Petição pede boicote de supermercados alemães ao Brasil por desmatamento da Amazônia

A iniciativa visa pressionar três das maiores redes de supermercados da Alemanha a não comprarem mais do Brasil, principalmente produtos agrícolas. Se obtiver adesão, o boicote pode resultar no fechamento de 70% do mercado varejista alemão às mercadorias brasileiras.

bolso neroIlustração da petição online da ONG alemã Campact, que conseguiu mais de 300 mil assinaturas. A iniciativa exorta três das maiores redes de supermercado da Alemanha a não venderem mais produtos brasileiros devido ao desmatamento da Amazônia. © Campact

Márcio Damasceno, correspondente da RFI em Berlim

Um abaixo-assinado que colheu mais de 300 mil assinaturas em menos de uma semana exorta três das maiores redes de supermercado da Alemanha a não venderem mais produtos brasileiros por causa do desmatamento da Amazônia.

A ação, lançada na terça-feira (09/06) pela Campact, ONG sediada em Berlim, critica a polêmica Medida Provisória 910/19, substituída pelo Projeto de Lei 2633/20, sobre regularização fundiária. O projeto é conhecido por seus críticos como “PL da Grilagem”, por apresentar risco de promover mais devastação florestal. 

A organização alemã cita uma ameaça de boicote formulada em maio pelas principais redes de supermercados do Reino Unido e pede que três grandes redes alemãs sigam o exemplo. O apelo é dirigido às companhias Lidl, Edeka e Aldi Nord, que figuram entre as cinco maiores varejistas da Europa em volume de faturamento.  

A Campact afirma que duas grandes redes alemãs, Aldi Süd e Rewe, já aderiram à iniciativa das redes britânicas, que ameaçaram no mês passado, em carta aberta ao Congresso Nacional, boicotar produtos brasileiros em caso de aprovação da proposta de regularização fundiária.

"Salvem a floresta: parem Bolsonaro!", diz mensagem veiculada na petição ONG alemã Campact.“Salvem a floresta: parem Bolsonaro!”, diz mensagem veiculada na petição ONG alemã Campact. © Campact

Bloqueio de 70% mercado varejista alemão ao Brasil

O sucesso da petição da Campact, com a adesão dos três supermercados, fecharia, segundo a ONG, 70% mercado varejista alemão aos produtos brasileiros. O objetivo da ONG alemã é aumentar a pressão para que o texto seja não só retirado da pauta do Congresso, mas descartado por completo.

A proposta de lei ameaça a população indígena, a biodiversidade e o clima. Normalmente, recorreríamos diretamente aos políticos. Mas no caso do radical de direita Bolsonaro, a diplomacia é impossível. Por isso, visamos seu lado mais sensível: o sucesso econômico. Bolsonaro depende do apoio do lobby do agronegócio”, diz o texto da petição online, que também foi enviado a 2,3 milhões de assinantes do boletim informativo da entidade. 

“Queremos que as redes de supermercado alemãs se juntem aos supermercados britânicos no boicote a produtos brasileiros, principalmente à carne bovina, para pressionar economicamente o governo Bolsonaro”, afirma o grupo.

O texto da petição dá destaque à afirmação do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, em reunião ministerial do governo, em que ele fala em aproveitar o “momento de tranquilidade na aspecto da cobertura de imprensa” durante a crise de Covid-19 no Brasil para “passar a boiada”: mudar regras e simplificar normas ambientais.

“Em vez de punir o desmatamento ilegal, Bolsonaro permite a destruição da floresta. Essa lei é como um convite para destruir a Floresta Amazônica – isso pouco antes da temporada de queimadas”, disse em entrevista exclusiva à RFI Friederike Gravenhorst, integrante da Campact. “O pulmão verde da Terra está em perigo.” 

Incentivo à destruição de novas áreas da floresta

O PL 2633/20 foi apresentado após a perda de validade em maio, por falta de acordo entre os parlamentares, da controversa Medida Provisória 910/19, editada em dezembro pelo presidente Jair Bolsonaro. O projeto prevê a regularização fundiária de imóveis da União, incluindo assentamentos, sem vistoria prévia, em áreas com até seis módulos fiscais e ocupadas até julho de 2008 – o texto da MP 910 incluía zonas ocupadas até 2014 e de até 15 módulos fiscais. 

O módulo fiscal é uma unidade cujo tamanho varia de acordo com o município, podendo ir de 5 a 110 hectares.

Defensores da iniciativa alegam que ela desburocratiza a concessão de títulos a agricultores, que poderiam produzir mais, com mais acesso a crédito. Críticos argumentam que a lei premiaria quem invadiu e derrubou florestas ilegalmente em áreas públicas e, ao possibilitar que desmatadores se tornem proprietários de áreas ocupadas ilegalmente, seria um incentivo à destruição de novas áreas de floresta.

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Esta matéria foi originalmente publicada pela Rede França Internacional [Aqui!].

Invasões de hospitais: coletivo de médicos cearenses responde diretamente a Jair Bolsonaro

rebento

O “Coletivo Rebento” de “Médicos em Defesa da Ética, da Ciência e do SUS” é composto por médicas e médicos cearenses defensores do Sistema Único de Saúde (SUS) produziu o vídeo abaixo onde seus membros respondem ao presidente  Jair Bolsonaro que pediu por invasões e filmagens em hospitais públicos supostamente para que se documento a existência de leitos ociosos em meio à pandemia da COVID-19.

A linguagem especificamente direta e dura ao chamado do presidente, que já resultou em múltiplas invasões e tentativas fracassadas de adentrar unidades de saúde onde cidadãos com COVID-19 são tratados reflete a irritação de um segmento profissional que está na linha de frente do combate a uma pandemia letal que assola o Brasil  neste momento.

Avalio que este tipo de reação dentro das diversas categorias profissionais que atuam na área de saúde se tornará cada vez mais eloquente na medida em que dentro delas está ocorrendo um nível particularmente alto de mortes, mesmo quando comparado a outros países como Itália, Espanha, França, Reino Unido e EUA.

O desprezo ao esforço que os profissionais de saúde, especialmente os médicos e enfermeiros, estão realizando neste momento é provavelmente um dos erros mais básicos que o presidente Jair Bolsonaro já cometeu em sua longa carreira política. Um erro que ainda lhe deverá causar muitos dissabores em um tempo em que ele já se encontra no limite do seu capital político.

Brasil sofre invasões de hospitais no dia em que se tornou o segundo colocado em infecções e mortes por COVID-19 no mundo

div-prefeitura-rio-1O Hospital Municipal Ronaldo Gazolla, localizado no bairro de Acari, foi palco de invasão e depredação após chamado do presidente Jair Bolsonaro por inspeções em unidades tratando pacientes com COVID-19

O dia 12 de junho de 2020 que poderia ser apenas um daqueles dias escolhidos para marcar o amor entre duas pessoas se tornou o marco da passagem do Brasil para o segundo lugar do ranking de mortes por COVID-19 (com um total de 41.828 vidas perdidas para a pandemia), ficando atrás apenas dos EUA, o que acontece também no caso das infecções (ver tabela abaixo).

COVID 19

Não bastasse essa situação de tragédia, o Brasil se tornou palco hoje de pelo menos duas invasões de hospitais, sendo um deles o Hospital Municipal Ronaldo Gazolla, no Rio de Janeiro, incluindo alas restritas a médicos e pacientes enfermos com COVID-19.

Essas invasões, que parecem surreais em um país engolfado por uma pandemia letal, parecem decorrer de um chamado feito pelo presidente Jair Bolsonaro para que as pessoas adentrassem hospitais para “checar a ocupação de leitos“. 

Afora os riscos sanitários que decorrem dessa sugestão, tanto para os pacientes e profissionais que os atendem e até dos “inspetores”, a sugestão do presidente Jair Bolsonaro é um desrespeito aos brasileiros que já morreram por causa do COVID-19. Isto sem falar no fato de que a invasão de hospitais, por qualquer razão que seja, afronta as leis brasileiras.

A situação é tão acintosa que os nove governadores de estados da região do Nordeste já emitiram uma nota criticando as invasões de hospitais, pois segundo eles “não é invadindo hospitais e perseguindo gestores que o Brasil vencerá a pandemia.

Uma nota mais dura ainda foi emitida pelo Conselho Nacional de Saúde (CNS) que condenou de forma veemente as declarações do presidente Jair Bolsonaro incitando a invasão de hospitais. Segundo, a nota do CNS  o “governo federal continua assumindo sua atitude genocida, negando a pandemia, colocando-se como adversário da ciência, que tem incansavelmente se dedicado à busca de alternativas que possam minimizar os efeitos nefastos da pandemia. Isso demonstra total desprezo pela vida da população, não expressando qualquer sentimento de solidariedade, empatia e compaixão, quer com as famílias que perderam seus entes queridos, quer com os profissionais que têm adoecido e morrido no desenvolvimento de suas atividades laborais. Diferente de outros países do mundo, que reconhecem nos profissionais de saúde a fortaleza dos sistemas de saúde para enfrentamento ao novo coronavírus”.

O friso que pus no termo “atitude genocida” é apenas para explicitar a possibilidade de que em um futuro não muito distante o presidente Jair Bolsonaro venha a ter que responder em algum órgão internacional sobre o papel que está cumprindo ao negar a letalidade, questionar o valor do conhecimento científico e, ainda por cima, incitar a invasão de hospitais. E lembremos todos que o ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, foi o primeiro a usar o termo “genocida” para caracterizar as ações do governo Bolsonaro no trato da pandemia.

E assim segue a nau brasileira cada vez mais desgovernada.

Forbes sintetiza a situação brasileira: até quando esta loucura vai continuar?

O Brasil realmente pode ser tão ruim assim, mas por quanto tempo?

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Uma paciente do Covid-19 reage enquanto se prepara para ser transferida de barco de ambulância para um hospital em Breves … [+] AFP VIA GETTY IMAGES

Por Kenneth Rapoza para a revista Forbes

O Brasil está sendo espancado na política da pandemia, e os investidores, embora capazes de ganhar dinheiro por lá, ainda estão coçando a cabeça. Quanto tempo essa loucura pode durar?

O presidente Jair Bolsonaro está no comando. Ele é odiado pela mídia, incluindo a maioria da imprensa estrangeira que é muito crítica a ele.

Bolsonaro é fácil de criticar, é claro. Ele gosta de lutar contra a mídia e dar joelhadas no que ela diz. O coronavírus é mortal! Não, não é, é apenas um resfriado.

A revista científica britânica The Lancet, conhecida por mergulhar na política, pediu sua demissão. Não foi baseado em ciência. Foi baseado na opinião de celebridades e professores de esquerda. Não, sério.

walkingAs pessoas andam por uma rua comercial após a reabertura, no centro de São Paulo, em 10 de junho de 2020. O município de São Paulo autorizou a reabertura de ruas comerciais sob medidas de segurança, como o uso de álcool gel e máscaras faciais.  Foto de NELSON ALMEIDA / AFP (Foto de NELSON ALMEIDA / AFP via Getty Images) AFP VIA GETTY IMAGES

O Brasil está sendo completamente envergonhado pelos erros do governo Bolsonaro em combater o coronavírus, ao mesmo tempo em que é elogiado pelo mercado por fazer um bom trabalho em impedir as consequências econômicas por meio de estímulos recordes aos brasileiros, especialmente à classe trabalhadora.

As ações do Brasil, conforme medidas pelo ETF iShares MSCI Brazil (EWZ), caíram 33% no acumulado do ano, muito piores do que outros mercados emergentes no benchmark MSCI Emerging Markets. Eles caíram apenas 8,8%.

O horário de pré-mercado diminuiu o EWZ mais 6,04%, embora seja principalmente uma realização de lucros. O Brasil, como um investimento amplo, é totalmente sobrecomprado.

Em 9 de junho, a Fitch Ratings atualizou as previsões econômicas e fiscais brasileiras de estáveis para negativas. Eles reduziram a previsão de crescimento do PIB real do país em 26 de maio e isso ainda permanece em uma contração de 6% em relação aos 4% anteriormente, em grande parte devido à atual crise de saúde pública.

Brasília agora é um novo epicentro.

No geral, o país tem 772.416 casos confirmados e 39.680 mortes até quarta-feira (10/06) à noite.

As medidas de distanciamento social continuarão pesando na atividade doméstica, apesar da variação da conformidade nos estados, escreveram analistas da Fitch, liderados por Shelly Shetty, em nota aos clientes na terça-feira.

bolsaApós um grande impulso, as ações do Brasil perderam força. (Foto de Cris Faga / NurPhoto via … [+] NURFHOTO VIA GETTY IMAGES

Quão ruim isso pode ficar e quão ruim pode ser?

A contração do PIB no primeiro trimestre foi menor do que o esperado, mas quedas mensais acentuadas na produção industrial em março (9%) e abril (18,8%), queda na confiança dos negócios e do consumidor e aumento progressivo do desemprego indicam que o impacto do impacto será sentido na economia. segundo trimestre, que termina em cerca de três semanas.

As receitas do governo federal caíram 32% em abril, enquanto as despesas aumentaram 45% devido aos pacotes de ajuda. Isso resultou em um déficit fiscal recorde de R $ 93 bilhões (US $ 18,6 bilhões) em abril, observa Gustavo Medeiros, analista da Ashmore, especialista em mercados emergentes em Londres.

A produção industrial caiu 18,8% em abril, a pior queda já registrada, “mas isso foi melhor do que a expectativa de um declínio de 28,3% do consenso”, diz Medeiros.

Uau …

O Brasil voltou a ser uma jogada da China. A recuperação chinesa é boa para as exportações brasileiras – todas commodities, é claro. A China importa principalmente soja e minério de ferro brasileiros.

Mas, à medida que o sul e o sudeste do Brasil se curam, e esses são os motores econômicos do Brasil, o país deve ter uma sensação de normalidade nas próximas quatro semanas, mesmo que o coronavírus se manifeste nos estados do centro-oeste a seguir.

O alto custo de capital no Brasil prejudicou a inovação e o empreendedorismo local no passado, mas as taxas de juros nunca foram tão baixas quanto são agora.

As empresas podem emprestar mais barato agora.

Para Wall Street, o argumento é que Bolsonaro pode ser uma biruta, mas investir no Brasil é mais atraente do que nunca. Os mercados estão procurando uma mudança de momento. O Brasil tem sido um trem descontrolado. É hora de pisar no freio. Mas isso não vai durar para sempre. Nem o coronavírus,  por mais ruim que esteja no Brasil.

“De nossa perspectiva de baixo para cima, estamos entusiasmados com as oportunidades em todo o universo de investimentos, onde quer que as encontremos”, diz John Paul Lech, gerente de fundos de mercados emergentes da Matthews Asia.

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Este artigo foi originalmente escrito em inglês e publicado pela revista Forbes [Aqui!].

New York Times diz que há ameaça de “golpe militar” no Brasil para manter Bolsonaro no poder

Jornal afirma que o alto escalão do oficialato brasileiro está de olho em uma brecha para “acabar com a democracia”

Bolsonaro-e-militares(Crédito: Fotos Públicas)

Por Equipe InfoMoney

 

SÃO PAULO – O jornal americano The New York Times publicou nesta quarta-feira (10) uma reportagem em que afirma que há a possibilidade de um “golpe militar” no Brasil para garantir a manutenção do presidente da República, Jair Bolsonaro, no poder.

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No artigo, assinado pelos repórteres Simon Romero, Letícia Casado e Manuela Andreoni, o jornal destaca que Bolsonaro está sendo pressionado por todos os lados por conta do aumento nas mortes diárias provocadas pelo coronavírus e das investigações contra seus filhos e aliados.

“A crise cresceu de forma tão intensa que que algumas das mais poderosas figuras do País estão emitindo alertas de instabilidade – sinalizando que podem tomar o controle e acabar com a maior democracia da América Latina”, escrevem.

Os jornalistas lembram da declaração que o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) deu recentemente de que não haveria mais uma questão sobre se uma ruptura democrática iria ocorrer, mas quando.

Sem citar fontes, a reportagem informa que alguns oficiais dentro do Planalto estão ativamente examinando cenários nos quais os militares poderiam intervir.

Um oficial que não foi autorizado a falar publicamente disse que uma intervenção está fora do radar por ora, mas certos movimentos do Judiciário como ordenar uma busca e apreensão na residência oficial de Jair Bolsonaro como parte das investigações poderia mudar este quadro.

De acordo com o New York Times, o Brasil representou uma esperança para o mundo emergente nas últimas décadas, com uma economia pujante e a atração dos holofotes com a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016, mas desde então o País foi abalado por uma crise econômica e por graves escândalos de corrupção envolvendo figuras políticas proeminentes.

Bolsonaro teria surgido então, de acordo com a reportagem, como uma promessa de restaurar a ordem que flerta com o passado de ditadura militar do País. Porém, desde então ele se tornou alvo de críticas por minimizar a pandemia de COVID-19, sabotar medidas de isolamento e “capitanear uma das maiores contagens de mortos do mundo”.

Tudo isso ocorre ao mesmo tempo em que a família do presidente é acusada de abuso de poder, corrupção e disseminação de fake news.

Recentemente, a casa de análises Rosa & Roubini, dos economistas Brunello Rosa e Nouriel Roubini, escreveu que Bolsonaro tem tido comportamentos cada vez mais autocráticos e o Financial Times apontou que Bolsonaro “acendeu o medo” na democracia brasileira.

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Este artigo foi originalmente publicado pelo InfoMoney [Aqui!].

Jair Bolsonaro acha que vai escapar das responsabilidades sobre a catástrofe da COVID-19, mas está enganado

bolso renitenteO presidente Jair Bolsonaro confrontou de forma ríspida uma eleitora que o questionou sobre os 38.000 mortos pela COVID-19. Ele precisará se acostumar às cobranças que virão

O presidente Jair Bolsonaro tem sido um contumaz negacionista da letalidade do novo coronavírus e da infecção que ele causa, a COVID-19.  Agora, com o total de mortos chegando a 40.000 mil, as cobranças por sua postura estão vindo até dos seus eleitores, coisa que obviamente o está irritando profundamente, já que não está acostumado a ter que dar explicações sobre o quer que seja.

Hoje ele teve um primeiro encontro com uma eleitora e apoiadora, a youtuber Cris Bernat, que trabalha com o vereador paulistano do MBL Fernado Holiday (DEM/SP),  que cobrou suas responsabilidades sobre o número de mortos pela COVID-19 (ver vídeo abaixo).

Como se vê no vídeo, a primeira reação do presidente Jair Bolsonaro foi ficar em silêncio, como se estivesse esperando que a maioria dos apoiadores mais obstinados calassem a eleitora renitente.  Mas como isso aconteceu, ele depois partiu para um costumeiro gesto de tentar calar  uma eleitora que apenas exercia o direito de cobrar o eleito. 

Aí ele fez o que sempre fez nos seus quase 30 anos de vida parlamentar:  mandou  sua eleitora renitente  se retirar da porta do Palácio da Alvorada, e ainda disse “Cobre do seu governador. Sai daqui“.

O problema para  Jair Bolsonaro é que não será tão fácil calar aquela parcela de eleitores que votou esperando por reais mudanças na condução do governo em prol dos pobres, que nem parece ser o caso de Cris Bernat. E ainda terá de ouvir muitas vezes declarações semelhantes ou ainda piores do que aquela que pode ser ouvida no vídeo : “O senhor, como chefe da Nação, eu votei no senhor, fiz campanha para o senhor, acho até que o senhor me conhece. E eu sinto que o senhor traiu a nossa população”.

As próximas semanas e meses deverão de ser de dura provação para Jair Bolsonaro, mas não tão duras para as milhares de famílias que estão perdendo entes queridos para uma pandemia letal, que só chegou ao nível que está chegando pela postura negacionista do presidente da república. Simples assim!

Maquiagem estatística na divulgação dos dados da COVID-19 foi ideia de Luciano Hang, o “véio da Havan”

O novo método do governo de Jair Bolsonaro para esconder os  mortos da Covid-19 tem como referência a sugestão feita pelo dono da rede Havan, Luciano Hang, braço direito do ocupante do Planalto e também investigado pela PF no inquérito das Fake News

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Luciano Hang, Jair Bolsonaro e Cemitério Vila Formosa, em São Paulo (Foto: Reprodução | REUTERS/Amanda Perobelli)

247  – O novo método do governo de Jair Bolsonaro para esconder os cadáveres da Covid-19  é baseado em sugestões dadas por Luciano Hang, dono da Rede Havan, que enviou aos militares da cúpula da Saúde um vídeo por Whatsapp, informa reportagem do portal Valor Econômico. 

No vídeo, Hang promete fazer uma live com o deputado federal Osmar Terra (MDB-RS) para “mostrar o que está por trás dos números” recorde de mortes pela covid-19. Hang exibe, então, uma gráfico com dados de cartórios mostrando uma curva de óbito sem trajetória descendente. Assim, defende que o governo passe a publicar apenas as mortes confirmadas no mesmo dia. Segundo funcionários da Saúde, no entanto, a curva mostrada por Hang é descendente “porque os dados de mortes recentes são muito preliminares”.

A reportagem ainda acrescenta que, sob o comando do general Eduardo Pazuello e aparelhado por militares nomeados a mando de Jair Bolsonaro, o Ministério da Saúde pressiona inclusive a Agência Brasileira de Inteligência (Abin), que produz relatórios internos para informar o presidente, para maquiar dados e esconder o número real de mortos pelo coronavírus.

Saiba mais

Jair Bolsonaro divulgou neste sábado uma nota do Ministério da Saúde que oficializa uma política de menor transparência na divulgação dos dados de mortes e contágio por coronavírus no Brasil. 

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Este artigo foi inicialmente publicado pelo portal “Brasil 247” [Aqui!].

Por causa de Bolsonaro, comitê liderado pelos democratas no congresso dos EUA se opõe a qualquer acordo comercial com o Brasil

congresso euaO presidente do Comitê de Formas e Meios da Câmara de Deputados, Richard Neal, discute seu pedido ao comissário do IRS Charles Rettig para obter cópias das declarações fiscais do presidente Donald Trump, enquanto fala com repórteres no Capitólio dos EUA em Washington, EUA, em 4 de abril de 2019. REUTERS / Yuri Gripas

WASHINGTON (Reuters) – O Comitê de Caminhos e Meios da Câmara dos EUA disse nesta quarta-feira que se opõe ao plano do governo Trump de expandir os laços econômicos com o Brasil, dado seu histórico de direitos humanos e meio ambiente sob o presidente Jair Bolsonaro.

O presidente do comitê, Richard Neal, e seus colegas democratas no painel disseram ao representante de comércio dos EUA, Robert Lighthizer, em uma carta que o governo de Bolsonaro havia demonstrado “um completo desrespeito aos direitos humanos básicos”.

“Nós nos opomos fortemente a perseguir qualquer tipo de acordo comercial com o governo Bolsonaro no Brasil. O aprimoramento da relação econômica EUA-Brasil neste momento minaria os esforços dos defensores dos direitos humanos, trabalhistas e ambientais brasileiros para promover o estado de direito e proteger e preservar comunidades marginalizadas ”, escreveram eles.

Autoridades comerciais americanas e brasileiras concordaram no mês passado em acelerar as negociações com o objetivo de concluir um acordo sobre regras comerciais e transparência este ano, incluindo facilitação do comércio e “boas práticas regulatórias”.

Mas os democratas no comitê disseram que o governo de Bolsonaro não pode estar realisticamente preparado para assumir novos padrões de direitos dos trabalhadores e proteções ambientais estabelecidos no acordo comercial EUA-México-Canadá, dado seu próprio histórico ruim sobre direitos humanos e outras questões importantes.

O representante Kevin Brady, o republicano no comitê, disse a repórteres que desconhecia a carta.

Em vez de buscar um acordo comercial com o Brasil, os legisladores democratas disseram que Lighthizer deveria intensificar a aplicação das leis americanas e levantar preocupações sobre as práticas comerciais desleais do Brasil com o governo brasileiro.

O presidente dos EUA, Donald Trump, desenvolveu um relacionamento próximo com Bolsonaro, um ex-capitão do exército de direita. A Casa Branca disse na semana passada que os Estados Unidos forneceram ao Brasil 2 milhões de doses de hidroxicloroquina para uso contra o coronavírus, apesar das advertências médicas sobre os riscos associados ao medicamento antimalária.

Reportagem de Andrea Shalal e David Lawder; Edição por Richard Chang e Tom Brown

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Este artigo foi inicialmente publicado pela agência Reuters [Aqui!].

Jair Bolsonaro, o bode na sala

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Por Luiz Felipe Miguel*

Ao fazer com que boa parte da esquerda brasileira aceite ficar a reboque da direita “civilizada”, abrindo mão de toda a sua agenda em nome nem sequer da democracia representativa, mas simplesmente de um regime menos iliberal, Bolsonaro cumpre seu último serviço aos golpistas de 2016: ser o bode na sala.

A metáfora deve ser entendida em sua plenitude. A presença do bode não é banal. Ele fede, faz barulho, quebra coisas, destrói o estofamento do sofá, ataca as pessoas. Por isso é tão tentadora a sugestão de dar tudo em troca de retirá-lo.

Mas é preciso um pouco de sangue frio, para pensar: é preciso mesmo dar tudo? Não é possível expulsar o bode sem abrir mão de quem somos?

Para a classe dominante sempre é mais fácil. Ela negocia em condições de força – não é à toa que exibe o adjetivo “dominante”. Mostra que pode se acomodar com Bolsonaro, se nós não aceitarmos todas as suas condições.

Mas isso não é tão verdade. Se a acomodação com Bolsonaro fosse tão tranquila, esses acenos à sua derrubada não estariam nem sendo feitos. O Brasil está se tornando um pária no sistema internacional. Está caminhando para o colapso, com a gestão tanto obtusa quanto criminosa da crise sanitária e econômica.

A classe dominante tem mais condições de pretender que pode prosseguir com essa situação indefinidamente, mas é isso: pretender.

Por isso, submeter-se a seu programa não é a única alternativa. É possível afirmar a disposição por ação conjunta contra Bolsonaro sem deixar de reafirmar nossas diferenças profundas e irreconciliáveis.

Elas podem ser resumidas ao seguinte contraste:

O que eles desejam restaurar, com a saída do bode, é o Brasil do pós-golpe. Violência estatal menos escancarada, menos irracionalidade no poder, aceitação ritual dos direitos humanos. Mas a disputa política continua tutelada de maneira a excluir de antemão o campo popular – e, portanto, deixar caminho aberto para o aprofundamento de todas as desigualdades.

Para o nosso lado, o projeto deles não é irrelevante, mas é insuficiente. Para nós, a verdadeira retirada do bode tem que significar, pelo menos, a vigência plena da Constituição de 1988. Abrir mão de assumir esse discurso é abrir mão da disputa política e aceitar, nos documentos e na prática, os limites que eles estão impondo.

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Luis Felipe Miguel é professor de Ciência Política da UNB, e autor de Democracia e resistência: desafios para uma política emancipatória (Boitempo, 2018) e, em conjunto com Flávia Biroli, Feminismo e política: uma introdução (Boitempo, 2014), entre outros. Ambos colaboram com o Blog da Boitempo mensalmente às sextas.

No Le Monde, pesquisadores demandam a imposição de severas sanções ao Brasil pela União Europeia

Brasil: “A Europa pode agir impondo severas sanções diplomáticas e comerciais”

A epidemia de COVID-19 parece completamente fora de controle no Brasil e a ameaça do estabelecimento de um regime autoritário é real, estima no fórum no “Mundo”  no jornal Le Monde um grupo de pesquisadores da Rede Europeia para a Democracia no Brasil, exortando a União Europeia (UE) a agir.

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Por Antoine Acker, Maud Chirio, Olivier Compagnon , Juliette Dumont e Anaïs Fléchet no jornal Le Monde

Arquibancada

Ao quebrar o recorde de maior número de mortes diárias no COVID-19, o Brasil está fazendo um triste retorno à frente da mídia. As notícias desta tragédia da saúde, que atingiu duramente as populações mais pobres, são geralmente informadas por breves comentários sobre o isolamento e a radicalização do presidente.

Mas essa descrição erra o ponto: Jair Bolsonaro não está tão enfraquecido quanto pressionado por uma corrida precipitada que pode levar ao estabelecimento de um regime autoritário. Apoiado pela maioria das equipes militares e por um setor de opinião fanático, apoiado pelas igrejas evangélicas mais reacionárias, o presidente brasileiro está se preparando para destruir a Nova República, nascida em 1988 a partir das ruínas da ditadura militar. E isso, com a máxima indiferença da comunidade internacional.

Desde que as primeiras medidas de contenção foram adotadas pelos governadores em março, o executivo se envolveu em um confronto com instituições democráticas. Bolsonaro quebrou o pacto federal ao enfrentar de frente as medidas de distanciamento social. Acusado de interferir na polícia para proteger sua família de possíveis processos, próximo das milícias da máfia do Rio de Janeiro, ele multiplicou as provocações contra o Supremo Tribunal Federal, e apoiou os manifestantes que exigiam seu fechamento definitivo. .

Brasil, um estado altamente militarizado

Além disso, há uma intensa campanha nas redes sociais, apoiada por uma hashtag longa e explícita: # intervençaomilitarcombolsonaronopoder (intervenção militar com Bolsonaro no poder). Essa “intervenção militar” não é um mero espantalho. Sua perspectiva agora está sendo agitada diariamente, não apenas por manifestantes e em redes de extrema direita, mas por membros do governo e, em 28 de maio, pelo próprio Bolsonaro. Para justificá-lo, seus parentes invocam um artigo da Constituição que autoriza as forças armadas a agir pela “manutenção da lei e da ordem” se forem chamadas a fazê-lo por “qualquer um dos poderes constitucionais” .

No entanto, este artigo 142, vestígio de uma transição democrática realizada sob supervisão militar, visa justificar o uso do exército em missões de segurança pública e, em nenhum caso, legitimar um golpe. Com quase metade dos ministros de uniforme e 3.000 oficiais nos ministérios, o poder no Brasil já está fortemente militarizado. Se amanhã os principais freios e contrapesos forem derrubados, testemunharemos essa viagem no tempo, o retorno de uma ditadura militar na maior democracia da América Latina.

Diante da ameaça de um fim próximo, as instituições democráticas brasileiras são extremamente vulneráveis. Entre o oportunismo dos parlamentares ansiosos por preservar suas vantagens, a oposição inaudível e o medo de represálias por parte do exército, o Congresso fica petrificado diante dos pedidos de “impeachment” que se acumulam às dúzias. Pior ainda, cada tentativa de reagir legalmente às provocações do governo aumenta o risco de uma gorjeta na ditadura.

Risco real de um golpe militar

Recentemente, uma operação para desmantelar redes de notícias falsas próximas ao governo levou várias personalidades-chave do bolsonarismo a exigir a morte do juiz do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, que estava na origem. O perigo iminente de um golpe militar não é apenas o resultado de uma confusão política agravada pela pandemia. Confirma uma desintegração da democracia cujas elites financeiras, políticas e de mídia nos países ocidentais subestimaram, e às vezes até alimentaram, a força dos estágios: a demissão da presidente eleita Dilma Rousseff em 2016, por uma razão superficial e desprezo pelo espírito da Constituição, o abuso repetido do poder por uma justiça parcial e politizada, a imobilidade das instituições diante de provocações, violência e trapaça pela extrema direita.

A situação é explosiva, a democracia à beira do abismo. Desta vez, ninguém será capaz de fingir surpresa, porque Bolsonaro e seus parentes prometeram consistentemente, durante sua campanha e desde que chegaram ao poder, o fechamento do Supremo Tribunal Federal, a intervenção do exército e a prisão de oponentes. políticos. A extinção da democracia brasileira teria sérias conseqüências internacionais.

Além do possível efeito dominó em um continente enfraquecido pelas grandes crises políticas, a aceleração do desmatamento suscita temores de um desastre ambiental e humano, que, segundo os cientistas, poderia perturbar o equilíbrio climático da Terra em alguns anos. Por enquanto, o Brasil se afirma como o novo foco da pandemia global que, diferentemente dos precedentes chinês, europeu ou norte-americano, está completamente fora de controle.

Apelo urgente à Europa

A Rede Europeia para a Democracia no Brasil é o produto do movimento de solidariedade internacional que se eleva desde 2016 diante do estado de direito vacilante neste país. Por muitos anos, a comunidade internacional assistiu com braços balançando a ascensão de forças autoritárias no coração da segunda maior democracia do mundo ocidental.

Apelamos à conscientização da mídia e da opinião européia. Pedimos aos líderes de diferentes nações e à UE que afirmem inequivocamente seu apoio aos democratas brasileiros, à Suprema Corte, aos governos dos estados federados e ao Congresso diante dos ataques do presidente Bolsonaro e sua comitiva.

Diante de um executivo obcecado por suas raízes ocidentais e preocupado com sua reputação internacional, a Europa pode agir impondo severas sanções diplomáticas e comerciais ao Brasil, em particular contra setores ligados ao desmatamento e empresas associadas ao poder bolsonariano.

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Este artigo foi originalmente publicado em francês pelo jornal “Le Monde” [Aqui!].


 

Antoine Acker , professor assistente da Universidade de Zurique. Historiador e membro do Centro da América Latina em Zurique, autor da Volkswagen na Amazônia: A tragédia do desenvolvimento global no Brasil moderno (Cambridge University Press, 2017); Maud Chirio , professor da Universidade Gustave Eiffel. Historiador, especialista em ditadura militar, repressão política e extrema direita no Brasil, autor de La Politique eniform. A experiência brasileira, 1960-198 0 (PUR, 2016); Olivier Compagnon , professor de história contemporânea da Universidade Sorbonne Nouvelle (IHEAL) e co-editor-chefe das Cahiers des Amériques latines  ; Juliette Dumont, Professor de História no Instituto de Estudos Avançados na América Latina (Sorbonne Nouvelle Paris-III University) e presidente da Associação para a Investigação sobre o Brasil na Europa, coordenador da História Cultural do Brasil XIX th – XXI th  séculos (IHEAL, 2019); Anaïs Fléchet , historiadora, professora da Universidade Paris-Saclay e membro do Instituto Universitário da França, autora de História Cultural do  Brasil dos  séculos XIX a XXI (IHEAL, 2019).

 

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