Brasil, o pária

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Um dos elementos mais autodestrutivos que o governo Bolsonaro deixará como legado para o Brasil é o indisfarçável processo de isolamento internacional. Um processo que foi gerado por uma combinação de práticas negacionistas no tocante ao conhecimento científico (seja na área das mudanças climáticas ou da pandemia da COVID-19) e a adoção de um ideário que vê na conservação ambiental e na proteção dos povos originários uma negação das perspectivas de crescimento econômico. Há ainda uma adesão óbvia a agendas obscurantistas no tocante aos direitos das mulheres.

Como consequência dessa combinação de elementos que retroagem a política externa brasileira a uma espécie de  idade média da diplomacia internacional, o Brasil acabou se tornando algo que nem longos períodos de regimes militares conseguiram, qual seja, a sua transformação em uma espécie de pária global. 

O presidente Jair Bolsonaro, cada vez mais aferrado à sua agenda ideológica, agora decidiu que comparecerá à Assembleia Geral da ONU sem se vacinar ou, pelo menos, mostrar o seu cartão de vacinação. Ainda que Jair Bolsonaro não seja o único chefe de estado que comparecerá nessa condição (afinal de contas existem outros líderes mundiais que negam o conhecimento científico), essa negativa representará um tijolo a mais no muro de isolamento que seu governo construiu de forma relativamente veloz desde sua chegada ao poder.

Obviamente há que se reconhecer que existe um forte grau de cinismo nas relações internacionais, e nem sempre as reações são proporcionais às afrontas cometidas por este ou aquele líder. Mas o problema é que vivemos um tempo bastante complexo, já que se combina uma pandemia que não quer ceder com um cenário que combina crise econômica com os problemas gerados pelas mudanças climáticas, gerando uma espécie de feedback positivo de efeitos perversos que se retroalimenta, agudizando um processo de crise global. Com isso, a paciência com países (especialmente aqueles situados na periferia do Capitalismo) que insistem em se comportar de forma inexplicavelmente autosuficiente, como é o caso do Brasil sob a liderança de Jair Bolsonaro.

Certamente Jair Bolsonaro será levado a crer por aqueles segmentos que o apoiam (especialmente os membros de sua aliança que junta latifundiários, madeireiros, garimpeiros e pastores evangélicos) que nada do que for dito no exterior terá efeito prático sobre o que ocorre dentro do Brasil.  Entretanto, essa é uma crença infundada, pois isso não está nem um pouco próximo da verdade.  Isso, por exemplo, explica o aparente racha dentro do chamado “agronegócio” onde os agentes que operam “dentro da porteira” estão sendo isolados por aqueles segmentos que operam “fora da porteira”, pois as práticas anti-ambientais e as ações contra os povos originários comprometem a entrada em um número crescente de países das commodities brasileiras.

O fato é que Jair Bolsonaro e sua agenda ideológica colocaram o Brasil numa posição de pária internacional, o que, cedo ou tarde, poderá lhe custar a cadeira de presidente, seja por impeachment ou por derrota eleitoral. É que não interessa aos controladores de fato da economia brasileira que a condição de pária permaneça por muito tempo, pois claramente concorre contra os negócios que eles fazem.

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