Da filiação de Guilherme Boulos às atuais tensões em torno da Revolução Solidária, uma reflexão sobre a relação do PSOL com o PT e os desafios para reconstruir um partido voltado à organização política da classe trabalhadora
Uma tática utilizada inicialmente pelos bolcheviques e posteriormente retomada por Leon Trotsky ficou conhecida como entrismo. Essa tática consistia em ingressar em organizações e partidos com orientações não necessariamente revolucionárias, mas que possuíam forte apelo entre a classe trabalhadora e a juventude. Um exemplo clássico eram os partidos social-democratas europeus, especialmente o francês, que, em determinados momentos da conjuntura e apesar de suas direções, conseguiam atrair os segmentos mais radicalizados da classe trabalhadora.
A justificativa para o entrismo decorria do fato de que as organizações revolucionárias, por se encontrarem conjunturalmente em posição minoritária diante desses partidos maiores, poderiam recrutar mais militantes justamente entre seus setores mais combativos. Para Trotsky, porém, tratava-se de uma ação estritamente tática e temporária, pois o principal risco consistia na adaptação política a programas não revolucionários, em vez da conquista de novos militantes.
O fato é que, desde que Trotsky formulou essa tática, incontáveis organizações, movimentos sociais e partidos passaram por processos de entrismo, nem sempre com o objetivo exclusivo de recrutar militantes. Em muitos casos, o entrismo serviu para neutralizar e reduzir a capacidade organizativa de agrupamentos políticos que poderiam colocar em xeque a hegemonia de determinados partidos sobre a classe trabalhadora.
Como alguém que já presenciou o entrismo sendo praticado in loco, tive a sensação de assistir ao mesmo método sendo aplicado contra o PSOL quando Guilherme Boulos se filiou ao partido, em 2018. Até então, um dileto filho da classe média paulista ocupava a liderança do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e utilizava uma linguagem política muito mais próxima do PT do que do PSOL. A decisão de Boulos de ingressar no PSOL, e não no PT, pareceu estranha para alguns, inclusive para mim. Ainda assim, as resistências internas mostraram-se insuficientes para impedir que fosse rapidamente alçado à condição de candidato à Presidência da República, algo, no mínimo, inusitado para alguém recém-chegado ao partido.
A questão é que, desde sua entrada no PSOL, Boulos promoveu um exitoso processo de realinhamento político em relação ao PT que contribuiu para o enfraquecimento da proposta original do partido: constituir uma alternativa à esquerda capaz de aglutinar e organizar a classe trabalhadora. É possível discutir até que ponto realinhamento e entrismo são ou não faces da mesma moeda. O fato, contudo, é que esse processo foi acompanhado pelo fortalecimento e pela quase hegemonia das chamadas pautas identitárias no programa político do PSOL. Ainda que a atuação de Boulos não se caracterize prioritariamente pela defesa dessas pautas, foi em torno de sua liderança que se reuniram quadros políticos orientados por elas e que, em grande medida, relegam a segundo plano elementos mais clássicos da tradição da esquerda.
Além disso, todo processo de realinhamento tende a produzir tensões, e no PSOL isso não tem sido exceção. Essas tensões se intensificaram em março de 2026, quando foi rejeitada a proposta de formação de uma federação com o PT. A discussão, que se arrastou durante parte de 2025, aprofundou as divergências internas, ainda que tenha produzido apenas movimentações pontuais, e não um êxodo em massa. Ainda assim, a corrente liderada por Boulos e integrada por parlamentares como Érika Hilton e Henrique Vieira parece manter um pé em cada partido. Aliás, a permanência de Érika Hilton e Henrique Vieira no PSOL parece decorrer menos de uma opção preferencial pela legenda do que da inexistência, por ora, de espaço equivalente no eleitorado petista, configurando uma escolha tática voltada a maximizar a viabilidade eleitoral nas eleições de outubro.
É nesse contexto que parece se inserir a recente controvérsia levantada por Érika Hilton acerca da distribuição dos recursos do fundo partidário entre as candidaturas do PSOL. Embora tenha recebido uma dotação de R$ 2,3 milhões — a maior entre as candidaturas proporcionais do partido (deputados federais e estaduais) —, o que parece estar em jogo é uma demonstração de descontentamento com o apoio destinado a outras candidaturas, como a de Manuela D’Ávila ao Senado pelo Rio Grande do Sul, que não compartilham o mesmo viés programático atribuído à parlamentar. Em outras palavras, a celeuma pode estar servindo mais para reforçar uma determinada agenda identitária do que propriamente para discutir a justiça dos mecanismos de distribuição dos recursos partidários. Nada impedirá, por exemplo, que essa polêmica venha a servir de justificativa para uma futura saída de Hilton do PSOL rumo ao PT, já de posse de um novo mandato.
O aspecto que considero mais importante em todo esse debate diz respeito ao destino do PSOL, não apenas como força institucional ocupante de mandatos parlamentares, mas como partido político capaz de organizar as lutas da classe trabalhadora e da juventude contra as políticas neoliberais que asfixiam o cotidiano da população brasileira. Ainda que isso possa parecer contraditório, a saída de figuras como Guilherme Boulos e Érika Hilton — acompanhados dos segmentos da corrente Revolução Solidária que ainda permanecem no partido — poderá produzir o realinhamento de que o PSOL necessita para deixar a longa sombra exercida pelo PT. Hoje, essa influência se traduziria na redução da ação política para uma atuação predominantemente parlamentar e em um foco hegemônico nas pautas identitárias, que mobilizam parte da classe trabalhadora, mas que, objetivamente, não alcançam os segmentos mais atingidos pelas políticas neoliberais emanadas do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Voltando ao ponto de partida, resta a pergunta: caso essa saída venha a ocorrer, estaremos diante apenas de um novo realinhamento político ou do encerramento de uma bem-sucedida estratégia de entrismo disfarçado? O futuro dará a resposta.











