Resultados das eleições alemãs trazem más notícias para Jair Bolsonaro: isolamento diplomático do Brasil deverá aumentar

bolso merkel

A derrota eleitoral do partido de Angela Merkel (CDU) deverá aumentar isolamento político de Jair Bolsonaro

Ainda que pareçam desconectadas da situação brasileira, as eleições alemãs trazem más notícias para Jair Bolsonaro e seu cambaleante governo. É que tudo indica que o partido de Angela Merkel (a CDU) não terá condições de manter a chancelaria alemã em função dos resultados obtidos pelo Partido Social Democrata (SPD) que deverá tentar formar uma aliança com os Verdes (Grüne) e com os ex-comunistas do “Die Linke” (ver gráfico abaixo), formando o que se chama de uma aliança “Vermelho-Verde-Vermelho) para governar a Alemanha.

eleições alemanha

O problema com a saída da CDU do comando do governo federal alemão é que até aqui quem literalmente segurava a adoção de medidas contra o governo Bolsonaro era justamente a chanceler Angela Merkel, principalmente no tocante ao acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul.

Com a saída da CDU do governo alemão e a provável formação de um governo que deve incluir o Partido Verde, a pressão contra as práticas destrutivas contra o meio ambiente, especialmente no tocante ao desmatamento desenfreado na Amazônia brasileira. Nesse caso, é importante lembrar que a crise climática global esteve entre os principais tópicos que permearam os debates eleitorais na Alemanha, onde ficou claro o papel nefasto que está sendo cumprido pelo Brasil comandado por Jair Bolsonaro e sua trupe de ministros anti ambiente. 

Ainda sobre as eleições alemãs, dois dados parecem mostrar que as coisas devem mudar por lá. A primeira coisa foi um freio na ascensão da extrema-direita (AfD) que viu seu montante de votos diminuir, e a eventual eleição de uma representante do Partido Verde para dirigir a prefeitura de Berlim, o que, se for confirmado, representará um forte avanço da agenda ambientalista em uma das principais cidades da Europa.

“O Brasil de Bolsonaro não existe”, afirma Anistia Internacional Brasil após discurso do presidente na ONU

BOLSO ONU

O Brasil apresentado pelo presidente Jair Bolsonaro na Assembleia Geral das Nações Unidas, realizada em Nova Iorque nesta terça-feira (21), é um país sem corrupção, que respeita a Constituição Federal, investe no barateamento da produção de alimentos e goza de grande credibilidade nacional e internacional. No Brasil de Bolsonaro, a legislação ambiental é uma das mais completas do mundo, o esforço em zerar o desmatamento ilegal é uma realidade e a Amazônia é exemplo de preservação. A pandemia, para o presidente, foi enfrentada de modo a combater o vírus e garantir os bons números na economia. 

No entanto, essa imagem nega o que fatos e dados revelam: o país atravessa um período estendido de instabilidade e crises política, econômica, sanitária e de direitos humanos. A Anistia Internacional Brasil afirma que o Brasil apresentado por Jair Bolsonaro não existe. Há graves ameaças aos direitos humanos e violações de direitos de povos indígenas, dos cerca de 19 milhões de brasileiros que passam fome neste momento no país e das famílias das quase 600 mil vidas perdidas para a COVID-19.

A gestão da pandemia de COVID-19 no Brasil tem sido marcada por descompromisso e omissões do Governo Federal, que até hoje insiste no chamado “tratamento precoce” em detrimento e/ou minimização da adoção de medidas contundentes e cientificamente comprovadas para a prevenção e recuperação da doença. Episódios de colapso do sistema de saúde, diversas dificuldades para que a vacinação em massa fosse uma realidade e denúncias de superfaturamento na compra de imunizantes são de conhecimento amplo e público e objetos de investigação da CPI da COVID, instaurada para apurar a atuação governamental frente à crise sanitária. É inadmissível que até hoje a população brasileira enfrente uma pandemia global agravada por uma administração política irresponsável.

Pessoas de grupos historicamente discriminados como a população indígena, negros e negras e as famílias mais pobres têm sido desproporcionalmente impactadas pela emergência sanitária, agravada por diversas camadas da crise social que torna cada vez mais precárias as condições de vida dos brasileiros e brasileiras. 

A pandemia contribuiu para que a quantidade de brasileiras e brasileiros com fome ou em insegurança alimentar aumentasse em 2020. Falta comida no prato de quase 9% das pessoas no Brasil, o equivalente à população do Chile. A relativa queda dos índices de pobreza no ano passado não se manteve em 2021, quando o repasse do auxílio emergencial foi interrompido por três meses e retomado em menor valor e para um menor público. No primeiro trimestre de 2021, o Brasil também alcançou a maior taxa de desemprego desde 2012, totalizando 14,7% milhões de pessoas desempregadas, segundo o IBGE.

Apesar deste cenário, o Presidente da República, Jair Bolsonaro, segue à frente de investidas contrárias às necessidades e urgências da população e às pautas prioritárias da agenda global, como o combate à pandemia da Covid-19, a defesa do meio ambiente e o enfrentamento às mudanças climáticas.

Não há política pública para combate ao desmatamento ilegal em andamento no Brasil. A situação da Amazônia é crítica. Órgãos ambientais estatais estão sucateados e foram enfraquecidos desde o primeiro dia do governo Bolsonaro e o próprio ex-ministro do meio ambiente, Ricardo Salles, tem sido apontado como responsável por essas medidas, sendo investigado por esquema ilegal de extração de madeira. A cobertura florestal sofre pressões ao ponto em que no primeiro semestre de 2021, a Amazônia brasileira teve a maior área sob alerta de desmate em 6 anos, segundo dados do Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE). O acumulado de alertas de desmatamento em 2021 na Amazônia foi de 8.712 km², o que equivale a cinco vezes a cidade de São Paulo, maior metrópole do Brasil.

Indígenas brasileiros não vivem “em liberdade”, conforme afirmou o presidente Jair Bolsonaro. A vida na floresta tem sido marcada por sérios riscos de violações de direitos humanos dessas populações por parte de grileiros, madeireiros e invasores de terras. O relatório Conflitos no Campo 2020, elaborado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), registra que, em meio a pandemia, 39% das vítimas de assassinato em contextos de conflito no campo no Brasil eram indígenas, que também representam 34% das pessoas que sofreram tentativas de homicídio e 16% das que se encontram em situação de ameaça de morte.

Na agenda climática, o presidente afirmou o protagonismo que o país tem e de que deve alcançar a “neutralidade climática”, enquanto ignorou o imenso retrocesso realizado pelo atual governo em relação às metas de redução de emissões perante o Acordo de Paris. A última atualização de metas realizada em dezembro de 2020 autoriza que o país emita mais do que havia se comprometido inicialmente em 2015, em uma clara redução de ambição. Além dessa nítida discordância com os princípios do Acordo, a gestão Bolsonaro não apresentou informações suficientes para apontar como as reduções serão atingidas em médio e longo prazo. Tudo isso enquanto ativamente desmonta as políticas de proteção ambiental responsáveis por controlar as emissões do país. Por fim, alega ainda que o futuro dos empregos verdes está no Brasil, sem qualquer ação em nível nacional orientada à construção de capacidades profissionais nesse sentido.

O Brasil que Bolsonaro apresenta ao mundo não existe. Pelo contrário, o país vive graves ameaças aos direitos humanos fundamentais revelados por dados e fatos e que afetam o dia-a-dia de brasileiros e brasileiras. A Anistia Internacional Brasil reafirma seu compromisso de luta por uma sociedade mais justa e que garanta que nenhuma pessoa seja deixada para trás no acesso aos seus direitos humanos fundamentais. Essa busca pelo Brasil real deve ser perseguida pela sociedade civil organizada e também pelas autoridades públicas de todos os poderes constituídos no país.

Com gestos obscenos, ministro da Saúde sintetiza catástrofe do governo Bolsonaro em Nova York

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Seja qual for o teor e efeitos práticos do discurso do presidente Jair Bolsonaro na abertura da Assembleia Geral da ONU que ocorre nesta 3a. feira (21/09), a sua passagem pela cidade de Nova York já se transformou em um verdadeiro desastre de propaganda, ou ainda, em um verdadeiro desastre diplomático. É que acossados por manifestações contrárias, os membros da trupe do presidente brasileiro se expôs publicamente ao oferecer várias cenas deprimentes, a começar pela protagonizada pelo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, que fez gestos obscenos para manifestantes que protestavam em uma calçada nova iorquina (ver vídeo abaixo).

O fato é que ao fortalecer uma imagem de negacionista científico, carregando junto consigo seus ministros, Jair Bolsonaro acabou se colocando em uma posição de extrema fragilidade, o que deverá aprofundar ainda mais a crise que envolve o seu governo.

Some-se a essa situação  o perigo iminente de que, a partir da China, haja em breve uma nova onda recessiva no funcionamento do capitalismo. aos modos do que ocorreu em 2008 quando a Lehman Brothers naufragou, causando um forte abalo no funcionamento da economia global. Se a crise chinesa se confirmar, o presidente Bolsonaro e seu governo terão diante de si uma situação que o então presidente Lula não enfrentou, qual seja, uma diminuição abrupta da demanda pelas commodities agrícolas e minerais brasileiras pelo seu principal parceiro comercial. Se isso acontecer, as consequências terão efeitos semelhantes a um poderoso cataclisma.

Em Nova York, Bolsonaro e sua trupe comem a pizza amarga do negacionismo

O presidente Jair Bolsonaro resolveu peitar os padrões sanitários da cidade de Nova York e decidiu comparecer à Assembleia Geral da ONU  sem se preocupar em carregar o seu cartão de vacinação contra o SARS-Cov-2, provavelmente para agradar os setores mais reacionários do seu eleitorado.  Entretanto, o presidente do Brasil esqueceu-se que nos EUA, país que ele tanto idolatra, as regras não são para inglês ver. O resultado é que ele está impedido de frequentar restaurantes nova iorquinos, pois estes requerem o mesmo cartão de vacinação que ele diz não possuir.

O resultado é que o presidente do Brasil foi obrigado a comer pizza na rua na companhia de um trupe mal enjambrada composta por ministros, militares e ministros militares, mais precisamente na esquina da 3a. avenue com a 44th street, nas imediações da sede da mesma ONU em que ele diz irá discursar de “improviso” (ver imagem abaixo). Assim, mesmo que alguns digam (o jornalista Guga Chacra da Rede Globo, por exemplo) que Bolsonaro foi se saciar em uma esquina da 3a Avenida por opção, essa é uma explicação que não resolve o problema principal que é a postura negacionista que ele emana.

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Assim, é óbvio que haja quem possa dizer que Jair Bolsonaro esteja produzindo mais uma daquelas poses de “homem comum” para agradar a sua base. Mas o problema é que quem está neste momento comendo pizza em uma esquina nova iorquina não é o “homem comum” que atende pelo nome de Jair Bolsonaro, mas a autoridade máxima do poder executivo federal do Brasil. Assim, ao se expor em uma condição vexatória para um chefe de estado, o que Jair Bolsonaro faz é aprofundar a condição de pária do Brasil  em uma conjuntura internacional extremamente dura, pois mistura crise econômica continuada com uma pandemia que não dá sinais de que irá cessar sem um esforço concentrado das principais economias do planeta, nas quais o Brasil está incluso.

Essa incompreensão do próprio papel ainda resultará em momentos amargos para Jair Bolsonaro, o que se pode traduzir na ingestão de algum sabor bastante amargo, como, por exemplo, a de jiló. Enquanto isso não acontece, o mais provável é que o Brasil continue pagando um preço que não será o de uma fatia de pizza em uma loja de esquina em Nova York.

Brasil, o pária

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Um dos elementos mais autodestrutivos que o governo Bolsonaro deixará como legado para o Brasil é o indisfarçável processo de isolamento internacional. Um processo que foi gerado por uma combinação de práticas negacionistas no tocante ao conhecimento científico (seja na área das mudanças climáticas ou da pandemia da COVID-19) e a adoção de um ideário que vê na conservação ambiental e na proteção dos povos originários uma negação das perspectivas de crescimento econômico. Há ainda uma adesão óbvia a agendas obscurantistas no tocante aos direitos das mulheres.

Como consequência dessa combinação de elementos que retroagem a política externa brasileira a uma espécie de  idade média da diplomacia internacional, o Brasil acabou se tornando algo que nem longos períodos de regimes militares conseguiram, qual seja, a sua transformação em uma espécie de pária global. 

O presidente Jair Bolsonaro, cada vez mais aferrado à sua agenda ideológica, agora decidiu que comparecerá à Assembleia Geral da ONU sem se vacinar ou, pelo menos, mostrar o seu cartão de vacinação. Ainda que Jair Bolsonaro não seja o único chefe de estado que comparecerá nessa condição (afinal de contas existem outros líderes mundiais que negam o conhecimento científico), essa negativa representará um tijolo a mais no muro de isolamento que seu governo construiu de forma relativamente veloz desde sua chegada ao poder.

Obviamente há que se reconhecer que existe um forte grau de cinismo nas relações internacionais, e nem sempre as reações são proporcionais às afrontas cometidas por este ou aquele líder. Mas o problema é que vivemos um tempo bastante complexo, já que se combina uma pandemia que não quer ceder com um cenário que combina crise econômica com os problemas gerados pelas mudanças climáticas, gerando uma espécie de feedback positivo de efeitos perversos que se retroalimenta, agudizando um processo de crise global. Com isso, a paciência com países (especialmente aqueles situados na periferia do Capitalismo) que insistem em se comportar de forma inexplicavelmente autosuficiente, como é o caso do Brasil sob a liderança de Jair Bolsonaro.

Certamente Jair Bolsonaro será levado a crer por aqueles segmentos que o apoiam (especialmente os membros de sua aliança que junta latifundiários, madeireiros, garimpeiros e pastores evangélicos) que nada do que for dito no exterior terá efeito prático sobre o que ocorre dentro do Brasil.  Entretanto, essa é uma crença infundada, pois isso não está nem um pouco próximo da verdade.  Isso, por exemplo, explica o aparente racha dentro do chamado “agronegócio” onde os agentes que operam “dentro da porteira” estão sendo isolados por aqueles segmentos que operam “fora da porteira”, pois as práticas anti-ambientais e as ações contra os povos originários comprometem a entrada em um número crescente de países das commodities brasileiras.

O fato é que Jair Bolsonaro e sua agenda ideológica colocaram o Brasil numa posição de pária internacional, o que, cedo ou tarde, poderá lhe custar a cadeira de presidente, seja por impeachment ou por derrota eleitoral. É que não interessa aos controladores de fato da economia brasileira que a condição de pária permaneça por muito tempo, pois claramente concorre contra os negócios que eles fazem.

Bolsonaro e Zé Trovão, quem diria, uma telenovela legitimamente mexicana

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Tenho lido e ouvido incontáveis análises sobre o cenário criado pelas manifestações convocadas pelo presidente Jair Bolsonaro no dia 7 de setembro e seu desdobramento mais óbvio, o misto de greve e locaute liderada pelo auto proclamado líder caminhoneiro (não sei por quê, mas lembrei aqui do auto proclamado presidente venezuelano Juan Guaidó)  Marcos Antônio Pereira Gomes, mais conhecido como Zé Trovão.

É que o desdobramento acabou resultando em bloqueios de estradas que, indo além das bravatas de palanque, obrigaram um contrito presidente Jair Bolsonaro a fazer um pronunciamento claramente a contragosto via Whatsapp onde pediu a desmobilização da categoria em nome, pasmemos todos, dos mais pobres, apenas para ser vítima de uma paródia impiedosa do humorista Marcelo Adnet (ver vídeo abaixo).

Agora se sabe que Pereira Gomes (a.k.a Zé Trovão), para evitar ser preso pela Polícia Federal, tinha se mandado para o México, pátria de famosos novelões. E de lá Zé Trovão foi do céu ao purgatório, visto que pode notar o seu lento abandono por parte do presidente da república, algo que já tinha ocorrido com outras figuras que se arvoraram a ser as mãos que transformariam os discursos de Jair Bolsonaro em ações reais, apenas para serem deixados ao léu.

Eu diria que, ao contrário de muitos analistas engalonados, eu modesto vejo que o presidente Bolsonaro acabou sendo enredado na teia que ele mesmo criou, pois agora se arrisca a perder o apoio de um grupo com conhecida capacidade de circulação não apenas de bens e mercadorias, mas também de conteúdos produzidos para acirrar a disputa política no Brasil. Esse desdobramento, convenhamos, promete abrir mais capítulos na telenovela mexicana em que acabamos enfiados nas últimas semanas.

Finalmente, vamos se daqui a pouco não aparece a Ana Raio para tentar salvar o Zé Trovão. É que tudo indica que se depender de Bolsonaro, Zé Trovão vai tomar o raio.

The Guardian: Os fanáticos de Bolsonaro tomam as ruas do Brasil para exigir pelotões de fuzilamento e golpes

bolsonaristaUm apoiador do presidente Jair Bolsonaro segura uma bandeira nacional em pé em um veículo militar, em frente ao Palácio da Alvorada, durante as comemorações do Dia da Independência em Brasília, nesta terça-feira. Fotografia: Evaristo Sa / AFP / Getty Images

Por Tom Phillips em Brasília, para o “The Guardian”

Milhares se reuniram na capital atrás do populista de extrema direita, mas as pesquisas sugerem que sua presidência está saindo dos trilhos antes das eleições do próximo ano

 
André Meneses fez um sinal de arma com as mãos para transmitir o que achava que deveria acontecer com aqueles que se opunham ao projeto de Jair Bolsonaro para o Brasil.
 
Apoiadores do presidente Jair Bolsonaro em frente ao Palácio do Planalto antes dos protestos do Dia da Independência em Brasília.

Apoiadores do Bolsonaro enfrentam policiais antes de grande comício em Brasília

 

“A coisa certa a fazer é colocá-los na parede e foder … atirar neles”, declarou o manifestante de 60 anos na manhã de terça-feira, enquanto milhares dos apoiadores mais leais do presidente brasileiro se reuniam na capital do país para celebrar seu líder .

“Eles são traidores. Eles são traidores do Brasil ”, disse Meneses sobre os juízes da Suprema Corte e senadores de esquerda que ele alegou merecerem encontrar o pelotão de fuzilamento por ousar frustrar os planos de Bolsonaro.

“Se eu fosse o presidente, faria isso … e dormiria muito bem após a morte deles, entende o que quero dizer?” acrescentou Meneses, que viajou quase 2.000 km do nordeste do Brasil para se juntar ao comício do dia da independência em Brasília. “Espero que vocês coloquem isso em seu jornal assim.”

Meneses estava longe de ser o único a expressar essas opiniões extremistas na terça-feira, quando multidões de bolonaristas saíram das ruas das maiores cidades do Brasil para mostrar seu apoio a um líder cuja presidência altamente polêmica parece estar saindo dos trilhos.

André Meneses: 'Se eu fosse o presidente faria isso ... e dormiria muito bem após a morte deles.'
André Meneses: ‘Se eu fosse o presidente faria isso … e dormiria muito bem após a morte deles.’ Fotografia: Antonello Veneri / The Guardian

Ao seu redor, na avenida que leva ao Congresso e à Suprema Corte do Brasil, caminhões e picapes – dirigidos para a área horas antes depois de confrontos com a polícia– estavam cobertos de faixas pedindo uma tomada militar imediata liderada por Bolsonaro na maior democracia da América Latina.

“O presidente Bolsonaro faz uma intervenção. Nossas forças armadas estão comprometidas com a democracia e nossa liberdade ”, dizia uma placa verde e amarela brandida por um grupo de mulheres de meia-idade que faziam sinais de armas do lado de fora do ministério das finanças.

Do outro lado da esplanada do Ministério da Defesa, uma faixa pendurada na carroceria de um caminhão exigia a limpeza das instituições democráticas do Brasil: a Suprema Corte, o Congresso e a Suprema Corte Eleitoral.

Os manifestantes do Bolsonaro em Brasília levam sua mensagem internacionalmente.Os manifestantes do Bolsonaro em Brasília levam sua mensagem internacionalmente. Fotografia: Antonello Veneri / The Guardian

Caso a mensagem não fosse clara para os visitantes estrangeiros, uma jovem ativista havia escrito um cartaz em francês. “ Monsieur Le Président ”, dizia. “ Utilisez L’Armée .”

Outras demandas bolsonaristas foram apresentadas em um inglês esquisito e cheio de pontos de exclamação. “O limite foi ultrapassado !!! Nossa indignação é enorme !!! Prisão para corruptos e comunistas !!! ” leia uma faixa branca colocada ao lado de um dos vários SUVs de luxo que haviam sido levados para o evento.

Bonne disse que veio para defender o que chamou de esforço de Bolsonaro para livrar o Brasil dos cleptomaníacos comunistas que estavam se infiltrando em seu país.

“O Brasil precisava de alguém como Bolsonaro – não de um filho de múmia namby-pamby que não faria nada”, ele insistiu.

“Precisávamos de um bruto – um cara como o Bolsonaro. Ele é capaz de enfrentar esses políticos que estão sangrando o Brasil. ”

O funcionário público disse não ter dúvidas de que seu líder seria reeleito nas eleições do próximo ano. “Ele é o presidente perfeito”, disse ele sobre o populista pró-armas. “Não acredito na possibilidade de a esquerda voltar ao poder.”

As pesquisas, no entanto, sugerem que Bolsonaro tem poucas chances de ganhar um segundo mandato em 2022, tendo ultrajado a maioria dos brasileiros com seu discurso radical e resposta caótica e anticientífica a um surto de Covid que matou mais de 580.000 cidadãos.

Os políticos da oposição rejeitaram as marchas de terça-feira como uma tentativa desesperada de ressuscitar a reputação decadente de um político cuja presidência está perdendo força rapidamente, em meio à fome crescente e aos problemas econômicos.

“As classificações de Bolsonaro estão em colapso e com esses ralis … ele quer mostrar que ainda está na corrida. Ele está tentando energizar sua base ”, disse Marcelo Freixo, deputado de esquerda do Partido Socialista Brasileiro (PSB).

“Não foram as pessoas que saíram às ruas – foram os fanáticos”, acrescentou Freixo sobre o que chamou de “protestos absolutamente criminosos e inconstitucionais”.

Jean Paul Prates, senador do Partido dos Trabalhadores (PT), disse que o “terrível espetáculo” de Bolsonaro foi planejado para criar a ilusão de que o presidente ainda gozava de amplo apoio quando, na verdade, a maioria dos brasileiros agora o rejeitava. “A maioria fará com que sua voz seja ouvida nas urnas no próximo ano”, previu Prates.

Torcedores do Bolsonaro se reúnem no Brasil.

Torcedores do Bolsonaro se reúnem no Brasil. Fotografia: Antonello Veneri / The Guardian

“Nós acreditamos nele”, disse João Paulo Temporini, um advogado de 27 anos, enquanto marchava para o Congresso com uma faixa dizendo: “No Bolsonaro nós confiamos”.

Meneses disse também ter fé total em seu líder e rejeitou a sugestão de que o ex-presidente esquerdista Lula Inácio Lula da Silva pode vencer o Bolsonaro no ano que vem, como sugerem as pesquisas. “Ele é o melhor presidente – em mais de 500 anos, nunca tivemos um cara assim. Ele é um exemplo para o mundo, sabe o que quero dizer? ” disse ele de Bolsonaro.

Discursando no rali depois de voar sobre a multidão em um helicóptero, Bolsonaro afirmou que os presentes decidirão os rumos do Brasil no futuro.

 
Jair Bolsonaro reage a apoiadores em frente ao palácio presidencial em Brasília na segunda-feira

Milhares se reúnem para comícios pró-Bolsonaro enquanto os críticos temem pela democracia

“Diz ordem e progresso em nossa bandeira – e é isso que queremos”, proclamou Bolsonaro, em meio a relatos de que o ex-assessor de Donald Trump, Jason Miller, havia sido interrogado pela polícia federal que investigava atos antidemocráticos enquanto tentava deixar Brasília após participar de cúpula de direita organizada por um dos filhos do presidente brasileiro.

“Não queremos ruptura”, insistiu Bolsonaro ao se dirigir aos fãs em Brasília.

Mas, à medida que sua presidência de quatro anos se aproxima de sua reta final potencialmente dramática, alguns temem que o futuro possa trazer exatamente isso.

“É realmente perigoso termos chegado a um ponto de tal fanatismo e radicalismo”, disse Prates, o senador de esquerda. “Este é um momento de verdadeira apreensão.”

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Este texto foi escrito inicialmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Quem ainda se surpreende com a existência de pessoas de extrema-direita nunca estudou a história brasileira

extrema direita

Uma das consequências mais comuns do pós atos pró-governo Bolsonaro é o uso das redes sociais e grupos de Whatsapp para as pessoas demonstrarem sua indignação e estupefação (sentimento mais frequente) em relação À existência de um segmento pequeno, mas não desprezível, da população brasileira que abraça o ideário de extrema-direita do presidente da república e sua entourage familiar.

Aos que sejam possuídos pelo sentimento de estupefação, sugiro respeitosamente que comecem a ler livros sobre a formação histórica do Brasil, a partir dos olhares de Caio Prado Junior, Nelson Werneck Sodré e Florestan Fernandes. É que se não entendermos minimamente como se deu a evolução da formação política do Brasil, continuaremos sendo surpreendidos sem nenhuma razão pelos atos bolsonaristas.

O fato inescapável é que a história brasileira é assentada sobre o uso da violência extrema por uma minoria privilegiada contra a maioria, inicialmente os povos originários e depois os africanos escravizados. Além disso,  ao longo de 521 anos de história, nunca houve uma ruptura com os alicerces da sociedade escravocrata que deu origem ao Brasil independente.

Por fim, eu insisto que não há motivo para surpresa, mas seguiremos sendo surpresos se ignorarmos os elementos estruturais que explicam a existência dessa minoria que se caracteriza pelo desprezo completo pela construção de uma sociedade menos desigual e menos injusta. E, me perdoem os que veem nele uma espécie de candidato a “Führer” brasileiro, mas Jair Bolsonaro é apenas a face da hora dos membros de uma extrema-direita que possui completa ojeriza à maioria do povo brasileiro.

Se intenção dos atos bolsonaristas deste 7 de Setembro era mostrar força, terminaram por revelar isolamento e fragilidade

brasil hoje

Salvo algum acontecimento trágico ao longo deste 7 de Setembro, os atos promovidos preparados pelos segmentos que orbitam em torno do presidente Jair Bolsonaro foram desenhados para mostrar força e disposição para enfrentar um quadro político extremamente negativo, mas, em minha opinião, terminam por revelar isolamento e fragilidade. As cenas caóticas ocorridas na noite de ontem na entrada da Esplanada dos Ministérios (ver vídeo abaixo) são mais uma demonstração de permissividade da Polícia Militar e do governador do Distrito Federal (que teria ido passar o feriado no seu estado natal do Piauí)  do que força da militância bolsonarista. É que se fossem professores fazendo o que os apoiadores do presidente Jair Bolsonaro, a resposta teria sido, digamos, mais firme.

Mas o que efetivamente Jair Bolsonaro sai ganhando se o que tivermos hoje em Brasília e em outras capitais brasileiras for a presença de pessoas brancas (uma grande parte composta por idosos) e que só mostram valentia porque sabem que não serão duramente reprimidas pelas forças policiais?

Aliás, há que se lembrar que o militante bolsonarista típico está acostumado a que o Estado exerça a violência em seu nome, de modo a garantir a persistência de um padrão de forte desigualdade econômica e social.  Assim, se essa for a base social com que Jair Bolsonaro pretende se manter no poder, se o jogo que vivemos fosse de pôquer, a mão dele seria claramente fraca.

Além disso, ainda que sejamos quase que um simulacro de regime democrático, esses atos não vão aumentar o apoio político dentro do congresso nacional ou, tampouco, vão parar as investigações policiais que estão cada vez mais próximas dos filhos de Jair Bolsonaro.

A mídia corporativa já até noticiou que entidades representativas de caminhoneiros entrarão com processos judiciais contra o presidente Jair Bolsonaro por buscar associar a categoria aos seus devaneios antidemocráticos, demonstrando a diminuição de sua base política.  Mas no caso dos caminhoneiros, esta falta de apoio já estava evidente após a entrada de um poucos caminhões estalando de novos na região da Esplanada dos Ministérios na noite de ontem.

Por outro lado, as análises aqui postas podem se mostrar precoces, caso algum tipo de invasão ocorra nas dependências do Congresso Nacional ou do Supremo Tribunal Federal. É que uma invasão acontecer, a situação política vai assumir outro ritmo, sem que isso signifique nada de bom para Jair Bolsonaro.

Povos indígenas brasileiros realizam protesto sem precedentes contra a destruição da Amazônia

O maior protesto indígena já feito no Brasil ocorreu em meio aos esforços de Jair Bolsonaro e seus aliados para pavimentar o caminho para a indústria na Amazônia.

AP21238456046806-indigenous-brazil-protestFoto: Antonio Molina / Sipa EUA via AP

Por Andrew Fishman para o “The Intercept”

As comunidade indígenas no Brasil organizaram os maiores protestos nativos de todos os tempos para bloquear o que eles descreveram como “uma declaração de extermínio” dos legisladores que representam interesses do agronegócio, mineração e extração de madeira alinhados com o presidente de extrema direita Jair Bolsonaro.

O grupo Articulação dos Povos Indígenas do Brasil , ou APIB, organizou os protestos como parte do protesto de uma semana “Luta pela Vida” na capital, Brasília, em antecipação a uma decisão do Supremo Tribunal Federal que poderia invalidar as reivindicações de terras indígenas.

“Nossa luta tem como alvo todos os governos que são cúmplices da campanha de genocídio de Bolsonaro, todas as corporações que buscam lucrar com isso”, disse a APIB em uma declaração conjunta com a Progressive International , uma coalizão de esquerda que enviou uma delegação para pesquisar o situação. “A luta contra o Bolsonaro vai muito além das fronteiras do Brasil.”

“Somos nós que estamos sofrendo. O governo não sofre. É por isso que estamos aqui para lutar ”.

A APIB esperava que o Supremo Tribunal rejeitasse uma contestação às reivindicações de terras indígenas durante seu protesto, mas o tribunal adiou o julgamento para a próxima semana depois que um voto foi dado a favor dos direitos indígenas. Um parlamentar de direita, cuja fortuna vem da agricultura, disse que ele e seus colegas fizeram lobby com os juízes para atrasar ainda mais a decisão para que o Congresso tivesse tempo de aprovar medidas que retirariam os direitos às terras indígenas por meio da legislação em vez dos tribunais.

Desde 2019, Bolsonaro tem usado sua autoridade executiva para atacar agressivamente  os direitos indígenas, cortar as proteções ambientais e paralisar os esforços de aplicação da lei – medidas que atraíram condenação internacional . Estreitamente alinhado com o poderoso lobby do agronegócio, o governo também promoveu uma série de projetos de lei consequentes no Congresso que, se aprovados, representariam uma sentença de morte para muitas das comunidades indígenas do Brasil e, alertam os críticos, para toda a floresta amazônica.

“Somos nós que estamos sofrendo. O governo não sofre ”, disse Pasyma Panará, presidente da Associação Iakiô na região amazônica do Xingu. “É por isso que estamos aqui para lutar.”

A delegação da Progressive International incluiu um membro do parlamento espanhol, líderes indígenas, ativistas trabalhistas e dois funcionários do Congresso dos Estados Unidos que estavam participando a título pessoal. O grupo viajou para Brasília e para as cidades amazônicas de Belém e Santarém para uma semana de encontros com políticos e ambientalistas brasileiros e grupos que representam comunidades indígenas, trabalhadores e camponeses sem terra.

“Esta delegação tem como objetivo trazer os olhos do mundo para o Brasil”, disse David Adler, coordenador geral da Progressive International, ao The Intercept. “Estamos aqui para desenvolver uma estratégia comum para enfrentar as crises que o Brasil enfrenta.”

IMG_4697Indígenas brasileiros protestam contra o presidente Jair Bolsonaro, segurando uma placa que diz “Bolsonaro, saia”, no acampamento de Luta pela Vida em Brasília, Brasil, em 26 de agosto de 2021. Manifestantes seguram uma faixa que diz “Nossa história não” t começar em 1988 ”, ano em que a Constituição foi transformada em lei,“ resistimos por mais de 12.000 anos ”.  Foto: Andrew Fishman

Luta pela vida

Mais de 6.000 representantes de 176 grupos indígenas armaram tendas e amarraram abrigos de bambu por sete dias de protesto e intercâmbio cultural. O acampamento ficava em um pedaço de terra empoeirado na capital, a menos de um quilômetro e meio no calçadão principal do Congresso, da Suprema Corte e do palácio presidencial.

Para participar, delegados dos cantos mais remotos das vastas extensões do Brasil passaram até três dias em ônibus lotados que navegaram por estradas de terra desbotadas, viajando sob a ameaça de emboscadas de gangues paramilitares.

Antes que discursos empolgantes de líderes do movimento e aliados pudessem começar no palco principal, grupos de Xikrin, Munduruku, Xukuru e outros vestidos com trajes cerimoniais completos e danças tradicionais e canções para a multidão. Influenciadores e jornalistas indígenas experientes em tecnologia transmitiram ao vivo o processo nas redes sociais, envoltos em nuvens de poeira vermelha.

“Nós sabemos o que é o mal. O mal é o agronegócio invadindo nossos territórios ”.

“Nós sabemos o que é o mal”, disse um palestrante sob aplausos. “O mal é o agronegócio invadindo nossos territórios.”

Os povos indígenas do Brasil não têm falta de motivos para protestar. Suas terras ancestrais estão cada vez mais ameaçadas por grandes projetos de infraestrutura agrícola e violentos ladrões de terras auxiliados por agências governamentais. Ataques violentos estão aumentando e a degradação ambiental está tornando os modos de vida tradicionais menos sustentáveis.

Enquanto isso, o Congresso tem votado um projeto de lei após o outro que desfaria as duras proteções escritas na constituição de 1988. Com o Bolsonaro, tudo foi de mal a pior.

Durante semanas, os organizadores se concentraram principalmente na decisão da Suprema Corte, que poderia reduzir substancialmente os territórios indígenas protegidos pela constituição. “É um dos julgamentos mais importantes da história”, disse a líder da APIB, Sônia Guajajara, em evento transmitido ao vivo na última quinta-feira. “A luta dos povos indígenas é uma luta pelo futuro da humanidade.”

A medida, conhecida como “Tese do Marco”, ou “Marco Temporal” em português, invalidaria as reivindicações de terras de grupos indígenas que não ocupavam fisicamente o território no dia em que a nova constituição foi assinada em 1988, ignorando séculos de opressão genocida que forçou muitas tribos a fugir de seus lares ancestrais.

Os direitos às terras indígenas estão consagrados na Constituição do Brasil, mas o governo tem agido em ritmo de lesma nas últimas três décadas para processar as reivindicações. Enquanto isso, o agronegócio, a mineração e as indústrias madeireiras do Brasil , com seus patrocinadores internacionais , estão de olho em muitas das vastas extensões de terra, principalmente localizadas na Amazônia, que são reivindicadas pelos nativos. Os interesses comerciais têm destruído as proteções por todos os meios necessários nos tribunais, no Congresso e na prática.

As invasões ilegais em terras indígenas por grupos violentos e fortemente armados têm aumentado nos últimos anos. Grupos criminosos foram encorajados por Bolsonaro, que fez campanha com a promessa de que, se eleito presidente, “não haverá um centímetro demarcado para reservas indígenas” e fez comentários racistas e genocidas sobre os povos indígenas ao longo de sua carreira.

“O Marco Temporal representa para nós, povos indígenas, uma declaração de extermínio”, disse Eloy Terena , advogado e ativista dos direitos indígenas, durante evento na última quinta-feira. Terena destacou que muitas das 114 tribos isoladas do Brasil , que contam com proteção do governo, vivem em territórios que podem ser ameaçados se a tese jurídica do Marco Temporal for mantida.

Luta pela Representação

A única maneira de frear os tratores que estão arando a Amazônia, disse a deputada Joênia Wapichana ao The Intercept, é uma “renovação política”. Os povos indígenas e seus aliados devem “alcançar a maioria dentro do Congresso”, disse ela, algo que nunca aconteceu. “Talvez assim eles pensem duas vezes antes de apresentar uma proposta para reduzir os direitos indígenas.”

Wapichana, 47, é a primeira mulher indígena advogada e parlamentar indígena do Brasil. Atualmente é a única representante indígena do país. No protesto “Struggle for Life”, ela recebeu o tratamento de estrela do rock: Onde quer que ela fosse, fãs apaixonados faziam fila para pegar selfies.

Em uma reunião com uma dúzia de líderes de algumas das comunidades indígenas mais afetadas do Brasil, um delegado da Progressive International perguntou quais políticos eles consideravam aliados sólidos. O grupo hesitou em responder, sussurrando entre si até que um deles falou: “Representante. Joênia tem lutado muito ao nosso lado ”, disse um líder indígena, passando a citar um punhado de organizações não governamentais. Nenhum deles era do estado Wapichana de Roraima. Quaisquer outros nomes? Desta vez, a resposta foi rápida: “Não, que eu me lembre”.

“O agronegócio não compra apenas publicidade, mas também a linha editorial e influencia a cobertura jornalística.”

Frente Parlamentar Mista em Defesa dos Direitos dos Povos Indígenas, lançada em 2019 por Wapichana, é formada por 237 dos 594 parlamentares brasileiros. Mas durante os primeiros quatro dias do protesto, apenas dois representantes eleitos federais pisaram no palco principal do protesto e apenas alguns visitaram o acampamento. Nenhum grande candidato à presidência ou governante proeminente compareceu.

Em uma mudança em relação aos protestos indígenas recentes – que terminaram em repressão violenta – a polícia manteve distância. A cobertura dos principais veículos de notícias nacionais também tem sido difícil de obter. Na quarta-feira, o coordenador executivo da APIB, Dinamam Tuxá, lamentou ao The Intercept que nenhum dos três principais jornais do Brasil – que dependem de publicidade do agronegócio – havia publicado uma reportagem de capa sobre o protesto histórico. “O agronegócio não compra apenas publicidade”, disse ele, “mas também compra a linha editorial e influencia a cobertura jornalística”.

IMG_4948Os indígenas brasileiros cantam durante o protesto em frente ao Supremo Tribunal Federal em Brasília, Brasil, em 26 de agosto de 2021, enquanto aguardam uma importante decisão do tribunal. Eles estão entre as 6.000 pessoas que vieram à capital se opondo a medidas que reverteriam drasticamente os direitos territoriais indígenas.  Foto: Andrew Fishman

Solidariedade Internacional

Mesmo que o Marco Temporal seja derrotado no Supremo Tribunal Federal, dezenas de outras propostas e ações governamentais ameaçam as terras indígenas e servem para empurrar a floresta amazônica para mais perto de um “ ponto de inflexão” do desmatamento . O resultado seria um colapso irrevogável do ecossistema.

Cientistas importantes acreditam que o ponto crítico virá com o desmatamento de 20 a 25%, fazendo com que a exuberante Amazônia seque e se transforme em uma savana, provocando emissões catastróficas de carbono e severas secas em todo o continente. Dezoito por cento da Amazônia já foi cortada e a taxa de destruição só aumentou sob o Bolsonaro.

“Nossas vidas estão em risco e estamos pedindo ajuda”, disse Auricélia Arapium, líder indígena da região do Tapajós, à delegação da Progressive International durante encontro no acampamento na segunda-feira. “Não temos mais a quem recorrer no Brasil. É por isso que procuramos organizações internacionais, para que nossos direitos, que estão sendo ameaçados, sejam preservados ”.

Em uma entrevista coletiva no final do dia, a Progressive International anunciou que planeja trabalhar com parceiros ao redor do mundo para lançar um boicote a empresas estrangeiras responsáveis ​​pela destruição da Amazônia e pelo atropelo dos direitos indígenas. O gigante dos investimentos Blackstone e o conglomerado agrícola privado Cargill estão no topo da lista.

“Precisamos olhar para as corporações que estão alimentando isso e os EUA e a política externa internacional que está permitindo essas corporações”, disse Nick Estes, professor da Universidade do Novo México, delegado do Progressive International e cidadão de Lower Brule Tribo Sioux.

“As práticas dessas empresas como a Cargill são fundamentalmente racistas”, disse Estes, que contribuiu para o The Intercept. “Se mais pessoas entendessem quanto sangue indígena, quanto sangue negro, quanto sangue de brasileiros que vivem na terra é derramado só para comer um cheeseburguer, acho que haveria muito mais indignação.”

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Este texto foi escrito inicialmente em inglês e publicado pelo site “The Intercept” [Aqui!].