Ameaçar os direitos e territórios dos povos indígenas é outro imenso tiro no pé do Brasil

povos indigenas

Uma das fixações do presidente eleito são as reservas indígenas e ele insiste em dizer que índios não terão mais um centímetro de terra [1]. Afora o completo desrespeito à auto determinação dos povos indígenas e o papel fundamental cumprido pelas reservas indígenas na manutenção de diferentes biomas brasileiros, o que estará em jogo caso as ameaças contra os povos indígenas se confirmem é o fato de que isto implicará em mais uma razão para que o Brasil seja isolado internacionalmente.

É que embora seja pouco comentado no Brasil, outros países possuem legislações bastante estritas para garantir a proteção de povos que habitam seus territórios sob diferentes culturas e tradições. Além disso, a questão dos índios brasileiros é vista com extrema cautela dentro do que se convenciona chamar de “países desenvolvidos” e, principalmente, dentro de organizações multilaterais.

Assim, que ninguém estranhe se outras repercussões negativas como as já expressas pela China e pelo Egito em relação à determinadas declarações se repita no caso dos povos indígenas. É que se já uma impressionante má vontade para o presidente eleito antes mesmo dele assumir nos principais veículos da mídia internacional, imaginemos o que acontecerá se o ataque aos povos indígenas e a integridade territorial de suas aldeias se confirmar.

Mas como bom senso e moderação não são o forte do presidente eleito, o mais provável é que mais esse tiro no pé seja dado e com consequências desastrosas para a imagem externa do Brasil e, principalmente, para a sua capacidade de vender suas commodities agrícolas e minerais em países em que a opinião pública se movimentará de forma majoritária contra o ataque aos povos indígenas pelo Estado brasileiro.


[1] https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/11/no-que-depender-de-mim-nao-tem-mais-demarcacao-de-terra-indigena-diz-bolsonaro-a-tv.shtml

Depois da China, Egito sinaliza que a lua de mel de Bolsonaro poderá ser curta

bolsonaro israel

Venho abordando neste blog que vários dos cenários que estão sendo desenhados pelo presidente eleito do Brasil podem ter consequências drásticas para o Brasil e sua já combalida economia. 

A primeira prova disso veio a partir de um duro pronunciamento do jornal chinês China Daily, uma espécie de porta-voz do governo chinês em inglês, que alertou para as consequências econômicas que poderiam advir para o Brasil em função da retórica belicosa que Jair Bolsonaro tem usado em relação aos negócios com a China [1].

Agora, em mais uma prova evidente de que as manifestações de um presidente eleito poderão causar graves repercussões econômicas foi o cancelamento de uma visita oficial que uma delegação brasileira faria ao Egito [2]. A razão óbvia para esta medida pouco usual da chancelaria egípcia foi o anúncio feito por Jair Bolsonaro de que a embaixada brasileira será transferida de Tel Aviv para Jerusalém.

bolsonaro palestina

Essa sinalização egípcia deverá ser vista com grande preocupação pelos pecuaristas brasileiros já que os países árabes representam o segundo mercado consumidor de carne brasileira. E se o Egito que não é um dos mais alinhados à causa palestina já adotou essa posição de enviar um “recado”, imaginem o que países mais sensíveis aos palestinos poderão fazer.

Aliás, em um trabalho de campo que realizei em grandes frigoríficos localizados no Centro-Oeste, tive a oportunidade de me deparar com profissionais árabes que estavam ali para fazer o abate de bovinos seguindo um ritual próprio e com instrumentos próprios. Ali aprendi que no momento do abate os animais eram, sempre que possível, orientados em direção à cidade sagrada de Meca.

Se realmente ocorrer a mudança da embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém, é possível que os frigoríficos brasileiros não tenham mais que se preocupar essas questões idiossincráticas no momento de abater seus animais.

Já ao presidente eleito restará saber que suas escolhas e preferências agora poderão ter pesados custos para a economia brasileira e para aqueles que o ajudaram a chegar ao poder.  Os primeiros a sentir isso são os vinte empresários brasileiros que já se encontram no Egito para uma rodada de negociações que não mais vai ocorrer, e agora retornarão de mãos literalmente vazias [3].


[1] https://observador.pt/2018/11/01/jornal-oficial-chines-adverte-bolsonaro-com-peso-da-china-para-a-economia-brasileira/

[2] https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2018/11/apos-declaracoes-de-bolsonaro-egito-cancela-viagem-de-comitiva-brasileira.shtml

[3] https://www.brasil247.com/pt/247/mundo/374260/Egito-barra-chanceler-do-Brasil-por-política-externa-ideológica-de-Bolsonaro.htm?fbclid=IwAR1_bv-GveBS5TG6f3ey4u8_JQQC9j74BGMqC68unVZnEtGw37B46yhYhWs#.W-CfEYY7QEI.facebook

O ministro Sérgio Moro e a volta olímpica

Merli-1024x545

Não sei quem verdadeiramente se surpreendeu com o aceite do juiz federal Sérgio Moro para o convite feito pelo presidente eleito para ocupar o cargo de ministro da justiça.  Eu não me incluo entre os surpresos, podem crer.

Mas sem me alongar muito, não posso deixar de mencionar que pela minha cabeça passa uma imagem futebolística que é muito simples, porém, emblemática.

O aceite de Sérgio Moro em termos futebolísticos equivaleria ao juiz que expulsa o principal jogador do time adversário, proíbe até que ele fique nas cercanias do estádio, e depois de ser carregado na volta olímpica quando o time beneficiado é campeão, acaba aceitando ser o diretor de futebol do mesmo. 

É, meus caros leitores, o Brasil não é mesmo para futebolistas iniciantes.

Desmatamento na Amazônia já estava em curva ascendente. Agora vai explodir!

deforestation prodes

Imagens de satélite comparadas com fotos aéreas em áreas desmatadas na Amazônia. Fonte: PRODES/INPE.

A imagem abaixo mostra a volta de altas taxas de desmatamento em 2016, o que já se sabe continuaram subindo em 2017 e 2018. A figura abaixo sintetiza dados do projeto PRODES [1] para o ano de 2016 e o estoque total de desmatamento até 2015.

Raissa-figure-1-1024x768

Não é preciso ser entendedor mais aprofundado da dinâmica que controla o processo de desmatamento na Amazônia e no Cerrado para se chegar à conclusão de que a extinção do Ministério do Meio Ambiente abrirá as comportas do desmatamento raso e da degradação florestal, com enormes custos sociais, econômicos e ambientais.

Agora quem espera que o resto do mundo assista a este processo de mãos cruzadas, se engana.  Não é à toa que os setores mais modernos do latifúndio agro-exportador já estão expressa suas dúvidas sobre a sabedoria da medida. É que, marquem minhas palavras, essa medida irá fechar portas importantes no comércio internacional do Brasil, com consequências incalculáveis para a já debilitada balança comercial brasileira.

Mas o boicote internacional aos produtos saídos das áreas de desmatadas na Amazônia será a única medida que os ruralistas que pressionam por essa regressão vão ser capazes de entender. E ele virá, tão certo como o dia segue a noite.


[1] http://www.obt.inpe.br/OBT/assuntos/programas/amazonia/prodes

The Guardian: Eleição de Jair Bolsonaro no Brasil ameaça o planeta

Danos irreparáveis ​​à Amazônia podem acelerar irreversivelmente a mudança climática, escreve Esther Gillingham, da Cafod

deforestation

A missão do presidente eleito Jair Bolsonaro de “mudar o destino do Brasil” (Report, 29 de outubro) parece destinada a abolir a proteção ambiental e exacerbar o derramamento de sangue ligado à exploração não regulamentada da Amazônia.

Por uma década, o Brasil tem sido o país mais perigoso do mundo para defensores do meio ambiente e da terra. Corajosas comunidades indígenas e sem terra rurais estão sendo mortas com pouco recurso à justiça. A impunidade e a falta de um Estado de Direito exacerbaram essa tendência – dos 1.270 assassinatos desde 1985 ligados ao conflito de terras no Brasil, menos de 10% chegaram ao tribunal.

As propostas políticas do Partido Social Liberal de Bolsonaro para deter a demarcação de terras indígenas, abrir as reservas existentes para minerar e perseguir movimentos sociais que protegem os defensores ambientais afetarão a todos nós. Danos irreparáveis ​​à maior floresta tropical do mundo ameaçam acelerar irreversivelmente as mudanças climáticas para as gerações futuras em todo o mundo.

Esther Gillingham

Oficial de Programa do Brasil da Agência Católica para o Desenvolvimento no Exterior (CAFOD) do Reino Unido


Texto publicado originalmente em inglês [Aqui!

Extinção do Ministério do Meio Ambiente tornará Brasil um pária no sistema de nações

action-sn-blog-forest-burning-brazil

O anúncio feito hoje de que o Ministério do Meio Ambiente será fundido com o da Agricultura é uma forma indireta de dizer que o mesmo será extinto [1]. Esta medida sendo tomado em um país que contém os principais estoques de biodiversidade do planeta não pode ser tomada de forma leve, pois representa um erro gravíssimo e que comprometerá ainda mais a já depauperada imagem internacional do Brasil.

marina 0

Para quem não sabe, o Brasil foi, ainda na vigência do regime militar instaurado em 1964, um dos pioneiros na criação de um órgão específico para cuidar das questões relacionadas ao meio ambiente. Isto ocorreu em 1973 com a criação da  Secretaria Especial de Meio Ambiente, então vinculada ao Ministério do Interior,  com a promulgação do Decreto nº 73.030, de 30 de outubro de 1973.

Como alguém que realiza estudos relacionados na Amazônia desde 1991 não posso deixar de apontar que hoje o Brasil já possui dificuldades significativas para entrar na União Europeia que possui regras bastantes rígidas para a entrada de carne, por exemplo, vinda de áreas recentemente desmatadas na região amazônica.  Como já existe quem antecipe o estabelecimento de aceleração de desenfreada do desmatamento na Amazônia graças às várias promessas feitas pelo presidente eleito, o que poderia chegar a um aumento de quase 300% de novas áreas de florestas impactadas [2].

O incrível é que existem evidências científicas suficientes demonstrando que há um ligação direta entre a floresta amazônica e o cerrado com a disponibilidade de água no território nacional. Essa ciência é robusta e está amparada em incontáveis estudos acerca dos impactos climáticos locais e regionais do desmatamento na Amazônia. Em outras palavras, a facilitação do desmatamento e do aumento da área degradada nesses dois biomas deverá acarretar ciclos ainda mais agudos de seca e escassez hídrica para além da Amazônia e do Centro Oeste. Isto apenas se for considerado os impactos nacionais. O problema é que a proteção da Amazônia e seus estoques de carbono é um elemento chave na tentativa de impedir que as mudanças climáticas se tornem ainda mais aceleradas. 

Desconhecer a necessidade ampliar o processo de proteção ambiental trará consequências desastrosas para o Brasil e sua já combalida economia. Como bem alertou hoje a ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva, a extinção do ministério implicará num triplo desastre, na medida em que: 1) trará prejuízo à governança ambiental e à proteção do meio ambiente; 2) passará aos consumidores no exterior a ideia de que todo o agronegócio brasileiro, em que pese ter aumentado sua produção por ganho de produtividade, sobrevive graças à destruição das florestas, sobretudo na Amazônia, atraindo a sanha das barreiras não tarifárias em prejuízo de todos; 3) empurrará o movimento ambientalista, a ter que voltar aos velhos tempos da pressão de fora para dentro, algo que há décadas vinha sendo superado, graças aos sucessivos avanços que se foram galgando em diferentes governos, uns mais outros menos [3].

marina

Particularmente não acredito que os formuladores da nova estrutura ministerial serão demovidos dessa extinção desastrosa.  O que veremos será um avanço da franja de desmatamento nos mesmos moldes que a região amazônica experimentou no início da década de 1970, algo que um dos generais que assessoram o presidente eleito já se mostrou nostálgico.  Essas são favas praticamente contadas, e provavelmente favas de soja. O problema para o Brasil é que o mundo mudou bastante nas últimas 4 décadas e os custos políticos e econômicos serão incalculáveis.  


[1] https://noticias.uol.com.br/politica/eleicoes/2018/noticias/2018/10/30/governo-bolsonaro-transicao-fusao-ministerios-guedes-e-onyx.htm

[2] http://amazonia.inesc.org.br/destaque/desmatamento-saida-do-acordo-de-paris-a-amazonia-no-governo-bolsonaro/

[3] https://www.revistaforum.com.br/marina-critica-extincao-do-ministerio-do-meio-ambiente-retrocesso-e-incalculavel/

Der Spiegel: O Brasil flerta com a ditadura

O jornal mais influente da Alemanha, o Der Spiegel, publicou ontem uma análise sobre os resultados das eleições presidenciais no Brasil com uma manchete que não deixará dúvida para os seus leitores do perigo que ronda o nosso país neste momento. A manchete é bem direta e reta ao gosto dos alemães: O Brasil flerta com a ditadura [1].

der spiegel

O articulista Jens Glüsing, que é o correspondente do Der Spiegel para a América Latina, ainda adianta que Jair Bolsonaro é “um ex-soldado, fascinado pelo fascismo, é o novo presidente do Brasil”. E vai mais além, afirmando que “a história mostra que, na América Latina, industriais e bancos são os que se beneficiam – e não as pessoas que escolhem os demagogos.”

Glüsing ainda nota que os “brasileiros são fáceis de se animar, o passado é rapidamente esquecido. Mas as celebrações após a eleição de Bolsonaro não podem esconder o fato de que o maior país da América Latina embarcou em uma aventura política“.  E arremata dizendo que “o flerte com o autoritarismo nunca é bom na América Latina.”

Como se vê,  a radiografia que está sendo apresentada na Europa sobre os desafios que cercam o Brasil não poderia ser mais clara e dura.  Resta aos que não optaram por este flerte com a ditadura se mobilizarem em defesa da democracia, dos direitos trabalhistas e pela construção de uma sociedade menos abissalmente desigual como a nossa, e que os planos já anunciados no dia de ontem indicam que a opção será pela realização de uma profunda guerra aos pobres.


[1] http://www.spiegel.de/politik/ausland/jair-bolsonaro-brasilien-flirtet-mit-der-diktatur-a-1235609.html

Dez notas iniciais depois da eleição de Bolsonaro

bolso 4

Por: Gilberto Calil*, colunista do Esquerda Online 

Passada uma noite, dá para começar a organizar as ideias. Em março de 1921, profundamente indignado com os resultados do Congresso da Confederacione Generale del Lavoro, que não tirou medidas concretas de enfrentamento ao fascismo, Gramsci escreveu: “Aumentou nosso pessimismo, mas é sempre viva e atual nossa divisa: pessimismo da inteligência, otimismo da vontade”. O que seguiu-se depois foi trágico, mas a história não se repete da mesma forma e a divisa é pertinente para o momento.

1. A vitória eleitoral de um fascista é um evento terrível. É compreensível que estejamos tristes, arrasados, um tanto desorientados e profundamente decepcionados, inclusive porque todos temos pessoas próximas que revelaram serem algo que não imaginávamos. Mas é imprescindível ter claro que há uma diferença grande entre uma vitória eleitoral do fascismo e a instituição de um regime fascista. Devemos ter clareza de que qualquer discurso de moderação de Bolsonaro é uma simulação mal-feita, mas isto não significa que tenha o caminho aberto para instituir uma ditadura. A intenção existe, mas sua concretização não está dada e pode ser barrada.

2. Há dez dias, desenhava-se uma vitória avassaladora de Bolsonaro. Não foi assim. Bolsonaro teve MENOS DA METADE dos votos DOS ELEITORES QUE FORAM VOTAR, e não chegou a 39% dos votos do eleitorado total. Para as condições da resistência, é MUITO diferente este resultado do que seria uma derrota acachapante. Não fosse a estúpida insistência da campanha petista até metade do segundo turno com “não ataquem Bolsonaro, quem não é visto não é lembrado, foquem apenas em Haddad”, este resultado poderia ter sido revertido.

3. O outro lado deste processo é que, mesmo nas condições limitadas de uma eleição, reaprendemos a importância do trabalho de base. Em centenas de cidades, organizaram-se grupos incluindo muita gente com pouca ou nenhuma experiência de militância que percorreram os bairros ouvindo as pessoas, conversando e dialogando. Nos aproximamos do mundo real e avançamos no sentido da constituição de uma esquerda mais próxima da realidade e com maior capacidade de dialogar. Dar continuidade a isto permitirá na prática atropelar as visões e direções burocráticas que paralisam e obstaculizam a esquerda.

4. Da minha experiência particular em um canto do Brasil onde Bolsonaro teve 71% no primeiro turno. Quase uma centena de pessoas – a ampla maioria jovem e sem filiação partidária – mobilizou-se, passou de casa em casa em todos os bairros populares ao longo de quinze dias e ouviu muito o que as pessoas tinham a dizer. As forças do outro lado eram poderosas demais, passando pela pressão empresarial, relações clientelistas e coação praticada dentro de igrejas. Uma visão simplória e rápida dos resultados eleitorais parece indicar que não tivemos êxito. Bolsonaro fez 77% dos votos. Mas Haddad passou de 3.961 para 6.664, o que significa 500 votos a mais do que a soma de sua votação com Ciro, Boulos, Marina, Vera, João Goulart e Eymael. Ou seja, ainda que em uma dimensão insuficiente para mudar o resultado, o debate logrou reverter votos dados à direita e ao próprio Bolsonaro.

5. Desta experiência salta aos olhos a impressionante consciência de classes das camadas mais pobres. Na quase totalidade das casas mais precárias, encontramos não apenas a disposição convicta do voto (muitas vezes com “se for do Bolsonaro nem entrega!”), mas um entendimento do significado desta eleição que surpreenderia muitos intelectuais. Por outro lado, em bairros populares de renda um pouco superior e casa relativamente melhores – naquilo que se convencionou chamar de classe “c” ou que nas pesquisas aparece como “2 a 5 salários mínimos”, encontramos não apenas uma avassaladora maioria bolsonarista, como também a expressão ideológica do empreendedorismo, da meritocracia e uma identificação entre pobreza e vagabundagem. São setores que ascenderam durante os governos petistas mas que além de ter sua ascensão apenas pelo consumo, foram educados a pensarem como burgueses.

6. Encontramos muita reprodução de fake news bizarras. Nos últimos dias, ouvi muitas vezes que Haddad queima bíblias. Mas mais do que todas elas, me parece que um êxito fundamental da campanha de Bolsonaro foi ter conseguido, contra todos os dados da realidade, se apresentar como o anti-Temer e caracterizar Temer como produto do PT. Quando encontrávamos esta visão, nenhum argumento era capaz de desconstruí-la.

7. Além de sua monumental incapacidade intelectual e propensão a proferir disparates, Bolsonaro tem pela frente uma enorme dificuldade. Por mais que entendamos que genericamente o voto nele expressa um conteúdo reacionário (algo inegável), ele é motivo por expectativas muito díspares, e grande parte delas será contrariada muito rapidamente. Ouvi muitos dizendo que votavam nele para voltar a ter gasolina e gás baratos!!! Podemos rir deste disparate, mas é melhor tentarmos entender. Ouvi buzinas de caminhão a noite toda e sabemos que a expectativa deles de uma redução do dieses é diametralmente oposta ao eixo do projeto de Paulo Guedes. A reforma da previdência – provavelmente ainda neste ano – deixará às claras a cumplicidade entre Temer e Bolsonaro e trará à luz um das principais razões do entusiasmo do “mercado” com ele. Se na alta classe média há clareza quanto ao sentido social reacionário e com isto perspectivas de manutenção de um apoio ao seu projeto real, no conjunto dos setores populares que o apoiou a decepção será rápida, ainda que se possa imaginar estratégias diversionistas, como a pauta moral. Mas na presidência não terá como sustentar-se apenas com isto.

8. Bolsonaro tem um vice que é objetivamente um adversário político (com um projeto pessoal e posições ainda mais extremistas). Não sei como este conflito será gerido.

9. Já escrevi sobre a necessidade de ter clareza em relação à cumplicidade da justiça na ascensão do fascismo. Não será a Justiça, ou as instituições do Estado como um todo que barrarão o fascismo. Ainda assim, a força da organização popular incide também neste aspecto e estarmos organizados e mobilizados, inclusive denunciando esta cumplicidade, é a única possibilidade de que algumas barreiras inclusive jurídicas sejam interpostas à escalada fascista.

10. Por último, e mais importante: NÃO SAIAM DAS REDES SOCIAIS, NÃO SE ISOLEM. Só se pode enfrentar o fascismo com organização e ação coletiva. As razões para temer são muito concretas, mas só nos fortalecemos e nos protegemos coletivamente. O isolamento nos deixa mais vulneráveis, mais desprotegidos e mais impossibilitados de disputar a hegemonia. Avançamos muito nos últimos dias, é hora de nos protegermos, mas não é momento de nos isolarmos.

*Gilberto Calil é doutor em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e professor do curso de História e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), integrando o Grupo de Pesquisa História e Poder. É autor, entre outros livros, de “Integralismo e Hegemonia Burguesa” (Edunioeste, 2011) e pesquisa sobre Estado, Poder, Direita, Hegemonia, Ditadura e Fascismo.

FOTO: Apoiadores de Bolsonaro comemoram em Brasília. Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

FONTE: https://esquerdaonline.com.br/2018/10/29/dez-notas-iniciais-depois-da-eleicao-de-bolsonaro/

Jornal israelense Haaretz publica artigo intitulado “Hitler em Brasília” para explicar ameaças relacionadas à possível eleição de Bolsonaro

bolso 2

O ex-candidato a vereador Marco Antônio Santos, vestido com adereços nazistas, e o presidenciável Jair Bolsonaro em 2015.

O segundo maior jornal publicado em Israel, o Haaretz, publicou ontem um artigo particularmente duro contra o candidato presidencial Jair Bolsonaro assinado pelo jornalista norte-americano Alexander Reid Ross intitulado “Hitler em Brasília: os evangélicos norte-americanos e a teoria política nazista por trás do presidente em espera do Brasil” [1] (ver imagem abaixo).

haaretz

Na chamada do artigo,  Ross que se misture “a geopolítica fascista, o ódio do pastor fundamentalista estadunidense Pat Robertson contra os gays, o nacionalismo de  Steve Bannon e os anúncios de Putin e você terá Jair Bolsonaro, que é nostálgico da ditadura apoiada pelos EUA que torturou e matou milhares de esquerdistas”. E Ross adianta que o problema é que Bolsonaro chegando ao poder.

Para quem desejar saber mais sobre o conteúdo deste artigo devastador para as pretensões de Jair Bolsonaro de ser aliado de Israel, o site UOL repercutiu o artigo de Ross onde estão apontadas as principais questões levantadas pelo autor do autor do livro “Contra o Crepúsculo Fascista” (sem tradução no Brasil)  [2]. 

E, convenhamos,  pode-se dizer o que se quiser dos jornais de Israel, inclusive o Haaretz. Mas de uma coisa eles supostamente são os maiores conhecedores da mídia mundial, qual seja, apontar para indivíduos que se alinham com as ideias de Adolf Hitler. Nesse sentido, o título do artigo deve ter chocado muitos em Israel que não podem nem ler o nome do responsável pelo Holocausto que consumiu a vida de mais de 6 milhões de judeus.  


[1] https://www.haaretz.com/world-news/.premium-hitler-in-brasilia-the-u-s-evangelicals-and-nazi-political-theory-behind-bolsonaro-1.6581924

[2] https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2018/10/25/hitler-em-brasilia-jornal-israelense-publica-artigo-com-criticas-a-jair-bolsonaro.htm