Lula indo do jeito que quer para as masmorras de Sérgio Moro

Possuo grandes diferenças com a linha política que o ex-presidente Lula aplica no plano estratégico, mas não tenho como negar seu brilhantismo tático. Nesse aspecto, Lula é um gênio sem par na política mundial.

Ao ter determinada a sua prisão, o que faz Lula? Ignora a oferta supostamente gentil de seu algoz e se abriga no sindicato onde começou sua ascensão política. Ali, em São Bernardo, Lula dá mais uma lição aos seus amigos e inimigos sobre sua incrível capacidade de responder às adversidades.

No vídeo abaixo, a síntese dessa capacidade com Lula sendo carregado nos ombros pela militância. Alguém já tinha visto alguém se preparar para ser preso dessa forma?

Discordo daqueles que veem no dia de hoje, um momento de derrota de Lula e da esquerda. É que Lula se introjetou de vez nas eleições de 2018 e continuará sendo um elemento capital, mesmo estando incomunicável nas masmorras de Sérgio Moro. Além disso, ao levantar os braços de Guilherme Boulos (PSOL) e de Manuela D´Ávila no ato desta manhã em São Bernardo do Campo, Lula já sinalizou que o seu apoio político poderá ir para além do PT, no que significaria uma restauração de uma ampla aliança da esquerda brasileira.

Agora, se Lula for solto da prisão em poucos meses, é muito provável que saia das masmorras de Sérgio Moro com o capital político intacto e potencialmente aumentado. Caso isto se confirme, é muito provável que ele ainda consiga votos suficientes para ser eleito para presidir o Brasil mais uma vez. A ver!

Nova esquerda ou esquerda neoliberal?

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Ainda refletindo sobre a indicação de Guilherme Boulos para ser o candidato do PSOL para presidente do Brasil,  vejo que essa opção pelos dirigentes do partido abre espaço para uma reflexão mais ampla sobre o que vem a ser, ao menos no caso brasileiro, o aparecimento de um suposta “nova esquerda” que é uma referência clara a uma suposta superação da “velha esquerda”.

Como ando lendo uma série de materiais sobre a economia política do Neodesenvolvimentismo,  tenho visto vários autores associando os anos Lula/Dilma a uma opção pela manutenção do estado neoliberal que foi inaugurado por Fernando Collor, aprofundado por Fernando Henrique Cardoso, e mantido de forma dissimulada por Lula, e explicitado por Dilma Rousseff.

É bom lembrar que no período em que perdurou o Neodesenvolvimentismo lulista, qualquer cidadão que ousasse criticar as políticas do governo de conciliação de classes centrado nas parcerias público-privadas era logo rotulado de “ultra esquerdista”. Esse rótulo era aplicado sobre uma gama de posições, que iam desde os setores moderados do PSOL até os mais radicais do PSTU.  Todos cabiam no balaio do ultraesquedismo dos neopetistas.

Dada a hegemonia mantida pelo PT na classe trabalhadora  brasileira é evidente que o rótulo de ultra esquerdista colou e pressionou os partidos de esquerda que não aderiram, ou foram excluídos propositalmente, das alianças engendradas por Lula. Essa pressão fez com que houvesse o fortalecimento de posturas identitárias que passaram a excluir a classe social como elemento norteador das estratégias de luta política.  Nesse sentido, o PSOL passou a ser o lócus de todo tipo de luta identitária em detrimento da luta de classes e da unificação das lutas que os trabalhadores realizam mundialmente.  

Um exemplo extremo disso é o ex-BBB e deputado federal Jean Willys que passou a cumprir o papel de defensor “pela esquerda” do estado de Israel (ironicamente um dos ícones da defesa de Israel  “pela direita” é Jair Bolsonaro) , basicamente pelas supostas liberdades que os gays desfrutam naquele país. Nem as centenas de crianças  transformadas em prisioneiras por Israel para sufocar a luta pela libertação nacional palestina parecem comover Jean Willys e, muito menos, a leva-lo a questionar o caráter anti-democrático das políticas do governo israelense.  E os que ousam questionar essa posição claramente míope acabam sendo duramente atacados nas redes sociais, como foi o caso recente de Milton Temer.

Mas o parlamentar fluminense está longe de ser um caso solitário. É que, com raras exceções, a maioria dos poucos parlamentares eleitos pelo PSOL se vale desta ou daquele identidade para angariar votos. Já os que centram sua ação pelo viés da classe são inexistentes.

Uma decorrência adicional dessa opção pela identidade é que quando o problema é claramente de classe, a nova esquerda  identitária simplesmente se dissolve e desaparece da cena política. Um exemplo disso foi a luta dos servidores do Rio de Janeiro para receberem seus salários em 2017. Ainda que os parlamentares do PSOL  na Alerj fossem os mais vocais na defesa dos servidores, o PSOL como partido nunca deu exatamente as caras nos muitos atos realizados sob forte repressão policial.   Uma explicação para mim é que salário lembra classe e ultrapassa as eventuais identidades contidas dentro dos servidores públicos, tornando a luta dos servidores em uma pauta desinteressante.

O interessante é que quanto mais o capitalismo se financeiriza, mais suas práticas anti-trabalhadores se aprofundam. Vivemos efetivamente um período de extrema reação política cujo o saldo é ampliar a extração da chamada “mais valia”, o que contribuiu para a precarização exponencial da condição de vida dos trabalhadores. Mas sobre isso, a “nova esquerda” não quer ou não tem condições de abordar.  É que se fizer isso, os postulados pós-modernos e pós-classe da nova esquerda serão reduzidos à insignificância e as múltiplas identidades que eles legitimam serão mostradas como o que realmente são, um abandono da classe como elemento de formulação política.

Lamentavelmente num contexto histórico tão complexo, a supremacia da “nova esquerda” desarma os trabalhadores do cidade e do campo e os torna “sitting ducks” das forças mais reacionárias que sustentam o atual modelo de exploração neoliberal.  

A candidatura Boulos é o ocaso do PSOL

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Acompanho os caminhos e descaminhos do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) desde a sua criação em 2004. Ao longo dos anos dei aos candidatos do PSOL a maioria dos meus votos por ver neles elementos fundamerntais para ter no parlamento e nos governos de diferentes níveis gente comprometida com a luta política necessária para avançar os direitos da maioria pobre da nossa população.  

Ao contrário do que muitos pensam, nunca fui militante ou sequer filiado do PSOL. A razão para isto era e continua sendo simples: nunca vi no PSOL a capacidade de formulação para fazer avançar no Brasil um projeto de transformação estrutural que efetivamente armasse politicamente a classe operária, o campesinato e a juventude brasileira. É que perdido em escolhas identitárias, aproximações com artistas famosos e concessões para cooptar parlamentares saídos de várias agremiações (a começar pelo PT), o PSOL acabou se tornando uma espécie de “Viuva Porcina” da esquerda brasileira, aquela personagem da novela “Roque Santeiro” que deixou de ser, sem nunca ter sido [1].

Agora, premida pela necessidade de se viabilizar eleitoralmente e garantir as benesses facultadas financeiras apenas aos partidos que logram angariar mais votos nas eleições burguesas no Brasil, a maioria da direção do PSOL acaba sacrificando qualquer possibilidade de sair do papel de eterna Viuva Porcina em nome da candidatura do líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Guilherme Boulos, que está se filiando ao partido prioritariamente para viabilizar sua candidatura presidencial.

Ao fazer este movimento eleitoral, a maioria da direção do PSOL não apenas abandona a tarefa de  desenvolver uma linha política que arme o partido para além das questões identitárias particularistas, como também impõe uma subordinação da ação política do partido a alguém que efetivamente não participou de sua construção.  E como Guilherme Boulos não esconde sua admiração pelo ex-presidente Lula, há ainda o fato inescapável de que o PSOL efetivamente se ajusta a um papel de linha auxiliar do PT para um eventual segundo turno das eleições presidenciais de 2018.  É que na ocorrência de um segundo turno nas eleições presidenciais, a possibilidade de um dos participantes ser Boulos é bem próxima de zero, numa situação diametralmente oposta à uma eventual candidatura de Lula ou de algum “poste” indicado por ele.

Querendo ou não, o que a maioria da direção está fazendo é encerrar precocemente o ciclo de partido autônomo e democrático do PSOL em troca de viabilidade eleitoral. Como eleições no Brasil não passam de um teatro mal ensaiado, ao fazer esta opção a direção do PSOL está conscientemente aniquilando o partido enquanto um instrumento efetivo de luta da classe operária brasileira. Quando muito o PSOL será um canal por onde pautas identitárias, e por isso limitadas em seu alcance político, serão veiculadas. E isso no atual contexto histórico, convenhamos, é muito pouco ou quase nada.

Aos setores do PSOL que querem ir além das vitórias e derrotas eleitorais para investir na construção de um partido que seja efetivamente útil para a luta política em prol de transformações estruturais na sociedade brasileira, o caminho parece bem pedregoso. Ou se ajustam a uma candidatura alienígena ditada por interesses meramente eleitorais, ou poderão ter o mesmo destino que muitos já enfrentaram antes no PT.   Melhor que escolham o segundo caminho, pois talvez assim ainda possamos ter a oportunidade de começar a construir um partido que se oriente por valores universais e orientado pelo conteúdo de classe de suas ações.


[1] https://pt.wikipedia.org/wiki/Roque_Santeiro

 

 

A “Pátria Educadora” e a greve nas universidades

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Por Guilherme Boulos

No dia 1º de janeiro, Dilma Rousseff anunciou o novo lema de seu governo: “Pátria Educadora”. Uma semana depois, tornou público o primeiro corte orçamentário do ano, mais de R$20 bilhões. A área mais afetada: Educação.

Enredo curioso este. E não parou por aí. Em fevereiro, o MEC bloqueou um terço das verbas das universidades federais, afetando o funcionamento de serviços básicos como limpeza, água, luz, materiais de secretaria, além de bolsas de estudo, e fez corte nos salários de funcionários terceirizados. No caso da pós-graduação, o contingenciamento chegou a 75% das verbas previstas.

A situação só tem se agravado ao longo do ano. Em junho, a reitora da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), Soraya Smaili, afirmou em nota ter sido surpreendida “com um corte violento em nosso orçamento, que poderá comprometer e adiar diversas ações”.

Em julho, o reitor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) foi claro em dizer que a maior federal do país não terá condições de funcionamento, a partir de setembro. Semana passada, a UFF (Universidade Federal Fluminense) teve que interromper as atividades pelo corte de energia elétrica. Não havia dinheiro para pagar as contas.

Neste cenário, era de se esperar mobilização e resistência. E foi o que ocorreu quando docentes das universidades (representados pelo Andes -Sindicato Nacional), servidores técnicos das federais (representados pela Fasubra) e professores e técnicos dos Institutos Federais (representados pelo Sinasefe) entraram em greve nacional, desde o dia 28 de maio.

A legitimidade dessa greve é inquestionável. Além das demandas salariais, de condições de trabalho e reestruturação da carreira, o que está em jogo é o futuro da universidade pública brasileira. Este caráter não corporativo da greve expressou-se no envolvimento de estudantes em todo o país. Os cortes do ajuste fiscal estão sufocando o ensino superior. A tesoura de Levy picotou a “Pátria Educadora”.

A greve também busca pautar questões de fundo como o avanço das “organizações sociais” (OS) na universidade pública – impulsionado pela decisão do STF que permite contratação de professores sem concurso -e a “financeirização” do ensino superior, expressa na formação de conglomerados educacionais com capital aberto, que tratam a educação como mercadoria nua e crua.

Esses grupos privados têm recebido fatia expressiva do investimento federal em educação, através de programas como o Prouni e o Fies. É verdade que houve uma importante expansão de vagas nas universidades federais, mas que não veio acompanhada dos investimentos necessários em infraestrutura e da contratação de professores e técnicos. O ajuste fiscal agrava ainda mais esta situação, comprometendo o funcionamento básico das instituições.

Vemos os mesmos cortes ocorrerem nas universidades estaduais. Em São Paulo, USP, Unesp e Unicamp tiveram redução do repasse orçamentário em 2015. Quando se trata de responder à crise econômica com corte de verbas na educação, os governos parecem falar a mesma língua.

Fazem três meses desde o início da greve nas federais. Apesar da paralisação continuar firme em 47 universidades e do conjunto de mobilizações, Dilma não deu qualquer sinalização aos docentes e servidores técnicos.

O mínimo a se esperar seria a suspensão imediata dos cortes que estão impedindo o funcionamento das instituições de ensino e o diálogo efetivo com as pautas do movimento grevista. #NegociaDilma!

Guilherme Boulos é formado em filosofia pela USP, é membro da coordenação nacional do MTST e da Frente de Resistência Urbana.

FONTE: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/guilhermeboulos/2015/08/1674069-a-patria-educadora-e-a-greve-nas-universidades.shtml