General Mourão adota saída “a la Leão da Montanha” para escapar de responsabilidades na devastação da Amazônia

vice_presidente_mourao-19083985Confrontado com a crise política causada pela devastação acelerada da Amazônia, o vice-presidente, general Hamilton Mourão, tenta uma saída “a la Leão da Montanha”

Li em um informe do “ClimaInfo” que o vice-presidente da república, general Hamilton Mourão, teria se manifestado em uma uma videoconferência do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) sobre a Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável, no sentido de  que “crimes ambientais deixam o Brasil “vulnerável a campanhas difamatórias” que permitem a imposição de barreiras comerciais “injustificáveis” contra os produtos brasileiros no exterior, especialmente aqueles do agronegócio; refutou o papel de “vilão” ambiental que, segundo ele, alguns países querem impor ao Brasil, “em um mundo onde grande parte do hemisfério norte queima petróleo e carvão e quer nos culpar pela poluição atmosférica”.

Tirando em miúdos tudo o que general vice-presidente disse, podemos inferir que os dados de desmatamento não são tão ruins que não possamos lembrar que as economias centrais são dependentes do consumo dos combustíveis fósseis.  Essa é uma daquelas saídas “a la Leão da Montanha” (no caso do general Mourão a saída é obviamente pela direita), pois lembrar do erro alheio jamais poderia servir como desculpa para alguém deixe de explicar seus próprios erros.

Outra coisa que o vice-presidente teria dito é que o desmatamento na Amazônia estaria em ascensão desde 2012, o que de fato estava ocorrendo. Entretanto, isto não anula que sob o governo Bolsonaro o que está ocorrendo é um aumento para além da média histórica (ver figura abaixo).  Tal constatação é básica, mas anula facilmente os argumentos leoninos montanheses do vice-presidente.

Deter-Gráfico-Desmatamento-v2

Mas superada a análise numérica, é preciso analisar o argumento de que existem em curso campanhas difamatórias contra o Brasil por causa de, nas palavras do vice-presidente, de criminosos ambientais.  Se verificarmos o sentido jurídico da palavra difamação veremos que isto implica em uma “imputação ofensiva de fato(s) que atenta(m) contra a honra e a reputação de alguém, com a intenção de torná-lo passível de descrédito na opinião pública”.

Pois bem, se alguém tem realizado uma campanha difamatória contra o Brasil, esse alguém é o próprio governo Bolsonaro que em pouco mais de 19 meses de duração já comprometeu gravemente a governança ambiental construída a duras penas a partir de 1973, ano de criação da Secretaria Especial do Meio Ambiente (Sema), e praticamente desmantelou as estruturas de comando e controle que impediam a ação desenfreada de predadores da Amazônia que em sua maioria agem na completa ilegalidade.

Mas em vez de abandonar o percurso adotado até aqui, o vice-presidente Mourão, enquanto presidente do chamado Conselho da Amazônia optou por  dar assento a 15 coronéis, sendo 12 do Exército e três da Aeronáutica, um general, dois majores-brigadeiros e um brigadeiro. Para completar essa militarização da gestão ambiental da Amazônia, deixou de fora do conselho os representantes de povos indígenas, quilombolas, pescadores ou outras comunidades tradicionais da região, bem como ignorou a necessidade de dar assento para órgãos chaves como o Ibama e a Funai.

O problema é que em breve a comunidade científica adicionará ainda mais más notícias para o governo Bolsonaro, pois certamente neste momento diversas publicações estão no prelo de revistas internacionais de peso, como a Science e a Nature, para mostrar novos ângulos da devastação em curso na Amazônia. E quando isso acontecer, e deve acontecer em breve, a repercussão será muito mais forte do que já está sendo, pois um dos mitos que devem ser incinerados é aquele que apregoa que a Amazônia brasileira ainda possui em torno de 80% de florestas intactas.

Essa falácia que  o rede BBC  rotulou em artigo bastante  denso de “a grande mentira verde” tem sido o último refúgio dos governantes incautos e irresponsáveis, mas não deverá sobreviver por muito mais tempo. E quando isso acontecer, o vice-presidente Mourão vai aprender que discursos “a la leão da Montanha” não irão resolver os problemas que foram ampliados pelo estilo “passa boiada e de baciada” preconizado pelo ministro (ou seria anti-ministro) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles.  

Aliás, como o vice-presidente certamente assistiu aos episódios do Leão da Montanha, ele deve saber que o simpático leão cor de rosa sempre estava metido em alguma confusão, mesmo sempre tentando ficar longe delas com seu estilo altamente refinado (para os saudosos como eu, posto o clip abaixo com o simpático leão dando uma saída pela direita). 

 

 

Com SUS e experiência com zika, resposta do Brasil à pandemia frustrou expectativa, afirma editorial

ms bolsonaro

Por bori

Os dados brasileiros de infecção e óbitos decorrentes da Covid-19, que chegam a mais de 100 mil mortes em 8 de agosto, segundo consórcio de veículos da imprensa, frustrou as expectativas de reação do estado brasileiro à crise sanitária. A constatação é de editorial da Revista de Administração Pública (RAP), em edição especial sobre a pandemia. Segundo a análise inédita, que será lançado na segunda (10), esperava-se uma reação melhor do Brasil frente à pandemia de Covid-19, por causa da existência da estrutura do Sistema Único de Saúde (SUS) e da aprendizagem adquirida no combate a epidemias como H1N1, em 2009, e zika, em 2015. Não foi o que aconteceu.

A edição completa da RAP traz 35 artigos de autores de 41 instituições de pesquisa, que tratam das capacidades e estratégias estatais de enfrentamento da crise, as respostas comportamentais à pandemia, explorando fatores de predisposição ao isolamento social, como polarização política, e a capacidade de mobilização das organizações da sociedade civil (OSCs). “Nestas pesquisas são discutidos e mensurados os efeitos da pandemia na política, no mercado de trabalho, na educação básica, em setores de prestação de serviços públicos e nas micro e pequenas empresas”, escreve Alketa Peci, editora da RAP. Os textos estão disponíveis no site da revista.

Além de detectar capacidades existentes, como o SUS, os artigos também identificam fragilidades do sistema estatal, considerado central para a gestão da pandemia, segundo o editorial. A ideia é que “este conjunto de reflexões subsidie, com evidências, os processos de tomada de decisão no contexto da pandemia e demarque, no âmbito da administração pública brasileira, o potencial da contribuição da pesquisa acadêmica na gestão da crise e de suas consequências”, finaliza o editorial.

Ao ver a destruição causada pelos garimpos ilegais no Rio Tapajós, Ricardo Salles esboça sorriso feliz

As imagens abaixo mostram a destruição causada pelos garimpos ilegais de ouro na região do Rio Tapajós, mais propriamente de região de Jacareacanga e Itaituba, dentro da Terra Indígena Munduruku que fica no extremo oeste do estado Pará.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Já a foto abaixo mostra o ministro (ou seria anti-ministro?) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, durante visita que fez à região para se encontrar com os garimpeiros que estão destruindo de forma criminosa partes da floresta amazônica.  Ricardo Salles aparece vestindo o que parece ser um traje militar. Mas o marcante dessa imagem é o esboço de um sorriso sardônico que é dado por aqueles que se defrontando com sua obra maligna não pode conter a própria satisfação com a desgraça que criam.

ele ri

Fossem outros tempos, Ricardo Salles não passaria nem pela porta do Ministério do Meio Ambiente e estaria mais ocupado em se defender da condenação por improbidade administrativa pela qual foi corretamente condenado pelo Tribunal de Justiça de São Paulo. Afinal de contas ele não possui qualquer das qualificações técnicas e políticas que habilitariam alguém a ocupar um cargo tão estratégico em um país tão central para o futuro do ambiente global como o Brasil. 

Mas esses são tempos estranhos e o melhor que se pode fazer é divulgar essa imagem para que ela vá o mais longe possível, criando grandes embaraços para o governo a que ele pertence e aos interesses que o mesmo representa.

Esse sorriso sardônico é, tal qual os 100 mil mortos causados pela COVID-19, a melhor expressão do que significa o governo Bolsonaro para o Brasil e para o mundo. É a hegemonia dos que odeiam o ambiente e os povos, como os Munduruku, que o defendem como a nossa casa comum.

Abaixo vídeo postado pelo improbo ministro em sua página oficial no Twitter, mostrando a escala de destruição que se permitiu ocorrer e que certamente implicará em graves danos ambientais e para a saúde humana. 

Amazônia: alta do desmatamento não é inépcia; é projeto

Alertas de devastação em 2020 têm novo pico, de 9.205 km2, mesmo com Exército na Amazônia; Jair Bolsonaro poderá ser primeiro presidente da história com dois anos seguidos de aumento recorde no corte da floresta

queimadasGrandes queimadas começam a aparecer em Rondônia. Na imagem de satélite da NASA registrada ontem, pode-se ver grandes focos circundando áreas indígenas, como a Karipuna e Uru-Eu-Wau-WAu. São focos de grilagem.

NOTA DO OBSERVATÓRIO DO CLIMA

Somente alguém que tenha chegado ontem de um outro planeta poderia se surpreender com a nova alta nos alertas de desmatamento na Amazônia, que atingiram imorais 9.205 quilômetros quadrados em 2020. A elevação de 34% na velocidade da devastação neste ano, medida pelo sistema Deter, do Inpe, tem dois agravantes: ela vem após um ano que já havia tido o maior desmatamento desde 2008. E ocorreu mesmo após três meses de presença das Forças Armadas na floresta – em tese para combater o desmatamento.

Desde a campanha eleitoral que levou Jair Bolsonaro à Presidência da República, a área de alertas de desmatamento dobrou na Amazônia. Os alertas do Deter são uma subestimativa; a taxa oficial de devastação, dada pelo sistema Prodes, mais preciso, será conhecida apenas no fim do ano. No entanto, se a variação entre os dados do Deter e os do Prodes ficar na média histórica, poderemos ter cerca de 13.000 quilômetros quadrados de desmatamento, a maior taxa desde 2006 e três vezes mais do que a meta da Política Nacional de Mudança do Clima para 2020. Será também a primeira vez na história que o desmatamento na Amazônia tem duas altas seguidas na casa dos 30%.

dados deter

Acabam de sair dados para o mês de julho do sistema Deter do INPE. Está confirmado: o desmatamento na Amazônia cresce sem controle, mesmo durante a pandemia. Nos últimos 12 meses, o crescimento é de 34% comparado com o mesmo período do ano passado. Foram derrubados 9,2 mil km²

Isso não acontece por incompetência do governo no combate à devastação; acontece porque a agenda do governo Bolsonaro é promover ativamente a devastação. Não é inépcia; é projeto.

Desde o início do governo um amplo grupo de atores – que vai de cientistas a povos indígenas, passando por ex-ministros, organizações ambientalistas, servidores federais e Ministério Público – vem denunciando o desmonte sistemático da governança ambiental brasileira: o fechamento branco do Ministério do Meio Ambiente, o enterro dos planos de combate ao desmatamento na Amazônia e no Cerrado, a banana dada ao Acordo de Paris, a perseguição a fiscais e a omissão ideológica e ilegal em investir no combate a ilícitos ambientais mesmo tendo quase R$ 2 bilhões em caixa.

Tal conjunto de ações e omissões, que o ministro do Meio Ambiente tão bem sintetizou na infame expressão “passar a boiada”, é o responsável direto pelo descontrole do desmatamento, que transforma o Brasil em pária internacional e ameaça levar embora investimentos no momento em que eles são mais necessários, o de recuperação econômica no pós-pandemia.

Declarações de integrantes do Observatório do Clima

“A explosão do desmatamento na Amazônia tem como causa importante o discurso do Presidente da República, que deslegitima a fiscalização ambiental ao mesmo tempo em que estimula a ocupação da região em modelo predatório. O Ministro do Meio Ambiente segue as ordens de seu patrão. Quem lucra com isso é o desmatador ilegal, o grileiro, o investidor no garimpo sem controle que explora trabalho escravo. Se quisesse controlar o desmatamento, e essa realmente não parece ser a intenção, o governo retomaria o Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia e reforçaria a atuação do Ibama e outros órgãos ambientais, no lugar de gastar dinheiro com a atuação teatral das Forças Armadas.” – Suely Araújo, especialista-sênior em Políticas Públicas do OC

“Os números mostram, mais uma vez, a verdade que o governo trabalha para esconder. Combate ao desmatamento se faz com transparência, ciência, áreas protegidas, órgãos especializados eficientes e controle social. Tudo o que Bolsonaro odeia. A política de destruição promovida pelo governo empodera os que lucram com a floresta no chão e ameaça os que lutam para mantê-la em pé, arrastando o Brasil para o atraso. Ao ignorar a importância de conservar nossas riquezas naturais, o governo Bolsonaro impacta de forma negativa os brasileiros, a economia do país e o clima global.” – Mariana Mota, coordenadora de Políticas Públicas do Greenpeace Brasil

“Será difícil conter o desmatamento se o governo continuar a intenção de alterar a legislação fundiária para legalizar áreas desmatadas e invadidas ilegalmente. A grilagem de terras públicas é um vetor do desmatamento, que é estimulado com a expectativa de anistia e legalização” – Brenda Brito, pesquisadora-associada do Imazon

“Os dados do Inpe indicam que o Brasil fracassou no cumprimento de sua lei de clima, cuja meta para 2020 era limitar o desmatamento na Amazônia a no máximo 3.925 km2. Isso também nos desvia da rota do Acordo de Paris, o que criará uma série de dificuldades comerciais para o Brasil no período crítico de recuperação econômica no pós-pandemia. O crime tomou conta da Amazônia, incentivado pelo próprio governo Bolsonaro.” – Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima

“A alta nos alertas de desmatamento entre o ano da eleição e este ano é de 101%. Como lembrou um amigo meu, a ex-presidente Dilma Rousseff dizia que quanto atingisse a meta dobraria a meta. Jair Bolsonaro acabou com a meta e dobrou o desmatamento.” – Caetano Scannavino Filho, coordenador do Projeto Saúde e Alegria

fecho

Este texto foi inicialmente publicado pelo Observatório do Clima [Aqui!].

Science: desmatamento ilegal no Brasil sobe em clima de impunidade

'Like a bomb going off': why Brazil's largest reserve is facing destruction. Gold prospectors are ravaging the Yanomami indigenous reserve. So why does President Bolsonaro want to make them legal?

As ruínas de um local ilegal de mineração de ouro em uma reserva Yanomami no norte da Amazônia. O desmatamento no Brasil está aumentando mesmo em áreas protegidas legalmente e em terras indígenas, onde os criminosos raramente se aventuravam no passado. GUARDIÃO / EYEVINE / REDUX

Por Herton Escobar para a Science

O desmatamento na Amazônia brasileira aumentou bastante no ano passado – novamente. Estimativas previsto para ser lançado esta semana pelo Instituto Nacional  de Pesquisas Espaciais (INPE) irá mostrar clareiras têm aumentado em pelo menos 28% durante o monitoramento atual ano, que vai de agosto a julho, em comparação com o ano anterior.

É a segunda subida íngreme durante o governo do presidente brasileiro Jair Bolsonaro, que cumpriu sua promessa de campanha de afrouxar a aplicação da lei ambiental e acelerar o desenvolvimento na Amazônia.

Os números vêm do Brasil Sistema de Detecção de Desmatamento em tempo real (DETER), que utiliza imagens de satélite de baixa resolução para identificar rapidamente novas clareiras florestais e autoridades de alerta para possível desmatamento ilegal. Mais de 8700 Km2  de cobertura florestal primária já desapareceram das imagens desde agosto de 2019, de acordo com dados atualizados até 23 de julho , em comparação com 6800 km 2 nos 12 meses anteriores. (Os dados da semana final serão divulgados em 7 de agosto; como julho é o período nobre para o desmatamento na maior parte da Amazônia, é provável que o número suba um pouco mais.)

Embora o sistema não identifique as causas do desmatamento, outros estudos mostram que a grande maioria é ilegal, levada a cabo por fazendeiros, madeireiros, garimpeiros e grileiros que procuram lucrar com a ocupação e exploração das terras florestais públicas.

O desmatamento vem aumentando lentamente no Brasil desde 2013, mas as ações e palavras de Bolsonaro deram um grande impulso. “O desmatamento é uma empresa de alto risco, profundamente conectada às decisões políticas e à retórica que influenciam a percepção desse risco”, diz Raoni Rajão , pesquisador de políticas ambientais da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte. Os desmatadores agora sentem uma sensação de impunidade, diz Rajão. As clareiras estão aumentando em áreas protegidas legalmente e em terras indígenas, onde os criminosos raramente se aventuravam no passado. Enquanto isso, as operações policiais estão fora do ar e os agentes de campo que combatem os mineradores ilegais foram repreendidos publicamente e submetidos a investigações internas por suas próprias agências.

O DETER é um sistema de alerta e não é otimizado para medições precisas de área, mas os cientistas dizem que ainda é um bom termômetro de desmatamento. No ano passado, no entanto, Bolsonaro chamou as estimativas igualmente preocupantes do DETER de “mentira e demitiu o diretor do INPE , Ricardo Galvão. Números divulgados mais tarde pelo Projeto de Monitoramento por Satélite do Desmatamento na Amazônia, um sistema de resolução mais elevada também operado pelo INPE que produz Brasil dados oficiais de desmatamento, mostrou resultado ainda piores. Eles mostraram que 10.100 Km2 de floresta foram derrubados entre agosto de 2018 e julho de 2019 – um aumento de 34% em relação ao ano anterior .

O ressurgimento do desmatamento-de longe a maior fonte de emissões de gases de efeito estufa do Brasil- é um desastre para a reputação internacional do Brasil ”, diz Luiz Aragão, chefe da Divisão de Sensoriamento Remoto do INPE. O país está sob crescente pressão de governos e investidores estrangeiros para proteger a floresta, juntamente com seu carbono e biodiversidade, ou enfrentar consequências diplomáticas e econômicas. Precisamos de mensagens claras e ações decisivas contra essas atividades ilegais”, diz Aragão.” O  Brasil precisa restabelecer sua ordem ambiental se tivermos ambições de crescer economicamente e participar como líder na discussão de questões globais”.

Jair Bolsonaro tomou algumas medidas para proteger a floresta. No início deste ano, ele recriou o Conselho da Amazônia – composto em grande parte por oficiais militares – para supervisionar o desenvolvimento sustentável da região e, em maio, ele autorizou o envio de forças armadas para combater crimes ambientais na região. Outro decreto de 15 de julho tornou ilegal o uso de fogo na Amazônia pelos próximos 4 meses.

A última medida pode de fato ajudar a reduzir o desmatamento, se for aplicada adequadamente. Depois que as árvores são derrubadas, os desenvolvedores precisam queimar a vegetação derrubada para limpar a terra para pastos ou terras agrícolas, diz Rajão. Ele também vê esperança no fato de que a quantidade de floresta derrubada nas primeiras 3 semanas de julho foi menor do que em julho de 2019, embora ainda seja muito maior do que no mesmo mês dos anos anteriores.  Isso pode ser um sinal positivo de que a taxa de desmatamento está diminuindo um pouco”, diz ele.  Mas temos que esperar e ver.”

fecho

Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pela revista Science [Aqui!].

IPAM: incêndios na Amazônia não se concentram em áreas já exploradas

queimadas-Amazônia-1

O governo tem tentado minimizar a dimensão das queimadas usando alguns agentes da Embrapa que afirmam que 90% dos focos de calor registrados na Floresta Amazônica em 2019 ocorreram em áreas já desmatadas, o que dissociaria essas ocorrências da derrubada de novas áreas no mesmo período. O IPAM mostrou que esse número não se sustenta.

Segundo relata André Borges no Estadão, uma nota técnica do IPAM mostra que, em 2019, 30% dos focos registrados na Amazônia foram incêndios em áreas protegidas, e 34% estiveram associados a desmatamentos recentes. A maior parte (36%) esteve de fato relacionada com manejo agropecuário, mas em uma proporção muito abaixo da apontada pela Embrapa. “Pode-se observar pouca variação proporcional entre 2016 e 2018 (média de 42%), mas a taxa cai em 2019, para 36%, devido ao aumento do fogo em área de desmatamento recente”, afirmaram os pesquisadores responsáveis pela nota à reportagem.

O argumento levantado pelo governo ressalta o principal problema enfrentado por Mourão e equipe na atual crise Amazônica: enquanto o desafio das queimadas e do desmatamento exige ação concertada, planejada e efetiva, Brasília oferece respostas improvisadas e dissociadas de experiências passadas bem-sucedidas.

No Valor, Daniela Chiaretti destacou as impressões de Suely Araújo, ex-presidente do Ibama e atualmente no Observatório do Clima (OC), que defende que o governo retome o Plano de Combate ao Desmatamento na Amazônia (PPCDAm), a “principal ferramenta” que permitiu ao Brasil controlar as taxas de desmatamento em gestões passadas. Ela apontou também que a solução dessa questão passa pela “reversão do discurso governamental do presidente Bolsonaro, do ministro Ricardo Salles e de outras autoridades, de falar contra a fiscalização ambiental, deslegitimar os fiscais e as sanções ambientais”.

Em tempo: A alta das queimadas na Amazônia registrada em julho foi destaque na imprensa internacional nos últimos dias. Veículos como BBC News, The TimesReutersDeutsche WelleAssociated PressPhysAFP e Al-Jazeera, entre outros, repercutiram essa informação no exterior.

fecho

Este artigo foi inicialmente publicado pelo ClimaInfo [Aqui!].

Observatório dos Agrotóxicos: em plena pandemia, governo Bolsonaro autoriza mais 38 agrotóxicos e já chega a 245 em 2020

autorizado

Na última 6a. feira (31/07), o governo Bolsonaro fez publicar o Ato 43 de 2020 por meio do qual foram liberados mais 38 agrotóxicos para comercialização no Brasil. Com isso, o total liberado nos primeiros sete meses deste ano chegou a 245 agrotóxico(sendo 223 deles durante a pandemia da COVID-19) que para os 19 meses da presidência de Jair Bolsonaro, o “grande total” é de 748 agrotóxicos, um verdadeiro recorde para o já densamente ocupado mercado brasileiro de venenos agrícolas.

Ao analisar os agrotóxicos aprovados, um fato que pode ser considerado positivo é que 13 dos produtos aprovados são agrotóxicos biológicos cujo potencial de toxicidade humana e ambiental é menor. Por outro lado,  o Ato 43 incluiu a aprovação de 15 produtos compostos por princípios ativos que estão proibidos na União Europeia, representando 43% do total liberado, o que ficou acima da proporção normal de “proibidões” banidos na União Europeia e vendidos no Brasil que é de 30%.

Entre os agrotóxicos liberados pelo Ato 43,  e que contém substâncias proibidas pela UE estão a Ametrina, a Atrazina e o “matador de abelhas” Fipronil.   No caso da Atrazina, como mostrado recentemente aqui, este agrotóxico é responsável por diversas doenças graves, mas curiosamente foi classificado como sendo de Categoria 5 para toxicidade humana, o que significa que o produto seria “improvável de causar dano agudo” (ver figuras abaixo para ver as principais doenças já identificadas como associadas à atrazina).  

veneno 4aveneno 4b

É interessante notar que o discurso do governo Bolsonaro para explicar a enxurrada de novos agrotóxicos era de que os “novos produtos” serviriam para modernizar o portfólio disponível para os agricultores brasileiros (na verdade a maioria do agrotóxico consumido no Brasil se concentra nas grandes monoculturas de exportação como a soja e o milho). Agora, o discurso é de que “os novos registros são importantes pois diminuem a concentração do mercado de defensivos (agressivos, quer dizer) e aumentam a concorrência, o que resulta em um comércio mais justo e em menores custos de produção para a agricultura brasileira”, como destacou o coordenador-geral de Agrotóxicos e Afins, Bruno Breitenbach. 

Mas o discurso de baratear o custo de agrotóxicos provavelmente também não resistirá ao tempo, visto que apesar de uma diminuição no volume importado por causa da pandemia da COVID-19, os custos em dólar relacionados à compra de venenos agrícolas estão aumentando.   O fato é que o mercado brasileiros de agrotóxicos é um verdadeiro maná para as grandes corporações que fabricam venenos agrícolas, visto que apenas entre 2000 e 2019, o total de vendas atingiu estratosféricos US$ 143,4 bilhões, sendo que o recorde geral de vendas ocorreu no primeiro ano do governo Bolsonaro  (ver figura abaixo).

Vendas de agrotóxicos no Brasil 20002019

Eu não tenho dúvidas que é em função das altas taxas de lucros obtidas pelas corporações multinacionais que controlam o mercado global de venenos agrícolas que há essa pressa toda em aprovar produtos banidos até nos países sede de empresas como a Bayer, Basf e Syngenta (no caso Alemanha e Suíça). Já para o Brasil e os brasileiros sobra é muita contaminação e doenças letais.

Quem desejar baixar o arquivo relativo aos produtos liberados pelo Ato 43 de 2020, basta clicar [Aqui!]. Já para baixar o arquivo contendo todos os produtos aprovados entre 01  de janeiro e 31 de julho de 2020, basta clicar [Aqui!].

 

Governo Bolsonaro faz a festa dos fabricantes de venenos agrícolas, mostra publicação chinesa

agrotoxicos lucrosGoverno Bolsonaro está “passando a boiada” e fazendo a festa das grandes fabricantes de venenos agrícolas

O site especializado “AgroPages“, editado na China, publicou ontem informações sobre o momento altamente lucrativo por que passam os fabricantes de agroquímicos (um eufemismo usado para não explicitar a presença de venenos agrícolas na agricultura das Revolução Verde) no Brasil.  Segundo informou a publicação chinesa,  a venda de agroquímicos (agrotóxicos, quer dizer)  no Brasil resultou em uma receita de US$ 13,7 bilhões em 2019, o que foi 5,8% superior ao ano de 2018, representando um recorde no setor.

Por outro lado, a Agropages notou que o mercado de agrotóxicos do Brasil é altamente concentrado. Em função disso, a receita total das dez principais empresas líderes (incluindo multinacionais) atingiu US$ 11,392 bilhões, representando 83,2% de todas as vendas do mercado brasileiro de agrotóxicos em 2019.  

De acordo com uma pesquisa realizada pela AgroPages, as 10 principais empresas agroquímicas locais geraram US $ 1,069 bilhão em vendas em 2019, representando 7,8% de todo o mercado. A Nortox, a única empresa local a aparecer na lista geral do ranking (que inclui multinacionais), ficou em primeiro lugar na lista das 10 principais empresas agroquímicas brasileiras. A receita da Nortox aumentou 18%, para US $ 342 milhões em 2019. O crescimento foi impulsionado pelo lançamento pela Nortox de seu fungicida Mancozeb, além de outros seis lançamentos de pesticidas em 2019.

A aceleração do registro e liberação comercial de agrotóxicos pelo governo Bolsonaro foi apontado como positiva para o setor,  já que segundo a “Agropages” isto incentiva as empresas locais a registrar e lançar mais produtos. Isso explica, por exemplo, porque as vendas da Nortox S/A tiveram um aumento expressivo nos dois últimos anos. A Agropages informa ainda que outras duas empresas que registraram crescimento de dois dígitos são a ALTA e a CropChem LTDA (a figura abaixo mostra o ranking das 10 maiores fabricantes de agrotóxicos no Brasil em 2019).

brazilian top

No caso da CropChem, isto ocorreu após a empresa obter 19 registros em três anos, o mesmo tendo acontecido com a   Ourofino Agrociência que associou o crescimento dos lucros  da empresa à aprovação de novos agrotóxicos após a colheita de 2018/2019 e começaram a gerar receita no ano passado.

Algo que está mais evidente no relatório anual da Agropages sobre o mercado de agrotóxicos na América Latina [Aqui!] é que muitas dessas empresas que hoje concentram as vendas em nosso continente nada de têm de local, sendo braços de grandes fabricantes mundiais de agrotóxicos ou ainda que sejam “locais” têm parte do seu controlado por corporações multinacionais. A publicação chega a classificar este tipo de empresa como sendo “campeões ocultos”, citando o caso de corporações japonesas como a Sumitomo, a Nippon Nohyaku e a Mitsui (que detém parte do capital da Ourofino Agrociência, 3a. maior vendedora de venenos agrícolas no Brasil em 2019).

Mas nem tudo é alegria para os fabricantes de agrotóxicos. É que em uma postagem de hoje surge a informação de que a Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), informo que as importações brasileiras de agrotóxicos totalizaram 270.101 toneladas no primeiro semestre de 2020,  representando uma queda de 6,3% em volume em comparação com os primeiros seis meses do ano passado.  O Brasil teria comprado 130.558 toneladas de ingredientes ativos, queda de 7% e 139.542 toneladas de produtos formulados, queda de 5,6%, entre janeiro e junho de 2020.  Mesmo, considerados os valores envolvidos, o Brasil comprou US$ 2,118 bilhões no primeiro semestre de 2020, um aumento de 2,1% sobre US$ 2,075 bilhões no mesmo período de 2019. Os ingredientes ativos somaram US$ 735,264 milhões, uma queda de 4%, enquanto formulados os produtos cresceram 5,6% no valor de US $ 1.383 milhões em compras brasileiras do exterior. 

Todas essas informações apontam para a crescente dependência da agricultura de exportação do uso de venenos agrícolas, muito deles proibidos em outras partes do mundo, e com preços cada vez mais altos. Essa situação coloca em xeque o discurso da ministra da Agricultura, Tereza Cristina (DEM/MS) no sentido de que a enxurrada de aprovação de novos agrotóxicos visa eliminar produtos altamente tóxicos e ultrapassados e diminuir o custo financeiro arcado pelos agricultores brasileiros. 

A única coisa que parece estar ocorrendo mesmo é o aumento do lucro fabuloso das fabricantes de veneno. Simples assim!

Em meio ao desmanche ambiental, Campanha “Boicote Bolsonaro” ultrapassa 400 mil aderentes na Europa

bolsonero

Ao contrário do que diz o personagem da charge, o Brasil precisa de toda a ajuda que conseguir e ela está vindo na forma de boicote aos produtos brasileiros

Um dia após o fundo soberano da Noruega cessar suas relações financeiras com a JBS por causa do uso de gado criado em áreas desmatadas ilegalmente na Amazônia, a campanha de boicote aos produtos brasileiros atingiu a expressiva marca de 400 mil aderentes. Considerando-se o tamanho do público alvo e os impactos sociais da pandemia da COVID-19 na Europa, esse número de aderentes a uma campanha de boicote aos produtos brasileiros é uma sinalização de que, apesar das reticências do governo da Alemanha, vão existir crescentes dificuldades para não só ocorrer a ratificação do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, mas para a continuação das trocas comerciais já existentes.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Essa situação tenderá a piorar após o início das grandes queimadas que vão ocorrer na Amazônia em 2020 em poucas semanas. Além disso, o aumento do conhecimento sobre a “passada de boiada” que está sendo feita pelo improbo Ricardo Salles e que está avançando rapidamente no processo de destruição da regulação ambiental construída a duras penas no Brasil, como noticiado hoje pelo jornal Folha de São Paulo.

passa boiada

A pressa para desregulamentar é tanta que o artigo da Folha de São Paulo que apenas “entre março e maio  de 2020, o governo Bolsonaro publicou 195 atos no Diário Oficial —entre eles, portarias, instruções normativas, decretos e outras normas — relacionados ao tema ambiental“, sendo que “nos mesmos meses de 2019, foram apenas 16 atos publicados“.

Depois que a casa cair, que ninguém venha alegar inocência. Afinal de contas, já está mais do que claro tanto governos estrangeiros como as grandes corporações financeiros que controlam boa parte dos fluxos de capital não estão apreciando o desmanche ambiental que está ocorrendo no Brasil. 

TV ASCEMA promove debate sobre desmanche na gestão ambiental pelo governo Bolsonaro

*TV ASCEMA – Debate Ao Vivo #3 – 28/07 (HOJE) – 20h*

TV ASCEMA

HOJE (28/07), às 20h, na TV ASCEMA, debate ao vivo sobre a “Desmonte da gestão ambiental e o aumento do desmatamento no Brasil:  papel do monitoramento e da fiscalização ambiental”.

A convidada e os convidados para esse debate são especialistas em Meio Ambiente e discutirão a importância dos órgãos como o INPE, ICMBio e IBAMA no monitoramento e na fiscalização ambiental, e os impactos que desmonte vem causando.

Não percam! Participem pelos canais da  ASCEMA Nacional no  YouTube e no Facebook