Rejeição ao “globalismo” do governo Bolsonaro é como elefante brincando em lojas de cristais: prejuízo na certa!

 

0O novo ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, durante solenidade de transmissão de cargo, no Palácio Itamaraty – Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Em seu discurso de posse, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, entre citações a Raul Seixas e Renato Russo, indicou que o Brasil não se submeterá mais ao “globalismo” [1].  A afirmação subjacente parece ser de que o Brasil irá passar a ignorar as regras acordadas em organismos multilaterais, provavelmente aqueles que tentam regular usos e práticas que afetem não apenas o comércio internacional, mas mudanças climáticas e tratamento a povos orginários. 

O problema que se impõe ao Brasil se essa visão anti-multilateristade Ernesto Araújo for aplicada em “full force” é que a maioria dos países não está disposta a embarcar nessa viagem de desmantelamento dos acordos que visam garantir que não reinstale um clima de faroeste caboclo em questões que afetem o planeta como um todo.

Um exemplo disso? A facilitação do avanço do desmatamento na bacia Amazônica e no desrespeito ao direito dos povos orginários que ali vivem, fato que está claramente expresso na subordinação da FUNAI e do Serviço Florestal Brasileiro (SBF) ao Ministério da Agricultura.

Em reação a essa primeira indicação, até na distante Finlândia a questão da proteção das florestas amazônicas está sendo alvo de entrevistas nos principais veículos de comunicação (ver vídeo da entrevista feita ontem com o professor Markus Kroger, um “brasilianista” da Universidade de Helsinki)

Para quem não entende finlândes, adianto que a questão essencial abordada pelo professor Kroger nessa entrevista não foi a bem informada apreciação da situação da proteção das florestas amazônicas, nem a caracterização das inclinações políticas de Jair Bolsonaro, mas a necessidade de acompanhar o comportamento das empresas finlandesas que atuam no Brasil ( a papeleira Stora Enso, por exemplo).

Na prática, o que o novo ministro das Relações Exteriores parece não entender, é que não basta o Brasil querer se retirar das relações multilaterais para que se volte à condição de fronteira de recursos desregulada com que o presidente Bolsonaro parece sonhar.  Os controles para impedir isso podem estar sendo afrouxados no Brasil, mas serão apertados no resto mundo.

E especialmente no tocante às florestas amazônicas, o mais provável é que , se as taxas de desmatamento continuarem subindo, as commodities que forem produzidas em novas áreas de desmatamento passem a ser objeto de embargos comerciais.

Alguém precisa lembrar aos membros do governo Bolsonaro, a começar pelo Ministro das Relações Exteriores, que os EUA podem fazer de conta que ignoram as organizações multilaterais e a tal “ordem global” por causa do seu poderio militar e econômico. Agora, o Brasil que hoje depende da exportação de commodities agrícolas e minerais não pode se dar ao luxo de brincar de elefante numa loja de cristais.

As consequências para a persistência  desse comportamento certamente serão trágicas para os grandes apoiadores da campanha eleitoral, o latifúndio agro-exportador. Mas, pior ainda, para a economia brasileira. Afinal de contas, até que se instaura uma nova divisão internacional do trabalho, vale a que está estabelecida com suas regras e prioriedades.


[1] https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2019/01/nao-tenho-medo-de-ser-brasileiro-diz-chanceler-ao-assumir-itamaraty.shtml

Florestas, quilombolas e índios, os primeiros alvos dos retrocessos de Jair Bolsonaro

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Apesar da cortina de fumaça que foi levantada com o tratamento indigno dado a apoiadores e jornalistas que estiveram na posse do presidente Jair Bolsonaro, já sabemos que os ecossistemas florestais, quilombolas e índios são as primeiras vítimas dos retrocessos planejados nos bastidores dos novos dirigentes que assumiram o poder no dia de ontem.

Isto fica evidente nas notícias de que o Ministério da Agricultura, comandado pela rainha dos venenos, Tereza Cristina (DEM/MS) ficará à cargo  das demarcações de terras de quilombolas e comunidades indígenas e, de quebra, com o Serviço Florestal Brasileiro [1 2]. Esses encargos se encontravam antes quase que totalmente sob o guarda-chuva dos ministérios da Justiça e do Meio Ambiente.

As consequências mais prováveis dessa concentração de “galinhas dentro de um ninho de raposas” será o aumento dos ataques à quilombolas e povos originários (alvos claros do desgosto pessoal de Jair Bolsonaro) e a liberalização ainda maior do processo de degradação dos biomas do Cerrado e da Amazônia para onde se movem com avidez os interesses do latifúndio agro-exportador e das grandes mineradoras.

Mas, convenhamos, nada disso é inesperado. A questão é que graças à sua forma de ganhar a eleição presidencial, Jair Bolsonaro não precisou nem explicar como faria o que fará.  De fato, Bolsonaro recebeu um cheque em branco de seus eleitores (muitos deles fazendo isso de forma consentida e alegre), o qual ele passa agora a sacar de forma frugal (tal qual o seu ex assessor Fabrício Queiróz costumava fazer nos dias que se sucediam ao depósito dos salários dos assessores do ex deputado estadual e agora senador Flávio Bolsonaro).

Como da oposição institucional pouco se pode esperar em termos de reação concreta ao início dos retrocessos idealizados pelo governo Bolsonaro, cumprirá aos atingidos organizarem o processo de reação.  O Brasil, com isso, deverá entrar em uma nova e forte espiral de violência, mas também de reorganização dos movimentos sociais.  É que diante do tamanho dos ataques que estão se iniciando, os principais interessados em conter o retrocesso não terão outro caminho a não ser o da reação.

E não esqueçamos de que fora do Brasil, o crédito do governo Bolsonaro já é quase nenhum, vide o baixíssimo comparecimento de dirigentes estrangeiros à sua posse.  Com o início dos retrocessos começando por quilombolas, indígenas e ecossistemas florestais, imaginem o que deverá se seguir. Eu me arrisco a dizer que o Brasil passará em breve à condição de pária ambiental sobre o qual barreiras sanitárias e políticas deverão ser impostas como forma de punição por esses retrocessos. Assim, o agro-negócio que ri agora, deverá chorar. A ver!


[1] https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/01/bolsonaro-retira-da-funai-a-demarcacao-de-terras-indigenas.shtml

[2] http://www.diretodaciencia.com/2019/01/02/bolsonaro-transfere-servico-florestal-do-meio-ambiente-para-agricultura/

Anos duros pela frente? Siga o caminho dos coletes amarelos

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Coletes amarelos franceses apontam o caminho que terá de ser seguido para evitar os planos regressivos de Jair Bolsonaro.

A vitória de Jair Bolsonaro será transformada numa grande derrota da classe trabalhadora e da maioria pobre dos brasileiros. Bolsonaro representa a vitória de um projeto ultraneoliberal revestido por um fino verniz de nacionalismo que não deverá sobreviver à primeira medida provisória que será editada para destruir algum direito duramente conquistada.

O fenômeno que levou à vitória de um personagem que expressa saudades da Ditadura Militar de 1964 e de seus métodos obscuros de tortura e extermínio já teve várias análises desde 28 de Outubro. Acredito que a maioria dessas análises sofre com a parcialidade com que os autores procuram expressar quais teriam sido as variáveis causais deste resultado. Entretanto, em conjunto essas análises omitem que houve responsabilidades por parte de todos os que compartilham da forma institucional de fazer política,forma essa que foi estraçalhada pelos métodos trazidos por Steve Bannon e pela Cambridge Analytics.

Aliás, um desses dias levei um puxão de orelhas por não mencionar em uma palestra que Steve Bannon é financiado pelos bilionários Robert e Rebecca Mercer cujas operações financeiras em paraísos fiscais apareceram na famosa série jornalística “Panama Papers“, havendo indicações que o dinheiro usado para ajudar a derrotar Donald Trump teria sido enviado via as vias tortuosas de paraísos fiscais [1].

Mas voltando ao que o governo Bolsonaro será (ou pretende ser), o anunciado desmanche do Estado pelo sempre falante vice-presidente Hamilton  , há que se perguntar qual parte dele será desmontada. É que depois de Michel pouco sobrou para desmanchar da parte que atende aos interesses e necessidades da maioria pobre da população. Se for esse pedaço que Jair Bolsonaro e Hamilton Mourão, via Paulo Guedes, pretendem desmanchar, então veremos um processo de precarização ainda maior da condição de vida dos pobres.  E, dada as declarações contra os direitos trabalhistas e sociais, parece que é aí mesmo que se pretende desmanchar.

Agora, o Estado brasileiro é estruturalmente anti pobre desde os tempos em que éramos colônia portuguesa. A novidade agora é que as ações se darão de forma mais crua e aberta do que antes. Haverá assim menos espaço para convites para a pactuação com segmentos claramente apoiadores das mesmas políticas que a dupla Bolsonaro/Mourão querem implementar.  É que quem vier codm a conversa de pacto democrático terá que suar um pouco mais a camisa do que nos anos em que Lula enfeitiçava as massas com o seu capitalismo sem conflitos e de campeões nacionais.

Aos que pretendem resistir ao desmanche anunciado, a minha primeira sugestão é que voltem a estudar os clássicos do pensamento social brasileiro (começando com Caio Prado Junior, e passando por Florestan Fernandes e Celso Furtado) e do Marxismo (ler a Ideologia Alemã e o Manifesto Comunista já seria um excelente início), e joguem no lixo toda a literatura mequetrefe que foi empurrada no Brasil pela Fundação Ford.  É que só estaremos preparados para resistir se voltarmos a entender a natureza do Estado capitalista e de sua expressão manifestada no Brasil.

Aos que hoje estão aflitos e desanmiados, indico que a realidade que está se abrindo não nos permitirá prostração e desânimo. Melhor conservar energia e disposição, pois não faltarão direitos para serem defendidos.  De quebra, que se estude melhor o fenômeno dos coletes amarelos frances. É que neles parece residir a receita para os enfrentamentos que virão. 

[1] https://www.theguardian.com/news/2017/nov/07/steve-bannon-bermuda-robert-mercer

 

Uma tempestade está vindo. Melhor procurar abrigo com Bob Dylan

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Shelter from the storm” é uma daquelas canções escritas por Robert Allen Zimmermann (também conhecido como Bob Dylan) que se pode ouvir muitas vezes e sempre encontrar novos sentidos nela [1].

Agora que o Brasil está por entrar numa imensa tempestade política, Shelter from the Storm parece uma ótima pedida para encerrar 2018 e enfrentar o que vem pela frente. Como proteção, é bom que todos procurem um abrigo para viver o dia seguinte.


[1] http://atwoodmagazine.com/shelter-storm-bob-dylan-time-machine/

As bizarrices do ministro de Relações Exteriores vão custar caro ao Brasil

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De um governo que está à beira de assumir o poder do quinto país mais populoso da Terra se espera cuidado e pragmatismo para não comprometer parcerias existentes e nem ameaçar a realização de outras.

Mas nada disso vem marcando a exposição pública do presidente eleito (vide as treulocadas declarações durante a recepção ao primeiro ministro israelense Benjamin Netanyahu) e muito menos as declarações do futuro ministro das Relações Exteriores, o embaixador de segunda classe Ernesto Araújo em um artigo publicado na revista ultraconservadora “The New Criterion”  de que ““Deus uniu ideias de Olavo de Carvalho ao patriotismo do presidente” e que “Deus deverá assumir um papel central na vida política brasileira” [1].

Essas declarações deverão cair bem em congregações religiosas, especialmente aquelas centradas na crença de que estamos à beira do Apocalipse, mas dificilmente farão bem aos interesses multilaterais brasileiros. É que nas economias com que o Brasil faz a maioria de seus negócios, essa indicação de que seremos governados por Deus dificilmente abrirão portas. 

Desconfio, inclusive, que esse tipo de declaração é mais para o público interno do que para o externo. É uma espécie de reforço dos compromissos anunciados em altares de diferentes variantes do Cristianismo brasileiro pelo presidente eleito. O problema é que o ministro das Relações Exteriores não está a cargo da aplicação das doutrinas religiosas no plano interno, mas essencialmente dos interesses econômicos e políticos no plano internacional. 

Assim, imaginemos as repercussões que as imagens de Benjamin Netanyahu sendo recebido com pompa e circunstância por Jair Bolsonaro terão nos países árabes que compram uma parte significativa da produção pecuária brasileira.  Achar que esta recepção dada ao primeiro ministro israelense não está sendo acompanhada nos parceiros comerciais árabes chega a ser bizarro, dada a existência do canal Al Jazeera que, inclusive, possui profissionais sediados no Brasil.

De toda forma, tenho a impressão de que não haverá demora nas respostas que deverão vir do exterior como resposta das bizarrices do futuro ministro das Relações Exteriores. Ao contrário do que muitos acham, penso que Ernesto Araújo, e não Fabrício Queiróz (o vendedor de carros que gerou um sistema de cobrança diretamente associado ao dia do pagamento  de salários na Assembleia Lesgislativa do Rio de Janeiro), o foco da primeira crise do governo Bolsonaro. A conferir!


[1] https://brasil.elpais.com/brasil/2018/12/27/politica/1545925083_475905.html

 

 

O significado e os riscos estratégicos da “Via Bolsonaro” para recolonizar o Brasil

bolso continencia

Na imagem acima dois momentos em que Jair Bolsonaro presta continência a símbolos estadunidenses, indicando de forma clara suas intenções de alinhamento político aos EUA que, por sua vez, trará a subordinação econômica aos interesses das corporações estadunidenses.

Apesar das muitas análises que vejo no sentido de tentar explicar a vitória de Jair Bolsonaro e as propostas objetivas de recolonização do Brasil que o seu governo buscará implenetar, creio que a maioria dos analistas continua preso a uma aproximação rasa da realidade. E isso não se dá por falta de instrumentos teóricos para oferecer uma reflexão mais aprofundada que explica a opção aparentemente suicida das elites brasileiras por um governo que abertamente flerta com a destruição do que resta da economia nacional.

Penso que não é nem necessário ir muito longe em termos de teoria para encontrar algumas pistas pela opção feita pelos ultrarricos brasileiros. Apesar de já ter lido há algum tempo o livro “O Mito do Desenvolvimento Econômico” que Celso Furtado publicou no exílio no ano de 1974 [1], lembro de uma passagem onde está dito que no modelo de desenvolvimento adotado no Brasil, o padrão consumo das elites locais tenderá a imitar a praticada pelas das suas congêneres nos países do capitalismo central. Isto, por sua vez, decorre de uma opção de instaurar a modernização da economia sem que haja qualquer intenção de se romper com os padrões existentes de concentração da riqueza.

Esta elaboração de Celso Furtado me parece perfeita para explicar a opção reacionária da quase totalidade dos ultrarricos por um governo que buscará erradicar as poucas formas de distribuição de renda, que nem chegaram perto de descontrar a riqueza nacional, e recolocar o Brasil na condição de uma colônia provedora de commodities agrícolas e minerais. É que nesse modelo não haverá espaço para indústria nacional ou, sequer, indústria.  Mas apesar de saberem disso, organizações patronais como a FIESP e a FIERJ se alinharam de forma entusiasmada às propostas de Jair Bolsonaro e seu “Posto Ipiringa”, o economista Paulo Guedes que sinaliza com um ataque virulento ao chamado Sistema “S” de onde a elite industrial tira muitas vantagens.

A explicação para esta adesão aparentemente suicida das elites nacionais, pois o ataque aos pouco de mecanismos de distribuição de renda via políticas sociais deverá destruir a frágil base de consumo de massas existente no Brasil, só se explica pela certeza de que não se modificará o sistema de parasistimo rentista do qual as elites retiram mais riqueza do que se estivessem investindo em atividades produtivas. As elites apostam nessa manutenção para mover seu capital ainda mais para a especulação, e pouco se importam com o destino trágico que espera milhões de brasileiros pobres que não possuem os mesmos canais de escape ao ajuste ultraneoliberal que se avizinha.

O problema que até aqui todos parecem preferir ignorar são os sinais de que a economia global está próxima de um novo e mais profundo surto de crise estrutural, justamente pelo sobrepeso representado pela especulação financeira. E que se note que esta ignorância das elites nacionais não se dá por falta de sinais claros vindos das bolsas mundiais, a começar por Wall Street, mas por uma decisão férrea de seguir apoiando um processo de recolonização da economia brasileira.  É por isto que  por ter feito esta opção por uma completa subordinação aos interesses do rentismo financeiro global, as elites se comportam como o capitão do Titanic depois que o navio foi atingido pelo iceberg e se comportam como a música não pudesse parar.

Nesse processo, a opção das elites por Bolsonaro e por um comportamento esquizóide de ignorar os alarmes que estão soando talvez resida a melhor oportunidade da classe trabalhadora brasileira de se restabelecer como o elemento dinâmico da realidade nacional.  É que não restará outro caminho para a sobrevivência de padrões mínimos de dignidade que o de combater de forma prática uma opção que só irá beneficiar as elites.


Quem desejar baixar o arquivo contendo o “Mito do Desenvolvimento Econômico” de Celso Furtado, basta clicar[Aqui!

Percurso errático de Donald Trump derruba bolsas e prenuncia nova recessão mundial

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Enquanto no Brasil se ouve os futuros governantes se agarrarem a um discurso voltado para firmar uma aliança estratégica com o governo de Donald Trump, o bilionário transformado em presidente da principal potência econômica-militar do planeta segue causando algo que a mídia estadunidense tem caracterizado de “caos”.

A última investida de Donald Trump foi contra a autonomia do Federal Reserve (o banco central estadunidense) em fixar taxas de juros, um fato que causou uma queda histórica nos índices das principais bolsas dos EUA (com uma perda de 650 pontos no índice Dow Jones), a qual teve uma forte repercussão no mercado de ações em escala global [1].

É interessante notar que essa investida de Trump contra o Federal Reserve contrasta diretamente com a intenção da equipe econômica Jair Bolsonaro de conceder uma autonomia ainda maior para o Banco Central do Brasil. Ao que parece, o que não é bom para Trump é visto com essencial para Paulo Guedes e sua equipe de Chicago Boys.

Se essa tendência de queda das bolsas de ações persistir nas próximas semanas, uma das possibilidades já   pelo próprio Fundo Monetário Internacional (FMI) é de que haja uma forte recessão na economia mundial, num processo que ameaça superar a crise de 2008, colocando em xeque o sistema financeiro mundial [2].

Se essas “nuvens negras” se confirmarem, o mais provável é que países como  Brasil e Argentina que já se encontram sob forte recessão sofram os piores efeitos desta nova crise capitalista. Aí veremos como se comportarão os dirigentes do novo governo que estão pretendo vender o Brasil a preços mínimos quando a crise engolir os eventuais interessados.

 


[1] https://edition.cnn.com/2018/12/24/investing/stock-market-today-dow/index.html

[2] https://www.theguardian.com/business/2018/dec/11/imf-financial-crisis-david-lipton

 

O otimismo recorde pré posse de Jair Bolsonaro e o “Versos Íntimos” de Augusto dos Anjos

bolsonaro faca

Na foto acima, o presidente eleito simula esfaquear um oficial da Marinha durante um churrasco na Ilha da Marambaia (RJ), onde irá passar o Natal com a família.

A mídia corporativa vem propagandeando diferentes pesquisas que mostram um alto otimismo entre os brasileiros acerca da possibilidade de que a vida vai melhorar após a posse do presidente eleito no dia 01 de Janeiro.

Esse otimismo chegaria a 65%, um pouco abaixo dos índices alçançados pelos presidentes Lula e Dilma Rousseff no mesmo período que antecedeu à posse dos mesmos.

Esse otimismo é do tipo que pode não passar do Carnaval quando o país efetivamente começará a funcionar em 2019. É que os anúncios de ataques à maioria pobre dos brasileiros são tão fartos que não há como existir um otimismo que resista quando os mesmos forem implementados.

De toda forma, quem mais poderá se surpreender com o que acontecerá quando todos os ataques forem consumados, dados os índices de otimismo sendo divulgados, será o próprio presidente eleito. É que, apesar de toda a boa vontade da mídia corporativa, o que as pessoas esperam que é o fim da brutal recessão que assola o Brasil não deverá ocorrer, sendo o oposto o mais possível.

Por isso mesmo é que quando leio as matérias sobre esse suposto otimismo, não consigo deixar de lembrar do poeta paraibano Augusto dos Anjos (1884-1914) e seu formidável “Versos Íntimos” que posto logo abaixo. Não sei o porquê, mas tenho a impressão que Versos Íntimos serão a marca do governo que está por começar. 

Versos íntimos

Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão — esta pantera —
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa ainda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Pau d’Arco, 1906

Publicado no livro Eu (1912).

In: REIS, Zenir Campos. Augusto dos Anjos: poesia e prosa. São Paulo: Ática, 1977. p.129-130. (Ensaios, 32

França, Hungria… a luta de classes vive!

Há ainda quem queira viver o modelo de Capitalismo de luta de classes que o ex-presidente Lula elaborou ao chegar ao poder em 2003.  Mas mesmo que lá do cárcere em que foi metido em Curitiba,  Lula ainda possa estar pensando em como manter sua criação funcionando, os fatos que se desenrolam nas ruas da França e da Hungria mostram que os trabalhadores estão se colocando à frente de partidos e sindicatos que decidiram investir na via institucional para conseguir pequenas migalhas enquanto oferecem a bisnaga para as grandes corporações multinacionais.

O que estamos vendo em diferentes partes do mundo, com relevo na França e na Hungria, é uma série de revoltas que se organizam de forma horizontal e sem lideranças tradicionais, mas que apontam para elementos claramente vinculados aos direitos dos trabalhadores que governos controlados diretamente pelas corporações financeiras estão tentando remover.

Por isso, não é difícil prever que a lua de mel que reina (apesar das revelações em torno dos repasses de parte dos salários dos assessores do senador Flávio Bolsonaro para as mãos de uma espécie de gerente pessoal de recursos) com o presidente eleito não vá durar muito tempo.

É que enquanto se anunciam perdões bilionários para latifundiários e outros grupos capitalistas, o que está sendo alardeado para os trabalhadores brasileiros remonta a um retorno às condições trabalhistas que reinavam no Século XIX antes da assinatura da Lei Áurea pela Princesa Isabel). 

Diante deste descompasso, não me surpreenderei se logo de cara tivermos manifestações copiadas diretamente dos cadernos de ações utilizados pelos trabalhadores franceses e húngaros.

Aí veremos que não haverá mais espaço para a conversa de que a luta de classes é um conceito démodé, pois ela deverá se manifestar no Brasil com uma virulência que não se vê há décadas. Aliás, é melhor já ir se acostumando com isso, pois diante do tamanho do ataque que está se anunciando, não restará outro caminho para a classe trabalhadora.