escolha.”

E agora?

Duas das três ações judiciais que visam impedir a perfuração estão em andamento e iremos monitorá-las. A ação movida pelo Ministério Público Federal, que foi rejeitada, poderá ser objeto de recurso.

O relator especial da ONU para os Povos Indígenas está elaborando um relatório sobre a consulta e o consentimento livre, prévio e informado dos povos indígenas em projetos como a exploração de petróleo, que afetam suas terras. Ele apresentará o relatório na Assembleia Geral da ONU em setembro. Já contribuímos com evidências como parte desse processo.

Imagem de cabeçalho: Luene Karipuna, líder do povo Karipuna

Repórteres: Flávia Milhorance e Grace Murray.
Editor de Meio Ambiente: Rob Soutar.
Editora Adjunta: Chrissie Giles.
Editor: Franz Wild.
Editor de Produção: Alex Hess.
Verificador de Fatos: Ero Partsakoulaki.

O Bureau conta com diversos financiadores, cuja lista completa pode ser encontrada aqui. Nenhum dos nossos financiadores exerce qualquer influência sobre as decisões editoriais ou o conteúdo produzido.


Fonte:  TBIJ

Greenpeace pede paralisação de perfurações após vazamento na Foz do Amazonas

A Petrobras descobriu um vazamento na bacia amazônica e interrompeu as perfurações. O Greenpeace e as comunidades locais alertaram para a poluição e exigem a paralisação imediata das atividades

Os recifes de coral mesofóticos estão localizados em zonas mais profundas do oceano e requerem menos luz. Um desses recifes está ameaçado pela extração de petróleo da Petrobras. Fonte:Greenpeace / Alexis Rosenfeld / Olivier Bianchimani

Por Ulrike Bickel para Amerika21

No início de 2026, aproximadamente 15 mil litros de fluido de perfuração vazaram de um poço pertencente à Petrobras, empresa petrolífera brasileira, próximo à bacia Amazônica . Segundo a empresa, o vazamento foi descoberto em 4 de janeiro de 2026, a cerca de 175 Km da costa do Amapá, a uma profundidade de aproximadamente 2.700 metros.

A área costeira afetada é conhecida por seu ecossistema quase intocado, ainda considerado em grande parte inexplorado e que abriga o Grande Recife da Amazônia. Este vasto sistema recifal, descoberto apenas em 2016 na costa atlântica do norte do Brasil, abriga recifes de coral mesofóticos, caracterizados pela presença de corais e algas dependentes da luz, bem como organismos encontrados em águas com baixa transmissão luminosa.

A Petrobras anunciou a suspensão das operações de perfuração para reparos após a detecção de um vazamento de fluido em duas linhas auxiliares que conectam uma plataforma de perfuração ao poço Morpho. Segundo a estatal, o vazamento foi imediatamente estancado e contido. A Petrobras informou que o fluido era uma mistura de sólidos, líquidos e produtos químicos “não perigosos”.

O IBAMA afirmou ter sido informado do incidente e que não houve vazamento de petróleo. Mesmo assim, o IBAMA, que concedeu a licença somente em outubro de 2025 após anos de disputas, intensificou o monitoramento. As consequências para a Petrobras incluem o atraso na campanha de perfuração de cinco meses, revisões regulatórias adicionais e o adiamento do desenvolvimento da área da Margem Equatorial, de importância estratégica, visto que o projeto na Amazônia é considerado pelo governo brasileiro um componente fundamental para a era pós-esgotamento de outras reservas de petróleo que em breve se esgotarão.

Segundo o Greenpeace, o último vazamento está diretamente ligado aos riscos ambientais que já haviam sido apontados durante o processo de licenciamento. O acidente não é um incidente isolado, mas um sinal de alerta, já advertido em 2025 por uma delegação do Greenpeace Brasil, ONGs locais, quilombolas, movimentos indígenas e comunidades pesqueiras em uma ação judicial movida na Justiça Federal contra o IBAMA, a Petrobras e o Estado brasileiro . A organização ambiental exige agora a paralisação imediata das atividades e a cassação da licença de operação da Petrobras para a exploração desse campo de petróleo.

Em meados de junho de 2025, o governo brasileiro leiloou um total de 34 dos 172 blocos de produção de petróleo e gás em um processo de licitação controverso , incluindo blocos no estuário da Foz do Amazonas. Essa área é classificada como ecologicamente muito vulnerável por autoridades ambientais, promotores públicos e organizações indígenas (a Amerika21 noticiou o fato antes e depois do leilão ).

No ano passado, o Greenpeace Brasil, juntamente com as organizações parceiras Arayara, WWF, ClimaInfo e Instituto Iepé, realizou oficinas sobre os possíveis impactos da produção de petróleo em Foz do Amazonas nas comunidades ribeirinhas e quilombolas de Amapá, Oiapoque, Cunani e Calçoene, cujo modo de vida e existência estão ameaçados.

Um vazamento de petróleo perto da bacia amazônica poderia ter efeitos devastadores no ecossistema da região e nas comunidades locais cuja subsistência depende de um oceano saudável. Informações sobre o vazamento foram incluídas em um processo judicial no qual os demandantes enfatizaram “a urgência de uma ação judicial federal imediata para suspender a licença de operação”.

Vazamentos durante a extração em águas profundas ocorrem repetidamente no Brasil. Segundo um advogado do Greenpeace Brasil, entre 1975 e 2014, um total de 95,2% dos acidentes registrados foram atribuídos a essas atividades. As consequências e os riscos são óbvios e, portanto, segundo os autores da ação, uma ordem judicial para suspender essas atividades é necessária com base nos princípios da prevenção e da precaução.

Segundo os demandantes, a extração de petróleo na Amazônia representa um risco “real, previsível e evitável”. No entanto, a perfuração continua apesar da falta de avaliações de impacto ambiental adequadas, da ausência de consulta às comunidades afetadas e da inexistência de qualquer avaliação de impacto climático. Já passou da hora de eliminar gradualmente os combustíveis fósseis e promover uma transição justa que priorize as pessoas, sua dignidade e um futuro livre de combustíveis fósseis.


Fonte: Amerika21

Vazamento na Foz do Amazonas não é um acidente — é um teste ético para o Brasil

O incidente na perfuração da Petrobras escancara uma pergunta incômoda: estamos preparados para explorar petróleo no último grande território vivo do planeta?

O vazamento registrado durante a perfuração da Petrobras na Foz do Amazonas não é apenas um episódio técnico. É um teste de coerência – Imagem gerada por IA – Foto: Ilustrativa/Divulgação 

Por Oscar Lopes para o “Neomundo”

Não foi uma explosão.
Não houve óleo negro na superfície.
Não apareceu nenhuma imagem dramática de aves cobertas por piche.

E, ainda assim, o vazamento registrado durante a perfuração do poço FZA-M-59, na Foz do Amazonas, talvez seja um dos episódios ambientais mais simbólicos — e reveladores — dos últimos anos no Brasil.

Segundo documento interno da própria Petrobras, ao qual a imprensa internacional teve acesso, cerca de 15 mil metros cúbicos de fluido de perfuração vazaram para o mar a quase 2.700 metros de profundidade, em uma das regiões mais sensíveis e menos conhecidas do planeta. O incidente foi classificado como potencialmente capaz de causar danos ao meio ambiente ou à saúde humana. As atividades, por ora, estão suspensas.

A empresa afirma que o fluido é biodegradável, atende aos limites de toxicidade e que tudo está sob controle.

Mas talvez essa não seja a pergunta certa.

O vazamento não é o ponto final. É o ponto de partida

O debate público rapidamente se dividiu entre dois polos previsíveis:
de um lado, quem grita “tragédia ambiental”;
do outro, quem responde “foi contido, não há risco”.

Só que o episódio revela algo mais profundo — e mais desconfortável.

A Foz do Amazonas virou um laboratório de risco institucional

Ali, não se testa apenas tecnologia de perfuração em águas ultraprofundas. Testa-se a capacidade do Brasil de:

  • avaliar riscos reais em ecossistemas pouco mapeados;
  • ouvir comunidades tradicionais antes, e não depois;
  • alinhar discurso climático com decisões econômicas;
  • sustentar a própria credibilidade ambiental no cenário global.

Quando um vazamento acontece antes mesmo de qualquer descoberta comercial, o sinal de alerta não é técnico. É estratégico.

Um território invisível… até dar problema

A Bacia da Foz do Amazonas — também chamada de Margem Equatorial — abriga um sistema oceânico singular, com recifes profundos, alta biodiversidade e conexões diretas com o maior rio do planeta. É uma região onde ciência ainda está correndo atrás do básico: mapear, entender, descrever.

E é justamente aí que mora o paradoxo.

Como perfurar com segurança um território que ainda não conhecemos direito?

Organizações da sociedade civil questionam o licenciamento concedido pelo Ibama, apontando falhas graves:

  • ausência de consulta adequada a povos indígenas, quilombolas e pescadores;
  • uso de modelos de dispersão de impactos baseados em dados de 2013, quando já existem informações de 2024;
  • subestimação de cenários extremos em uma região de correntes marítimas complexas.

Nada disso é detalhe técnico. É governança ambiental.

O passado insiste em voltar

Este não é um capítulo isolado. Desde 1946, a Foz do Amazonas desperta interesse da indústria do petróleo. Entre 2001 e 2011, ao menos 11 poços foram perfurados. Em 2011, uma sonda da própria Petrobras chegou a ser arrastada por correntes marítimas intensas — um alerta ignorado por anos.

Depois de uma negativa em 2023, a autorização para o novo poço só veio em outubro de 2025, após recurso da estatal. Pouco depois, a empresa pediu licença para perfurar outros três poços contingentes: Manga, Maracujá e Marolo.

Em paralelo, no leilão da Agência Nacional do Petróleo, em junho de 2025, a Petrobras arrematou 10 dos 19 blocos disponíveis na região. Outras gigantes globais seguiram o mesmo caminho.

O recado é claro: a corrida pelo petróleo na Amazônia Azul começou.

O verdadeiro vazamento é de coerência

O Brasil já sediou a COP30, ocupou o centro do debate climático global e reforçou, nos discursos oficiais, seu compromisso com a biodiversidade, a transição energética e a liderança ambiental. Ao mesmo tempo, aposta alto na expansão da fronteira petrolífera mais sensível do país.

Esse vazamento não derramou apenas fluido de perfuração.
Ele derramou uma contradição.

Se tudo der certo, dirão que foi um incidente menor.
Se algo der errado, o custo será incalculável — ambiental, social e reputacional.

A pergunta que fica não é se o fluido era biodegradável.
É se a decisão política que levou até ali também é.

A Foz do Amazonas como espelho do Brasil

No fim das contas, a Foz do Amazonas não é só um território em disputa.
Ela virou um espelho.

Reflete quem somos quando crescimento econômico e proteção ambiental entram em conflito.
Reflete até onde vai, de fato, nosso compromisso com um futuro de baixo carbono.
E reflete se aprendemos algo com décadas de acidentes que sempre começam assim: pequenos, controlados, “dentro do previsto”.

Talvez o maior risco não esteja no fundo do mar.
Mas na superfície das decisões.

E esse, definitivamente, ainda não foi contido.


Fonte: Neomundo

Entre o sutil e o explícito, o Brasil caminha para o precipício climático

“De certa forma, o que estamos vendo é um casamento arrumado entre o negacionismo sutil do governo Lula com o explícito que é promovido pela bancada que representa os interesses do latifúndio agroexportador e das mineradoras.”

Foto: Reprodução 

Marcos Pedlowski para “Nova Democracia”

Como previ em um artigo publicado em março pelo Nova Democracia, a COP30 se configurou com um imenso fracasso no tocante à adoção das medidas necessárias para impedirmos o precipício climático que está sendo gerado pela contínua dependência de combustíveis fósseis para movimentar o sistema produtivo capitalista.  Se olharmos para as principais decisões adotadas na COP30, é possível notar que ali se consumou a adoção de formas de mercado para tentar debelar os efeitos negativos gerados pelo sistema produtivo capitalista.  Mas o parcos resultados não podem ser vistos como surpresa, na medida em que as corporações multinacionais do petróleo e do complexo alimentar possuíam mais lobistas do que delegações de muitos países somados. 

Por outro lado, as idas e vindas do presidente Lula a Belém serviram apenas para explicitar as limitações das propostas de uma forma particular de negacionismo climático, o sutil.  As principais propostas do governo brasileiro, se é que se pode chamar aquilo de proposta, encontraram forte resistência política e financeira.  O autodenominado Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), que na prática é uma espécie de consórcio das florestas, acabou reunindo menos promessas de alocação de recursos do que esperado e não se antevê que poderá conter as pressões no sentido de avançar a exploração das áreas que ainda estão cobertas por florestas, especialmente na região tropical.  Além disso, o tal mapa do caminho para alcançar a diminuição do uso dos combustíveis fósseis sequer foi incluído na declaração final da COP30. Aliás, esse resultado foi até facilitado pela guinada feita pelo presidente Lula em prol da exploração de petróleo e gás na Foz do Amazonas.  Ao fazer isso, o Brasil se colocou em uma posição fragilíssima para argumentar em prol da diminuição progressiva do uso de combustíveis fósseis na matriz energética global. 

Coerente e antenada com o fracasso da COP30, a maioria dos deputados e senadores que compõe a atual legislatura entraram em campo para derrubar 52 dos 63 vetos impostos pelo presidente Lula ao chamado PL da Devastação.  Essa derrubada era também esperada, na medida em que a mesma coisa já havia ocorrido durante a tramitação do PL do Veneno. Naquele caso, Lula vetou uma parcela menor dos artigos que foram posteriormente facilmente derrubados por este mesmo congresso. Mas se engana quem acha que houve uma resistência real por parte da bancada governista para manter os vetos de Lula no PL da Devastação.  O que houve, quando muito, foi um simulacro de resistência já que o governo Lula negociou diretamente com Hugo Motta e Davi Alcolumbre a aprovação do PL da Devastação, já que existe um claro interesse governista em passar a boiada na BR-319 e na Foz do Amazonas.

De certa forma, o que estamos vendo é um casamento arrumado entre o negacionismo sutil do governo Lula com o explícito que é promovido pela bancada que representa os interesses do latifúndio agroexportador e das mineradoras.  A diferença entre um e outro é apenas performática, na medida em que o resultado final será um avanço no processo de extração de recursos para alimentar uma economia cada vez mais agromineral dependente. 

O problema é que todo esse cenário se dá em meio ao aumento das evidências de que o Brasil é uma espécie de lócus privilegiado do colapso climático. Se olharmos apenas para as últimas semanas veremos vários episódios de eventos meteorológicos extremos varrendo cidades, sejam na forma de ventos catastróficos, chuvas de granizo com pedras gigantes, ou ainda na seca aguda que compromete o abastecimento hídrico da maior área metropolitana do hemisfério sul.

Aliás, há que se dizer que um dos locais aplastados recentemente por um evento meteorológico extremo, Rio Bonito do Iguaçu foi o município brasileiro que mais desmatou a Mata Atlântica entre 1985 e 2015, com 24,9 mil hectares de florestas destruídas, o que representa aproximadamente 60% da mata original daquela região. Este desmatamento excessivo foi impulsionado pelo latifúndio agroexportador, e o expôs a eventos climáticos extremos, como o recente tornado que devastou grande parte do município. Desta forma, é possível afirmar que o caos instaurado por um tornado em Rio Bonito do Iguaçu é uma espécie de antessala do que deveremos ter pela frente como resultado da combinação das diferentes formas de negacionismo climático.

Diante de um cenário de precipício climático explícito algo óbvio a se dizer é que precisamos reagir de maneira urgente e firme. Os problemas que estão já presentes por causa das formas capitalistas de espoliação da natureza vão ser aprofundados por essa combinação dos negacionismos aqui apontados. É urgente construir a resistência climática sob um novo marco, de forma a incluir a classe trabalhadora e a juventude na construção de ferramentas de transformação de uma realidade que nos encaminha para o colapso climático.


Fonte: Nova Democracia

Lula apresenta nova visão para a proteção da floresta amazônica, defende exploração de petróleo, e nega querer ser líder ambiental

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, fala durante uma entrevista com a imprensa estrangeira antes da COP30, a Cúpula do Clima da ONU, em Belém, estado do Pará, na terça-feira, 4 de novembro de 2025. (Foto AP/Eraldo Peres)

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, fala durante uma entrevista com a imprensa estrangeira antes da COP30, a Cúpula do Clima da ONU, em Belém, estado do Pará, na terça-feira, 4 de novembro de 2025. (Foto AP/Eraldo Peres) 

Por Maurício Savarese para a Associated Press 

BELÉM, Brasil (AP) — O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva apresentou na terça-feira sua visão de como a floresta amazônica deve ser protegida, um futuro que não depende de doações de nações ricas e grandes organizações filantrópicas, mas inclui um grande fundo que paga aos países para manterem as florestas em pé.

“Não quero mais usar a palavra doação”, disse Lula a jornalistas antes da cúpula climática das Nações Unidas , conhecida como COP30, que começa esta semana em Belém , cidade brasileira na orla da Amazônia.

“Se alguém nos desse 50 milhões de dólares, seria ótimo, mas não é nada”, disse ele. “Precisamos de bilhões para lidar com nossos problemas, os problemas das pessoas que vivem lá.”

Em Belém, Lula deverá lançar uma iniciativa chamada Fundo Florestas Tropicais para Sempre, com o objetivo de apoiar mais de 70 países em desenvolvimento comprometidos com a preservação. Até o momento, Colômbia, Gana, República Democrática do Congo, Indonésia e Malásia aderiram.Vista aérea de barcos de pesca da comunidade Caju Una pescando no riacho Porto, Ilha de Marajó, estado do Pará, Brasil, sábado, 1º de novembro de 2025. (Foto AP/Eraldo Peres)

Vista aérea de barcos de pesca da comunidade Caju Una pescando no riacho Porto, Ilha de Marajó, estado do Pará, Brasil, sábado, 1º de novembro de 2025. (Foto AP/Eraldo Peres)

Alemanha, Emirados Árabes Unidos, França, Noruega e Reino Unido estão ajudando a moldar o mecanismo e provavelmente serão seus primeiros investidores, o que Lula espera que ajude a impulsionar o interesse do setor privado. O presidente do Brasil não forneceu mais detalhes sobre como o plano será implementado.

site oficial da COP30 descreve a iniciativa como um “fundo fiduciário permanente” que geraria cerca de US$ 4 do setor privado para cada US$ 1 investido. Não ficou imediatamente claro como isso aconteceria. No entanto, as florestas podem gerar renda de diversas maneiras além da extração de recursos, como o turismo e a compensação de carbono, que pode envolver empresas pagando para neutralizar sua poluição plantando árvores e protegendo florestas. 

Se a iniciativa funcionar, recursos serão enviados para países que preservam suas florestas tropicais.

“O Brasil já investiu US$ 1 bilhão, e isso trará retorno para os investidores”, acrescentou Lula. “É um fundo em que todos saem ganhando. Esperamos que, ao final da apresentação do TFFF, muitos outros países se juntem a nós.”


O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva colhe açaí durante um encontro com descendentes de escravos em um assentamento em Itacoa Miri, ilha de Combu, Belém, estado do Pará, Brasil, na segunda-feira, 3 de novembro de 2025, antes da COP30, a Cúpula do Clima da ONU. (Foto AP/Eraldo Peres)
 

O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva colhe açaí durante um encontro com descendentes de escravos em um assentamento em Itacoa Miri, ilha de Combu, Belém, estado do Pará, Brasil, na segunda-feira, 3 de novembro de 2025, antes da COP30, a Cúpula do Clima da ONU. (Foto AP/Eraldo Peres)

Lula também defendeu a recente decisão de seu governo de aprovar a perfuração exploratória pela gigante petrolífera estatal Petrobras perto da foz do rio Amazonas.

Acredita-se que a jazida da Margem Equatorial, localizada ao largo da costa do Brasil, que se estende da fronteira brasileira com o Suriname até uma parte da região Nordeste do país, seja rica em petróleo e gás.

O bloco de perfuração exploratória fica a 175 quilômetros (108 milhas) da costa do estado do Amapá, no norte do Brasil, que faz fronteira com o Suriname. A área, rica em biodiversidade, abriga manguezais pouco estudados e um recife de coral. Ativistas e especialistas afirmam que o projeto apresenta riscos de vazamentos que podem ser amplamente disseminados pelas marés e colocar em perigo o sensível ecossistema. A Petrobras alega há tempos que nunca causou vazamentos em suas perfurações.

“Se eu fosse um líder falso e mentiroso, esperaria a COP terminar (para dar a aprovação)”, disse Lula. “Mas se eu fizesse isso, seria um homem pequeno diante da importância disso.”

Um barco navega pela Baía de Guajara e pela cidade histórica de Belém, no estado do Pará, Brasil, na sexta-feira, 31 de outubro de 2025. (Foto AP/Eraldo Peres)
Um barco navega pela Baía de Guajara e pela cidade histórica de Belém, no estado do Pará, Brasil, na sexta-feira, 31 de outubro de 2025. (Foto AP/Eraldo Peres)
 

Lula, presidente do Brasil por dois mandatos no início dos anos 2000, antes de retornar para um terceiro mandato em 2023, sempre se apresentou como um defensor do meio ambiente e um político pragmático. O Brasil é um grande exportador de petróleo, e as receitas da Petrobras ajudam a financiar a agenda de qualquer governo. Ao mesmo tempo, o governo Lula tem trabalhado para conter o desmatamento e assumir um papel de liderança nas negociações climáticas, sediando a cúpula.

“Não quero ser um líder ambiental. Nunca afirmei ser”, acrescentou Lula. “Quero fazer o que é certo, o que os especialistas, a minha administração e a minha consciência dizem que temos de fazer. Seria incoerente, uma ação irresponsável, se eu dissesse que deixaremos de usar petróleo.”


Fonte: Associated Press

Para além das ilusões da COP30, a necessidade de organizar a luta climática em novos marcos

Por Marcos Pedlowski para o “Jornal Nova Democracia” 

Em março deste ano, escrevi uma espécie de artigo premonitório sobre o fracasso que seria realização da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025 (a chamada COP30) na cidade de Belém entre os dias 10 e 21 de novembro de 2025. Naquele texto alinhavei uma série de fatores que me permitiam traçar um cenário pouquíssimo otimista para este que é uma espécie de megaevento climático.

O problema é que passados sete meses, as minhas conjecturas estão sendo ultrapassadas pela realidade objetiva dos fatos. Um exemplo foi a concessão da licença ambiental para exploração de petróleo e gás na Foz do Rio Amazonas.  Vários comentaristas mais informados do que eu sobre as entranhas deste processo, já mostraram que um dos erros capitais ocorridos nas análises feitas pelos técnicos do Ibama foi utilizar dados fornecidos pela própria Petrobras para as estimativas de impactos relacionados às intercorrências que são muito comuns nas atividades petrolíferas.  Usar os dados da Petrobras equivale a dar a chave do galinheiro para a raposa tomar conta das galinhas. Mas a ministra Marina Silva preferiu se manifestar dizendo que a decisão da equipe técnica do Ibama havia sido “técnica”, o que nem uma criança recém-entrada no jardim de infância acredita. 

Mas os problemas da licença concedida não acabaram, apenas começaram. É que a direção da Petrobras agora postula a inclusão de mais três poços exploratórios na licença ambiental para perfuração na bacia da Foz do Amazonas.  A solicitação teria sido feita em 24 de outubro de 2025, e ocorreu após a empresa obter a aprovação para iniciar a perfuração do primeiro poço na região. Aqui já seria o caso do “passa um boi, passa uma boiada”, e se concretizado representará um avanço acelerado para o início das atividades de extração, ignorando todos os riscos que isto representa.

Uma coisa que nunca é mencionada publicamente, seja pela Petrobras ou por qualquer ministro do governo Lula, se refere ao montante de emissões de CO2 possíveis, caso as melhores expectativas das reservas na Foz do Amazonas sejam confirmadas e que todo este montante seja efetivamente explorado.  Se usarmos a estimativa de ~30 bilhões de barris associada à Margem Equatorial e o fator padrão de combustão de ~0,4319 tCO₂ por barril, a queima desse petróleo corresponderia a ≈ 13,0 gigatoneladas de CO₂ (≈12,96 GtCO).  Há que se lembrar que ~13 GtCO₂ é um valor enorme: já que representa aproximadamente um terço das emissões anuais globais atuais (ordem de grandeza ~37–38 GtCO₂/ano em 2024).

O presidente Lula em sua face para exportação, aquela em que ele se mostra um paladino da adaptação para as mudanças climáticas em curso, desconversa e continua tentando vender uma variante diversionista que é a conservação das florestas brasileiras como receita para o combate à aceleração do aquecimento da Terra. Eu digo que mesmo o suposto compromisso com a conservação das florestas é diversionista por um motivo simples. O compromisso objetivo do governo Lula é com um modelo que eu chamo de economia agromineral. Por um lado, se incentiva a exploração de petróleo e gás, enquanto se financia de maneira nada frugal a produção de commodities agrícolas, inclusive às custas do que ainda resta de florestas na Amazônia e no bioma do Cerrado. Basta ver os valores alocados para o Plano Safra de 2025/2026 que entregou R$ 516,2 bilhões para a agricultura empresarial , enquanto reservou apenas 78,2 bilhões são para a agricultura familiar.  Em outras palavras, enquanto muitos se chocaram com o mote de campanha do presidente Donald Trump, o “Drill, Baby Drill” (Perfura, bebê Perfura!), pouco se fala que para Lula o mote correto “Perfura e desmata, bebê Perfura e desmata! 

Por outro lado, vários estudos científicos já estão mostrando que, por causa do aquecimento acelerado da atmosfera, as florestas tropicais estão passando da condição de sumidouros para emissoras de carbono. Com isso, a soma total das emissões anuais de CO tenderia a aumentar ainda mais rapidamente.  Para piorar, há uma crescente concordância na comunidade científica de que as florestas estão se tornando mais combustíveis e que grandes incêndios florestais vão continuar ocorrendo e em número e intensidade cada vez maiores. 

Diante deste contexto fático, voltemos então às chances da COP30 não ser um fracasso completo. Eu diria que as chances são agora negativas.  Um elemento que garante isso é que cerca de um mês do início do evento,  apenas 87 delegações já confirmaram ter hospedagens garantidas em Belém. Além disso, há que se lembrar que até o momento apenas 162 países confirmaram presença na COP30, um número abaixo do que ocorreu na COP21 realizada em Paris quando 190 países estiveram presentes. Assim, o que temos diante de nós é um abandono tácito desta arena de debates em prol de um compromisso explicito com a aceleração do modelo de economia fóssil que está na raiz dos problemas que as COPs nunca sequer arranharam. 

Recentemente fui perguntado por uma ativista ambiental se valeria a pena ir para Belém para participar dos eventos paralelos que ocorrerão durante a COP30.  Eu respondi que dados os custos elevados de transporte e hospedagem e a futilidade que é dar uma roupagem cívica à COP30, o melhor seria apostar em eventos locais que ocorrerão em diversos estados brasileiros que formam uma espécie de anti-COPs. Um exemplo é o “Encontro Anticapitalista pelo Clima e pelo fim dos Genocídios” que deverá ocorrer na cidade do Rio de Janeiro entre 20 e 23 de novembro sob os auspícios de ativistas ambientais, cientistas e organizações de esquerda.  Considero que este tipo de evento deverá gerar mecanismos de organização muito mais sólidos e efetivos do que qualquer coisa que seja decidido em Belém. É que seguir apostando nas soluções propostas por quem está na raiz do problema já se mostrou um completo e rotundo fracasso.

A saída para o colapso climático que se avizinha terá de ser inevitavelmente pela esquerda. Afinal de contas, como disse e escreveu a física e filósofa alemã e membro do IPCC, Friederike Otto, a crise climática envolve questões de gênero, raça e classe. Assim, quanto antes a luta climática se der nesses termos, maiores serão as nossas chances de enfrentar o futuro que se avizinha.


Fonte: Nova Democracia

Governo sabota COP30 e licencia petróleo na Foz do Amazonas; ONGs vão à Justiça

Ibama autoriza perfuração do Bloco 59 a pouco mais de duas semanas do início da conferência do clima, comprometendo liderança de Lula e expondo presidência da COP

Navio-sonda que perfura o poço Pitu Oeste, na Bacia Potiguar, também na Margem Equatorial. (Agência Petrobras)
Por Observatório do Clima 

A pouco mais de duas semanas da COP30, o governo brasileiro aprovou nesta segunda-feira (20/10) a licença de perfuração de petróleo no bloco FZA-M-59, na bacia sedimentar da Foz do Amazonas. A aprovação é uma sabotagem à COP e vai na contramão do papel de líder climático reivindicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no cenário internacional. Também cria dificuldades para o presidente da COP, André Corrêa do Lago, que precisará explicar o ato aos parceiros internacionais do Brasil.

A decisão é desastrosa do ponto de vista ambiental, climático e da sociobiodiversidade e, para enfrentá-la, organizações da sociedade civil e movimentos sociais irão à Justiça denunciar as ilegalidades e falhas técnicas do processo de licenciamento, que poderiam tornar a licença nula.

Além de contrariar a ciência, que diz que nenhum novo projeto fóssil pode ser licenciado se quisermos ter uma chance de manter o aquecimento global em 1,5oC, a liberação do petróleo na Foz também se opõe a decisões legais de tribunais internacionais sobre a urgência da interrupção da expansão dos combustíveis fósseis, incluindo deliberações recentes da Corte Interamericana de Direitos Humanos e da Corte Internacional de Justiça, que reforçam a obrigação legal dos Estados-nação de protegerem o clima.

Povos indígenas da Bacia Amazônica, parlamentares e sociedade civil vêm reiterando a necessidade de acabar com a expansão de petróleo e gás, sobretudo em áreas de alta biodiversidade, e de criar zonas de exclusão para atividades extrativistas, a fim de proteger ecossistemas críticos para o planeta – começando pela Amazônia.

É preciso estabelecer zonas prioritárias de exclusão da proliferação dos combustíveis fósseis, protegendo ecossistemas críticos para a vida no planeta. Por sua imensa relevância para o clima e para a biodiversidade, que enfrentam crises globais, a Amazônia deve ser uma dessas zonas, tanto para a exploração onshore quanto para a offshore.

Especialistas da sociedade civil e representantes de povos indígenas amazônicos oferecem análises a seguir:

“A emissão da licença para o Bloco 59 é uma dupla sabotagem. Por um lado, o governo brasileiro atua contra a humanidade, ao estimular mais expansão fóssil contrariando a ciência e apostando em mais aquecimento global. Por outro, atrapalha a própria COP30, cuja entrega mais importante precisa ser a implementação da determinação de eliminar gradualmente os combustíveis fósseis. Lula acaba de enterrar sua pretensão de ser líder climático no fundo do oceano na Foz do Amazonas. O governo será devidamente processado por isso nos próximos dias.” Suely Araújo, coordenadora de Políticas Públicas do Observatório do Clima

“A decisão de licenciar é claramente política — não técnica. O valor de uma sonda jamais pode se sobrepor ao valor da vida das comunidades amazônidas, à biodiversidade ou ao equilíbrio climático do planeta. A Petrobras, responsável por 29% de todos os novos projetos fósseis da América Latina, é a principal protagonista da expansão fóssil no continente. Ao insistir na perfuração do bloco 50, ela se consagra como a Líder Continental da Não Transição Energética.” Nicole Oliveira, diretora-executiva do Instituto Arayara

“A Amazônia está muito próxima do ponto de não retorno, que será irreversivelmente atingido se o aquecimento global atingir 2°C e o desmatamento ultrapassar 20%. Além de zerar todo desmatamento, degradação e fogo na Amazônia, torna-se urgente reduzir todas as emissões de combustíveis fósseis. Não há nenhuma justificativa para qualquer nova exploração de petróleo. Ao contrário, deixar rapidamente os atuais combustíveis fósseis em exploração é essencial.” Carlos Nobre, copresidente do Painel Científico para a Amazônia

“O agravamento da crise climática, causada pela produção e queima de combustíveis fósseis, não deixa dúvidas de que temos que acelerar a transição energética para produção solar e eólica. O Brasil tem a oportunidade de explorar seu enorme potencial de geração energética solar e eólica e se tornar uma potência mundial em energias sustentáveis. Não devemos desperdiçar esta oportunidade. Abrir novas áreas de produção de petróleo vai auxiliar a agravar ainda mais as mudanças climáticas e certamente isso vai contra o interesse do povo brasileiro.” Paulo Artaxo, Físico, integrante do IPCC, especializado em crise climática e Amazônia

“É inaceitável que o governo continue promovendo a exploração de petróleo e gás na bacia Amazônica, uma área vital para a proteção do clima e da biodiversidade. Essa decisão contraria os compromissos com a transição energética e coloca em risco as comunidades, os ecossistemas e o planeta. Ao contrário do que alegam, os recursos do petróleo pouco investem na transição, sendo apenas 0,06%. Precisamos de um acordo global para eliminar a extração de petróleo de forma justa, equitativa e sustentável. Até lá, o mínimo que temos que fazer é impedir sua ampliação.” Clara Junger – Coordenadora de Campanha no Brasil – Iniciativa do Tratado de Não Proliferação de Combustíveis Fósseis

“Autorizar novas frentes de petróleo na Amazônia não é apenas um erro histórico, é insistir em um modelo que não deu certo. A história do petróleo no Brasil mostra isso com clareza: muito lucro para poucos, e desigualdade, destruição e violência para as populações locais. O país precisa assumir uma liderança climática real e romper com esse ciclo de exploração que nos trouxe até a crise atual. É urgente construir um plano de transição energética justa, baseado em renováveis, que respeite os povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos, e que garanta a eles o papel de protagonistas nas decisões sobre clima e energia, inclusive na COP30.” Ilan Zugman, diretor da 350.org para a América Latina e Caribe


Fonte: Observatório do Clima

Exploração da Foz do Amazonas: ASCEMA Nacional critica insistência em modelo atrasado

Autorização para exploração da Foz do Amazonas revela insistência do Brasil em expandir exploração de combustíveis fósseis, um modelo incompatível com os desafios impostos pela crise climática.

A Associação Nacional dos Servidores da Carreira de Especialista em Meio Ambiente (ASCEMA Nacional) reconhece que a decisão do IBAMA é fruto de uma análise técnica criteriosa, conduzida pelo corpo de servidores da instituição, que atuam com dedicação e rigor dentro dos marcos legais e procedimentais que regem o licenciamento ambiental no Brasil.

Contudo, a emissão desta licença, ainda que tecnicamente fundamentada, lança luz sobre uma contradição muito maior: a insistência do Brasil em um modelo de desenvolvimento pautado na expansão da exploração de combustíveis fósseis. Como especialistas na área ambiental, temos um posicionamento consolidado e crítico a este modelo, que consideramos atrasado e incompatível com os desafios da crise climática global e com a promoção de uma agenda socioambiental justa e verdadeiramente sustentável para a Amazônia.

É fundamental esclarecer à sociedade sobre os limites do processo de licenciamento ambiental. Este instrumento, por sua natureza, concentra-se em uma análise pragmática e estritamente focada nos impactos diretos do empreendimento ou da obra em si. Avaliam-se os riscos operacionais, os planos de mitigação e as potenciais consequências socioambientais locais, especialmente graves em uma região de extrema sensibilidade ecológica e lar de populações tradicionais cuja existência está atrelada à saúde do ecossistema.

No entanto, o escopo do licenciamento, da forma como é estruturado hoje, não alcança a análise dos impactos decorrentes do uso final do produto. Ou seja, a avaliação não adentra nas consequências da queima dos combustíveis fósseis que venham a ser extraídos, que é a principal causa do aquecimento global. Esta é uma limitação do próprio instrumento normativo frente à complexidade da agenda climática.

Dessa forma, a ASCEMA Nacional, ao mesmo tempo em que respeita a decisão técnica do órgão licenciador, reafirma sua posição de que o futuro energético do Brasil não pode depender da abertura de novas fronteiras petrolíferas. A decisão estratégica de buscar ou não por essas fontes de energia precede o licenciamento e reflete uma política de Estado que precisa ser urgentemente debatida e reorientada para uma transição energética justa, que respeite os direitos dos povos da floresta e das águas e proteja nossa sociobiodiversidade.

Brasília, 20/10/2025

ASCEMA Nacional

 

 

 

Cientista da UENF vê com preocupação exploração de petróleo na Foz do Amazonas

Carlos Eduardo de Rezende 

Por Fúlvia D’Alessandri – ASCOM/UENF

Em 20 de abril de 2010, a plataforma de petróleo Deepwater Horizon, da Petrolífera britânica BP, explodiu no Golfo do México, causando um dos maiores desastres ambientais da história. O acidente deixou 11 mortos e derramou 750 milhões de litros de petróleo no mar, que até hoje têm repercussões e são alvo de estudos científicos. Para o professor Carlos Eduardo de Rezende, líder do Grupo de Pesquisa em Biogeoquímica de Ecossistemas Aquáticos do Laboratório de Ciências Ambientais da UENF (LCA), este caso ilustra bem os riscos que a exploração de petróleo pode causar para o ambiente marinho costeiro e oceânico.

Rezende integra um grupo internacional de pesquisadores que há anos estudam o ambiente marinho da costa brasileira, inclusive na região Amazônica, e vê com grande preocupação a exploração de petróleo no local. A questão, que se arrasta desde 2014, vem dividindo Petrobras e governo federal, de um lado, e ambientalistas e cientistas da área ambiental, do outro.  Para iniciar as atividades, a Petrobras aguarda o aval do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama).

O professor explica que a Margem Equatorial estende-se do Rio Grande do Norte até o Amapá. Diversas áreas dentro deste trecho vêm sendo operadas por empresas,  mas a controvérsia está no Licenciamento Ambiental do bloco FZA-M-59, localizado a frente da foz do Amazonas. O processo de licenciamento deste bloco teve início em 2014, sob responsabilidade da British Petroleum (BP) Energy do Brasil Ltda., então operadora do bloco.

Ele observa que, nesse meio tempo, alguns artigos demonstraram a presença de uma formação recifal muito pouco estudada e totalmente negligenciada por parte da empresa nos estudos de impacto ambiental (EIA). Descrito em 1970, apenas em 2016 este sistema teve espetacular protagonismo a partir de vários artigos publicados pelo grupo do qual Rezende faz parte e que realiza estudos científicos na região.

— É importante ressaltar a valiosa colaboração com as Universidades Norte-Americanas (Universidade de Washington e Universidade da Geórgia), da Marinha do Brasil e do Greenpeace, que possibilitaram várias amostragens na região Norte onde ocorre o sistema recifal. Este último, isto é, o Greenpeace, teve participação decisiva, não apenas viabilizando a amostragem, mas também impulsionando sua ampla visibilidade por meio da mídia nacional e internacional e participando de uma das publicações científicas do grupo — diz o professor.

Em síntese, o Grande Sistema Recifal Amazônico está integrado a um contínuo megabioma, o qual compreende a maior floresta tropical do mundo (a Floresta Amazônica), um dos mais extensos sistemas de manguezal do planeta (do Amapá ao Maranhão), representando um corredor ecológico muito importante e é um sistema recifal vivo, como demonstrado em uma publicação de 2019 do grupo na revista Scientific Report.

Segundo Rezende, entre 2017 e 2019, diferentes pareceres técnicos do Ibama apontaram falhas no cumprimento de várias condicionantes, o que impediu a emissão da Licença de Operação. Em 2020, o Ibama concedeu à BP Energy do Brasil Ltda um prazo de 60 dias para apresentar esclarecimentos adicionais sobre o pedido de licença para perfuração. Pouco depois, a empresa transferiu a concessão do bloco para a Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), que, em menos de um mês, viabilizou a aquisição pela Petrobras.

Nos três anos seguintes, a Petrobras encaminhou inúmeros documentos para atender às exigências do licenciamento. Ainda assim, permaneceram inconsistências em pontos fundamentais, como a modelagem de dispersão de óleo, planos de emergência e de proteção à fauna, medidas mitigadoras e compensatórias, ações de controle e monitoramento, além de comunicação social, como consta no parecer do IBAMA.

Pesquisador participou de audiência na Câmara dos Deputados para tratar do tema

Em 31 de maio de 2023, Rezende participou de uma audiência pública na Câmara de Deputados, representando a equipe com a qual desenvolve pesquisas na região. Em sua participação, ele destacou a relevância científica da região, lembrando as publicações do grupo, que tiveram ampla repercussão internacional. O estudo revelou não só a dimensão aproximada desse ecossistema, mas também a diversidade de espécies e aspectos do funcionamento ecológico, reforçando a necessidade de avaliações ambientais profundas e um diálogo efetivo com a sociedade sobre os riscos e impactos da exploração de petróleo na área.

Na sua opinião, os dispositivos legais foram rompidos pelo governo federal ao autorizar iniciativas que, pela legislação vigente, deveriam ocorrer somente após a devida apreciação e aprovação técnica do Ibama. Com isso — acrescenta o professor — um processo que deveria ser eminentemente técnico-científico foi convertido em um palco de disputas políticas, no qual prevaleceu um discurso desenvolvimentista sedutor, mas simplificador, deixando de lado todas as considerações científicas.

— A iniciativa foi apresentada como uma espécie de nova panaceia social para a Região Norte, alardeada até mesmo como um novo “Pré-Sal”. Para quem vive em uma cidade que recebe royalties há quase três décadas, a  experiência concreta revela o quão ilusório pode ser o discurso de prosperidade automática. Os recursos, embora vultosos, não se traduziram em melhorias estruturais duradouras, tampouco na redução das desigualdades sociais. A discussão deveria ser conduzida de forma muito mais aprofundada, ancorada em estudos técnicos, em planejamento estratégico e em transparência pública, de modo a considerar não apenas o potencial econômico, mas também os riscos ambientais e sociais — afirma.

Segurança energética, diz Rezende, não está na expansão de matrizes poluentes

Rezende combate os argumentos de que a exploração de petróleo neste local seria a garantia da segurança energética do país. Para ele, a verdadeira garantia de segurança energética, desenvolvimento sustentável e equilíbrio ambiental não está na expansão de matrizes poluentes, como é o caso do petróleo, mas sim em uma mudança profunda no padrão de consumo, acompanhada de políticas de justiça social que assegurem simetria de acesso aos recursos e oportunidades. Isso significa, segundo ele, repensar modelos econômicos, incentivar o uso de fontes limpas, promover eficiência energética e, sobretudo, enfrentar desigualdades que fazem com que os custos da degradação ambiental recaiam de forma desproporcional sobre os mais vulneráveis.

— A transição energética não deve ser tratada apenas como um processo tecnológico, mas como um projeto civilizatório, que reposicione a relação entre sociedade, economia e natureza em bases mais justas e equilibradas — diz.

Ele ressalta que os países investem, em média, apenas 1,7% dos recursos nacionais para os oceanos, de acordo com o Relatório Global de Ciência Oceânica (IOC-Unesco, 2020). O Brasil tem números ainda mais preocupantes, pois apenas 0,03% dos recursos de pesquisa são destinados às ciências marinhas.

— O mar é muito mais do que vemos nas praias e áreas costeiras. Cerca de 90% dos mares estão abaixo da profundidade de 200 metros. Isso mostra a importância de se investir nesta área do conhecimento. A dimensão da complexidade envolvida em compreender o funcionamento do oceano, um sistema dinâmico que integra processos físicos, químicos e biológicos, atravessa múltiplas escalas. Isso sem falar na relevância estratégica, uma vez que os oceanos exercem papel central na regulação do clima global, no sequestro de carbono e na manutenção da vida no planeta — afirma Rezende.

Segundo ele, os impactos de acidentes na área de exploração não se restringem ao momento do acidente e frequentemente, estendem-se por décadas, e variam conforme a natureza do acidente, características do óleo e do ecossistema diretamente atingido. Estes impactos tendem a afetar severamente os ambientes marinhos oceânicos e costeiros, comprometendo a biodiversidade, a pesca artesanal e o turismo, além de demandarem longos e custosos processos de recuperação. Já explosões ou falhas estruturais podem trazer riscos imediatos à vida humana, somando-se aos prejuízos ambientais.

O Plano Estratégico da Petrobras (2023-2027) prevê investimentos da ordem de 78 bilhões de dólares, além de 20 bilhões de dólares destinados ao fretamento de embarcações, sendo 49% desse montante direcionado à Margem Equatorial. Em contraste, o orçamento total do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) para 2025 foi de apenas 14 bilhões de reais (cerca de 2,6 bilhões de dólares).

Ele chama a atenção para o descompasso existente entre o vultoso investimento em tecnologia voltada para a exploração e produção de petróleo e o investimento na produção de conhecimento científico nas áreas de transição energética e ciências do mar.

— De um lado, a Petrobras ostenta recordes mundiais na exploração em águas profundas e ultra profundas, consolidando o país como referência internacional nesse setor estratégico. De outro, o mesmo Brasil carece de uma infraestrutura robusta para investigar sistematicamente os ecossistemas marinhos oceânicos que abrigam essa riqueza, limitando-se a iniciativas pontuais, muitas vezes insuficientes e dependentes de apoio da Marinha do Brasil, empresas ou de projetos de cooperações internacionais — diz.

Rezende  considera uma grande contradição o país investir com intensidade na extração das riquezas imediatas do mar, mas não priorizar o conhecimento necessário para assegurar sua conservação e uso sustentável a longo prazo. Na sua opinião, sem a compreensão dos processos oceanográficos, a biodiversidade marinha e as dinâmicas ecológicas das áreas exploradas, o Brasil corre o risco de comprometer patrimônios naturais inestimáveis e de perder oportunidades de inovação científica e tecnológica que poderiam emergir do estudo profundo do oceano.

Segundo Rezende, o fortalecimento da pesquisa em ciências do mar, com a criação de uma frota de navios oceanográficos civis, apoio à aquisição de equipamentos de ponta e à formação de recursos humanos altamente qualificados deve caminhar em paralelo ao desenvolvimento tecnológico da exploração energética, assim como o fomento às iniciativas de transição energética. Só assim o país poderá alinhar seu protagonismo mundial com uma visão estratégica mais ampla, que reconheça o oceano não apenas como fonte de recursos, mas como um espaço vital de conhecimento, sustentabilidade e soberania.

(Jornalista: Fúlvia D’Alessandri – ASCOM/UENF – Fotos da formação recifal cedidas por Carlos Eduardo de Rezende)


Fonte: ASCOM/UENF