Leonardo DiCaprio usa “10 Years Challenge” do Instagram para denunciar avanço do desmatamento em Rondônia

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Um dos muitos modismos que apareceram nas redes sociais nos últimos tempos é o chamado “10 Years Challenge” onde celebridades e pessoas anônimas mostram fotos pessoais mostram suas mudanças fisionômicas nos últimos dez anos [1].

Pois bem, uma celebridade resolveu usar  hoje (18 de janeiro) sua página oficial na rede Instagram para mostrar duas imagens mostrando mudanças radicais não em sua aparência, mas de um estado da Amazônia brasileira. A celebridade no caso é o ator Leonardo DiCaprio e o estado é Rondônia (ver imagem abaixo).

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Di Caprio duas imagens do satélite Landsat para mostrar o avanço do desmatamento em Rondônia entre 2006 e 2018 no que ele classificou corretamente de sendo uma das regiões que mais perderam cobertura florestal na Amazônia brasileira. E ainda que alguém ache que DiCaprio errou o tamanho do estado de Rondônia, é preciso lembrar que “over” no sentido usado por ele é de “mais de”.  E a área total de Rondônia é de 237,576 km², a maioria coberta por florestas até meados da década de 1970 quando o regime militar começou a expansão da frente pioneira na Amazônia ocidental brasileira.

Esse posicionamento de Leonardo DiCaprio é mais um revés para o governo Bolsonaro e sua política de “libera geral” para o desmatamento e para a degradação dos ecossistemas naturais existentes dentro da porção brasileira da Amazônia. 

É que apenas no Instagram, DiCaprio possui cerca de 25 milhões de seguidores. Deste universo. Em função, em menos de uma hora após a realização da postagem mais de 100 mil de seus seguidores já haviam dado um “like” no momento em que visualizei a imagem que havia recebido 1.425 comentários. Em outras palavras, uma simples postagem de Leonardo DiCaprio já teve uma forte repercussão mundial.

Mas há que se lembrar que o ator estadunidense também criou uma fundação comprometida com a conservação ambiental em escala global, a Leonardo DiCaprio Foundation (LDF).  Criada em 1998, a fundação impulsionada por DiCaprio diz já ter desembolsado US$ 100 milhões para financiar mais de 200 projetos distribuídos em 50 países [2].

Quem examinar a página oficial da LDF poderá verificar que entre as suas linhas mestras de ação estão a proteção das florestas e o esforço para  minimizar os impactos das mudanças climáticas, dois tabus para o governo Bolsonaro.

Assim, ao apontar diretamente para o desmatamento em Rondônia, Leonardo DiCaprio se soma a outras personalidades mundiais (incluindo Gisele Bündchen) que decidiram não deixar barato as anunciadas mudanças para facilitar a expansão da degradação na Amazônia.  No caso de DiCaprio, ele não só é famoso, mas como tem uma ferramenta institucional para influenciar indivíduos e governos. Em suma, o posicionamento público de DiCaprio terá consequências para o Brasil e o governo antifloresta que foi instalado em Brasília no dia 01 de janeiro de 2019.

Luta da etnia Ka’apor contra madeireiros explicita riscos que índios que correm para defender seus territórios

 

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Mapa do desmatamento acumulado na TI Alto Turiaçu em 2014 | Fonte:  ISA

O vídeo abaixo, da lavra do jornalista Pietro Locatelli, mostra o sistema montado pelos índígenas da etnia Ka’apor para defender seu território (localizado no interior do estado do Maranhão) da ação predatória de madeireiros e outros invasores interessados em saquear os ecossistemas de onde eles tiram seu sustento e garantem sua reprodução social.

Mas esta disposição de auto-organização do Ka’apor deverá colocá-los sob riscos ainda maiores agora que as estruturas mínimas criadas pelo Estado brasileiro para preservar a integridade territorial das áreas indígenas estão sendo rapidamente desmontadas pelo governo Bolsonaro.

Assim, é fundamental estabelecer canais de solidariedade aos Ka’apor e todos os povos indígenas que estão tendo seus territórios ancestrais invadidos. Do contrário, as investidas cometidas pelos saqueadores irão resultar em mais degradação ambiental e o genocídio dos indígenas que se dispuseram a resistir ao avanço da franja de destruição.

Uma prova dessa urgência é a nota publicada pela jornalista Miriam Leitão dando conta da invasão da Terra Indígena dos Awá Guajá, também no Maranhão [1].  O pior é que no caso do Awá Gujá é de contato recente, o que os torna ainda mais sensíveis às invasões de suas terras.

Enquanto chineses fazem algodão crescer no lado escuro da Lua, o Brasil aposta no banho de sangue

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Duas notícias aparentemente díspares mostram a distância em que China e Brasil se encontram neste momento. A primeira é a sensacional novidade de que os chineses conseguiram o ineditismo de fazer uma semente de algodão germinar no lado escuro da Lua.

Como informou o jornal português Público, o sucesso da semente de algodão representa a primeira “mini-experiência” de cultivo bem-sucedida da missão chinesa (e de qualquer outra nação, já agora) em solo lunar [1]. Isto logo depois de a China ter sido também o primeiro país a pousar um módulo no lado oculto da Lua, a 3 de Janeiro.

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Imagem do recipiente especial onde estão as sementes levadas para solo lunar UNIVERSIDADE DE CHONGQING/EPA

O sucesso da missão chinesa na Lua é consequência do massivo a a  em ciência que a China vem empreendendo nas últimas décadas, a ponto de se estimar que a produção científica chinesa vá ultrapassar a dos EUA.  Tal feito aponta para uma realidade bastante promissora par a economia chinesa, pois os avanços científicos estão sendo orientados para livrar o país da dependência da produção de produtos industrializados de baixo valor agregado.

A segunda notícia foi a lamentável decisão do governo federal do Brasil de liberar a compra de até 4 armas de fogo por cidadãos acima de 25 anos. Ao lado do fato de que o Brasil já detém o recorde de ser o país onde mais se mata com arma de fogo no mundo (estimativas dão conta de 45 mil mortes anuais), a liberação de armas ocorre num momento de grave crise econômica e social.  Assim, a chance de que os números de assassinatos crescem ainda mais, pondo o Brasil na antessala de um banho de sangue inédito até para seus padrões altamente violentos.

Enquanto isso, a ciência brasileira está sob forte ataque ideológico já que vários dos novos dirigentes de importantes agências científicas brasileiras são discípulos de uma personagem que coloca em dúvida até o heliocentrismo!

O resultado do descompasso que essas notícias desvalam não é difícil de se antever: os chineses vão continuar produzindo suas proezas científicas, enquanto o Brasil continuará sendo o país detentor do maior recorde de mortes por armas de fogo.

Em Rondônia, terra indígena Uru-Eu-Wau-Wau sofre grave invasão no começo de 2019

Indígenas Uru-Eu-Wau-Wau estão enfretando sozinhos a invasão de suas terras em Rondônia.

A Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau localizada na região central do estado de Rondônia vem sendo alvo de invasores desde que estive por lá no início da década de 1990. Agora, aproveitando a conjuntura benéfica oferecida pelo governo Bolsonaro que literalmente desmantelou o Ministério Meio Ambiente e transferiu a FUNAI para o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos,  aquela importante área indígena está sofrendo uma invasão que já destruiu mais de 20 km de florestas, gerando graves ameaças aos Uru-Eu-Wau-Wau.

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Abaixo posto um vídeo como um depoimento da historiadora Ivaneide Bandeira, dirigente da organização não-governamental Associação de Defesa Etnoambiental Kanindécuja atuação em favor dos povos indígenas do estado de Rondônia tem sido fundamental para impedir um processo ainda mais rápido de invasão das suas reservas. O depoimento é grave e precisa ser amplamente disseminado.

O fato é que, enquanto a população brasileira está literalmente distraída por um início aparentemente desencontrado do governo Bolsonaro, as terras indígenas e os povos que nelas habitam estão sendo colocados no centro de um agressivo processo de pilhagem dos recursos naturais da Amazônia.

Assim, é preciso que se pressione o governo Bolsonaro para que realize a devida defesa dos povos indígenas e de seus territórios, começando pela expulsão dos invasores da T.I. Uru-Eu-Wau-Wau.

 

Com Davos totalmente esvaziado, mídia corporativa brasileira planta protagonismo para Jair Bolsonaro

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Se dentro de casa já houve confusão na largada, se segurem para o que pode acontecer no Fórum Econômico Mundial de Davos!

Que a mídia corporativa brasileira está tentando fazer mimos com o presidente Jair Bolsonaro não há dúvidas. Mas uma matéria assinada pelo jornalista Jamil Chade, correspondente em Genebra do “O Estado de São Paulo” mostra que para o servilismo da mídia brasileiro não há mesmo limite.bolsonaro protagonismo

A começar pelo título da matéria “Sem Donald Trump, Bolsonaro deve ser destaque em Davos” todo o conteúdo é uma tentativa de dourar a pílula para uma liderança que é vista com péssimos olhos em toda a Europa [1]. Além disso, como Bolsonaro não é fluente em inglês, os contatos que existirem ficarão por conta de ministros e de seu filho Eduardo. Em outras palavras, se houver algum protagonismo de Jair Bolsonaro na edição de 2019 do Fórum Econômico Mundial de Davos [2], provavelmente isso não será por alguma coisa boa. E, pior, daqueles habilitados a falar pelo menos um inglês no nível “freshman“, as chances maiores é de que pronunciamentos bizarros sejam a tônica.

Aliás, com a presença do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, na delegação, é bem provável que nos próximos dias sejamos brindados com matérias jornalisticas da mídia internacional sobre uma de suas muitas elaborações bizarras, a começar por aquela que diz que as mudanças climáticas são um complo marxista destinada a fortalecer o papel da China na geopolítica mundial.

Em suma, não se faz mais protagonismo como antigamente.

 

 

Enquanto o Brasil vira anão diplomático, as placas tectônicas da geopolítica global se movem para longe do dólar

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Líderes da Índia, Rússia e China tomam medidas para “desdolarizar” suas economias que alteram balanço geopolítico global.

Enquanto o Brasil sob o Jair Bolsonaro  se move cada vez mais para se comportar como um satélite dos EUA, a Rússia, a Índia e a China estão realizando vários movimentos que deverão colocar Donald Trump sob maior pressão (como se ele precisasse disse a estas alturas do campeonato).

O principal instrumento dessa pressão é a “desdolarização” das economias destes 3 gigantes da economia global, principalmente a Rússia que vendeu cerca de 101 bilhões de dólares de suas reservas cambiais para comprar Yuans (moeda chinesa) e Euros, conforme reportagem assinada pelas jornalistas Natasha Doff e Anna Andrianova para a Bloomberg [1].

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Esse movimento russo está sendo acompanhado pela China e pela Índia, o que deverá gerar abundância de dólares no mercado, o que implicará em mais perdas para a economia estadunidense que, convenhamos, já não vem bem lá das pernas.

Para adicionar ainda mais pressão sobre os EUA, há o surgimento de processos de compras de commodities por canais pouco tradicionais que incluem a troca direta de produtos que dispensam o uso de moedas (ou seja uma volta ao  método do escambo que vigorou nos primórdios da colonização portuguesa do Brasil), a começar pelo petróleo que envolvem triangulações entre os membros do RICS (agora que Bolsonaro e seu ministro de Relações Exteriores cético das mudanças climáticas decidiram alinharo Brasil aos interesses dos EUA).

Essas mudanças na forma com que se dão as relações comerciais associadas à “desdolarização” da economia podem indicar que o caminho sendo tomado pelo Brasil é do tipo que se chama de “loose-loose”.  É que com esses novos alinhamentos na geopolítica mundial, escolher ser satélite dos EUA não parece ser a opção mais inteligente.

A anatomia do desmonte das políticas socioambientais

Em editorial, ISA critica redução drástica da importância e subordinação de órgãos de defesa do meio ambiente, de indígenas e quilombolas provocadas por reforma ministerial de Bolsonaro

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Posse do novo ministro de Meio Ambiente, Ricardo Sales | Alan Santos / PR


Por Instituto Socioambiental

A Medida Provisória (MP) n.º 870/2019 e os decretos editados pelo presidente Jair Bolsonaro para reorganizar a estrutura e as competências ministeriais deixaram, deliberadamente, graves lacunas nos instrumentos e políticas socioambientais. A medida denota contrariedade a deveres atribuídos à administração federal pela Constituição e legislação correlata.

Já comentamos o caráter secundário com que ministérios importantes para essa agenda, como os do Meio Ambiente e Direitos Humanos, foram tratados na formação do governo (saiba mais). Agora a sinalização negativa, porém, traduz-se na drástica redução ou mesmo na eliminação de estruturas e competências.

Da lista de atribuições do MMA, espanta a ausência de qualquer menção ao combate ao desmatamento, que sempre constituiu atividade nuclear da política ambiental. Caso se confirme a inação estatal contra o crime ambiental, como dá a entender a nova normativa governamental, as consequências serão danos irreversíveis ao meio ambiente, caracterizado pela Constituição como patrimônio de toda a sociedade.

No momento em que atingimos 19% de desmatamento acumulado na Amazônia e os índices anuais crescem, importante recordar o alerta da comunidade científica (leia estudo). As pesquisas mostram que, atingidos entre 20% e 25% de desmatamento, a maior floresta tropical do mundo entraria em um “ponto de não retorno”, a partir do qual todo o seu equilíbrio seria modificado de forma irreversível, com a perda de serviços ambientais, incluindo a manutenção do regime de chuvas do qual dependem, entre outros, a agropecuária brasileira.

A desestruturação das políticas socioambientais parece fazer de conta que seus desafios e demandas não existem mais. A nova normativa chegou ao ponto de praticamente extinguir as referências ao combate às mudanças climáticas na estrutura do MMA. A Secretaria de Mudança do Clima e Floresta não existe mais. Restou apenas uma referência, de passagem, ao Fundo Nacional sobre Mudança Climática e ao seu comitê gestor. É como se o presidente quisesse acabar com o problema omitindo referências a ele.

Termômetros não têm ideologia

No entanto, o problema existe e é reconhecido por 99% da comunidade científica mundial, que, ao contrário do que Bolsonaro imagina, não é um bando de comunistas. Também é reconhecido e objeto de políticas públicas em praticamente todos os países do mundo. Os termômetros não mentem e não têm ideologia. Entre outras evidências, segundo a Organização Mundial de Meteorologia, os últimos quatro anos foram os mais quentes da história. Trata-se de questão pragmática, que coloca em risco a qualidade de vida em todo planeta, mesmo daqueles que fingem discordar do consenso global.

O nível dos oceanos está subindo, o que põe em risco a vida de milhões de brasileiros. A seca deixou de ser um problema nordestino e crises hídricas assolam cidades outrora abundantes em água. Processos de desertificação – que também deixaram de ser objeto das atribuições do MMA – se expandem. Fenômenos climáticos extremos ocorrem com intensidade crescente. Os impactos das mudanças climáticas sobre cidades e regiões agrícolas serão cada vez maiores (assista ao documentário ‘O Amanhã é Hoje’).

O esvaziamento do MMA seguiu com a transferência das políticas e instrumentos de recursos hídricos, incluindo a Agência Nacional de Águas (ANA), ao Ministério do Desenvolvimento Regional, além do Serviço Florestal Brasileiro (SFB) e seu principal instrumento, o Cadastro Ambiental Rural (CAR), repassados ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).

Outra marca da nova estrutura administrativa é a subordinação de direitos fundamentais de minorias a interesses econômicos. Ficaram sob a responsabilidade do MAPA a oficialização de terras indígenas e quilombos, além de outros temas fundiários, como a reforma agrária e a regularização fundiária na Amazônia Legal e nos territórios tradicionais. Os temas ficarão sob o comando da nova Secretaria Especial de Assuntos Fundiários.

Direitos Humanos mais magro

Já o Ministério dos Direitos Humanos ficou ainda mais magro. Havia sido anunciado como gestor de políticas para vários segmentos sociais e minorias, mas ficou reduzido a um conjunto de secretarias sem instrumentos executivos, destinado a cumprir função retórica e ideológica. A Fundação Nacional do Índio (Funai) é o único (pedaço de) órgão vinculado à sua estrutura, mas, com o seu esvaziamento, não se sabe exatamente quais serão suas funções. A Fundação Cultural Palmares, responsável pela certificação de comunidades quilombolas, ficou vinculada ao Ministério da Cidadania.

A desestruturação dos instrumentos de governo e a irresponsabilidade para com o País e as populações mais vulneráveis deixarão o próprio governo sem anteparos para responder a eventuais crises, que tenderão a bater na sua porta. A impressão é de que o novo desenho administrativo não implica apenas subordinação da agenda socioambiental a interesses econômicos e perda de poder de alguns órgãos, mas abre caminho ao desmonte de políticas reconhecidas, inclusive internacionalmente, construídas ao longo de décadas de avanços.

Fonte: Instituto Socioambiental [Aqui!]

Patrimônio de ministro do Meio Ambiente aumentou seis vezes quando esteve no governo Alckmin

Em 2013, Ricardo Salles foi nomeado secretário particular do governador tucano e em 2016, secretário do Meio Ambiente

 

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O ministro de Bolsonaro, que quer privatizações na pasta, tentou vender parques em SP quando era secretário do Meio Ambiente

Por Cida Oliveira

São Paulo – O ministro do Meio Ambiente de Jair Bolsonaro (PSL), Ricardo Salles (Novo), viveu seu período mais próspero a partir da entrada no governo de Geraldo Alckmin (PSDB) em São Paulo. Em março de 2013, o tucano nomeou Salles como seu secretário particular. E em julho de 2016, passou a ser o secretário estadual de Meio Ambiente. O período coincide com a multiplicação por seis de seu patrimônio. Passou de R$ 1.456.173,56, em 2012, para R$ 8.859.414,45 em 2018, conforme dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), um crescimento na ordem de 500%.

Em 2006, quando se candidatou pela primeira vez a deputado federal (PFL-SP), o fundador do movimento Endireita Brasil e ligado aos ruralistas declarou patrimônio de R$ 219.336,46.Tinha conta corrente em dois bancos, um carro popular, aplicação em renda fixa, ações da Telebras e metade de um apartamento.

Como não conseguiu votos suficientes à Câmara, quatro anos depois tentou uma vaga na Assembleia Legislativa paulista pelo DEM, mas foi novamente reprovado nas urnas. O valor total dos bens declarados em 2010 foi de R$ 2.328.000. Entre os bens, dois carros de luxo, um apartamento no valor de R$ 1.100.000 e outro de R$ 470.000, além de investimentos que podem ser conferidos no quadro no final da reportagem. 

Em 2012 chegou a se candidatar ao cargo de vereador na capital paulista pelo PSDB. Declarou bens no valor de R$ 1.456.173,56. O empobrecimento é um dos impactos de sua separação. Apesar disso, tinha um veículo off road de R$ 120.000, uma motocicleta de R$ 38.000, a parte de um apartamento e aplicações somando mais de R$ 1 milhão. No entanto, ele desistiu da candidatura. Meses depois, foi nomeado para o posto de secretário particular do então governador de São Paulo. Ficou no posto até novembro de 2014, quando pediu para sair.

Pensão alimentícia

Como secretário particular do governador, teve problemas com a Justiça. Em agosto de 2014 devia R$ 28.288, valor referente à pensão alimentícia que não foi paga ao casal de filhos pequenos. Ele tentou negociar a redução do valor, de R$ 8.000 para R$ 5.000, alegando ganhar apenas R$ 16.868 no posto no Palácio dos Bandeirantes. Apesar do pedido de prisão, do qual se livrou, só quitou a dívida com os filhos em dezembro daquele mesmo ano. Clique aqui para acessar mais informações. 

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Página de Salles no Facebook. O atual ministro teve muitos likes de amigos, congratulando a compra do barco

Advogado de poucas causas

Em fevereiro de 2015, Salles já estava trabalhando como advogado na Bueno Netto, grande empresa do setor imobiliário. O atual ministro não era um advogado atuante e a última vez que havia protocolado uma ação havia sido em 2012. Em julho, porém, foi promovido, ganhando plenos poderes para advogar em nome da Bueno Netto. O período coincide com a compra de um barco de luxo, cuja imagem compartilhou com amigos no Facebook.

Em julho de 2016 voltou a trabalhar para o governo paulista, desta vez no cargo de secretário estadual do Meio Ambiente. Ao longo dos 13 meses que comandou a pasta, adotou políticas polêmicas, como tentar vender áreas de proteção ambiental e florestais. Também mandou retirar de um parque estadual uma estátua em homenagem a Carlos Lamarca – atitude pela qual responde a processo por danos ao erário.

Também interferiu no plano de manejo da Área de Proteção Ambiental Várzea do Tietê, adulterando mapas e até a minuta de decreto para beneficiar empresários, o setor da mineração e a Fiesp. Por isso foi indiciado, processado e condenado pela Justiça paulista. A condenação inclui a perda de direitos políticos por três anos, o que torna sua posição à frente do Ministério do Meio Ambiente inconstitucional segundo jurista.

Salles ainda tomou medidas que visavam a venda ao setor privado de prédios públicos que abrigavam institutos estaduais, como o Geológico. Depois de muito desgaste para o governo Alckmin, Salles foi exonerado em agosto de 2017.

Ao candidatar-se novamente a deputado federal em 2018, pelo Novo, mais uma vez não conseguiu votos suficientes. Acabou ficando como suplente. Ao TSE, declarou bens totalizando R$ 8.859.414,45, o que inclui dois apartamentos no valor de R$ 3.000.000, ações, mútuos de privatização e investimentos em empresas emergentes e um iate de R$ 500.000, provavelmente o que ostentou nas redes sociais.

À imprensa, Salles afirmou que seu patrimônio é declarado e fruto de seu trabalho exercendo a advocacia.

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Bens declarados ao TSE em suas candidaturas mostram evolução do patrimônio nos últimos anos

FONTE:  Rede Brasil Atual [Aqui!]

 

 

Benjamin Moser, biógrafo de Clarice Lispector, escreve carta aberta a Ernesto Araújo

Escritor e historiador Benjamin Moser (à esquerda) escreveu carta a Ernesto Araújo (à direita) pedindo mais compostura no exercício do cargo.

Já escrevi aqui que meus 3 prinicipais candidatos a perderem precocemente seus cargos de ministros no governo Bolsonaro são, pela ordem,  Ernesto Araújo (Relações Exteriores), Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos) e Ricardo Salles (Meio Ambiente). É que vem partindo deles um conjunto imenso de declarações bizarras que estão transformando o Brasil numa espécie “international laughing stock” (em bom português, motivo de piada internacional). 

A  temperatura do forno em que a batata, por assim dizer, de Ernesto Araújo está assando acaba de receber uma boa elevada com a divulgação de uma carta do escritor e historiador estadunidennse, e biógrafo da escritora Clarice Lispector, Benjamin Moser onde, após enumerar várias de declarações absurdas do ministro das Relações Exteriores, há um claro chamado à compostura.

É que para Benjamin Moser, o Brasil está sendo exposto ao ridículo por determinadas declarações de Ernesto Araújo, as quais incluem elementos com conotações antissemitas, o que pode até agradar determinados setores políticos dentro e fora do país, mas não vai facilitar em nada a aceitação de Jair Bolsonaro e suas políticas ultraneoliberais.

Como uma colega que é jornalista me lembrou, em seu discurso de posse, Ernesto Araújo também incluiu Clarice Lispector em seu heteroxo rosário de citações. Na ocasião, o ministro das Relações Exteriores indicou que a escritora de origem ucraniana como alguém cujas obras deveriam ser mais lidas [1]. Para que nem isso serviu para acalmar as preocupações de Benjamin Moser.

Abaixo a íntegra da carta aberta de Benjamin Moster ao ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo.

Carta ao Ministro das Relações Exteriores do Brasil

Prezado ministro,

Há pouco mais de dois anos, o ministério que o senhor hoje encabeça me outorgou o Prêmio Itamaraty de Diplomacia Cultural. Foi um reconhecimento do meu trabalho e trouxe consigo uma obrigação de continuar trabalhando em prol do Brasil —de ser algo como um amigo oficial do Brasil. E é nesta capacidade que lhe escrevo.

Recentemente, o senhor publicou uma matéria no meu idioma, o inglês, e no meu país, os Estados Unidos (“Bolsonaro was not elected to take Brazil as he found it”, ou “Bolsonaro não foi eleito para deixar o Brasil como o encontrou”, na Bloomberg, em 7/1). Se respondo em português, é por dois motivos.

Primeiro, porque sua matéria ilustra muito bem que saber a gramática ou o vocabulário de outra língua não implica compreender suas sutilezas: como soa. Se tivesse maior noção do meu idioma, seria de esperar que não houvesse publicado uma coisa que —digo francamente— expõe o Brasil ao ridículo.

E essa é a segunda razão pela qual lhe respondo em português. Apesar de não ser de nacionalidade brasileira, o Brasil não me é de maneira nenhuma alheio. Desagrada-me profundamente vê-lo alvo de risadas internacionais. Gostaria, pois, que esta conversa ficasse entre nós —em português.

Em inglês, a sua vinculação da política externa com Ludwig Wittgenstein soa bizarra. Suspeito que não seja sua intenção —que é, se estou lendo bem, de deslumbrar o leitor com frases como “desconstrução pós-moderna avant la lettre do sujeito humano e negação da realidade do pensamento”.

Sabe aquele estudante de pós-graduação que encurrala a menina na festa falando de Derrida ou Baudrillard?

Pois é.

Aliás, em inglês, proclamar “não gosto de Wittgenstein” soa pretensioso, arrogante. Sabe aquele homem que, diante de um Picasso, diz que sua filha de quatro anos poderia ter feito melhor?

Pois é.

Mas, além do tom, qual é mesmo seu problema com Wittgenstein? Vejo que não é sequer uma frase inteira, mas uma parte de uma frase: “O mundo tal como o encontramos.”

O senhor lê isso como um pedido —uma ordem, até— de aceitar tudo no mundo tal como é, de não tentar mudar nada, de se comportar como se não tivesse vontade própria. Se acompanho a sua lógica, é assim que o Brasil tem se comportado durante todos os governos, de esquerda como de direita, que precederam o atual.

Para quem conhece a obra de Wittgenstein —assim como para quem tem noções da história diplomática brasileira—, isso pode soar inexato. Mas o senhor pretende romper um padrão que tem impedido o surgimento da verdadeira grandeza do Brasil. O país, segundo o senhor, antes disse: “Eu não acho nada. Eu não tenho ideias. Assim como o sujeito desconstruído de Wittgenstein, eu não tenho um ‘eu’.”

Eu não caracterizaria o trabalho de gerações de diplomatas brasileiros assim. Imagino que, em português, possa soar desdenhoso. Mas estamos falando de como soa em inglês, e, se muito ficou incerto na sua matéria, uma coisa ficou clara: sua vontade de mudar a imagem do Brasil no mundo.

De fato, em poucos meses, essa imagem já mudou bastante. Temo que não seja na direção que o senhor pretende. Pois, em todos os meus anos de brasiliófilo, nunca vi tantas matérias ruins sobre o Brasil surgirem na imprensa europeia e americana. Isso deve ser motivo de preocupação para um chanceler. Porque o Brasil, apesar de seus problemas, sempre desfrutou de um nome positivo no mundo.

O racismo, a homofobia e a saudade da ditadura da nova administração têm sido fartamente comentados na imprensa mundial. Em inglês, o tom dessa cobertura tem sido extremamente negativo. Um chanceler deve poder responder num inglês sereno e compreensível e explicar as razões que levam o novo governo a adotar tal e tal medida.

Quando se dirige a um público internacional, uma coisa a evitar a todo preço é o emprego de termos —“globalistas,” “marxistas,” “anticosmopolitas,” “valores cristãos”— que, em inglês, têm fortes conotações antissemitas.

São extraídos do léxico de conspiração global judaica, e, dada a história deste léxico, pessoas civilizadas, tanto de direita como de esquerda, aprenderam a evitá-lo.

Quando se fala inglês, é preferível, em geral, evitar falar de conspirações. Dá a impressão de ter passado a noite em claro na internet decifrando os segredos das pirâmides. Talvez seja por isso que suas descrições sobre o aquecimento global como trama marxista tenham sido tão amplamente ridicularizadas na imprensa mundial.

Quem, em língua inglesa, quer ser levado a sério evita tais caracterizações. E não é mesmo este o maior desejo do senhor, o de ser levado a sério? É a única coisa que fica clara debaixo da linguagem um tanto acalorada.

A novidade que o senhor anuncia não é outra coisa senão a mais antiga emoção do conservador brasileiro: o ufanismo magoado.

Este é o sentimento de quem quer uma nação que esteja à altura da imagem —muitas vezes exagerada— que tem de si próprio.

Se o senhor imagina que o Brasil não é suficientemente respeitado, seria bom nos brindar com pelo menos um exemplo; na minha experiência, vasta, do Brasil no âmbito internacional, confesso que nunca percebi a falta de respeito.

Mas, mesmo que ela existisse, seria bom lembrar que, em qualquer país, o respeito não se exige. Com paciência e trabalho, se ganha.

Ninguém sabe melhor do que eu os lados positivos que tem o Brasil. Mas, sabemos, brasileiros e estrangeiros, que o Brasil também tem uma cara feia. E é essa cara que seu tom me traz à mente. É o tom daquele patrão que grita “faça que tô mandando!” para a empregada. Asseguro-lhe que não fica mais elegante em tradução inglesa.

Infelizmente, não é apenas uma questão de tom. Desde o primeiro dia, este governo deu a impressão de querer abusar das pessoas mais vulneráveis da sociedade. Todos os jornais do mundo têm noticiado os ataques aos índios e à população LGBT, além da redução do salário mínimo para os trabalhadores mais pobres.

É possível que haja explicações razoáveis para tais medidas, mas confesso que até agora não as vi. De novo, seria mais eficaz explicá-las com calma do que andar pelo mundo proclamando que os brasileiros não são mais “robôs pós-modernos” e que não suportarão mais “a opressão wittgensteiniana da morte-do-sujeito.”

Porque, ironicamente, é seu medo de ver as pessoas zombarem do Brasil que fará… as pessoas zombarem do Brasil. Deve ter visto a ministra Damares gritando que “menino veste azul e menina veste rosa!” e notado como isso repercutiu pelo mundo. As suas declarações também não ajudam a que as pessoas levem o Brasil a sério.

Se há um ponto em que estamos em total acordo é que também não gosto de ver o Brasil ridicularizado. Por isso, lhe encorajo a lembrar em nome de quem está falando. E de escolher com mais tato, em português como em inglês, as suas palavras.

O senhor se descreve, no seu Instagram, como “ministro das Relações Exteriores do governo Bolsonaro”. Não é.

É ministro das Relações Exteriores do Brasil.

Seria bom que se comportasse com a dignidade que tal posição exige.

E se, no futuro, tiver uma dúvida de inglês, pode sempre entrar em contato comigo.

Cordialmente,

Benjamin Moser

Prêmio Itamaraty de Diplomacia Cultural, 2016, escritor norte-americano, autor da biografia ‘Clarice’ (Companhia das Letras) e de ‘Susan Sontag: Sua Vida e Obra’, que sai no final do ano também pela Companhia das Letras

Circulando entrevista concedida em Lisboa ao jornal “Diário de Notícias”

Hoje (11/01) foi publicada uma longa entrevista que concedi à jornalista Filomena Naves do jornal português “Diário de Notícias” onde foram abordadas várias questões relacionadas à situação da Amazônia e da ciência brasileira sob a batuta de Jair Bolsonaro e seus ministros, digamos, portadores de opiniões excêntricas sobre várias questões, a começar pelo tema das mudanças climáticas e pela necessidade de controlar o desmatamento que vem crescendo de forma acelerada na maior porção de floresta tropical do planeta.

diário de notícias

Quem desejar ler a íntegra desta entrevista, basta clicar [Aqui!]