Regina Duarte inova e diz que homofobia de Jair Bolsonaro é “da boca para fora”

Eu já li muita coisa esquisita na atual campanha presidencial, mas a entrevista dada pela atriz e latifundiária Regina Duarte ao jornalão que difunde as ideias das elites mais conservadores de São Paulo acaba de ganhar o prêmio de esquisitice mór.  É que Regina Duarte afirmou que “as declarações consideradas homofóbicas e racistas do candidato como frutos de um homem com um “humor brincalhão típico dos anos 1950, que faz brincadeiras homofóbicas, mas que são da boca pra fora, coisas de uma cultura envelhecida, ultrapassada” [1] (ver imagem abaixo).

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Mas o que realmente me intriga nessa fala de Regina Duarte tem a ver com o fato que ela afirma que a homofobia de Jair Bolsonaro seria “só da boca para fora”.  É que até segunda ordem, não há como um ser humano emitir opiniões sem que elas sejam inicialmente processadas e sintetizadas pelo seu cérebro. Isto torna inviável a afirmação de que todas as afirmações estapafúrdias são algo que ocorrem apenas da “boca para fora”. 

Entretanto, se assim fosse, o que Regina Duarte estaria afirmando é que não se deve levar a sério o que é dito por Jair Bolsonaro. Isto é muito estranho para quem está apoiando o referido candidato, pois se inaugura uma nova forma de decidir votos: voto naquele em quem não acredita no que fala.

Alguém com um mínimo de discernimento adotaria o sistema decisório proposto por Regina Duarte? É óbvio que não! Eu gostaria é que ela tivesse a coragem de ir visitar as famílias daqueles que, por causa de sua orientação sexual, já sofreram violências e até perderam as suas vidas nas mãos dos eleitores que levam a sério as coisas que são ditadas por Jair Bolsonaro.


[1] https://politica.estadao.com.br/noticias/eleicoes,homofobia-de-bolsonaro-e-da-boca-para-fora-diz-regina-duarte,70002564696

Bloomberg revela “romance” de Jair Bolsonaro com os tesouros minerários da Amazônia

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O caso de amor de Bolsonaro com mineração visa os tesouros da Amazônia

Por David Biller e R.T. Watson para a agência Bloomberg [1]

Em um voo para Brasília, no ano passado, Jair Bolsonaro  levava na bagagem de mão pouca coisa além de dois pequenos pedaços de metal extraídos no Brasil: um era grafeno, usado em células solares; o outro era nióbio, que serve para reforçar o aço.Na época, ele disse que esperava exibí-los em uma entrevista na TV como prova da promessa da mineração para a atribulada economia do Brasil. Embora algumas das ideias do capitão da reserva tenham mudado ao longo do tempo, o desejo de Bolsonaro de liberar o potencial de mineração da Amazônia, a floresta tropical de 690 milhões de hectares localizada no coração da América do Sul, se manteve firme.

Agora ele está prestes a chegar à presidência, liderando as últimas pesquisas por dois dígitos, e a comunidade da mineração está salivando. “Olha, a gente está esperando há 30 anos”, disse Elton Rohnelt, que fundou algumas mineradoras durante a ditadura militar no Brasil, de 1964 a 1985, e foi colega de Bolsonaro na Câmara dos Deputados na década de 1990. Organizações não governamentais que “não querem mineração” impediram o desenvolvimento, disse Rohnelt, em entrevista por telefone. “O setor mineral do norte está todo aguardando que o governo brasileiro com Bolsonaro regulamente a situação”, disse, e que “diga qual é o caminho que tem que ser tomado”.

Bolsonaro ainda não definiu detalhes para o setor de mineração, e um porta-voz não deu retorno aos pedidos de comentários feitos por telefone e e-mail. Mas declarações passadas do candidato estão deixando ativistas em alerta.

Ele disse, por exemplo, que pode tirar o Brasil do acordo climático de Paris se isso significar sacrificar a soberania da Amazônia, cujo ecossistema é visto por muitos como de importância ecológica mundial. E criticou as agências ambientais do país por impedirem projetos promissores.

O plano de governo de Bolsonaro promete reduzir o tempo de espera para licenciamento de pequenas usinas hidrelétricas a um máximo de três meses, enquanto em alguns casos pode demorar uma década. Ele afirmou também que não destinará nem um centímetro a mais para reservas indígenas e que quer as populações nativas integradas à sociedade brasileira moderna.

Cerca de 30 por cento do território brasileiro é protegido, tanto para efeito de
conservação quanto para grupos indígenas, principalmente na Amazônia, segundo a Embrapa, uma organização de pesquisa agrícola administrada pelo governo.

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As opiniões de Bolsonaro refletem o mesmo caráter nacionalista que o coloca à frente nas pesquisas. Mas também trazem complicações subjacentes tanto para Bolsonaro quanto para o Brasil, e podem afetar grupos indígenas, derrubar mais de uma década de políticas ambientais e abrir uma cara campanha de construção em uma floresta tropical pouco acolhedora.

Ainda assim, pelas palavras de Rohnelt, desenvolver a Amazônia nunca foi tarefa fácil. Quando ele iniciou a prospecção de ouro na região, a falta de estradas o obrigava a explorar com helicópteros com seus colegas paraquedistas, disse. Guerrilheiros colombianos percorriam a floresta, obrigando-o às vezes a andar armado. Na década de 1990, Rohnelt foi colega de Bolsonaro na Câmara dos Deputados, e os dois eram amigos, disse. Mas não conseguiram aprovar uma regulação exigida pela constituição para a realização de atividades de mineração em territórios indígenas. Rohnelt disse que apoiou um projeto a respeito, em 1996, mas que ainda aguarda votação. Há outros 20 projetos pendentes para o setor.

Se Bolsonaro chegar à presidência, a dificuldade para fazer com que os parlamentares aprovem a mineração na Amazônia pode diminuir. O partido do candidato favorito conseguiu mais de 50 cadeiras na Câmara no primeiro turno das eleições, contra apenas oito atualmente, o que o transforma na segunda maior sigla da casa.

Embora os obstáculos legislativos restrinjam parte dos investimentos, a selva da
burocracia também desanima bastante. A empresa canadense Belo Sun Mining pretendia construir a maior mina de ouro do Brasil na Amazônia, mas no ano passado teve a licença suspensa quando a Fundação Nacional do Índio (Funai) afirmou que a empresa não havia realizado os estudos necessários. A Potássio do Brasil, um projeto de US$ 2 bilhões, tem quase uma década e sofreu diversos atrasos,segundo o presidente da empresa, Hélio Diniz.

Diniz diz que não tem candidato preferido. Mas reconheceu que o conhecimento militar pode ser útil para o desenvolvimento da Amazônia daqui para frente, e Bolsonaro prometeu nomear generais para alguns cargos ministeriais. “Temos tido muito apoio deles”, disse Diniz, por telefone. “Eles sabem que precisamos de desenvolvimento lá para ajudar as pessoas. Não apenas desenvolvimento do governo. Eles tiveram que levar empresas para lá.”

Outros líderes do setor têm reclamado que o excesso de zelo das autoridades judiciais complica os negócios desde o desastre do rompimento da barragem de rejeitos da Samarco Mineração, que matou 19 pessoas em 2015. A burocracia assola o setor de mineração nacionalmente, não apenas na Amazônia, disse Murilo Ferreira, ex-CEO da Vale, a maior produtora de minério de ferro do mundo e a única grande mineradora com presença considerável na Amazônia graças às reservas do Carajás.

Gigantes da mineração como Rio Tinto, BHP Billiton e Glencore têm presenças limitadas ou estão ausentes, disse Ferreira, por telefone. “As empresas têm tido muitas dificuldades”, o que significa que “procuram outros lugares onde a situação é muito mais fácil”, disse.

Houve um declínio significativo nos novos pedidos para pesquisa mineral, segundo João Orestes, secretário de planejamento e desenvolvimento do Estado do Amazonas, que supervisiona a mineração. Nas décadas de 1980 e 1990, a esfera local do órgão regulador da mineração recebia cerca de 2.000 solicitações por ano envolvendo três estados da Amazônia. Neste ano, receberam menos de 100, disse.

Os últimos três presidentes eleitos “nunca falaram em mineração, nunca consideraram importante”, disse Orestes por telefone. “Bolsonaro tem esse entendimento.” –

Com a ajuda de Flavia Said


Publicado originalmente em inglês [1]

The Guardian: nosso planeta não aguenta muito mais populistas como Jair Bolsonaro

Justamente quando a Terra precisa desesperadamente de líderes pró-meio ambiente, temos homens fortes pró grandes empresas. Há uma razão para essa ironia sombria

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Jair Bolsonaro durante uma coletiva de imprensa no Rio de Janeiro. Foto: Mauro Pimentel / AFP / Getty Images

Por Jonathan Watts para o “The Guardian” [1]

A menos que todas as pesquisas eleitorais estejam totalmente erradas, o Brasil provavelmente elegerá um racista, sexista, homofóbico e defensor da tortura no final deste mês. O ex-capitão do Exército Jair Bolsonaro quase venceu na primeira rodada, garantindo os votos de quase 50 milhões de pessoas – apesar de suas visões extremas serem bem conhecidas.

O que é menos bem compreendido, no entanto, são as implicações catastróficas para o meio ambiente de sua ascensão à beira do poder. E, nesse sentido, Bolsonaro não é único: em todo o mundo, a diminuição dos recursos está alimentando um aumento global de líderes autoritários dedicados a cumprir a ordem de alguns dos interesses mais nocivos ao meio ambiente do mundo.

Os resultados das eleições brasileiras foram anunciados no dia 8 de outubro – assim como os cientistas do clima estão emitindo seu mais dramático aviso de que a humanidade tem apenas 12 anos para reduzir as emissões ou sofrer as consequências do perigoso aquecimento global. Se os países não começarem a plantar árvores e cortar os combustíveis fósseis agora, disseram, então será impossível evitar um aumento de mais de 0,5ºC, o que erradicará completamente todos os corais do mundo e perturbará irreversivelmente os sistemas climáticos, provocando secas e inundações. e calor extremo que empurrará centenas de milhões para a pobreza.

A história nos diz que, quando os ambientes se deterioram, as sociedades recorrem a supostos homens fortes e fanáticos religiosos, em vez de líderes inteligentes e pragmáticos. Isso está acontecendo agora. Além das ditaduras da China, Rússia e Arábia Saudita, um número crescente de jovens democracias recaíram no autoritarismo: as Filipinas sob Rodrigo Duterte, a Turquia sob Recep Tayyip Erdoğan, o Egito sob Abdel Fattah el-Sisi e, em seguida, parece , Brasil sob Bolsonaro. E subjacente a isso é o estresse ambiental, que tem sido construído há mais de dois séculos. 

Começando na Grã-Bretanha, o modelo industrial do capitalismo de carbono tem extraído há muito tempo minerais e recursos orgânicos, e descarregando os resíduos no ar, mar e terra. À medida que mais nações se desenvolviam, exportavam seu estresse ambiental para o próximo país, subindo a escada econômica. 

Agora que esse paradigma está sendo replicado pelo país mais populoso do mundo, a China, há muito poucos lugares para absorver o impacto. A competição pelo que resta está crescendo. Então é violência e extremismo. Políticos de centro-terreno que uma vez conversaram animadamente sobre “soluções em que todos ganham” foram levados à margem. Ninguém acredita mais nisso. Os eleitores podem não ver isso em termos ambientais, mas conscientemente ou inconscientemente, eles sabem que algo está quebrado, que os ajustes não são mais suficientes. 

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Uma plantação de soja na floresta amazônica perto de Santarém, no Pará, norte do Brasil. Foto: Ricardo Beliel / LightRocket / Getty Images

Nos EUA, com o apoio massivo da indústria de combustíveis fósseis, Donald Trump minou a Agência de Proteção Ambiental, abriu trechos de parques nacionais para a indústria, cortou o controle da poluição e prometeu se retirar do acordo de Paris. Na Austrália, Malcolm Turnbull foi expulso do poder por seus colegas porque tentou cumprir as promessas de reduzir as emissões de carbono.  E agora no Brasil, os eleitores estão apoiando um político que prometeu tirar seu país do Acordo de Paris, abolir a principal agência do governo que combate o desmatamento e acabar com a demarcação de terras indígenas. Bolsonaro tem o apoio de líderes do agronegócio e da mineração, que estão esfregando as mãos de alegria com a perspectiva de uma Amazônia desnudada de suas maiores proteções. Os mercados – que são fortemente impulsionados pelas indústrias extrativas – também o amam.

O principal índice de ações e a taxa de câmbio do real subiram após a vitória na primeira rodada. Um editorial do Wall Street Journal endossou-o como um “populista conservador”. Tais políticos neofascistas não devem ignorados de forma bem humorada. Eles são os pistoleiros das indústrias que trabalham contra o Acordo de Paris e outros acordos internacionais que visam evitar novas catástrofes ambientais, que atingem os mais duramente os mais pobres. Seu “anti-globalismo” é, antes de tudo, anti-natureza e anti-futuro.

Uma abordagem de extração primeiro pode trazer benefícios econômicos a curto prazo, já que os amigos e doadores de campanha limpam mais florestas, abrem plantações e extraem mais minas – mas os lucros são concentrados enquanto o estresse ambiental é compartilhado. O grande medo que os cientistas do clima têm é que um planeta em aquecimento poderia criar laços de feedback que tornariam tudo muito pior. Mas não houve estudo suficiente de ciclos de feedback econômico e político.

Como a seca na China pressiona a Amazônia para produzir mais alimentos e limpar mais florestas. Ou quão poderosos os interesses comerciais escolherão um ditador sobre um democrata, se isso significar facilitar os controles ambientais que ameaçam sua capacidade de cumprir metas de crescimento trimestrais. Já estamos vendo um fosso crescente entre políticos e cientistas. Enquanto os últimos pedem uma ação climática mais ambiciosa, os primeiros sabem que receberão mais fundos de campanha se se opuserem aos cortes de emissões, apoiarem as indústrias extrativas e enfraquecerem os regulamentos de poluição. Não são apenas ditaduras. A Grã-Bretanha está avançando com o fracking, a Alemanha com carvão e a Noruega com exploração de petróleo. 

Em algum momento, os eleitores perceberão que o estresse ecológico está no centro dos problemas atuais do mundo. O momento Eureka! O momento pode ser quando a água cresce proibitivamente cara, ou as safras fracassam devido a ondas de calor sucessivas, ou a crise de refugiados desencadeia a guerra, mas em algum momento a fraqueza dos homens fortes será aparente, e as pessoas buscarão mudanças.  O perigo é que, então, pode ser tarde demais. Tanto o clima quanto a política terão ultrapassado um ponto crítico, levando ao caos social e à transformação de populistas em ditadores para toda a vida. 

Isso ainda não é inevitável, mas os riscos estão aumentando. O que ficou mais claro do que nunca é que a melhor maneira de evitar o colapso climático e ecológico é votar em líderes que fazem disso uma prioridade. Será impossível consertar a economia a menos que você primeiro conserte o ambiente. O instinto global para mudanças radicais está certo, mas a menos que isso seja voltado para a reconstrução ecológica, as democracias do mundo podem ser extintas antes dos corais.


Jonathan Watts é o Editor para Assuntos ligados ao Ambiente Global do jornal “The Guardian” e este artigo foi publicado originalmente em inglês [1]

 

Jair Bolsonaro no Pânico: a entrevista definitiva

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O candidato Jair Bolsonaro vem utilizando a tática de evitar debates diretos com o seu adversário, Fernando Haddad, usando várias alegações que vão desde problemas de saúde até opções estratégicas de não debater com um “poste”.
Essa tática está resultando numa novidade impressionante que é o fato de que desde 1989 esta corrida eleitoral é marcada pela inexistência de debates num segundo turno. Tal fato serve, acima de tudo, para obscurecer as diferenças programáticas e de capacidade entre os concorrentes. Colocadas juntas, essa situação implica num rebaixamento da democracia brasileira, pois fortalece a postura de que programas e capacidade de seus proponentes são irrelevantes para o eleitor fazer sua decisão.
Felizmente, estamos na era da internet onde determinados depoimentos e entrevistas aparecem como se fosse do nada para nos mostrar elementos que surgem quando os personagens são, digamos, colocados para fora da caixinha.
Este é o caso do vídeo abaixo que mostra uma participação de Jair Bolsonaro no programa Pânico em Abril de 2014 onde ele, sabe-se lá porque, fez várias admissões que hoje certamente gostaria de não ter feito (ver vídeo abaixo). Na prática, Poderoso (o entrevistador que é personificado pelo humorista Eduardo Sterblitch) fez aquela entrevista que poderia ser chamada de definitiva sobre quem é realmente Jair Bolsonaro.

Como se pode observar nas respostas, o mesmo candidato que produz um comunicado de que varrerá “os vermelhos” (leia-se aqui todos os que pensarem diferente dele) do Brasil está mais para fanfarrão do que para um líder que poderá tirar o nosso país do buraco em que fomos colocados pelas políticas emanadas do governo Temer, muitas das quais tiveram o voto a favor dele.

Financial Times faz matéria sobre soja e desmatamento no Cerrado

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A provável eleição de Jair Bolsonaro para presidir o Brasil traz entre muitas promessas o desmantelamento das estruturas de proteção ambiental visando, supostamente, abrir novos espaços para a agricultura em biomas ameaçados como o Cerrado e a Floresta Amazônica.   Mas quem pensa que isso acontecerá sem custos econômicos para o Brasil, de curto a longo prazo, está redondamente enganado, pois se confirmadas as ações para liberar o desmatamento, os produtos brasileiros tenderão a sofrer um forte boicote, especialmente na União Européia. Como os Estados Unidos da América são concorrentes e não parceiros comerciais na área de commodities agrícolas, também se engana que qualquer apoio do governo Trump a esse “liberal geral” vá amenizar os problemas que advirão da política de desmatamento livre, leve e solto.

Um sinal dessa questão é a matéria assinada pelos jornalistas Andres Schipani e Joe Leahy para o “Financial Times” onde eles abordam os problemas causados pelo avanço da fronteira da soja no bioma do Cerrado [1]. 

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A matéria está centrada na prerrogativa apontada pelos diversos atores que foram entrevistados para produzí-la de que já espaço suficiente para ampliar os plantios de soja, sem que haja a necessidade de desmatar ainda mais áreas de florestas. Essa é uma questão óbvia para quem tem um mínimo de conhecimento sobre a relação entre uso e cobertura da terra existente não apenas nas áreas cobertas por cerrado mas também na Amazônia [2].

O fato é que novos desmatamentos podem até ser feitos sob a alegação de que estão necessários para a abertura de novas áreas agrícolas, mas a verdade é que a remoção de áreas florestadas serve aos interesses daqueles que apostam na especulação financeira por meio do controle do ativo terra. Em outras palavras, desmatar é lucrativo porque permite que áreas antes ocupadas por florestas entrem na ciranda financeira.

Entretanto, um ponto que parece ser ignorado pelos dublês de latifundiários e especuladores do mercado financeiro é que já existe uma forte concordância sobre o papel central que a Amazônia e o Cerrado cumpre na regulação hídrica e climática não apenas no continente sul americano, mas em todo o planeta. Em função disso é que ninguém deva se surpreender se o Brasil passar a ser o foco de sanções econômicas e seus produtos agrícolas se tornarem alvos de barreiras cada vez maiores se, de fato, as barreiras de contenção ao avanço do desmatamento forem fragilizadas.

Só à guisa de exemplo, a Holanda foi condenada pela Corte de Haia por não atingir suas próprias metas de redução das emissões de carbono [3]. Imaginemos o que acontecerá com o Brasil se forem confirmadas as notícias de que o Ministério do Meio Ambiente será extinto e o processo de licenciamento ambiental será enviado de volta para a metade do século XX!  A questão central é que apesar de toda as eventuais resistências , o processo de responsabilização pela proteção das florestas, por causa da sua importância na regulação climática e hídrica da Terra, é um elemento chave nas decisões econômicas que estão sendo formuladas neste exato momento. Em outras palavras, quem apostar no desmatamento pode estar assinando seu próprio atestado de óbito.


[1]https://www.ft.com/content/c54abafe-ad30-11e8-8253-48106866cd8a?fbclid=IwAR3AEHf6VcNjIvS7dajtvuHYC8bnsel0ZTr4bkHLnL0fwj1xiCngnN2KgAg

[2] http://www.scielo.br/pdf/aa/v47n1/1809-4392-aa-47-01-00029.pdf

[3]  https://www.theguardian.com/environment/2018/may/28/dutch-government-appeals-against-court-ruling-over-emissions-cuts

Mídia global dá ampla repercussão ao financiamento ilegal de campanha envolvendo Jair Bolsonaro

Enquanto a mídia corporativa brasileira está tentando dar uma de “leão da montanha” em relação à descoberta de um esquema ilegal de financiamento de campanha em benefício da usina de “fake news” que foi utilizada para atacar a campanha de Fernando Haddad por empresários simpáticos a Jair Bolsonaro, a mídia internacional não está poupando tinta nas manchetes.

A repercussão está sendo tão grande que o caso está ocupando o topo dos chamados “trendings topics” do Twitter em nível internacional, e ameaça pior ainda mais a já péssima imagem que Jair Bolsonaro possui nos países desenvolvidos.

Abaixo mostro as matérias publicadas pelo The New York Times e Washington Post (EUA), El País (Espanha), Guardian e Telegraph (Reino Unido) e Público (Portugal).

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E que ninguém se surpreenda se a repercussão continuar aumentando, pois estes foram apenas os primeiros a repercutir o escândalo do financiamento ilegal de campanha que foi revelado pelo jornal Folha de São Paulo.

Tudo que sabemos sobre o “caixa dois digital de Bolsonaro”

Campanha do presidenciável usou doações de empresas para disparar mensagens em massa contra o PT via WhatsApp. Prática é proibida pela Justiça Eleitoral.

Foto: Pexels

Nesta terça-feira, a Folha de S.Paulo publicou uma reportagem em que revela que empresários pagaram milhões de reais para disparar mensagens em massa a favor de Bolsonaro no WhatsApp. A prática seria ilegal, já que consiste em doação de empresas para campanha, algo que é proibido pela Justiça Eleitoral. Pouco depois da publicação da matéria, a hashtag #CaixaDoisdeBolsonaro se tornou a mais citada em todo mundo pelo Twitter.

De acordo com o texto assinado pela jornalista Patrícia Campos Mello, o valor de cada contrato seria de R$ 12 milhões. Um dos doadores seria Luciano Hang, o dono da Havan, o mesmo que, conforme mostramos semanas atrás, coagia seus funcionários a votarem a favor do presidenciável pelo PSL.

A estratégia, mostra a Folha, é simples: empresários compram serviços de disparo em massa fornecidos por agências de estratégia digital como Quickmobile, Yacows, Croc Services e SMS Market. Elas cobram de R$ 0,30 a R$ 0,40 por mensagem enviada para sua base de usuários — fornecidas, muitas vezes, ilegalmente por empresas telefônicas ou de cobrança. Quando a base é fornecida pelo candidato, o valor é menor: R$ 0,08 ou R$ 0,12 por disparo.

Os funcionários dessas agências conseguem burlar as limitações impostas pelo WhatsApp. Eles dispõem de dezenas números com códigos de área de variados países e conseguem escapar dos filtros de spam para mandar mensagem a mais de 20 pessoas ou grupos. Eles também são capazes de segmentar os membros do grupo como “apoiadores”, “detratores” e “neutros”, tornando assim mais fácil de atingir cada um deles com conteúdos específicos. Muitas das mensagens, sugere a reportagem, era para destruir a reputação de Fernando Haddad e do PT.

A denúncia comprova o que já se desconfiava faz tempo: a campanha de Bolsonaro não é feita apenas por voluntários; é sim organizada e financiada por grupos de empresários.

A hipótese passou a ser ventilada depois que Steve Bannon, responsável pelo sucesso da campanha ancorada em notícias falsas de Donald Trump nos EUA, se ofereceu para ajudar a campanha de Bolsonaro, no ano passado. “Bannon se colocou à disposição para ajudar. O suporte é dica de internet, de repente uma análise, interpretar dados, essas coisas”, explicou Eduardo Bolsonaro à revista Época. As similaridades entre a campanha de Bannon nos EUA e de Bolsonaro no Brasil se mostraram muitas: revanchismo, culto à personalidade, apelos emocionais e proliferação de boatos que apelam para tabus relacionados à sexualidade.

Embora não seja possível afirmar até que ponto a influência de Bannon moldou a campanha digital de Bolsonaro, podemos dizer que o candidato de extrema-direita armou sua estratégia com antecedência. Como mostramos em reportagem, ele antecipou a brecha que o WhatsApp dava para notícias falsas. No começo de 2017, o deputado apresentou dois projetos de lei, ainda não aprovados na Câmara, que destoam da sua atividade parlamentar e que dão pistas muito interessantes sobre o que seria a campanha. Um deles diz que só juízes do STF podem derrubar aplicativos e redes sociais no Brasil, começando pelo WhatsApp. O outro impede as operadoras de oferecer planos de internet com dados limitados, o que impactaria usuários de aplicativos. Nos dois casos, a justificativa é a mesma: derrubar app na justiça ou cortar acesso aos dados do usuário são ameaça à livre circulação de ideias no Brasil.

Não se sabe por ora qual será consequência da denúncia desse “caixa dois” para Jair Bolsonaro. O certo é que essa não é a primeira acusação de uso indevido de dinheiro da campanha em relação ao candidato. Ele admitiu que seu partido em 2014, o PP, recebeu propina de R$ 200 mil da JBS. Bolsonaro afirma ter recebido o dinheiro diretamente em sua conta para, em seguida, em vez de devolver a JBS, mandar para o PP.

FONTE: https://www.vice.com/pt_br/article/43empg/tudo-que-sabemos-sobre-o-caixa-dois-digital-de-bolsonaro?utm_source=vicetwbr

#Elesim

A duas semanas da segunda volta das eleições presidenciais, o que no Brasil há de melhor tem de passar da fase #elenão para o tempo do #elesim.

O candidato à Presidência da República pelo PT, Fernando Haddad

Por Francisco Assis

Julgo que ao longo dos quase 30 anos da minha vida cívica e política nunca tinha sido apodado de comunista, vermelho ou apoiante do regime cubano. Pelo contrário, nos últimos anos os apodos que me atribuíram com mais frequência e ligeireza foram de natureza oposta. Esse tipo de rotulagens, apresentadas em tom pretensamente calunioso, nunca me causou qualquer tipo de perturbação. Contudo, as reacções suscitadas pelo artigo que aqui publiquei na semana passada (“Um Canalha à Porta do Planalto”) foram de tal ordem violentas que me impeliram a investigar, ainda que de forma ligeira, a natureza da discussão em curso no complexo mundo das redes sociais brasileiras.

O espectáculo que se me deparou releva do domínio da demência. Não estamos apenas diante da pavorosa preponderância das famigeradas fake news, que tanto relevo tiveram nas recentes eleições presidenciais norte-americanas. Estamos perante uma realidade muito mais tenebrosa, onde o delírio de acusações infames convive com a apologia de desvairadas soluções políticas, económicas e sociais. No Brasil estamos a assistir ao trágico desaparecimento do modelo moderno de um espaço público assente no primado da discussão racional, substituído por redes semi-privadas de exaltação e exploração dos instintos e dos afectos mais primários que existem no ser humano. O campo da argumentação finou-se, dando lugar a um palco de proclamações extremistas, dogmáticas e avessas a qualquer tipo de racionalidade dialógica. Bolsonaro é simultaneamente um autor menor e um produto maior desta angustiante situação.

Em muito pouco tempo, uma figura política irrelevante e praticamente marginal deu lugar a um potencial Presidente da República. Para isso contribuiu fortemente o mundo sórdido das redes sociais que acabei de descrever. Claro que isso não explica tudo. Bolsonaro só alcançou o inimaginável patamar em que hoje se encontra porque grande parte da direita social e política brasileira se revelou pouco comprometida com o modelo democrático. As redes sociais espelham de modo cristalino o caráter atávico das elites económicas e sociais daquele país. Essa é, talvez, a grande desilusão que o Brasil projecta presentemente no exterior. Era e é sabido que uma das questões mais complexas que afetava a sociedade brasileira residia na dificuldade de articular o respeito pelas regras fundadoras e enquadradoras de uma democracia política liberal com um nível de democracia econômica social e cultural capaz de proporcionar a plena integração das massas populares na vida pública nacional. Sabia-se isso, mas julgava-se que o problema estaria razoavelmente superado ao fim de três décadas de democracia. Infelizmente não está. O peso da tradição escravocrata, a permanência de um recalcamento amnésico em relação ao genocídio das populações indígenas, o lastro de processos de assimilação migratória pouco edificantes, parecem continuar a impedir o Brasil de olhar para o seu próprio futuro.

De uma certa forma, o Brasil atual parece permanecer mais próximo do Brasil ancestral do que da maior parte dos países europeus. Ali, as elites econômicas, sociais e culturais continuam a cultivar um distanciamento obsceno em relação aos sectores mais populares, arrastando consigo toda uma classe média bastante insegura, que vive obcecada com a salvaguarda de um estatuto social capaz de a diferenciar do imenso mundo da pobreza que pulula por todo o país. Sob a fantasia, amplamente propalada, de uma exemplar miscigenação étnica, subsiste uma sociedade profundamente racista. Não será mesmo exagerado afirmar que uma parte significativa desta sociedade permanece num estado pré-democrático, aceitando como naturais diferenças e hierarquias social e culturalmente construídas. Por isso mesmo, um país fervilhante no plano artístico, científico e cultural é também um país onde as classes dominantes manifestam comportamentos de um ridículo atroz e de um egoísmo repugnante. Basta cruzarmo-nos com alguns dos representantes dessas classes privilegiadas em qualquer aeroporto europeu ou norte-americano para imediatamente percebermos o grau de egoísmo e de frivolidade de que dão provas.

O povo brasileiro, criativo, imaginativo, dotado de um extraordinário sentido de humor, é afinal de contas muito mais interessante do que as suas atávicas elites. Dir-se-á que é esse mesmo povo que se prepara para eleger Bolsonaro para a Presidência da República. É verdade; o que nos remete para uma questão que tem acompanhado a história contemporânea da América Latina: como conceber um verdadeiro regime democrático pluralista, assente num Estado de Direito, num contexto sócio-econômico caracterizado pela prevalência de um sistema oligárquico rentista e de um grau de desigualdade de rendimentos económicos e de estatutos sociais incompatível com os valores da modernidade política ocidental? Sob a liderança de Fernando Henrique Cardoso, primeiro, e de Lula e Dilma Rousseff, depois, o Brasil estava a percorrer o caminho certo no sentido da superação desse trágico problema. Com maior ou menor dificuldade, com maior ou menor acerto, esse caminho ia produzindo resultados visíveis; por responsabilidades diversas, foi interrompido; importa, neste momento histórico, impedir a sua total anulação: ainda é possível salvar o Brasil, país do futuro.

A duas semanas da segunda volta das eleições presidenciais, o que no Brasil há de melhor tem de passar da fase #elenão para o tempo do #elesim. Está provado que nada se ganha pela negativa, pela simples invocação dos demônios, pela desconstrução dos perigos, por mais reais que eles sejam. O #elenão foi um extraordinário grito de revolta de milhares de mulheres incomodadas e assustadas com o criminoso discurso do candidato da extrema-direita. Agora é preciso ir mais longe. Haddad já demonstrou ter qualidades de inteligência, seriedade e serenidade suficientes para que em torno da sua figura se possa constituir um grande movimento de esperança e de confiança no destino da imensa nação brasileira. O mundo, por estes dias, está de olhos postos no Brasil. E se nesse olhar há preocupação, há também confiança. Nos próximos quinze dias, #elesim vai ser o grande slogan mobilizador de todas as consciências democráticas espalhadas por esse mundo fora.

Artigo originalmente publicado [Aqui!]

*Francisco Assis é deputado do Partido Socialista de Portugal no Parlamento Europeu

Católicas com o dedo no gatilho colocam em xeque autoridade do Papa Francisco

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Em uma audiência geral realizada no dia de hoje no Vaticano, o Papa Francisco advertiu que o insulto, desprezo ou sentimento de ódio contra outra pessoa, especialmente se ele é um irmão, já é uma forma de assassinato [1]. Em seu pronunciamento, Francisco afirmou ainda que no Evangelho, Jesus apresenta uma nova perspectiva sobre este mandamento, disse o papa. De fato, Jesus ensina que “antes do tribunal de Deus, até a ira contra um irmão é uma forma de assassinato”. O apóstolo São João também escreveu: “Quem odeia seu próprio irmão é um assassino”.

Ironicamente o dia de hoje foi marcado por uma inusitada manifestada manifestação de funcionárias da Arquidiocese do Rio de Janeiro que aproveitaram uma visita de Jair Bolsonaro ao o arcebispo do Rio, dom Orani Tempesta, para produzir uma das cenas mais inusitadas da já muito inusitada campanha eleitoral, ao posarem para fotógrafos fazendo sinais de armas de fogo com as mãos diante de uma imagem de Jesus Cristo ( ver imagem abaixo) [2] .

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O inusitado não fica por conta da pose com o sinal de arma de fogo, coisa que já mostrei aqui ocorrendo em templos protestantes. O inusitado fica por conta disto ter sido feito em frente de uma imagem de Jesus Cristo na sede do poder católico na cidade do Rio de Janeiro, uma das mais violentas do mundo.

Além de ser inusitada, esta cena deverá ter um custo político para dom Orani Tempesta junto ao Papa Francisco que, objetivamente, teve sua autoridade colocada em xeque pelo gesto das funcionárias da Arquidiocese.  É que não se pode esquecer que a estrutura da Igreja Católica, em que pesem suas muitas clivagens ideológicas, está alicerçada em torno da autoridade papal.  Como Francisco não é um papa que não costuma tomar esse tipo de desvio de forma, digamos, contemplativa, as repercussões deverão ser inevitáveis. A ver!


[1] https://www.aciprensa.com/noticias/el-insulto-y-el-desprecio-son-formas-de-asesinato-advierte-el-papa-francisco-91844

[2] https://noticias.uol.com.br/politica/eleicoes/2018/noticias/2018/10/17/de-olho-em-voto-catolico-bolsonaro-assina-compromisso-com-arcebispo-do-rio.htm

Futuro da Amazônia sobre grave risco

Artigo no “New York Times” alerta sobre os impactos da vitória de Jair Bolsonaro sobre florestas e povos tradicionais

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O jornal estadunidense “The New York Times” publicou hoje um artigo assinado pela jornalista especializada sobre questões relacionadas ao clima da Terra, Somini Sengupta, onde é assinalado que o futuro da floresta Amazônica deverá ser uma das principais vítimas da vitória de Jair Bolsonaro no segundo turno das eleições presidenciais de 2018 [1].

times sengupta

Somini Sengupta lembrou aos leitores do “New York Times” que Bolsonaro que durante a atual campanha, Bolsonaro prometeu patrocinar o poderoso setor de agronegócio de seu país, que busca abrir mais florestas para produzir a carne bovina e soja que o mundo exige.  Ela lembrou ainda que Bolsonaro já aventou  a possibilidade de sair do Acordo Climático de Paris.  Sengupta aponta que mesmo que Bolsonaro não cumpra esta meta, suas promessas de campanha podem ter conseqüências terríveis para a Amazônia e, portanto, para o resto do planeta.  É que estendendo-se por dois milhões de quilômetros quadrados, a maior parte no Brasil, a Amazônia atua como um gigantesco sumidouro para as emissões de dióxido de carbono que o mundo como um todo produz.

Além disso, o artigo lembra que Bolsonaro disse que vai descartar o Ministério do Meio Ambiente, que tem o mandato de proteger o meio ambiente, e, ao invés disso,  colocar as questões ambientais sob a autoridade  do Ministério da Agricultura,  uma opção que tende a favorecer os interesses daqueles que convertem florestas em terras agrícolas.

Segunda lembra Segunpta, ainda que  Bolsonaro rejeita a ideia de separar as terras cobertas por florestas para os povos indígenas que  há séculos vivem na Amazônia, prometendo que “não haverá um centímetro quadrado demarcado como uma reserva indígena” se ele for eleito.

A jornalista lembra que estudos recentes mostram que as reservas florestais controladas por povos indígenas em muitos países fornecem algumas das melhores defesas contra o desmatamento.  Mas ela aponta que Bolsonaro vê outros usos da floresta. “Onde há terra indígena”, ele disse, “há riqueza debaixo dela”. Segunda aponta que, de fato, muito antes de Bolsonaro declarar sua candidatura à presidência, o Brasil estava recuando em suas políticas ambientais.  Políticos de esquerda têm tido cada vez menos voz  para reivindicar recursos em terras indígenas, por exemplo,  mas que a demarcação de reservas diminuiu com a ex-presidente Dilma Rousseff, enquanto as taxas de desmatamento começaram a subir paulatinamente. Além disso, uma recessão incapacitante também causou danos, resultando na redução drástica do financiamento para o Ministério do Meio Ambiente. 

Em conclusão, Sengupta lembrou ainda que uma análise feita por cientistas brasileiros descobriu que se as atuais tendências ambientais continuarem no país, o Brasil não cumprirá suas metas de redução de emissões sob o Acordo de Paris. E a Global Witness, em colaboração com o jornal The Guardian, considerou o Brasil o lugar mais letal para os defensores dos direitos ambientais.

De minha parte, lembro que em 2003 escrevi um artigo logo após uma visita do ex-presidente Lula onde ele fez uma série de considerações sobre o que seria depois chamado de “Neodesenvolvimentismo” e de suas repercussões para a floresta amazônica. Disse naquele artigo que nas declarações de Lula estava antecipada mais uma morte anunciada da Amazônia em função do que poderia ser a retomada de uma visão desenvolvimentista na década de 1950. 

Quinze anos depois me vejo defrontado não com a possibilidade de retorno a 1950, mas ao início do Século XVI quando os portugueses chegaram inicialmente às costas da Bahia. É que a visão não apenas de Bolsonaro mas também dos generais que o assessoram assemelha-se ao que o pesquisador estadunidense denominou de paradigma da “Economia de Fronteira” [2].  Com base nesse paradigma não estarão ameaçadas as florestas amazônicas, mas principalmente os povos indígenas e comunidades tradicionais que vivem no seu interior e margens. Esses serão vítimas inevitáveis do avanço de madeireiros, garimpeiros e latifundiários que se sentirão livres para pilhar tudo o que for possível, antes que qualquer medida possa ser tomada para contê-los.

Meus quase 20 anos de experiência com trabalhos de campo em diferentes partes da Amazônia brasileira não deixam dúvidas que teremos um avanço inédito nas mortes de membros dos povos tradicionais e de lideranças ambientais. E, claro, um aumento explosivo nas taxas de desmatamento e degradação nas florestas amazônicas. Os custos sociais, econômicos e ambientais dessa aplicação da “Economia de fronteiras”  serão altíssimos. Não tenho dúvidas ainda de que caso esse cenário seja confirmado, o Brasil passará a ser tratado com um pária pela maior parte dos países com que hoje comercializa suas commodities agrícolas e minerais. É que, a despeito da economia demandar os produtos brasileiros, a geopolítica ditada pelas mudanças climáticas que estão em curso tornarão inevitáveis a aplicação de medidas punitivas contra o Brasil.


[1] https://www.nytimes.com/2018/10/17/climate/brazil-election-amazon-environment.html?action=click&module=Discovery&pgtype=

[2]  https://pdfs.semanticscholar.org/a009/5c7512bef739455a6980a73ca52d458a7d6c.pdf