Miguel Nicolelis debate destruição da soberania e da ciência no Brasil

nicolelis calé

Neurocientista mundialmente reconhecido, Miguel Nicolelis visita o Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, em São Paulo, na próxima terça-feira (25). Em debate, a destruição da soberania nacional e do futuro dos brasileiros. A atividade ocorre no auditório da entidade, situado na Rua Rego Freitas, 454, sala 83, próximo ao metrô República. Nicolelis contará com a companhia de Flávia Calé, presidenta da Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG).

Professor titular da Duke University (EUA), Nicolelis foi considerado um dos 20 maiores cientistas em sua área pela revista Scientific American e pela revista Época. Também foi o primeiro cientista a receber dois prêmios dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH) no mesmo ano, além de ser o primeiro brasileiro a ter um artigo de capa na revista Science. Na Duke University, atua como pesquisador do Instituto Internacional de Neurociências Edmond & Lilly Safra (IIN-ELS). Nicolelis lidera o consagrado projeto Walk Again – “Andar de novo”.

Apesar do eixo “Ciência e Tecnologia”, o bate-papo com Nicolelis e Calé deve abranger não somente os ataques ao setor, mas também ao desmonte institucional, a destruição e o entreguismo praticados pelo governo Bolsonaro. A entrada é livre, bastando preencher o formulário através deste link: clique aqui.

Para quem não puder comparecer, haverá transmissão online na página do Barão de Itararé (clique aqui).

Com informações da assessoria de imprensa do Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé.

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Este artigo foi originalmente publicado pelo Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo [Aqui!].

Mais de 340 organizações sociais demandam que a UE suspenda imediatamente as negociações comerciais com o Brasil

Mato Grosso, BrazilMato Grosso, Brasil – Foto de Icaro Vieira / CIFOR, cifor.org CC BY-NC-ND 2.0

Em uma carta aberta, mais de 340 organizações da sociedade civil estão exigindo que a União Européia suspenda imediatamente as negociações do acordo de livre comércio com o bloco Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai) com base na deterioração dos direitos humanos e condições ambientais no Brasil. A carta é dirigida aos presidentes das instituições da UE antes da reunião ministerial na próxima semana em Bruxelas, onde os ministros das Relações Exteriores da UE e do Mercosul pretendem finalizar as negociações.

“Caro Presidente do Conselho Europeu, Presidente da Comissão Europeia, Presidente do Parlamento Europeu,

Nós, as organizações da sociedade civil abaixo assinadas, estamos escrevendo para pedir à União Européia que use sua influência para evitar o agravamento dos direitos humanos e da situação ambiental no Brasil.

Em abril, mais de 600 cientistas europeus e duas organizações indígenas brasileiras, representando 300 grupos indígenas brasileiros, pediram que a UE atue como líder global no apoio aos direitos humanos, à dignidade humana e ao clima habitável, fazendo da sustentabilidade a pedra angular de suas negociações comerciais. com o Brasil. Nós apoiamos totalmente esta ligação.

Em conformidade com o Tratado da União Europeia, a UE e os seus Estados-Membros prometeram respeitar e promover os direitos humanos como um objectivo primordial nas suas relações com outros países. A comissária responsável pelo Comércio, Cecilia Malmström, também afirmou claramente a necessidade de novos acordos comerciais da UE para garantir um desenvolvimento sustentável.

Desde a inauguração do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, em janeiro de 2019, testemunhamos o aumento das violações dos direitos humanos, ataques a minorias, povos indígenas, LGBTQ e outras comunidades tradicionais. Além disso, a administração continua a ameaçar o funcionamento democrático básico da sociedade civil, enquanto instiga um ataque fundamental a algumas das regiões mais preciosas e ecologicamente valiosas do mundo.

Estamos profundamente preocupados com o seguinte:

  • A demarcação de terras indígenas foi colocada sob a jurisdição do Ministério da Agricultura, abrindo o caminho para que poderosos proprietários ligados aos setores da soja e gado acelerem sua varredura através da Amazônia, a maior floresta tropical do mundo e do Cerrado, a savana mais biodiversa do mundo. Embora essa medida controversa pareça ter sido temporariamente revertida em maio pelo Senado brasileiro, o presidente Bolsonaro ainda pode vetá-la.
  • Houve um aumento dramático nos ataques a povos indígenas, outras comunidades tradicionais e seus territórios. Em fevereiro, pelo menos 14 territórios indígenas protegidos foram atacados por invasores. Além disso, o governo aboliu mais de 35 conselhos nacionais de participação social. Ataques a pessoas que defendem seus territórios ou recursos naturais estão em ascensão no Brasil rural, resultando no aumento das mortes de líderes comunitários, camponeses e ativistas.
  • A promessa de campanha de Bolsonaro de “acabar com qualquer forma de ativismo” foi implementada em seu primeiro dia no cargo, capacitando o governo a “supervisionar, coordenar, monitorar e observar as atividades e ações de agências internacionais e organizações não-governamentais dentro do território nacional”.
  • Tanto o Ministério do Meio Ambiente quanto o Ministério das Relações Exteriores são agora liderados por negadores do aquecimento global, levando à abolição dos departamentos responsáveis ​​pelas mudanças climáticas. Mesmo que o Brasil continue sendo signatário do Acordo de Paris sobre mudanças climáticas, está se tornando improvável que a administração tome as medidas necessárias para implementar o acordo.
  •  A legislação e as políticas socioambientais foram drasticamente enfraquecidas durante os primeiros 100 dias do novo governo. O Código Florestal foi prejudicado com novas medidas que propõem a redução das reservas legais e um prazo mais flexível para a regularização fundiária por proprietários de terras. Em janeiro de 2019, o desmatamento na Amazônia aumentou 54% em relação ao mesmo período de 2018.

Atores da sociedade civil, ativistas, camponeses, trabalhadores e minorias enfrentam perigos extremos da retórica incendiária do governo de Bolsonaro e seus apoiadores. Isso inclui a rotulação de membros de movimentos populares como o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra e o Movimento dos Sem-Abrigo como “terroristas”, gerando preocupações de que a controversa lei antiterrorista do Brasil será usada para criminalizar os ativistas sociais.

A UE é o segundo maior parceiro comercial do Brasil, segundo maior importador de soja brasileira e grande importador de carne bovina brasileira e outros produtos agrícolas. A UE, portanto, tem a responsabilidade de abordar os direitos humanos e as injustiças ambientais que ocorrem no Brasil sob o governo Bolsonaro. Deve usar sua influência para apoiar a sociedade civil, os direitos humanos e o meio ambiente.

A UE está negociando um amplo acordo comercial do Mercosul que busca expandir o acesso ao mercado e o comércio entre as duas regiões, incluindo o Brasil. É imperativo que a UE envie uma mensagem inequívoca ao Presidente Bolsonaro de que a UE se recusará a negociar um acordo comercial com o Brasil até que haja um fim às violações dos direitos humanos, medidas rigorosas para acabar com o desmatamento e compromissos concretos para implementar o Acordo de Paris.

No passado, a UE suspendeu as preferências comerciais com países envolvidos em violações dos direitos humanos, como Mianmar e as Filipinas. Além disso, a UE restringiu as importações de produtos cuja produção está relacionada com a violação dos direitos humanos no caso dos minerais de conflito. É hora de a UE adotar uma postura semelhante e dura para evitar a deterioração dos direitos humanos e da situação ambiental no Brasil.

Por isso, pedimos que você:

  • Interrompa imediatamente as negociações para um acordo de livre comércio UE-Mercosul.
  • Garanta que nenhum produto brasileiro vendido na UE, nem os mercados financeiros que os sustentam, estão levando a aumentos no desmatamento, grilagem de terras nativas ou violações de direitos humanos.
  • Exija confirmação, com evidências materiais, de que o governo brasileiro cumprirá seus compromissos como parte do Acordo de Paris sobre Mudança do Clima.
  • Aumente o apoio à sociedade civil brasileira, incluindo o fortalecimento da implementação do Plano de Ação da UE sobre Direitos Humanos e Democracia e consultas pró-ativas com organizações da sociedade civil brasileira que tratam dos direitos humanos e do funcionamento democrático da sociedade civil brasileira.
  • Monitore e responda às violações dos direitos humanos – incluindo a investigação de casos desde a eleição de Bolsonaro – e fortaleça mecanismos para proteger os defensores dos direitos humanos. Para os que estão em maior risco, incluindo os povos indígenas e os defensores do ambiente, a UE deve prestar apoio direto e urgente sempre que necessário, inclusive através de representações políticas.
Atenciosamente,”
Para acessar lista de organizações signatárias, clique [Aqui!]
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Este artigo foi originalmente publicado em inglês pela GRAIN [Aqui!]

Sínodo da Amazônia: não é fácil passar pela selva

O Sínodo Amazônico no outono promete debates controversos: luta pelos direitos indígenas e contra uma economia exploradora, novas formas de organização interna da igreja, possivelmente padres casados.

DschungelwegOs bispos discutirão questões polêmicas no Sínodo da Amazônia, como o casamento de homens casados. Foto (trilha pela selva peruana): Circulação Adveniat / Tina Umlauf

É um “Sínodo Especial para a Amazônia”, diz Fabio Fabene, subsecretário do Sínodo dos Bispos, e não é de modo algum uma questão de impor uma “aparência amazônica” a toda a Igreja Católica. A Cúria quer diminuir as esperanças de uns e o temor de outros. Indiretamente, ele admite, no entanto, que a reunião do bispo de 6 a 27 de outubro pode ser mais explosiva do que a do Vaticano.

Proteção ambiental e dos povos indígenas

Com a publicação do documento de trabalho do Sínodo na segunda-feira, 17 de junho de 2019, o conteúdo das deliberações é relativamente claro. O original espanhol do chamado “Instrumentum laboris” tem o tamanho de um pequeno livro de bolso de 140 páginas e é dividido em três partes principais com os conceitos centrais da “voz da Amazônia”, “ecologia holística” e uma “igreja profética”. De acordo com o secretário-geral do Sínodo, cardeal Lorenzo Baldisseri, o documento tem como objetivo delinear as vidas de pessoas que são frequentemente vítimas de exploração e destruição ambiental, e de “desenvolver novas formas de promover a fé de forma mais eficaz”. Relacionada a isso está a questão de até que ponto a Igreja pode assimilar elementos ancestrais na pregação e adoração. Os bispos não podem evitar lidar com a superexploração na região rica em recursos, segundo a encíclica “Laudato si” (2015). Além de proteger os direitos dos povos indígenas, fenômenos sociais como migração, urbanização, mudança familiar e corrupção também estão na agenda.

Processo de consulta envolveu 78.000 pessoas

O presente documento de trabalho baseia-se em um processo de consulta mais longo. Por cerca de um ano, de acordo com Baldisseri em cooperação com a REPAM Rede do Panamá em 260 eventos no local, as questões e preocupações foram exploradas. Segundo o cardeal peruano e vice-presidente da REPAM, Pedro Barreto Jimeno, 87 mil pessoas participaram desse parecer. Expectativas de resultados concretos e declarações claras devem ser igualmente amplas. O documento de trabalho fala da necessidade de enfrentar o “problema do poder” como igreja. Os povos da região amazônica “não têm oportunidade de afirmar seus direitos em relação às grandes empresas e instituições políticas”. Este ponto também deve ser lido contra o pano de fundo que o presidente populista de direita do Brasil, Jair Bolsonaro, considerou a floresta amazônica principalmente como um recurso econômico e liberalizou a lei de armas. Veio antes de Bolsonaro entre 2002 e 2017 no Brasil segundo dados católicos 1.119 índios na defesa de seus direitos na vida. A Igreja, por outro lado, não pode ficar indiferente, diz o documento do sínodo.

Discussão sobre os ministérios eclesiásticos para casados ​​e mulheres

O anúncio fornece interesse que deve ser debatido no sínodo sobre os padres casados ​​e papéis de liderança para leigos católicos. A subsecretária Fabene enfatizou, por precaução, que o papa Francisco havia excluído a abolição geral do celibato obrigatório para os padres. “Ninguém quer questionar o celibato”, diz Fabene. No entanto, a falta de celebrações eucarísticas devido à falta de padres é percebida como um “estado de emergência”. O Sínodo está agora considerando a possibilidade de permitir que pais idosos e respeitados se consagrem em áreas remotas, a fim de garantir o cuidado sacramental. Neste “momento histórico” novos espaços para escritórios eclesiásticos se abrem, diz no jornal – também para mulheres. O diaconado não é mencionado, enfatiza Fabene.

Enquanto isso, observadores conservadores católicos temem que, com uma apreciação maior das culturas indígenas, talvez práticas questionáveis ​​ou até crenças alienígenas possam entrar na igreja. Para estes, em vez de expandir os ofícios eclesiásticos, é melhor rezar pelas vocações. Um jornalista também perguntou na apresentação do documento de trabalho se a Teologia da Libertação aumentaria novamente. De qualquer forma, o sínodo pode contar com juros.

Amazon Adveniat Latin America Synod Repam
A organização de ajuda à América Latina Adveniat faz parte da rede eclesiástica Repam especialmente para o futuro dos povos ameaçados e da criação na Amazônia. Mais informações e projetos sob este link

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Este artigo foi originalmente publicado em alemão pela Adveniat [Aqui!]

A cobertura fragmentada da greve geral indica sucesso da mobilização contra a reforma da previdência

Estou desde cedo acompanhando a cobertura altamente fragmentada do dia de greve geral em diferentes partes do Brasil, e não há como deixar de notar que os principais veículos da mídia corporativa brasileira estão fazendo um esforço hercúleo para não deixar que a população saiba o que realmente está se passando.

Esse esforço é parte de uma aritmética mais ampla, pois os grandes grupos de mídia são parceiros do governo Bolsonaro na imposição de uma contrarreforma que causará graves danos aos trabalhadores e a própria economia brasileira.  

Por isso, a cobertura fragmentada e concentrada em vias de circulação onde há “certa normalidade” como falam os jornalistas que cobrem as manifestações. Também o recurso de visitar pontos de acesso a transportes públicos onde pessoas “sofrem” as consequências do movimento.  

Essa não é a primeira vez que a mídia corporativa brasileira se comporta mais como desinformadora do que informadora, nem deverá ser a última. É que os donos desses veículos são parceiros da desnacionalização da nossa economia, e da voracidade rentista que abocanha a riqueza nacional.

Para nos informarmos melhor, o caminho será aguardar a cobertura da mídia internacional, especialmente daqueles veículos que possuem “sucursais” no Brasil, como o espanhol “El País“, a alemã “Deutsche Welle“, a inglesa “BBC” e a francesa “Rede França Internacional“.

Uma coisa que é possível ver, para além das névoas da desinformação que a mídia brasileira impõe a partir do acompanhamento das redes sociais, é a força do movimento em determinados estados e a relativa fragilidade em outros.  Esta diferença se deve principalmente ao nível de engajamento heterogêneo das centrais sindicais nos estados onde são hegemônicas esta ou aquela força política.  Identificar onde o movimento foi sabotado pela omissão de determinadas centrais sindicais será fundamental para os inevitáveis próximos capítulos que ainda ocorrerão ao longo de 2019.

Revista Veja joga Sérgio Moro ao mar

moro bolsonaro

Sérgio Moro, em um esforço de sobrevivência, veste a camisado Flamengo durante partida realizada no estádio Mané Garrincha pelo Campeonato Brasileiro de 2019. 

A capa da nova edição da revista “Veja” deve acabar com todas as dúvidas que ainda existiam na cabeça do ex-juiz federal e atual ministro da (in)Justiça do governo Bolsonaro, Sérgio Moro, quanto ao nível de degradação da sua antes impenetrável aurea política (ver imagem abaixo).

moro ao mar

Esta capa é uma sinalização objetiva de que parte das elites brasileiras decidiu jogar Sérgio Moro ao mar onde tubarões sequiosos por sua pele e sangue o aguardam ansiosamente.

Esta minha avaliação não foi feita apenas com base na esfinge desmoronando que ornamenta a capa da edição, mas pelo uso da definição “claras transgressões” para o que o site “The Intercept” divulgou até agora, e que seus editores dizem ser uma parte desprezível do documento que lhes foi entregue.

As recentes declarações de Sérgio Moro de atacar as revelações do “The Intercept” como sendo sensacionalistas e politicamente motivadas me lembram o caso daquele paciente que sabe que está nos últimos minutos de sua vida e resolve levantar do leito de morte para dar uma bananeira na ânsia de mostrar que sua situação não é tão desesperadora quanto parece.

Algumas questões intrigantes permanecem no ar, a começar por quem de dentro da própria “Operação Lava Jato” resolveu acumular toneladas de informações indiscretas e depois repassá-las ao “The Intercept”, e termina em quem poderá ser o próximo (ou seria próxima?) ministro da (in) Justiça do governo Bolsonaro. 

As próximas dias ou semanas (a depender do ritmo de revelações do “The Intercept”) vão nos mostrar isso. Enquanto, a mídia corporativa vai tentar continuar com seu jogo de espelhos e fumaça para tentar nos convencer que os culpados são os russos. Apesar do fato de que o único “russo”  nesse imbróglio é o ainda ministro Sérgio Moro que tem tinha esse estranho apelido no grupo de procuradores da “Lava Jato”.

Brasil aprova centenas de agrotóxicos proibidos na Europa

Jair Bolsonaro aprovou centenas de novos pesticidas e herbicidas, a maioria proibida na Europa, desde que tomou posse em janeiro. Um estudo conclui ainda que foram aprovados mais de mil desde 2016.

agrotóxicos

Pela Rádio e Televisão de Portugal (RTP)

Uma investigação da Unearthed descobriu que, entre os mais de 1200 pesticidas e herbicidas registados no Brasil nos últimos três anos, incluem-se 193 que contêm produtos químicos proibidos na União Europeia.

De acordo com a investigação, até 21 de maio deste ano “169 produtos foram aprovados desde a eleição de Bolsonaro”. Mas já em 2018, “último ano de Temer no cargo, 450 novos produtos pesticidas foram aprovados pelo Ministério da Agricultura”, o que leva a crer que o “novo governo está a manter a mesma taxa de aprovação”.

Destes 169 novos produtos homologados, pelo menos 78 contêm ingredientes ativos (substâncias que causam um efeito biológico ou químico) classificados como altamente perigosos pela Pesticide Action Network e 24 contêm ingredientes ativos que são proibidos na UE.

“Dados oficiais mostram um aumento significativo nas aprovações de novos pesticidas ambientalmente perigosos, sob os governos de Michel Temer e do atual presidente Jair Bolsonaro”, refere o estudo.

O estudo realça ainda que ambos os líderes brasileiros “estão próximos do poderoso lobby do agronegócio no Brasil”.

O Brasil começou a acelerar as aprovações de pesticidas em setembro de 2016, quando Michel Temer assumiu a presidência. Desde então, foram sancionados 1270 pesticidas – o dobro comparativamente ao valor dos quatro anos anteriores a 2016. E a Unearth, com base nos dados do Ministério da Agricultura do Brasil, descobriu que pelo menos 193 desses produtos continham ingredientes ativos proibidos na Europa.

Além disso, “quase metade de todos os produtos aprovados desde a posse de Bolsonaro contêm ingredientes ativos apresentados na lista de pesticidas altamente perigosos da Pesticide Action Network (PAN), indicando que representam um risco para a saúde humana ou para o meio ambiente”.

“Parece que aceleraram o processo de aprovação”, disse ao jornal britâncio The Guardian o toxicologista da Universidade da Califórnia, David Eastmond. “Alguns deles são altamente perigosos e isso gera preocupação”.

A investigação da Unearthed Greenpeace adianta ter descoberto que empresas estrangeiras, como as alemãs Helm BASF ou a chinesa Adama, “registaram produtos do Brasil que contêm produtos químicos que não seriam aprovados nos seus países”.

Pesticidas proibidos causam preocupação

O Governo de Jair Bolsonaro, de extrema-direita, tem tentado alterar as regras sobre a utilização de pesticidas. Mas “o Brasil tem uma das mais ricas biodiversidades do planeta e há preocupações de que o uso disseminado de pesticidas no país possa ter grandes consequências para a vida selvagem e o meio ambiente do país”, alerta o estudo.

“Todas as semanas novos pesticidas são registados. Além de contaminar o nosso solo, a nossa água e afetar negativamente a nossa saúde coletiva, é absurdo o governo brasileiro permitir que empresas estrangeiras vendam produtos que contêm substâncias químicas proibidas nos seus mercados”, disse Sónia Guajara, uma ativista e líder da Articulação dos Povos Indígenas no Brasil.

O Brasil é dos maiores compradores de pesticidas e ainda permite a utilização de muitos “agrotóxicos” que já foram proibidos nos outros países. Mas o problema não se resume ao Brasil. Várias empresas estrangeiras têm pesticidas aprovados no Brasil que são proibidos ou sujeitos a restrições nos seus próprios países, descobriu a Unearthed.

Muitos mercados e grandes consumidores estrangeiros estavam a vender produtos brasileiros que eram proibidos nos seus mercados internos.

Por exemplo, uma cadeia de supermercados sueca de produtos naturais e orgânicos suspendeu a venda de produtos brasileiros, devido à crescente aprovação de pesticidas e à “ameaça que Bolsonaro representa para a floresta amazónica”.

Já na Alemanha, a empresa Helm registou, desde setembro de 2016, nove produtos do Brasil que não tinham licença para vender no seu país. Um desses produtos era o “controverso produto químico ‘paraquat’ – proibido na Europa desde 2007 e associado à doença de Parkinson”.

No passado mês de maio, a ministra da Agricultura do Brasil, Tereza Cristina Dias, disse no parlamento que os governos anteriores foram impedidos de aprovar pesticidas por um “processo ideológico”, defendendo a utilização de glifosato (um herbicida classificado como “provavelmente cancerígeno para humanos”).

O Ministério da Agricultura propôs o chamado “pacote de veneno” que visa a desregulamentação dos pesticidas, passando a ser apenas necessária a aprovação do Ministério.

No entanto, a Unearthed ressalva que não é só no Brasil que se vendem produtos proibidos na UE. Praticamente todos os produtos aprovados no Brasil foram recentemente aprovados também na China.

Um outro estudo, que considera os EUA, a UE, o Brasil e a China os quatros maiores produtores agrícolas, diz que mais de 500 pesticidas agrícolas foram identificados nestes países. 

Os pesticidas proibidos na UE representam mais de um quarto de todo o uso de pesticidas nos EUA, refere o estudo. E “dos pesticidas usados na agricultura nos EUA em 2016, 322 milhões de quilos foram de pesticidas proibidos na UE”.

Em conclusão, a Unearthed afirma que “dos produtos registados no Brasil desde que Bolsonaro assumiu o cargo, 14% contêm produtos químicos explicitamente proibidos na EU”.

O uso de pesticidas não aprovados na Europa gera preocupação tanto com o impacto do seu uso na biodiversidade como na saúde pública.

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Esta reportagem foi originalmente publicada pela RTP [Aqui!]

Ricardo Salles brinca com fogo ao arriscar provocar a fúria da Alemanha e da Noruega por causa do Fundo Amazônia

Ricardo Salles em seu apartamento nos Jardins, em SP

Ricardo Salles pode estar metendo as mãos pelos pés ao tentar interferir no modelo de governança do Fundo Amazônia.

Pode ser até redundância dizer que o ainda ministro (ou seria antiministro?) do Meio Ambiente, Ricardo Salles, está brincando com fogo ao arriscar provocar a fúria dos governos da Alemanha e da Noruega por causa da sua intenção de se introjetar no funcionamento do Fundo Amazônia, dos quais os dois países europeus são os principais financiadores.

Ao que parece, como tantos outros ministros do governo Bolsonaro,  Ricardo Salles acha que pode brincar de cabra cega com a Alemanha e a Noruega, mas  a verdade é que não pode. Por isso, a educadíssima carta conjunta que foi enviada pelos embaixadores Nils Gunneng (Noruega) e Georg Witschel (Alemanha) deveria ser vista pelo que ela realmente é, um aviso delicado, mas ainda assim um aviso (ver carta abaixo).

cartaintegra

Em um dos parágrafos mais diretos a Ricardo Salles, os embaixadores dizem que “a estrutura de governança do Comitê Executivo serviu bem ao Fundo Amazônia por mais de 10 anos. No mesmo período, os governos da Alemanha e da Noruega doaram mais de R $ 3,3 bilhões ao Fundo. A estabilidade e a transparência dos marcos regulatórios e dos processos de tomada de decisão é o que incute a confiança necessária que permite que doadores e investidores continuem fazendo esse tipo de investimentos e parcerias de longo prazo.” E eles acrescentam que “é dentro desses parâmetros que os governos da Alemanha e da Noruega avaliarão as mudanças propostas para a governança do Fundo Amazônia“.

Em palavras mais doces, os embaixadores Gunneg e Witschel estão dizendo algo como “não mexa em time que está ganhando ou arrisque a perder os generosos aportes que a Alemanha e a Noruega vem fazendo ao longo da existência do Fundo Amazônia”.

Para um ministro que mistura incompetência e arrogância em níveis raramente encontrados até para os padrões brasileiros, Ricardo Salles certamente tenderá a achar que R$ 3,3 bilhões são ninharia frente aos negócios que a sua política de desmantelamento da governança ambiental brasileira poderá gerar. Mas é aí que talvez resida o maior engano de Salles e seus mentores no governo Bolsonaro e fora dele. É que a suspensão dos aportes no Fundo Amazônia seria apenas o primeiro passo de um longo e penoso processo de represálias que deverão ser implementadas para punir a gestão irresponsável das florestas amazônicas.

Como convivi com dirigentes de instituições de pesquisa da Alemanha, sei que por detrás do alto preparo intelectual e da forma fina de se comportar existem indivíduos que não hesitam em se fazer ouvir acerca de assuntos estratégicos, especialmente quando envolvem bilhões de euros e o futuro do clima do planeta.  Por isso,  Ricardo Salles não deveria estar brincando com fogo, pois arrisca não apenas a sair pessoalmente chamuscado, como ainda causar danos incalculáveis à economia brasileira. Quem viver, verá.

 

Três tweets de Glenn Greenwald e uma certeza: vem chumbo grosso por aí!

O jornalista Glenn Greenwald já avisou que há mais chumbo para vir para cima do ex-juiz Sérgio Moro.

O jornalista Glenn Greenwald é uma pessoa reconhecidamente habilidosa no que faz, e está resistindo às pressões de cair na tentação de sair disparando mais matérias sobre o escândalo envolvendo o juiz Sérgio Moro e os procuradores do Ministério Público Federal que encabeçam a antes conhecida operação “Lava Jato”, que se transformou em “#VazaJato” após o início da série de reportagens do site “The Intercept”.

Mas quem foi à página oficial que Glenn Greenwald na rede social Twiter poderá verificar que Greenwald não está para brincadeiras, e que possui sim muito mais chumbo para disparar nos próximos dias e semanas, e, de forma subliminar, indica parte dos próximos alvos que podem estar em sua mira.

Veja a série de tweets abaixo:

Nesses tweets não só está claro que a equipe do “The Intercept” está trabalhando cuidadosamente na produção de novas matérias e que está fazendo isso de forma judiciosa, de forma a evitar erros que seriam úteis a quem não quer mais informações sobre as estripulias de Sérgio Moro e do pessoal da “#VazaJato” cheguem ao conhecimento público.

Mas essa pequena série de tweets também apontam para o que me parece serem dois alvos básicos das reportagens que ainda não foram publicadas. O primeiro alvo é obviamente o juiz Sérgio Moro que deverá ter sua capa de paladino justiceiro ainda mais esgarçada do que já foi.

O segundo alvo é a mídia corporativa brasileira, capitaneada pelas Organizações Globo, que cumpriu o papel de avalista cega de todas as incontáveis “fases” da “#VazaJato” e dos métodos nada ortodoxos que o ex-juiz Sérgio Moro utiliza para alcançar suas finalidades.

E como bem indicam os tweets acima, o negócio é ter calma e esperar pelas próximas reportagens sem muita ansiedade ou pressa. Bom, isto, se você não for o juiz Sèrgio Moro ou o procurador Deltan Dallagnol. É que para esses a ansiedade será inescapável, principalmente se eles já tiverem lido os tweets que estão mostrados acima.

Salles, o ‘mentinistro’ do meio ambiente

Conheça as mentiras frequentes do mentinistro Ricardo Salles e previna-se contra elas.

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Mentira: O agricultor brasileiro é quem mais preserva no mundo e o Brasil é o país que mais protege o meio ambiente.

Fato: O Brasil é o país que mais desmata no mundo em termos absolutos. Somente em 2018, o país perdeu 17 mil quilômetros quadrados de vegetação na Amazônia e no cerrado. Nos últimos 35 anos, a área de florestas em propriedades privadas declinou 20%, contra 0,5% em áreas protegidas. Há 20 países que protegem mais seus ecossistemas que o Brasil.

Mentira: Mudança climática é uma discussão acadêmica.

Fato: O mundo esquentou cerca de 1oC desde 1880. O Brasil esquentou 1oC em apenas 60 anos. Os últimos quatro anos foram os mais quentes já medidos e 18 dos 20 anos mais quentes da história aconteceram neste século. O aquecimento global já foi diretamente implicado em fenômenos extremos como os furacões Harvey e Maria e ondas de calor no hemisfério Norte.

Mentira: Ambientalistas são representantes de interesses comerciais contrários ao agro brasileiro.

Fato: Um documento norte-americano intitulado Farms here, forests there, brandido por ruralistas como prova do conluio, diz apenas que políticas de combate à mudança do clima, ao promoverem a redução do desmatamento tropical, acabariam por beneficiar o agro dos EUA. Não há menção a ONGs no texto.

Mentira: O juiz que me condenou é de esquerda, citou Marx na sentença.

Fato: A citação a que o ministro se refere é do dicionário Houaiss, não de Marx. O juiz rebate na peça a alegação de Salles de que a oposição à sua tentativa de mudar o plano de manejo da APA da Várzea do Tietê foi movida por “ideologia”. Para isso, vai buscar no dicionário a “definição marxista de ideologia”.

Mentira: Os sistemas atuais de monitoramento não conseguem distinguir desmatamento legal do ilegal.

Fato: Os sistemas de monitoramento dos biomas brasileiros são referência mundial em vigilância de florestas e desde 2004 embasam a fiscalização do Ibama. O desmatamento foi reduzido com sucesso no Brasil entre 2005 e 2012 graças ao uso dessas informações pela fiscalização.

Mentira: O Ibama age ideologicamente e aplica multas erradas que são anuladas depois.

Fato: O Ibama não pune infratores por “ideologia”, mas porque esta é a razão de sua existência. O número de multas anuladas por erro nesta década nunca ultrapassou 4% do total aplicado, segundo os relatórios de gestão do próprio órgão, disponíveis no site do Tribunal de Contas da União.

Mentira: O Acordo de Paris tem elementos que violam a soberania do Brasil.

Fato: O Acordo de Paris foi assinado por 196 países voluntariamente. E isso só aconteceu porque o acordo não viola a soberania de país nenhum. As metas de corte de emissão foram determinadas domesticamente por cada país – daí seu nome ser “contribuições nacionalmente determinadas”.

Mentira: O Ibama aplicou R$ 154 bilhões em multas e só arrecadou R$ 60 milhões nos últimos seis anos.

Fato: Desde 2013, o Ibama lavrou R$ 19,1 bilhões em multas e arrecadou R$ 821,3 milhões, segundo dados públicos do próprio órgão.

 

 

 

 

Falso: O principal problema ambiental do Brasil está nas cidades, não no campo.

Fato: A dicotomia é falsa. Mais de 70% das emissões de gases de efeito estufa do país são geradas pela atividade agropecuária. O mau uso da terra causa assoreamento de rios, que deixa as cidades sem água. A perda de florestas prejudica a qualidade de vida nas áreas urbanas. Ao mesmo tempo, a poluição do ar e dos rios geradas nas cidades prejudicam os ambientes naturais.

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Esta reportagem foi inicialmente publicada pelo ClimaInfo [Aqui!].

 

 

Johannes Cullberg leva sua campanha contra o excesso de agrotóxicos na comida brasileira para o Facebook

cullbergJohannes Cullberg, fundador e CEO da rede de supermercados Paradiset, que baniu produtos brasileiros por causa do excesso de agrotóxicos, também lançou grupo no Facebook para aumentar pressão sobre o governo Bolsonaro.

O fundador e CEO da rede de supermercados sueca Paradiset, Johannes Cullberg, não parou apenas na decisão de remover das suas prateleiras alimentos produzidos no Brasil por causa da farra de liberação de agrotóxicos altamente tóxicos que está sendo comandada pela ministra Tereza Cristina (DEM/MS) a serviço da bancada ruralista.

É que para aumentar a divulgação de sua campanha em prol do banimento dos alimentos brasileiros até que se tome alguma medida para diminuir a contaminação por agrotóxicos, muitos deles banidos na União Europeia, Cullberg levou a sua batalha em prol de alimentos saudáveis para a rede social Facebook com a criação do grupo “#BoycottBrazilianFood”  (ver imagem abaixo).

cullberg facebook

A posição e as razões da criação do #BoycottBrazilianFood ficam claras na descrição do grupo onde está dito que “Inscreva-se e compartilhe com seus amigos para reunir o maior número possível de pessoas. O uso de agrotóxicos perigosos na produção de alimentos brasileira precisa parar agora! Só em 2019, 197 pesticidas foram aprovados pelo Sr. Bolsonaro. Isso põe em perigo a saúde da população brasileira, o meio ambiente e nosso planeta como um todo. Este é um convite a todos para se juntarem e mostrarem ao senhor Bolsonaro que já chega! Ele não deveria ter mais permissão para destruir nosso planeta e nossos filhos!

É como eu tenho dito aqui após essa verdadeira orgia de aprovações de agrotóxicos banidos em outras partes do mundo: o Brasil corre o risco de se tornar um pária ambiental no circuito das Nações, e de sofrer um forte boicote sanitário a seus produtos agrícolas em função da posição irresponsável de apostar em um modelo agrícola viciado em agrotóxicos.

Agora,  para mim é quase certo que a partir do movimento iniciado pelo fundador da rede Paradiset, outros empresários e dirigentes de cadeias de supermercados europeus (especialmente aquelas comprometidas com a comercialização de produtos orgânicos, mas não só elas) venham a adotar posições semelhantes. Se isso acontecer, o governo Bolsonaro e a bancada ruralista que pressiona pela adoção de medidas regressivas contra a conservação ambiental serão os principais responsáveis.

Finalmente, fico curioso sobre o silêncio dos donos e dirigentes das grandes cadeias de supermercados que atuam no Brasil e que, até agora, estão completamente calados em relação à aprovação de tantos agrotóxicos banidos em outras partes do mundo. Precisamos ter uma rede de supermercados sueca para soar um alarme que deveria ter sido soado primeiro no Brasil.  Haja descompromisso com a nossa saúde.